14 abril 2009

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008

Embora com um considerável atraso, devido a várias contingências e contratempos, aqui ficam os discos de música portuguesa mais relevantes da colheita de 2008. Ressalvo as prováveis omissões, inadvertidas e eventualmente injustas, de obras que não chegaram ao meu conhecimento, designadamente edições de autor sem distribuição comercial. Tudo seria diferente se existisse em Portugal uma lei de depósito legal para edições discográficas. Assim, faz-se o melhor que é possível...
A ordem pela qual as obras estão apresentadas não corresponde a qualquer classificação valorativa, crescente ou decrescente.

Caro Leitor:
Divulgar e dar enfoque à música portuguesa de qualidade é o objectivo primordial dos textos que se apresentam. Mas como estamos a falar de música, há que tirar a prova e ouvi-la. Para tal, recomenda-se uma visita às páginas dos artistas que facultam música para audição, designadamente no MySpace. Gostou? Então faça o favor de comprar o(s) disco(s) ou, eventualmente, as músicas que lhe agradaram (neste caso, nos sites autorizados: iTunes, Rhapsody, Napster, eMusic, Amazon MP3, etc.). Apoie a boa música portuguesa e rejeite o lixo (o vindo de fora e o produzido cá dentro) que as rádios e televisões lhe impingem. Assim dará um importante contributo para a defesa e promoção da cultura portuguesa.


Um Sol Maior, de Origem
(CD, Açor/Emiliano Toste, 2007)



Fundado em 14 de Fevereiro de 1978 e oficializado em Maio de 1980, o Grupo Origem, secção de música do Grupo Cultural de S. Mamede de Este, concelho de Braga, foi criado com o intuito de divulgar a música tradicional portuguesa, mormente a do Minho. É o próprio grupo que nos explicita o âmbito do seu trabalho: «As cantigas ou modas tradicionais têm em Portugal uma variedade de estilos muito grande. É nossa intenção falarmos particularmente do Minho, província com um vastíssimo e formoso cancioneiro, acção assaz difícil, dado as fronteiras musicais não serem iguais às geográficas, estas delineadas em pleno século XIX. O povo minhoto foi, ao longo dos tempos, nos grandes serões de Inverno, ouvindo os velhos romances tradicionais e as modas com que alegrava o trabalho, festejava as suas alegrias ou orava ao Senhor, à Virgem ou aos Santos da sua devoção.
Como se vê pelo atrás exposto, as modas minhotas dividem-se em: cantos dos velhos romances, a uma ou duas vozes; os cantos coreográficos, uns só com vozes, como são as danças de roda, outros acompanhados com instrumentos, tomando assim o nome de rondas; as modas de romaria, que eram cantadas em ranchos na ida e na vinda das festas e também durante os trabalhos agrícolas; e as modas de terno, cantos arcaicos belíssimos, cantados a quatro e por vezes cinco vozes. O Minho tem a riqueza dessa tradição. Muita coisa se foi, entretanto, perdendo. A evolução dos tempos tornou-o inevitável; no entanto, cabe-nos a nós, estudiosos voluntários da música tradicional, preservá-la e dá-la a conhecer a todos quantos a queiram ouvir, já que só ouvindo-a se pode aprender a gostar dela e gostando-se, gosta-se das nossas raízes.
Não sendo puristas – achamos que é preciso inovar na tradição – as cantigas que ora apresentamos pretendem tão somente a uns relembrar algo de que já se tinham esquecido, a outros mostrar como é bela a música tradicional portuguesa, que é afinal o motivo que nos levou vai para trinta anos a formar o grupo. Para além da música tradicional, quisemos também incluir alguns temas compostos por nós, dentro dos estilos da música tradicional minhota, que esperamos venham também eles, daqui por alguns anos a fazer parte dessa mesma música tradicional.» (Grupo Origem)
E agora as palavras assertivas que Sara Louraço Vidal escreveu sobre o disco: «Certamente que há 30 anos, quando o Grupo Origem deu forma ao seu projecto de recolha e divulgação da música tradicional portuguesa, especialmente a minhota, não imaginariam a reviravolta criativa e tecnológica que se iria instaurar no nosso país, com o passar dos anos. Contudo, o disco de estreia, "Um Sol Maior", desta formação de S. Mamede de Este (Braga) é a prova de que, num contexto cultural cada vez mais globalizado e aculturado, felizmente as "raízes" são perduráveis e recuperáveis.
Ainda é possível defender as nossas tradições musicais, entre viras, malhões e chulas, e esta persistência é, sem dúvida, um dos aspectos mais louváveis deste grupo, que também se soube reinventar, através da composição de temas originais, fortemente influenciados pelo nosso folclore. Ultimamente, assistimos ao nascer duma geração de grupos que procuram a fusão de sonoridades, mas o Grupo Origem destaca-se, precisamente, pela sua fidelidade aos ritmos e às melodias mais tradicionais, tal como podemos constatar neste seu primeiro trabalho discográfico em temas como "Bira em S. Mamede" ou "Assim Fazemos no Minho". Paralelamente, e como não podia deixar de ser, também é de agradecer o trabalho de campo do grupo, em recolhas de temas tradicionais como "Chula Belha", "Contradança", "Delaidinha", "Claralinda" e "Cantiga da Segada", onde instrumentos como o cavaquinho, a braguesa, o bandolim, o adufe ou a gaita-de-foles, entre outros, ganham expressividade próprias.
Encontro de gerações e de vontade de salvaguardar o nosso património etnomusicológico, o Grupo Origem é exemplo da sua devida valorização e reinvenção, dando-nos a confiança dum futuro para a música tradicional portuguesa.» (Sara Louraço Vidal, in "
Sons Vadios", 16.01.2009)

Alinhamento:
1. Cantiga da Segada (Tradicional; arr. Daniel Pereira)
2. Claralinda (Tradicional; arr. Daniel Pereira)
3. Porque Adoro Ver-te Nua (Casimiro Pereira)
4. Bira em S. Mamede (Daniel Pereira)
5. Delaidinha (Tradicional)
6. Quero Cantar-te (Casimiro Pereira)
7. No Lagar (instrumental) (Daniel Pereira)
8. Flor do Tojo (João Augusto Lopes Bastos / Casimiro Pereira)
9. Chula Belha (Tradicional)
10. Obra d’Arte (Casimiro Pereira)
11. Contradança (instrumental) (Tradicional)
12. Os Teus Olhos (Daniel Pereira)
13. Quem Espera (João Augusto Lopes Bastos / Casimiro Pereira)
14. Cegueira (João Augusto Lopes Bastos / Casimiro Pereira)
15. Saudade (instrumental) (Casimiro Pereira)
16. Enamorei-me de Ti (Casimiro Pereira)
17. Assim Fazemos no Minho (Daniel Pereira)
18. Água Sagrada (Daniel Pereira)

Origem:
Ana Pereira – flauta e coros
António Silva – bandolim e coros
Carlos Cruz – cavaquinho, viola braguesa e coros
Casimiro Pereira – voz solo, guitarra acústica e coros
Daniel Pereira – bandolim, viola braguesa, cavaquinho, bodhran, adufes, flauta, gaita-de-foles, voz solo e coros
Eduardo Castro – baixo acústico e coros
Raquel Ferreira – voz solo e coros
Rogério Machado – bombo e coros

Produção artística – Daniel Pereira e Casimiro Pereira
Conteúdos – Casimiro Pereira

Gravado no auditório Adelina Caravana do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian, de Braga
Técnico de gravação – Serafim Barreira
Assistente de gravação – Carlos Meireles
Edição digital – Serafim Barreira
Masterização – Serafim Barreira, Emiliano Toste

Design gráfico – Gonçalo Cruz
Fotografia – Abel Andrade

URL:
http://www.grupoorigem.blogspot.com/
http://www.myspace.com/origem


Memórias 2, de Grupo Cantares de Évora
(CD, Edição de Autor, 2007)



«Sobre o devir do Cante alentejano ao longo do século passado, quase tudo terá sido dito, e por vezes com justeza e talento, como o fez Margarida Morgado na apresentação do precedente CD dos Cantares de Évora, "Memórias".
A relação orgânica que teve o Cante com a sociedade rural alentejana, com o ritmo sazonal e as formas de organização dos trabalhos do campo, tem sido sobejamente sublinhada. Do carácter colectivo dos trabalhos, dos homens e das mulheres que por esses campos, em grupos por vezes muito numerosos, surge, ao que se pensa, o hábito de cantar em comum. Das mondas às ceifas e destas às debulhas, da pastagem nos alqueives às lavouras, a profunda ligação dos temas e das formas de cantar características do Cante com a sociedade rural alentejana, com os seus ritmos e práticas, não suscita dúvidas. Com o desaparecimento da sociedade rural que o produziu, também o Cante, que dela fazia parte, pareceria condenado à extinção.
Outro aspecto das práticas do Cante, menos realçado pelos estudiosos, que deveria ter contribuído para tornar improvável a sua perpetuação para além da morte da antiga sociedade rural, é o facto que este cantar não terá pertencido de modo algo indistinto, global, a uma sociedade camponesa, mas sim a um estrato singular, de uma sociedade rural profundamente original. Canto de uma sociedade extinta e mais ainda canto de um grupo desfavorecido, no extremo mais baixo da escala social, não devia o Cante finar-se com a mudança que, em pouco mais de meio século, esvaziou os campos e as aldeias? Existe pois um aparente mistério na sobrevivência do Cante, facto que se impõe, com evidência, como do maior interesse para a compreensão das dinâmicas das culturas populares.
Não que o Cante seja, deste ponto de vista, um caso único. Pelo contrário, a similitude com o destino que conheceu outra forma cultural criada e praticada por grupos sociais particularmente oprimidos em sociedades rurais de latifúndio, poderá deitar alguma luz sobre este destino. Pensemos no que foi o caminho do Blues, canto de escravos ou de trabalhadores negros de estatuto quase servil, apoiado em técnicas vocais e instrumentais aparentemente rudimentares, que do terrível Sul profundo "emigra" para as cidades dos Estados americanos do Norte, Nova Iorque, Detroit, Chicago... Levado por homens e mulheres entre os mais pobres, o Blues invade as cidades, viaja de costa a costa, transforma-se em matriz essencial do Jazz, atravessa o Atlântico, impõe-se ora abertamente ora incógnito, nas músicas eruditas, nas canções populares...
Em condições de opressão extrema, o Cante, criado nestes campos aquém Tejo pelos mais pobres, era a mais digna, a mais comovente maneira de afirmar a dignidade inalienável, a humanidade até, daqueles cuja condição tendia a permitir que fossem tratados como menos que humanos: "Canto, vivo!" Cantando como canto, provo que a vida também me pertence. Levado, à sua escala, para outras terras, para além do Tejo e para além de mares e continentes, pelos mais humildes alentejanos, o Cante conserva a sua força atractiva, perpetua-se, difunde-se fora do seu círculo restrito de origem, afirma-se como forma cultural e matriz de outras músicas.
Mas não teria bastado que alguns grupos mantivessem a prática, nem bastaria o talento, o rigor e a inegável qualidade que alguns grupos, como o dos Cantares de Évora que, sob a direcção do Mestre Joaquim Soares, aqui apresenta mais uma colectânea de uma obra já extensa e que tanto apreço tem merecido, se o Cante não conseguisse demonstrar a sua capacidade expressiva para além dos contextos sociais de origem. Em nosso entender, o elemento decisivo na capacidade do Cante para se impor enquanto forma de expressão em parte independente das condições da sua criação e da sua prática tradicionais, elemento raramente percepcionado (se é que o foi), é a riqueza das temáticas que exprime e entre estas, o carácter universal de numerosos temas e a unidade formal.
Muito se falou da relação com os trabalhos dos campos, mondas, ceifas, lavouras, dela deduzindo uma ligação restritiva do Cante com preocupações de outros tempos. Menos se tem aceitado constatar como os grandes temas que exprimem a condição humana ontem, hoje e sempre, aqui e por toda a parte onde seres humanos vivem, o amor, a morte, a nostalgia, o desejo, a emoção perante a beleza do mundo, a angústia perante a incerteza do futuro e a esperança de viver, como esses grandes temas encontram, no Cante, uma expressão cuja profundidade, cuja subtil delicadeza sob a aparência singela, fazem destas canções pequenas obras-primas de lírica popular. E não só popular, nem regional. Universal.
A alegria e a brincadeira, a ligeireza, que não estão ausentes, são, no Cante alentejano como em todas as músicas populares, muito menos universais, muito menos aptas à meditação sobre a condição humana, ao destino de cada um de nós. Não há canto verdadeiramente universal que não assente, no que de mais essencial exprime, numa certa nostalgia: uma atitude de moderação da acção, de reflexão sobre si próprio, que tanto motiva o indivíduo que compõe, como o grupo que adopta a quadra, o canto.
Este é um "segredo" cuja solução não se encontra em algum suposto "carácter colectivo", "espírito dos povos" que faria dos Alentejanos um caso à parte e do Cante uma forma com alcance restrito. A atitude contemplativa, uma certa nostalgia, são as atitudes que exige a expressão de pensamentos e emoções quanto à estranheza, à beleza, à tragédia da condição humana. Donde, para tratar tais temas, a coerência da forma nostálgica, ornada e lenta, majestosa. E a coerência entre conteúdo e forma atinge no Cante uma clareza extraordinária. Porque os Alentejanos mais oprimidos souberam impor a dignidade da sua condição de Homens e Mulheres livres nos seus corações e souberam transmitir a outros e para horizontes que a eles próprios ultrapassam, essa força, e tanto é o que lhes devemos, o Cante vive. A presente recolha intitulada "Memórias 2" disso é mais uma prova, indiscutível.» (José Rodrigues dos Santos, Universidade de Évora, 02.11.2007)

Alinhamento:
1. Nasce o Sol no Alentejo (Ponto: Joaquim Soares / Alto: Pedro Calado)
2. Saudades são Martírios (Ponto: Manuel Caldeira / Alto: Joaquim Soares)
3. A Moda do Assobio (Solista: Joaquim Soares)
4. Não Quero Que Vás à Monda (Ponto: Manuel Caldeira / Alto: Pedro Calado)
5. Fui-te Ver, Estavas Lavando (Ponto: Joaquim Soares / Alto: Pedro Calado)
6. Rapsódia (Solista: Joaquim Soares)
7. Olha a Noiva se Vai Linda (Ponto: Manuel Caldeira / Alto: Pedro Calado)
8. Passarada (Ponto: Joaquim Soares / Alto: Pedro Calado)
9. Ceifeira, Linda Ceifeira (Ponto: Manuel Caldeira / Alto: Pedro Calado)
10. Dá-me Uma Gotinha d’Água (Ponto: Joaquim Soares / Alto: Pedro Calado)
11. Vou-me Embora p’ra Lisboa (Ponto: Manuel Caldeira / Alto: Joaquim Soares)
12. Rosa Branca Desmaiada (Ponto: Joaquim Soares / Alto: Pedro Calado)

Modas tradicionais do Alentejo.

Grupo Cantares de Évora:
António Rosado
António Santos
Bernardino Caeiro
Carlos Cruz
Domingos Caraça
Fernando Costa
Francisco Góis
Helena Marcão
Idália Silva
Joaquim Cabral
Joaquim Soares
Luís Cabral
Manuel Caldeira
Manuel Valadas
Marcos Infante
Maria Angélica Caldeira
Maria Clarisse Rosado
Maria Jerónima Soares
Mário Marcão
Pedro Caldeira
Pedro Calado

Produção e direcção musical – Joaquim Soares

Gravado no palco do Teatro Garcia de Resende, Évora, em Outubro de 2007
Gravação e mistura – Miguel Salema

Fotografia – Joaquim Heitor Coelho e Rafael Martins
Design gráfico – Éter (
http://www.eter.pt/)

URL:
http://cantoalentejano.com/grupos/detgrupo.php?id=37
http://cantaresevora.com.sapo.pt/index.html


Meia Volta, de Encontros da Eira
(CD, Associação Cultural Encontros da Eira, 2008)



«A Associação Cultural Encontros da Eira editou até à data, três CD do grupo de música tradicional madeirense, Encontros da Eira: "Retalhos de Tradição" (1998), "Aquintrodia" (2001) e "Instrumentais d’Outrora" (2002), tendo-os ainda reeditado por várias vezes. A Vidisco (editora sedeada no Continente) editou o quarto disco do grupo, denominado "O Melhor dos Encontros da Eira" (2002). Este é o quinto álbum dos Encontros da Eira. "Meia Volta" é o título do mesmo, sendo, sem dúvida, uma justa e merecida homenagem a um espécime musical "sul generis" no país, homenagem que prestamos ao integrar a parte instrumental do "Baile da Meia Volta", dança característica da vizinha ilha do Porto Santo, com nítida influência magrebina, por certo introduzida na ilha dourada nos primórdios do seu povoamento.
A integração de alguns instrumentos tradicionais encordoados a nylon vem dar a este trabalho e aos Encontros da Eira uma nova sonoridade, diferenciando-o de épocas anteriores e demais álbuns editados até à presente data.
É sabido que, em tempos idos (anteriormente ao século XIX), os nossos antepassados utilizavam nos cordofones madeirenses cordas de tripa de animais. Julgamos nós que as cordas de nylon são aquelas que mais se aproximam ao timbre daquele tipo de encordoamento. Assim, e para além dos cordofones tradicionais, encordoados a aço, foram utilizados para a gravação deste registo, alguns instrumentos encordoados a nylon: um braguinha de cordas duplas, dois rajões e uma viola, que de certa forma recuperam as antigas sonoridades através deste tipo de material, tão próximo da corda de tripa de animal anteriormente utilizada nestes instrumentos. A inclusão de dois temas com músicas originais, "Senhora do Monte" (faixa 8) e "O Regresso do Amado" (faixa 11), marca uma viragem relativamente aos trabalhos anteriores, no intuito, de que, algum dia, existam registos que venham a figurar, como a nova música com raízes tradicionais da Região Autónoma da Madeira.» (Encontros da Eira)
"Meia Volta": um belo trabalho de música tradicional que nos chega da pérola do Atlântico e que faz do grupo Encontros da Eira, a par do histórico Xarabanda, um dos grupos mais importantes da Madeira. Atente-se no magnífico arranjo do tema que fecha o alinhamento e dá título ao álbum, "Meia Volta", um espécime tradicional que, ainda recentemente, foi também recriado por outros dois bons projectos da folk nacional: Diabo a Sete (in "Parainfernália", Açor/Emiliano Toste, 2007) e Dazkarieh (in "Hemisférios", Hepta Trad, 2009). Tudo isto sem esquecer uma versão mais antiga assinada pela Ronda dos Quatro Caminhos (in "Amores de Maio", 1986).

Alinhamento:
1. Tango do Remango (Popular – Sítio do Rochão-Camacha, Madeira; arr. Humberto Pedras)
2. Cantiga do Canário (Popular – Achadas da Cruz, Madeira; arr. Humberto Pedras)
3. Rainha dos Mares (Popular – Madeira; arr. Carla Sousa)
4. O Jogo da Laranjinha (Popular – S. Vicente, Madeira; arr. Carla Sousa)
5. Marcha (instrumental) (Popular – Ribeira de Machico, Madeira; arr. Filipe Varela)
6. O Anjo (Popular – Camacha, Madeira; arr. Carla Sousa)
7. Amores, Amores (Popular – Madeira; arr. Humberto Pedras)
8. Senhora do Monte (Popular – Madeira / música e arr. Carla Sousa)
9. Cantiga dos Reis (Popular – S. Vicente, Madeira; arr. Carla Sousa)
10. Viuvinha (Popular – Camacha, Madeira; arr. Carla Sousa)
11. O Regresso do Amado (Popular – Madeira / música e arr. José Luís Fernandes; arr. Filipe Varela)
12. A Maré Tá Cheia (Popular – Madeira; arr. Filipe Varela e Vítor Sardinha)
13. Meia Volta (instrumental) (Popular – Porto Santo; arr. Encontros da Eira)

Encontros da Eira:
Jorge de Sousa – rajão e voz
Filipa Calisto – voz solista, guitarra acústica, viola madeirense, rajão, braguinha e viola de arame
Emanuel Teles – acordeão, percussão e voz
Carla Sousa – flauta transversal e percussão
Ana Sousa – voz solista e percussão
Duarte Romão – viola madeirense, rajão, braguinha, percussão e voz
Catarina Gomes – bandolim, rajão, braguinha, violino, viola madeirense e voz
Filipe Varela – clarinete, percussão e voz
José Luís – voz solista, viola de arame, viola madeirense, braguinha, guitarra acústica, rajão e percussão
Susana Abrantes – viola baixo e voz
Marta Nunes – voz solista, flauta de bisel, flauta transversal e percussão
Ricardo Félix (antigo membro do grupo) – acordeão, percussão e voz (temas 3, 6, 10, 12 e 13)

Músicos convidados:
César Abrantes – guitarra portuguesa (em "O Jogo da Laranjinha")

Sandra Sá – violino (em "Senhora do Monte")

Produção – Encontros da Eira e Paulo Ferraz
Gravado no Paulo Ferraz Studio, Funchal
Técnicos de som – Saul Ferreira e Paulo Ferraz
Misturas – Paulo Ferraz e Encontros da Eira

Fotografias – Duarte Gomes, Antero Gonçalves
Design e grafismo – Trampolim
Textos – Jorge de Sousa
Revisão dos textos em português – José Luís, Joaquim Leça e Vítor Sardinha
Tradução para inglês – Filipa Calisto
Revisão dos textos em inglês – Carla Sousa

URL:
http://www.encontrosdaeira.com/
http://www.myspace.com/encontrosdaeira


Pousio, de Roda Pé
(CD, Public-art, 2008)



«No seguimento dos discos anteriores, este "Pousio" é constituído por um conjunto músicas tradicionais ou de cariz tradicional, que albergam a sensibilidade e o gosto do colectivo. Ao optarmos pela fusão entre o acústico e o electrónico, assumimos uma ponte entre a tradição musical e o presente, sabendo à partida que este não é um caminho fácil e até arriscado. Sem queremos ser pretensiosos e reconhecendo o espaço que nos está reservado no panorama musical português, este trabalho reflecte a evolução musical de seis músicos e amigos ao longo de 10 anos de actividade. Como no trabalho anterior, "Pousio" é um disco onde se torna patente que a música tradicional se encontra em constante evolução, adaptando-se a novos tempos mas mantendo como base o rico legado musical deixado pelos nossos ancestrais. O conteúdo do presente álbum vai no sentido de cada vez mais o grupo assumir um estilo próprio tentando sempre manter as tradições. O que podemos definir como música tradicional nos dias de hoje?» (Roda Pé)
Terceiro álbum do grupo eborense Roda Pé, depois de "Cor dos Ventos" (2000) e de "Escarpados Caminhos" (2004), "Pousio" é um registo que vem demonstrar, a quem acaso ainda tivesse dúvidas, que em Portugal se continua a trabalhar – e bem – no campo da música tradicional. Neste belo saco de cantigas – parafraseando um dos temas do alinhamento –, a par dos espécimes do cancioneiro popular alentejano, sempre abordados com acerto e bom gosto, há também lugar para letras e composições originais. Só que ao contrário do que por vezes acontece noutros grupos, aqui elas encaixam-se de tal forma nos cânones da música tradicional que nem parece que foram escritas hoje. É o caso de duas belíssimas cantigas da autoria de José Melo (do grupo Cantes do Meu Cante): a já aludida "Um Saco de Cantigas" (sobre quadra popular) e "Campainhas Amarelas". Dignos de destaque são igualmente os temas instrumentais: "Mulher da Erva" (sobre um original de José Afonso), "Fandango" (jogando admiravelmente entre o registo popular e o erudito, aqui tendo como ponto de referência a 2.ª suite alentejana, de Luís de Freitas Branco), "Moda dos Dois Passos" (popular) e "Andorinhas do Terreiro" (música de Fernando Costa).
"Pousio": a confirmação da vitalidade da música tradicional produzida no Alto Alentejo por um dos grupos que merecia, sem dúvida alguma, outra projecção mediática.

Alinhamento:
1. Lá Vem Aurora (Popular)
2. Mulher da Erva (instrumental) (José Afonso)
3. Um Saco de Cantigas (José Melo, a partir de quadra popular / José Melo)
4. Fandango (instrumental) (Popular, a partir do tema da 2.ª suite alentejana, de Luís de Freitas Branco)
5. Saias de São Mateus (Popular – Elvas)
6. Rosa Branca Desmaiada (Popular – Alentejo)
7. Campainhas Amarelas (José Melo / José Melo)
8. Machadinha (Popular infantil)
9. Moda dos Dois Passos (instrumental) (Popular)
10. Minha Mãe, Lá Vem o Jorge (Popular; romance recolhido em Évora, junto da Sra. Helena Jesus Grilo)
11. Andorinhas do Terreiro (instrumental) (Fernando Costa)

Roda Pé:
Agostinho Teodoro – voz (1, 3, 5-8, 10), baixo eléctrico (4, 6, 9), coros (2, 5)
Daniel Canelas – violino (1-5, 8-10), piano eléctrico (7), coros (7)
Fernando Costa – viola braguesa (1, 6, 9), guitarra acústica (3, 6, 8), cavaquinho (4), viola campaniça (11), tracanholas (5), adufe (5), coros (2, 3, 5)
Joaquim Manuel – acordeão (1, 2, 4-6, 8, 9), bateria (1, 4), ferrinhos (4), fole de acordeão (5), adufe (5), crivo com grão (5, 11), sementes da Indonésia (11), palmas (9), voz (9), coros (2, 3, 5)
Manuel Fernandes – sintetizador (1, 2, 6, 9, 10), bateria (2, 8, 9), adufe (5), xilofone (8), coros (2, 3)
João Bacelar – programação/sampling (todas as faixas), sintetizador (11), guitarra (2, 10), bandola (3), viola braguesa (6), harmónica (7), vocoder (7), pandeiro (7), percussão (10)

Participações especiais:
Luís Cardoso (Nuvem) – baixo eléctrico (2, 8), contrabaixo (5)
Orlando Andrade – tuba (3)
Artur Barroso – trompete (3)
Sophie Coguelin – saxofone (3)
Rui Gonçalves – tarola (3)
Grupo Coral Etnográfico "Cantares de Évora" – coro (5)
Celina Piedade – voz (6)
José Melo – guitarra acústica (7)
João e Pedro Fernandes – vozes infantis (8)
Andreia do Carmo – voz (11)

Arranjos – Roda Pé, excepto nas faixas 5, 7, 10, 11 (Roda Pé e João Bacelar) e na faixa 6 (Roda Pé e Celina Piedade)
Arranjo de sopros – Daniel Canelas (3)
Produção – João Bacelar e Roda Pé

Gravado nos Estúdios Quinta Dimensão, Azaruja-Évora, em Dezembro de 2007 e Janeiro de 2008
Gravação e misturas – João Bacelar
Masterização – Cutting Room (Suécia)

Fotografia e concepção gráfica – Marta Graça e Marius Araújo

URL:
http://www.roda-pe.com/
http://www.myspace.com/rodapevora
http://palcoprincipal.sapo.pt/grupo_de_musica_portuguesa_roda_pe


Meu Bem, Meu Mal, de Navegante
(CD, Tradisom/Iplay, 2008)



Fundado em 1992, por iniciativa de José Barros, o grupo Navegante contava com cinco álbuns: "Navegante" (Movieplay, 1994), "Cantigas Partindo-se" (Ovação, 1997), "Não Há Heróis" (Lusogram, 1999), "Rimances" (JBN, 2001) e o duplo "...Vivos. E ao Vivo" (Ocarina, 2003). Entretanto, José Barros gravou um disco em nome próprio, de título "Mar Eterno" (Ocarina, 2006). Em Junho de 2008, o grupo regressa aos discos com "Meu Bem, Meu Mal", em edição da Tradisom, de José Moças.
«Mantendo uma forte ligação à música tradicional portuguesa, sem no entanto se ficar pela recriação de temas do cancioneiro popular, "Meu Bem, Meu Mal" reúne um conjunto de originais bem apurados pelo trabalho conjunto do grupo e dos muitos músicos convidados, com destaque para José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, co-autor dos arranjos da maioria dos temas (oito em treze). Mas há mais cúmplices neste navegar: Amélia Muge (voz e autoria de duas letras), João Afonso (voz), Janita Salomé (voz e trancanholas), Rui Júnior (percussões), Manuel Rocha (violino), Rui Vaz (coros), Fernando Deghi (viola caipira), Edu Miranda (bandolim e guitarra acústica), o italiano Mimmo Epifani (bandolim e bandola), as bascas Sara e Maika Gomez (txalaparta), e muitos outros. Destaque para "Ó Minha Salve-Rainha", "Simples de Entender", "Vou Falar Contigo", "O Meu Bem", "Fado do Tu Cá Tu Lá" (Barros e David em impagável desafio, ao ritmo de um belo fado velho da Beira Alta), "Saias das Sete Saias" e, a fechar, a marítima e quase dolente "Canção do Marinheiro", onde a vocalização de José Barros se revela mais acertada que nunca.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 03.10.2008)
Apesar do estilo a que o Navegante nos havia habituado se encontrar bastante diluído, em virtude do maior peso das percussões e dos sopros (cite-se, a título de exemplo, a inconfundível tarota de José Manuel David no tema inaugural, "Não Quero Que Vás à Monda", a fazer evocar os Gaiteiros de Lisboa) e do vasto rol de participações, "Meu Bem, Meu Mal" é um trabalho muito digno e que confirma José Barros como um dos principais nomes da música portuguesa de raiz tradicional.

