Lançado em Janeiro de 1965, integrando a colecção "Cancioneiro Vértice", da revista "Vértice", o livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre, não tardou a ser apreendido pela PIDE, passando a figurar no índex dos livros proibidos pela ditadura salazarista. No entanto, quando a polícia política chegou às livrarias já poucos exemplares encontrou. A maioria dos exemplares dessa primeira edição já fora distribuída de mão em mão ou enviada pelo correio aos adquirentes. Antevendo-se a proibição, o livro já tinha seguido o seu caminho de resistência, passando a circular clandestinamente em cópias improvisadas (copiografadas, dactilografadas e até manuscritas).
José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luís Cília tiveram o privilégio de serem os primeiros a cantar poesia de "Praça da Canção" ainda antes do livro ser uma realidade, por deferência do autor, mas foi de uma dessas cópias clandestinas que outros compositores se serviram para musicar a poesia alegriana, fazendo dela canção. Um deles foi Manuel Freire, conforme o próprio confessou a Maria Leonor Nunes para um artigo do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias" evocativo do cinquentenário da primeira edição [cf. http://www.manuelalegre.com/], no caso concreto das baladas "Pedro, o Soldado", "Trova do Emigrante" e "Trova", incluídas nos discos EP "Dedicatória" e "Trovas, Trovas, Trovas", editados em 1968.
Em 1969, aproveitando o abrandamento repressivo trazido pela chamada Primavera Marcelista, a Editora Ulisseia atreveu-se a publicar uma nova edição, tendo alguns poemas sido bastante modificados pelo autor, presumimos que não tanto por medo da Censura mas mais por insatisfação com os textos originais. Terá sido muito provavelmente um exemplar desta segunda edição que Alain Oulman leu e o motivou a musicar algumas estrofes de três poemas, que Amália veio a gravar com os títulos "Trova do Vento que Passa", "Abril" e "Meu Amor É Marinheiro" [o quarto poema de Manuel Alegre presente na discografia amaliana, também com música de Alain Oulman, intitula-se "As Facas" e foi extraído do volume "Coisa Amar (Coisas do Mar)", de 1976].
De "Abril", adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril" [vide abaixo os textos tal como figuram nas duas primeiras edições], cujo original Manuel Alegre escreveu nos Açores ou em Angola, onde cumpria o serviço militar, existem duas gravações amalianas publicadas em disco: uma realizada em 1973, que teve a primeira aparição pública em 1997 no CD "Silêncio", e outra, executada três ou quatro anos mais tarde, que saiu no LP "Cantigas numa Língua Antiga" (1977). Escolhemos a publicada em 1997 para celebrar o Dia da Liberdade, neste ano do centenário do nascimento de Amália.
O país de Abril que o poeta procurava na pátria amada, tristemente amordaçada e oprimida, só emergiu cerca de uma década mais tarde, desconhecendo-se se tal iria acontecer precisamente no mês de Abril (era provável que fosse na Primavera, mas poderia ser em Março, Maio ou Junho) mas um acaso da História teve o bendito condão de conferir ao poema um cunho profético. Presentemente, volvidos 46 anos sobre a Revolução dos Cravos, a emblemática flor encontra-se vergada sob o efeito de ventos hostis, originados por uma nefanda pandemia vírica, e mesmo que a ciência descubra uma vacina ou um medicamento antiviral, a crise económica e social será inevitável e severa. A resistência do cravo será posta à prova, competindo a todos quantos não abdicam da Liberdade e prezam os valores de Abril zelar para que a haste não quebre e, melhor ainda, volte a adquirir o aprumo que já teve!
Neste país que o poder político quer fazer crer que ainda é de Abril e, nessa conformidade, supostamente democrático e pluralista, há uma rádio, por sinal sob a alçada estatal – a Antena 1 –, que se não tem coibido de praticar a mais ignóbil censura. Atente-se na 'playlist' que vem sendo reiteradamente usada para silenciar uma vasta galeria de categorizados artistas portugueses, entre os quais se contam, além dos supracitados José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luís Cília e Manuel Freire, a maior embaixatriz da cultura portuguesa além-fronteiras, Amália Rodrigues, a qual nem no ano do seu centenário é possível ouvir fora daquele gueto esconso depois da meia-noite de domingo chamado "Alma Lusa".
Abril
Poema: Manuel Alegre (excerto adaptado do poema "A Rapariga do País de Abril") [texto original >> abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (1973, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997)
Habito o sol dentro de ti,
descubro a terra, aprendo o mar;
por tuas mãos, naus antigas, chego ao longe
que era sempre tão longe, aqui tão perto.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruto. Meu navio.
Este navio onde embarquei
para encontrar, dentro de ti, o país de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza,
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava quem eras.
Meu amor, por ti cantei. E tu me deste
um chão tão puro: algarves de ternura.
Por ti cantei à beira-terra, à beira-povo
e achei achando-te o País de Abril. [bis]
* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – 1.ª guitarra portuguesa
Carlos Gonçalves – 2.ª guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1973
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997
A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [1]
(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965 – p. 64-65)
Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.
Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando uma flecha azul atravessava as noites
e eu perguntava atónito quem eras.
Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.
E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o meu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.
Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.
Mulher por ti cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei achando-te o País de Abril.
A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL [II]
(Manuel Alegre, in "Praça da Canção", 2.ª edição, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969 – p. 88-89)
Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.
Por ti eu me perdi eu me encontrei
por ti que eras ausente e tão presente
por ti cheguei ao longe aqui tão perto.
E achei achando-te o País de Abril.
Capa da 1.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Organização da edição – Ivo Cortesão
Capa da 2.ª edição do livro "Praça da Canção", de Manuel Alegre (Col. Poesia e Ensaio, Lisboa: Editora Ulisseia, 1969)
Concepção – Espiga Pinto
Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Fotografia – Charles Ichaï
Design – Fátima Rolo Duarte
INSTITUTO INTERNACIONAL DO TEATRO
DIA MUNDIAL DO TEATRO – 27 DE MARÇO DE 1993
MENSAGEM INTERNACIONAL DE EDWARD ALBEE
Será que o mundo se torna um lugar cada vez mais estranho à medida que o tempo passa? Penso que sim, e sei que é assim que ele se me afigura. Tenho é de descobrir se isso é obra de um absoluto, ou mero fruto da minha visão deformadora: vislumbres de sageza a par de sinais de declínio. E direi mesmo que quando começar a fazer-se luz sobre as respostas, eu já não saberei por que me preocupo.
