16 janeiro 2008

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007

Ressalvando eventuais omissões, mormente de edições não disponíveis nas principais lojas de discos, aqui ficam os álbuns de música portuguesa mais relevantes da colheita de 2007. A ordem pela qual estão apresentados não corresponde a uma seriação valorativa, seja crescente ou decrescente.


Festival Intercéltico: 15 Anos de Histórias, de Vários
(CD, Mundo da Canção/Som Livre, 2007)



Por iniciativa da Mundo da Canção, e para comemorar os vinte anos de existência do Festival Intercéltico do Porto, é editada, com chancela da Som Livre, a compilação "Festival Intercéltico: 15 Anos de Histórias". Quinze anos e não vinte porque entre a primeira edição, em 1986, e a segunda, em 1991, distam cinco anos. Para figurar no disco foram escolhidos vinte intérpretes: Júlio Pereira ("Celtibera"), Vai de Roda ("Quadrilha"), Maddy Prior ("John Barleycorn"), Sétima Legião ("Por Quem Não Esqueci"), Uxia ("Verdes São os Campos"), Amélia Muge ("Passarinho da Charneca"), Fairport Convention ("Walk Awhile"), Luar na Lubre ("Domingo Ferreiro"), Carlos Nuñez ("Bretoña"), Gaiteiros de Lisboa ("Plantei Amores"), Ronda dos Quatro Caminhos ("Sapateia"), Tri Yann ("Kiss the Children for the Mary"), Kepa Junkera ("Madagaskar"), Roldana Folk ("La Çarandilhera"), De Dannan ("Cameronian Reel, Doon Reel"), Ghalia Bebali & Timnaa ("Luiza"), Brigada Victor Jara ("Cantiga Bailada"), Frei Fado d’El Rei ("Menino do Mar"), Kila ("Crann na bPinginí") e Galandum Galundaina ("Chin Glin Din"). Tratando-se de uma edição comemorativa de um festival faria mais sentido que a mesma fosse composta por registos ao vivo e não por gravações de estúdio, como é o caso. Talvez não existisse material suficiente e de boa qualidade captado ao vivo, de modo a permitir uma amostragem digna e abrangente dos muitos nomes que passaram pelo Intercéltico. Mesmo assim e apesar de algumas ausências importantes (Realejo, Fausto Bordalo Dias, Susana Seivane, Milladoiro, The Chieftains, Dervish, Márta Sebestyén & Muzsikas, etc.), que um CD duplo permitiria obviar, trata-se de uma bela e oportuna compilação de música folk que merece toda a atenção.
O álbum é acompanhado de belos textos de jornalistas e críticos que acompanharam as sucessivas edições do evento, organizado por Avelino Tavares. Um desses textos é assinado por Nuno Pacheco, que aproveita para fazer uma oportuna evocação do seu colega Fernando Magalhães: «Na muito distante chamada instrução primária (hoje conhecida por ensino básico), os alunos eram levados a decorar que nos séculos sexto e quinto antes de Cristo andaram por aqui Celtas e Iberos, que juntos se misturaram em Celtiberos e que daí vieram os Lusitanos, antepassados dos Portugueses. Tudo linear e esquemático, mas fundamental num ponto: a mistura, essencial à nossa formação. O Intercéltico é fiel a essa matriz. Também nele se misturaram culturas e sons desse imenso caldeirão onde fermentam as melhores músicas de raiz europeia, não só nas vertentes mais convencionais ou clássicas mas também nas múltiplas derivações que as sucessivas eras e experiências possibilitaram e possibilitam. Quem se recordar dos primeiros passos da revista "Mundo da Canção", onde tudo afinal começou, em 1969, saberá que houve muitas outras músicas até chegar às intercélticas dos anos 80. Que houve José Afonso, Beatles, Aguaviva, King Crimson, Leo Ferré, Phil Ochs, antes de Márta Sebestyén, The Chieftains, Milladoiro, Luar na Lubre, La Musgaña. Centenas de nomes antes de centenas de nomes. Músicas de mercado e mercados de música. Vozes irmanadas na busca de novos caminhos para tradições a precisarem de ares renovados e menos rarefeitos. Para isso contribuíam os muitos Intercélticos que a MC foi fazendo, diligentemente, ano após ano, sem ceder a modas fáceis mas insistindo em buscar nomes que era preciso ouvir, urgentemente. Um dos jornalistas que, desde os primeiros tempos, se deixou enredar na teia de afectos que ali se teceu, foi o crítico do "Público" Fernando Magalhães, cujo súbito falecimento, em Maio de 2005, deixou um lugar dificilmente preenchível nas abordagens das músicas do mundo, a que se entregava com gosto e sabedoria. Como ao Intercéltico se entregou, ao longo das suas edições. "Quando um juiz se afasta da verdade aparece uma mancha no seu rosto", rezam as leis antigas da Irlanda. Em nenhum rosto correrá risco de surgir mancha se, de franco juízo, disser que o Intercéltico tem sido um marco indelével na história de muitas músicas.» (Nuno Pacheco, jornalista e director-adjunto do "Público", 2007)
E convém ainda não esquecer o contributo fundamental que o Festival Intercéltico teve (e esperamos, continue a ter) no crescente interesse pelas músicas de raiz tradicional em Portugal, não só do público melómano como de muitos músicos, sobretudo da geração mais nova, que a solo ou reunidos em agrupamentos tem produzido trabalhos de grande valia e significado para a música portuguesa (mas ainda muito menosprezados na nossa rádio).

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http://www.discantus.pt/


Terra: Antologia 1972-2006, de Ganhões de Castro Verde
(2CD, ACA "Os Ganhões", 2006)



Formados em 1972, os Ganhões de Castro Verde haviam gravado cinco discos de longa duração: "Castro Verde é Nossa Terra" (1975), "Os Ganhões de Castro Verde" (1980), "Modas" (1994), "É Tão Grande o Alentejo" (1997) e "O Círculo que Leva a Lua" (2003). Celebrando a efeméride dos 35 anos de existência do grupo, e na sequência da candidatura a um programa de apoio à edição de material audiovisual e multimédia da Delegação Regional do Alentejo do Ministério da Cultura, a Associação de Cante Alentejano "Os Ganhões", apresenta-nos "Terra: Antologia 1972-2006", numa luxuosa edição de livro (com as letras, fotografias e textos diversos) e CD duplo, contendo 29 modas retiradas dos discos citados e mais duas gravações inéditas realizadas em 2006. Ordenadas cronologicamente, as 31 modas ficaram com o seguinte alinhamento: Disco 1: "Morreu Catarina", "Beja é Mãe do Distrito", "Castro Verde é Nossa Terra", "As Nossas Forças Armadas" (letra de José Lourenço), "Grândola, Vila Morena" (letra e música de José Afonso), "Nos Campos de Castro Verde", "Vai de Centro ao Centro", "As Flores da Nossa Terra", "Cidades, Vilas e Montes", "Nos Campos do Alentejo", "Afonso Henriques, um dia", "Pelo Toque da Viola", "A Vila de Castro Verde", "Emigrante", "O Almocreve", "Muito Bem Parece", "Ceifeira Linda Ceifeira"; Disco 2: "A Ribeira do Sol-Posto", "Ia Chegando às Areias", "Ó Águia que Vais Tão Alta", "Mondadeira Alentejana", "Camponês alentejano", "É Tão Grande o Alentejo", "Meu Alentejo Querido", "O Círculo que Leva a Lua", "Há Lobos Sem Ser na Serra", "Castro Verde Bem Podia", "Lá Vai Uma Embarcação", "Que Bonito que Seria", "Andei a Guardar o Gado" e "A Flor que Abriu em Maio".
Como refere Paulo Lima, num texto inserto no livro, «este trabalho discográfico de "Os Ganhões" é, a partir de hoje, uma edição fundamental para a história do movimento coral, ou orfeónico, do Baixo Alentejo. Esta antologia de mais de 30 anos de trabalho editorial de "Os Ganhões" é a percepção que existe uma história e sobre ela não se deve construir o esquecimento. Por esse motivo, a dívida para com a Associação de Cante Alentejano aumenta: não só luta para que continue viva uma prática como nos permite o acesso à sua história.»
Transcreve-se também um belo texto de Paulo Nascimento e Filipe Pratas, que é também uma declaração de amor da geração mais nova ao Cante: «"Eu sou devedor à terra/ A terra me está devendo/ A terra paga-me em vida/ Eu pago à terra em morrendo" (Cantiga popular). Sempre a terra. De onde tudo vem, para onde tudo vai. Esta terra que nos deu este modo de cantar. Alinhados lado a lado. Bocado sol. Bocado cal. Vaia de lonjura povoada de calma e pássaros. Espiral do tempo condensada pelas veias da identidade onde corre o sangue desta terra. A nossa terra. Ela que fez nos crescer e nos moldou na cadência do tempo. O tempo atravessado pelo bradar de uma moda que saía de mansinho pela porta da taberna e se colava ao entardecer.
Não somos do tempo em que a moda tornava o trabalho do campo mais leve. Não somos do tempo em que se cantava para dizer o que não se podia falar. Não somos do tempo em que havia modas proibidas. Mas hoje bebemos do mesmo vinho que eles e partilhamos o mesmo cantar. Foi com admiração e respeito que cá chegámos, disponíveis para participar nesta sementeira. Quase todos eles podiam ser nossos pais. Alguns avôs. São companheiros. A maior parte deles deixaram o trabalho do campo e têm hoje as mais variadas profissões. Mas não esqueceram. Continuam a cantar esses tempos que já lá vão. É aí que bebem esse vinho que aquece a alma a exalta os sentidos. Como se poderá esquecer este cante que hoje é convívio, mas que já foi lavoura, ceifa de sol a sol, que já foi distracção para enganar a barriga vazia?!
O mundo rural, a nossa terra, e tudo o que nela nasce e morre, é a essência deste cante. Um traço de afirmação que deve ser respeitado. Mas que na nossa opinião pode ser utilizado nos mais variados espaços da criação artística. Os Ganhões já nos ensinaram isso. Não é por terem cantado com Dulce Pontes ou actuado no Hot Clube de Portugal que o seu cante se alterou. O cante alterou-se ligeiramente porque a vida se alterou. Os homens alteraram-se. O cante não é uma pedra. Não tenhamos medo de tornar a tradição mais atractiva. A Terra estará sempre cá. E o convívio popular nunca deixará de ser a catedral do cante. Cantemos pois por amor à Terra. Sempre a Terra.» (Paulo Nascimento e Filipe Pratas, 2006).

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http://www.ganhoescastroverde.com/


Posta Restante, de Chuchurumel
(CD, Ed. de Autor/Luzlinar, 2007)



Após o lançamento de "No Castelo de Chuchurumel" (2005), o grupo de César Prata (bandolins, gaita-de-foles, groove box, programações, samples, sanfona, sintetizador, viola, voz) e Julieta Sllva (acordeão, concertina, ocarina, percussões, sanfona, voz principal), apresenta-nos o seu segundo disco, "Posta Restante". É um álbum constituído por treze cartas musicais, endereçadas e expedidas "à maneira antiga para uma Posta Restante de uma qualquer estação de correios porque os destinatários não possuem morada fixa: são seres que erram no universo desta paixão que é a música popular portuguesa." As cartas, retiradas do cancioneiro tradicional ou escritas de raiz pelos Chuchurumel, são as seguintes: "Deus Te Salve, ó Rosa" (para José Luís Aguiar da Cruz Santos), "Coquelhada Marralheira" (para Mário Correia), "Canção das Maias" (para José Franco), "Galanducha" (para José P. da Cruz), "Moinho Picarnel" (para os músicos), "Para Lá da Porta" (para Michel Giacometti), "Casório Divertido" (para Júlia Fonseca), "Tenho Um Lilás no Meu Jardim" (para Gastão Augusto Rodrigues), "O Vos Omnes" (para Fernando Lopes-Graça), "Rico Franco" (para Domingos Morais), "Alta Vai a Lua" (para GEFAC), "Era Uma Vez Um Burrinho" (para Francisco Domingues [Ti Lérias]) e "Canção da Trovoada" (para Silvina de Jesus Marques). Como extra, há ainda um videoclip do tema "Coquelhada Marralheira" realizado por Tiago Pereira.
Uma das cartas, a dirigida ao Prof. Domingos Morais, teve resposta: «Espero-vos de boa saúde, com ânimo e teimosia q.b. para levarem as vossas cartas aos nomeados destinatários e a quem mais tenha ouvidos e mentes abertas ao vosso desafio. Mesmo os que se encontram em parte incerta receberão a vossa missiva e saberão o destino a dar-lhe. Eu fico bem, melhor do que estava antes de ouvir as vossas "cartas", pela lufada de modernidade que transportam e pelas inteligentes pontes estabelecidas entre o Popular, na sua inteireza, com a música que hoje se inventa a partir dos velhos e novos recursos irrecusáveis, como aliás sempre aconteceu. Vocês sabem, não há fronteiras nem dogmas que consigam impedir a livre circulação e contaminação das práticas culturais. Já assim era quando de toda a Europa vinham milhares de peregrinos pelos caminhos de Santiago até Compostela com as suas canções, histórias, danças e instrumentos a tiracolo. E nesses tempos havia lugar para salutares permutas que nos deixaram marcas dos saberes e afirmações culturais de muitas e desvairadas gentes. Vejam-se, até onde a evidência histórica nos permite, os relatos sobre a Lusitânia de Estrabão e de Deodoro de Sevilha, o rasto deixado pelos povos do Norte e Centro da Europa que aqui chegam no primeiro milénio da nossa era (Alanos, Vândalos, Suevos e Visigodos), as comunidades judaicas presentes desde o séc. I, os Mouros que chegam no séc. VIII, por fim o cadinho de miscigenação em que a Ibéria do Renascimento se tornou, quando o mundo se começou a revelar e os Europeus começaram a construir a sua identidade, na distinção face a outros povos. É por isso que cada testemunho a que acedemos, cada músico, tocador, contador de histórias, é sempre o resultado de um longo processo que dificilmente podemos entender. O que não nos impede de juntar e dar sentido aos preciosos documentos e reflexões de alguns dos vossos destinatários, com destaque para Michel Giacometti e Fernando Lopes-Graça. Estas vossas cartas são um salutar exercício de liberdade artística e uma preciosa tentativa de encontrar novos sentidos para os sons e testemunhos de uma ruralidade que nos é revelada como referência para muitas das opções que temos de fazer nas nossas vidas.» (Domingos Morais, 2007).
Sobre este belo disco de folk portuguesa, assim escreveu António Pires: «O primeiro álbum dos Chuchurumel, "No Castelo de Chuchurumel", apontava já as pistas seguidas pelo duo de Julieta Silva e César Prata neste segundo trabalho, "Posta Restante". Mas com a diferença, fundamental, de que enquanto no primeiro disco essas pistas levavam a caminhos diferentes, raramente se cruzando ou intersectando – num dos caminhos havia recolhas de música no terreno, no outro o próprio trabalho do grupo, mas sem ligação óbvia entre os dois "universos" –, em "Posta Restante", pelo contrário, as recolhas encaixam-se na perfeição na música do grupo. Mais a mais, uma música que evoluiu imenso em invenção, experimentação, tentativa – quase sempre muito, muito bem conseguida – de levar uma música antiga, rural, rude na sua origem, para a modernidade, uma certa urbanidade global, um grau de sofisticação raro em projectos portugueses. Em "Posta Restante" – assim chamado porque cada canção é uma "carta" a pessoas conhecidas ou anónimas que lhes deram a conhecer a maioria destes temas (embora também haja alguns originais dos Chuchurumel) – podem ouvir-se guitarras sintetizadas em distorção, programações trip-hop, vozes arrancadas à terra (como a senhora de "Coquelhada Marralheira"), sanfonas, acordeão e gaitas-de-foles, gravações de vários ambientes – os disparos a dar a base de "Rico Franco" ou o ritmo do moinho de água são um achado –, aproximações a danças europeias e até ao fado. E sempre com um bom gosto irrepreensível.» (António Pires, in blogue
Raízes e Antenas, 02.05.2007).
No mesmo sentido vai o texto de João Lisboa, rematado com uma pertinente interrogação que nos remete imediatamente para o ostracismo a que a música folk/tradicional é votada nos principais meios de difusão hertziana: «"Posta Restante", dos Chuchurumel: mesmo tendo em conta que "Sexto Sentido", da Sétima Legião, ou toda a discografia dos Gaiteiros de Lisboa e de Amélia Muge estabeleceram um elevado termo de comparação relativamente aos modos contemporâneos de lidar com a tradição musical popular, é um magnífico álbum onde os materiais sonoros – encarados quase como "found sounds" montados de modo sabiamente eisensteiniano ou reformulados e transfigurados tecnologicamente e no sentido de uma reavaliação propriamente musical – transportam instantaneamente para o presente as marcas de uma memória que, escutada assim, nunca nos ocorreria qualificar como "arqueológica". Todas estas "cartas" (sob a forma de mazurkas, xotiças, romances ou cantigas de cego pedinte em registo mutante) exigem ser escutadas por ouvidos de hoje mas, como garantir-lhes a sobrevivência para além da micro-cena "folk" nacional? (João Lisboa, in "Expresso", Suplemento "Actual", 27.10.2007).