Alinhamento:
1. Não Quero Que Vás à Monda (Tradicional – Estremadura; adapt. José Barros)
2. Simples de Entender (Amélia Muge / José Barros)
3. Vou Falar Contigo (José Barros / José Barros)
4. Bandolando (instrumental) (José Barros)
5. Ó Minha Salve-Rainha (José Barros / José Barros)
6. O Meu Bem (Tradicional – Açores; adapt. José Barros)
7. Sábado d’Aleluia (Tradicional – Beira Baixa; adapt. José Barros)
8. Beijai o Menino (Tradicional – Trás-os-Montes; adapt. José Barros)
9. Bandolindo (instrumental) (José Barros)
10. Fado do Tu Cá Tu Lá (Amélia Muge / José Barros, sobre tema tradicional da Beira Alta)
11. Saias das Sete Saias (José Barros / José Barros)
12. Chula de Barqueiros (instrumental) (Tradicional – Douro Litoral; adapt. José Barros)
13. Canção do Marinheiro (Caetano Filgueiras / José Barros)

Músicos:
- Tema 1:
José Barros – voz, bandola e guitarra
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo e guitarras
Carlos Lopes – acordeão
José Manuel David – adufe e tarota
Miguel Tapadas – piano
Rui Júnior – adufe
- Tema 2:
José Barros – voz, viola braguesa e cavaquinho
Abel Batista – bateria, tímbales e caixa popular
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
Carlos Lopes – acordeão
João Ramos – violino
Rui Júnior – ferrinhos, tímbales e caixa popular
Rui Vaz, Joaquim Caixeiro, José Manuel David, João Ramos, Miguel Tapadas – coro
- Tema 3:
José Barros – voz, guitarras e viola braguesa
João Afonso – voz
Amélia Muge – voz
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo e guitarra
João Luís Lobo – bateria
José Manuel David – flautas e trompa
Rui Vaz, Joaquim Caixeiro, José Manuel David, João Ramos, Miguel Tapadas – coro
- Tema 4:
José Barros – bandolas e violas braguesas
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
Mimmo Epifani – bandolim e bandola
Giandomenico Carameil – tambura
Paulo Marinho – uillean pipe
Sara e Maika Gomez – txalaparta
Rui Júnior – darbukas
- Tema 5:
José Barros – voz, viola braguesa e cavaquinho
Abel Batista – bateria
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo e guitarras
Carlos Lopes – acordeão
João Ramos – violino
Rui Vaz, Joaquim Caixeiro, José Manuel David, João Ramos, Miguel Tapadas – coro
- Tema 6:
José Barros – voz e viola braguesa
Fernando Deghi – viola caipira
Manuel Rocha – violino
José Manuel David – sintetizador
- Tema 7:
José Barros – voz
Abel Batista – adufes
Rui Júnior – adufes e outras percussões
José Manuel David – trompa e adufes
Nuno Fernandes – tuba
Jorge Ribeiro – trompetes
- Tema 8:
José Barros – voz, bandola e guitarra
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
Carlos Lopes – acordeão
José Manuel David – acordeão e flautas
Sara e Maika Gomez – txalapartas
Rui Júnior – darbuka
Fernando Molina – percussões
João Luís Lobo – percussões
- Tema 9:
José Barros – bandolas, viola braguesa e cavaquinho
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
João Ramos – violino
Carlos Lopes – concertina
Fernando Deghi – viola caipira
Mimmo Epifani – bandolim
- Tema 10:
José Barros – voz, bandola e bandolim
José Manuel David – voz
Vaiss (Osvaldo Dias) – guitarras
Vasco Sousa – baixo acústico
Carlos Lopes – acordeão
João Ramos – violino
Mimmo Epifani – bandolim
Edu Miranda – bandolim
Rui Júnior – percussões
- Tema 11:
José Barros – voz, bandola e viola braguesa
Janita Salomé – voz e trancanholas
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
Carlos Lopes – acordeão
José Manuel David – flautas
Fernando Molina – cajón, bendir
João Luís Lobo – bilha e percussões várias
Rui Vaz, Joaquim Caixeiro, José Manuel David, João Ramos, Miguel Tapadas – coro
- Tema 12:
José Barros – violas braguesas e cavaquinho
José Manuel David – flauta
Vaiss (Osvaldo Dias) – baixo
João Ramos – violino
Carlos Lopes – concertina
Fernando Molina – tambura e castanholas
João Luís Lobo – bendir e castanholas
- Tema 13:
José Barros – voz e guitarras
Vaiss (Osvaldo Dias) – guitarras
Vasco Sousa – contrabaixo
Carlos Passos – violino
Luís M. Silva – violoncelo
Lurdes Miranda – violino
Fátima Rodrigues – viola de arco

Arranjos – José Barros e José Manuel David (1, 3, 4, 7, 8, 9, 12), José Barros (2, 5, 6, 10, 11) e José Manuel David (13)
Direcção musical – José Barros e José Manuel David
Produção – José Barros

Gravado, misturado e masterizado no Estúdio da Ribeira, Sintra, entre Julho e Dezembro de 2007
Gravação e misturas – João Magalhães e José Barros
Masterização – João Magalhães

Grafismo – Ivone Ralha
Fotos – Rui Moreno

URL:
http://web.mac.com/jbnavegante1
http://www.myspace.com/jbnavegante
http://palcoprincipal.sapo.pt/navegante
http://www.youtube.com/jobarnavega


Pé na Terra, de Pé na Terra
(CD, Açor/Emiliano Toste, 2008)



Sendo Portugal país berço duma vasta e rica tradição cultural e musical, é com tristeza que assistimos à sua desvalorização e indiferença por parte das entidades institucionais e governativas, talvez por um trauma histórico relativamente ao folclorismo salazarista. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Por isso, são sempre salutares os novos alentos que vão surgindo no panorama folk português, como é o caso do grupo portuense Pé na Terra, reivindicadores duma tradição renovada e actualizada. Com uma edição que prima pela originalidade, criatividade e elegância (e que nada tem a invejar a outros artistas mais consagrados), este primeiro disco homónimo destaca-se pelo trabalho de composição própria em praticamente todos os temas, com excepção de "Menino Ó", "Maria Faia" e "Balada do Sino" (os dois primeiros do cancioneiro popular português e o último de José Afonso, se bem que de inspiração tradicional), e mantendo uma linha estética ora mais tradicionalista como em "Passodoble de Vizela", ora um "Sentir" mais folk. Pé na Terra insere-se numa nova geração de músicos e grupos que se dedicam à recuperação de ritmos e danças de matriz europeia, e por isso não é de estranhar que no seu repertório apareçam algumas "importações aportuguesadas", como as valsas e as 'chapeloises', que nestes tempos que correm, já vão sendo cada vez mais nossas. A variedade melódica, harmónica e rítmica dos múltiplos instrumentos usados, desde a gaita-de-foles ao kerkebás, torna a sonoridade do grupo mais rica, variada e com distintas dinâmicas, fazendo deste disco uma obra-prima que se vai descobrindo (e fruindo) a cada audição. Apesar de terem um longo caminho à sua frente (assim esperamos!), este promete ser um dos colectivos que mais contribuirá para a defesa e divulgação da nossa música tradicional e folk, com a determinação de ter os "pés bem assentes na terra" e nas nossas raízes culturais. (ligeiramente adaptado de um texto de Sara Louraço Vidal, in "
Sons Vadios", 10.05.2009)
"Pé na Terra" é, a todos os títulos, um disco fabuloso de música de raiz portuguesa (embora incorporando as já citadas influências exógenas) e pode dizer-se, sem exagero, que constitui a maior revelação nacional da colheita de 2008. Aliás, a exemplo do que havia acontecido com o CD "Parainfernália", do grupo Diabo a Sete, no ano precedente. Não deixa de ser curioso é que ambos os álbuns tenham a chancela da mesma editora, a Açor, de Emiliano Toste. Tendo a música tradicional sido totalmente enjeitada pelas 'majors' e, mais ou menos directamente relacionado com isso, também arredada das principais rádios nacionais, é de louvar e de enaltecer o empenho e a acção meritória destes pequenos editores, como Emiliano Toste, pelo amor e carinho que devotam à música de matriz tradicional. Mas voltando aos Pé na Terra, afirmar-se que o seu disco homónimo e primeiro é um trabalho primoroso peca por laconismo. Mais do que um álbum notabilíssimo (o que não é dizer pouco de um registo de estreia), "Pé na Terra" é um radiante hino à música, um festival à arte dos sons, daquela arte que irradia alegria e jovialidade e que nos convida a entrar na festa. Por tudo isto, não hesito em considerar este álbum o mais sério candidato ao Prémio José Afonso de 2009. Aliás, o grupo não deixa de prestar o seu tributo ao autor de "Cantares do Andarilho", não só recuperando dois espécimes do seu repertório – "Balada do Sino" e "Maria Faia" (em versões de belo efeito) – como aproveitando para rematar o primeiro daqueles temas com um excerto de uma entrevista de Zeca, em jeito de repto à juventude, que se na época fazia sentido ainda mais o faz actualmente: «É que de facto os jovens, por vezes, não se destacam do sistema. Limitam-se a constatar que não há saídas. Essa atitude tem de ser modificada e são eles que têm de a modificar. Se for preciso partir a louça, escavar tudo isto, acabar com a burocracia para criar uma sociedade diferente, eles que o façam! Partam mesmo a louça!»

Alinhamento:
1. Menino Ó (Tradicional portuguesa)
2. Valsa Verde (instrumental) (Ricardo Coelho, Cristina Castro e Tiago Soares)
3. Salpicos (instrumental) (Pé na Terra)
4. Balada do Sino (José Afonso)
5. Sentir (Cristina Castro / Ricardo Coelho, Hélio Ribeiro e Adérito Pinto)
6. Pedrinhas (que a terra faz cantar) (Cristina Castro)
7. Maria Faia (Tradicional portuguesa)
8. Passodoble de Vizela (instrumental) (Ricardo Coelho)
9. Valsa Nova (instrumental) (Ricardo Coelho, Cristina Castro e Tiago Soares)
10. Chapeloise (instrumental) (Tânia Pires)
11. Raio de (um) Sol (Cristina Castro)
12. Pur la Terra (instrumental) (Ricardo Coelho e Tiago Soares)
13. Sete (Tiago Meireles / Hélio Ribeiro)

Pé na Terra:

Cristina Castro – voz (1, 4-7, 9, 11), acordeão (2-4, 8-10), concertina (9)
Ricardo Coelho – tarota (1), gaita-de-foles galega (1, 2, 7, 8, 10), gaita-de-foles mirandesa (5, 12), flautas doces (2, 6, 7, 10), flauta transversal (9), low whistle (3), requinta (4), gralha (4), ponteiro (6)
Hélio Ribeiro – guitarra folk (1-7, 9-11), voz (5-7)
Adérito Pinto – baixo (1-7, 9, 10)
Tiago Soares – bateria tradicional (1-7, 9, 10), adufes (1, 7), ocean drum (2), berimbau (2), percussões finas (2, 3, 6, 9), darbuka (3, 10), sansula (4), tar (6), bilha (6), bombo galego (8), trancanholas (9), kerkebás (10, 12), caixa de Guimarães (12), bombo (12), címbalos (12)

Músicos convidados:
Dulce Moreira – voz (1)
Silvana Dias – violoncelo (1, 2, 4-6, 9)
Maria Xosé Lopez – sanfona (8), voz (8) e pandeireta (8)
Patrícia Cela – tambor galego (8)
Tânia Pires – melódica (10)
Antony Fernandes – gaita-de-foles mirandesa (12)
Patrícia Miranda – voz (13)
Tiago Meireles – voz (13)

Arranjos – Pé na Terra, excepto nos temas 11 (Hélio Ribeiro) e 12 (Ricardo Coelho e Tiago Soares)
Produção e mistura – Pé na Terra

Gravado nos Estúdios Toste, São Mamede de Infesta, entre Novembro de 2007 e Março de 2008
Gravação, mistura e masterização – Emiliano Toste

Design – Pedro Soares e Hélder dos Santos
Ilustração – Anisabel Fernandes

URL:
http://www.penaterra.com/
http://www.myspace.com/penaterra
http://palcoprincipal.sapo.pt/pe_na_terra


Fol&Ar, de Fol&Ar
(CD, Edição de Autor, 2008)



«Nascemos em 2006, fruto de um conjunto de felizes circunstâncias que apresentaram duas concertinas, um violino e um contrabaixo a quatro músicos apaixonados pela música e danças tradicionais. Nos nossos primeiros espectáculos apresentávamos já alguns temas originais, aos quais juntávamos um vasto leque de músicas tradicionais oriundas de Espanha, França, Reino Unido, Israel e, naturalmente, Portugal. A grande receptividade junto do público conduziu-nos a uma viagem do Norte ao Sul de Portugal, em mais de quarenta concertos e bailes no primeiro ano de existência. Ao longo deste percurso, e ao mesmo tempo que construíamos um repertório de originais inspirados em danças tradicionais, deixámo-nos também encantar por outros instrumentos que se juntaram ao conjunto: a harpa, a gaita-de-foles, o banjo e a sanfona. Entre Janeiro e Julho de 2008, gravámos em Lisboa o nosso primeiro trabalho discográfico que agora apresentamos ao público. Composto integralmente por temas originais, o CD conta ainda com as participações especiais de Ana Lúcia Palminha (voz), Alexandre Matias e Duda Amaro (percussões) e foi produzido por Nuno Gelpi e por nós próprios.» (Fol&ar)
Uma das grandes estreias discográficas, na área da música tradicional, é este álbum do grupo Fol&ar. Um trabalho de extraordinário bom gosto expresso em onze temas, belíssimos e contagiantes, em torno das danças europeias, ora com um carácter mais efusivo como em "Pólvora no Olhar" e "Malhão da Graça", ora com um pendor mais contemplativo – "Baú Vermelho" e "21 Gramas" – duas composições em que a harpa celta está em evidência e mostra todo o seu sortilégio de nos encantar. Peças musicais de uma rara beleza e que emanam um tocante lirismo! Pena é que a harpa, tendo um dos mais belos timbres que se conhece, seja tão pouco utilizada na música portuguesa. Mas adiante!
Com este notável trabalho, o grupo Fol&ar afirma-se – não hesito em dizê-lo – um dos projectos mais interessantes do panorama musical português. Falta-lhe apenas a exposição mediática que a qualidade do seu trabalho merecia e aqui terão de se questionar os critérios de programação musical em vigor nas rádios e televisões nacionais, em particular nas do sector público. O que está em foco é disco, mas importa não esquecer que é ao vivo, no contacto com o público, que este repertório, pela sua peculiaridade de apelo à dança, atinge a sua verdadeira dimensão. Para explicitar esta ideia, não resisto a citar um depoimento de Margarida Agostinho: «Conhecemos os Fol&ar quase desde o início da sua formação, tendo já tido oportunidade de trabalhar com este grupo em contextos performativos tais como intervenções artísticas urbanas, onde pudemos reconhecer a grande qualidade do seu trabalho, quer em termos musicais quer na sensibilidade da relação com o público e na cumplicidade com as pessoas que dançam as músicas que apresentam nos seus espectáculos. O seu trabalho de recolha e pesquisa de músicas de raiz tradicional nas quais baseiam as suas próprias composições originais, associadas a danças populares de diversas regiões da Europa, e integrando diferentes instrumentos e sonoridades, revela-se-nos fundamental para a alimentação de um património vivo e em constante actualização, fazendo a ponte entre o passado e o presente. Encontramos nos espectáculos que os Fol&ar têm vindo a apresentar ao longo destes dois anos a capacidade de contribuir, com o trabalho que desenvolvem, para a continuidade das músicas e das danças tradicionais nomeadamente portuguesas, permitindo assim a revisitação de um espólio musical que consideramos incontornável.» (Margarida Agostinho, Gestão Artística do C.E.M - Centro Em Movimento, 2008)

Alinhamento:
1. Tocandare (hanter dro) (João Salvado)
2. Pólvora no Olhar (círculo circassiano)
3. Valsas e Mazurcas para Quê? (mazurca)
4. Carmo 3 da Manhã (valsa de 3 tempos)
5. Malhão da Graça (malhão)
6. Íntima Insatisfação (valsa de 8 tempos)
7. Baú Vermelho (bourrée de 3 tempos) (Maria Côrte)
8. Caracol da Graça (mazurca) (João Salvado)
9. Valsa do João sem Medo (valsa de 5 tempos)
10. Gatafunho (bourrée de 2 tempos)
11. 21 Gramas (mazurca) (Maria Côrte)

Músicas de Hugo Lopes, excepto onde indicado.
Arranjos de todos os músicos.
As letras dos dois temas cantados – "Valsas e Mazurcas para Quê?" e "Malhão da Graça" – são de Hugo Lopes, que partilha a autoria da segunda com João Salvado.

Fol&ar:
Hugo Lopes – concertina (1, 3-6, 8-10), banjo (2, 7, 11)
João Salvado – concertina (1, 3-10), sanfona (2)
Maria Côrte – violino (1-6, 8-10), harpa celta (7, 11)
Miguel Gelpi – contrabaixo (todos os temas)

Músicos convidados:
Ana Lúcia Palminha – voz (3, 5)
Alexandre Matias – cajón (2, 5), percussões (2, 5, 7)
Duda Amaro – ferrinhos (5)

Produção – Nuno Gelpi e Fol&ar

Gravado nos "Estúdios Panteão", Lisboa, entre os meses de Janeiro e Julho de 2008
Misturas e masterização – Nuno Gelpi

Ilustrações – Inês Amaro
Design – Filipa Teixeira e Inês Amaro

URL:
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Escarpa, de Mandrágora
(CD, Hepta Trad, 2008)



Há três anos, não tive qualquer problema em afirmar que o álbum de estreia dos Mandrágora havia sido o disco mais surpreendente gravado por músicos portugueses, da colheita de 2005 (distinguido no ano seguinte com o Prémio Carlos Paredes). O projecto de Filipa Santos, Ricardo de Noronha, Pedro Viana, Sérgio Calisto e João Serrador oferece-nos uma visita guiada a uma "Escarpa" que o coloca muito acima daquilo que se chama muito simplesmente de música tradicional portuguesa. Primeiro, porque é muito redutor aplicar tal rótulo a este projecto. "Escarpa" é o resultado do amadurecimento criativo e do balizar das excelentes indicações deixadas no primeiro disco. Há o acentuar do drone do violoncelo, nickelharpa e moraharpa de Sérgio Calisto (que também trouxe outra consistência aos Mu); o constante vai-acima-vai-abaixo (típico de projectos pós-rock como Gybe!); o formato mais encorpado (e menos frágil) da sonoridade dos Mandrágora, quer pelo maior uso do saxofone de Filipa Santos (é pena haver menos espaço para as flautas que emanam orvalho à densa floresta que se abre) quer pela intensidade do baixo de João Serrador (excelente aquisição que veio dar uma tonalidade muito mais dinâmica e roqueira à banda), que não absorvem os momentos cintilantes da muito bem dedilhada guitarra clássica de Pedro Viana; um inesperado e exemplarmente bem metido solo de bateria de Ricardo de Noronha em "Erva-moura"; a agradável surpresa de ouvirmos Francisco Silva (da banda Old Jerusalem) cantar em português "Ó montes erguidos / deixai-os cair / deixai-os sumir / e ser destruídos / pois males sentidos / me dão tanta guerra / por ver minha terra.", na única canção do disco, "Abaixo Esta Serra" (baseada num poema de Francisco de Sousa, constante no "Cancioneiro Geral", de Garcia de Resende); os urrares demoníacos com que Helena Madeira (ex-Dazkarieh, actualmente no Projecto Iara) nos brinda no último tema ("Turbilhão"), cujo exercício vocal (também empregue no álbum "Casa Nostra" dos Mu) se assemelha a uma "spell song" retirada do épico finlandês "Kalevala". (ligeiramente adaptado de um texto de Luís Rei, in
Crónicas da Terra, 19.03.2008)

Alinhamento:
1. Candelária
2. Picões do Diabo
3. Baile do Escangalhado
4. Cubo
5. Mija-velhas
6. Abaixo Esta Serra
7. Erva-moura
8. Ó Que Calma Vai Caindo (Cantiga da Ceifa)
9. Escancaras
10. Odelouca
11. Malagrado
12. Tardo
13. Turbilhão

Músicas de Mandrágora, excepto "Ó Que Calma Vai Caindo" (tradicional de Casegas, Covilhã – Beira Baixa).
A letra de "Abaixo Esta Serra" foi adaptada por Mandrágora e Francisco Silva de um poema original de Francisco de Sousa (in "Cancioneiro Geral", de Garcia de Resende, 1516).

Mandrágora:
Filipa Santos – saxofone (1-5, 7, 9, 11-13), gaita-de-foles (1, 7, 9, 10, 13) e flauta (6)
Pedro Viana – guitarra clássica (1-7, 9-13)
Sérgio Calisto – bouzouki (1, 4-7, 11-13), moraharpa (2, 8, 9), violoncelo (3, 10) e nickelharpa (7, 8)
João Serrador – baixo (1-7, 9-13)
Ricardo de Noronha – bateria (1-7, 9-13), adufes (6, 8) e percussões (12)

Músicos convidados:
Francisco Silva – voz e guitarra (6)
Simone Botasso – acordeão diatónico (3, 11, 12)
Matteo Dorigo – sanfona (11)
Helena Madeira – voz (13)

Produção – Joaquim Azevedo e Mandrágora
Produção executiva – Hepta Trad

Gravado nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Novembro e Dezembro de 2007
Técnicos de Som – Joaquim Azevedo e Fernando Rangel

Grafismo – Ricardo de Noronha
Fotografia – Jorge Casais (
http://www.jorgecasais.com/)

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Casa Nostra, de Mu
(CD, Edição de Autor, 2008)



«De onde é que vem esta música que não se sabe bem de onde vem?... Nos Mu – e, recorde-se, Mu era o nome de um mítico continente perdido, terra de atlantes, sereias e outros seres míticos – a música parece vir de todo o lado e de um lado só deles, dali de dentro, das suas almas e dos seus corações. Se calhar, os Mu recriam sem o saberem temas tradicionais de Mu, o continente do Oceano Pacífico onde se teriam cruzado povos ainda agora existentes e outros que deixaram de existir, seres verdadeiros e imaginários, se é que a verdade e a imaginação não são uma e a mesma coisa, como o são na música dos Mu. Porque uma música que tem tanto de verdade como de... imaginação. E uma alegria e um brilho imensos, um encanto permanente tanto nos temas originais – mas que reflectem tantas e tantas músicas de tantos e tantos lugares! – como nas versões de tradicionais russos ou húngaros. A música dos portuenses Mu serve para dançar, serve agora ao segundo álbum (este "Casa Nostra" em que tem como colaboradores Helena Madeira, do Projecto Iara, o grupo de percussões Semente, e Quico Serrano como produtor) como já servia ao primeiro, mas serve também para ensinar a ouvir – a ouvir a sua música e a de muitos outros. E isso é o que torna os discípulos mestres.» (António Pires, in "
Raízes e Antenas", 11.06.2008)

Alinhamento:
1. Karpa
2. Oi Na Gori (Tradicional russa; arr. Sophie Kalisz e Diana Azevedo)
3. Carrossel (Diana Azevedo e Sophie Kalisz; arr. Mu)
4. Casa Nostra
5. Circlone
6. Chapeloise de Astérix
7. Ayla
8. Emma Kalisz (Sophie Kalisz; arr. Sophie Kalisz, Diana Azevedo e Sara Barbosa)
9. Mog'ur
10. Saltimbanco
11. Miosótis (Diana Azevedo e Nuno Encarnação; arr. Mu)
12. Iara (Quico Serrano e Helena Madeira)
13. Viens ma fleur (Tradicional húngara; arr. Sophie Kalisz)

Músicas de Hugo Osga, excepto onde indicado.
Arranjos do colectivo Mu, excepto onde indicado.

Mu:
Hugo Osga – bulbul tarang, didgeridoo, flauta, bombo, tarola, triângulo, bilha, buzina, flauta de êmbolo, pratos
Nuno Encarnação – tabla, bombo, darbouka, adufe, tamborelo, percussões pequenas
Diana Azevedo – violino, voz, shagatis, kazu
Sara Barbosa – contrabaixo
Sérgio Calisto – violoncelo, moraharpa, bouzouki, nickelharpa
Dulce Cruz – acordeão
Sophie Kalisz – acordeão, voz

Participações especiais:
Helena Madeira – voz (1, 11, 12)
Semente (Paulo das Cavernas, Eva, Andrés "Pancho" Tarabbia, Zé Puto, Márcio Pinto, Luís Lopes) – percussão (10)
Quico Serrano – sintetizador (1, 12) e voz (2)

Produção – Quico Serrano

Gravado no Estúdio da Aguda, Vila Nova de Gaia, entre as Primaveras de 2007 e 2008
Gravação, mistura e masterização – Quico Serrano
Assistência de gravação e edição – Miguel Moreira
Assistência de mistura – Pedro Moura

Fotografia – Hugo Lima
Design gráfico – Paulo Gomes

URL:
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http://www.myspace.com/muuuuuu


Coisas do Ser e do Mar, de Contrabando
(CD, AE-Artes do Espectáculo, 2008)



«Depois de "Fresta" (2000), o Contrabando volta ao convívio musical e criativo através do lançamento do álbum "Coisas do Ser e do Mar". Integralmente composto por temas originais, nele poderemos encontrar interpretações de poemas de Fernando Pessoa, Agostinho da Silva, Branquinho da Fonseca e Ary dos Santos. Neste novo trabalho o grupo afasta-se um pouco mais dos sons e dos instrumentos tradicionais, em busca de uma originalidade musical que se antevê e que se reconhece. Um projecto que é cada vez mais uma intervenção original e singular, determinante das suas próprias fronteiras, de acordo com a criatividade e sensibilidade artística, universalista, dos seus membros e autores. Como se pode ouvir nos temas que compõem este disco, o grupo mantém a interpretação característica da voz de Nuno Cabrita e junta a tudo isto uma secção rítmica mais consistente, sem desvirtuar a sonoridade do grupo bem representada no trabalho anterior, bem alicerçada na voz e na interpretação, nas guitarras e nas características construções harmónicas. Continuamos a distinguir o som da viola campaniça, instrumento que parece constituir-se como elemento fundamental na característica sonoridade do Contrabando. Atenuam-se os sons do Alentejo, acentuam-se os sons da lusofonia e a ideia de uma nova música portuguesa, gerada aonde terá sempre que ser, no seio dos seus compositores, autores e músicos, numa qualquer paisagem portuguesa, multicultural e cheia das influências do império.» (Contrabando)
Não me atrevo a considerar este novo álbum do grupo eborense Contrabando superior a "Fresta" (que Rafael Correia me deu a conhecer no seu – e nosso – "Lugar ao Sul"), mas não deixa de ser um trabalho em que vale a pena atentar. Tem momentos de grande nível, a começar pelo célebre "Mar Português", quiçá a melhor versão que até hoje foi feita por portugueses. Os temas "Ontem sonhei que sonhava" (sobre poema de Agostinho da Silva), "Sim, vem um canto na noite" (sobre poema de Fernando Pessoa) e "O arquipélago das sereias" (sobre poema de Branquinho da Fonseca parafraseando a história da Nau Catrineta) são igualmente excepcionais, quer pelo desempenho vocal de Nuno Cabrita quer pelos refinados arranjos instrumentais. O próprio poema de cunho panfletário de José Carlos Ary dos Santos ("Não passam mais") que há uns anos poderia parecer datado, voltou a fazer muito sentido nos dias que correm.