Todavia, é uma pergunta que continua a remoer.
Que havemos de fazer, por exemplo, para contrariar a inércia, para sair do imobilismo que recomenda dois passos em frente como resposta a dois passos atrás? Sempre que um totalitarismo cai, sob o seu próprio peso morto, há uma democracia nascente que prova ser ilusória. A todos os actos generosos parecem contrapor-se outros tantos de crueldade e ganância. Sabemos – ou saberemos algum dia – qual é a verdadeira natureza do homem: se de senhor feliz da sua liberdade, se de escravo conformado e até mesmo solícito?
Inventámos a arte – desenvolvemo-la, se quiserem – para nos explicarmos a nós próprios, para dar à nossa consciência ordem, clareza e talvez também um sentido. Descobrimos, afinal, que a arte, para merecer esse nome, tem de ter útil e não só decorativa; tem de, na sua inoperância (a arte não muda nada?), mudar tudo.
Podemos abolir por decreto todos os governos do planeta – bem, podemos tentar; podemos libertar-nos de todo o controlo de pensamento imposto de fora – bem, podemos tentar; e, contudo, ainda ficaríamos com a censura mais implacável de todas: a auto-censura das pessoas que não querem (ou receiam) dar os passos decisivos e aterradores para uma completa auto-consciência.
A arte pode ajudar-nos nessa caminhada, e, se não permitirmos que ela nos anime e impulsione, jamais nos libertaremos das cadeias que nos amarram e cegam.
Já estive em sociedades totalitárias em que pessoas foram presas e morreram por quererem aceder à arte, e vivo numa sociedade em que a auto-censura é tão implacável como outra qualquer imposta de fora. O paradoxo é mais horrendo do que poderíamos admitir.
O teatro, pela sua imediatez e porque acontece no presente (em oposição ao filme que sempre aconteceu já – o que faz com que os seus excessos pareçam inofensivos), o teatro está numa posição privilegiada para fazer com que tudo aconteça, para nos tornar insatisfeitos com a segurança e com a previsibilidade, com tudo aquilo que não modifica a nossa visão das coisas.
Lembremo-nos disto no Dia Mundial de Teatro. Lembremo-nos que os limites do teatro são apenas os que nós lhe impomos... os limites que impomos a nós próprios.
EDWARD ALBEE (trad. Maria Helena Serôdio, da
Associação Portuguesa de Críticos de Teatro)
Passaram 27 anos e esta mensagem do insigne dramaturgo norte-americano não perdeu uma pitadinha de actualidade. O mundo vem-se tornando, de facto, um lugar cada vez mais estranho e desconcertado, devido a múltiplos factores, sendo que os antropogénicos se revelam preponderantes. Bastará apontar as alterações climáticas, em resultado da utilização massiva e continuada de combustíveis fósseis, e as repercussões maléficas que já se fazem sentir na vida de muita gente, principalmente em países do chamado Terceiro Mundo.
De entre todas as artes, o teatro é aquela que, de modo mais imediato e incisivo, nos pode acordar do marasmo e, como escreve o autor de "Quem Tem Medo de Virginia Woolf?", modificar a nossa visão (estabelecida e comodista) das coisas. E se o teatro é imprescindível – ao homem livre e mentalmente não entorpecido por ideias feitas – em tempos considerados normais (se é que tempos normais alguma vez houve na História da Humanidade), mais aguda e pertinente se revela a sua importância quando surgem momentos de crise e de disrupção, como o presente em que as salas de teatro (e de outros espectáculos) tiveram de fechar, como medida profiláctica contra a disseminação da pandemia do COVID-19, e milhões de pessoas estão confinados aos seus domicílios. Numa situação destas, o que fazer para que os (potenciais) espectadores não cessem de fruir a arte de Talma, até como preventivo à insanidade mental? Algumas companhias perceberam logo que a internet era a via a seguir e já estão a usar esse meio para possibilitarem ao público teatrófilo o acesso ao seu trabalho, seja peças gravadas seja produções em directo.
E o que estão a fazer os meios de comunicação social tradicionais: a rádio e a televisão? Quase nada. Na rádio do Estado, e uma vez que aquela coisa manhosa e entediante a que deram o nome de "Teatro sem Fios" não pode considerar-se, em rigor, teatro radiofónico, e tendo sido eliminado o espaço "Memória" (medida deveras descabida e absurda), o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], de João Pereira Bastos, tem sido o único e honroso reduto a dar guarida ao teatro do imaginário, mediante o resgate de registos do arquivo histórico. Mas dado que o âmbito do programa, como o seu nome deixa entender, não é somente o teatro mas a generalidade das artes de palco, a transmissão de peças declamadas não pode ter a frequência desejada e necessária. Portanto, urge que, num horário fixo que poderá ser diário (porque não?) ou semanal, a Antena 2 passe a fazer a reposição das centenas e centenas de peças de teatro radiofónico existentes no arquivo histórico (mormente as mais antigas, já que os ouvintes menos veteranos nunca as ouviram).
Escusado será dizer que os outros canais da estação pública, mormente a Antena 1, não devem ficar alheados da oferta de teatro aos seus ouvintes, atendendo às obrigações culturais que também têm. É tudo uma questão de se saber escolher o repertório mais recomendado ao perfil dos respectivos auditórios.
Negrilho (Ulmus minor): árvore caducifólia de grande porte, da família das Ulmáceas, pode atingir mais de 20 metros de altura e apresenta tronco grosso com casca áspera, copa ampla com folhagem densa e ramos finos, folhas simples e ovadas de margens serradas, flores esverdeadas ou avermelhadas e sâmaras quase sésseis, sendo também conhecida por lamegueiro, mosqueiro, olmo, ulmeiro, etc.. [in Infopédia]
Mais informação em: http://www.florestar.net/negrilho/negrilho.html
Neste tempo de pandemia do terrífico coronavírus COVID-19 e de reclusão domiciliária em que se encontram milhões de pessoas, por determinação das mais altas autoridades político-sanitárias, um dos estratagemas mais válidos para mitigar a ansiedade e a angústia é a leitura e/ou audição de poesia, quer recitada quer cantada.