URL:
http://www.chuchurumel.com/
http://www.myspace.com/chuchurumelband


Parainfernália, de Diabo a Sete
(CD, Açor/Emiliano Toste, 2007)



Oriundos do grupo musical Borda-d’Água e do GEFAC (Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra), os Diabo a Sete apareceram no início de 2003, em Coimbra, e na sua formação esteve a vontade de tocar e reinventar a música portuguesa de raiz tradicional. Anunciam os Diabo a Sete: «Acreditamos que os ritmos e melodias que tocamos e que ouvimos por todo o país, seja em recolhas seja no labor musical de outros grupos, não são meros ecos de um passado mumificado. Traduzem, isso sim, uma forma de interpretar a riqueza musical do nosso país, feita de permanências, esquecimentos e cruzamentos fecundos com outras culturas. Se o lustro que habitamos é aquilo a que se convencionou chamar de música tradicional, não o fazemos, contudo, com o intuito de recuperar uma pretensa "pureza perdida" ou de tratar em termos de rigor "científico" as sonoridades e os instrumentos. Transportamos ritmos e sons já outrora esboçados, mas com o intuito de fazê-los reviver, através das nossas experiências e do prazer que sentimos em tocar. É com estes ingredientes que pretendemos agitar um caldeirão antigo e de lá extrair algo de novo.»
Em 2006, participam no Festival Eurofolk, realizado em Málaga, na Andaluzia, e ganham a eliminatória portuguesa. Emiliano Toste, produtor e proprietário da editora Açor, está presente e fica tão impressionado com a prestação dos jovens conimbricenses que logo os convida a gravarem um disco. E é assim que, em meados de 2007, vem à luz do dia o disco de estreia que dá pelo curioso nome de "Parainfernália". Nele os Diabo a Sete – Celso Bento (flautas, gaita-de-foles e percussões), Eduardo Murta (baixo eléctrico), Julieta Silva (concertina, sanfona, piano e voz), Luísa Correia (guitarra acústica), Miguel Cardina (bateria e percussões) e Pedro Damasceno (cavaquinho, bandolim, concertina e flautas) presenteiam-nos com doze temas verdadeiramente sedutores: "Baile da Meia Volta" (tradicional – Porto Santo / Pedro Damasceno e Vasco Correia), "En Tu Puerta Estamos Cuatro" (tradicional – Rionor), "Chin Glin Din" (tradicional – Trás-os-Montes), "Dança dos Camafeus" (Pedro Damasceno), "Parati" (Pedro Damasceno), "Vira-Pedras" (Pedro Damasceno), "Diabos no Corpo" (Pedro Damasceno e Celso Bento), "Para Lá do Marão" (tradicional – Trás-os-Montes), "Valsa da Joana e do João" (Pedro Damasceno), "Ponte Nova do Algarve" (tradicional – Algarve / Pedro Damasceno), "Guardunha" (Pedro Damasceno) e "O Padrinho" (tradicional – Elvas).
Refira-se, a título de curiosidade, que o tema "Valsa da Joana e do João" foi recentemente escolhido para integrar uma colectânea editada em Espanha pela revista "Interfolk". "Parainfernália" é, claramente, um dos mais belos e fascinantes trabalhos discográficos da colheita de 2007 e a demonstração perfeita de que a música de raiz tradicional é uma excelente fonte de ingredientes para a confecção de magníficos manjares. Manjares esses que muitos ainda não saboreiam porque simplesmente desconhecem a sua existência, em virtude do autismo que caracteriza os principais órgãos nacionais de difusão hertziana (rádios e televisões) face ao florescente movimento da folk portuguesa e de que os Diabo a Sete são um dos melhores representantes. Vai valendo a internet (My Space, YouTube, etc.) para furar esse bloqueio obscurantista e, a todos os títulos, criminoso.

URL:
http://www.diaboasete.com/
http://diaboasete.blogspot.com/
http://www.myspace.com/diaboasete


Romances de Peregrino, de Eduardo Ramos
(CD, Ed. de Autor, 2007)



O maravilhoso mundo dos romances tradicionais (também denominados rimances ou xácaras) tem sido – inexplicavelmente – muito pouco abordado pelos intérpretes portugueses da área da música popular/tradicional. Exceptuando alguns temas avulsos presentes em álbuns de nomes como Ronda dos Quatro Caminhos, Maio Moço, ou até Fausto Bordalo Dias (com a sua admirável versão d’ "A Nau Catrineta", in Histórias de Viageiros, 1979), os dedos de uma mão chegam para contar os discos constituídos, integral ou maioritariamente, por rimances. Citemo-los: "Guerrilheiro" (1974) ou "Cancioneiro" (1982), de Luís Cília; "Romances" (1981), de Vitorino; "Novas Vos Trago" (1998), de Amélia Muge, João Afonso, Sérgio Godinho, Gaiteiros de Lisboa e Brigada Victor Jara; e "Rimances" (2001), de José Barros e Navegante. Em face desta escassez, o surgimento do CD "Romances de Peregrino", de Eduardo Ramos, assume especial importância. E não apenas por ser mais um disco de romances. Eduardo Ramos, alaúdista e cantor, há anos que se vem dedicando a uma área praticamente inexplorada entre nós (ressalvando o caso singular de Janita Salomé) – a música luso-árabe –, cantando na língua de Camões os grandes poetas do Al-Andaluz, em especial Al-Mutamid. Ouçam-se, por exemplo, os magníficos "Andalusino" (1999) e "Um Cântico para Al-Mutamid" (2005).
Em "Romances de Peregrino", pegando em alguns dos mais belos espécimes do ancestral romanceiro português ("Laurinda"; "Com as lágrimas dos meus olhos"; "Claralinda"; "Dom Duardos"; "Dom Claros", este também conhecido por "Romance de D. Mariana"; "Gerinaldo"; "Conde Nilo"), Eduardo Ramos explora as pontes entre as tradições culturais que durante a Idade Média coexistiram na Península Ibérica – cristã, mourisca e sefardita – trazendo uma nova luz a este rico e pouco explorado género da nossa tradição oral. Se é certo que os romances são, em boa parte, de origem francesa, mais concretamente carolíngia, também não deixa de ser verdade que quando os mesmos chegaram à Península, e mau grado a Reconquista Cristã, ainda estavam bem vivas as culturas árabe e sefardita, sobretudo nos estratos populares, que naturalmente influíram na maneira de cantar essas histórias. Não é por acaso que em muitas das recolhas feitas por Michel Giacometti, e outros, ainda seja possível encontrar resquícios de modos musicais estranhos à tradição europeia de além-Pirenéus. O que Eduardo Ramos faz em "Romances de Peregrino" é um exercício assaz interessante de trazer novamente à tona a matriz musical moçárabe existente na cultura portuguesa medieval e que com o decorrer dos séculos se foi submergindo e diluindo nas sucessivas correntes da História.
Além dos romances atrás citados, Eduardo Ramos incluiu também no disco algumas cantigas tradicionais: "Ó que estriga", "Eu sou trevo", "Fonte do Salgueirinho", "Senhora do Almortão" e "Senhora Santana". O alinhamento termina com "A Peregrina", também um romance mas que se ficou pelos dois primeiros versos ("Peregrina, a peregrina/ Andava a peregrinar"). Pode ter sido por falta de espaço no disco (tempo total: 71’ 44’’) ou, então, trata-se de uma porta que Eduardo Ramos quis deixar aberta, quem sabe, a pensar em futuras aventuras.

A produção foi assegurada pelo próprio Eduardo Ramos que, além da interpretação vocal, toca alaúde árabe, gambri marroquino, bendir, sistro, sinos, guitarra e kissanji. Participaram ainda Joaquim Galvão (flauta de bisel e flauta transversal) e Fernando Guerreiro (guitarra portuguesa e castanholas).
«Ao tocar com o alaúde árabe estas cantigas tradicionais quero realçar o que de celta e mouro habita no coração e na alma portuguesa e homenagear os peregrinos que atingem a espiritualidade». (Eduardo Ramos).

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http://www.inforarte.com/auditorio/eduardo_ramos.html


Canto da Terra, de Roberto Leal
(CD, Som Livre, 2007)



Roberto Leal, nome artístico do transmontano António Joaquim Fernandes, cantor-emigrante em Terras de Vera Cruz, não teria lugar nesta lista com o repertório pelo qual se tornou conhecido. "Canto da Terra", contudo, é um trabalho diferente e, acima de tudo, com qualidade musical. Nessa medida, seria injusto deixá-lo de fora tendo como critério, único e exclusivo, o facto de ser de Roberto Leal. Assim como artistas reputados fazem, por vezes, obras menores também intérpretes de um género de canção artisticamente menos qualificada nos podem surpreender com obras relevantes. É o caso de Roberto Leal com "Canto da Terra". Aliás, foi o próprio cantor o primeiro a ter a noção de que, para abordar a música tradicional de uma forma séria e digna, teria de adoptar uma atitude diferente. Daí o convite dirigido a Ricardo J. Dias, da Brigada Victor Jara, para se encarregar dos arranjos e direcção artística do disco. Também reveladora dessa preocupação do cantor é a participação do grupo de música tradicional mirandesa Galandum Galundaina e de músicos da Brigada Victor Jara. E assim, além de Ricardo J. Dias (piano e acordeão), fazem parte do elenco: António Pinto (guitarra de 6 e de 12 cordas e guitarra eléctrica), André Sousa Machado (bateria), Daniel Pinto "Didi" (baixo de 5 cordas e fretless), Manuel Rocha (violino), Quiné (percussão), Amadeu Magalhães (gaita-de-foles, bandolim, cavaquinho, braguesa), Galandum Galundaina (rabeca, percussão, coros), Glória Bento (coros) e Márcia Lúcia (coros). Referência ainda à participação especial de Rão Kyao (flauta, no tema "Saia da Carolina") e de Vitorino (voz, em "Ó Rama, Ó Que Linda Rama").
O resultado é um trabalho que em nada desmerece outros que se tem feito na área da música tradicional e, nessa medida, tem também o mérito de servir para reabilitar o nome de Roberto Leal para a música portuguesa.
Em "Canto da Terra", Roberto Leal reconcilia-se com as suas raízes e dá-nos um outro olhar sobre o cancioneiro popular, especialmente de Trás-os-Montes, e mesmo nos temas que assina com Márcia Lúcia não deixa de transparecer a estética tradicional. Eis o alinhamento completo: "Canto da Terra (O Tempo Dirá)" (letra e música de Roberto Leal e Márcia Lúcia), "Chin Glin Din", "Sinhá Senhora" (letra e música de Roberto Leal e Márcia Lúcia), "La Molinera", "Dona Tresa", "Olhos de Terra, Cabelos de Trigo" (letra de Roberto Leal e Márcia Lúcia / música popular), "Nós Tenemos Muitos Nabos", "A Saia da Carolina", "La Çarandilhera", "Trás-os-Montes" (letra e música de Roberto Leal e Márcia Lúcia), "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" e "A Saia da Carolina" (remix).
O cantor apresenta-nos assim o disco: «O "Canto da Terra" foi um reencontro maior com as minhas raízes, um mergulho final em mim próprio. Esta busca de tantos anos sofreu um golpe fatal no Carnaval de 2007, em Macedo de Cavaleiros. Nesse dia, não fui Artista – fui Povo que se divertiu com as máscaras, que fugiu dos Caretos de Podence, que se emocionou com o rufar dos tambores. A lágrima que veio de fugida não cabia naquele dia de alegria! Mas insistiu até que eu desviei o olhar para dentro de mim e não vi senão o Transmontano que eu sou. Assim nasceu o "Canto da Terra" uma homenagem que, egoisticamente, presto às minhas origens. Uma selecção de canções da minha infância, de memórias que guardei daqueles tempos em que pensava que falava numa linguagem de rude expressão. Dos tempos em que tudo se resumia a chão, a pedras, à natureza da Terra e do Homem, a colheitas, amizade e à simples e pobre vida da aldeia. Hoje sei que aquele modo de falar misturado com o Mirandês, a nossa "rude expressão" era a preciosidade e a identidade cultural das gentes de Trás-os-Montes. Hoje sei que a simples e pobre vida da aldeia era a forja do lado mais grandioso e inquebrantável do espírito moldado pela dureza do dia-a-dia e que, à falta de luzes exteriores, busca o seu próprio brilho interior. No "Canto da Terra" deixei-me falar Mirandês, deixei-me sentir como dantes, deixei-me ser Transmontano. Deixei-me cantar meu pedaço de chão e ouvi o Canto da Terra!» (Roberto Leal, 2007)

URL:
http://robertoleal.sites.uol.com.br/


Sulitânia, de Ronda dos Quatro Caminhos
(CD, Ocarina, 2007)