Alinhamento:
1. Mar Português (Fernando Pessoa / Henrique Lopes)
2. Divido o que conheço (Fernando Pessoa / Henrique Lopes)
3. Ontem sonhei que sonhava (Agostinho da Silva / Henrique Lopes)
4. Sim, vem um canto na noite (Fernando Pessoa / Henrique Lopes)
5. Falésia urbana (prelúdio) (instrumental) (Carlos Menezes)
6. Falésia urbana (instrumental) (Henrique Lopes)
7. Quando é que o cativeiro (Fernando Pessoa / Henrique Lopes e Nuno Cabrita)
8. Aqui onde me vês (Alice Pereira / Nuno Cabrita)
9. Se estou só (Fernando Pessoa / Henrique Lopes)
10. Não passam mais (José Carlos Ary dos Santos / Nuno Cabrita)
11. O arquipélago das sereias (Branquinho da Fonseca / Henrique Lopes)

Contrabando:
Nuno Cabrita – voz (1-4, 7-11), guitarras acústicas (8, 9, 10), palmas (10), bilha (11)
Henrique Lopes – guitarras acústicas (1, 2, 4, 10), viola campaniça (1, 3, 6), guitarra acústica de 12 cordas (7, 11), guitarra eléctrica (9)
Carlos Menezes – baixo eléctrico (1-3, 6, 9-11), contrabaixo (3, 4, 5)
Valter Passarinho – percussão (1-3, 6, 9-11), bateria (3, 6), palmas (10)

Músicos convidados:
Rui Gonçalves – bateria (1, 2, 9-11)
António Cordeiro – flauta transversal (4), saxofone barítono (11)
Nuno Rufino – saxofone soprano (10)

Direcção musical – Nuno Cabrita, Henrique Lopes e Carlos Menezes
Produção – AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Produção executiva – Nuno Cabrita & AE-Artes do Espectáculo, Lda.

Gravado, misturado e masterizado entre Junho e Dezembro de 2005
Captação de som – António Cordeiro, no Estúdio d’Aldeia, São Marcos-Cacém & Carlos Menezes, no CM Estúdio, Évora
Mistura – António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d’Aldeia, São Marcos-Cacém
Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d’Aldeia, São Marcos-Cacém

Design gráfico e fotografia – Milideias-Comunicação Visual, Lda.

URL:
http://contrabando.com.sapo.pt/
http://www.myspace.com/contrabandoonline
http://palcoprincipal.sapo.pt/contrabando


De Sol a Sul, de Francisco Naia
(CD, FNT Produções, 2008)



Três anos depois de "Cantes d’Além Tejo" (2005), Francisco Naia regressa com um trabalho discográfico novamente direccionado para o Sul, onde Sol e Sul coabitam num espaço de intimidade e afectos, num espaço de inquietação, sempre presente na alma dos alentejanos (e são mais de 500 mil, os homens e mulheres que deixaram a sua terra e se instalaram na área Metropolitana de Lisboa). Espaço de inquietação porque os naturais da grande planície transtagana teimam em não perder as suas raízes de uma milenar cultura mediterrânica, onde o peso da ruralidade se manteve ao longo dos séculos, onde o céu ainda mergulha na terra por entre o sibilino zumbido dos insectos ao lusco-fusco. Uma ruralidade em que os espaços de silêncio e reflexão estão pintalgados de vilas e de pequenas e médias cidades onde a febre devastadora da urbanização incaracterística felizmente ainda não chegou, e não pereceram as hortas e os vinhedos que rodeiam e abastecem os aglomerados urbanos. Pior sorte teve a cintura suburbana de Lisboa (região saloia e margem Sul do Tejo), e é nela que vive meio milhão de alentejanos, entre a saudade da terra que de facto já não é a sua e a vida refeita nos arredores da grande Cidade. Francisco Naia é disso um vivo testemunho pois tendo nascido na estação ferroviária de Ourique-Gare, em pleno Baixo Alentejo, foi ainda na juventude que se radicou no Barreiro, para prosseguir os estudos secundários e universitários (formar-se-á em Línguas Germânicas). A partir de 1969, surge a vivência geracional com os artistas e cantores que lutavam contra o regime ditatorial e a guerra colonial, e o cantor nunca deixou de partilhar os anseios e os ideais daqueles que com o seu canto, a sua arte, o seu empenho e a sua generosidade abriram os caminhos de Abril; desse movimento único que teve em José Afonso o génio maior e o "pai espiritual" (Francisco Naia fora aluno de Zeca em Aljustrel, no início dos anos 60, e reencontrá-lo-ia precisamente por essa altura). Uma geração de cantores e autores que deu à música popular portuguesa os seus nomes maiores e algumas das melhores vozes do nosso panorama musical, entre elas a de Francisco Naia. Já escrevi a respeito do disco anterior e reafirmo: Francisco Naia, com a sua pujante voz de tenor, assume-se em toda a sua plenitude como cantor do Sul e intérprete privilegiado do cante, agora usando uma linguagem mais elaborada, mas nunca perdendo de vista as raízes que mergulham no Alentejo profundo. Disso são bons exemplos temas como "Há Uma Rosa Vermelha" ou "A Deusa da Planície".
"De Sol a Sul" caracteriza-se também pelo uso de uma rica e vasta paleta instrumental, sendo de notar o extenso leque de instrumentos de percussão portugueses (adufes, bilhas, etc.) e magrebinos (bendir, darbuka, bongós marroquinos, etc.) habilmente tocados por Nuno Faria – daí poder falar-se, com toda a propriedade, de percussão luso-árabe. Com temas da autoria de Francisco Naia (letra e música), excepto no já referido "Há Uma Rosa Vermelha" (poema de Joaquim Pessoa) e em "Se já não me lembro se..." (música de Ricardo Fonseca), neste registo o autor/intérprete fez-se ainda rodear de outros excelentes músicos: José Carita e Ricardo Fonseca nos instrumentos de corda dedilhada (viola campaniça, guitarra acústica, bandolim, cavaquinho), Gil Pereira no contrabaixo, e Jorge Costa no saxofone soprano e flauta transversal. Com uma cuidada produção e direcção musical de Ricardo Fonseca e Nuno Faria, e mantendo-se a voz de Francisco Naia em excelente forma (ouça-se o belíssimo "Olhar de Mocho"), "De Sol a Sul" representa um passo em frente, justamente pela bem conseguida realização plástica de uma musicalidade nova e multifacetada, onde a diversidade de influências e as raízes genuínas se conjugam numa surpreendente harmonia. Um trabalho onde a tradição renovada marca o ritmo e o rumo. (adaptado de um texto de Eduardo M. Raposo, in revista "Memória Alentejana", Dezembro de 2008)

Alinhamento:
1. Nada sei, tudo sei
2. Balada do Cais da Pipa
3. A Deusa da planície
4. As Trovas do Brasil
5. Bendito Maio, bendito!
6. Se já nem me lembro se... (Francisco Naia / Ricardo Fonseca)
7. Há uma Rosa Vermelha (Joaquim Pessoa / Francisco Naia)
8. Sou Alentejano
9. O Farol de Cacilhas
10. Olhar de Mocho

Letras e músicas de Francisco Naia, excepto onde indicado.

Músicos:
Francisco Naia – voz
Ricardo Fonseca – viola campaniça (1, 6); viola (2-5, 7-10), bandolim (2); cavaquinho brasileiro (4); palmas (6).
José Carita – viola (3, 5, 7 e 8); bandolim e cavaquinho português (4).
Gil Pereira – contrabaixo (todos os temas, excepto 9); copos (1); palmas (6); bilha e caixa de areia tradicional portuguesa (7).
Jorge Costa – saxofone soprano (2, 5, 7, 8 e 10); flauta transversal (3, 4, 6 e 9); palmas (6).
Nuno Faria – viola com ebow, adufes, bendir e castanholas (1); bendires, bilhas, darbukas, bongós marroquinos, craclas, maracas, tambor e pratos (2); adufes, darbuka, craclas e castanholas (3); tímbalos, tarola, pratos, bendir, pandeireta e chocalho (4); darbuka, adufe, craclas, castanholas, maracas (5); adufes, bendir, sagaths e palmas (6); adufes, djembé, bilha e pratos (7); adufes, darbuka, talking drum, vento, canas e pratos (8); adufes, bilhas e bendir (10).
Célia e Ana Tomás – coros (4)
Célia, Ana Tomás, José Carita e Nuno Faria – coros (7)
Direcção de coros – José Carita

Arranjos – Ricardo Fonseca, Nuno Faria e Gil Pereira (1); Ricardo Fonseca, Nuno Faria, Gil Pereira e Jorge Costa (2, 3, 5, 6, 8, 10); Ricardo Fonseca, Nuno Faria, Gil Pereira, Jorge Costa e José Carita (4, 7); Ricardo Fonseca e Jorge Costa (9)
Produção e direcção musical – Ricardo Fonseca e Nuno Faria
Produção executiva – Nuno Faria e Ricardo Fonseca

Gravado nos Tintim Estúdios, Barreiro, por Miguel Medeiros, entre Outubro de 2006 e Dezembro de 2007
Misturado e masterizado nos Estúdios MDL, Paço d’Arcos, por Fernando Abrantes, entre Janeiro e Março de 2008

Design da capa – Teresa Esteves
Fotografias – Pedro Soares

URL:
http://www.francisconaia.com/
http://www.myspace.com/francisconaia


Sensual Idade, de Pedro Barroso
(CD, Ovação, 2008)



A par da portugalidade, a mulher, ou mais assertivamente, o eterno feminino constitui uma das temáticas fulcrais da obra de Pedro Barroso. Na fase inicial da sua carreira, nos anos que precederam e se seguiram ao 25 de Abril, pelas contingências do momento histórico que então se vivia, o seu olhar de autor, compositor e intérprete foi mais marcadamente interventivo e imediatista, incidindo sobretudo em questões de ordem social, laboral e ambiental, pelo que a área mais poética do amor ficou à margem. Aliás, nessa época, alguém que se atrevesse a fazer canções de amor correria o sério risco de ser acusado de reaccionário e de burguês acomodado. Por isso, não admira que só em 1978, no álbum "Água Mole em Pedra Dura", surja um tema de carácter amoroso, "Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo" (poema de José Saramago), o que, diga-se de passagem, faz de Pedro Barroso, depois de Luís Cília e Manuel Freire, um dos primeiros intérpretes a cantar o autor de "Os Poemas Possíveis", numa altura em que ele estava longe de atingir a reputação literária que hoje todos lhe reconhecem (o Prémio Nobel só viria duas décadas mais tarde). "Maria Mal Amada" e "Palavras a uma coisa amor" são os temas do álbum subsequente ("Quem Canta Seus Males Espanta", 1980) em que a mulher, ainda que em perspectivas diferentes, volta a merecer a atenção do cantautor. Mas é nos três álbuns posteriores ("Cantos à Terra Madre", 1982; "Do Lado de Cá de Mim", 1983; "Cantos da Borda d’Água", 1984), que a mulher adquire maior presença no seu repertório, com uma série de temas centrados no feminino predominantemente de cariz popular, em tom alegre e jovial às vezes a roçar o jocoso – "Cantar Brejeiro", "Ai Consta", "Eu Hei-de, Meu Bem, Eu Hei-de", "Romance de Almeirim", "A Ida ao Mercado", "Fado da Charneca". Apesar da grande aceitação que este género repertório obteve junto do público, Pedro Barroso resolveu não continuar nessa senda e envereda por um caminho de maior exigência e aprimoramento poético-musical que alguns temas insertos naqueles discos já deixavam antever. Citam-se "O Ramalhete Rubro das Papoulas" (sobre poema de Cesário Verde), "Menina dos Olhos d’Água" (ainda hoje o seu tema mais emblemático) e sobretudo o belíssimo "Setembro", cujo poema a dado passo reza assim: «Foste mais que a madrugada / Que nos dá luz e nos guia / Foste a espera ansiada / Foste maré, foste vaga / Minha cheia, minha estrada / Minha manhã de alvorada / Minha razão de ser dia». Assim, é muito naturalmente que surge o álbum "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher" (1986), que como o nome indica se centra em duas temáticas: a portugalidade e a mulher (não por acaso, todos os temas do alinhamento têm nomes femininos). A amante, a companheira, a confidente e também a mulher só (nesse retrato terno e humano que é "Noite") todas elas tem lugar neste belíssimo trabalho, sem dúvida alguma, um dos pontos mais altos da discografia de Pedro Barroso e que marca o início de uma nova etapa no seu percurso artístico, tornando-o um dos maiores autores/compositores/intérpretes da música portuguesa. "Anúncio Confidencial" e "Música de Mar" (in "Pedro Barroso", 1988), "Excesso" e "Eterno" (in "Longe d’Aqui", 1990), "Ai, Mulher!", "Amor Antigo" e "Rugas" (in "Cantos d’Oxalá", 1996), "Jardim de Poetas", "Violentíssima Ternura", "Maria Montanha", "Crónica da luxúria por dizer", "Se esse homem", "Canção de Amante" (in "Crónicas da Violentíssima Ternura", 2001), "Ainda bem que era amor", "Facturas do Futuro", "Amor Tranquilo", "Existe uma Mulher" e "Noite de Afago" (in "Navegador do Futuro", 2004) somam um soberbo rol de temas de tributo à mulher, afirmando Pedro Barroso um extraordinário poeta do feminino e talvez o que melhor cantou, no seio da música portuguesa, essa metade da Humanidade, genericamente designada de belo sexo.
Aprofundando uma ideia já ensaiada no álbum "Crónicas da Violentíssima Ternura", com o capítulo "Das Mulheres", o artista decide fazer um disco temático em torno da sexualidade/sensualidade a que dá o título de "Sensual Idade". Mas ao contrário do que o desenho da capa com a bolinha vermelha possa sugerir, não estamos propriamente em presença de uma obra obscena ou pornográfica. À parte os dois poemas recitados ("O Pintor e a Bailarina" e "O Sexo Comanda a Vida"), em que a linguagem é, por assim dizer, mais directa e explícita (ainda assim muito longe do registo obsceno), nos restantes temas a música e a sofisticação poética acabam por suavizar, em grande medida, o eventual melindre dos tópicos abordados. Porque é fina poesia a que o autor nos oferece em "Sensual Idade", apesar do assunto facilmente se prestar a excessos de linguagem, digo, ao palavrão. Aqui o bom gosto e o requinte a que o poeta Pedro Barroso nos havia habituado continuam a ser a marca distintiva, embora recorrendo mais à forma da canção com refrão. E é precisamente neste ponto que "Sensual Idade" fica a perder quando comparado com álbuns anteriores ("Longe d’Aqui" ou "Navegador do Futuro", por exemplo), onde o artista deu largas ao registo discursivo em que se tornou mestre imbatível em Portugal. No que à componente musical diz respeito, além do acordeão, do piano, do violoncelo e das cordas dedilhadas (violas acústicas e guitarra portuguesa), sempre presentes – e muito bem – nos trabalhos de Pedro Barroso, realço as belíssimas secções com o(s) violino(s) de Manuel Rocha (da Brigada Victor Jara).
Num texto incluso no álbum, Pedro Barroso apresenta-nos "Sensual Idade" nestes termos: «Este CD destina-se a um público adulto. Aborda a sensualidade e suas múltiplas variantes no complexo e sempre insondável sentir humano. Íntima e imprevisível escolha, até para mim. Tentei manter em tão susceptível e melindrosa matéria, uma abrangência que é filha da muita idade, experiência e alguma observação. Com ironia, abertura de espírito, elevação e tolerância, espero. Apesar de procurar sempre um traço fino, poético e elegante, este trabalho pode, no entanto, ferir susceptibilidades mais conservadoras, ou pessoas de menor idade. Aconselha-se urna audição prévia responsável, para que não existam choques de acordo com padrões éticos pessoais ou critérios educacionais. Se ensinou os seus filhos a acreditar que os bebés são entregues por cegonhas, esqueça. A avó de província que já só reza o terço deve ser também carinhosamente afastada da sala durante a audição de alguns temas de lubricidade mais explícita. Mas descanse. Nunca se cai no detalhe, nem na grosseria. Não faria a minha cara. E vai divertir-se. A vida é curta. Portanto, sente-se. Goze. A função vai começar.
É permitido fumar, pensar, beber, sonhar ou sorrir. Ponha a mesa. Vá buscar aquele presunto de Chaves e o tal Serra amanteigado. Pão e vinho alentejanos, por favor. Ou, para paladares mais cosmopolitas, uísque velho, cognac, Portos vintage. Reservas secretas envelhecidas em cascos da vida. Talvez simples água fresca da fonte, flores, perfumes, toalhas de linho, velas acesas. Chocolates para as senhoras; charutos para os cavalheiros. Ou vice-versa, porque não? Seja indulgente consigo por uma hora. Usufrua este CD com gula, atenção e encanto. Leia e escute. Convide os amigos. Apague a televisão. Aproveite. Um dia vai ter saudades deste tempo e modo de ouvir e deste sentir saboroso e diferente. Avisos da Lei devidamente efectuados. Agora desfrute, ame e viva. E escolha, em livre mente, do cardápio, tudo o que quiser, ao melhor gosto da sua sensual idade. E receba o meu abraço.» (Pedro Barroso)

Alinhamento:
1. Tão Mulher
2. O Cheiro
3. Amantes Clandestinos
4. Em Sagres
5. Allumeuse
6. Caderno Preto
7. Swing
8. Sítio Errado
9. O Voyeur
10. Homem
11. Carnaval
12. As Amazonas
13. O Pintor e a Bailarina
14. O Sexo Comanda a Vida

Todos os poemas e músicas de Pedro Barroso, excepto a música do tema "Allumeuse" que é de Luís Petisca.

Músicos:
António da Silva – percussões extra e sonoplastia
Lara Li – Solo de voz na canção "Amazonas"
Luís Petisca – guitarra clássica, guitarra eléctrica, baixo, percussões, guitarra portuguesa e flauta de bisel
Luís Sá Pessoa – violoncelo
Manuel Rocha – violino
Miguel Carreira – acordeão
Nuno Barroso – piano, coros
Nuno Fernandes – tuba
Pedro Barroso – piano, percussões, assobio e viola
Rodrigo Serrão – contrabaixo
S. Marcos Quartet – Manolo Piedra, Luís Sá Pessoa, Manuel Rocha e Ludwig SacKsua
Sir Tony Lamb – saxofone
Tom Clay – trombone
Vakas Petiskatis – bouzouki

Produção executiva, arranjos e orquestrações – Luís Petisca, Manuel Rocha e Pedro Barroso
Supervisão musical – Pedro Barroso

Gravado no Estúdio d'Aldeia, São Marcos-Cacém, entre Abril e Agosto de 2008
Direcção de som e gravação – António Cordeiro

Desenhos de capa e caderno – Pedro Chora
Fotografia – Carlos Lima
Grafismo – Pedro Matias

URL:
http://www.pedrobarroso.com/
http://www.myspace.com/395541511
http://br.youtube.com/watch?v=haWx-6kvJKQ


Manuel Freire Canta Nemésio
(CD, Direcção Regional da Cultura dos Açores, 2008)



Desde que gravou o seu primeiro disco, o EP "Dedicatória", em 1968, Manuel Freire foi indiscutivelmente um dos que melhor cantou a grande poesia portuguesa. Miguel Bernardes, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, Manuel Alegre, António Gedeão, José Saramago, António Borges Coelho, Pedro Támen, Eugénio de Andrade, José Gomes Ferreira, Mário Dionísio, Fernando Assis Pacheco, Eduardo Olímpio e Sidónio Muralha contam-se entre os autores a quem deu a sua bela e portentosa voz. Em 1999, pondo fim a um período de vinte e um anos sem discos de originais, e aproveitando o pretexto da atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago, Manuel Freire grava um disco exclusivamente com poemas do autor de "Os Poemas Possíveis" e "Provavelmente Alegria", a que dá o sugestivo título de "As Canções Possíveis". Dentro do mesmo conceito, surge agora outro belo álbum dedicado à poesia de um só autor, desta vez Vitorino Nemésio, por encomenda da Direcção Regional da Cultura dos Açores.
Sobre a poesia do grande escritor açoriano e o modo como Manuel Freire a trabalhou assim discorreu Luiz Fagundes Duarte: «Nemésio é um poeta de voz alta, e a poesia sabe-lhe a música. Ele próprio, dando eco à "Art Poétique" de Verlaine – "De la musique avant toute chose (...) De la musique encore et toujours!" – escreveu um dia que o poema apenas está virtualmente, como algo latente ou potencial, na sua forma discursiva, e que só chega à plenitude e perfeição depois de o poeta o ter dito em voz alta. Para evitar futuras decepções, acrescentou Nemésio, convém que o poeta dê voz aos seus próprios versos – porque "o poema genuíno é ‘chanteclair’".
Ou seja: é som, é voz, é música. É cantoclaro.
E se isso é verdade para a poesia em geral, mais verdade se torna para a de Nemésio, que é poesia para ser ouvida, mais do que lida: a voz do poeta, ou de alguém que lhe peça a voz, ao interpretar a musicalidade do texto, ao modalizar as palavras, as sugestões, as impressões fugitivas nele contidas, torna-se parte da substância poética. E aí teremos corporizado muito da essência da poesia, sendo que o resto é literatura – "Et tout le reste est littérature" (Verlaine) – há-de ser mesmo uma triste eloquência. Essa, sim, amarrada à forma discursiva do poema, a que é necessário torcer o pescoço: "Prends l’eloquence et tords-lui son cu!", como dizia Verlaine, agora citado por Nemésio.
Manuel Freire sabe destas coisas da poesia, e por isso pediu emprestados a Nemésio, para lhes dar voz, alguns dos seus poemas. Oito em português, um deles com voz brasileira "Praça 15, Rua 7" –, um em francês – "Le Souterrain de l'Apparence" –, mais um em castelhano – "Fuentes de Oñoro". Uns seguindo a métrica erudita do decassílabo ("Trégua"), outros a dolência do octossílabo ("Souterrain de l'Apparence"), outros cedendo o seu pezinho ao lirismo da redondilha do romance ibérico tradicional ("Décima de Sílvio e Silvana", "Fuentes de Oñoro") ou da balada de Coimbra ("Cantigas de Coimbra"); outros ainda dando-nos a surpresa de um verso quebrado ("Trégua", "Nocturno"); e finalmente outros, como "Al Pardo de Riba Sena", onde, já em jeito de síntese, encontramos os ecos de D. Dinis e das cantigas de amigo, do cancioneiro popular, e do António Nobre de "Lusitânia no Bairro Latino" – todos eles desafiando, a cada sílaba, a cada palavra, a cada verso, a cada rima de apoio, a cada referência, mas também, em certos casos, a cada heterometria ("Menina Rosa de Holanda"), a arte do compositor, o ritmo da instrumentação, e a voz: A voz do cantor, aquela voz, a de Manuel Freire, que assim vem, pedindo licença a Nemésio, dar-lhe destino a uma dezena de poemas que ele, pelos vistos, deixara incompletos. Em cantoclaro.» (Luiz Fagundes Duarte)

Alinhamento:
1. Menina Rosa de Holanda
2. Le Souterrain de l'Apparence
3. Cantigas de Coimbra
4. Décima de Sílvio e Silvana
5. Praça 15, Rua 7
6. À Lua
7. Fuentes de Oñoro
8. Nocturno
9. Al Pardo de Riba Sena
10. Trégua

Poemas de Vitorino Nemésio.
Músicas de Manuel Freire.

Músicos:
Manuel Freire – voz
Pedro Osório – piano e programação
João Maló – guitarra acústica (excepto em 5)
Luís Sá Pessoa – violoncelo
Alexandre Bateiras – guitarra de Coimbra
Edu Miranda – guitarra acústica (5) e bandolim
Maria Filomena Dias – voz (3)

Arranjos e direcção musical – Pedro Osório

Gravado no estúdio de Pedro Osório, Oeiras
Misturas – Luís Delgado

Design gráfico – Oficialdesign

URL:
http://www.geocities.com/vilardemouros1971/manuelfreire.htm
http://pg.azores.gov.pt/drac/cca/publicacoes/ultimas.aspx


Em Português, de Rabih Abou-Khalil & Ricardo Ribeiro
(CD, Enja Records/Dargil, 2008)



«Nascido em Beirute, em 1957, mas radicado em Munique desde que a guerra civil rebentou no Líbano em finais dos anos 70, Rabih Abou-Khalil começou por estudar alaúde e flauta clássica, até se especializar e tornar num virtuoso daquele instrumento consagrado pela tradição árabe. Rabih não se limitou, porém, a recriar a sua tradição, nem a explorar qualquer outro idioma musical convencional. Especializou-se, no lugar disso, em ensaiar novas linguagens de fusão, interpelando o jazz e a música clássica, mas também e cada vez mais as músicas do mundo. É o que ele chama de "folclore imaginário", um som que quer ao mesmo tempo ser novo e estranho e, todavia, natural e familiar. Daí também a singularidade dos músicos que o acompanham, integrando-se na actual formação o acordeonista italiano Luciano Biondini, o baixista francês Michel Godard e o percussionista norte-americano Jarrod Cagwin. Músicos que têm a escola das suas próprias raízes, mas partilham também do ecletismo e da versatilidade que são a divisa do alaúdista libanês. A mais recente aquisição deste bando de vagabundos sónicos é Ricardo Ribeiro, ele que é o rosto e a alma de "Em Português". Mas, afinal, quem é Ricardo Ribeiro?
Nascido em Lisboa, em Agosto de 1981, e criado no bairro da Ajuda, Ricardo Ribeiro começou a cantar fado entre amigos, logo aos 9 anos. Aos 12 já se estreava frente a uma plateia, numa festa da colectividade do seu bairro. Veio a Grande Noite do Fado: foi segundo classificado em 1996, levou a taça nos dois anos seguintes. De maneira que ainda com 15 anos passou a actuar em restaurantes e casas de fado, até que aos 18 resolveu fazer do fado profissão. Entrou pela primeira vez em estúdio para gravar um tema, num disco de tributo a Amália Rodrigues, lançado pela World Connection em 2004. Foi uma espécie de ensaio para o álbum de estreia homónimo, editado no início do ano de seguinte, na colecção de antologias da Companhia Nacional de Música, de Nuno Rodrigues. Hoje Ricardo não se orgulha, nem se envergonha dessa primeira experiência de gravação: "Foi um disco um tanto atribulado, porque eu na altura não tinha muita experiência e não foi algo que tivesse ponderado muito. O reportório constituído por fados tradicionais foi escolhido em função da minha sensibilidade, mas contei com a ajuda do Jorge Fernando. Por ocasião do lançamento do álbum dei uma entrevista ao "Y" [do "Público"] e o encenador Ricardo Pais (Teatro Nacional de São João, Porto) leu, foi comprar o disco e veio ver-me em espectáculo, a Lisboa. Convidou-me logo para fazer ‘Cabelo Branco é Saudade’, um espectáculo com Celeste Rodrigues, Argentina Santos e o Alcindo de Carvalho, fadistas na casa dos 80 anos. Fui convidado a título de jovem fadista que partilha a linguagem desses veteranos." Um dos raros jovens talentos, poderá acrescentar-se, educado e comprometido com a tradição do fado mais castiço, poético e dramático da Lisboa doutras eras. Seguiu-se a digressão nacional e europeia (Espanha, França, Itália) e a edição em DVD de "Cabelo Branco é Saudade". Entretanto, "o Ricardo Pais também me dizia: ‘Você é a pessoa indicada para uma coisa que eu há muito tempo tenho na cabeça. Foi aí que me apresentou o Rabih Abou-Khalil, que ele tinha convidado para assistir a ‘Cabelo Branco é Saudade’". O projecto de Ricardo Pais já tinha nome, por sinal bem sugestivo: "Mariquinhas Dream House". Era para ser uma fantasia em torno da época de Alfredo Marceneiro, mas nunca chegou a acontecer. Ou melhor, evoluiu para o formato de concerto com Ricardo Ribeiro a assumir o papel de cantor do novo espectáculo em português de Rabih Abou-Khalil. A sua primeira cristalização traduziu-se em quatro espectáculos, dois no São Luiz, em Lisboa, dois no São João, no Porto, todos em Julho de 2007.
Um ano depois, no palco do CCB, o libanês apresentou canções num português mesclado de italiano, mas perfeitamente inteligível. Quando começou a trabalhar com o jovem fadista português, no entanto, não entendia patavina da nossa língua. Recorda o cantor: "Foi mesmo com ‘A Casa da Mariquinhas’ que tudo começou e por isso é o único clássico que acabou no alinhamento do disco. O Rabih ouviu o Marceneiro cantar, descobriu que a língua portuguesa tem a ver com o ritmo da música dele e compôs estas canções. ‘Em Português’ acabou, no entanto, por não ter nada a ver com o projecto inicial do Ricardo Pais. Até porque a princípio o que havia eram letras do Jacinto Lucas Pires, mas que ele entendeu que não deviam ganhar a forma de disco. Fui eu que acabei por pedir a poetas como o Mário Rainho, o Rui Manuel e Tiago Torres da Silva para escreverem as letras para estas músicas."
O sustento da aventura portuguesa do libanês foi, porém, a sua química instantânea com Ricardo Ribeiro. "Logo de início, quando o Rabih fez a primeira música, ao fim de três audições comecei a improvisar uma interpretação e ele ficou radiante. Até comentou: ‘É incrível como um jovem português canta a minha música com se fosse dele’. Criámos uma empatia tão forte que não sei explicar. Há uma frase de que eu gosto muito: ‘Ao ser humano não acontece aquilo que merece, mas sim aquilo a que se assemelha’. Ainda hoje nos tratamos por ‘irmão’."
Para um jovem tão próximo dos clássicos do fado, acaba assim por surpreender a adesão a um projecto tão experimental como "Em Português". Ricardo Ribeiro responde, porém, que há mais que um Ricardo Ribeiro:
"É evidente que em certas frases que canto neste disco há entoações fadistas. Não posso, contudo, dizer que é fado porque não é, nem esse era o objectivo. ‘Em Português’ não é o fado, sou eu. Este disco representa outra faceta. Sou fadista, mas posso cantar outras músicas, aliás, como também acontece no tema em espanhol que canto no novo disco do João Gil. Não tenho qualquer tipo de problema com isso, mas há coisas que devem permanecer intocáveis. Não estou de acordo que se altere. Estou de acordo que se inove, mas não que se altere. De contrário já não sabemos que identidade temos, de onde vimos e para onde vamos."» (entrevista a Luís Maio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 12.09.2008)
Demos agora a palavra a Rabih Abou-Khalil: «"A primeira coisa que tentámos foi a minha versão da ‘Casa da Mariquinhas’. Tinha feito uns arranjos difíceis e fiquei espantado com a velocidade com que ele apanhava a linha melódica." Mas não é só a forma como canta que lhe agrada em Ricardo Ribeiro. Uma das coisas que o levou a acreditar que esta seria uma parceria que podia funcionar é a forma como o fadista interage com os outros músicos. "É uma coisa que poucos fazem. Ricardo está atento a tudo o que está a acontecer e vê-se como parte disso. É muito raro, porque geralmente os cantores quando cantam são só eles e mais nada." Passa-se tudo, portanto à volta de uma língua que ao princípio Rabih não falava e que é a única que Ricardo fala. Difícil, imaginamos. Mas não para o libanês. É certo que desde pequeno que conhecia Amália Rodrigues, através de um disco, "Busto", que os pais tinham comprado numa viagem a Lisboa e tinham levado para Beirute, onde a família ainda vivia (Rabih deixou o Líbano em 1978 e instalou-se em Munique, onde casou com uma alemã). Era uma música que os pais achavam "muito, muito triste", mas que ele pensava que "não era assim tão triste". Depois, nas várias visitas a Portugal, onde tem vindo dar concertos, comprava sempre discos de fado. E foi capturando o ambiente, ele que quando vê, ouve, prova, sente ou cheira alguma coisa pensa sempre se a pode transformar em música. É uma espécie de deformação profissional: "Penso sempre: ‘isto será música?’ Bacalhau pode ser música?", explica, rindo. Mas, apesar do cruzamento de sonoridades estar na base do seu trabalho como compositor, nunca se tinha imaginado na aventura de fazer um disco (que é o seu primeiro com voz) a partir de palavras que não entendia. No entanto, sendo filho de um poeta ("e qualquer pessoa com um pai poeta tem algo de português"), tem uma relação com as palavras que vai para lá do sentido. "É como a pintura abstracta. Posso decidir se gosto ou não de um poema pelo som das palavras, pelo ritmo." Foi assim que começou a compor para português – se bem que no processo tenha começado a compreender e a falar a língua. Quer, no entanto, deixar claro uma coisa: este disco não é "fado com alaúde" nem "música árabe com fado". É algo que transcende isso, apesar de ele não ter (nem querer ter) um rótulo para lhe pôr. "Seria idiota vir de uma cultura diferente e dizer que compreendo o suficiente para acrescentar alguma coisa ao fado."» (entrevista a Luís Maio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 12.09.2008)
Quando soube da existência do disco, e que era cantado por um fadista com música de um compositor do mundo árabe, receei que o produto final fosse qualquer coisa deste género: de um lado, uma voz a cantar fado e, do outro, uns músicos a tocar música árabe. Enganei-me e ainda bem: o que mais me fascina neste singular e fascinante trabalho discográfico é verificar como Ricardo Ribeiro consegue harmonizar admiravelmente a sua voz com a música (nada previsível e sempre surpreendente) de Rabih Abou-Khalil, e sem prejudicar a dicção, coisa nada fácil quando se adopta o estilo árabe de cantar e de entoar as palavras. Em certas passagens, até dá a impressão que a voz é uma imanência do alaúde, uma espécie de ‘alter ego’ vocal do instrumento, sobretudo nos registos mais graves. Genial! Resumindo e concluindo: "Em Português" pode incluir-se, com toda a justeza, entre as melhores obras que até hoje se fizeram à luz do conceito de música luso-árabe, e que nada desmerece o que de muito bom já fizeram neste domínio Janita Salomé e Eduardo Ramos.