Neste Dia Mundial da Poesia que é também o Dia Mundial da Árvore apresentamos o poema "A um Negrilho", de Miguel Torga, dito pelo autor. O texto foi escrito na aldeia natal, S. Martinho de Anta, no concelho de Sabrosa, a 26 de Abril de 1954, e primeiramente publicado em 1956, no volume VII do seu "Diário". O registo fonográfico aconteceu em meados de 1987, para fazer parte do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas", editado no mesmo ano, assinalando o 80.º aniversário do nascimento do poeta. A reedição do álbum em disco compacto deu-se em 1995, o ano da morte. Há já um quarto de século que o autor de "Orfeu Rebelde" não se encontra fisicamente entre nós, mas perdura na memória daqueles que com ele conviveram e em todos quantos se alimentam da sua obra: a poética e também a narrativa, mormente os contos que formam os livros "Bichos" e "Contos da Montanha", cuja leitura recomendamos vivamente.
No que concerne à poesia na rádio pública, temos na Antena 2 as rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], ambas realizadas por Luís Caetano (e aproveitamos para enaltecer, uma vez mais, este profissional da nossa rádio), mas nada existe nas Antenas 1 e 3. Porquê? No caso do primeiro canal da rádio do Estado, a ausência de um apontamento de poesia recitada é particularmente censurável, atendendo à boa tradição que o canal teve nesse capítulo desde os seus primórdios e que se manteve até 2003, quando terminou a memorável rubrica "À Esquina do Mundo", de António Cardoso Pinto, consagrada à poesia compilada na monumental antologia "Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro" (Assírio & Alvim, 2001). A lacuna de poesia dita na Antena 1 torna-se ainda mais gritante em face da indigência poética da esmagadora maioria das cançonetas que escolheram para preencher a 'playlist', deixando de fora tanta e boa poesia cantada que até hoje se gravou na língua de Camões.
A um Negrilho
Poema de Miguel Torga (in "Diário VII", Coimbra: Edição do autor, 1956; "Poesia Completa", Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 519)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
Na terra onde eu nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954
* Miguel Torga – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 30 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (edição em CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
URL: http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/mtorga.html http://purl.pt/13860/1/miguel-torga.htm
Capa do duplo LP "Miguel Torga: 80 Poemas" (EMI-VC, 1987)
Fotografia – Manuel Cardoso
Concepção – Fátima Rolo Duarte
Claude Monet, "Printemps" ("Primavera"), 1886, óleo sobre tela, 65 x 81 cm, The Fitzwilliam Museum, Cambridge, Inglaterra
Para assinalar a chegada da Primavera de 2020 que um maldito vírus pneumónico, oriundo das partes do Oriente, veio tornar funesta, e estando a decorrer as comemorações do centenário do nascimento de Amália Rodrigues, não podia vir mais a propósito o fado "Primavera", uma das mais admiráveis criações amalianas. Das quatro gravações que a diva fez deste fado – três em estúdio (1951, 1965, 1966) e uma ao vivo (1955) –, escolhemos a de 1965, que permaneceu inédita até ao Outono de 1997, altura em que saiu no CD "Segredo", voltando a ser publicada, em 2011, na compilação "Amália canta David". Os versos desencantados de David Mourão-Ferreira, a música pungente de Pedro Rodrigues e a superlativa interpretação de Amália, apoiada no lendário Conjunto de Guitarras de Raul Nery, fazem deste espécime uma pérola do mais alto quilate do repertório do fado e da música portuguesa em geral.
Sendo certo que uma intérprete da dimensão de Amália nunca devia deixar de receber o mais desvelado tratamento da parte da rádio pública do seu país, era expectável e justíssimo que neste ano de celebração fosse redobrada a atenção dada ao seu legado fonográfico, ademais tendo vindo a lume novas edições contendo gravações inéditas. Atentamos na 'playlist' da Antena 1 e a voz de Amália não aparece. Como explicar tamanha monstruosidade?
Primavera
Poema: David Mourão-Ferreira
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Amália Rodrigues* (1965, in CD "Segredo", EMI-VC, 1997; CD "Amália canta David", Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Todo o amor que nos prendera,
como se fora de cera,
se quebrava e desfazia.
Ai funesta Primavera, | bis
quem me dera, quem nos dera |
ter morrido nesse dia! |
E condenaram-me a tanto:
viver comigo o meu pranto,
viver, viver... e sem ti!
Vivendo sem, no entanto, | bis
eu me esquecer desse encanto |
que nesse dia perdi... |
Pão duro da solidão
é somente o que nos dão,
o que nos dão a comer...
Que importa que o coração | bis
diga que sim ou que não, |
se continua a viver? |
Todo o amor que nos prendera
se quebrara e desfizera,
em pavor se convertia.
Ninguém fale em Primavera! | bis
Quem me dera, quem nos dera |
ter morrido nesse dia! |
* Amália Rodrigues – voz
Conjunto de Guitarras de Raul Nery:
Raul Nery – 1.ª guitarra portuguesa
José Fontes Rocha – 2.ª guitarra portuguesa
Júlio Gomes – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1965
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Coordenação do projecto (para a edição do CD "Segredo") – Manuel Falcão e Jorge Mourinha
Produção – Rui Valentim de Carvalho
Assistente de produção – Inês Penalva
Misturas e restauro digital – Hugo Ribeiro, João Martins e Raul Ribeiro, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Setembro de 1997
Masterização – Julius Newel, no estúdio Mission Control, Lisboa, em Outubro de 1997
Capa do CD "Segredo", de Amália Rodrigues (EMI-VC, 1997)
Fotografia – Charles Ichaï
Design – Fátima Rolo Duarte
Capa do CD "Amália canta David" (Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2011)
Design gráfico – Roda Dentada
Pós-produção de imagem – Mackintóxico
«Um dia, parto, assim, sem despedida / Entre memórias e cantos partilhados», escreveu Pedro Barroso no poema "Epitáfio", primeiramente publicado, na forma dita, no livro/CD "Palavras Mal Ditas", de 2013, e novamente publicado, já musicado e cantado, no álbum "Palavras ao Vento", lançado a 14 de Abril de 2014. O poeta, compositor e intérprete partiu na noite da pretérita segunda-feira, mas teve tempo de se ir despedindo do seu público, ante o gradual avanço da doença oncológica que o atingira. O último concerto, assinalando os 50 anos de música e palavras, aconteceu a 21 de Dezembro de 2019, no Teatro Virgínia, de Torres Novas, parte do qual a Antena 1 transmitiu ontem, após o bloco de anúncios que se seguiu ao noticiário das 22:00. O canal generalista da estação pública esteve bem, mas a completa ausência de repertório de Pedro Barroso na actual 'playlist' é de todo incompreensível e falha de razoabilidade, atendendo às inalienáveis e particulares obrigações da rádio estatal no campo da música portuguesa, mormente naquela que tem a assinatura dos mais categorizados cantautores. Uma situação que se afigura ainda mais absurda se atendermos ao facto de alguns dos últimos álbuns do artista, como foi o caso deste "Palavras ao Vento", terem recebido o rótulo "Disco Antena 1".