Continuando a percorrer os caminhos trilhados em "Terra de Abrigo" (Ocarina, 2003), assentes no cruzamento do cante alentejano com as sonoridades sinfónicas da Orquestra de Córdoba, a Ronda publicou, em Novembro de 2007, o álbum "Sulitânia", também com chancela da Ocarina. O grupo apresenta-nos assim o seu novo álbum: «Este é o registo de uma viagem iniciada na Primavera de 2006, a convite das câmaras municipais de Évora, Idanha-a-Nova e Mértola. Assim partimos em busca do lugar onde as tradições musicais da Beira Baixa e do Alentejo se pudessem cruzar com a tradição da música erudita. À Beira do Sul foi o nome do roteiro dos concertos que, com as Adufeiras de Monsanto, o Coral Guadiana de Mértola e o Coro Polifónico Eborae Musica, juntos construímos. Achado o lugar, foi tempo de o cartografar para memória futura. Ei-lo aqui: o lugar a que chamámos Sulitânia». Título que, diga-se de passagem, foi inspirado no nome de um restaurante da localidade de Vimieiro, concelho de Arraiolos.
Para a realização do projecto, a Ronda dos Quatro Caminhos (António Prata – guitarra, bandolim; Carlos Barata – acordeão, bandolim; João Oliveira – voz solo, guitarra; Pedro Fragoso – piano; Mário Peniche – baixo; e Pedro Pita Groz – bateria, percussões) solicitou ainda as participações especiais do grupo Cantares de Évora, de elementos do Ateneu Mourense, do quarteto de cordas Opus 4 (Paula Pestana – primeiro violino; Rita Franco – segundo violino; Pedro Teixeira – violeta; Luís Estêvão da Silva – violoncelo), de Vasco Pearce de Azevedo (guitarra), e de Joana Alves Martins e Tiago Manuel Sousa (flautas de bisel).
Produzido com base em gravações ao vivo (no Centro Cultural Raiano, em Idanha-a-Nova; no Cine-Teatro Marques Duque, em Mértola; e no Teatro Garcia de Resende, em Évora) e de estúdio, Sulitânia inclui dez temas: "Debaixo da Laranjeira" (Beira Baixa / com as Adufeiras de Monsanto), "Vai Colher a Silva" (Baixo Alentejo / com o Coral Guadiana de Mértola), "Filho Não Vás à Mina" (Beira Baixa / com o Coro Polifónico Eborae Musica), "Aurora Vive na Serra" (Baixo Alentejo / com o Coral Guadiana de Mértola), "Cantiga das Casadas" (Beira Baixa / com Coro Polifónico Eborae Musica), "Condessa D’Aridão" (Beira Baixa / com as Adufeiras de Monsanto), "D’Onde Vens Ana" (Baixo Alentejo / com o Coro Polifónico Eborae Musica), "Romance de D. Silvana" (Beira Baixa / com as Adufeiras de Monsanto), "Ao Romper da Madrugada" (Baixo Alentejo / com o Coral Guadiana de Mértola) e "Cravo Roxo" (Beira Baixa / com o Coro Polifónico Eborae Musica, as Adufeiras de Monsanto, o Coral Guadiana de Mértola, Cantares de Évora e alguns amigos do Ateneu Mourense). Os arranjos foram repartidos entre Pedro Pitta Groz, Pedro Fragoso, Vasco Pearce de Azevedo, António Prata e Carlos Barata.
Trabalho de assumido hibridismo musical, merece nele especial destaque o resultado obtido nos temas tradicionais da Beira Baixa, designadamente em "Cantiga das Casadas" (arranjo de Vasco Pearce de Azevedo) e "Cravo Roxo" (arranjo de António Prata), que por momentos fazem evocar passagens de "Lambarena", obra paradigmática no que respeita ao encontro entre música erudita e música étnica, no caso entre a de Bach e a africana.

URL: http://www.ocarina-music.pt/PT/Ronda.htm

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Sol, de Stockholm Lisboa Project
(CD, Nomis Musik, 2007)



«Aventura interessantíssima - se bem que resulte muito melhor na prática do que na teoria, e já vamos a essa questão -, o Stockholm Lisboa Project é essencialmente o projecto de um grupo de músicos amigos de dois países separados por milhares de quilómetros de distância: os portugueses Luís Peixoto (também dos Dazkarieh; em bandolim e bouzouki) e Sérgio Crisóstomo (ex-At-Tambur; em violino) e o sueco Simon Stalspets (em bandola e harmónica), aos quais se juntou numa fase posterior a fadista Liana. Do gosto comum em fazer música passou-se para a procura, não sistemática, de possíveis e eventuais pontos em comum entre a música portuguesa e a música sueca, de que são exemplos neste disco o original, mas com cheiro a corridinho algarvio, "Sol de Janeiro" com uma polska tradicional escandinava, ou exemplo ainda mais feliz, o "Fado do Ribatejo" com uma valsa, a "Hökpers Vals". Mas são "filhos" quase únicos desta tentativa de ligação entre músicas tão distantes. E nisso, a "teoria" falha. Mas, agora a parte boa: se ouvirmos o álbum sem pensarmos nesta questão formal, se o ouvirmos pelo simples prazer de ouvir música, e boa música!, o álbum resulta espantosamente bem, com os instrumentos - e as músicas que eles transportam, sejam lá de onde for - a encaixarem-se na perfeição e a voz de Liana (muito boa cantora!), quando aparece e seja em fados ou não, a coroar com distinção esta música viva e solarenga, mesmo que por vezes melancólica. A propósito: "sol" quer dizer o mesmo em português e em sueco.» (António Pires, in blogue
Raízes e Antenas, 26.09.2007)
Com produção partilhada entre Stockholm Lisboa Project e Nomis Musik, "Sol" irradia música em dezasseis luminosas faixas: "Sol de Janeiro / Ombyggnan" (música de Luís Peixoto / tradicional – Suécia), "Mentiras" (letra e música tradicional – Portugal), "Polska efter Pål Karl / Gärdespolska" (música tradicional – Suécia / Simon Stålspets), "Naufrágio" (letra de Cecília Grillo / música de Alain Oulman), "Desgarrada / Toc Edits polska" (letra e música tradicional – Portugal / música tradicional – Suécia), "Nome de Rua" (letra de David Mourão-Ferreira / música de Alan Oulman), "Vindima" (letra e música tradicional – Portugal), "Amélia" (letra e música tradicional – Portugal), "Fado do Ribatejo" / Hökpers Vals (letra de José Galhardo e Lars Hökpers / música de Raul Ferrão), "Hortelã Mourisca" (letra de José Vicente Oliveira / música de Arlindo de Carvalho), "Rua do Capelão" (letra de Júlio Dantas / música de Frederico de Freitas), "Vira dos Noivos" (música tradicional – Portugal), "Linda Rosa" (letra e música tradicional – Portugal), "Griffenfeldts schottis" (música tradicional – Noruega), "Kurvhurven" (música de Simon Stålspets), "Antonios vals" (letra de Liana / música de Simon Stålspets).

URL:
http://www.stockholmlisboa.com
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Não Sou Daqui, de Amélia Muge
(CD, Vachier & Associados, 2006)



Ao cabo de cinco anos sem discos, Amélia Muge apresenta-nos "Não Sou Daqui", novo álbum de originais e o primeiro de uma trilogia cujos capítulos seguintes "estarão ligados, respectivamente, à música de tradição europeia e às relações entre a música e a tecnologia". Gravado no início de 2006, o disco acabaria por ser lançado já em 2007, facto que se prende com os conhecidos problemas de edição, em Portugal, de música que se situa fora do 'mainstream' comercial. A este respeito, a cantora aproveita para dizer: «Uma pausa discográfica pode ter a ver com falta de trabalho. No meu caso não foi isso que aconteceu. Não preciso dizer mais nada. Editaria mais rápido se fizesse outro tipo de música. Posso deixar para trás "uma carreira" mas não estas canções e tudo o que nelas está e que é muito mais do que música. É com estes projectos que eu quero estar, mesmo que esta escolha me obrigue a estar tanto tempo sem editar.» (entrevista a Tiago Gonçalves, in
BodySpace, 24.04.2007).
"Não Sou Daqui", segundo as palavras da própria Amélia Muge, «interroga a canção, como ideia, não como estilo ou género musical concreto. Desafia-a, como um possível "lugar de todos"». E pormenoriza: «Parti de uma ideia de canção quase estereotipada, uma coisa que liga texto e som, numa estrutura de estrofes, refrão, etc., para depois interrogar os espaços do texto, das passagens dos territórios do real aos espaços da mente e as próprias estruturas. Isso levou-me a reflectir sobre como surge a canção nos meus discos anteriores... No fundo, o que percebi ao fazer este trabalho é que a identidade das canções é como a identidade das pessoas. É uma permanente mudança entre o ser e o estar, entre aquilo que se exclui e aquilo que se apropria como fazendo parte dessa identidade.» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
"Não Sou Daqui" é constituído inteiramente por composições de Amélia Muge para poemas seus e ainda de Hélia Correia, António Ramos Rosa, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio Lisboa. À pergunta "a escolha dos poemas foi natural?", a compositora responde: «Tão natural como a minha sede. E a deles (poemas), de se encontrarem comigo neste espaço. Os poetas não vêm por arrasto; têm temáticas recorrentes, e eu fiz questão de incluir no disco excertos de outros poemas ou textos destes poetas onde isto se percebe. No fundo, não sou eu quem escolhe os poemas que vão surgindo à volta da ideia central dos discos. Eu vou compondo sem pensar nos discos e vou alimentando uma espécie de arquivo de ideias-canção. Depois, são as ideias de percurso que as convocam. E com as canções os poemas. E com os poemas, os poetas. (entrevista a Tiago Gonçalves, in
BodySpace, 24.04.2007). A respeito de um desses poetas, António Ramos Rosa, representado no disco com dois poemas, Amélia Muge faz questão de afirmar: «Para mim tem sido uma leitura constante, de há muitos anos. Tem-me ajudado a compreender as questões do lugar, da identidade, da ausência de referências. E até a clarificar o que é a poesia. Porque a poesia ou me serve para ajudar a pensar ou ponho-a rapidamente de lado. E no Ramos Rosa, como aconteceu com o Grabato Dias e outros, além da arte do uso da palavra, há também a criação de um espaço simultaneamente artístico, científico e técnico. É uma hibridez que nos ajuda, sem que seja preciso tirar um curso de literatura para entrarmos nesse mundo.» E acrescenta: «A poesia continua a ser, para mim, um grande mistério. Sei dizer o que não é: não é ter rimas no fim das frases, não é ter imagens bonitas. É um lugar de lugares ou, se quisermos, um não-lugar cuja acessibilidade não compreendo bem. Para mim, um grande poeta tem várias coisas reunidas que permitem cantá-lo. Mas conjugar uma sonoridade com um poema ainda é uma coisa tão complicada quanto desafiadora». (entrevista a Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
Além dos poemas, o libreto do disco inclui ainda um conjunto de desenhos e esboços caligráficos feitos pela própria compositora: «Todos os meus discos têm presente (de uma maneira menos evidente) a questão da importância da imagem no meu trabalho. Não tanto como componente de ilustração, mas também e, mais uma vez, como matéria de pensamento. Ajudam-me a perceber melhor por onde ando quer no campo das ideias quer no campo das interacções. Neste disco achei importante (e tive a oportunidade) de acentuar esse aspecto.» (entrevista a Tiago Gonçalves, in
BodySpace, 24.04.2007).
Eis os treze temas que integram "Não Sou Daqui", todos com música de Amélia Muge: "Sete portas tenho em casa" (poema de Hélia Correia), "Arena (à volta da sala)" (poema de Amélia Muge), "Entre o deserto e o deserto" (poema de António Ramos Rosa), "Escutar Caetano" (poema de Amélia Muge), "Fadunchinho" (poema de Hélia Correia), "O que vê o meu olhar" (poema de Amélia Muge), "Na noite mais escura" (poema de António Ramos Rosa), "Não sou daqui, mas..." (poema de Amélia Muge), "O anjo" (poema de Sophia de Mello Breyner Andresen), "Parece Maio" (poema de Amélia Muge), "Quem vier que venha (saudação) " (poema de Amélia Muge), "Transparência" (poema de Eugénio Lisboa) e "Visões do entardecer" (poema de Amélia Muge).
Com direcção musical de António José Martins que também assina os arranjos, em parceria com Filipe Raposo (partes de piano, acordeão e trompa) e José Manuel David (tema "Visões do entardecer"), a gravação do disco contou com a participação de um vasto elenco de músicos: Amélia Muge (voz de sala, coros e viola braguesa), António José Martins (darbuka, triângulo, bombo, bendir, estalo, djembé, bilha, maraca, chiquitsi, voz de sala, amostrador e sintetizador), Carlos Mil-Homens (cajón), Catarina Anacleto (violoncelo), Cristina A. da Silva (lobulophone de orelha), Filipe Raposo (piano acústico, piano Rhodes e acordeão), José Manuel David (flautas transversal e de bisel, tarota, trompa, garrafas e voz de sala), José Peixoto (guitarra acústica) e Yuri Daniel (contrabaixo e baixo eléctrico). A mistura e masterização estiveram a cargo de António Pinheiro da Silva e António José Martins.
Em recensão crítica ao disco, assim dissertou Nuno Pacheco: «Dos cinco discos que Amélia Muge já gravou a solo, este é o único a preto e branco: capa, libreto, desenhos, poemas, tudo. Mas, tal como nos primeiros discos de José Mário Branco, o mistério que o preto e branco encerra desemboca aqui num arco-íris de cores. "Como uma pintura de sons/ e como se da tela saísse a voz", escreve e canta Amélia a propósito de Caetano Veloso [homenageando o cantor brasileiro e ao mesmo tempo "todos os que me deram a escutar a maravilha da palavra cantada em português de uma forma tão conseguida"], mas as palavras podiam aplicar-se à sua própria obra. Em particular a este disco, que surge como o primeiro de uma trilogia e que é, talvez, do ponto de vista conceptual, o mais ambicioso que até à data gravou. "Não Sou Daqui", ao interrogar a canção como "lugar de lugares", inclui canções belíssimas, ao nível das melhores (e não são poucas) que já escreveu: "Arena (à volta da sala)", por exemplo, ou "Entre o deserto e o deserto", "Na noite mais escura", "O anjo" e "Quem vier que venha (saudação), esta a lembrar "Dia em dia", do primordial "Múgica" (1992). Mas também, num degrau só ligeiramente inferior, "O que vê o meu olhar" (com ecos de Fausto), "Visões do entardecer" e "Transparência". Ou os temas, esses mais ritmados, onde ela mais aborda, por vezes com ironia, as transversalidades geográficas dos sons: "Não sou daqui, mas...", "Sete portas tenho em casa", "Escutar Caetano", "Fadunchinho" e "Parece Maio". Mas estas palavras soariam de outro modo se não fossem os músicos aqui reunidos, que assinam um trabalho de excelência. Ouçam-nos e verão. E ouçam, mais uma vez, essa "voz que canta com as secretas fontes do corpo", como a descreve António Ramos Rosa. Neste seu novo disco, Amélia mostra que é cada vez mais daqui. E de todo o lado.» Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Y", 02.02.2007).
Pela sua pertinência, transcreve-se também a crítica de André Gomes: «O primeiro disco da trilogia anunciada de Amélia Muge é tudo aquilo que o regresso da cantora, afastada destas andanças durante alguns anos, deveria ser: interrogante, desafiante, intenso. Amélia Muge não precisa de muito para fazê-lo e, no entanto, "Não Sou Daqui" é um disco em forma de volta ao mundo. É impressionante a forma como "Sete portas tenho em casa", logo a abrir, se passeia por entre territórios tão distintos, apresentando na perfeição aquilo que o disco apresenta: a exploração da canção como área de fronteira cultural. As movimentações são muitas nessa busca – criando um espaço abrangente e multicultural que confere especial riqueza ao disco. Abrem-se novas portas a cada instante. Num minuto é fado, a seguir é blues; chega a música tradicional portuguesa; um segundo depois é jazz – e, quando a música aponta o caminho, ama-se Caetano num Brasil disfarçado na portugalidade. Tudo isto se desenrola com uma coerência notável, claro está, com o cuidado de quem se documentou antes de partir para uma tarefa deste género – a canção analisada da perspectiva de quem lhe procura fronteiras ou hipóteses de as derrubar. Quando Amélia Muge timidamente esboça sorrisos fugidios em "Arena (à volta da sala)", sabe que a busca está no bom caminho. Em "Fadunchinho" explora-se a quietude da melancolia para logo depois de ensaiar uma curta mas intensa e apaixonante implosão – o factor surpresa ao serviço da criação musical em momento-chave do disco. "Não sou daqui, mas..." é equilíbrio impossível de impressões, doce declaração geográfica de uma cidadã do mundo.
Ambicioso mas realista, complexo mas acessível, "Não Sou Daqui" funciona bem mesmo sem se saber como soam os dois próximos capítulos da esperada trilogia, e abre o apetite – e de que maneira – para o que vem a seguir. Não é exagero dizê-lo: "Não Sou Daqui" é um dos discos portugueses mais prementes da década.» (André Gomes, in revista "Blitz Extra", Dezembro de 2007).