Alinhamento:
1. Como um rio (letra de Mário Rainho)
2. No mar das tuas pernas (letra de Tiago Torres da Silva)
3. A lua num quarto (letra de Mário Rainho e José Luís Gordo)
4. Amarrado à saudade (letra de Tiago Torres da Silva)
5. Já não dá como esta (letra de Rui Manuel J. de Oliveira)
6. Se o meu amor me pedisse (letra de letra de Tiago Torres da Silva)
7. Quando te vejo sorrir (letra de Rui Manuel J. de Oliveira)
8. A Casa da Mariquinhas (letra de Silva Tavares)
9. Beijos ateus (letra de Tiago Torres da Silva)
10. A gaivota que tu és (letra de Rui Manuel J. de Oliveira)
11. Jogo da vida (letra de Mário Rainho)
12. Adolescência perdida (letra de António Rocha)

Todas as músicas de Rabih Abou-Khalil.

Músicos:
Ricardo Ribeiro – voz
Rabih Abou-Khalil – alaúde
Luciano Biondini – acordeão
Michel Godard – baixo eléctrico, serpente, tuba
Jarrod Cagwin – bateria, percussões

Produção – Rabih Abou-Khalil e Walter Quintus

Gravado no Sound Studio Zerkall, Alemanha, de 3 a 9 de Setembro de 2007
Técnico de som – Walter Quintus

Desenho da capa – Rabih Abou-Khalil
Fotografia – Gert Rickmann-Wunderlich

URL:
http://www.myspace.com/rabihaboukhalil
http://www.myspace.com/ricardoribeirofado
http://palcoprincipal.sapo.pt/ricardoribeirofado


Terra, de Mariza
(CD/DVD, EMI Music, 2008)



Apesar do nome poder indiciar uma maior aproximação às raízes, este "Terra" é de todos os discos que Mariza gravou até hoje o que mais longe se situa da matriz portuguesa, o mais híbrido de linguagens exógenas que vão do jazz ao flamenco, passando pela música cabo-verdiana. Em dois ou três temas, como "Alfama" (originalmente gravado por Amália Rodrigues) e "Já Me Deixou" (do repertório de Max), o fado ou o fado-canção estão lá, mas os idiomas musicais que realmente dominam no disco são o flamenco e o jazz. Neste contexto, o nome do álbum, "Terra", na acepção de planeta, acaba por fazer sentido.
A produção é assinada pelo espanhol Javier Limón que também toca guitarra flamenca. À secção de fado que é assegurada por Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Diogo Clemente (viola de fado) e Marino de Freitas (baixo acústico), junta-se uma plêiade de músicos estrangeiros, a saber – Concha Buika e Tito Paris (nos duetos vocais com Mariza), Dominic Miller (guitarra acústica), Ivan Lins (piano), Horacio "El Negro" Hernández (bateria), Ivan "Melon" Lewis (piano), Piraña (percussões), Dany Noel (contrabaixo) e Carlos Sarduy (trompete).
À pergunta de João Bonifácio «Os festivais ‘world’, os músicos que conheceu, deram-lhe vontade de alargar o seu mundo sonoro?», Mariza responde: «Foram-me influenciando e sem isso não havia este disco. Mas talvez discorde de si: para mim, este álbum é como se eu estivesse com os pés assentes na minha terra e depois faço uma volta de 180 graus e volto à minha casa e à minha gente, como na frase do Miguel Torga: "Acabo sempre por vir dormir aqui".» (in "Público": Suplemento "Ípsilon", 20.06.2008). E reforça essa ideia com as seguintes palavras: «Neste disco, cada poema transmite uma mensagem. Temos o caso de um poema de Florbela Espanca ["Vozes do Mar"] que fala sobre Portugal, sobre o mar, sobre Camões e a mensagem é "Não nos vamos esquecer das nossas raízes, não nos podemos esquecer da nossa História, não nos podemos esquecer do que somos para podermos continuar em frente". E o mar faz parte de nós como povo. Falando de um poema de David Mourão-Ferreira, que se chama "Recurso", que fala de uma paixão, de um amor, de um destino, que acaba por não ser concretizado, é uma paixão inexplicável mas que não pode acontecer – é outra mensagem, porque há várias formas de paixão, muitas coisas que queremos e não acontecem.» (ibidem)
Não se podendo considerar, em boa verdade, o melhor trabalho da discografia de Mariza (inferior a "Fado Curvo" e "Transparente"), e apesar de alguma ligeireza de cariz comercial patente em certos temas ("Rosa Branca", por exemplo), "Terra" não deixa de ser um registo digno de referência. Para tal muito contribuem "Já Me Deixou", "Beijo de Saudade" (em dueto com Tito Paris), "Vozes do Mar", "Alfama", "Tasco da Mouraria" (belíssimo momento de intimismo autobiográfico em registo jazzístico), "Alma de Vento" e "Morada Aberta".

Alinhamento:
1. Já Me Deixou (Artur Ribeiro / Maximiano de Sousa)
2. Minh'Alma (Paulo de Carvalho)
3. Rosa Branca (José de Jesus Guimarães / Resende Dias)
4. Recurso (David Mourão-Ferreira / Tiago Machado)
5. Beijo de Saudade (B. Leza)
6. Vozes do Mar (Florbela Espanca / Diogo Clemente)
7. Fronteira (Pedro Homem de Mello / Mário Pacheco)
8. Alfama (José Carlos Ary dos Santos / Alain Oulman)
9. Tasco da Mouraria (Paulo Abreu Lima / Rui Veloso)
10. Alma de Vento (Diogo Clemente / Dominic Miller)
11. Se Eu Mandasse nas Palavras (Fernando Tordo)
12. As Guitarras (Ivan Lins)
13. Pequenas Verdades (Javier Limón)
14. Morada Aberta (Carlos Tê / Rui Veloso)

Músicos:
Concha Buika – voz (em "Pequenas Verdades")
Tito Paris – voz (em "Beijo de Saudade")
Dominic Miller – guitarra acústica (em "Minh'Alma", "Vozes do Mar" e "Alma de Vento")
Ivan Lins – piano (em "As Guitarras")
Horacio "El Negro" Hernández – bateria (em "Beijo de Saudade", "As Guitarras" e "Tasco da Mouraria")
Ivan "Melon" Lewis – piano (em "Tasco da Mouraria" e "Morada Aberta")
Javier Limón – guitarra flamenca
Piraña – percussões
Dany Noel – contrabaixo
Carlos Sarduy – trompete
Marino de Freitas – baixo acústico
Diogo Clemente – viola de fado e guitarras acústicas
Bernardo Couto – guitarra portuguesa

Pré-produção – Rui Guerreiro, nos Estúdios Vale de Lobos
Produção – Javier Limón
Produção executiva – Albert Nijmolen e João Pedro Ruela

Gravado no Estúdio Casa Limón, por Melissa Nanni
Misturado no PKO Estúdios, por Oscar Clavel
Masterizado nos Estúdios Bahia, por Oscar Clavel

Fotografia – Isabel Pinto
Design – OgilyOne
Conceito criativo – Jorge Coelho, Sérgio Costa, Sónia Henriques
Ilustração – Heitor Estúdio e Thestudio

URL:
http://www.mariza.com/
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http://www.myspace.com/fadomariza


Flor de Fado, de Mafalda Arnauth
(CD/DVD, Polydor/Universal, 2008)



«Há um disco de João Gilberto, nos alvores da bossa nova, chamado "O Amor, o Sorriso e a Flor". Sem qualquer ligação com ele, é isso que Mafalda Arnauth agora canta, num disco a que chamou "Flor de Fado". "É um disco onde canto declaradamente o amor", diz ela, procurando explicá-lo. "Digamos que é o momento que eu vivo e ao qual me vou dedicar nos próximos tempos. Acaba por ser uma intenção, uma ideia: cantar-me e cantar o público enquanto flores, enquanto seres de beleza pessoal, única, característica a cada um." Ela insiste na ideia de pureza, de essência. "E nos lugares que me vão definindo, como o sorriso. Tenho uma identidade e é isso que realmente me interessa."
A história do disco nasceu antes, em palco, também com o nome de "Flor de Fado". Foi apresentado em Portugal e no estrangeiro e ela quis perpetuá-lo num disco de estúdio. Pegou em várias canções, escritas já depois do disco anterior, "Diário" (2005, o quarto de originais da sua carreira) e juntou-lhes quatro temas de Tiago Torres da Silva e três versões: "Povo que lavas no rio", "Flor de verde pinho" e "Tinta Verde". Na versão simples, o disco tem 13 temas, mas há uma edição especial com 15 e um DVD. Os dois temas bónus, diz Mafalda, são ambos muito fortes: "As pessoas podem integrá-los no meu reportório, na sua vida, em qualquer momento." E o DVD inclui cinco gravações feitas ao vivo no Teatro da Trindade, em Dezembro de 2007. Tem as três versões que integram o disco (criações de Amália, Carlos do Carmo e Vitorino), "Para Maria", do disco anterior, e uma canção dela, inédita, intitulada "Só corre quem ama". Nunca foi gravada em disco.
"O ‘Diário’ já era um disco muito visceral, com tudo o que me rodeava. O Luís Pontes e o Ramón Maschio [guitarristas] vêm dessa altura. Foi de os ouvir tocar que nasceu este novo disco. E a sonoridade dos momentos espontâneos." Com menor ligação ao fado? "Acaba por ser assumida, porque esta sonoridade, com realce da guitarra clássica e da viola de fado, dá mais força à minha essência. No fundo, é como se eu tivesse ido à minha raiz de fadista para me revelar mais como cantautora."
A par das oito canções da autoria de Mafalda Arnauth (considerando a edição mais completa), as versões também remetem para o seu passado. Se em "Diário" gravara "Foi Deus", volta a Amália com "Povo que lavas no rio". "O primeiro era uma homenagem a Amália, claríssima e declarada. Neste disco, senti necessidade, para o concerto, de fazer a minha homenagem ao meu país, ao amor que tenho por Portugal e que acho que nunca foi tão forte, nem sei porquê. Quando pedi este arranjo, disse que era crucial que eu aparecesse ao serviço da letra e da música, ambas fortíssimas. Queria que surgisse como uma oração, como um momento de intimidade meu, onde acabo por espelhar toda a gente."
"Flor de verde pinho", um poema de Manuel Alegre musicado por José Niza, é outra escolha de raiz emocional. "Há muito tempo que queria cantar qualquer coisa do Manuel Alegre, tenho um poema escondido dele para o qual ainda não descobri a música ideal. Mas quando encontrei a ‘Flor de verde pinho’ achei que reunia tudo: uma época que gosto de cantar sem pudores nem vergonhas, e já se percebeu quando gravei ‘Cavalo à solta’ [em 2003]. É canção ligeira, é o que quiserem chamar-lhe. É música bonita para mim. E esta letra, o poder dizer ‘gostar de ti’ assim, é uma coisa que me realiza imenso. Além disso, é uma referência que penso que nunca fiz ao Carlos do Carmo e a uma discografia que me encanta. Acho que o público precisava deste tema em palco."
A terceira versão, "Tinta Verde", de Vitorino, justifica-a assim: "É uma coisa que canto em concerto e que conheço de há muitos anos. Era um toque de alegria que eu precisava no concerto. Além disso, gosto francamente do Vitorino, acho-o muito português."
A colaboração com Tiago Torres da Silva deu quatro canções. Uma delas, "O Mar Fala de Ti", fê-la para uma música de Ernesto Leite. "Disse-lhe que achava a música muito especial e que tinha que fazer um poema que lhe viesse das entranhas. E fez. É um poema alquímico, que tem qualquer coisa misteriosa que nos questiona a todos." Outra, "Entre a voz e o oceano", foi pretexto para um dueto com a brasileira Olívia Byington. Numa passagem de Maria Bethânia por Portugal, Mafalda Arnauth e Tiago Torres da Silva, ambos convidados para os concertos, conheceram-se melhor e descobriram que partilhavam a mesma admiração pela baiana. "Se calhar, esse foi o primeiro poema que ele compôs especificamente para mim. E o nosso tributo a Maria Bethânia. O Tiago lembrou-se depois da Olívia Byington para fazer a música porque nessa altura estava a fazer um disco com ela." Mais tarde, Mafalda assistiu a um dos concertos que Olívia deu em Portugal, no palco do Teatro Mundial. "No dia seguinte acordei a pensar que não podia deixar a Olívia ir embora sem gravarmos juntas a canção, mesmo que fosse na minha casa. Acabou por ser quase assim. Gravámos em dois ‘takes’ e acabávamos o tema a rir porque essa química de cantar olhos nos olhos com outra pessoa é crucial."
Quem comparar este disco com os anteriores notará diferenças, na sonoridade e na voz. Maior influência da canção ligeira? Ela nega: "Acho que as misturas podem ser mais claramente América do Sul, pela ligação ao Ramón, ou música brasileira. É um disco mais moderado até na voz, mais grave, mais quente. É naturalmente mais canção, mais melodia, não sinto que seja de todo ligeiro. Acho que é até um trabalho mais sério a nível de arranjos, porque é mais depurado e mais respirado o chão onde eu cantei."
E a voz acompanhou esse tom. "A minha expressão vocal está a arranjar um território de fronteira. Não é claramente a fadista tradicional, nos requebros, na exposição, nem tem nada a ver com a canção pop. Se calhar é um lugar multo arriscado em Portugal, mas não me importo nada de o ocupar. Fadista de alma, o fado está mais tranquilamente ao pé de mim desta forma do que se eu estiver a forçar uma coisa que não sou.» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 03.10.2008)
Citando Nuno Pacheco, "Flor de Fado" «é o primeiro disco de Mafalda Arnauth que tem a palavra fado na capa mas é, dos cinco que ela já gravou, aquele que se afasta mais do fado. Na sonoridade, pelo protagonismo
dado às violas em detrimento da guitarra (em segundo plano). Na voz, pelo afastamento de muitas das colorações fadistas presentes nas gravações anteriores (mesmo quando cantou temas como "Cavalo à solta" ou "No teu poema") e a sua substituição gradual por uma vocalização que recorre com maior frequência a repentes dramáticos, como os das cantoras mexicanas ou de certas cantoras ligeiras.» (ibidem). Não obstante tudo isto, o álbum não deixa de ser uma obra digna de referência. Na linha intimista do álbum anterior, mas indo ainda mais longe no abandono dos códigos expressivos do fado, o presente trabalho ouve-se com muito agrado e tem alguns momentos verdadeiramente sublimes como é o caso de "Entre a Voz e o Oceano" e "O Mar Fala de Ti". Este último, que se pode considerar desde já uma das mais belas criações de sempre de Mafalda Arnauth, fica definitivamente como uma pérola da música portuguesa. Também merecedora de destaque é a versão do clássico amaliano "Povo Que Lavas no Rio". Algumas abordagens às criações de Amália Rodrigues, sobretudo às mais carismáticas, melhor seria que nunca tivessem sido feitas (por pouco dignificarem e nada acrescentarem às originais) mas esta surpreende, pela sobriedade e pelo bom gosto que a cantora imprimiu à interpretação, e sem necessitar de atraiçoar a música de Joaquim Campos. Ao contrário de algumas das suas pares fadistas (ou pretensamente fadistas) que pegam na obra da imortal Amália sem a menor parcimónia e sujeitando-a a malabarismos vocais de tremendo mau gosto, Mafalda Arnauth optou por fazer uma abordagem muito delicada e contida, quase lírica, não caindo na tentação de imitar o ‘pathos’ muito próprio de Amália, o que lhe dá um encanto muito especial.

Alinhamento (CD):
1. Amor Abre a Janela (Tiago Torres da Silva / Luís Pontes; arr. Luís Pontes)
2. Porque é Feito de Alegria (Mafalda Arnauth / Ramón Maschio; arr. Ramón Maschio)
3. Entre a Voz e o Oceano (Tiago Torres da Silva / Olivia Byington)
4. O Mar Fala de Ti (Tiago Torres da Silva / Ernesto Leite)
5. Povo Que Lavas no Rio (Pedro Homem de Mello / Joaquim Campos – Fado Vitória; arr. Luís Pontes)
6. Quanto Mais Amor (Mafalda Arnauth / Mafalda Arnauth; arr. Ramón Maschio)
7. De Tanto Querer - Fado Vítima (Mafalda Arnauth / Luís Pontes; arr. Ramón Maschio)
8. Flor de Verde Pinho (Manuel Alegre / José Niza)
9. Porque Eu Não Sei Mentir (Mafalda Arnauth / Ramón Maschio; arr. Ramón Maschio)
10. Ir Contigo (Mafalda Arnauth / Mafalda Arnauth; arr. Luís Pontes)
11. Tinta Verde (Vitorino / Vitorino)
12. Agarrada ao Chão (Tiago Torres da Silva / Ramón Maschio; arr. Ramón Maschio)
13. Quem me Desata (Mafalda Arnauth / Jaime Santos – Fado Alfacinha; arr. Luís Pontes)
14. Por Querer Bem (Mafalda Arnauth / Mafalda Arnauth; arr. Ramón Maschio)
15. Na Cor do Nosso Sorriso (Mafalda Arnauth / Mafalda Arnauth)

Alinhamento (DVD):
1. Só Corre Quem Ama (Mafalda Arnauth / Popular – Fado Menor)
2. Povo Que Lavas no Rio (Pedro Homem de Mello / Joaquim Campos – Fado Vitória; arr. Luís Pontes)
3. Flor de Verde Pinho (Manuel Alegre / José Niza)
4. Tinta Verde (Vitorino / Vitorino)
5. Para Maria (Mafalda Arnauth / Mafalda Arnauth)

Ficha técnica (CD):
Mafalda Arnauth – voz
Luís Pontes – guitarra acústica (1-3, 5-15), contrabaixo (1, 4), baixo acústico (9, 13) e voz (15)
Ramón Maschio – guitarra acústica (1, 2, 4-12, 14, 15), shaker (6) e voz (12)
Ângelo Freire – guitarra portuguesa (2, 5-8, 10-15)
Fernando Júdice – baixo acústico (2, 5-8, 10-12, 14, 15)
Ernesto Leite – piano (4)
Davide Zaccaria – violoncelo (4, 9, 12)
Artista convidada:
Olivia Byington – guitarra clássica e voz (3)

Produção – Mafalda Arnauth

Gravado e misturado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro e Março de 2008
Os temas "Entre a Voz e o Oceano" e "O Mar Fala de Ti" foram gravados por Luís Delgado, no estúdio Praça das Flores, Lisboa
Edição e masterização – Fernando Nunes e Luís Pontes, nos Estúdios Pé-de-Vento

Fotografia – Kenton Thatcher
Design – Luís Cardoso Amaro / Atelier Gráficos à Lapa

Ficha técnica (DVD):
Mafalda Arnauth – voz
Luís Pontes – guitarra acústica
Ramón Maschio – guitarra acústica
Ângelo Freire – guitarra portuguesa
Fernando Júdice – baixo acústico

Direcção artística e produção – António Miguel Guimarães

Gravado ao vivo no Teatro da Trindade, Lisboa, a 16 de Dezembro de 2007
Realização – José Pinheiro
Áudio – Nuno Rebocho e Carlos Cruz

URL:
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http://www.fadiario.blogspot.com


Joana Amendoeira & Mar Ensemble
(Livro/CD/DVD, HM Música, 2008)



«Joana Amendoeira tem apenas 26 anos de idade mas já leva um longo caminho no fado. O álbum que agora lança, resultante de um espectáculo integrado nas festas da cidade de Lisboa, é o sexto da sua carreira. O primeiro, gravou-o aos 15 anos, imatura mas já com garra. Chamava-se "Olhos Garotos" (Espacial, 1997). Depois vieram "Aquela Rua" (Espacial, 2000), "Joana Amendoeira" (CNM, 2003), "Ao Vivo em Lisboa" (CNM, 2005), "À Flor da Pele" (HM Música, 2006) e este "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", em CD e DVD.
"Desde os seis anos que o fado aconteceu e eu nem me lembro, tenho apenas os relatos da família que me dizem como é que eu comecei a cantar", diz. Nascida a 30 de Setembro de 1982, em Santarém, concorreu à Grande Noite do Fado com apenas 11 anos. "Antes tinha participado em festas na cidade de Santarém, coisas muito restritas, mas quando pisei pela primeira vez o Coliseu dos Recreios fui conhecendo vários fadistas e músicos que me foram dando grandes ensinamentos e muito apoio. Tem sido um crescimento estruturado, com calma. E tenho vindo a criar alicerces, penso que mais seguros."
Em 1998, actua pela primeira vez fora do país. Começou por Budapeste, na Hungria, e já lhe somou vários outros palcos, em África, Holanda, Espanha, França (onde actuou em 1999 com Carlos do Carmo, em Paris, num concerto que lhe abriu novas portas), Áustria, Itália, Alemanha, Brasil, Estados Unidos, Canadá, Japão e Rússia. Enquanto em Portugal começa a cantar (ainda canta, aliás) no Clube de Fado, de Mário Pacheco.
Joana já gravara um disco ao vivo ["Ao Vivo em Lisboa", 2005], no São Luiz, e agradou-lhe a experiência. "Gostei muito, pela noite que foi vivida e que ali transparece. Pessoas que não estiveram lá ao ouvir o disco também sentiram essa emoção." Este que agora é lançado, gravado ao ar livre no Castelo de São Jorge na noite de 21 de Junho de 2008, trouxe ao seu percurso "várias novidades: novas músicas e um conceito muito original". Mas a ideia nasceu de um convite mais antigo, para uma actuação com a Orquestra do Algarve, em 2007. Nessa altura, Joana, o seu irmão Pedro Amendoeira (guitarra portuguesa), Pedro Pinhal (viola de fado), Paulo Paz (contrabaixo) e Filipe Raposo (acordeão) encontraram-se para ver que espectáculo poderia ser feito, com orquestra, a partir do reportório dela. "Depois desses arranjos, que o João Godinho fez, pensei com o Hélder [Moutinho, fadista e também seu editor] em fazer uma versão adequada a esta formação."
O nome com que foi baptizado o grupo, Mar Ensemble, foi também ideia dela: "Pela ligação que o fado tem com o mar, enfim, toda a lenda do poema do José Régio: ‘O Fado nasceu um dia,/ quando o vento mal bulia/ e o céu o mar prolongava,/ na amurada dum veleiro,/ no peito dum marinheiro/ que, estando triste, cantava."
Além de vários temas do seu reportório, o espectáculo tem ainda três fados originais: um com letra de Agostinho da Silva, que ela pediu a Paulo de Carvalho para musicar, "Meu amor que te foste sem te ver" (é um dos meus preferidos deste disco"), outro com letra da Vasco Graça Moura ("li um poema dele num livro editado pelo PÚBLICO e escolhi-o para um fado tradicional, o Fado Perseguição") e o terceiro escrito por ela. "Tinha uma primeira letra que escrevi e quis estrear, com música de Carlos Manuel Proença, ‘Na ilusão de uma saudade’. Foi uma estreia, mas neste momento estou a escrever mais. Escrevo muito raramente mas neste momento tenho escrito várias coisas. Surgiu assim, sem forçar. Também teve a ver com o contacto com os músicos, que me mostram as suas músicas, e isso inspirou-me a criar novos fados a partir do que ouço. Experimentei e comecei realmente a sentir a métrica da música, as notas."
Além do "núcleo duro" do espectáculo, como Joana lhe chama (os dois Pedros, Paulo e Filipe), estão no palco um quarteto de cordas e outro de sopros, com arranjos de João Godinho, adaptando os fados a esta formação. "Foi uma noite espectacular, foi mesmo um privilégio", diz Joana Amendoeira. "Só no final é que houve vento." Cantar ao vivo tem, para ela, um prazer acrescido. "Gosto muito desse lado, que não se pode perder no fado, que é o da espontaneidade. É isso que torna mágico cada momento, nós interiorizarmos a música e o poema." [...] O que será essencial ao fado para que continuemos a chamar-lhe fado? "É difícil de explicar, mas sente-se. É mais do que uma fórmula, é um mistério. Mas eu penso que a guitarra portuguesa deve estar, sempre, num projecto de fado. De resto, é sentimento. Como diz um dos poemas que eu canto: ‘O fado não se ensina! não se aprende! é uma espécie de duende! que domina a nossa alma.’ E sem nós sabermos porquê." (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 19.12.2008)
Consonante com estas palavras de Joana Amendoeira é o testemunho do seu editor e também fadista Hélder Moutinho: «O Fado é o que lhe vai na alma. E a Alma é como um rio que força a margem para alcançar o talento, o respeito, a verdade e a coragem que se reflectem em todos os versos que canta, todas as palavras que empresta àquilo que no fim se transforma na "sua voz". A Paixão é o que lhe vai no sangue, incontida, desesperadamente incontornável. Pela música, pelas palavras lusas dos grandes poetas de ontem, de hoje e de amanhã. O Fado na sua essência, na sua raiz e género musical é tudo em que acredita e de forma alguma poderia considerar menor aquilo que a torna maior. Nada se desvirtua, nada se dispersa, tudo se transforma quando se acredita incondicionalmente em todos os momentos áureos da arte que nos perseguem e abraçam como condição. Joana Amendoeira é uma fadista de raiz, incondicionalmente uma fadista. Hoje e sempre. E até quando se lança numa aventura forçada pela sua Paixão, consegue ser uma fadista quando, num burburinho, fervilha a água mais pura e mais cristalina. Como quando dois rios se encontram e nesse momento se fundem. Um rio é a "Alma" o outro a "Paixão".» (Hélder Moutinho)
O jornalista e crítico Nuno Pacheco recenseia o álbum nos seguintes termos: «Se "À Flor da Pele", de 2006, era já o melhor disco de Joana Amendoeira até à data, aquele onde a sua voz mostrava maior maturidade e melhores colorações, esta gravação ao vivo, que dele herda nove em treze temas, constitui um marco decisivo na sua carreira. Gravado ao ar livre, no lisboeta Castelo de São Jorge, tira bom partido de uma formação inusitada no fado (à guitarra portuguesa e à viola junta contrabaixo, acordeão e naipes de cordas e sopros) para dar nova alma a um reportório digno de apreço. Os arranjos são, na sua maioria, muito bem conseguidos (oiça-se, por exemplo, a sequência onde o acordeão de Filipe Raposo abre caminho aos sopros e estes à guitarra, em "Lisboa, amor e saudade", com letra de José Luís Gordo) e a voz de Joana mostra-se particularmente expressiva, como se comprova, a título de exemplo, em "Saudades do futuro" ou na sequência "Se eu adivinhasse que sem ti" e "Na ilusão de uma saudade". O DVD, que mostra as 19 canções no mesmo alinhamento do CD tirando "Trago fados nos sentidos", que surge como bónus (a preto e branco), permite chegar mais perto do ar que se respirou nessa noite. Uma grande noite de fado, com um registo que lhe faz plena justiça.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 19.12.2008)
Este álbum foi eleito, pelo júri dos Prémios Amália Rodrigues, o melhor disco de Fado de 2008!