Aqui apresentamos o epitáfio poético-musical de Pedro Barroso, à laia de prólogo a uma homenagem mais ampla que tencionamos render-lhe brevemente.
Epitáfio
Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Palavras ao Vento", Ovação, 2014)
Que do céu tombassem violinos
Decidindo por nós, gente maior,
Na forma, no projecto e na ideia,
No fazer sempre mais, sempre melhor!
Que o povo alcançasse em sentimento
Sempre a classe mais alta do poema
E a vida fosse mais que este momento
Entre farrapos de nada e alfazema!
Que a vida fosse alma e fosse vinho,
Fosse vento nas searas ondulantes
E orgasmos de prazer e rosmaninho
E luxo e sonho e fúria a cada instante!
E oceanos de espuma nos levassem
Cavalgando o desespero de partir!
E tudo fosse simples e elevado
Como um prado orvalhado no sentir!
[instrumental]
De tudo, tanto que eu acreditei
Tantos anos de espera convertida,
Sobra um sabor de que nada aconteceu
Pelas regras que devia haver na vida.
Por isso, um dia, parto, assim, sem despedida
Entre memórias e cantos partilhados.
E este excesso fabuloso sem ter fim
Vai comigo, fiquem, disso, descansados.
Sobrará de mim, talvez, fraca memória,
Esta luxúria da vida, alguns recados,
Este modo amordaçado de sorrir
E uma montanha de amores nunca alcançados.
Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.
Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!
[instrumental]
Espantosamente, como é qu'inda deixo sonhos?
Mais que o dobro dos feitos consumados!
Só não deixo meias-tintas nem favores,
Nem regras, nem peias, nem pudores.
Deixo excessos, truculências e humores.
Mas virtudes?! Nem pensar! Tudo pecados!
* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, viola, piano, metalofone e adufe
Susana Castro Santos – violoncelo
Manuel Rocha – violino
David Coelho – piano
Luís Petisca – guitarra portuguesa
Abel Moura – acordeão
Miguel Carreira – viola e acordeão
Ensemble Ribatejo – trompas
Paula Rego, "Amor", 1995, pastel sobre papel montado em alumínio, 120 x 160 cm, Casa das Histórias Paula Rego, Cascais (Inv. P44 DEP)
Mulheres que além das lides domésticas exerciam actividades manuais remuneradas para proverem ao seu sustento e ao da família sempre existiram. Refira-se, a título de exemplo, as trabalhadoras rurais (nos trabalhos de sementeiras, mondas, ceifas, colheitas, vindimas, apanha da azeitona), as tecedeiras, as costureiras, as lavadeiras, as varinas, as carvoeiras. O fenómeno do operariado fabril feminino, porém, e exceptuando as duas conflagrações bélicas mundiais, pois os maridos estavam a combater e as fábricas não podiam parar, só se incrementou após a Segunda Grande Guerra. Aconteceu sobretudo no chamado primeiro mundo – Europa, América do Norte e Japão –, e Portugal não foi excepção, porque havia que aproveitar os dinheiros do Plano Marshall, apesar de Salazar ser avesso à industrialização do país. Assim, e principalmente nos subúrbios de Lisboa, Porto e Setúbal, surgiu um novo tipo de mulher trabalhadora: a que labora nas fábricas ou em trabalhos indiferenciados do sector terciário, mas que continua a arcar com todo o serviço doméstico e as obrigações próprias de uma esposa e mãe. Dessa lufa-lufa quotidiana, rotineira, mecânica e desgastante, que não deixa tempo para o ócio indispensável ao equilíbrio emocional e à fruição cultural, trata o poema "Calçada de Carriche" saído do punho de António Gedeão, pseudónimo literário do professor de Ciências Físico-Químicas Rómulo de Carvalho, e publicado primeiramente em 1958, no livro "Teatro do Mundo", e republicado nas posteriores edições da poesia reunida que dão pelos títulos de "Poesias Completas" (Portugália Editora), "Poesia Completa" (Edições João Sá da Costa) e "Obra Completa" (Relógio d'Água), bem como no volume "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor" (Edições João Sá da Costa, 1997). Foi de uma edição das "Poesias Completas", com chancela da Portugália Editora, que José Niza retirou aquele e os demais dez poemas que achou por bem musicar para serem cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário, e constituírem o álbum "Fala do Homem Nascido", editado em 1972.
É pois com o poema musicado "Calçada de Carriche", magnificamente interpretado por Carlos Mendes, que neste Dia Internacional da Mulher homenageamos essas mulheres sobrecarregadas de trabalho, quase escravas, que são autênticas heroínas anónimas, pois, quais robustas cariátides, suportam na cabeça a arquitrave económica familiar e, por extensão, a nacional.
E o que fez a rádio pública neste dia dedicado à mulher? Nada nos constou, analisando a programação nas páginas 'online' das Antenas 1 e 3 e andando a fazer 'zapping' entre aqueles dois canais (mau grado o incómodo e fugindo logo para Antena 2 ou para a nossa fonoteca). E não se está a pedir algo dispendioso nem que requeira muito trabalho: bastaria que a oferta musical ao longo do dia fosse ora interpretada por artistas femininas ora de homenagem à mulher, independentemente do sexo do intérprete. Nada fazer é puro desleixo e só serve para dar argumentos àqueles que contestam o financiamento público de canais de rádio que se comportam como os privados (e até pior, nalguns aspectos).