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Vinho dos Amantes, de Janita Salomé
(CD, Som Livre, 2007)



Em Março de 2007, quatro anos após a edição do superlativo "Tão Pouco e Tanto", Janita Salomé publica "Vinho dos Amantes" (ed. Som Livre), um novo álbum de originais que concretiza uma ideia conceptual: celebrar o néctar dos deuses tendo como ponto de partida a grande poesia portuguesa e mundial. Janita explica esta sua opção temática: «A ode ao vinho tem sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira, porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a literatura sobre o vinho». (entrevista a Marta Neves, in "Jornal de Notícias", 13.03.2007). «Encontrei muita e bela poesia dos mais diversos autores sobre a temática do vinho. Neste trabalho faço um percurso desde os tempos da Antiguidade Clássica até aos tempos actuais, do Anacreonte à Hélia Correia (amiga a quem pedi que escrevesse sobre o vinho), passando pelo Caminho Pessanha e pelo Charles Baudelaire, um mestre na experimentação das mais diversas drogas que fala destas e do vinho com a maior sabedoria que afinal de contas é o mais importante no que diz respeito ao vinho». (entrevista a João Afonso, in revista "Epicur", Agosto-Setembro de 2007). E porquê o título "Vinho dos Amantes"? Janita responde: «O vinho e o amor foram sempre, durante os tempos, relacionados entre si, dizendo Jorge Sousa Braga numa colectânea que publicou na Assírio & Alvim, intitulada "O Vinho e as Rosas", que "vinho" é uma palavra que na sua origem mais remota deriva do sânscrito e quer dizer "amado". Portanto, há uma relação do vinho com o amor, sabendo-se também que mesmo na Antiguidade Clássica, Ovídio já dizia que o vinho predispõe a alma para o amor, isto se não tiver sido bebido em grandes quantidades, claro, porque o vento atiça a chama mas se for muito forte apaga-a!» (ibidem). Em "Vinho dos Amantes", "a embriaguez que se exalta é a da amizade, do amor e dos prazeres da vida, mas com conhecimento e inteligência".
Outra particularidade do disco é que o seu universo musical já não se confina aos ambientes alentejanos e arábico-andaluzes, a que o cantor nos havia habituado: «Afastei-me, um pouco, da matriz mediterrânea. Resolvi percorrer outros caminhos, fazer outras experimentações. Considero que é uma sonoridade mais explicitamente portuguesa. Por outro lado, procurei fazer melodias mais acessíveis, com uma estrutura de canção. Há algumas sonoridades que até a mim me surpreenderam, como o tema de abertura, "Maçãs de Zagora", com um ambiente de blues [arranjo de Mário Delgado]. Gosto imenso de blues e até considero que é do melhor que a América tem...». E acrescenta: «Experimentei também uma sonoridade pop, mas não rock, que está bem patente na parte final do último tema ["Caminho III"]. Foram muitos anos a ouvir os discos dos Pink Floyd.» (entrevista a Marta Neves, in "Jornal de Notícias", 13.03.2007).
Além de um poema da sua autoria ("Escadinhas do Alto"), em "Vinho doa Amantes" Janita canta a poesia de Carlos Mota de Oliveira ("Maçãs de Zagora"), do chinês Li Bai ("A Estrela do Vinho"), de Charles Baudelaire ("Embriagai-vos", "O Vinho dos Amantes"), Anacreonte ("Fragmentos"), Hélia Correia ("No Banquete", "Ode ao Vinho"), António Aleixo, Francisco Hélder Pimenta e populares anónimos ("Quadras"), José Jorge Letria ("O Mapa Errante") e Camilo Pessanha ("Caminho III"). Todas as composições são da autoria de Janita Salomé que também toca guitarra clássica e percussões. No elenco de instrumentistas contam-se o já citado Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra eléctrica, kalimba), Ni Ferreirinhas (guitarra clássica), Ruben Alves (piano, acordeão), João Paulo Esteves da Silva (piano), Ricardo Dias (guitarra portuguesa), Fernando Abreu (guitarra clássica), Amadeu Magalhães (viola braguesa), Luís Cunha (violino), Daniel Salomé (clarinete), Yuri Daniel (contrabaixo, baixo eléctrico), Jacinto Santos (tuba), Vicki (bateria, percussões), Vitorino (acordeão) e músicos da Brigada Victor Jara (Ricardo J. Dias, José Tovim, Quim Né). Carlos Mota de Oliveira, um dos poetas que Janita mais tem cantado, também colabora activamente no disco recitando o poema de Baudelaire "Embriagai-vos". Referência ainda às participações especiais de Jorge Palma, Rui Veloso e José Carvalho que ao lado de Vitorino e Janita Salomé formam o coro dos amantes do vinho, que canta "No Banquete".
Trata-se de um belo trabalho discográfico, mas infelizmente muito pouco divulgado na rádio, a qual sonega a nossa melhor música, aquela que se pode sorver como um bom vinho, e insiste em promover massivamente as zurrapas musicais, seja as vindas de fora seja as produzidas cá dentro. A este propósito diz-nos o próprio Janita: «Ouve-se muito mais a tendência anglo-americana, o pop-rock, ou então músicas cantadas em português, mas com essas mesmas raízes. Esta situação é profundamente injusta porque a música portuguesa tem qualidade e tem diversidade tal que lhe permite ser mais divulgada e dada a conhecer aos jovens.»
Ainda acerca do disco, vale a pena atentar na recensão de João Bonifácio: «Seria difícil a Janita Salomé igualar "Tão Pouco e Tanto", em que regressava ao universo que o obcecara entre 1983 e 1987 (ou seja, entre "A Cantar ao Sol" e "Olho de Fogo", respectivamente), quando uniu o Alentejo a Marrocos. Janita fica agora a dois palmos abaixo desse extraordinário disco, em parte pelo arrasamento emocional que "Tão Pouco e Tanto" carregava e que aqui não é tão necessário: "Vinho dos Amantes" dedica-se mesmo ao vinho, aos prazeres que lhe são inerentes, ao desbragamento, ao símbolo poético que acarreta, à ideia de liberdade, de paixão. E fá-lo com recurso às mais díspares construções musicais: um quase blues em "Maçãs de Zagora", a herança de Zeca no xilofone de "A Estrela do Vinho" (belíssima), uma sombra de fado na magnífica "Escadinhas do Alto". Não pensem sequer em desilusão: temas como "Embriagai-vos", coro ao alto e recitar por cima de um adorno de guitarra, soam novamente o milagre, tal como o simplicíssimo tema-título, apenas piano e voz. E ainda se viaja, em "Fragmentos", a uma espécie de folclore com inspiração americana, para já no fim Janita arrancar uma extraordinária canção, "Quadras", acordeão, voz de malandro e metais. Porque raio não é este homem um herói, ó país de surdos e cegos?» (João Bonifácio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 09.03.2007)

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Senhor Poeta, de Frei Fado d’El Rei
(CD, Ovação, 2007)



Quatro anos decorridos sobre a edição do soberbo "Em Concerto" (Açor, 2003), e a pretexto dos vinte anos sobre a morte de José Afonso, o grupo Frei Fado d’El Rei publicam "Senhor Poeta" (ed. Ovação), um tributo ao autor de "Cantigas do Maio". Com produção dos próprios Frei Fado d’El Rei (Carla Lopes – voz e percussões; Cristina Bacelar – guitarra clássica, voz, coros e percussões; Ricardo V. Costa – guitarra clássica, coros e castanhola de cana; José Flávio Martins – baixo electro-acústico, bandola, coros e bombos tradicionais; Rui Tinoco – teclados, samplers e programações; Zagalo – percussões e coros), o disco inclui catorze temas, todos com música original de José Afonso: "Senhor Poeta" (poema de António Barahona e Manuel Alegre / arranjos e adaptação de Rui Tinoco), "Canção do Mar" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Rui Tinoco), "Canto Moço" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Zagalo e Ricardo V. Costa), "Verdes São os Campos" (poema de Luís de Camões / arranjos e adaptação de Rui Tinoco), "Senhor Arcanjo" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Rui Tinoco), "A Morte Saiu à Rua" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Frei Fado d’El Rei), "O Comboio Descendente" (poema de Fernando Pessoa / arranjos e adaptação de José Flávio Martins e Cristina Bacelar), "Era Um Redondo Vocábulo" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Rui Tinoco), "Que Amor Não Me Engana" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Frei Fado d’El Rei), "Rio Largo de Profundis" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de José Flávio Martins e Ricardo V. Costa), "Na Catedral de Lisboa" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Rui Tinoco e José Flávio Martins), "As Sete Mulheres do Minho" (poema popular / arranjos e adaptação de Rui Tinoco e Cristina Bacelar), "De Não Saber o Que Me Espera" (poema de José Afonso / arranjos e adaptação de Rui Tinoco e Zagalo) e "Tu Gitana" (poema do Cancioneiro de Vila Viçosa / arranjos e adaptação de Rui Tinoco).
Os Frei Fado d’El Rei apresentam esta sua proposta discográfica nestes termos: «Se um poeta é aquele que escreve aquilo que pensa e sente, que tem um lado onírico envolvido numa enorme sensibilidade, José Afonso é esse poeta com toda a certeza. E é muito mais do que um Homem que se inclinou para as palavras... soube fazer música dessas palavras, soube transformá-las em canções, em espelhos de emoções que se deixam cantar facilmente. A sua simplicidade musical e poética converteu-se numa mensagem que passou e continuará a passar por muitas gerações. Contactámos com José Afonso, pela primeira vez, enquanto grupo em 1994, aquando da gravação da homenagem "Filhos da Madrugada". Desde então, germinou entre nós a vontade de, um dia, nos voltarmos a cruzar com ele. Chegou a hora.
Este disco representou um grande desafio para os Frei Fado d’El Rei. Respeitar a simplicidade da música de José Afonso, sem a descaracterizar, e simultaneamente honrar o seu carácter inovador, foi o objectivo a que nos propusemos. Afinal, essa fusão do tradicional com o contemporâneo que caracteriza a música de José Afonso é também a ambição dos Frei Fado d’El Rei...

A muitos Senhores Poetas José Afonso deu voz. Quanto a nós, é chega a oportunidade de retribuir, deixando com este trabalho o nosso tributo ao poeta e músico José Afonso.» (Frei Fado d’El Rei)
O ano de 2007 foi fértil em edições discográficas de homenagem a José Afonso. "Senhor Poeta" sendo uma delas – o que aliás é plenamente assumido pelo grupo – é mais do que isso. Longe de ser um conjunto de imitações do tipo "Chuva de Estrelas" (que até podem ser muito perfeitas mas soam a plástico) ou, no extremo oposto, de versões pretensamente inovadoras mas que em boa verdade nada acrescentam ao que está feito, a grande virtude deste registo reside no facto de ser dos Frei Fado d’El Rei, justamente um dos projectos mais peculiares e fascinantes do panorama musical português. Sem adulterar as melodias e as letras originais, o grupo faz neste disco um notável trabalho de reinvenção harmónica das canções de José Afonso, imprimindo-lhes novos matizes e devolvendo-no-las frescas e revigoradas, como se de música novinha em folha se tratasse. E isso é conseguido graças às interpretações vocais e, sobretudo, aos magníficos arranjos instrumentais com que os temas de José Afonso são "vestidos". "Senhor Poeta" é, sem sombra de dúvida, uma das mais felizes e cativantes abordagens que até hoje se fizeram ao repertório de Zeca Afonso e, nessa medida, o Prémio José Afonso se, acaso, lhe vier a ser atribuído assenta-lhe como uma luva.