Alinhamento (CD):
1. Fado, cor do sentimento (Fernando Girão)
2. Amor, o teu nome (José Luís Peixoto / José Marques – Fado Rigoroso)
3. Era a noite que caía (Vasco Graça Moura / Carlos da Maia – Fado Perseguição)
4. Lisboa, Amor e Saudade (José Luís Gordo / Pedro Pinhal e Joana Amendoeira)
5. Saudades do Futuro (José Correia Tavares / Carlos Manuel Proença – Fado Sereno)
6. Sopra o Vento (Fernando Pessoa / Paulo Paz)
7. Plantei um cravo à janela I (Hélder Moutinho / José Fontes Rocha – Fado Joana)
8. Sem querer (Hélder Moutinho / Pedro Amendoeira)
9. Trago fados nos sentidos (Amália Rodrigues / José Fontes Rocha)
10. Se eu adivinhasse que sem ti (Pedro Assis Coimbra / Pedro Pinhal)
11. Na ilusão de uma saudade (Joana Amendoeira / Carlos Manuel Proença)
12. Meu amor que te foste sem te ver (Agostinho da Silva / Paulo de Carvalho)
13. Como se fosse uma flor (Hélder Moutinho / Casimiro Ramos – Fado Três Bairros)
14. Apelo (Pedro Homem de Mello / Pedro Pinhal)
15. Amor mais perfeito (Mário Rainho / José Fontes Rocha)
16. Saudade por cantar (Tiago Torres da Silva / Paulo Paz)
17. Fado de Outrora (Popular / João do Carmo Noronha – Fado Pechincha)
18. Marcha dos Centenários (Norberto de Araújo / Raul Ferrão)
19. Canção Grata (Carlos Queiroz / Teresa Silva Carvalho)

Músicos:
Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo
Filipe Raposo – acordeão

Mar Ensemble:
António Barbosa – 1.º violino
Paula Pestana – 2.º violino
Ricardo Mateus – viola d’arco
Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas
Maria Rosa – flauta
Rui Travasso – clarinete
Carlos Alberto – trompete
João Carlos – trompa

Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho
Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva
Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música

Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado)
Captação de áudio – Luiz Delgado
Captação de vídeo – Manatim
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008

Design – Rui Garrido
Fotografia de capa – José Frade
Fotografias de contracapa e livrete – Rita Carmo
Maquetagem – Catarina Severino
Tradução das letras para inglês – João Vilhena

URL:
http://www.joanaamendoeira.net/
http://www.joanaamendoeira.blogspot.com/
http://www.myspace.com/joanaamendoeira


Voando sobre o Fado, de Deolinda Bernardo
(CD, Editora Mundial Megadisco, 2008)



«"Voando sobre o Fado" é uma viagem ao mundo dos Madredeus, à descoberta incontornável do fado que espreita por detrás da música do mais internacional dos grupos portugueses. Ao longo desta viagem somos convidados a lançar um olhar sobre a Lisboa que se descobre nos versos de Pedro Ayres Magalhães e no ambiente musical criado à sua volta.» É com estas palavras que o editor nos apresenta este saboroso disco de Deolinda Bernardo, contendo onze fados feitos a partir de originais dos Madredeus, começando em "Alfama" e terminando em "Lisboa, Rainha do Mar". Alguém que ainda não conhece o trabalho poderá perguntar: e qual o interesse de um disco em torno do repertório dos Madredeus, sendo que as versões originais são em boa parte definitivas e dificilmente ultrapassáveis? A resposta é simples: mais do que um tributo (no caso, um belíssimo tributo) ao grupo de Teresa Salgueiro, Pedro Ayres Magalhães e companhia, "Voando sobre o Fado" revela-se um trabalho surpreendentemente bem conseguido na abordagem à obra dos Madredeus, segundo uma directriz bem definida: realçar a alma fadista que existe (mais ou menos explicitamente) em alguns temas do grupo, como é o caso bem paradigmático de "Alfama", que, não por acaso, abre o alinhamento. E isso é conseguido tanto pelo uso (embora não exclusivo) do instrumentário típico do fado – guitarra portuguesa, viola de fado e baixo acústico – como, e sobretudo, pela voz cativante e expressiva de Deolinda Bernardo (que muitas pessoas apenas conhecerão do tema "Canta-se o Fado", do álbum "Fado Virado a Nascente", de Rão Kyao), que aqui nos devolve alguns dos mais belos espécimes do repertório dos Madredeus como se de originais de fado se tratassem. Nessa medida, "Voando sobre o Fado" serve também para pôr em evidência a raiz amplamente portuguesa do legado dos Madredeus. Uma lição para todos aqueles que ignoram o que de melhor temos cá dentro e vão lá fora buscar fórmulas e modelos para a música alegadamente portuguesa que se propõem fazer.Sobre Deolinda Bernardo e este seu admirável trabalho, assim se pronuncia o escritor Luís Costa Pires: «Na noite em que assisti, pela primeira vez, a um espectáculo ao vivo de Deo fiquei absolutamente impressionado. Não apenas pela voz forte, sentida e maleável como a própria água, que ela possui, o que lhe permite cantar na perfeição qualquer registo ou tema que deseje. O que realmente me impressionou foi a verdade e a simplicidade com que se apresenta, sem os tiques de quem precisa de algo mais do que talento para se fazer notar. De facto, talento é coisa que não lhe falta. E é por isso que tenho a certeza de que este tributo aos Madredeus, de quem também sou fã, esta genial reinvenção em fado de alguns dos imortais temas do grupo, será um regalo e uma surpresa para todos aqueles que o ouvirem. Uma nova viagem, um voo bem alto que reúne a tradição com a novidade.» (Luís Costa Pires)


Alinhamento:
1. Alfama (Pedro Ayres Magalhães / Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão)
2. Andorinha da Primavera (Pedro Ayres Magalhães / Carlos Maria Trindade)
3. A Capa Negra (Mano a Mano)
4. Coisas Pequenas
5. A Sombra
6. Não Muito Distante
7. Sentimento
8. O Pomar das Laranjeiras
9. A Vida Boa
10. Céu da Mouraria
11. Lisboa, Rainha do Mar

Letras e músicas de Pedro Ayres Magalhães, excepto onde indicado.

Músicos:
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – viola
Fernando Araújo – baixo acústico (1, 2, 4, 7, 9)
Daniel Pinto – baixo acústico (3, 5, 6, 8, 10, 11)
Luís Cunha – violino
João Seixas – percussão
Vincent "Enzo" D’Aversa – acordeão

Adaptação – Deolinda Bernardo e José Pires de Sousa
Arranjos – César Abrantes, João Alvarez e Vincent "Enzo" D’Aversa (1, 2, 4, 10); Deolinda Bernardo e Vincent "Enzo" D’Aversa (9); Vincent "Enzo" D’Aversa (3, 5, 6, 7, 8, 11)
Direcção e produção musical – Vincent "Enzo" D’Aversa
Produção executiva – José Pires de Sousa

Gravado nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em 2006
Técnico de som – Fernando Nunes
Misturas – Fernando Nunes e Vincent "Enzo" D’Aversa
Masterização – Fernando Nunes

Fotografia, capa e libreto – Luís Costa Pires e Daniel Chipelo

URL:
http://www.myspace.com/deolindabernardo


Palavras do Meu Fado, de Cristina Nóbrega
(CD, Iplay, 2008)



Um disco de estreia é sempre um acto arriscado. É deste acto que advém um compromisso, inegociável, incondicional, do artista e da sua arte com o público, um compromisso que o tempo se encarregará de consolidar... ou não. Cristina Nóbrega quis correr esse risco, de se comprometer com o Fado.
Descobre o Fado num concerto a que assiste na Universidade, que a leva a ouvir e a apaixonar-se pela obra de Amália, de quem tinha alguns discos em casa, e que ouve compulsivamente até assistir uns meses depois ao histórico concerto de Amália no Coliseu dos Recreios, comemorativo dos seus 50 anos de carreira. A partir daí, fica presa para sempre ao Fado. Embora a música sempre tenha estado presente na sua vida (frequentou o Conservatório Nacional de Dança e a Academia de Amadores de Música), só em 2003 ela assume maior protagonismo quando aceita o convite para se tornar vocalista de uma banda de amigos, com um reportório tão diversificado que ia do pop-rock à bossa nova, passando pelo jazz.
No início de 2008, resolve retomar a sua antiga paixão pelo Fado, cantando algumas vezes em encontros de amigos em casas de Fado, e apercebe-se da capacidade que a sua voz tem de despertar sentimentos e emoções na assistência. Incentivada a dedicar-se de modo mais sério à canção da sua Lisboa, no mês de Abril seguinte, vai a estúdio acompanhada por Luís Ribeiro (guitarra portuguesa) e Jaime Martins (viola e viola baixo) e grava catorze fados da sua afeição, do reportório de Amália. A maqueta é apresentada à editora iPlay que aceita publicar o trabalho e a 15 de Setembro o disco vem a lume. Intitula-se "Palavras do Meu Fado" e nele as palavras de João Roiz de Castel-Branco, Luís Vaz de Camões, Pedro Homem de Mello, Vasco de Lima Couto, Luís de Macedo, David Mourão-Ferreira, José Carlos Ary dos Santos, entre outros, sem esquecer as saídas do punho da própria Amália de quem canta dois poemas ("O Fado Chora-se Bem" e "Amor de Mel, Amor de Fel"), ganham um novo fulgor e surpreendente luminosidade. E é precisamente nessa abordagem mais apolínea e solar (em oposição aos tons mais sombrios de Amália) que reside muito do encanto das versões de Cristina Nóbrega, com a sua límpida e maviosa voz. Aliás, é no repertório mais efusivo e jovial que melhor se afirma o cunho e o estilo característico da novel cantora. Temas como "Madrugada de Alfama" ou "Barco Negro" (cuja interpretação deixaria com certeza Amália embevecida), fazem de Cristina Nóbrega um nome a ter inequivocamente em conta no panorama fadista nacional. O júri dos Prémios Amália Rodrigues soube reconhecê-lo ao atribuir-lhe, na edição de 2009, o Prémio Revelação. (baseado num texto publicado no
Portal do Fado, 17.09.2008, e em informações fornecidas pela artista)

Alinhamento:
1. O Fado Chora-se Bem (Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves)
2. Malmequer Pequenino (Ricardo Borges de Sousa – Fado da Idanha)
3. Madrugada de Alfama (David Mourão-Ferreira / Alain Oulman)
4. Disse-te Adeus e Morri (Vasco de Lima Couto / José António Sabrosa)
5. Eu Queria Cantar-te um Fado (António de Sousa Freitas / Franklin Godinho – Fado Franklin de sextilhas)
6. Amor de Mel, Amor de Fel (Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves)
7. Zanguei-me com o Meu Amor (Linhares Barbosa / Jaime Santos – Fado Mouraria)
8. Meu Amor, Meu Amor (Meu Limão de Amargura) (José Carlos Ary dos Santos / Alain Oulman)
9. Meia-Noite e uma Guitarra (Álvaro Duarte Simões)
10. Cansaço (Luís de Macedo / Joaquim Campos – Fado Tango)
11. Com Que Voz (Luís Vaz de Camões / Alain Oulman)
12. Fria Claridade (Pedro Homem de Mello / José Marques do Amaral – Marcha de José Marques do Amaral)
13. Partindo-se (João Roiz de Castel-Branco / Alain Oulman)
14. Barco Negro (David Mourão-Ferreira / Caco Velho-Piratini)

Músicos:
Luís Ribeiro – guitarra portuguesa
Jaime Martins – viola e viola baixo

Produção – Luís Ribeiro e Cristina Nóbrega

Gravado no Estúdio de António Bizarro, Charneca da Caparica, nos dias 03 e 04 de Abril de 2008
Mistura e masterização – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL, Paço d’Arcos

Fotografia – Ricardo Reis
Design gráfico – Roda Dentada

URL:
http://www.myspace.com/cristinanobrega


Fadário, de António Manuel de Moraes (poemas) & Vários Intérpretes
(Livro/CD, Ocarina, 2008)



É o próprio autor, António Manuel de Moraes, quem nos apresenta este seu livro com CD: «Conhecemos José Gomes Ferreira em 1972, quando nas tardes quentes de Verão o poeta descansava na esplanada que existia em frente à editora Portugália, onde as suas obras eram transformadas em livros. Foram estes que nos marcaram e influenciaram no sentido de nunca desistirmos de gostar de poesia ou de tentarmos transcrever para as letras os nossos sentimentos.
Não foi fácil para nós começarmos a falar com aquele senhor, que aparentava bondade e inteira liberdade nos seus longos cabelos brancos. Conservamos as suas obras e as palavras que nos escreveu, aconselhando a irmos de vez em quando à gaveta e relermos os nossos testemunhos. Foi isso que fizemos durante estes trinta e seis anos já passados!
Fadário é Fado, sorte, destino, amor, paixão, vida trabalhosa ou apoquentada, traição até, é tudo isto e muito mais, que se pretende descrever nestes trabalhos que agora surgem e nos quais participaram alguns amigos que encontrámos no Fado. Só com amizade, dedicação e muita vontade é possível conseguir algo que nos realize, porque não vivemos sós. E neste contexto saliento José Fontes Rocha, Joana Amendoeira e Pedro Pinhal, que se estreia como compositor, que foram trazendo a pouco e pouco outros amigos e acompanhantes, sempre com o beneplácito desse homem bom chamado Joaquim Balas. O Carlos Gonçalves e a Diamantina foram nossos convidados, a Luísa Rocha e a Célia Leiria, com os respectivos consortes, respectivamente Guilherme Banza e Pedro Amendoeira, vieram pouco depois. A Margarida Guerreiro, Carlos Garcia, Carlos Menezes, Júlio Garcia, Paulo Paz, Custódio Castelo e os restantes intervenientes no CD, foram peças importantes que se juntaram, competindo aquele último produzir o trabalho com o rigor e a arte que o mundo da música lhe reconhece, de forma a que possamos todos dizer que valeu a pena!
Quando a criança nasce há uma estrela que a vai guiar para sempre até cumprir o papel para que foi destinada. E não vale a pena tentar iludir esse caminho, consultar donos da verdade ou querer alterar constantemente o trajecto a percorrer durante a vida para que fomos criados. Há estrelas melhores e maiores do que outras, de primeira ou várias grandezas, que nada têm a ver com a origem social da criança, o resto pouco importa, porque a providência e o instinto se encarregam de apresentar o plano e o caminho para que tudo se cumpra.
O Universo rege-se por ele próprio, pela química e pela física que o compõem, tem explicações científicas e outras para a sua existência, só não tem princípio nem fim, auto-sustenta-se com a sua própria dinâmica, da qual a vida de todos nós faz parte.
Ao tomarmos conhecimento das leis da natureza, passamos a amar, mesmo inconscientemente, a sofrer mesmo conscientemente, a rir ou a chorar, consoante o destino se cumpre e ninguém foge ao que ele determina.
Neste trabalho discográfico, que se baseia em livro de poemas com idêntico título, o Fado aqui representado por uma mulher africana ("Corpo de Ébano" e "Hino à Cantadeira"), que embarca em caravelas dos Descobrimentos, atravessa o Atlântico ("Velho Mar"), desagua no Brasil onde as águas se misturam e ganha uma identidade ao desembarcar em Lisboa (Mouraria, Alfama ou Bairro Alto), através da voz de um marinheiro que canta a saudade ("Mundo Distante" ou "II Dinastia do Reino de Portugal"), o desejo de felicidade ("Praia de Sonhos - Fado Praia Grande"), até se afirmar um ser com personalidade própria ("Fado e Vinho") ou ("Não Vou Contar-te Um Segredo"). É assim que o Fado cumpre o seu próprio destino, ora gozando ("Guitarra Namorada" ou "Ondas em Forma de Fogo"), ora sofrendo ("Lágrimas de Dor ou Lágrimas Que Me Deste"), ora chorando por amor como no caso dos poemas de António Botto renovadamente visitados. Por vezes é louco ("Sonhos de Fado"), imaginativo ("Sorte Beijada" e "Águas Claras") ou sensual ("Corpo de Ébano" ou "Hino à Cantadeira"). Outras vezes, já cansado ("Na Praia Deserta Onde Adormeço"), recorda antes de se deitar, como foi e como é ("Fado e Vinho"). Tem também a tentação de se despedir de nós, como sucedeu um dia com Amália em Nova Iorque ("Despedida"), ou em 1974 quando foi maltratado por alguns que com ele aprenderam a lição e hoje são os primeiros a defendê-lo por necessidade, tendo feito com que o Fado quase tenha entrado em desespero ("Desespero"), quando se sentiu desprezado por causa de um xaile ("Deste um Xaile"), ou ainda porque já cá vive há mais de cento e cinquenta anos e também se cansa ("Cordas Partidas" e "Poema do Tempo"), uma homenagem sofrida a José Fontes Rocha que os poderes públicos nunca consideraram devidamente, mesmo sendo um dos maiores e melhores compositores musicais portugueses de sempre, esquecendo-se de que o guitarrista, tal como Carlos Gonçalves, foram os principais sustentáculos da carreira de Amália Rodrigues.
O Fado foi visitar as flores que aquela tinha no Brejão ("As Flores do Meu Jardim"), e tanto as amava, como ao Alentejo ("Meu Alentejo, Meu Fado"), onde a sublime intérprete as plantou à espera que alguém cumprisse o seu destino ("Minha Paz e Meu Descanso - Silêncio"). Repousa agora em sossegado jardim, onde as pedras mais parecem flores perenes que nunca murcham, ou guitarras que como a de Paredes ("Tua Guitarra Portuguesa"), entram na alma de forma permanente, fazendo-nos lembrar um coro de anjos no Paraíso.
Porém, o Fado também morre de certo modo ("Folhas"), o que acontece a quem o canta ou toca de forma insubstituível e daí ("Homenagem - Fado Nunes da Cunha"), fado-marcha de grande inspiração e sentir de Carlos Gonçalves, que uma voz e alma de grandes sentimentos materializa. Faz-nos chorar de saudade e recordar como símbolo dos que tudo fizeram por ele, ora doce como uma amêndoa recheada de mel, ora triste, elegante e sentimental ("Porque Choras? Diz-me Nuvem").
O ciclo da vida do Fado tem sido como a do comum dos mortais, com altos e baixos ("Guitarra Namorada", "Saia Amarela", "Dois Dias", "Cama Fria" ou "Sinto Que Estás a Chegar"). Às vezes até parece que ressuscita ("Voltaste" ou "Amália Continuas em Nós" personificados no tema "Variações do Fado Amália" de Frederico Valério com arranjos e interpretação de José Fontes Rocha), neste caso simbolizando a nova geração a quem o fado tanto diz, representada por cantadores, compositores ou músicos do Fado que hoje nos encantam. Tudo isto para que sintamos a alma cheia e compreendermos da melhor forma o caminho que o destino nos traçou, como sucede em ("Neste Quente Te Enlaço"), ou quando o Poeta, elemento fundamental do Fado, morre e é conduzido ao céu, porque só pode ir para aí, por uma guarda de honra de pombas ("Chegaram Pombas ao Céu"), apesar do vate nunca morrer.
É preciso (Dar Tempo ao Tempo), às vezes tempo de mais para que ele seja reconhecido, olhem Camões, sintam Pessoa, porque o poeta, o compositor, o músico, o fadista, um dia pode sentir que "sou do tempo em que no tempo as rosas floresciam, muda o tempo, é outro tempo, em que rosas não cresciam!". Ou seja, se nós os homenagearmos na hora útil, tal como homenageamos o Fado nestes trabalhos de várias pessoas, entre as quais o prefaciante, meu querido amigo Jorge Braga de Macedo, a designer, o editor, os construtores e inventores de fados que iam "às vezes ao luar ver as rosas a nascer, um dia, já ao tardar, já nenhuma podem ver!" e os intérpretes, não perdemos tempo. Todos eles foram capazes de compreender as mensagens e traduzi-las da melhor forma, pondo todo o sentimento e a alma no seu empreendimento.
Se assim não for, isto dá para pensar nas mudanças, nas esperanças perdidas e depois só se pode chegar à conclusão de que "não vale a pena viver sonhos do passado e termos pena de morrer neste nosso fado!" ("Poema do Tempo"), que dedicámos a um amigo quando fez 80 anos.
É por isso que vai para todos aqueles inventores de sonhos a nossa sincera homenagem e agradecer-lhes o que fizeram pelo Fado e pela nossa alegria!» (António Manuel de Moraes, 25.02.2008)
Restringindo a minha apreciação ao CD, e apesar do desigual valor interpretativo/vocal das cinco cantoras participantes (Joana Amendoeira, Margarida Guerreiro, Célia Leiria, Luísa Rocha e Diamantina), "Fadário" é um trabalho que se saúda e se recomenda. Atente-se, por exemplo, no espécime verdadeiramente sublime que é "Cordas Partidas (Fado do Fontes)", na bela voz de Joana Amendoeira.

Alinhamento (CD):
1. Corpo de Ébano (música de Custódio Castelo; voz de Margarida Guerreiro)
2. Sonhos de Fado (música de Pedro Pinhal; voz de Luísa Rocha)
3. Hino à Cantadeira (música de Custódio Castelo; voz de Margarida Guerreiro)
4. Fado e Vinho (música de Carlos Gonçalves; voz de Luísa Rocha)
5. Variações sobre 'O Fado' (música de Carlos Gonçalves; voz de Célia Leiria)
6. Voz da Madrugada (música de Carlos Gonçalves; voz de Diamantina)
7. Praia de Sonhos (Fado Praia Grande) (música de Pedro Pinhal; voz de Joana Amendoeira)
8. Sorte Beijada (música de Pedro Pinhal; voz de Célia Leiria)
9. Minha Vida... Tua Sorte (Fado B) (música de Carlos Gonçalves; voz de Diamantina)
10. Variações sobre 'Canção Magoada' (música de Carlos Gonçalves; voz de Diamantina)
11. Meu Alentejo, Meu Fado (música de José Fontes Rocha; voz de Margarida Guerreiro)
12. Fado do Lago (Fado das Águas Claras) (música de José Marques do Amaral; voz de Célia Leiria)
13. Poema do Tempo (Fado Fontes Rocha) (música de Pedro Pinhal; voz de Joana Amendoeira)
14. Cordas Partidas (Fado do Fontes) (música de Pedro Pinhal; voz de Joana Amendoeira)
15. Minha Paz e Meu Descanso (Fado do Silêncio) (música de Custódio Castelo; voz de António Manuel de Moraes)
16. Homenagem a Amália (Fado Nunes da Cunha) música de Carlos Gonçalves; voz de Luísa Rocha)
17. Variações sobre o Fado Amália (instrumental) (música de Frederico Valério; arr. José Fontes Rocha)

Poemas de António Manuel de Moraes.
"Variações sobre ‘O Fado’" e "Variações sobre ‘Canção Magoada’" têm como motivo de inspiração quadras de António Botto.

