22 março 2006

A poesia é para todos os dias

Não podia deixar de felicitar a direcção da Antena 1 por, no Dia Mundial da Poesia, ter tomado a louvável iniciativa de dar oportunidade a poetas novos de dizerem os seus próprios poemas. Congratulo-me que sob a direcção de Rui Pêgo a rádio pública esteja mais atenta ao calendário do que esteve durante o consulado do seu antecessor. Aconteceu agora com a poesia, mas já havia reparado que não foi deixado passar em vão o dia em que passaram 19 anos sobre a morte de José Afonso. Já tive a oportunidade de aqui abordar a situação de penúria de poesia que se verifica nas actuais grelhas da rádio pública, pelo que acolhi com regozijo a iniciativa. Agora só espero é que a direcção da RDP não se restrinja a assinalar uma data e no resto do ano tratar a poesia como um parente pobre no serviço público. Pessoalmente, não levo muito a sério os dias disto e daquilo porque reparo que os mesmos são aproveitados pelos vários poderes para comemorações de circunstância e depois tudo regressa ao mesmo. São datas que as instituições utilizam porque é politicamente correcto e, no fundo, para salvarem a face pelo que não fazem nos restantes 364 dias do ano. A poesia é para qualquer dia, é para quando nos apetecer, sendo que se torna irrelevante que alguém tenha escolhido o 21 de Março para o seu dia. O importante é que haja uma filosofia consistente e continuada no cultivo da poesia (e das outras artes) ao longo do ano. Porque a poesia faz parte da nossa vida e ficamos mais pobres se nos limitarmos a dar-lhe atenção apenas no dia em que começa a Primavera. «Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.», dizia a grande Natália Correia. Presumo que Rui Pêgo não goste de ser chamado de “subalimentado do sonho” e, como tal, espero que tenha o bom senso e o bom gosto de dar à poesia (e ao teatro) uma presença digna na rádio pública. Por exemplo, por que motivo a excelente rubrica "Os Sons Férteis", da Antena 2, não é repetida em vários momentos do dia, em vez de passar unicamente às 11 horas da manhã? Isto, claro está, sem prejuízo de voltar à antena um espaço semanal mais alargado como o que foi feito até meados de 2005 pela jornalista Alexandra Lucas Coelho.

1 comentário:

Carlos Jorge disse...

Se acho bem lembrar e incluir poesia na programação das rádios, devo também referir que, por vezes, no afã de cumprir tal desiderato, se "assassina", autenticamente, textos interessantes. De facto, trata-se de "artes" diferentes, frequentemente confundidas - escrita e leitura. E como, ao pretender-se comunicar através da palavra dita, se pretende criar "emoção" - objectivo de qualquer manifestação artística - há que salvaguardar a eficácia da leitura. Da mesma forma que uma má orquestra compromete, irremediavelmente, a sinfonia, também o mau leitor (diseur?) remete o texto para a categoria da mediocridade.

Abraço

Carlos Jorge