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Abril, de Cristina Branco
(CD, Universal, 2007)



«A ideia de fazer um disco só com temas de José Afonso já existia na mente de Cristina Branco. Desde pequena que o ouvia e com ele se encantava, ainda na casa dos pais; e já tinha gravado "Pombas" e "Era Um Redondo Vocábulo". Mas quando Jorge Salavisa, o director do Teatro Municipal São Luiz, a convidou fazer um espectáculo que ele pensou: "Perfeito". Escolheu vários temas e durante oito noites, em Fevereiro de 2007, encheu o Jardim de Inverno do teatro lisboeta. Em Abril foi para o estúdio (o de Mário Barreiros) e gravou 16 canções, dexando de parte algumas das que em palco cantara (como "Mulher da Erva", "Utopia", "Tu Gitana", "Lá no Xepangara"). Entre mil nomes possíveis, Cristina escolheu "Abril". "Porque as pessoas iam conotá-lo com aquele período mas também porque foi gravado em Abril, um tempo de renascimento, de renovação, e o propósito de fazer este disco passa por aí. Gosto da palavra, soa muito bem e tem ligações a José Afonso, com o momento em que a carreira dele se desenvolveu." Antes disso, porém, documentou-se. Ouviu, leu, estudou. "Fui comprando alguns discos que não existiam na colecção dos meus pais. Mas além disso acho que li tudo o que Zeca escreveu e a maior parte das coisas que foram escritas sobre ele naquela época. Tive esse cuidado, para perceber melhor como é que aquela pessoa funcionava, como é que ele se relacionava com os outros." Ficou com uma ideia mais clara dele. "Para além de ser hipocondríaco e muito distraído, era uma pessoa muito amada por todos. Quando estive no São Luiz, acho que conheci a maior parte dos grandes amigos do Zeca. E foi interessantíssimo, porque todos tinham histórias para me contar. Foi muito bonito..." Produzido por Ricardo J. Dias, da Brigada Victor Jara, (que já trabalhara com Cristina em "Ulisses"), "Abril" conta com os mesmos músicos que a acompanharam no espectáculo: além de Ricardo J. Dias (piano, Fender Rhodes), Mário Delgado (guitarras), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria), todos com particular ligação ao jazz. Mas vieram mais dois: João Moreira (trompete) e Quiné (percussões). E, além deles, o Coro dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, cujas vozes dão uma curiosa solenidade ao "Coro da Primavera", quase a fechar o disco. Que começa com "Menino d’Oiro": "Tinha que ser o tema de abertura porque é o que rompe com o fado de Coimbra. E eu imaginei, logo de início, que só a partir dali é que para mim faria sentido fazer um álbum com José Afonso, para poder deixar uma época para trás." O resto deveria seguir uma lógica temporal, mas teve de obedecer a outros requisitos: "Tentei seguir uma ordem cronológica, pegando em todas as fases mais importantes do Zeca. Mas essa ordem não pôde ser seguida no disco, até porque as canções tinham que bater certo a nível rítmico e de tonalidades." Assim, "a melodia foi o fio condutor" num todo onde a cantora se assume como aprendiza: "Parto sempre do princípio que aprendemos qualquer coisa quando tocamos na genialidade de determinado autor e quando tentamos passá-lo para a nossa própria linguagem. Eu, pelo menos, tento aprender mais do que ensinar. E o José Afonso tem muito para dar, por essa via." Entre as canções gravadas está "Era Um Redondo Vocábulo", que ele considera "o melhor tema do Zeca": "Dá a sensação que ele estava de olhos fechados a escrevê-lo. Imagino sempre uma pessoa enclausurada, a claustrofobia que deve ser e a tentativa de escapar. Uma vez que fisicamente é impossível, ele escapou pela mente. É um poema quase místico, tão intenso e tão circular, onde as palavras evoluem de forma genial."» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 09.11.2007).
São estes os dezasseis temas que integram "Abril": "Menino d’Oiro", "Senhor Arcanjo", "Maio Maduro Maio", "Canto Moço", "Avenida de Angola", "No Comboio Descendente", "Ronda das Mafarricas", "Canção de Embalar", "Era Um Redondo Vocábulo", "A Morte Saiu à Rua", "Cantigas do Maio", "Venham Mais Cinco", "Carta a Miguel Djéjé", "Os Índios da Meia-Praia", "Coro da Primavera" e "Chamaram-me Cigano".
Em recensão crítica ao álbum, Nuno Pacheco pronuncia-se nestes termos: «Testou o repertório [de José Afonso] em oito noites no São Luiz e gravou-o com o mesmo naipe de músicos e um refinamento das canções, mantendo-lhes íntegra a identidade. Ela própria escrevera: "Não trazemos nada de novo, vimos apenas lembrar." Por isso, da sua arte de intérprete caldeada pelo fado e por incursões noutras áreas da música popular vislumbram-se aqui sobretudo apontamentos, derivas estilísticas que dão aos temas uma sensível frescura e um inegável encantamento. Os músicos, na sua maioria vindos da área do jazz, dão corpo e cor a bem conseguidos arranjos, embora por vezes o demonstrem em excesso ("No Comboio Descendente", "Ronda das Mafarricas", "A Morte Saiu à Rua"). Mas o resultado final é meritório, com momentos sublimes ("Menino d’Oiro", "Cantigas do Maio", "Avenida de Angola", "Canção de Embalar", "Era Um redondo Vocábulo") e um final surpreendente com o ritmado "Chamaram-me Cigano". Um tributo digno da herança.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 09.11.2007).

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http://www.cristinabranco.com/


Ao Vivo: A Preto e Branco, de Vitorino
(CD, Magic Music/Som Livre, 2007)



"Resultado da gravação de espectáculos ao vivo no Teatro da Trindade em Lisboa, em Maio de 2007, este disco volta ao princípio. Mas como a História se repete, sempre de outra maneira, assim também o registo destas canções (algumas com trinta e tal anos) é interessante e diferente. Isto porque o tempo é outro, anda depressa, e também porque andando tanto ele ensina-nos muitas coisas surpreendentes. É pois uma visitação sentida a um tempo bom, sonhador e eterno das nossas vivências, retratado por um punhado de canções que resistem ao tempo e à saudade. Ainda pudemos escutá-lo com tranquilidade e prazer caseiro: dura mais e cala mais fundo". É com estas palavras que Vitorino apresenta o primeiro disco ao vivo do seu repertório. Primeiro porque, em boa verdade, os outras edições de gravações ao vivo em que participou eram colectivas: "Dia de Concerto" (1997), do Rio Grande, e "Utopia" (2004), em que canta com o seu irmão Janita Salomé as canções de José Afonso.
Vitorino que editou o seu primeiro disco, "Semear Salsa ao Reguinho", em 1975, faz em "Ao Vivo: A Preto e Branco" uma viagem pela sua discografia, entre os temas mais conhecidos e os quase esquecidos, incluindo também duas canções de José Afonso, num total de quinze belas faixas: "Senhora Maria" (Popular / Vitorino), "Cantiga do Marginal do Séc. XIX" (Vitorino), "Fado Alexandrino" (António Lobo Antunes / Vitorino), "Poema" (António José Forte / Vitorino), "Semear Salsa ao Reguinho" (Popular, adaptação de Vitorino), "Ana II" (António Lobo Antunes / Vitorino), "Meu Querido Corto Maltese" (Vitorino), "Adeus ó Serra da Lapa" (José Afonso), "Rouxinol Repenica o Cante" (Popular, adaptação de Vitorino), "Queda do Império" (Vitorino), "Leitaria Garrett" (Vitorino), "Marcha de Alcântara" (Vitorino), "Maria da Fonte" (Paulo Midosie / Marquês de Sintra), "Vou-me Embora, Vou Partir" (Popular, adaptação de Vitorino) e "A Morte Saiu à Rua" (José Afonso).
Com direcção artística do próprio Vitorino e de António Miguel Guimarães, o cantor fez-se acompanhar dos seguintes músicos: Sérgio Costa (teclados, piano e flauta), Daniel Salomé (saxofone soprano e clarinete), Carlos Salomé (guitarras, percussão e voz) e Rui Alves (percussão e voz).
Longe se ser uma vulgar compilação de temas gravados ao vivo de qualidade técnico-musical sofrível e com meros intuitos mercantilistas (como muitas vezes acontece neste tipo de edições), "Ao Vivo: A Preto e Branco" ficará muito provavelmente como um dos melhores registos discográficos da arte interpretativa de Vitorino Salomé. Vitorino que, diga-se a propósito, é indubitavelmente um dos nomes maiores da música portuguesa, mas nem mesmo esse estatuto tem impedido que a sua música tenha praticamente desaparecido das principais rádios nacionais (mesmo com a lei das quotas de música portuguesa).
Na recensão crítica ao disco, João Bonifácio aproveita para pôr o dedo na ferida: «Não é por acaso que neste "Ao Vivo: A Preto e Branco" (gravado no Teatro da Trindade em Maio passado, e em que se resumem mais de trinta anos de carreira) Vitorino canta "Poema" com letra do extraordinário poeta António José Forte. Forte escreveu um dia: "Hoje é um dia reservado ao veneno/ e às pequenas coisas/ teias de aranha filigranas de cólera" – e os versos podem bem aplicar-se à raiva que nos fica de cada vez que pensamos no desdém com que alguém como Vitorino é hoje em dia tratado: o que aqui temos é uma espantosa colecção de canções – que incluem a quase impossível de encontrar "Semear Salsa ao Reguinho" – em que se fundem as mais diversas tradições do que deu origem à música a que chamamos portuguesa. Pouco importa, na realidade, se é portuguesa ou não: de alguma forma, é chão do que somos; e se isso, se esse exercício antropológico, em si, não é argumento estético, a verdade é que Vitorino está aqui em perfeita forma, controladíssima voz. Os arranjos (piano, ocasional guitarra, percussões tradicionais, flauta aqui, saxofone acolá) nunca se tornam empecilhos, apenas desenham os limites entre os quais a voz de move. Marrocos em registo de câmara, a proximidade das Beiras, versões de Zeca, marchas, fados, cante, a terra, a puta da nossa terra naquela voz ao longo de um alinhamento irrepreensível, com uma "Senhora Maria" e uma estupenda "Cantiga Marginal do Séc. XIX" em estado de graça. Como argumento a favor de Vitorino devia bastar o seu vibrato em "Rouxinol Repenica o Cante", mas não vale a pena insistir a favor desta música: os que interessam sabem que não basta citar Douglas Sirk e Roth, sabem quão patético é fingir ser-se americano ou inglês, sabem que a cultura não serve de nada se não conhecermos o nosso chão, o melhor do nosso chão. Caso contrário, é-se apenas um tonto deslumbrado. Mas quem tiver a humildade de pôr em causa a sua identidade ou quem, pura e simplesmente, quiser ouvir boa música que não seja igual a 99 por cento do que diariamente nos impingem, pode sempre começar por aqui.» (João Bonifácio, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 09.03.2007).

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http://www.pflores.com/vitorino/index.php
http://www.magicmusic.info/artistas.php?id=28


Você e Eu, de Teresa Salgueiro & Septeto de João Cristal
(CD, EMI, 2007)



Aproveitando o ano sabático do grupo Madredeus, Teresa Salgueiro gravou, em 2007, três discos: "Você e Eu", com o Septeto de João Cristal; "La Serena", com o Lusitânia Ensemble; e "Silence, Night & Dreams", com o compositor polaco Zbigniew Preisner. O mais bem conseguido de todos eles é precisamente "Você e Eu", o primeiro a surgir nesta prolífica safra da cantora e o seu segundo trabalho discográfico em nome próprio, seguindo-se a "Obrigado" (Capitol, 2005), um disco de duetos com José Carreras, Caetano Veloso, Maria João e Zeca Baleiro, entre outros. Acompanhada pelo Septeto de João Cristal (João Cristal – piano; Paulo da Filin – violão; Marcos Paiva – contrabaixo; Nailor Proveta – saxofone e clarinete; Eduardo Bello – violoncelo; Daniel de Paula – bateria; Maria Diniz e Adriane Drê – coros), Teresa Salgueiro canta, em "Você e Eu", 22 clássicos da música popular brasileira, passando pelo samba, o chorinho e a bossa nova: "Chovendo na Roseira" (António Carlos Jobim), "Na Baixa do Sapateiro" (Ary Barroso), "Marambaia" (Rubens Campos / Henricão), "Estrada do Sol" (Dolores Duncan / António Carlos Jobim), "Valsa de Uma Cidade" (Ismael Neto / António Maria), "O Samba da Minha Terra/Saudade da Bahia" (Dorival Caymmi), "Maracangalha" (Dorival Caymmi), "A Felicidade" (Vinicius de Moraes / António Carlos Jobim), "Risque" (Ary Barroso), "Lamento" (Pixinguinha), "Inútil Paisagem" (Aloysio de Oliveira / António Carlos Jobim), "Triste" (António Carlos Jobim), "Modinha" (Vinicius de Moraes / António Carlos Jobim), "P'ra Machucar Meu Coração" (Ary Barroso), "Insensatez" (Vinicius de Moraes / António Carlos Jobim), "Meditação" (Newton Mendonça / António Carlos Jobim), "Valsinha" (Vinicius de Moraes / Chico Buarque), "Samba do Orfeu" (António Maria / Luís Bonfá), "Só Tinha de Ser com Você" (Aloysio de Oliveira / António Carlos Jobim), "Se Todos Fossem Iguais a Você" (Vinicius de Moraes / António Carlos Jobim), "Você e Eu" (Vinicius de Moraes / Carlos Lyra) e "A Banda" (Chico Buarque).
"Você e Eu" foi apresentado ao vivo no espaço Golden Gross Jazz Club, em São Paulo, e a recepção do público foi tão calorosa e entusiástica, que a cantora se viu obrigada a aumentar o número de actuações previstas no Brasil. "Foi maravilhoso. Tinha curiosidade em ver qual seria a reacção do público brasileiro a uma cantora portuguesa cantando a sua música, e foi uma reacção extraordinária. No primeiro concerto a bilheteira já estava esgotava para todos os dias e acabaram por me convidar para tocar no fim-de-semana seguinte.", diz a cantora em entrevista a Mário Lopes (in "Público": Suplemento "Ípsilon", 23.03.2007).
A crítica brasileira também não se fez rogada em elogios a Teresa Salgueiro que, diga-se, já era uma voz muito acarinhada em Terras de Vera Cruz enquanto vocalista dos Madredeus. Essa circunstância pode ter ajudado ao êxito, mas não teria sido suficiente se as interpretações de Teresa Salgueiro, os arranjos de João Cristal e a execução dos músicos não formassem um conjunto acima da média, mesmo para o padrões brasileiros. Num país que detém um alforbe de cantores de primeira e, além disso, bastante cioso da sua música e dos seus artistas, a façanha alcançada por Teresa Salgueiro não é de somenos importância. É quase como conseguir vender azeite a um lagareiro. Na verdade, "Você e Eu" não é apenas uma viagem de uma cantora portuguesa ao fascinante mundo da canção brasileira: é uma obra em estado de graça e já uma referência do património discográfico da lusofonia. Apenas um senão, mas totalmente alheio à cantora e aos demais artistas: o CD não vem acompanhado das letras! Uma falha da editora, no caso a EMI Music. É desta maneira que se convence as pessoas de que é mais vantajoso comprar um disco do que fazer download (ilegal) de música na internet?
Sobre o disco e de como surgiu a ideia de o gravar, diz-nos a própria Teresa Salgueiro: «Desde criança que gosto de ouvir o som da língua portuguesa na música brasileira e desde muito cedo admiro e sigo os seus intérpretes, autores e compositores. Desde muito cedo também, me aventuro a cantar algumas dessas canções, sobretudo em ocasiões informais, quando a alegria de um encontro entre amigos se cumpre cantando, visitando essa torrente de palavras, ritmos, melodias que a Música Popular Brasileira evoca, com uma liberdade, criatividade e poesia que parece não ter fim e sempre me conduz a momentos de vibrante felicidade. "Você e Eu" foi a primeira canção brasileira que cantei num palco. Durante uma das primeiras tournées do Madredeus no Brasil, convidávamos, em cada cidade que visitávamos, um percussionista que se juntava a nós e nos acompanhava na interpretação desse tema. Fiquei com uma memória muito feliz desses momentos e não hesitei em incluir esta canção no alinhamento do trabalho que agora apresentamos e em escolher o seu nome para anunciá-lo. "Você e Eu" simboliza aqui o encontro de uma cantora portuguesa com a música e os cantores brasileiros e a partilha, a comunicação através da música; mas acima de tudo, a consciência da nossa individualidade perante a individualidade do outro, a alegria do diálogo e a vontade de construção do encontro possível. Tudo começou em Janeiro de 2006. Faz agora exactamente um ano, chegava ao Brasil com a certeza de iniciar uma grande aventura. Aceitando o desafio que me fora lançado pelo produtor musical Roberto Bruzadin, o de gravar um disco de Música Brasileira, dirigi-me a São Paulo para conhecer o pianista e arranjador João Cristal, que ele sugeria como director musical do projecto. No nosso primeiro encontro, o João foi-me ouvindo cantar, para saber qual a direcção que poderia vir a ter o nosso trabalho. Fui lembrando as canções de que tanto gosto, visitando diferentes épocas e ritmos, passando pelo chorinho, o samba, o samba-canção, a bossa nova, guiada pela memória das melodias ou das palavras de autores como, entre tantos outros, Pixinguinha, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Carlos Lyra, Tom Jobim, Vinicius de Moraes ou Chico Buarque. Melodias que sempre me cativaram pela sua beleza e sofisticação, palavras que me encantam pelo poder das suas imagens e pela forma de evocar com tanta simplicidade, sempre próxima da linguagem popular, a poesia da saudade e do amor. Ao fim de algumas horas, tínhamos seleccionado mais de vinte canções brasileiras, de autores das décadas de 30 a 70 e o João decidiu então começar a reunir uma pequena orquestra no seu estilo, no dia seguinte. Foi um grande prazer trabalhar em estúdio com o João Cristal e com todos os músicos. Eles guiaram-me ao interior do seu universo tão naturalmente musical, permitindo que eu o sentisse também como meu e fosse testemunha da extraordinária vitalidade e riqueza que é a experiência da música no Brasil.» (Teresa Salgueiro, 2007)
Em recensão crítica ao disco, escreve de Mário Lopes: «Dir-se-á que, tecnicamente, não é esta a estreia a solo de Teresa Salgueiro. Afinal já existe "Obrigado", a ela creditado. Esse álbum, compilação de duetos gravdos ao longo de 15 anos, é porém mais um retrato da sua versatilidade enquanto cantora que um verdadeiro álbum a solo – um mosaico de vozes e sons, com Teresa Salgueiro como personagem central, com a sua voz comno fio condutor de todo o percurso. "Você e Eu", inevitavelmente, é algo de diferente. Verdadeiramente álbum a solo, tem sabor a encontro, tem aparência de início de viagem. Teresa Salgueiro libertando o sotaque brasileiro no português que canta o samba e a bossa, Teresa Salgueiro viajando da Bahia ao Rio de Janeiro nas canções de Jobim, Ary Barroso, Vinicius de Moraes ou Dorival Caymmi – ora com a alegria festiva de uma Carmen Miranda com melhor voz (naturalmente), ora passeando com destreza pela MPB insuflada de jazz que Elis Regina transformou em marca pessoal. Gravado em São Paulo como Septeto de João Cristal, sobressai em "Você e Eu" uma luminosidade e uma graciosidade que faz com que este disco de versões do rico e muito versado cancioneiro brasileiro não seja apenas mais um. Contribui para isso a destreza da banda, que não se limita a acompanhar – prova disso, por exemplo, os momentos em que o excelente clarinete de Proveta não se coíbe de chamar a si o protagonismo num par de solos –, contribui para isso a forma como Teresa Salgueiro se entrega à interpretação de canções como "Na Baixa do Sapateiro" (onde sobressai a aura misteriosa da Bahia negra) e as clássicas "Felicidade" ou "A Banda", ou o modo como vemos entregar-se ao medley "O samba da minha terra / Saudade da Bahia" com uma alegria taõ efusiva quanto elegante. Teresa salgueiro não está a interpretar estas canções, está nestas canções – e é isso que faz desta estreia a solo/início de nova viagem mais que simplesmente uma belíssima voz homenageando uma das músicas mais homenageadas do planeta.» (Mário Lopes, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 23.03.2007)