Músicos:
- Tema 1:
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Carlos Garcia – guitarra clássica
Carlos Meneses – viola baixo
Davide Zaccaria – violoncelo
Morais Azevedo – percussões
- Tema 2:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 3:
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Carlos Garcia – guitarra clássica
Carlos Meneses – viola baixo
Morais Azevedo – percussões
- Tema 4:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 5:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 6:
Carlos Gonçalves – guitarra portuguesa
Lelo Nogueira – guitarra clássica
Júlio Garcia – viola baixo
- Tema 7:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 8:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 9:
Carlos Gonçalves – guitarra portuguesa
Lelo Nogueira – guitarra clássica
Júlio Garcia – viola baixo
- Tema 10:
Carlos Gonçalves – guitarra portuguesa
Lelo Nogueira – guitarra clássica
Júlio Garcia – viola baixo
- Tema 11:
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Carlos Garcia – guitarra clássica
Carlos Meneses – viola baixo
Davide Zaccaria – violoncelo
Kim Guerreiro e João Félix – coro
- Tema 12:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 13:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 14:
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 15:
Carlos Gonçalves, Custódio Castelo, Pedro Amendoeira e Guilherme Banza – guitarras portuguesas
Pedro Pinhal, Carlos Garcia e Lelo Nogueira – guitarras clássicas
Paulo Paz, Carlos Meneses e Júlio Garcia – violas baixo
- Tema 16:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica
Paulo Paz – viola baixo
- Tema 17:
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – guitarra clássica

Arranjos, produção e direcção musical – Custódio Castelo
Produção executiva – Joaquim Balas / Ocarina

Edição e misturas – Custódio Castelo
Masterização – Fernando Nunes

Design – Patrícia Pereira

URL:
http://www.cdgo.com/artigoDetalhe.php?idArtigo=4042932


Fado: Sempre! Ontem, Hoje e Amanhã, de Vários Intérpretes
(Livro/4CD, Difference/Iplay, 2008)



«"FADO Sempre! Ontem, Hoje e Amanhã" É um conceito criado pela Difference com o objectivo de ser a mais completa obra de Fado reunida num só volume. Neste trabalho conseguimos ter a maior representatividade possível, sendo proporcionalmente qualitativa e bastante demonstrativa de todos aqueles que inscreveram eternamente o seu nome no Fado, e também daqueles que escreveram, escrevem e continuarão a escrever a história do Fado.
Uma retrospectiva transversal de sempre, bem figurativa das grandes canções e dos diversos estilos de Fado, dos mais tradicionais às novas fusões, atravessando todas as gerações de intérpretes, músicos, poetas, compositores e outros artistas. O nosso compromisso é permitir ao leitor e ouvinte um conhecimento mais aprofundado e global do que é o Fado, que muitos apelidam de estado de alma, e talvez seja mesmo o melhor retrato da alma lusitana.
O Fado é a maior forma de expressão portuguesa. É o que distingue a música de Portugal das outras músicas do resto do mundo, é a maior herança cultural portuguesa e uma das grandes identidades nacionais.
"FADO Sempre! Ontem, Hoje e Amanhã" celebra também os pouco mais de 150 anos de Fado. Apresentando-se numa edição de luxo, com 4 CD e um livro a cores, bilingue (português e inglês), com design contemporâneo e fotografias exclusivas.
Para nos ajudar na elaboração deste livro convidámos Nuno Lopes, jornalista, e Manuel Halpern, escritor e jornalista. No livro podemos encontrar de uma forma resumida a História do Fado dividida em duas partes, o Fado mais tradicional e uma síntese dos CD "Sempre!" e "Ontem" escrito por Nuno Lopes. E uma visão sobre o Novo Fado e uma resenha dos CD "Hoje" e "Amanhã" escrita por Manuel Halpern.
Para um maior entendimento sobre o assunto, convidámos alguns dos protagonistas deste elenco, representando várias gerações de artistas, partilhando aqui connosco a sua própria visão do Fado, num testemunho feito na primeira pessoa. Entre os ilustres encontram-se: Amália Rodrigues, Carlos do Carmo, Mariza, António Chainho, entre outros.
Este trajecto não ficaria completo sem alguns dos intervenientes mais impulsionadores de talento como são as casas de Fado. Como tal, facultamos aqui também "O roteiro do Fado", que tem por objectivo divulgar as melhores casas de Fado de Lisboa, com inegável importância histórica. Sempre foram o palco de novos artistas, onde ainda se pode escutar um bom Fado da melhor forma que pode ser ouvido, ao vivo. Independentemente dos bons petiscos e vinhos que se podem degustar.
Quanto à música, é feita uma retrospectiva desde sempre até aos dias de hoje. Percorrendo todo um passado mas indicando igualmente caminhos futuros. Como o próprio título indica, esta obra está repartida por quatro discos, que se distribuem pela seguinte ordem:
CD1: "Sempre!" É o álbum do "obrigado", serve de tributo para premiar os artistas que mais se destacaram nas suas carreiras, e que alguns dos quais, infelizmente, já não se encontram entre nós. Fica a saudade e a obra eterna.
CD2: "Ontem." É o disco que tem por objectivo distinguir os artistas que deram o seu mais elevado contributo ao Fado e que foram "grandes" no seu tempo, e que deixam bem presente a história do seu passado.
CD3: "Hoje." Neste CD, podemos encontrar os artistas que mais se têm evidenciado nos últimos anos. Muitos deles, com uma carreira notável no estrangeiro e que em muito têm contribuído para a renovação e continuidade do Fado.
CD4: "Amanhã." É o disco mais contemporâneo de todos, onde se verificam algumas fusões modernas e se cruzam artistas de gerações próximas. Alguns dos quais, já com trajectos interessantes e que auguram um futuro próspero para o Fado.
É com plena satisfação que apresentamos aqui este trabalho, que constitui uma marco histórico na congregação e promoção do Fado, candidato a património mundial da Humanidade, do qual saímos com o sentimento de missão cumprida e com a consciência de que honrámos o nosso maior compromisso, que é com o público, que é igualmente protagonista e a razão de existir de qualquer artista.
Como em qualquer outra tarefa ou profissão, esta foi igualmente uma elevada experiência humana, de onde todos saímos enriquecidos. Agradecemos a todas as pessoas que nos ajudaram a conceber e a produzir este trabalho, em particular Nuno Lopes e Manuel Halpern que incansavelmente se entregaram a este projecto.
Certos de que esta é uma obra intemporal e imprescindível na casa de qualquer português e que irá igualmente ser bastante apreciada um pouco por todo o mundo. (A equipa da Difference)»
É nestes termos que a editora portuguesa Difference apresenta esta edição. Embora não sendo a primeira compilação de fado com alguma envergadura editada entre nós (basta referir a colecção "Todos os fados de A a Z", organizada por José Manuel Osório, e editada em 2005 pela Movieplay), esta tinha o propósito, conforme se anuncia, de alargar o espectro de artistas contemplados de modo a dar uma visão tão abrangente quanto possível da História do Fado, desde que há registo fonográfico até à actualidade. E é precisamente neste ponto que esta colectânea peca por defeito. Se é verdade que em quatro CDs não seria impossível contemplar todos os intérpretes que gravaram discos, há nomes cuja ausência se torna gritante, o que assume ainda maior gravidade se atentarmos que estão presentes outros de menor relevância. Como se explica que estejam ausentes Ercília Costa (que aliás mereceu uma resenha biográfica no livro), Max, Vicente da Câmara, Teresa Silva Carvalho, Maria Leopoldina Guia, Nuno de Aguiar, António Rocha, Nuno da Câmara Pereira, António Pinto Basto, António Chainho (a solo ou com Marta Dias), Luz Sá da Bandeira, Margarida Bessa e Sílvia Filipe? E será que Ada de Castro, António Mourão, Maria da Nazaré, Mr. Tea & Orlanda Guilande, Metro e outros (sobretudo do CD4) teriam de estar obrigatoriamente numa antologia que é suposto reunir o supra-sumo do fado? A própria Catarina Moura, apesar da belíssima versão do "Fado da Severa", aparece aqui algo deslocada pois a sua actividade não se desenrola no fado mas na música tradicional (grupos Segue-me à Capela e Brigada Victor Jara). Nessa medida, pretender considerá-la uma das promessas do fado afigura-se algo bizarro...
Outro ponto em que esta colectânea falha é no peso bastante residual que deu ao fado de Coimbra, com a clamorosa ausência de cantores tão importantes como António Menano, Edmundo de Bettencourt, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Jorge Cravo. É sabido que por vezes nem sempre é possível obter as devidas autorizações das editoras e/ou dos detentores de direitos de autor (geralmente os herdeiros dos criadores), mas não é crível que tal tenha acontecido em todas as omissões apontadas. Deduz-se, portanto, que, na sua esmagadora maioria, esses artistas foram deliberadamente preteridos a favor de outros mais do agrado dos organizadores. E como se isto não bastasse, constata-se que muitos dos intérpretes presentes não estão representados com os seus temas mais marcantes e emblemáticos. Apenas meia dúzia exemplos: Lucília do Carmo, com "Loucura", em vez de "Maria Madalena"; Maria Teresa de Noronha, com "Fado das Horas", em vez de "Fado Anadia"; Luiz Goes, com "Fado Hilário", em vez de "Homem Só, Meu Irmão"; Manuel de Almeida, com "Mãos cheias de amor", em vez de "Quero tanto aos olhos teus"; João Braga, com "Nau Catrineta", em vez de "Fado do Estudante"; Mafalda Arnauth, com "Esta voz que me atravessa", em vez de "Meus Lindos Olhos".
Acresce que todos os CDs ficaram aquém da sua capacidade máxima (cerca de 7 minutos por preencher, em média). Portanto, aproveitando ao máximo a capacidade dos CDs, incluindo os referidos intérpretes omissos nem que fosse necessário prescindir de outros, e com uma selecção mais criteriosa do repertório, ter-se-ia obtido uma colecção qualitativamente superior e bem mais apresentável. E por falar em apresentável, há ainda que referir duas lacunas imperdoáveis, ainda mais numa edição que se pretende de luxo: a não creditação dos músicos acompanhadores e a não inclusão das letras! Será que as editoras ainda não perceberam que a edição discográfica, hoje em dia, não é apenas vender música?
Concluindo: a ideia era boa mas o produto final deixa muito a desejar. Por isso mesmo, estive hesitante em destacar esta edição, mas acabei por fazê-lo e por duas ordens de razões: primeira, porque ao omiti-la estaria a injustiçar os intérpretes presentes (sobretudo os inquestionáveis) tal como os organizadores fizeram aos nomes grandes que deliberadamente excluíram; e, segunda, por uma questão de pedagogia do que devia ser feito e – infelizmente – não se fez. Neste aspecto, as integrais de Luiz Goes, Carlos Paredes e Maria Teresa de Noronha, que Jorge Mourinha coordenou para a EMI-Valentim de Carvalho, deviam ser tomadas como referência por quem futuramente se abalançar neste género de edições.

Alinhamento:
Disco 1: Sempre
1. Amália Rodrigues - Estranha Forma de Vida (Amália Rodrigues / Alfredo Duarte "Marceneiro" – Fado Bailado)
2. Carlos do Carmo - Um homem na cidade (José Carlos Ary dos Santos / José Luís Tinoco)
3. Mariza - Ó gente da minha terra (Amália Rodrigues / Tiago Machado)
4. Camané - Mais um fado no fado (Júlio de Sousa / Carlos da Maia – Fado Perseguição)
5. Lucília do Carmo - Loucura (Júlio de Sousa)
6. Fernando Farinha - Belos Tempos (Fernando Farinha / Júlio de Sousa – Fado Loucura)
7. Argentina Santos - As Minhas Horas (Maria Manuel Cid / Joaquim Campos)
8. Beatriz da Conceição - Ovelha Negra (João da Conceição Dias / Jaime Tiago dos Santos)
9. Tristão da Silva - Da Janela do Meu Quarto (António Villar da Costa / Nóbrega e Sousa)
10. Maria Teresa de Noronha - Fado das Horas (D. António de Bragança / Popular; arr. Maria Teresa de Noronha)
11. Maria da Fé - Até que a voz me doa (José Luís Gordo / José Fontes Rocha)
12. Fernando Maurício - Igreja de Santo Estêvão (Gabriel de Oliveira / Joaquim Silva)
13. Berta Cardoso - Tia Macheta (João Linhares Barbosa / Manuel Soares)
14. Alfredo Marceneiro - A Casa da Mariquinhas (Silva Tavares / Popular; arr. Alfredo Duarte "Marceneiro")
15. Hermínia Silva - Fado da Sina (Amadeu do Vale / Jaime Mendes)
16. Fernanda Maria - Saudade, vai-te embora (Júlio de Sousa)
17. Armandinho - Fado Estoril (Armando Augusto Freire)
18. Luiz Goes - Fado Hilário (Augusto Hilário)
19. Alberto Ribeiro - Coimbra (José Galhardo / Raul Ferrão)
20. Carlos Paredes - Balada de Coimbra (José Eliseu; arr. Artur Paredes)

Disco 2: Ontem
1. Rodrigo - Cais do Sodré (Eduardo Olímpio / Paco Bandeira)
2. Carlos Ramos - Não venhas tarde (Aníbal Nazaré / João Nobre)
3. Cidália Moreira - O meu primeiro amor (Nelson de Barros / Frederico Valério)
4. Carlos Zel - Meu amor morre no mar (António Teixeira Vasconcelos / Pedro Rodrigues – Fado Primavera)
5. Teresa Tarouca - Não sou fadista de raça (M. T. Cavazini / Alfredo Duarte "Marceneiro")
6. João Ferreira-Rosa - Embuçado (Gabriel de Oliveira / Alcídia Rodrigues – Fado Tradição)
7. Mariana Silva - Renascimento (Fernando Farinha / Popular – Fado Menor)
8. Celeste Rodrigues - Lenda das Algas (Laierte Neves / Jaime Mendes)
9. Maria Alice - A varanda dos lilases (Júlio Guimarães / Miguel Ramos)
10. Manuel de Almeida - Mãos cheias de amor (Clemente Pereira / Popular; arr. J. Santos)
11. Maria Amélia Proença - Era só o que faltava (Jorge Rosa / António Redes Cruz)
12. Hermano da Câmara - Colchetes d'Oiro (Henrique Rêgo / Popular)
13. Ada de Castro - Bateu-me à porta a tristeza (Fernanda de Castro / Elvira de Freitas)
14. António Mourão - Fadista Louco (Domingos Gonçalves Costa / Francisco Viana)
15. João Braga - Nau Catrineta (Anrique Paço d'Arcos / João Ferreira-Rosa; arr. José Fontes Rocha e João Braga)
16. Maria da Nazaré - Eu vi-te num dia assim (Eduardo Damas / Manuel Paião)
17. Frutuoso França - Amizades (Frutuoso França / Lourenço Duarte Machado)
18. António dos Santos - Partir é morrer um pouco (Augusto Mascarenhas Barreto / António dos Santos)
19. Augusto Camacho - Quando os sinos dobram (Eduardo Tavares de Melo)
20. Fernando Machado Soares - Balada da Despedida (Fernando Machado Soares)

Disco 3: Hoje
1. Ana Moura - Os Búzios (Jorge Fernando)
2. Mísia - Dança de Mágoas (Fernando Pessoa / Raul Ferrão – Fado Carriche)
3. Hélder Moutinho - Ao Trovador (Hélder Moutinho / Paulo Jorge Santos)
4. Cristina Branco - Navio Triste (Vitorino Salomé / Ricardo Jesus Dias)
5. Jorge Fernando & Ana Moura - Por um dia (Jorge Fernando)
6. Pedro Moutinho - O negro fica-lhe bem (Hélder Moutinho / António dos Santos)
7. Joana Amendoeira - Saudade por cantar (Tiago Torres da Silva / Paulo Paz)
8. António Zambujo - Guitarra triste (Álvaro Duarte Simões)
9. Ana Sofia Varela - Por que voltas de que lei (Amália Rodrigues / Mário Pacheco)
10. Rodrigo Costa Félix - Soneto da Fidelidade (Vinicius de Moraes / Mário Pacheco)
11. Mário Pacheco - Um outro olhar (Mário Pacheco)
12. Mafalda Arnauth - Esta voz que me atravessa (Hélia Correia / Amélia Muge)
13. Ricardo Ribeiro - A Lua e o Corpo (Rui Manuel J. de Oliveira / Alfredo Duarte "Marceneiro" – Fado Pierrot)
14. Raquel Tavares - Manjerico (João Linhares Barbosa / Jaime Santos)
15. Aldina Duarte - Princesa Prometida (Aldina Duarte / José Marques – Fado Triplicado)
16. Katia Guerreiro - Minha Senhora das Dores (Jorge Rosa / Paulo Valentim)
17. Maria Ana Bobone - Meu nome é nome de mar (Manuel Alegre / João Braga; arr. Ricardo Rocha)
18. Rão Kyao & Teresa Salgueiro - Deus também gosta de fado (Tó Moliças / Rão Kyao)
19. Paulo Bragança - O Espírito da Carne (Paulo Bragança / Rui Vaz e Paulo Bragança)

Disco 4: Amanhã
1. Deolinda - Fado Toninho (Pedro da Silva Martins)
2. Miguel Rebelo - A Rosa e o Chico (Uma história de amor) (Rui Rocha / Miguel Rebelo)
3. Ana Laíns - O fado que me traga (Samuel Lopes / Miguel Rebelo)
4. Carminho - As Minhas Penas (D. António da Câmara / Carlos da Maia – Fado Perseguição)
5. Marco Rodrigues - Sob a Lua (Miguel Martins / Armando Machado – Fado Súplica)
6. Lina Rodrigues - Onde nasce a solidão (Tiago Torres da Silva / Raul Ferrão)
7. Inês Duarte - O teu amor é saudade (Samuel Lopes / Valter Rolo)
8. Carla Pires - Balada para uma boneca de capelista (José Carlos Ary dos Santos / Paulo de Carvalho)
9. Duarte - Évora doce (revisitada) (Duarte)
10. Tânia Oleiro - Amor, sou tua (Guilherme Pereira da Rosa / Frederico Valério)
11. Patrícia Rodrigues - Sol oculto (Natália Correia / Nuno Rodrigues)
12. Diamantina - Meu amor, nesse dia (Diamantina Rodrigues / Diogo Clemente

13. José Manuel Salles - Pescador da barca bela (António Paniágua)
14. Cristina Nóbrega - Amor de Mel, Amor de Fel (Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves)
15. António Ataíde - Balada do Outono (José Afonso)
16. Liana - Da minha torre (José Carlos Ary dos Santos / Tiago Machado)
17. Mr. Tea & Orlanda Guilande - Barco Negro (David Mourão Ferreira / Caco Velho-Piratini)
18. Rosa Negra - Naufrágio (Cecília Meireles / Alain Oulman)
19. Cuca Roseta - Rua do Capelão (Júlio Dantas / Frederico de Freitas)
20. Metro - Meu Amor, Meu Amor (Meu limão de amargura) (José Carlos Ary dos Santos / Alain Oulman)
21. Catarina Moura - Fado da Severa (Sousa do Casacão / Popular)

Conceito, produção executiva e alinhamento – Samuel Lopes
Coordenadora de produção – Suzy Lorena
Assistente de produção – Mariana Teixeira
Selecção musical – Samuel Lopes, Nuno Lopes & Manuel Halpern, excepto as faixas n.º 4 do CD1 e n.º 12 do CD3, seleccionadas por EMI Music Portugal
Restauro e masterização – João Lopes, no M1 Mastering Studio

Textos – Nuno Lopes & Manuel Halpern
Tradução para inglês – Sara Jofre
Design e ilustração – Susana Veiga
Fotos – Arquivo Valentim de Carvalho, Jorge Pereira e Sofia Berberan

URL:
http://www.differencemusic.com/pt/artigo.aspx?id=135
http://www.cdgo.com/artigoDetalhe.php?idArtigo=3979138


O Melhor de Alberto Ribeiro
(CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)



Alberto Dias Ribeiro, de seu nome completo, nasceu em Ermesinde, concelho de Valongo, a 29 de Fevereiro de 1920. Filho de um comerciante muito considerado na localidade, tudo indicava que o menino Alberto iria seguir as pisadas do pai. Mas certo dia, quando tinha apenas oito anos de idade, Cristiano, o seu irmão mais velho, que gostava de tocar guitarra, pede-lhe que cante acompanhando-o à guitarra. De inicio, ele procurava escapar a tal "frete", mas com o passar do tempo, o gosto pela música começa a crescer. Aos nove anos de idade, depois de realizar o exame final da quarta classe, a família muda-se para o Porto. Uma noite, estando Alberto Ribeiro e seu pai no Café Portugal, da Cidade Invicta, local onde se cantava o fado, um amigo da família fala ao dono do café das suas qualidades canoras. E é assim que Alberto Ribeiro se estreia a cantar em público, suscitando tal impressão que o dono do café logo o contrata por 15 escudos por dia, e isto com apenas 10 anos de idade. Decorridos cinco anos, Alberto Ribeiro muda-se para Lisboa. Para se manter, emprega-se numa fábrica de tecelagem, mas essa será uma actividade passageira pois ao fim de uma semana já estava contratado para cantar no afamado Café Luso. Passa a ter lições de canto com a professora D. Maria Antónia Palhares, que ao escutar a sua voz augura que aquele jovem se tornaria em breve num ídolo nacional.
Em 1939, Alberto Ribeiro estreia-se no Teatro Apolo, com a revista "Toma Lá Cerejas", obtendo um sucesso retumbante. A partir daí nunca mais parou, participando em numerosas revistas e operetas, tais como: "Alvorada de Amor", "Colete Encarnado", "Os Sinos de Corneville", "A Viúva Alegre", "As Pupilas do Senhor Reitor" (opereta levada à cena no Coliseu dos Recreios, onde interpretou o papel de Pedro); "La Traviata", "Nazaré", "Alfacinha de Gema", "A Leiteira de Entre-Arroios" (extraída de um conto de Júlio Dinis, libreto e música de Penha Coutinho e Filipe Duarte), "Bolacha Americana", "Mouraria", "Tiro-Liro", "Sempre em Pé", "Alto Lá com o Charuto", "O Mundo em Marcha", "Essa é Que é Essa", "Na Ponta da Unha", "O Mar Também Tem Amantes", "Sol de Portugal" e "Cantiga da Rua". Em 1944, ruma a Espanha onde vai integrar, como primeira figura, a companhia de Célia Gomez. Durante dezoito meses, canta zarzuelas e operetas alcançando um sucesso sem precedentes. É então convidado a participar no filme "Un Ladrón de Guante Blanco" (1946, "O Ladrão de Luva Branca"), que constitui a sua estreia na sétima arte.
De regresso a Portugal, é-lhe oferecido o papel de protagonista no filme "Capas Negras", realizado por Armando de Miranda, contracenando com Amália Rodrigues, a nova diva do fado, que se estreia no cinema. Melodrama ambientado em Coimbra, pontuado com fados e canções, "Capas Negras" trata dos amores e dos desenganos do finalista de Direito José Duarte (Alberto Ribeiro) com uma jovem lisboeta, que se encontrava a viver em Coimbra, Maria de Lisboa (Amália Rodrigues). Uma das canções presentes no filme é "Coimbra" (com letra de José Galhardo e música de Raul Ferrão), na voz de Alberto Ribeiro, que mais tarde será difundida internacionalmente pela própria Amália (por exemplo, no histórico concerto de 1957, no Olympia de Paris). Estreado a 17 de Maio de 1947, no Cinema Condes, em Lisboa, "Capas Negras" mantém-se em cartaz durante 22 semanas consecutivas, o que constitui até à altura o maior êxito do cinema português, granjeando a Alberto Ribeiro uma popularidade imensa. Canta em Portugal e no estrangeiro, obtendo sucesso após de sucesso. No Rio de Janeiro, em 1948, trabalha, durante meses, na Rádio Nacional, onde obtém grandes triunfos que o popularizam no Brasil. Ingressa depois na Rádio Bandeirantes, de São Paulo, na Rádio de Santos e toma parte em muitas emissões da Rádio Clube de Pernambuco e percorre, em digressão artística, boa parte do grande país sul-americano. Uma greve de músicos impossibilitá-lo-ia de cumprir um vantajoso contrato no México. Esteve, de passagem, na América do Norte, dando algumas audições em Nova York.
Entretanto, é convidado pelo realizador Henrique de Campos para interpretar sete documentários musicais: "Marco do Correio", "Fado Hilário", "Canção Fadista" "Catraia do Porto", "Rainha Santa", "Guadiana" e "Candeeiro da Esquina". A amizade com o cineasta levaria Alberto Ribeiro a protagonizar alguns filmes por aquele realizados: "Cantiga da Rua" (1950), "Rosa de Alfama" (1953) e "A Canção da Saudade" (1964). Por esta altura, volta ao palco para a comemoração dos 25 anos da opereta "Nazaré" onde interpreta, entre outras canções, "Maria da Nazaré" (com letra de António Vilar da Costa e música de sua autoria), que fora um estrondoso êxito na década de 1940. Pouco depois, abandona em definitivo a vida artística, dedicando-se a actividades económicas. Vem a falecer na cidade do Porto, em 2000. Entretanto, Lauro António prestara um singelo tributo ao cantor ao incluir a canção "Marco do Correio" na banda sonora do filme "Manhã Submersa" (1980). (baseado em textos de
Paulo Borges Almeida e na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira)
Dotado de uma voz incrivelmente extensa, com grande facilidade nos agudos e de timbre quente, que lhe permitia cantar fado e opereta, Alberto Ribeiro foi um dos maiores cantores que nasceram em Portugal. Esta bela antologia proporciona aos mais velhos a oportunidade de revisitarem o seu repertório em melhores condições de audição que as do vinil e oferece ao público mais jovem a possibilidade de descobrir uma voz única do século XX português.

Alinhamento:
1. Coimbra (José Galhardo / Raul Ferrão)
2. Mondego Sonhador (Vasco de Macedo / Lourenço Rodrigues)
3. Marco do Correio (Amadeu do Vale / Alberto Ribeiro)
4. Catraia do Porto (Frederico de Brito / Alberto Ribeiro e Fernando de Carvalho)
5. Carta do Expedicionário (Linhares Barbosa / Alberto Ribeiro)
6. Canção do Pastor (Amadeu do Vale / Jaime Mendes)
7. Canção do Cigano (Frederico de Brito / Vasco de Macedo)
8. Adeus Lisboa (Amadeu do Vale / Alberto Ribeiro)
9. Alma de Deus (José Serrano / Carlos Arinches)
10. Não é Amor (João Nobre)
11. Lisboa à Vista (Amadeu do Vale / Tavares Belo)
12. O Retrato Dela (Jerónimo Bragança / Tavares Belo)
13. Matar Saudades (Frederico de Brito / Alberto Ribeiro)
14. Noivado de Maria (Popular)
15. Serenata dos Olhos Verdes (Jerónimo Bragança / Joaquim Luís Gomes)
16. Fado Hilário (Gabriel de Oliveira / Augusto Hilário Alves; arr. João Dias Nobre)
17. Última Carta (José Galhardo / João Dias Nobre)
18. Canção do Alentejo (Gabriel de Oliveira / Alberto Ribeiro)
19. Canção do Pescador (Alberto Cardoso dos Santos / Jaime Mendes)
20. Conclusão (Jerónimo Bragança / Nóbrega e Sousa)

Textos, selecção de repertório e alinhamento – José Moças e João Afonso
Tradução para inglês – Maria João Aguiar
Design gráfico – Celina Botelho
Produção executiva – José Serrão

URL:
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/76755.html
http://pauloborges.bloguepessoal.com/122147/ALBERTO-RIBEIRO-CANTA-A-CANCAO-COIMBRA/
http://www.youtube.com/watch?v=StISVq89DUY


100 Anos de Fado de Coimbra, de Grupo de Fados do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra
(2CD, Public-art, 2008)



«O Coro dos Antigos Orfeonistas (A.O.) nasceu em 1980, por ocasião do centenário do Orfeon Académico de Coimbra. Progressivamente, aliando a qualidade e a originalidade do seu canto ao simbólico das suas capas negras, o grupo tem-se afirmado como embaixador cultural da Universidade de Coimbra e da sua Cidade. De entre as linhas que vêm tecendo a matriz identificadora dos Antigos Orfeonistas, sobressai a Canção de Coimbra, o Fado de Coimbra. De facto, num colectivo individualmente tão díspar como é o Coro dos Antigos Orfeonistas, a música de Coimbra revela-se elo de confluência que alicerça a comunhão de diferentes gerações, nos seus distintos percursos, distintos saberes, distintos sentires. Ela é a presença que perpassa e dá corpo uniforme não só aos anónimos momentos de convívio orfeónico, como também às celebradas apresentações em palcos de renome internacional. Manifesta-se de modo evidente durante os seus espectáculos, tradicionalmente coroados com uma Serenata de Coimbra. Daí que, em 2007, o Grupo de Fados dos Antigos Orfeonistas, responsável por excelência desse emblemático momento, tenha abraçado a tarefa de reunir para memória futura, temas musicais que habitualmente interpreta e que percorrem os últimos cem anos do Fado de Coimbra.
A selecção presente, uma das muitas possíveis, realça, a nosso ver, o evoluir dos diferentes componentes na Canção Coimbrã – do poema à voz, da música ao suporte instrumental, das formas interpretativas à leitura do papel social a desempenhar pela canção. Realça, em síntese, a intemporalidade do Fado de Coimbra.
Foram elementos fulcrais e credores de reconhecimento constante no concretizar deste projecto, os intérpretes e a equipa técnica que apaixonadamente o levaram a cabo; a Direcção dos Antigos Orfeonistas em exercício em 2007, presidida por António Luzio Vaz, com o estímulo oferecido; os antigos orfeonistas que ao longo dos anos, integraram e enriqueceram com as suas violas, as suas vozes e as suas guitarras este Grupo de Fados e, finalmente, todos aqueles que no percurso dos tempos, foram recolhendo, preservando e recriando a música de Coimbra para a legar, adiante, aos que a recriem de novo, a reinventem, a mantenham viva.» (António Crespo Couto)
Começando no celebérrimo "Fado Hilário", criado no ano de 1894 ou 1895, por Augusto Hilário, e terminando na não menos famosa "Balada da Despedida do 6.º Ano Médico de 1958", criação de Fernando Machado Soares, integram esta obra temas tão conhecidos como "Samaritana", "Senhora do Almortão" (ambos de acordo com as gravações de Edmundo de Bettencourt, de 1928-29), "Coimbra, Menina e Moça", "Balada dos Meus Amores", "Trova do Vento Que Passa", "Canto a Coimbra" e "Vira de Coimbra", num total de 40 temas, dos quais 8 instrumentais, distribuídos por dois discos. De notar que a selecção do repertório não se confinou aos espécimes consagrados na tradição interpretativa coimbrã, estendendo-se também a temas que na gravação original se encontram mais ou menos distantes dessa estética, embora pertencendo à obra de intérpretes que passaram por Coimbra. Exemplos disso são "Canção com Lágrimas", "Sou Barco" e "E Alegre se Fez Triste" (do repertório de Adriano Correia de Oliveira), "Vejam Bem", "Era Um Redondo Vocábulo" e "Por Trás Daquela Janela" (do repertório de José Afonso), "O Trovador" (originalmente gravado por Manuel Freire com o título "Trova", em 1968) e até "Mira-me Miguel", tradicional de Trás-os-Montes, aqui num arranjo instrumental de Tiago Henriques da Cunha (1995).
De destacar ainda o utilíssimo livrete, que acompanha esta edição, com as letras, as autorias dos temas e respectivos anos de criação, os nomes dos intérpretes, assim como outras informações suplementares. Um trabalho muito cuidado e que serve de exemplo de como se deve fazer edição discográfica, nos dias de hoje, até como forma de desincentivar o 'download' ilegal na internet.
Para melhor se perceber a génese e a evolução da canção de Coimbra, transcreve-se um texto, inserto no álbum, da autoria de Jorge Cravo: «A Canção de Coimbra é um género musical amador, enraizado num folclore urbano (o da própria cidade), cantado por estudantes e antigos estudantes (filão académico) e pelo povo da cidade (filão popular), e que entronca na Música Tradicional de Coimbra.
Os estudantes estão nesta cidade desde tempos anteriores à criação da Universidade, pois antes do Estudo-Geral, Coimbra já era uma terra de estudantes. De facto, por volta de 1064, o Bispo Paterno criou, nesta cidade, uma Escola Episcopal destinada à formação dos clérigos, todavia, a boa qualidade do ensino leccionado levou a que essa Escola fosse também frequentada por não-religiosos e, assim, com uma escola aberta à população, acorreram a Coimbra, a partir do século XI-XII, alguns jovens, filhos de uma burguesia emergente e, particularmente, ligados à nobreza. É óbvio que, onde quer que haja jovens, há-de haver quem cante, hão-de ter a sua expressão musical própria, sujeitando-se, também, às influências musicais mais díspares possíveis. Assim, um repertório de canções interpretadas pelos cultores populares serviu de base à identificação de uma música regional e local – a Música Tradicional de Coimbra – e, em consequência da coexistência musical entre populares e académicos, a Universidade de Coimbra, fundada nos finais do século XIII e definitivamente instalada nesta cidade, desde 1537, acabou por ser um dos poucos Estudos-Gerais oriundos da época medieval que viu o seu corpo discente desenvolver o filão académico de uma Canção fortemente influenciada pela Música Tradicional da cidade – a Canção de Coimbra –, sendo, no mundo, uma das raras universidades possuidoras de uma Canção própria. Sabe-se, aliás, que pelo menos desde o século XVI, era hábito os estudantes de Coimbra cantarem e tocarem noite dentro, pelas ruas da cidade. Prova factual é a missiva que o rei D. João III enviou ao então magnífico reitor da Universidade, D. Agostinho Ribeiro, em 20 de Junho de 1539, dando conta da necessidade e da urgência em se pôr cobro às algazarras e às cantorias que os estudantes faziam até altas horas da noite, já que eram muitas as queixas dos moradores da velha urbe. Assim, ao longo dos séculos, fruto da sociabilidade urbana própria de uma cidade com universidade, a população e os estudantes souberam dar corpo musical a um género tão específico como é a Canção de Coimbra.
O trabalho discográfico que nos é proposto por aqueles que, fazendo parte do Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, são também cultores e executantes desta Canção, é uma pequena amostra do que tem sido a Canção de Coimbra ao longo dos últimos 114 anos. Sendo uma selecção subjectiva entre as muitas possíveis é, porém, de enaltecer mais este esforço para a divulgação da Canção de Coimbra.» (Jorge Cravo, cantor e investigador)