Calçada de Carriche
Poema: António Gedeão (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Niza
Arranjo: José Calvário
Intérprete: Carlos Mendes* (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998)
[instrumental]
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu a sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa...
* Carlos Mendes – voz
Orquestra dirigida por José Calvário
(António Gedeão, in "Teatro do Mundo", Coimbra: Edição do autor, 1958; "Poesias Completas", Lisboa: Portugália Editora, 1964, 5.ª edição, 1975 – p. 115-120; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 34-37)
Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Capa do LP "Fala do Homem Nascido", com poemas de António Gedeão musicados por José Niza e cantados por Carlos Mendes, Duarte Mendes, Samuel e Tonicha, com orquestração de José Calvário (Orfeu, 1972).
Arranjo gráfico – Beatriz Morais Alçada
Da floresta de criadores poético-musicais alguns logram elevar-se acima do manto copal e atingem uma tal dimensão que se afirmam como referências de admiração e de respeito, tanto da sua geração como das posteriores. José Afonso pertence a essa categoria de colossos que, pelo exemplo de vida e pela mensagem que a sua arte tão eloquentemente transmite, se tornaram faróis indicadores e iluminadores do caminho a seguir por todos quantos demandam a «cidade do homem / não do lobo, mas irmão». A Luz fechou os olhos perfaz hoje 33 anos mas a sua cintilação não se apagou e continua a iluminar quer aqueles que a presenciaram quando foi tocha acesa na noite escura quer – e mais importante – os que tendo nascido depois já só puderam contar com o legado musical/fonográfico. Provam-no as muitas revisitações que se vêm fazendo ao repertório do autor de "Cantares do Andarilho", seja em actuações ao vivo seja em gravações de estúdio [Cf. Letra e/ou música: José Afonso].
Como diz Janita Salomé, na canção que hoje aqui destacamos em tributo à memória do trovador maior da música popular portuguesa, «basta um sopro mágico, liberto, / para que a luz acorde a cantar».
Uma pergunta, a talhe de foice: como se explica que José Afonso, Janita Salomé e tantos outros nomes grados da nossa música estejam hoje excluídos da 'playlist' da Antena 1 e só, de tempos a tempos, surja uma ou outra das suas canções em programas de autor geralmente transmitidos a horas de sono? Fica à reflexão de quem tem por competência escrutinar e avaliar o serviço prestado pela rádio pública no domínio (importantíssimo) da música.
Quando a Luz Fechou os Olhos
Letra e música: Janita Salomé (Aos amores que nos ficam / Ao Zeca)
Arranjo: José Peixoto e José Mário Branco
Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Olho de Fogo", Schiu!/Transmédia, 1987)
[instrumental]
Quando a luz fechou os olhos,
Amansou a terra um ar morno
De cinza, doce, de cores desmaiadas
Pelos perfumes vindos no bafo da noite.
Do ramo mais fino do silêncio
Soou o rouxinol num canto dorido
De seda e ondas, que soltava em cada nota
Um fio delicado de fumo como fogo-fátuo.
[instrumental]
Teceu um véu e ali se guardou
De volta às entranhas da vida.
[instrumental]
Basta um sopro mágico, liberto,
Para que a luz acorde a cantar.
* Janita Salomé – voz e taarijas
José Martins – sintetizador
Fernando Júdice – viola baixo
Paulo Curado – flauta e saxofone soprano
Tomás Pimentel – flügelhorn (fliscorne)
Filha do engenheiro agrónomo e cantor lírico (barítono) José Eurico Corrêa Lisboa (por sua vez, filho do médico oftalmologista Eurico Fernandes Lisboa e de sua mulher Elisa Adelaide Telles de Macedo Corrêa) e da violoncelista e docente Maria Isaura Bello de Carvalho Pavia de Magalhães (por sua vez, filha do violinista e maestro Eduardo Henriques Pavia de Magalhães e da pianista Branca Baptista Bello de Carvalho), MARGARIDA Maria Magalhães LISBOA nasceu na freguesia de São José, em Lisboa, a 21 de Novembro de 1942.
Na casa da família, não era raro haver saraus musicais em que aos pais se juntava a avó materna e, às vezes, a cantora (soprano) Maria Teresa de Almeida. Esse contacto directo, informal e prazenteiro com a música erudita, desde tenta idade, foi determinante para o surgimento da sua paixão pela arte dos sons e do desejo de se formar nessa área, sem descurar, no entanto, outros conhecimentos, artes e saberes. Paralelamente aos estudos de música no Conservatório de Lisboa (onde a mãe leccionava), Margarida tinha aulas, em casa, das disciplinas curriculares do ensino liceal, apenas se deslocando ao liceu para a realização dos exames.
A sua primeira experiência radiofónica aconteceu aos 13 anos de idade, em 1956, na Emissora Nacional, a convite do tio Eurico Lisboa (Filho), desempenhando um pequeno papel na peça "As Rãs", de Aristófanes. Em 1964, para fugir ao sufoco salazarista, Margarida rumou a Paris para trabalhar em ficheiros, numa aldeia de crianças, da Action Enfance. Nos tempos livres, teve oportunidade de cultivar, de modo mais amplo e abrangente, o seu gosto pela música e também por outras artes, designadamente o teatro, sobretudo enquanto ouvinte dos canais de rádio France Culture e France Musique. Marcante foi também a sua vivência dos acontecimentos do Maio de 68, entre os quais se contou uma inolvidável prelecção dada na Sorbonne pelo filósofo existencialista Jean-Paul Sartre.