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http://www.teresasalgueiro.net/


Viviane, de Viviane
(CD, Zona Música, 2007)



Finda a carreira dos Entre Aspas, grupo pelo qual se tornou conhecida, Viviane Parra iniciou a sua carreira a solo com o álbum "Amores Imperfeitos" (2005). E logo aí se revelou uma cantora a ser tomada a sério na cena musical portuguesa, pois em vez de continuar a trilhar a linha pop, leve e despretensiosa, dos Entre Aspas, Viviane apresentou um trabalho diferente e revelando uma postura estética mais exigente e de maior maturidade artística. E se isto era verdade para o surpreendente álbum de estreia, ainda o é mais para este trabalho discográfico que dá pelo título de "Viviane". Em formato acústico, o presente disco firma uma dialéctica enriquecedora entre as linguagens universais do fado, do tango – a guitarra portuguesa e o acordeão como notas dominantes – embalados por uma fragrância de "musette", inspirada nas suas memórias de adolescência passada França. «Este álbum é mais conciso, enquanto o primeiro apontava ainda para vários caminhos. "Amores Imperfeitos" foi importante para estabelecer um rumo, e foi o que aconteceu! Este segundo trabalho acaba por ser mais focalizado no fado, no tango, na música francesa. Não quer dizer que o meu primeiro álbum a solo já não apresentasse algumas destas características, mas a verdade é que o single escolhido ["A Vida Não Chega"] fugia a este universo e acabou por passar uma imagem pop. O fado é para ser sentido e para isso é preciso maturidade, tal como para o tango. São dois estilos que acabam por ser muito parecidos, no sentido em que fazem um apelo ao sentimento, à profundeza da alma e que dão muito gozo cantar. Têm algo de teatral e contêm uma mensagem que passa mesmo sem ser necessário perceber o que as letras dizem. É claro que o tango tem um tom mais irónico e sensual do que o fado, mas são dois universos que combinam muito bem. Depois há aqui também a música francesa, que esteve muito presente na minha infância e adolescência, o que resultou na junção de três grandes universos musicais. O desafio principal foi misturá-los, mas agradou-me o resultado final.» (entrevista a Filipe Antunes, in Barlavento Online, 25.05.2007). E embora sendo um álbum onde estão presentes sonoridades de origem não portuguesa, a língua usada como veículo expressivo é a de Camões, facto que deve ser realçado, ainda mais nos tempos que correm: «Juntei neste disco o tango, o fado e a "musette" francesa, mas tudo em português, sempre em português! Esta é a língua com que me identifico e tem sido uma opção minha. O português não é um bicho-de-sete-cabeças como alguns o pintam. Acho que é uma língua muito bela quando a conseguimos dominar». (ibidem).
Prova dessa louvável opção é também a atenção especial que Viviane presta no disco à poesia portuguesa. «Há um escritor olhanense que está presente desde o início da minha carreira, que é o Fernando Cabrita. Gosto imenso da escrita dele, porque o universo em que vivemos acaba por ter as mesmas características. É o Algarve, são as imagens que nós temos da luz e do mar... Para este trabalho, fui também buscar escritores como a Fátima Murta ou o Vasco Graça Moura, de quem escolhi um poema do livro "Letras de Um Fado Vulgar". Também recorri aos poemas do Luís Duarte, um escritor de origem portuense que reside no Algarve. A Rosa Alice Branco, uma escritora com uma linha muito feminina e clara, marca igualmente presença neste álbum. Além de todos estes nomes, o Zeca Medeiros é, pela segunda vez, meu convidado. Além da composição, cabe-lhe a autoria de dois temas.» (ibidem).
O álbum contém onze faixas, com a seguinte sequência: "Só o Sol" (Viviane), "Meu Coração Abandonado" (Fernando Cabrita / Viviane), "Confidências da Minha Rua" (Fátima Murta / Viviane), "Vou por Ruas, Vou por Praças" (Vasco Graça Moura / Viviane), "Serenata à Chuva" (Rosa Alice Branco / Viviane), "Estes Dias Sem Ti" (Viviane), "Fado Sete-Estrelo" (José Medeiros), "Fado Nómada" (Luís Duarte / Viviane e Tó Viegas), "Nesta Viagem Breve" (Luís Duarte / Viviane e Tó Viegas), "Valsinha da Lanterna Mágica" (José Medeiros) e "Em Paris" (instrumental, Viviane).
A produção musical foi assegurada por Tó Viegas e pela própria Viviane, sendo a execução instrumental assinada por Viviane (flauta), Tó Viegas (guitarra portuguesa, guitarra acústica), Rui Freire (bateria), Yuri Daniel (contrabaixo), Luís Simões (baixo acústico), Paulo Borges (acordeão, piano), Celina da Piedade (acordeão), Nelson Conceição (acordeão), Raimundo Seixas (guitarra portuguesa) e Miguel Drago (guitarra portuguesa).
A propósito do disco, Maria Ramos Silva escreveu: «Perfeitos porque simples – os lugares e momentos onde a felicidade nos bateu à porta, leito da esperança, da nostalgia e da sede de viver mais. Viviane repesca-os no novo álbum de originais, homónimo, onde a guitarra portuguesa que alumia o fado encontra o fulgor do tango para contar em canto memórias da adolescência. A voz que já não vem "Entre Aspas", porque todos a conhecem, vai de Portugal à Argentina e mistura na bagagem a inconstância de uma fase aos solavancos. Os amores e desamores, os altos e baixos que ensinam a acarinhar a poesia dos pequenos nadas. De "Só o Sol" a "Serenata à Chuva", a alma não é pequena e encontra par para reproduzir o compasso. É assim a Primavera em flor.» (Maria Ramos Silva, in "Correio da Manhã": revista "Domingo", 15.04.2007).

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http://www.myspace.com/vivianeparra
http://www.youtube.com/vivianeparra


Geografias, de Júlio Pereira
(CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)



Seguindo-se a "Faz-de-Conta" (2003), um disco para crianças, Júlio Pereira publica "Geografias", com chancela conjunta da Som Livre e da Valentim de Carvalho. O álbum é apresentado numa luxuosa edição em digipack, sendo cada um dos temas ilustrados com pinturas de Salomé Nascimento propositadamente criadas para o disco. Com produção do próprio Júlio Pereira, "Geografias" é composto por onze temas, com a seguinte sequência: "Faro Luso" (dedicado a Carlos do Carmo), "Santa Moura" (dedicado a João Lucas), "Colares de Luz", "Areias de Sal", "Tábua de Romãs", "Castelo Ansião", "Porta do Oriente", "Alvor Bencanta", "Torre Formosa" "Tua Baía" e "Pisa Fronteira". No disco, Júlio Pereira toca bandolim, bouzouki e sintetizadores e conta ainda com a colaboração de Miguel Veras (viola acústica), Bernardo Couto (guitarra portuguesa), Miguel Peixoto (percussão), Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias (vozes) e ainda de Quico Serrano (programação, mistura e masterização).
«Basicamente, o disco foi centrado no bandolim", diz Júlio Pereira. "Todos os temas são de facto provenientes da minha ligação a esse instrumento." Mas não fez como habitualmente: "Em quase todos os meus discos, como sou multi-instrumentista, acabei por tocar quase tudo. Agora, pela primeira vez na vida, toco acompanhado por outros. Na maioria dos temas, fui acompanhado pelo Miguel Veras, que toca violas. E isto é já um processo de composição diferente, porque eu nunca tinha composto à frente de ninguém." Ensaiaram os dois, horas a fio, e gravaram tudo. "O aparelho que me acompanhou foi o ‘deck’ de cassetes, que já não era ligado há anos." Mas não ficaram por aí: "Depois apareceu o Bernardo Couto, que toca guitarra portuguesa. Foi a primeira vez que um músico desta área [fado] disse que gostava de tocar comigo. Nunca houve um disco em que se ouvisse bandolim e guitarra juntos, de algum modo similares, de corda dupla, e foi preciso algum tempo para fazer um arranjo de modo a que os instrumentos casassem bem sem se atropelarem." E, como outros discos, também há vozes, em alguns temas. Desta vez, Sara Tavares, Marisa Pinto e Isabel Dias. "Sempre gostei da voz humana como instrumento. E nestes temas senti desde o princípio que tinham de ter uma voz. Elas são óptimas e rápidas a perceber o que se quer." Júlio Pereira toca também, no disco, um bouzouki irlandês. "Aparece em três temas. Uma vez passei por casa de um amigo, na Galiza, e achei tanta graça ao bouzouki que o pedi emprestado. Gosto dele, pego-lhe de vez em quando. O bouzouki, originalmente, é da Grécia. Quando é adoptado pelos irlandeses é como se fosse uma espécie de bandola, um bandolim maior. A afinação é a mesma."
Antes de gravar, não houve pesquisa nem de músicas nem de nomes. Os cruzamentos e as lembranças sonoras foram acontecendo naturalmente. "Faro Luso", por exemplo, tem "três andamentos": "Como se passasse pelo fado de Lisboa e pela chula do Minho e fosse acabar no corridinho do Algarve." "Santa Moura", por sua vez, "é muito palaciana no princípio e depois vai para o Sul e o Norte. Ouve-se uma mulher tipicamente árabe que é respondida por uma mulher do Alto Minho, com sotaque minhoto. Muita gente não sabe, mas houve colónias árabes no Minho." E em "Colares de Luz", o bandolim "passa por um ritmo precursor das mazurcas e das polcas, que é o das quadrilhas. No fundo são levadas pelos irlandeses para os States e encontram-se em variadíssimos sítios do mundo." Música europeia, africana mas também oriental. "Nunca tinha ido ao Oriente em nenhum disco, até agora. Escrevi um tema a que chamei ‘Macau’, agora chamado definitivamente ‘Porta do Oriente’, mas fui lá parar não sei porquê. É claro que estive no Oriente, em Macau, mas acabou por surgir naturalmente, como uma lembrança." O penúltimo tema do disco, "Pisa Fronteira", pisa mesmo uma fronteira: "Chamava-se ‘Caravana’ e é o primeiro tema, de todos os que fiz desde que sou músico, onde passo pelos States."» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 22.06.2007).
Em recensão crítica ao disco, assim disserta Nuno Pacheco: «O nome é um pretexto mas a música fez-lhe a vontade. Depois de discos dedicados a um só instrumento ("Cavaquinho", "Braguesa", "O Meu Bandolim") e outros à recriação de tradições populares ("Cadói", "Os Sete Instrumentos", "Miradouro" e, num certo sentido, "Rituais", mais dado a transversalidades), Júlio Pereira dá novo protagonismo às cordas reduzindo os holofotes das demais companhias (vozes, percussões, sintetizadores). Juntou bandolim e bouzouki celta, ambos tocados por ele, à viola acústica de Miguel Veras e à guitarra portuguesa de Bernardo Couto, e partiu sem rumo certo por entre fados e polkas, madrigais e mazurkas, viras e chulas, jigs e reel’s celtas, sons de Áfricas e Orientes. Os nomes, do disco e das canções, selam essa errância num jogo de palavras nascidas de lugares, mas é difícil fixar-lhes fronteiras, talvez como excepções óbvias como "Porta do Oriente", que soa como parece. O resto são sons inquietos e mágicos, mais reflexivos ou dados à dança. "Na viagem, ser o mesmo e o outro. Estrangeiro em todos os lu(g)ares", escreve João Luís Oliva, como pista. Pode não ser nova, mas tem aqui o prazer da aventura.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 22.06.2007).