Alinhamento:
Disco 1:
1. Fado Hilário (Augusto Hilário)
2. Fado Manassés (Manassés de Lacerda)
3. Samaritana (Álvaro Cabral)
4. Inquietação (Edmundo de Bettencourt / Alexandre de Rezende)
5. Senhora do Almortão e Senhora de Póvoa (Popular)
6. Coimbra, Menina e Moça (Américo Cortez Pinto e Popular / Fausto Frazão)
7. Fado de Santa Cruz (Popular / Fortunato Roma da Fonseca)
8. O Meu Fado (António Botto / Armando Goes)
9. Variações em Ré menor (instrumental) (Artur Paredes)
10. Fado Corrido de Coimbra (Popular)
11. Feiticeira (Ângelo Vieira de Araújo)
12. Fado das Andorinhas (José Paradela de Oliveira)
13. Ondas do Mar (Carlos Figueiredo)
14. Fado da Despedida (João Conde Veiga / Luiz Goes)
15. Balada da Torre D'Anto (Leonel Neves / João Bagão)
16. Balada dos Meus Amores (Edmundo de Bettencourt / Luiz Goes)
17. Variações n.º 1 em Lá menor (instrumental) (João Bagão)
18. Passatempo (instrumental) (Artur Paredes)
19. Danças Portuguesas n.º 2 (instrumental) (Carlos Paredes)

Disco 2:
1. Trova do Vento Que Passa (Manuel Alegre / António Portugal)
2. Canção com Lágrimas (Manuel Alegre / Adriano Correia de Oliveira)
3. Vejam Bem (José Afonso)
4. Sou Barco (António Borges Coelho / Luís Cília)
5. O Trovador (Manuel Alegre / Manuel Freire)
6. Romance n.º 1 (instrumental) (Carlos Paredes)
7. E Alegre se Fez Triste (Manuel Alegre / José Niza)
8. Era Um Redondo Vocábulo (José Afonso)
9. Por Trás Daquela Janela (José Afonso)
10. Canção Pagã (Leonel Neves / Luiz Goes)
11. Fantasia "A Espanhola" (instrumental) (Octávio Sérgio)
12. Tempo Que Não Passa (Manuel Alegre / José Mesquita)
13. Maio '78 (instrumental) (Jorge Gomes)
14. Formas (Miguel Porto / Jorge Cravo)
15. Canto a Coimbra (Aurelino Costa / Victor Almeida e Silva)
16. Madrugadas Silentes (João Anjo / José Miguel Baptista)
17. Balada de Despedida do V Ano Jurídico de 1989 (António Vicente / João Paulo Sousa e Rui Lucas)
18. Pensamento Livre (Virgílio Caseiro)
19. Mira-me Miguel (instrumental) (Popular e Tiago Henriques da Cunha)
20. Vira de Coimbra (Popular)
21. Balada da Despedida do 6.º Ano Médico de 1958 (Fernando Machado Soares)

Músicos:
Disco 1:
- Faixa 1:
João Farinha – voz
Tiago Henriques da Cunha, João Pedro Monteiro – guitarras
Luís Ferreirinha, Nuno Botelho – violas
- Faixa 2:
Nuno Silva – voz
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 3:
João Vaz – voz
Octávio Sérgio, Bruno Costa – guitarras
Carlos Caiado, Nuno Botelho – violas
- Faixa 4:
Fernando Ferreirinha – voz
Octávio Sérgio, Bruno Costa – guitarras
Carlos Caiado, Luís Ferreirinha – violas
- Faixa 5:
João Farinha – voz
Tiago Henriques da Cunha – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 6:
Horácio Miranda – voz
Luís Oliveira, João Pedro Monteiro – guitarras
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 7:
Vítor Nunes – voz
Octávio Sérgio, Tiago Henriques da Cunha – guitarras
José Rodrigues Pereira – viola
- Faixa 8:
Patrick Mendes – voz
Octávio Sérgio, Bruno Costa – guitarras
Luís Ferreirinha, Nuno Botelho – violas
- Faixa 9:
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 10:
José Mesquita – voz
Tiago Henriques da Cunha, Octávio Sérgio – guitarras
Carlos Caiado – viola
- Faixa 11:
Rui Oliveira – voz
Octávio Sérgio, Bruno Costa – guitarras
Carlos Caiado, Nuno Botelho – violas
- Faixa 12:
José Paracana – voz
João Pedro Monteiro, Luís Oliveira – guitarras
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 13:
Vítor Nunes – voz
Tiago Henriques da Cunha, Octávio Sérgio – guitarras
José Rodrigues Pereira – viola
- Faixa 14:
João Pinheiro – voz
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 15:
Fernando Ferreirinha – voz
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 16:
Nuno Silva – voz
Bruno Costa – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
Nuno Botelho – viola
- Faixa 17:
João Pedro Monteiro, Tiago Henriques da Cunha – guitarras
Nuno Botelho, Carlos Caiado – violas
- Faixa 18:
Bruno Costa, Luís Oliveira – guitarras
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 19:
Bruno Costa – guitarra
Nuno Botelho – viola

Disco 2:
- Faixa 1:
José Miguel Baptista, António Crespo Couto, Patrick Mendes – vozes
Bruno Costa, Octávio Sérgio – guitarras
Luís Ferreirinha, Nuno Botelho – violas
- Faixa 2:
António Almeida Santos – voz
Tiago Henriques da Cunha – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 3:
António Crespo Couto – voz
Octávio Sérgio – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 4:
João Pinheiro – voz
Tiago Henriques da Cunha – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 5:
António Almeida Santos – voz
Octávio Sérgio – guitarra
Nuno Botelho – viola
- Faixa 6:
Bruno Costa – guitarra
Nuno Botelho – viola
- Faixa 7:
José Daniel Vilhena – voz
João Pedro Monteiro – guitarra
Nuno Botelho – viola
- Faixa 8:
João Barreiros – voz
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 9:
António Crespo Couto – voz e viola
- Faixa 10:
João Barreiros – voz
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 11:
Octávio Sérgio – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 12:
José Mesquita – voz
Octávio Sérgio, Tiago Henriques da Cunha – guitarras
Carlos Caiado, Luís Ferreirinha – violas
- Faixa 13:
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 14:
Patrick Mendes – voz
Bruno Costa – guitarra
Nuno Botelho – viola
- Faixa 15:
João Vaz – voz
João Pedro Monteiro – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 16:
José Miguel Baptista – voz
Bruno Costa – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 17:
José Daniel Vilhena – voz
Bruno Costa, Luís Oliveira – guitarras
Nuno Botelho – viola
- Faixa 18:
Virgílio Caseiro – voz
Luís Oliveira – guitarra
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 19:
Tiago Henriques da Cunha, João Pedro Monteiro – guitarras
Luís Ferreirinha – viola
- Faixa 20
Fernando Ferreirinha, João Pinheiro, António Crespo Couto, José Miguel Baptista, José Mesquita – vozes
Octávio Sérgio, Tiago Henriques da Cunha – guitarras
Carlos Caiado – viola
- Faixa 21:
Nuno Silva, João Farinha, Coro dos Antigos Orfeonistas – vozes
Octávio Sérgio, Tiago Henriques da Cunha – guitarras
Luís Ferreirinha – viola

Coordenação – António Crespo Couto
Direcção artística – Luís Ferreirinha
Consultores – Tiago Henriques da Cunha, Octávio Sérgio
Produção e edição – Heinz Frieden

Gravação e misturas – Heinz Frieden, entre Julho de 2007 e Janeiro de 2008

Fotografias – Pedro Medeiros
Grafismo – Thália Design

URL:
http://www.uc.pt/antorf/
http://www.public-art-sound.com/Audio-Site/100%20anos%20Fado.html


Serenata: Instrumental para Guitarra Toeira, de Francisco Gouveia & José António Neves
(CD, Edição de Autor, 2008)



«A guitarra toeira é um cordofone que teve o seu berço na região da Beira Litoral (de Ovar a Coimbra), com forte influência de Coimbra e da sua música. A sua origem data do século XVI, tendo sofrido um grande impulso por volta de 1850, sendo o instrumento principal das serenatas coimbrãs, altura em que é tocada com mestria, especialmente nas mãos de dois cantores e instrumentistas, João de Deus e José Dória, ao tempo, dois estudantes de Medicina em Coimbra. Até finais do século XIX, a toeira distinguiu-se com garbo, até que, por essa altura, começou o seu declínio com a entrada da guitarra de Lisboa no meio académico que, a pouco e pouco, a foi substituindo. Sobreviveu mais algumas décadas no folclore, até que entrou em desuso. Os principais construtores da toeira localizavam-se em Ovar e em Coimbra. Com 86 cm de comprimento, tem 12 cordas distribuídas por três ordens duplas (primeiras) e duas ordens triplas (bordões). Afina (do agudo para o grave): mi, si, sol, ré, lá. Tem uma sonoridade muito especial derivada exactamente dessa particularidade de os dois bordões graves serem constituídos por grupos de três cordas. É talvez a guitarra portuguesa popular com técnica de execução mais elaborada e talvez aquela que preferencialmente usa o dedilhado. Tal deve-se à sua utilização por estudantes que lhe transmitiram a sua cultura muito própria. Mas, essencialmente, a sua execução assenta num misto de dedilhado, ponteado e rasgado. Hoje em dia, este instrumento é executado somente por estudiosos.» (Francisco Gouveia & José António Neves)
Se é verdade que alguns grupos de música tradicional, como a Brigada Victor Jara e o Maio Moço, têm a toeira no seu instrumentário, o facto de ser tocada acompanhada de outros instrumentos, acaba irremediavelmente por prejudicar a sua sonoridade graciosa e delicada. Neste registo, a toeira está em primeiro plano e ao ouvirmos o seu belíssimo timbre, percebemos o quanto a nossa mundividência sonora saiu enriquecida. Não fosse pela bela música que apresenta, primorosamente executada, este registo de Francisco Gouveia (toeira) e José António Neves (viola, baixo e teclas), seria sempre um trabalho de indiscutível valor documental, justamente por resgatar o som daquela que é talvez a mais sedutora das violas tradicionais portuguesas.

Alinhamento:
1. Serenata
2. Vira de Coimbra (folclore)
3. Minuete do Livro de Anna Magdalena Bach (Johann Sebastian Bach)
4. Sapateado
5. Flor Nocturna
6. Cantar de Reis (folclore de Manhouce, Beira Alta)
7. Danças Serranas
8. Meia-Noite ao Luar (Alexandre Resende)
9. Dueto
10. Vira de Quatro (folclore)
11. Modinha
12. Toada

Temas instrumentais compostos por Francisco Gouveia, excepto onde indicado.

Francisco Gouveia – toeira
José António Neves – viola, baixo, teclas

Gravado no Porto

URL:
http://www.guitarrasdeportugal.com/


Sol a Sol, de Filipe Lucas
(CD, Musicart, 2008)



Nascido em 1957, Filipe Lucas começou por estudar flauta e guitarra clássica, na Academia de Amadores de Musica, onde teve como professor Fernando Lopes Graça. Mais tarde, interessou-se pela guitarra
portuguesa, recebendo lições de Arménio de Melo. Enquanto executante do instrumento, trabalhou nas principais casas de fados de Lisboa ao lado de grandes instrumentistas como Martinho d’Assunção, Fernando de Freitas e
Arménio de Melo, acompanhando aí, ou em digressão, Mariza, Dulce Pontes, Jorge Fernando, Mingo Rangel, Nuno de Aguiar, Anamar, Paulo Bragança, entre outros. Participou na gravação de diversos discos, entre os quais "Mátria" (1999, de Paulo de Carvalho), "Primeiro Canto" (1999, de Dulce Pontes), "Meu Disco, Meu Fado" (2005, de Nuno de Aguiar) e "Terra do Zeca" (2007, de Davide Zaccaria e Terra d’Água). A sua actividade estende-se também ao cinema e ao teatro, sendo de realçar a sua participação no documentário "Lisboa Cultural" (1983), de Manoel de Oliveira, onde tocou obras de Duarte Costa, e a composição de música para filmes, entre os quais "Uma Vida Normal" (1994), de Joaquim Leitão, e para peças encenadas por João d’Ávila e Maria do Céu Guerra.
Em finais de 2007, resolve entrar em estúdio para gravar o seu primeiro trabalho discográfico em nome próprio, de título genérico "Sol a Sol", integralmente constituído por composições suas, tocadas numa guitarra portuguesa de 14 cordas, construída em 1991 pelo guitarreiro Óscar Cardoso.
E "Sol a Sol" está longe de ser apenas mais um álbum de guitarra portuguesa a juntar à discografia já razoavelmente rica do instrumento assinada por nomes tão importantes como Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, António Portugal, António Brojo, Edgar Nogueira, Mário Pacheco, Paulo Parreira e Ricardo Rocha. Além das composições primorosas executadas de forma irrepreensível, o que o trabalho de Filipe Lucas vem acrescentar, e que representa uma mais-valia assinalável, é o alargamento da paleta tímbrica da guitarra portuguesa às tonalidades mais graves possibilitada pelas duas cordas suplementares. Bons exemplos disso são os temas "Guizos e Lendas" (faixa 11), "Harpejos" (faixa 12) e "Orjais" (faixa 13). E há inclusive uma composição, "Portugália" (faixa 7), em que a exploração dos registos mais graves foi de tal modo levada ao extremo, que por momentos nos faz esquecer que se trata de uma guitarra portuguesa. Destaco também, pelo lirismo e graciosidade, os temas "Escadinhas" (faixa 8) e "Renascer" (faixa 9) e, pelo carácter efusivo e apolíneo, "Ingenuidades" (faixa 5) e "Sol a Sol" (faixa 15). Dignas de referência são ainda as composições "Embalar" (faixa 1), "Popular" (faixa 2) e "Tejo" (faixa 10) que me fizeram evocar o estilo afirmativo e vigoroso de Carlos Paredes. Mas atenção: não há aqui nenhuma censura, antes um elogio pois nenhum guitarrista se deve envergonhar de ter recebido influência dessa figura magistral e intemporal da cultura portuguesa.
Em conclusão: é muito bom ainda se fazerem discos assim, por puro amor à arte e sem cedência ao mau gosto e a comercialismos fáceis e efémeros, ainda que pagando o preço de serem mantidos à margem dos circuitos de promoção.

Alinhamento:
1. Embalar
2. Popular
3. Saltimbancos
4. Toada Beirã
5. Ingenuidades
6. Migas
7. Portugália
8. Escadinhas
9. Renascer
10. Tejo
11. Guizos e Lendas
12. Harpejos
13. Orjais
14. Primavera
15. Sol a Sol

Todas as composições de Filipe Lucas executadas pelo autor numa guitarra portuguesa de 14 cordas.

Produção – Filipe Lucas e Paulo Cavaco

Gravação, mistura e masterização – Paulo Cavaco, nos Estúdios Musicart, em Novembro e Dezembro de 2007

Fotografia da capa – Filipe Lucas
Grafismo – Manuel António Tadeu Oliveira

URL:
http://www.myspace.com/filipelucas14cordas


Porto Interior, de Rão Kyao & Yanan
(CD, Fundação Jorge Álvares, 2008)



Desde que gravou o primeiro álbum, "Malpertuis", em 1976, o lisboeta Rão Kyao sempre se distinguiu no nosso panorama musical pela sua persistente vontade em (re)descobrir o Oriente. Fazendo uso ora da flauta de bambu (o mais antigo instrumento melódico) ora do saxofone – nos álbuns "Bambu" (1977), "Goa" (1979) e "Ritual" (1982) –, depois do aclamadíssimo "Fado Bailado" (1983), o músico põe o saxofone de lado e retoma a flauta de bambu para nunca mais a largar. Com ela tem procurado inspiração na música árabe, indiana e chinesa, tentado restabelecer o elo perdido entre a música portuguesa e as ancestrais tradições musicais do Levante. Esse continuado labor está patente em toda a sua discografia, mas importa realçar os álbuns "Macau ao Amanhecer" (1984), "Oásis" (1986), "Junção" (1999) e "Fado Virado a Nascente" (2001). "Porto Interior", cujo título evoca o porto de Macau construído pelos Portugueses no rio das Pérolas, marca o regresso de Rão Kyao à China e ao território que durante quatro séculos e meio foi cenário da convivência pacífica de dois povos culturalmente tão distintos. Para o acompanhar no novo trabalho, Rão Kyao convidou a chinesa Lu Yanan, exímia tocadora de pi’pa. Aqui afigura-se oportuno abrir um parêntesis para contextualizar o curioso instrumento e a sua executante.

A pi’pa é um cordofone de quatro cordas oriundo da Ásia Central, onde surgiu há cerca de 2000 anos, e introduzido na China no século IV. Foi sofrendo sucessivas modificações até adquirir o seu aspecto actual, em forma de pêra encimada por uma garganta curvada. Inicialmente horizontal, a posição da pi’pa também se modificou para a vertical, sendo as cordas beliscadas e dedilhadas. É frequentemente usada como instrumento solista, integrando também as orquestras chinesas modernas.
Lu Yanan fez o curso superior de música no Conservatório Central da China, que concluiu em 1992. Realizou concertos para delegações estrangeiras de visita à China, bem como espectáculos televisivos e gravações para rádios de Pequim e Xangai. Durante dois anos, participou na área de Composições Sinfónicas Clássicas e Modernas do Grupo de Música Orquestral das Minorias Nacionais da China, tendo integrado um grupo de pesquisa e desenvolvimento de sistemas musicais, com vista a incutir na música tradicional chinesa uma nova vitalidade. Como solista, trabalhou com a Orquestra Filarmónica da China, dirigida por Pang Jiapeng, em Pequim. A partir de 2004, Lu Yanan passou a residir em Portugal, mais concretamente na cidade no Porto. No nosso país, tem feito recitais a título individual e foi promotora de um programa radiofónico, em português e mandarim – "A Janela da China" –, emitido pela Rádio Onda Viva, da Póvoa de Varzim, especialmente dirigido à comunidade chinesa radicada naquela região.
Editado pela Fundação Jorge Álvares, "Porto Interior" é formado por composições originais de Rão Kyao, sendo de destacar a suite "Macau" constituída por três andamentos que correspondem às primeiras faixas do alinhamento ("Ilha de Coloane", "Ilha de Taipa" e "Macau"), e adaptações de temas tradicionais portugueses (por Rão Kyao) e de tradicionais chineses (por Lu Yanan). O resultado é simplesmente sublime e de uma invulgar qualidade em projectos deste género, pondo lado a lado músicos e instrumentos oriundos de diferentes tradições musicais. Absolutamente admirável como os instrumentistas dialogam entre si, sem se atropelarem, mas também não se ignorando um ao outro. Exemplo assaz paradigmático do que acabo de referir é o tema "Sabendo que és minha" (faixa 7). Genial!
"Porto Interior": música em estado puro, daquela que não precisa de palavras (elas aqui estariam sempre a mais) para nos envolver e maravilhar. Música que, pela paz e tranquilidade que nos transmite, tem o raro poder de nos enlevar e elevar proporcionando-nos uma indelével experiência contemplativa e espiritual. Se há discos abençoados por alguma entidade transcendente, chame-se-lhe Deus ou outra coisa qualquer, este é certamente um deles. Apetece dizer que estes sons, provindo do fundo dos tempos e existindo diluídos no éter, estavam à espera que alguém os captasse e lhes desse forma harmónica. E foi isso que Rão Kyao e Lu Yanan fizeram oferecendo-nos uma música, que apesar das referências geográficas, se situa num plano verdadeiramente etéreo, sem vestígio de mácula ou imperfeição. Estamos em presença – disso não tenho a mais pequena dúvida – de uma obra-prima absoluta da discografia de Rão Kyao (e de Lu Yanan). Mais do que isso: "Porto Interior" é, em definitivo, um dos trabalhos mais bem conseguidos que até hoje se fizeram, em todo o mundo, na tentativa – nada fácil e quase impossível – de conciliar a música ocidental com a tradição musical chinesa.
«Com este encontro pretendemos, através da música, continuar a celebrar a convivência de vários séculos entre Portugal e a China, que Macau historicamente tão bem exemplificou. Pensamos pois, com a música, humildemente contribuir para manter e fortalecer cada vez mais os laços que nos unem.» (Rão Kyao & Lu Yanan)

Alinhamento:
1. Ilha de Coloane - o amanhecer (Rão Kyao)
2. Ilha de Taipa - o movimento (Rão Kyao)
3. Macau - a chegada (Rão Kyao)
4. A Dança da Minoria Yi (tradicional chinês - adaptação de Yanan)
5. Mordido pela Saudade (Rão Kyao)
6. Tema do Amor (Rão Kyao)
7. Sabendo que és minha (adaptação de Rão Kyao)
8. Primavera (tradicional chinês - adaptação de Yanan)
9. À Oliveira da Serra (popular - adaptação de Rão Kyao)
10. Contemplação do Natureza (tradicional chinês - adaptação de Yanan)
11. Fado Menor (popular - adaptação de Rão Kyao)
12. Celebração da Paz (Rão Kyao)

Nota: As três primeiras faixas constituem a Suite Macau.

Músicos:
Rão Kyao – flautas de bambu
Lu Yanan – pi’pa e gu zheng


Produtor musical – Rão Kyao
Produtor executivo – António Avelar de Pinho

Gravação e mistura – Estúdio Sonic State, Miraflores, por Luís Delgado

URL:
http://www.uguru.net/pt/artists_raokyao.html
http://www.myspace.com/raokyao


Saravá, de Joel Xavier
(CD/DVD, JXP, 2008)



Nascido a 25 de Abril de 1974, Joel Xavier começa a estudar guitarra clássica como autodidacta, aos 15 anos de idade. Um ano depois, assina contrato com a BMG Portugal de que resulta a edição de dois álbuns: "18" (1991) e "Sr. Fado" (1996). Aos 19 anos, vence o concurso de guitarra da Namm Show, em Los Angeles, entre
70 concorrentes, tendo sido considerado, pela crítica americana, um dos cinco melhores guitarristas do ano nos Estados Unidos. De então para cá, tem tocado e gravado com reputados músicos da cena internacional. Os cinco álbuns que se seguiram são disso bom exemplo: "Palabra de guitarra latina" (BMG Espanha, 1997; com Larry Coryell, Tomatito, Bireli Lagrene, Luis Salinas, Rene Toledo); "Latin Groove" (JXP, 1999; com Michel Camilo, Arturo Sandoval, Paquito D’Rivera, Larry Coryell); "Lusitano" (Zona Música, 2001; com Richard Galliano); "Lisboa" (Zona Música, 2003; com Toots Thielemans); "Joel Xavier & Ron Carter - in New York" (JXP, 2004; com Ron Carter).
Em Dezembro de 2007, acompanhado do Gustavo Roriz (baixo) e de Milton Batera (bateria), Joel Xavier actua durante três noites no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, em Lisboa, dando corpo a um novo projecto – "Saravá" – centrado em ritmos afro-brasileiros (samba, ijexá, baião, maracatu, capoeira, bossa nova). Os concertos são gravados e, no ano seguinte, surge em CD e em DVD (edições autónomas).
Pleno de alegria e vivacidade, "Saravá" é um magnífico exemplo de como do mesmo instrumento – a guitarra eléctrica – é possível extrair melodia e ritmo, em perfeito equilíbrio e simbiose. Coisa apenas ao alcance de grandes músicos que sabem que o virtuosismo não vale por si mesmo e só faz sentido se estiver ao serviço da expressividade. Embora instrumental, "Saravá" é um trabalho que faz perfeitamente jus ao conceito de lusofonia: África e Brasil unidos pelas mãos de um grande músico de Portugal.
Pena é que, apesar do amplo reconhecimento internacional, Joel Xavier ainda não tenha obtido a projecção que merecia no seu próprio país. É urgente abrir os olhos e os ouvidos para este extraordinário músico português!

Alinhamento:
1. Ginga
2. Morabeza
3. Batucada
4. Bamba
5. Jindungo
6. Mandinga
7. Elsita
8. Ijexá
9. Carnaval
10. Saravá

Composições de Joel Xavier.