Na entrevista que, em 1995, concedeu a Luís Garlito para o programa "A Minha Amiga Rádio" [Antena 1, 6 Nov. 1995 / rep. Antena 2, 7 Jan. 2020 >> RTP-Play], Margarida Lisboa afirma que ingressou na estação pública em 1974, para frequentar um curso de musicografia, ficando a exercer esse trabalho até 1978, tendo, após um período em que esteve fora da RDP, sido readmitida em 1981, para começar a desempenhar as funções de assistente de realização. A memória presumivelmente mais antiga que o escrevente destas linhas tem de rubricas/programas com a sua assinatura remonta a finais dos anos 80, quando nas manhãs da Antena 2, dentro do programa Opus 8-11, ficava de ouvido colado à telefonia a ouvir, lida pela locutora Ida Maria, A Pequena Crónica d' Anna Magdalena Bach, da autoria da inglesa Esther Meynell, em versão portuguesa da própria Margarida Lisboa, a partir da tradução francesa de Edmond Buchet e Marguerite Buchet, bem como a peça musical de Johann Sebastian Bach que seguidamente era transmitida. Foi o início da nossa inexcedível admiração e incondicional reverência pela genial produção do filho mais ilustre de Eisenach. Ainda no programa "Opus 8-11", que a emérita realizadora manteve diariamente, desde 1 de Maio de 1987 até 31 de Dezembro de 1990, foi também grata a experiência que tivemos com a audição de outras duas narrativas biográficas, em episódios: uma consagrada ao cantor Carlos Gardel e outra ao actor Humphrey Bogart, baseada na autobiografia da actriz Lauren Bacall "By Myself" (1978), na voz de Edite Sombreireiro.
A 2 de Janeiro de 1991 deu-se o arranque d' A Nave do Tempo chamada Sinfonia, que estabelecia contacto com as frequências da Antena 2 de segunda a sexta-feira, excepto feriados, entre as 11:30 e as 13:30 [vide a ficha técnica ao fundo]. A par da música, escolhida com rigoroso e apurado critério, a nave – tripulada por Margarida Lisboa, nos comandos, e por Edite Sombreireiro, que fazia a comunicação falada com o exterior (coadjuvada, mais tarde, por António Jorge Marques) – dava guarida a diversas rubricas, em episódios semanais, que, ao serem feitas com o recurso a atmosferas sonoras e a actores que encarnavam figuras históricas e davam vida a personagens de ficção, tinham o condão de fidelizar os ouvintes e – o que deve ser assinalado – de atrair outros que não tinham por hábito sintonizar a rádio clássica. Entre as rubricas que se sucederam a bordo da nave contaram-se as seguintes: O Principezinho [adaptação do clássico de Antoine de Saint-Éxupéry, com Maria José Pascoal (principezinho), Teresa Sobral (flor), Ana Saragoça (serpente) e Elisa Lisboa (raposa), tendo as memórias do aviador francês sido desfiadas por Antonino Solmer]; Luiza Todi (com Carmen Dolores a discorrer as memórias – redigidas por Margarida Lisboa – da cantora sadina que, no último quartel do século XVIII, teve as principais cortes europeias a seus pés, de Londres a Sampetersburgo, passando por Paris, Turim, Veneza, Viena e Berlim); As Memórias de Wagner (com Luís Lucas); As Brumas de Avalon [adaptação da série de livros homónima da norte-americana Marion Zimmer Bradley, com Maria José Pascoal (Morgana), Elisa Lisboa (Viviane), Teresa Sobral (Igraine), Ana Saragoça (Morgause), Antonino Solmer (Gorlois), Fernando José Oliveira (Uther), André Maia (Gwydion ?)]; Visita a Casals [segundo a biografia do violoncelista catalão Pablo Casals escrita por Albert E. Khan, com Amílcar Botica (Pablo) e Maria José (Pilar)]; Visita a Maiorca (segundo o livro "Um Inverno em Maiorca", de George Sand, com Isabel de Castro – e a música de Chopin interpretada por Arthur Rubinstein); O Feiticeiro de Oz [adaptação do livro homónimo de L. Frank Baum, com Ana Saragoça (narradora e cão Toto), Marina Albuquerque (Dorothy), André Maia (espantalho), Fernando Vaz do Nascimento (homem de lata), Álvaro Faria (leão) e Amílcar Botica (feiticeiro)]; Conversas com Chaplin (com Fernando José Oliveira dando voz ao genial criador de Charlot); O Voo de Lindbergh (evocando a primeira travessia aérea do Atlântico Norte, em escalas, empreendida por Charles Lindbergh, em 1927, com ? a dar voz ao aviador norte-americano); Garbo & Garbo (com Elisa Lisboa personificando a dupla faceta da glamorosa e misteriosa actriz sueca Greta Garbo); A Pequena Crónica d' Anna Magdalena Bach (com Eunice Muñoz encarnando a segunda mulher de J.S. Bach); A Grande Epopeia Marítima [a viagem de Vasco da Gama à Índia contada n' "Os Lusíadas", de Luís de Camões, com a participação de um vasto elenco de actores, entre os quais Álvaro Faria (narração), Teresa Sobral, Maria José Pascoal, Antonino Solmer e André Maia]; As Mulheres & A Música (que revelou à quase totalidade dos ouvintes da Antena 2 a obra de muitas mulheres que foram compositoras de mérito, sendo de realçar a maravilhosa e excelsa música de Hildegard von Bingen, abadessa beneditina alemã do séc. XII). Hildegard von Bingen, acrescente-se, havia sido, em 1988, o tema do programa Uma Sinfonia para Hildegarda, que Margarida Lisboa concebeu com o propósito de entrar no Concurso de Rádio de Brnö (na então Checoslováquia), e lhe valeu o 1.º prémio.
Para desgosto do vasto e fiel auditório, a nave aterrou, para nunca mais levantar voo, a 12 de Março de 1993. Tal aconteceu não por vontade de Margarida Lisboa mas da nova direcção de programas, encabeçada pelo compositor João Paes, que entendeu – mal – que não havia lugar para ela no canal que passava a denominar-se Rádio Cultura.
Ainda assim a realizadora não ficaria a estiolar numa qualquer prateleira, como sói dizer-se na gíria da rádio. Sob a coordenação de José Domingos Moraes, responsável pelos programas de índole literária, Margarida Lisboa teve a oportunidade de assinar outra grande realização: a transposição para a rádio daquele que é, indubitavelmente, o mais singular e impressivo relato de viagens que alguma vez se escreveu em língua portuguesa: a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, segundo a adaptação que lhe foi dada por Maria Alberta Menéres. O papel do autor/narrador foi entregue a José Mário Branco, que o desempenhou magistralmente, tendo André Maia encarnado o jovem que interpela Fernão Mendes e o leva a contar as aventuras por que passou. Outras personagens foram interpretadas pelos actores Maria José, António Semedo, Paulo Curado, Álvaro Faria, Ana Saragoça, Antonino Solmer, Carlos Santos, Elisa Lisboa, Fernando Vaz do Nascimento, Marina Albuquerque, Cristina Cavalinhos e Alexandra Leite. A selecção da música que pontuou toda a viagem e a longa deambulação do aventureiro nos mares da China e do Japão e as suas incursões pelos reinos de Pegu, do Sião e do Catai, esteve a cargo de Pedro Caldeira Cabral, um dos pioneiros da nova música antiga em Portugal. Esta memorável obra radiofónica esteve no ar desde o início de Janeiro de 1994 até finais de Junho do mesmo ano, em cadência semanal (domingos, às 18:20, com repetição nas quartas-feiras subsequentes, às 11:30).