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http://www.myspace.com/juliopereira
http://www.myspace.com/geografias


Mudar de Bina, de Norberto Lobo
(CD, Bor Land, 2007)



Uma das grandes revelações de 2007 chama-se Norberto Lobo, que nos apresenta um álbum exclusivamente composto por temas instrumentais tocados na sua guitarra clássica. Intitula-se "Mudar de Bina" (bina é um termo da gíria que significa bicicleta), paráfrase de "Mudar de Vida", tema de Carlos Paredes, um músico que Norberto muito admira, e a quem dedica o disco. No entanto, e ao contrário do que à primeira vista possa parecer, não estamos propriamente em face de uma colecção de versões de temas de Carlos Paredes em guitarra clássica, a exemplo do que fez Pedro Jóia ("Variações Sobre Carlos Paredes", 2001).
Citando Mário Lopes, «o que torna Norberto Lobo especial não é John Fahey [músico folk norte-americano], que tantos apontam como referência, não é apenas ouvirmos alguém que traduz em seis cordas esta ideia de "portugalidade" que se define pela nostalgia e que se explicaria, em imagem, pela luz difusa do crepúsculo que, reflectida pelo Tejo, cai sobre Lisboa. Norberto Lobo e as suas canções tradicionais recontextualizadas e enxertadas de novas linguagens, o seu fado que não é fado – é a ideia de fado -, o seu blues que é calçada portuguesa e fogo fátuo de um Mississipi imaginado. Isto é o que torna Norberto Lobo especial: a sua música é um rio em que se descobrem continuamente novos afluentes.» (in "Público": Suplemento "Ípsilon", 02.11.2007). E a música tradicional portuguesa também marca presença no disco – "Cantiga da Ceifa" e "Ó Ribeira" –, mas tal aconteceu de uma forma perfeitamente natural, não forçada. "Talvez a guitarra solo me tenha permitido essa procura. Ir às raízes, às ideias que mais imediatamente me tocam e que não são intelectualizáveis. Talvez estivesse inconscientemente à procura de algo que me soubesse bem tocar e, nessa altura, acabei por ir buscar o cancioneiro tradicional português", explica o músico.
«"Mudar de Bina" é um disco especial. Pela forma como se impõe perante nós quando ouvimos nada mais que a a guitarra clássica, instrumento tão explorado. Pela forma como em cada tema leva diferentes linguagens a coexistirem em harmonia – "Lottumstr" é Paredes a bailar na pradaria americana; "Festa da Fim da Folque" são fantasmas da bossa nova dançando no nevoeiro. A segurança, a mestria, a naturalidade com que consegue estas sínteses, a forma como a música é lúdica e festiva, mas dona de uma solene majestade, impressiona. Ouvindo "Mudar de Bina" imaginamo-lo como resultado de uma longa depuração de uma linguagem. Filho de um são-tomense e de uma portuguesa, Norberto Lobo cresceu num caleidoscópio que incluía a música brasileira e africana que o pai adora e a discoteca caseira do irmão mais velho, Manuel Lobo – colecção recheada de heróis sagrados e cultos subterrâneos do rock e do jazz. A "escola" teve os seus efeitos. No recreio da primária ouvia Leonard Cohen em "repeat". Anos depois, animava serões com um conhecimento enciclopédico de música brasileira. Música tradicional portuguesa? Nada de procura obsessiva: "Quando era puto passava o Verão em acampamentos e as primeiras músicas que aprendi foram músicas tradicionais portuguesas. Essas e o "Losing My Religion", dos R.E.M." O resto? O resto é Lisboa, cidade em viagem, e a viagem ela mesma. Guitarra às costas que o mundo está à espera. Na Grécia cruzou-se com um tocador de bouzouki e acabou a partilhar o palco da rua e palcos, mesmo palcos. Mais recentemente começou uma digressão pelos EUA tocando com a "folkie" Larkie Grimm e, quando deu por ele, estava no Canadá a abrir para Lassa. Há dois anos, um amigo apresentou-o a Devendra Banhart e a empatia traduziu-se na sua participação nos concertos do bardo psicadélico no Sudoeste e, mais tarde, na Aula Magna. Tem alma de saltimbanco. Quer tocar não interessa onde, quer viajar e o destino será sempre aliciante. Nos concertos ouvimos alguém que aborda Carlos Paredes com todo o carinho e seriedade do mundo: "Tomou um caminho tão particular que não deixou escola. Ou melhor deixou-a mas não no sentido habitual. A sua escola persiste em toda a gente que, como eu, adora a sua música. Toda a música popular urbana, como gostava de lhe chamar, está infectada por ele de maneira muito forte. É nesse sentido que deixou escola." Para capa de "Mudar de Bina", que é autodidacta na guitarra e tem formação de ilustrador, escolheu um quadro de João Abel Manta. Amigo da neta do artista, conhecia desde sempre de uma parede da casa dela. Poderá não ter sido intencional, mas o quadro é exemplar na forma como nele se reflecte a música de Norberto Lobo. Vêem-se indianos, europeus e africanos, vê-se selva e mar, vê-se progresso nos aviões e nos arranha-céus e pedaços de um mundo mágico anterior a tudo isso. Norberto Lobo pegou em todo o mundo que viu e ouviu e, filtrado pela luz que desce sobre as seis colinas que a Graça revela, fez dessa imagem um álbum. Chama-se "Mudar de Bina" e é magnífico.» (Mário Lopes, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 02.11.2007)
Produzido por Rodrigo Cardoso, "Mudar de Bina" contém dez temas: "Morte da Bezerra", "Mudar de Bina", "Lottumstr", "Cantiga da Ceifa", "Ó Ribeira", "Fonte Santa", "Jogo do Bicho", "Mudar de Vida", "Festa do Fim da Folque" e "Laura".
Em recensão crítica ao disco, assim dissertou Pedro Rios: «O primeiro disco de Norberto Lobo, guitarrista com apenas 25 anos, é um dos episódios mais interessantes a acontecer nos últimos tempos em Portugal no que à guitarra solo diz respeito. "Mudar de Bina" é particularmente importante pela capacidade de cruzamento de abordagens (e públicos), vertidas numa voz única, mas com influências bem identificadas: Carlos Paredes (a quem dedica o disco) e o "fingerpicking" de John Fahey e restante escola Takoma, recentemente alvo de revisão por parte de gente como Jack Rose, Glenn Jones e James Blackshaw – se o mundo da música independente não fosse tão alglo-saxónico, seria muito ptrovável que Lobo se juntasse a este valioso lote de músicos. "Mudar de Bina", "gravado em casa, na rua e no estúdio", é um disco maior, tocado quase inteiramente à guitarra acústica. Lobo cruza a tradição portuguesa (o tema popular "Cantiga da Ceifa", por exemplo, é revisto à luz de Fahey) e a profundidade de Paredes (a versão de "Mudar de Vida" é o ponto alto do disco) com os ziguezagues da folk instrumental. No eixo Takoma, destaque para "Jogo do Bicho", a transpirar América, e as múltiplas frases de guitarra que Lobo justapõe em "Laura", com direito a gravações de sinos e de pavões que habitam o Palácio de Cristal, no Porto. Norberto Lobo rejeita o título de "virtuoso", mas é admirável a forma como une diferentes formas de música popular (músicas folk, no fim de contas). O curioso aportuguesamento no título do tema "Festa do fim da folque" representa bem a pessoalíssima visão da folk de Norbeto Lobo.» (Pedro Rios, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 26.10.2007).

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À Espera de Armandinho, de Pedro Jóia
(CD, HM Música, 2007)



Animado pela grata experiência que foi o álbum "Variações sobre Carlos Paredes" (BMG, 2001), Pedro Jóia decidiu abordar, com a sua guitarra clássica, a obra de outro grande vulto da guitarra portuguesa, de seu nome Armando Augusto Freire (1891-1946), mais conhecido como Armandinho. O disco chama-se "À Espera de Armandinho" e tem a chancela da HM Música (etiqueta do fadista Hélder Moutinho), sendo que o trabalho de investigação e gravação teve o alto patrocínio da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), sob a direcção de Manuel Freire.
São doze as músicas que compõem o álbum: "Ciganita", "Variações em Lá menor", "Meditando", "Variações em Lá menor II", "Fado Armandinho", "Fado Magioli", "Fado Conde de Anadia", "Variações em Mi menor", "Variações em Ré maior", "Fado em Mi menor", "Maldito Fado" (música original de Pedro Jóia) e "Pinóia de Alfama".
Para Pedro Jóia, tocador de guitarra clássica e com um início de carreira próximo do flamenco [de que são bons testemunhos os álbuns "Guadiano" (1996) e "Sueste" (1999)], Armandinho "era uma referência um pouco longínqua". "Conhecia era alguns guitarristas de Lisboa que me tinham falado dele", confessa o músico, em entrevista concedida a Nuno Pacheco (in "Público": Suplemento "Ípsilon", 28.09.2007). Até que o seu amigo e letrista Tiago Torres da Silva lhe fez chegar às mãos uns discos da His Mater’s Voice, com gravações do próprio Armandinho, realizadas no Teatro de São Luiz em 1928/29. "Mergulhei de cabeça. Tirei um tema, por experiência, fiquei contente com o resultado e a partir daí fiz uma selecção dos temas mais guitarrísticos. O principal desafio, para mim, era conseguir dentro do possível captar a ornamentação que o Armandinho dava, os trinadinhos, aquelas notinhas enroladas que ele conseguia dar através de diversos tipos de trémulo. Porque um trémulo convencional de guitarra clássica não resolve essa questão. Tive que experimentar muita coisa." (ibidem). E depois havia ainda que dar conta da viola do acompanhador de Armandinho, Georgino de Sousa. "Trata-se, no fundo, de condensar dois instrumentos num só, apesar de nunca ser a mesma coisa: a viola de Georgino de Sousa, ritmada, staccato, harmónica, com a melodia muito fluente e levezinho do Armandinho, nunca coincidindo verticalmente." (ibidem). Na gravação do disco, Pedro Jóia usou uma nova guitarra especialmente concebida para ele por Óscar Cardozo. É o próprio guitarreiro quem conta: "Misturei no mesmo instrumento traços da guitarra portuguesa, da guitarra clássica e do alaúde. O som que ele iria produzir só poderia ter o timbre dos vários instrumentos. Acabada a obra e quando lhe tirei o som, percebi imediatamente que a guitarra tinha a personalidade do Pedro Jóia. [...] Ficou apaixonado e decidiu gravar o disco com a nova guitarra. O resultado está à vista." (entrevista a Alexandra Carita, in "Expresso": Suplemento "Actual", 27.10.2007)
O trabalho era, à partida, hercúleo mas Pedro Jóia não só soube dar conta do recado, como o fez de forma brilhante e sublime. Obra fabulosa e cativante, "À Espera de Armandinho" é a demonstração perfeita do virtuosismo de um exímio instrumentista ao serviço da expressividade encantatória que é timbre da grande música. Como diz Tiago Torres da Silva, no folheto que acompanha o disco, «Pedro Jóia apresenta-nos aqui um trabalho de ourivesaria raro e muito belo. Um trabalho em que humildemente se afirma como um artesão do seu oficio. Destacando-se aqui o harpejo da guitarra, mais à frente a batida da viola, da extraordinária viola de Georgino de Sousa e, sintetizando no seu instrumento o trabalho do guitarra e do viola. É admirável. Absolutamente admirável. Tão admirável que parece mentira que tudo o que está tocado neste disco seja tocado em simultâneo. Há apenas um guitarrista e a sua guitarra. E isso é já tanto!»
Cita-se também, com a devida vénia ao autor, um belo texto do musicólogo Rui Vieira Nery que, antes de fazer o justo enaltecimento do soberbo trabalho de Pedro Jóia, nos caracteriza a arte (já temporalmente distante) de Armandinho: «Como se pode tocar Astor Piazolla noutro instrumento que não seja o bandoneon? Poderá o piano alguma vez substituir a viola de Flamenco na música de Paco de Lucia? Será que os solos imponentes de Benny Goodman soariam tão convincentes se fossem transpostos do clarinete para o violino, ou para o saxofone tenor? É tentador considerar que certos músicos são, efectivamente, inseparáveis do instrumento específico que transformaram no veículo constante e ideal da sua arte. E se isso é verdade, então Armando Augusto Freire (1891-1946) pareceria corresponder inteiramente a esta definição: poderão as composições de Armandinho sobreviver num ambiente sonoro que não seja o da guitarra portuguesa, para a qual foram sempre magistralmente concebidas?
Armandinho não sabia ler ou escrever notação musical, e por isso compunha sempre à guitarra, inteiramente de ouvido, frase a frase, período a período, como se estivesse a arrancar ideias musicais do próprio coração do instrumento, umas atrás das outras, e a organizá-las em longos encadeamentos expressivos, sem grande preocupação com qualquer regra formal académica. Meu pai, Raul Nery, que como um jovem guitarrista de dezoito anos tocava a seu lado na popular casa de fado "O Retiro da Severa", no final dos anos 1930, servia por vezes de auxiliar de memória ao mestre mais velho: quando ainda era cedo para a chegada dos primeiros clientes, Armando pedia-lhe que lhe tocasse os fragmentos melódicos que ele próprio criara numa sessão anterior e que Nery memorizara, e a partir daí continuava a improvisar novas ideias musicais que seriam depois encadeadas no material pré-existente até se completar pouco a pouco, deste modo, um novo fado ou uma variação.
Amava com paixão a guitarra portuguesa e tinha uma clara premonição do que considerava ser o potencial absoluto, ainda por realizar, do instrumento. Trabalhou, pois, longamente e de muito perto com o guitarreiro João Pedro Grácio Jr., a quem pedia sempre novos avanços na construção técnica, no desenho e na escolha dos materiais. No final dos anos 30, o resultado desta pesquisa era já um novo arquétipo da guitarra de Lisboa, maior e mais sonora do que as suas antecessoras oitocentistas mas também bastante distinta do modelo que resultara, mais ou menos ao mesmo tempo, de uma colaboração semelhante entre Grácio e o equivalente coimbrão de Armandinho, Artur Paredes. Longe de qualquer rivalidade, existia entre os dois grandes artistas um sentimento sincero de admiração mutual, e sabe-se que Paredes terá prestado a Armando Freire uma belíssima homenagem póstuma: "Era uma renda tudo o que este homem tocava".