Músicos:
Joel Xavier – guitarra eléctrica e voz ("scatting")
Gustavo Roriz – baixo "fretless"
Milton Batera – bateria e percussão

Produção – Joel Xavier

Gravado ao vivo no Jardim de Inverno do Teatro Municipal São Luiz, Lisboa, nos dias 14 e 15 de Dezembro de 2007
Técnicos de som – Ricardo Fernandes, Nuno Sais & Rui Lopes
Técnicos de gravação – Fernando Cunha, Pedro Leon & Joel Xavier
Misturas – Joel Xavier, no JXP Studio
Masterização – Fernando Cunha, Marco Montenegro & Joel Xavier, no X-Studio, Cascais

Fotografia – Miroslav Rosendorf
Design gráfico – Marta Pestana

URL:
http://joelxavier.com/
http://www.myspace.com/joelxaviersite


El Fad Vivo, de José Peixoto
(CD, Grão, 2008)



«Que relações existem entre a música e a aviação? À partida nenhumas, a não ser que as tomemos como duas formas de percorrer o ar. Os factos, porém, falam por si: no califado de Abd al-Rahman II em Al-Ândalus – nome dado à Península Ibérica no tempo da ocupação muçulmana –, viveu um músico, Abbas Ibn Firnas, que estava obcecado com a possibilidade de os homens poderem voar. Tanto assim que inventou um aparelho feito em madeira a cujas asas aplicou penas de aves, tendo-se atirado com ele de um ponto alto da cidade de Córdova. Rezam as crónicas que conseguiu planar durante algum tempo e que até sobreviveu à queda final. Ainda bem, pois construiu também um planetário em sua própria casa, onde se dedicou a reproduzir o movimento dos planetas e fenómenos como a chuva e a trovoada. Outro pensador mouro, Al-Haitham, estudou as propriedades mágicas da música, assinando um tratado sobre como influir na rapidez das passadas dos camelos ou na cura da insónia. Ibn Sina (ou Avicena, como é mais conhecido entre nós este médico, jurista, filósofo, físico, geómetra e administrador do império islâmico) formulou um dos mais consistentes sistemas microtonais de todos os tempos. Dissertou ainda sobre a acústica e o controlo de frequências de flautas, pandeiros e cordofones dedilhados, e o mesmo Avicena escreveu em "Kitab al-Shifa", entre outros temas nos domínios da matemática e da astronomia, sobre os diferentes tipos de consonância e de intervalos, estabelecendo as bases de procedimentos que continuam a ser aplicados.
E porque a música, como se verifica pelos exemplos assinalados, está sempre em relação, José Peixoto lembra com o seu projecto El Fad os séculos de presença moura no lado mais ocidental da Europa a que se chamou Gharb al-Ândalus. Para cá de Gibraltar, já em águas do Atlântico, cresceu um país de cruzamentos culturais. Foi assim no passado e essa tradição prossegue nos dias de hoje, com a Lisboa da passarola de Saramago em "Memorial do Convento" transformada numa das urbes mais cosmopolitas do mundo. Pegando numa linguagem musical de carácter universalista, o jazz, El Fad revê o conceito de fusão nascido nas décadas de 1960 e 70 e dá-lhe uma dimensão portuguesa, ibérica e mediterrânica. Em temas multidireccionais e de tempos variados da autoria do seu líder, por vezes remetendo-nos para os Oregon de Ralph Towner e a Mahavishnu Orchestra de John McLaughlin, associam-se uma rítmica afirmativa e vizinha do rock e um sentido melódico com raízes no Norte de Africa e no Médio Oriente. Mesmo a abordagem guitarrística de Peixoto é herdeira das gramáticas formuladas para o alaúde árabe (oud) desde pelo menos Al-Kindy, no século IX. Numa altura em que o jazz cada vez mais se define pelas suas práticas localizadas, levando inclusive ao surgimento de uma nova palavra para as designar, "glocal" (junção de "global" e "local"), a oportunidade da proposta é óbvia.
Por estes dias, mais ainda do que no contexto da primeira versão do El Fad em 1988, quando o disco com o mesmo nome juntou Mário Laginha, Carlos Bica, José Martins, Mário Barreiros, Martin Fredebeul e Klaus Nymark a José Peixoto O novo El Fad surge num momento em que se vive um renovado interesse pelo psicadelismo e pelas estéticas perfilhadas na altura do Vietname e do Maio de 68, interesse esse que tem resultado em inéditos desfechos. Agora, estão com o ex-Shish e ex-Cal Viva três músicos que, tal como o próprio Peixoto, são conhecidos pelo seu virtuosismo enquanto instrumentistas e por atravessarem vários géneros musicais nos seus respectivos percursos. São eles Carlos "Zíngaro", violinista celebrizado internacionalmente pelas suas dedicações ao "free jazz" e à música livremente improvisada, mas que também tem passado pelas áreas do experimentalismo electro-acústico e da composição para dança e teatro; Miguel Leiria Pereira, contrabaixista de formação clássica que podemos ouvir em situações "avant" ou a tocar bossa nova; e Vicky [Hugo Marques], percussionista com actividade tanto em grupos de funk e jazz-rock como na música popular portuguesa, tendo a particularidade de juntar o doumbek magrebino e o cajón do flamenco ao normal "kit" de bateria. Com tais personalidades, podemos dizer que El Fad se assemelha muito a um avião, pois a música que se faz voa bem alto. Boa viagem.» (Rui Eduardo Paes, crítico de música, ensaísta e editor da revista "Jazz.pt")

Alinhamento:
1. Espaços
2. El Fad
3. Lua, que tens?
4. Quinta das Torrinhas
5. Alguém viu o Alex?
6. Cobras e rãs
7. Pedra

Todas as composições de José Peixoto.

Músicos:
José Peixoto – guitarras
Carlos "Zíngaro" – violino
Miguel Leiria Pereira – contrabaixo
Vicky (Hugo Marques) – percussões

Produção – José Peixoto

Gravado ao vivo no Auditório Fernando Lopes Graça (Almada), Onda Jazz (Lisboa) e OTamborQFala (Seixal), nos dias 1, 6 e 7 de Dezembro de 2007.
Captação, gravação e masterização – Luís Delgado
Misturas – Luís Delgado e José Peixoto

Capa – Ana Freitas e José Peixoto
Fotografias – Carlos Paes
Foto da contracapa – Mário Fragoso

URL:
http://www.josepeixoto.com/
http://www.myspace.com/elfad


Solo, de António Pinho Vargas
(2CD, David Ferreira Investidas Editoriais/EMI, 2008)



«Diz de si mesmo que tem tendência para "ir sempre por meios caminhos ou heterodoxias esquisitas: sou um compositor contemporâneo, mas o que faço é pós-moderno; sou músico de jazz, mas o que faço não é bem jazz." Mas acredita que esse itinerário definido em coordenadas de latitude incerta o conduziu a um lugar pessoal e único no contexto da música portuguesa. António Pinho Vargas esteve sete anos sem tocar em público, dedicado exclusivamente à composição dita erudita, e doze sem editar qualquer registo nessa outra música que lhe deu maior visibilidade até meados da década de 90 e a que se refere como "jazz ou lá o que isto é." Agora, decidiu voltar atrás e refazer velhos caminhos com novas intenções. Fechou-se cinco dias no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém a sós com um piano e registou duas horas e 45 minutos a solo. São 36 temas, apenas quatro dos quais inéditos, que serão guardados em dois discos duplos. O primeiro volume é o que agora se apresenta e marca o nascimento de uma nova editora. "Solo" é a primeira edição da David Ferreira Investidas Editoriais, etiqueta criada pelo profissional que lhe dá nome, o antigo director da EMI em Portugal que assim regressa ao activo meses depois do afastamento da casa a que esteve ligado desde finais dos anos 70. Com ele, António Pinho Vargas regressa também às edições nesta área do "jazz ou lá o que isto é", recuperando as composições que começou a gravar mais ou menos pela mesma altura em que David Ferreira começou a editar e que espalhou em seis discos. O último foi "A Luz e a Escuridão", de 1996, e desde então o pianista e compositor não mais aqui voltou, excepto na colectânea "As Mãos", lançada dois anos depois. Até agora. "Gravar um disco de piano solo era uma ideia antiga", explica Pinho Vargas. "Queria rever tudo aquilo que compus no período do jazz e que me parecia adequado a versões neste formato. Pensei que podia apresentar uma perspectiva diferente das músicas antigas e deixar uma espécie de testamento do meu trabalho nesse período... talvez seja ainda cedo para falar em testamentos", ri-se, "mas julgo que o meu afastamento desta área o justifica." A tal área que parte do jazz mas que dificilmente se esgota nos seus limites, é a que Pinho Vargas nos habitou a partir de 1976, nas duas décadas seguintes, e onde inscreveu temas de rara felicidade no encontro com um público alargado, como os notáveis "Tom Waits" ou "Dança dos Pássaros". Jóias de um testamento enriquecido com versões alternativas e acrescentos improvisados, prelúdios, poslúdios, fugatos e variações de tempos sobre as mesmas composições. A tudo isto António Pinho Vargas escolheu chamar "Imperfeições", subtítulo para cada um dos dois discos. "O que eu pretendo sublinhar com isso é o carácter contingente de uma interpretação", justifica. "Mesmo as minhas peças escritas, que aparentemente estão fixadas para todo o sempre, descobrem novas nuances a cada vez que são interpretadas, contingências daquele momento. Se isto é verdade para música de partitura, é ainda mais para música que, como esta, tinha na sua origem uma forte componente de improvisação." A improvisação que, garante o pianista, permanece lá, mesmo que nem sempre seja evidente. "Para o crítico ou o ouvinte de jazz, o que se ouve aqui começa logo por não ser jazz precisamente porque a improvisação não segue o formato tradicional dessa música, de apresentar um tema e depois fazer variações sobre essa estrutura de acordes", explica. Muito do que toco aqui parece escrito mas a sua origem é de facto improvisada. E não é evidente."» (João Pedro Oliveira, in "Diário de Notícias", 24.06.2008)

Alinhamento:
Imperfeições 1:
1. Brinquedos
2. Tom Waits
3. Dança dos Pássaros
4. Fado Negro
5. Alentejo, Alentejo
6. Quedas d'Água (com Lágrimas)
7. General Complex
8. Poslúdio de General Complex
9. La Corazon: Lento
10. La Corazon: Rápido
11. Funerais

Imperfeições 2:
1. Casa de Granito no Minho
2. Prelude to June (Tabor)
3. June
4. Vilas Morenas
5. Poslúdio de Vilas Morenas
6. As Mãos
7. Cantiga para Amigos
8. Dinky Toys (Prelúdio)
9. Dinky Toys
10. Fugato para Lindo Ramo
11. Lindo Ramo, Verde Escuro
12. O Movimento Parado das Árvores
13. Obscura, Nebulosa

Todas as composições de António Pinho Vargas, excepto "Lindo Ramo, Verde Escuro" (popular, transcrição e harmonização de António Pinho Vargas)

Afinação e manutenção dos dois pianos Steinway por Fernando Gomes.
Produção – António Pinho Vargas
Coordenação de edição – Maria João Fortes

Gravado no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 17, 18, 20, 21 e 22 de Dezembro de 2007
Gravação e montagem – José Manuel Fortes

Fotografias – Isabel Pinto
Fotografias de reportagem – David Mourão-Ferreira (neto do poeta homónimo)
Design gráfico – João Faria

URL:
http://www.antoniopinhovargas.com
http://www.myspace.com/antoniopinhovargas


Água, de Carlos Martins
(CD, Iplay, 2008)



«Todos nós temos sempre algumas coisas que, voluntária ou involuntariamente, deixamos ficar na "gaveta". Nestes últimos anos, fui fazendo esboços de músicas que muitas vezes ficavam em suspenso, alguns com 10 anos (a idade do meu filho Benjamim). Por ter outros projectos ou por falta de tempo, estas músicas, que tinham já a sua identidade, não ganhavam forma definitiva. Algumas vezes eram experimentadas em concerto com diferentes músicos que traziam alguma ideia nova. Cada tema foi ganhando o seu espaço e criando o seu "ambiente" particular sedimentando-se com o tempo. Tal como cada um dos músicos foi imprimindo a sua voz ao longo dessas passagens criando um sentimento recíproco de pertença. E esta é para mim a diferença entre este disco e qualquer outro dos meus discos anteriores. A amizade, partilha, cumplicidade e experimentação, num processo temporal demorado, consolidaram um som colectivo respirado. A música, de que não falamos, é o veículo para exprimir os sentimentos que me ligam desde sempre a estes músicos, insubstituíveis. O risco e a confiança trouxeram em estúdio o que faltava: a calma inquieta do Agora!Como em "O sol verde das searas", que aprendi com a minha mãe, em quase todas estas músicas há, para mim, um espírito do Sul, de planície e água.» (Carlos Martins)
«É uma das figuras mais carismáticas do actual jazz português. Com uma discografia que não se fixa nas coordenadas mais restritas do jazz, o saxofonista (tenor e soprano) não hesita em invadir outras áreas, como aconteceu nos discos "Outras Índias" (1997, fusão com a música de Cabo Verde), "Sempre" (1999, revisitação do cancioneiro revolucionário), "Do Outro Lado" (2006, com a Orquestra Sinfonietta de Lisboa) ou no seu trabalho com a Orquestra Sons da Lusofonia. Agora, Carlos Martins está de regresso ao jazz mais puro com um novo disco, "Água", que reúne alguns dos músicos mais solicitados da cena nacional: Bernardo Sassetti (piano), André Fernandes (guitarra), Nelson Cascais (contrabaixo e baixo eléctrico), Alexandre Frazão (bateria) e Júlio Resende (piano). "Eu escolhi os músicos, mas também fui escolhido. Estes músicos nunca me dizem não, mostram sempre um enorme prazer ao tocar comigo", diz-nos Carlos Martins. Uma das grandes mais-valias do quinteto que gravou este disco está no lugar da guitarra, aqui ocupado por André Fernandes. Carlos Martins reconhece uma afeição especial para com o guitarrista que editou "Cubo" (2007): "O espírito musical do André é de tal maneira belo que acho que o conheço desde sempre. O ano passado fizemos uma tournée em que aprendi muito por estar a tocar com ele, percebemos que em determinados momentos em que levantávamos voo estávamos em sintonia." Outra peça fundamental é o pianista Bernardo Sassetti, que aqui também toca o eléctrico Fender Rhodes: "O Bernardo começou a tocar comigo quando tinha 17 anos e acho-o um dos mais brilhantes músicos do panorama nacional." Júlio Resende alterna no piano com B. Sassetti. "O Júlio é um músico que está numa fase exploratória mas é um talento absolutamente vincado." O facto de "Água" ter dois pianistas diferentes poderia ter dividido o disco em blocos distintos. O saxofonista tinha a noção desse risco, calculado à partida. "Este disco não é feito para grandes solos, optei por explorar cromatismos dentro de determinada cor e explorar a forma, moldando-a dentro de cada tema, mais do que fazer uma exibição das potencialidades técnicas de cada músico."
O título deste trabalho pode soar ambíguo, vago. Carlos Martins, autor "amador" de poesia (nas suas palavras), explica a opção: "Água para mim quer dizer esse lado da fluidez, do espírito e da música." A imagem que ilustra a capa, fotografia de Daniel Blaufuks, representa essa ideia. "Gosto de uma certa magia nas coisas, mas não gosto de simetrias nem de coisas muito iguais. A fotografia do Daniel Blaufuks é isso, é uma certa magia pelo lado circular: no fundo a coisa fecha-se mas não está toda ligada, é uma espécie de círculo mágico de água."
[...] Não sendo um típico trabalho baseado numa estrutura tema-solo-tema e com pouco espaço para improvisações ou mostras de técnica individual, este disco funciona com uma notável fluidez (o que nos remete directamente para o título do álbum). A guitarra de André Fernandes é fundamental no som do grupo, a replicar os motivos melódicos, exímio a dobrar o saxofone de Carlos Martins. Ambos os pianistas são capazes de criar texturas absorventes, sendo-lhes reservado sempre um papel central no desempenho na banda. E a secção rítmica está ao nível a que nos habituou Nelson Cascais, com extrema segurança; Alexandre Frazão, senhor de grande precisão e criatividade. Sendo este um disco de Carlos Martins, o som do saxofone é um dos elementos em destaque, mas o líder acaba por partilhar o espaço democraticamente com todos os músicos. O seu som quente funciona particularmente bem nos temas de cores mais intensas. Ainda que a maioria das composições tenham saído da pena de Carlos Martins, há dois temas trazidos pelos pianistas: Bernardo Sassetti concebeu "O Princípio" e Júlio Resende trouxe a sua "Underwater Light", duas boas composições que se integram bem na toada geral do projecto. O disco encerra com a participação de Pacman, dos Da Weasel, na faixa escondida "Poema para Al Berto" – em registo "spoken word" sobre o som da banda. Este novo disco de Carlos Martins revela um gosto impecável e, respeitando algum classicismo, denota um certo sentido de aventura. Fica a faltar apenas alguma chama, mas talvez seja pedir demais para um projecto apadrinhado pela água.» (Nuno Catarino, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 25.07.2008)

Alinhamento:
1. O Sol Verde das Searas (Cante)

2. Benji
3. Bô Ta Buli
4. Azul Mediterrâneo
5. O Princípio
6. Água (A Fonte e a Sede)
7. Espiral Vertiginosa
8. Underwater Light
9. Sons do Bairro I: Amolador
10. O Infante (entre o Céu e a Terra)
11. Meados de Maio

Músicas de Carlos Martins, excepto "O Princípio" (de Bernardo Sassetti) e "Underwater Light" (de Júlio Resende).

Músicos:
Carlos Martins – saxofone tenor

Alexandre Frazão – bateria (com pratos Zildjian)
André Fernandes – guitarra
Nelson Cascais – contrabaixo e baixo eléctrico
Bernardo Sassetti – piano e Fender Rhodes (1, 2, 3, 5, 7, 11)
Júlio Resende – piano (4, 6, 8, 9, 10)
Pacman (Carlos Nobre) – voz (11)

Produção – Carlos Martins
Assistência na produção – Luís Pedro Correia

Gravado e misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos, em Maio de 2008.

Design – Sónia Teixeira Pinto
Fotografia – Daniel Blaufuks

URL: http://www.alentejolitoral.pt/PortalRegional/ARegiao/PersonalidadesRegionais/Paginas/CarlosMartins.aspx
http://www.sonsdalusofonia.com/Artistas/%C3%81lbum%C3%81gua/tabid/67/language/pt-PT/Default.aspx


Fontes:
- Literatura inclusa nos discos citados
- Jornais/revistas referenciados no texto
- Páginas da internet


E agora a pergunta inevitável: quantos dos discos acima destacados – cerca de trinta – estão representados na lista musical (vulgo 'playlist') da Antena 1? Eu garanto que os dedos de uma só mão chegam para os contar. Sei que todos os discos referenciados foram recebidos pela RDP, uns enviados pelas editoras outros pelos próprios artistas. Então por que é que foram/são postos à margem? Convém não esquecer que a Antena 1 não é uma rádio comercial mas a emissora do Estado que, ao abrigo dos princípios legalmente consignados no contrato de concessão de serviço público, tem a obrigação de prestar especial atenção à música portuguesa mais qualificada e de maior valia estética. Em face deste pressuposto e dos factos facilmente constatáveis (cf.
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional), eu pergunto: por quanto mais tempo é que as entidades a quem compete avaliar/fiscalizar o serviço público de radiodifusão vão continuar a fazer "vista grossa" à situação deveras anómala, para não dizer pútrida, em que caiu a Antena 1?


Outros discos de música portuguesa editados em 2008:
(por ordem alfabética dos nomes dos intérpretes)

- 7 Saias: "7 Saias" (CD, One Records, 2008)
- A Naifa: "Uma Inocente Inclinação para o Mal" (CD, Lisboa Records, 2008)
- Adelaide Ferreira: "O Melhor de..." (CD, Farol Música, 2008)
- Adiafa: "Nã Há Vagar..." (CD, Ovação, 2008)
- Afonso Pais: "Subsequências" (CD, Enja Records, 2008)
- Aldina Duarte: "Mulheres ao Espelho" (CD, Roda-La Music/Universal, 2008)
- Alfredo Marceneiro: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Almaplana: "Almaplana" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Ana Moura: "Coliseu" (DVD/CD, Mercury/Universal, 2008)
- António Calvário: "O Melhor de António Calvário: Regresso 1960-1966" (2CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- António Mourão: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Azevedo Silva: "Autista" (CD, Lástima, 2008)
- B Fachada: "Viola Braguesa" (CD, Flor Caveira, 2008)
- Bando do Rei Pescador: "Planeta Agreste" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Beatriz da Conceição: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Bernardo Devlin: "Ágio" (CD, Nau, 2008)
- Camané: "Sempre de Mim" (CD, EMI, 2008)
- Caminhos da Romaria: "Doce Amanhecer" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2008)
- Cândida Branca-Flor: "Uma Vida Para Sempre" (CD, Farol Música, 2008)
- Canto Décimo: "Conta-me Um Conto" (CD, Edição de Autor?, 2008)
- Carlos do Carmo: "Fado Maestro" (2CD/DVD, Universal, 2008)
- Carlos Ramos: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Carlos Zel: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Coimbra: "Coimbra" (CD, HM Música, 2008)
- Cordis: "Piano e Guitarra Portuguesa" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Dâna: "Sei Finalmente" (CD, Espacial, 2008)
- Dead Combo: "Lusitânia Playboys" (CD/DVD, Dead & Company/Universal, 2008)
- Dealema: "V Império" (CD, Banzé, 2008)
- Delfins: "A Solidão do Sonhador e Outros Voos do Grande Urso Branco" (CD, Farol Música, 2008)
- Deolinda: "Canção ao Lado" (CD, Sons em Trânsito/Iplay, 2008)
- Double MP: "Ictus" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Duo Ouro Negro: "Duo Ouro Negro" (CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
- Ensemble Peregrinação: "Cantos da Lusofonia" (CD, Numérica, 2008)
- Fado em Si Bemol: "Live" (CD, Trovas Soltas?, 2008)
- Fadomorse: "Folklore Hardcore" (CD, Hepta Trad, 2008)
- Fernando Farinha: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Feromona: "Uma Vida a Direito" (CD, Catadupa!, 2008)
- Francisco Pimenta e Henrique Oliveira: "Joaquim Roque: O Último Gaiteiro Tradicional de Torres Vedras" (Livro/CD/DVD, Associação de Gaita-de-Foles, 2008)
- Frei Hermano da Câmara: "O Melhor de..." (CD/DVD, Farol Música, 2008)
- Frei Hermano da Câmara: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Gazua: "Convocação" (CD, Edição de Autor/Raging Planet, 2008)
- Gil do Carmo: "Sisal" (CD, Farol Música, 2008)
- Ginga: "Ao Vivo na Tertúlia Castelense" (CD, 7 Sons, 2008)
- Hélder Moutinho: "Que Fado É Este Que Trago?" (CD, HM Música/Farol Música, 2008)
- Hermínia Silva: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Joana Costa: "Recado" (CD, Edição de Autor/Compact Records, 2008)
- Joana Pessoa: "Fluir" (CD, Iplay, 2008)
- João Coração: "N.º 1. Sessão de Cezimbra" (CD, Flor Caveira, 2008)
- João Ferreira Rosa: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- João Gil: "João Gil" (CD, EMI Music, 2008)
- Jorge Palma: "Voo Nocturno ao Vivo" (CD/DVD, EMI Music, 2008)
- José Cid: "Ao Vivo no Campo Pequeno" (CD/DVD, Farol Música, 2008)
- José Cid: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- José Luís Tinoco: "Arquipélago" (CD, Iplay, 2008)
- José Mesquita: "Trovas Serenas" (CD, Ovação, 2008)
- Katia Guerreiro: "Fado" (CD, Katia Guerreiro Produções/Sony Music, 2008)
- Klepht: "Klepht" (CD, Polydor/Universal, 2008)
- Kumpania Algazarra: "Kumpania Algazarra" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Kussondulola: "Mayombe" (2CD/DVD, Musicactiva, 2008)
- Lucília do Carmo: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Luís Represas: "Olhos nos Olhos" (CD, Farol Música, 2008)
- Luiz e a Lata: "9" (CD, HM Música, 2008)
- Madredeus & A Banda Cósmica: "Metafonia" (2CD, Edição de Autor/Farol Música, 2008)
- Mafalda Veiga: "Chão" (CD, Iplay, 2008)
- Manuel Cruz: "Foge, Foge Bandido" (CD, Turbina, 2008)
- Mão Morta: "Maldoror" (2CD, Cobra Discos, 2008)
- Maria Clara: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Maria de Fátima Bravo: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Maria João Quadros: "Fado Mulato" (CD, Grão, 2008)
- Maria José Valério: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Mariária: "Mariária" (CD, Ocarina, 2008)
- Marco Oliveira: "Retrato" (CD, HM Música, 2008)
- Melech Mechaya: "Melech Mechaya" (CD, Edição de Autor, 2008)
- Mesa: "Para Todo o Mal" (CD, Sony Music, 2008)
- Mikado Lab: "Baligo" (CD, Tone of a Pitch, 2008)
- No Data: "Carrocel do Mundo" (CD, Som Livre, 2008)
- Novembro: "À Deriva" (CD, Lisboa Records/Universal, 2008)
- Orquestra Clássica do Centro & Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra: "Cantar Coimbra 2" (CD, Public-art, 2008)
- Paulo de Carvalho: "DoAmor" (CD, Farol Música, 2008)
- Pedro Brito: "Novo Canto Português 2: Cantigas à Minha Viola" (CD, Polydor/Universal, 2008)
- Peixe Avião: "40.02" (CD, Rastilho Records, 2008)
- Pelivento: "Ao Vivo no BA Caffé" (CD, Edição de Autor?, 2008)
- Pontos Negros (Os): "Magnífico Material Inútil" (CD, Mercury/Universal, 2008)
- Projecto Fuga: "01" (CD, Fuga/Compact Records, 2008)
- Quarteto Artemsax: "Entre Paredes" (CD, Numérica, 2008)
- Quinta do Bill: "20 Anos: Ao Vivo" (2CD, Espacial, 2008)
- Rádio Macau: "Oito" (CD/DVD, Iplay, 2008)
- Raquel Tavares: "Bairro" (CD/DVD, Movieplay, 2008)
- Riding Pânico: "Lady Cobra" (CD, Ranging Planet, 2008)
- Rodrigo: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Rodrigo Costa Félix: "Fados d’Alma" (CD, CNM, 2008)
- Ruben Alves: "Súbito" (CD, Mbari Música/Dwitza, 2008)
- Rui Reininho: "Companhia das Índias" (CD, Sony Music, 2008)
- Samuel Úria: "Em Bruto" (CD, Flor Caveira, 2008)
- Sara Serpa: Praia (CD, Inner Circle, 2008)
- Sara Tavares: "Alive in Lisboa" (2CD/DVD, World Connection, 2008)
- Sérgio Godinho & Os Assessores: "Nove e Meia no Maria Matos" (CD, Universal, 2008)
- Sete Lágrimas: "Diaspora.pt" (CD, Murecords/Dargil, 2008)
- Tara Perdida: "Nada a Esconder" (CD, Universal, 2008)
- Teresa Gentil: "Gent'Ilesa" (CD, Descalças Cooperativa Cultural, 2008)
- Tiago Guillul: "IV" (CD, Flor Caveira, 2008)
- Tim: "Braço de Prata" (CD, El Tatu/Magic Music, 2008)
- Tony de Matos: "O Melhor de..." (CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Tristão da Silva: "A Janela da Vida" (CD, Farol Música, 2008)
- Tucanas: "Maria Café" (CD, Spot/Farol Música, 2008)
- UHF: "Canções Prometidas: Raridades Volume II" (CD, AMRA Discos, 2008)
- UHF: "Os Anos da Valentim de Carvalho" (2CD, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
- Vários: "Fado Capital" (10CD, Ovação, 2008)
- Vários: "Novos Talentos FNAC 2008" (2CD, FNAC, 2008)
- Vários: "Todos Cantam Zeca Afonso" (CD, Farol Música, 2008)
- Vários: "UPA: Unidos Para Ajudar" (CD/DVD, Sony Música, 2008)
- Via Latina: "Serenata ao Luar" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2008)
- Xutos & Pontapés: "Circo de Feras: Ao Vivo no Campo Pequeno" (DVD, Universal, 2008)
- Zé Perdigão: "Fados do Rock" (CD, Farol Música, 2008)

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Textos sobre música portuguesa:
Galeria da Música Portuguesa
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008

3 comentários:

vitorsantos disse...

Caro Álvaro, utilizo este meio para lhe pedir algum apoio na divulgação desta tremenda injustiça (assim o considero), que está a ser feita a Júlio Isidro, na RTP:
Isto porque o programa de informação e divulgação cultural, "Quarto Crescente" (transmitido às quintas feiras na RTP1), está a ser colocado a horas tardias.. (ontem, quinta feira, dia da exibição do programa, passou à 1 e 20 da manhã!)

É admissivel tal comportamento por parte dos programadores da RTP, face a tão ilustre profissional?

Peço-lhe que dentro das suas possibilidades, tente que muitas outras pessoas possam protestar ao provedor, através de provedor.telespectador@rtp.pt, para que esta situação possa ser resolvida... e bem sei que o seu campo, é mais o da rádio, mas penso, que esta situação não pode ficar impune, não só porque desrespeita um grande profissional, como anula uma das premissas da RTP: fazer serviço público de televisão!
Obrigado pela sua atenção,
vítor

Álvaro José Ferreira disse...

Também me parece que é uma injustiça e uma tremanda falta de consideração o que estão a fazer ao emérito profissional que é Júlio Isidro. Para não perder o programa, de indiscutível interesse e que devia durar mais que 50 minutos, eu costumo programar o videogravador.
Nada disto impede, claro está, que me solidarize consigo e me faça ouvir junto de quem de direito.

Victor Barão disse...

Por se falar em Júlio Isidro, é simplesmente para mim um dos melhores apresentadores culturais de sempre da televisão nacional.
Quanto a ir para o ar na televisão pública nacional(RTP), um programa de informação e divulgação cultural, de tão culturalmente digno e elevado apresentador, nas madrugadas dum dia de semana, diz muito _ por não dizer tudo _ acerca da televisão pública!

Relativamente à lista de discos de autores e interpretes nacionais de indiscutível qualidade, editados em 2008, que não passam regular e em alguns casos de todo na rádio e/ou televisão pública, não sei muito bem o que dizer!? Salvo que talvez seja também ou essencialmente por isso que cada vez ouço menos rádio e vejo menos televisão.

Se não nos orgulharmos de ser portugueses com base na cultura nacional própria, tanto mais se de nível universal, com o que e como faze-lo?

Grato pela suscitação e respectiva possibilidade de expressão relativamente a algo tão importante em si mesmo e caro para mim:
Victor Barão