Posteriormente, as principais realizações radiofónicas de Margarida Lisboa na Antena 2, deram-se sob as direcções de José Manuel Nunes e, sobretudo, de João Pereira Bastos, e foram: Universos Clandestinos (de Outubro de 1994 a Julho de 1995); Feira dos Sons (de Outubro de 1994 a Março de 1996); A Floresta dos Espelhos (de Outubro de 1998 a Julho de 1999); O Senhor do Anel, ciclo biográfico sobre Richard Wagner (Novembro e Dezembro de 1999); e Quem? (de Janeiro de 2000 a Janeiro de 2003). Neste programa, em que se fazia o esboço biográfico de uma personalidade mistério (a identidade só era revelada no final, confirmando ou não o palpite que o ouvinte fizera no decorrer da emissão), Luiza Todi teve amplo destaque ao ser-lhe consagrada, logo no primeiro ano, uma série de oito (?) episódios, com Carmen Dolores a ler um diário, imaginado por Margarida Lisboa a partir de factos comprovadamente históricos, enunciados na biografia da cantora escrita pelo médico e melómano Mário Moreau, integrante da monumental obra em três volumes "Cantores de Ópera Portugueses" (Bertrand, 1981-87), posteriormente desenvolvida e publicada autonomamente, em 2002, com chancela Hugin Editores. Tal enfoque não é de estranhar, pois desde a aurora da década de 90 que a insigne realizadora de rádio se vinha empenhando na reabilitação da memória da mais ilustre cantora lírica portuguesa, diligenciando para que o país lhe rendesse a devida homenagem nacional, mediante a transladação, para um túmulo digno, dos restos mortais jazentes num antigo anexo da Igreja da Encarnação (à Rua do Alecrim, em Lisboa), depois transformado em loja comercial.
A Margarida Lisboa, que também trabalhou na redacção de sinopses de muitas óperas transmitidas pela Antena 2, se deve a descoberta no arquivo histórico da RDP, em finais da década de 90, da gravação (em boas condições técnicas) que fora feita pela Emissora Nacional, no Teatro Nacional de São Carlos, da histórica récita de "La Traviata", de Verdi, por Maria Callas e Alfredo Kraus, a 27 de Março de 1958. Registo esse que o director de programas de então, João Pereira Bastos, entendeu – e bem – que merecia ser publicada e nesse sentido providenciou junto da administração da RDP, presidida por José Manuel Nunes, para que a edição em CD se concretizasse, o que aconteceu em 2000.
Ao contrário do que seria razoável e expectável, nem todas as admiráveis realizações com que Margarida Lisboa alimentou e enriqueceu o imaginário dos ouvintes da Antena 2 (e também da Antena 1 e da RDP-Internacional) foram guardadas para fruição da posteridade, o que se lamenta profundamente. Dado ser de qualidade superior, o material que ainda existe não pode nem deve permanecer mais tempo escondido e a apodrecer nas 'catacumbas' da Rádio e Televisão de Portugal. Sem prejuízo da reposição em antena, urge que todo esse precioso acervo seja disponibilizado online. Porque lá onde agora está não serve a quem quer que seja, nem faz justiça à memória da autora, que é credora da gratidão do país pelo relevante contributo que deu para o enriquecimento do património radiofónico português.
Ficha técnica do programa "Sinfonia – A Nave do Tempo" publicada no 1.º diário de bordo (Janeiro de 1991).
Ao contrário do que aconteceu com outras tradições portuguesas, a de cantar as janeiras não se extinguiu ante a industrialização e a aculturação anglo-saxónica, muito graças ao empenho de algumas associações culturais e de muitas autarquias (câmaras municipais e juntas de freguesia). A motivação, essa, é que já não é a mesma: hoje, o que realmente importa é manter viva a manifestação cultural dos cantares e tocares que vieram de um passado ainda próximo; antigamente, porém, era a dura e crua necessidade de angariar alimento que impelia os menos afortunados da vida a andarem de porta em porta a anunciar, cantando, a boa nova do nascimento do Menino Jesus ou a chegada dos Reis Magos a Belém, na esperança de que as casas ricas ou remediadas lhes retribuíssem a gentileza com uma chouriça, uma morcela, uma talisca de presunto ou mesmo um naco de toucinho, não se dispensando, em tempo de frialdade, uma boa pinga para aquecer a alma. Dessa finalidade de confortar o estômago e de restaurar as forças que a caminhada e as cantorias exauriram dá bem conta o rico repertório que portugueses e galegos criaram ao longo de gerações. Um magnífico exemplo é a cantiga "Entrada de Aninovo", tradicional da Galiza, que Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata interpretam magistralmente no álbum "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", recentemente publicado pela editora galega aCentral Folque. É pois com este belíssimo espécime que damos as boas-vindas ao Novo Ano, no calendário gregoriano pelo qual se rege o Ocidente, aproveitando para deixar aos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio" os nossos votos de saúde, paz, boa música e outras coisas gratas (desde que não prejudiciais ao bem-estar alheio e à casa comum de todos que é o planeta Terra).
Sendo esta a altura do ano em que se costuma formular desejos, aqui fica um: que seja feita a tão necessária operação de higienização na Antena 1, que a liberte da imundície sonora (que os contribuintes/ouvintes não merecem) e que a boa música passe a ser a sua marca distintiva e alternativa no éter nacional!
Entrada de Aninovo
Letra e música: Tradicional (Galiza)
Arranjo: Ariel Ninas
Intérpretes: Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata* (in CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", aCentral Folque, 2019)
Despedida de Ano Vello
e entrada de Aninovo,
os señores desta casa
as conten con moito gozo.
Catro mancebos xuntiños
aqui xuntiños estamos
e tan cansados os catro
que é preciso alimentarnos.
De moi lonxe xa viñemos,
noite que andar aínda falta
as forzas piden reparo,
mollo ás gorxas e non d'auga!
Chourizo e longaniza,
uña de porco, fuciño,
ou de xamón dúas tortillas
con dous xarriños de viño.
[instrumental]
Abran a porta, señores,
que por honrados nos temos!
Sabe Deus se p'ra outro ano
á porta lles cantaremos...
De cantar xa nos cansamos,
por probes non nos desprezem
que se algo os ricos non dan
os probes mal se remexen!
E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!
E esta vai por despedida,
hoxe eiqui non canto outra.
Os señores desta casa,
hoxe un ano me oian outra!
* [Créditos gerais do disco:]
Catarina Moura – voz
Ariel Ninas – sanfona, sinos, harmónica, chocalhos, adufe e voz
César Prata – guitarras, dulcimer, adufe, harmónio, mbira, beat root e voz
Capa do CD "Do Natal aos Reis: Cantos da Galiza e Portugal", de Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata (aCentral Folque, 2019)
Desenho e arte final – Mauro Sanin Leira
Rafael Carvalho, exímio executante de viola da terra, compositor e docente no Conservatório Regional de Ponta Delgada, publicou até hoje, além de três livros do seu "Método para Viola da Terra", seis trabalhos discográficos: um colectivo, "Cantos da Terra" (Açor/Emiliano Toste, 2009), inserido no trio Musica Nostra (ao lado de Ricardo Melo e de Ana Medeiros), e cinco em nome próprio – "Origens" (2012), "Paralelo 38" (2014), "Relheiras" (2017), "9 Ilhas, 2 Corações" (2018) e o recente "Um Natal à Viola' (2019). Este, como o título sugere, é um álbum temático consagrado ao repertório natalício tocado à viola de dois corações, o típico cordofone dos Açores e uma das ancestrais violas portuguesas.
Dos catorze espécimes que constituem o alinhamento, onze são do cancioneiro tradicional português: três da Ilha de São Miguel, dois da Madeira (que já haviam sido gravados pelo grupo Xarabanda), três do Alto Alentejo, dois da Beira Baixa e um de Trás-os-Montes. Os três restantes são o celebérrimo "Noite Feliz" (da autoria do austríaco Franz Grüber), "Adeste Fidelis" (de autoria incerta, que alguns atribuem ao rei português D. João IV e outros ao compositor inglês John Francis Wade) e o tema-título, um original do próprio Rafael Carvalho [vide alinhamento ao fundo].
O músico micaelense apresenta o seu álbum nos seguintes termos:
«"Um Natal à Viola" começa numa viagem musical pela minha infância, com músicas que ouvia e cantava, em casa ou na Escola, e que faziam parte do nosso dia-a-dia nas festas de Natal.
A Viola toca-se nesta altura do ano pelas ruas da Ribeira Quente [concelho de Povoação, Ilha de São Miguel], acompanhando o "Menino Jesus" ou em rambóias que percorrem as casas de familiares e amigos. É assim o Natal na minha freguesia bem como em muitos locais das nossas 9 Ilhas, do nosso País e das Comunidades Açorianas.
O álbum inclui um tema original, "Um Natal à Viola", que compus há mais de duas décadas, agora adaptado para a Viola da Terra.
A Viola é companheira e confidente, ao longo de todo o ano, e tem uma presença muito especial nesta época festiva. "Um Natal à Viola" regista algumas dessas memórias e vivências.»
Neste tempo de trepidação consumista, este sereno e encantatório "Um Natal à Viola" é um disco que se recomenda vivamente aos apreciadores de música instrumental (no caso, de feição natalícia), magistralmente executada em cordas dedilhadas, e que já não suportam (com inteira razão) as banais e costumeiras cançonetas de Natal que, nesta quadra, são a banda sonora dos centros comerciais e pululam nas 'playlists' das rádios (inclusive na da pública Antena 1).
Por gentileza do artista, faculta-se aos visitantes do blogue "A Nossa Rádio" a audição de seis espécimes. Votos de boa escuta e de Festas Felizes!
Quem desejar adquirir o CD poderá encomendá-lo através do seguinte endereço de e-mail: r_c_carvalho@hotmail.com
Eu Hei-de m'Ir ao Presépio
Música: Tradicional (Elvas, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
(instrumental)
* Rafael Carvalho – viola da terra
Eu Hei-de Dar ao Menino
Música: Tradicional (Évora, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
(instrumental)
* Rafael Carvalho – viola da terra
Moda do Menino
Música: Tradicional (Ribeira Quente, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
(instrumental)
* Rafael Carvalho – viola da terra
O Menino Está Dormindo
Música: Tradicional (Évora, Alto Alentejo)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
(instrumental)
* Rafael Carvalho – viola da terra
Noite Feliz
Música: Franz Grüber
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
(instrumental)
* Rafael Carvalho – viola da terra
Os Reis - Quando o Menino Nasceu
Música: Tradicional (Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Rafael Carvalho* (in CD "Um Natal à Viola", Rafael Carvalho, 2019)
Capa do CD "Um Natal à Viola", de Rafael Carvalho (2019)
Design – AçoresPro®
Alinhamento:
1. O Menino Está Dormindo (Évora, Alto Alentejo)
2. Noite de Natal (Castelo Branco, Beira Baixa)
3. Eu Hei-de m'Ir ao Presépio (Elvas, Alto Alentejo)
4. Da Serra Veio um Pastor (Madeira)
5. Cantar ao Menino Jesus (São Miguel, Açores)
6. Noite Feliz (Franz Grüber)
7. Linda Noite de Natal (Castelo Branco, Beira Baixa)
8. Eu Hei-de Dar ao Menino (Évora, Alto Alentejo)
9. Os Reis - Quando o Menino Nasceu (São Miguel, Açores)
10. Beijai o Menino (Trás-os-Montes)
11. Adeste Fideles (John Wade)
12. Moda do Menino (Ribeira Quente, São Miguel, Açores)
13. Meia-Noite Dada (Madeira)
14. Um Natal à Viola (Rafael Carvalho)