Tinha um especial talento para a inspiração melódica generosa, tanto quando compunha para o seu instrumento como quando escrevia para a voz, e ornamentava livremente as suas melodias com trémulos e mordentes graciosos e improvisados, por vezes ligeiramente evocativos da técnica do bandolim, instrumento que tocara em criança antes de dedicar à guitarra portuguesa. Além disso definiu um número limitado de fórmulas melódicas de transição que inseria na forma sistemática entre as frases da melodia principal, preenchendo assim todos os momentos de silêncio com um constante impulso rítmico. Embora tenha tocado com vários acompanhadores, tinha um especial entendimento com Georgino de Sousa, que sabia exactamente como lhe podia dar o suporte mais eficaz na viola.
Por tudo isto, Pedro Jóia enfrentava no presente projecto um desafio de extrema dificuldade, ao decidir transpor para o seu instrumento, a viola de Flamenco, a música eminentemente guitarrística de Armandinho. Era indispensável deixar bem claro para o ouvinte, logo desde o início, que se tratava, com efeito, de um instrumento distinto, a utilizar todos os seus recursos próprios, mas a clareza de articulação, a delicadeza do desenho melódico, a poderosa energia rítmica, o uso característico do rubato – todos eles tão típicos do estilo de execução de Armandinho – teriam de ser preservados a todo o custo, se se pretendia respeitar e pôr em evidência o encanto essencial desta música. Pedro Jóia, contudo, já se tinha debatido com um desafio semelhante ao abordar a música de outro grande virtuoso e compositor da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, e tinha conseguido ultrapassar todos esses obstáculos com enorme sucesso. Agora volta a consegui-lo: as melodias de Armando Freire chegam-nos com um lirismo, uma beleza de timbre e uma fluência no fraseado musical que são profundamente comoventes – e isto muito em particular pelo respeito apaixonado pela letra e pelo espírito dos originais que se pressente na abordagem do jovem músico, bem como pela simplicidade e transparência extremas destas novas versões estritamente solísticas, em que um único executante assegura tanto a melodia como o acompanhamento, e tanto a cantilena principal como as ligações ornamentais características entre as frases melódicas.
Passado e presente, tradição e inovação, com um olhar como o de Janus capaz de olhar para trás e para diante, a par com um espantoso investimento emocional, combinam-se assim neste projecto para produzir um álbum muito belo, cheio de encanto, intimismo e generosidade.» (Rui Vieira Nery, 2007)

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Nas Veias de Uma Guitarra: Tributo a Fernando Alvim, de Ricardo Parreira
(CD, HM Música, 2007)



«Ricardo Parreira, vinte anos, o mais novo de uma linhagem de guitarristas (é filho de António Parreira e irmão de Paulo Parreira), cresceu fascinado por Carlos Paredes. E atento à sonoridade do homem que tocou com ele durante 25 anos e participou em todos os seus discos, acompanhando-o à viola: Fernando Alvim. Em 2003, estava Ricardo no Conservatório, Alvim apareceu por lá, para tocar com os alunos. Conheceram-se. Mais tarde, em Agosto de 2005, surgiu a oportunidade de tocarem juntos numa sessão de guitarradas que antecedeu um concerto de Camané na Casa da Música, no Porto. Hélder Moutinho, também fadista e produtor do espectáculo, fez a sugestão a Pedro Burmester que achou que achou a ideia "genial". Ricardo, por sua vez, achou "bestial". E Fernando, hoje com 72 anos, sentiu-se "muito honrado com a proposta" e aceitou. "Deu-me muito incentivo tirar os acompanhamentos que fiz há tantos anos, coisas que já não tocava há muito tempo. Além disso, fazê-lo com alguém da nova geração dá-me uma sensação de regresso ao passado. E o Ricardo tem muito talento, consegue ter garra a tocar as coisas". Depois do concerto, a 12 de Agosto, Fernando convidou Ricardo a ir lá a casa quando quisesse. "Escolhíamos os temas e ele ia-me dando opiniões sobre como devia tocar as peças", diz o jovem guitarrista. O disco, "Nas Veias de Uma Guitarra", foi o passo seguinte. Levou dois anos a preparar e quatro tardes a gravar. Escolheram um repertório misto, parte de Coimbra (Artur Paredes, Carlos Paredes), parte de Lisboa (Armandinho, José Nunes, Francisco Carvalhinho). Fernando Alvim incluiu também um tema de sua autoria, "Encantamento". "Dediquei-o, há muitos anos a uma amiga minha, a Maria do Rosário, que hoje é a minha companheira. Como ela também toca guitarra clássica, achei interessante que ela também entrasse no disco. O arranjo foi feito pelos dois, ela toca a primeira guitarra [viola] e eu toco o acompanhamento."
Para Ricardo, "foi um sonho realizado: tocar com o músico que tocou com o meu compositor preferido e que também compôs com ele." Para Fernando Alvim, foi uma espécie de renascimento. Ele, que nunca deixou de tocar, sentiu um grande prazer em voltar a um reportório que muito o marcou e onde ele deixou também a sua marca. "Procurei imprimir aos acompanhamentos que fazia algumas harmonias que, para a época, achei que eram um bocadinho avançadas. Com o Carlos Paredes, por exemplo." Isto porque Alvim era também, e ainda é, um ouvinte atento e interessado de jazz e de música clássica. "Desde sempre fui um grande admirador de jazz e aquelas harmonias entraram-me muito na cabeça." O facto de ser acompanhador e não solista deve-se a gostar "muito da parte harmónica, dos acordes. Sempre tive uma grande admiração por aquele guitarrista do Count Basie, o Freddie Green. Fascinava-me." Fernando Alvim que trabalhou na Petrogal, de 1961 a 1985, participou em mais de meia centena de discos, uns em nome próprio (do Conjunto de Guitarras de Fernando Alvim), em todos os de Carlos Paredes [nos últimos, a meias com Luísa Amaro] e em gravações de nomes tão diversos como o Duo Ouro Negro, Teresa Paula de Brito, João Maria Tudella, Manuel Freire, Carlos do Carmo, Pedro Caldeira Cabral, Francisco Fanhais, Mísia ou os Sitiados. Com Amália, gravou "Formiga Bossa Nova", de O’Neill e Oulman, "porque na altura os violas de fado não sabiam acompanhar bossa nova" e ele não só sabia, porque aprendera, como gostava muito. Nos dois primeiros EP de Carlos Paredes (1962 e 1963), o nome de Fernando Alvim aparecia com destaque na capa. "Naquela altura eu era quase tão conhecido como o Carlos Paredes porque tocava na Emissora Nacional, no programa ‘Nova Onda’ e em programas de fados e guitarradas." Mas não é hábito dar-se destaque aos violistas, como reconhece Ricardo Parreira: "Fiz uma homenagem a um violista e ainda não tinha sido feita nenhuma. São eles que nos aturam, fazem tudo por nós mas não são devidamente valorizados." Alvim aprecia o gesto, lamentando que nestes anos se tenham esquecido "milhentos óptimos acompanhadores, como o Martinho da Assunção ou o Paquito."» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 28.09.2007).
Dos doze temas do álbum, seis foram extraídos do repertório de Carlos Paredes: "Canto do Rio / Acção", "Dança da Aldeia", "Valsa Palaciana", "Serenata", "Divertimento" e "Canção de Alcipe", este sobre música original de Afonso Correia Leite. Os restantes quatro são de Artur Paredes ("Variações em Lá Menor"), Armandinho ("Meditando"), José Nunes ("Variações em Lá Menor", "Variações em Mi Maior"), Francisco Carvalhinho ("Variações no Mouraria") e Fernando Alvim ("Encantamento").
"Nas Veias de Uma Guitarra": um belíssimo disco de música portuguesa e a extraordinária revelação de um virtuoso (apesar de muito jovem) executante da guitarra portuguesa.
Em recensão crítica ao CD, Nuno Pacheco escreve: «Ouvindo os originais a par das recriações, fica a prova de que Ricardo quis respeitar os autores mas não copiá-los; pelo seu fraseado procura distinguir-se por uma austera delicadeza e até recolhimento, o que não lhe tira mérito ou brilho (isso é claro, por exemplo, ao comparar-se a "Serenata" de Paredes, efusiva e arrepiante, com a que Ricardo recriou. Já Alvim, na segura malha de graves que ao lado da guitarra se escuta, mantém na viola a linguagem brilhante que sempre o caracterizou. Tributo a Alvim, este disco é também a estreia de um promissor guitarrista e a prova de que a arte pode aproximar gerações». (ibidem).

URL: http://www.hmmusica.com/artistas.htm#ricparrf

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A Música e a Guitarra: Clube de Fado, de Mário Pacheco
(CD/DVD, World Connection, 2006)



«Na primeira noite, houve nervos e vento. Na segunda, deu-se uma espécie de milagre. Não só tudo correu bem, entre músicos e cantores, como ficou integralmente gravado, em vídeo e áudio. Mário Pacheco, guitarrista e compositor, imerso desde a infância no fado lisboeta (o seu pai António era aquele guitarrista a quem Hermínia Silva dizia "Anda Pacheco!", recorda as noites de 19 e 21 de Junho de 2005, nos Jardins do Palácio de Queluz, como um momento mágico. Convidado pelo Festival A Rota dos Monumentos a fazer um espectáculo dedicado à guitarra, baseou-se nas suas próprias composições. "Nunca tinha feito um espectáculo com aquela duração, duas horas, e tantos instrumentos pelo meio", diz. Mas aceitou o desafio e convidou músicos e fadistas seus amigos. A fita registada pela Duvídeo a pedido dele, ficou a aguardar a oportunidade certa. Chegou uma noite, em casa de Marisa, uma das fadistas para quem Mário Pacheco compõe (a sua carreira regista outros: Amália, Mísia, Nuno da Câmara Pereira, Paulo Bragança, Ana Sofia Varela ou Joana Amendoeira). "O Albert Nijmolen, da etiqueta World Connection, para onde grava a Mariza, estava em casa dela e ela mostrou-lhe a gravação. ‘Olha queres ver aqui um espectáculo do Mário?’ No final, ele pediu uma cópia e levou-a. Passadas duas semanas, telefonou e disse-me: eu quero isto". Mas, em lugar de ser editado apenas em DVD, o projecto passou a integrar um CD e um DVD, em digipack duplo, o primeiro com 17 temas e o segundo com 23, ou seja, o espectáculo integral. Neste caso, o bónus (DVD) é maior do que o disco: quase duas horas contra 70 minutos. Foi este disco, "A Música e a Guitarra", que a revista britânica "Songlines" elegeu como um dos dez melhores álbuns de "world music" recém-editados.
Nascido em Lisboa, a 9 de Abril de 1953, Mário Pacheco começou a tocar viola aos 15 anos, quando andava no liceu: "Toquei viola até há dezoito anos [1989]. Tive a oportunidade de tocar com muitos bons fadistas. Do Marceneiro à Hermínia, acho que não houve nenhum que eu não tivesse conhecido. O primeiro instrumental que compus, que neste disco tem o nome de "Voando no meu tapete", chamava-se "Uma guitarra e uma viola" e foi gravado pela primeira vez, não comigo a tocar guitarra mas sim viola, num disco do Paulo de Carvalho, "Desculpem Qualquer Coisinha [1985]". Mas houve uma altura em que a guitarra falou mais alto. "Disse: acabou-se a viola. Mandei fazer uma guitarra ao Gilberto Grácio, para mim, e decidi aproximar-me da técnica do Carlos Paredes. Não consigo ter o talento dele, aliás só toquei os instrumentais dele como exercício, para mim, mas nos contactos que tivemos ele incentivou-me a continuar. Depois abordei o fado na forma do Fontes Rocha." Editou o primeiro disco como guitarrista, em 1992, "Um Outro Olhar", que teve sequência em "Guitarras do Fado", "Cantar Amália" e "Guitarra Portuguesa". [...] Voltando ao novo disco: o subtítulo, "Clube de Fado", não tencionava colar-se à casa de fados de que é proprietário em Alfama (onde decorreu a conversa) mas sim dar voz a uma ideia: "Clube, para mim, é um local onde pessoas que partilham os mesmos gostos se reúnem. E o disco tem o mesmo espírito desta casa. Os músicos que convidei, o Carlos Manuel Proença e o Rodrigo Serrão, colaboram comigo há muitos anos e são extraordinários instrumentistas; a Marta Pereira da Costa, que é a única mulher em Lisboa a tocar guitarra portuguesa; e o Arlindo Silva, do Porto, que trouxe um quarteto de cordas." E para cantar? "O Rodrigo Costa Félix e o Camané são amigos de longa data; a Mariza é amiga de mais curta data mas teve uma importância fundamental, não só pela qualidade musical que deu ao espectáculo como por todo o apoio e empenhamento. Cada vez estou mais feliz por ser amigo dela; e a Ana Sofia Varela conheço-a desde que ela veio para Lisboa, fico felicíssimo a ouvi-la."» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 07.09.2007).
O CD "A Música e a Guitarra" é composto por dezassete temas, todos com música de Mário Pacheco: "Um Outro Olhar", "Canto da Sereia Encantada", "Soneto da Fidelidade" (letra de Vinicius de Moraes; voz de Rodrigo Costa Félix), "Asa no Espaço" (letra de Fernanda de Castro; voz de Rodrigo Costa Felix), "Variações em Ré", "Variações em Mi", "Rosa Nocturna" (letra de Vasco Graça Moura; voz de Ana Sofia Varela), "Vivendo Sem Mim" (letra de Amália Rodrigues; voz de Ana Sofia Varela), "Para Carlos Paredes", "Para Fontes Rocha", "Maré Viva" (letra de Rosa Lobato Faria; voz de Camané), "Das Cinco às Sete" (letra de Rosa Lobato Faria; voz de Camané), "Voando no Meu Tapete", "Há Uma Música do Povo" (poema de Fernando Pessoa; voz de Mariza), "Cavaleiro Monge" (poema de Fernando Pessoa; voz de Mariza), "Despertar na Cidade" e "Além-Terra".
Em recensão crítica ao disco, escreve Nuno Pacheco: «Se o guitarrista e compositor Mário Pacheco precisava de um disco que o traduzisse por inteiro, acertou. "A Música e a Guitarra", sendo um registo ao vivo de um espectáculo de 2005, abarca todas as suas facetas: autor, solista, acompanhante. Mais: revela-as não só aplicadas às suas próprias composições (toda a música do disco foi por ele escrita, desde os instrumentais aos fados, aqui cantados por Rodrigo Costa Félix, Ana Sofia Varela, Camané e Mariza) como também na forma como aborda a guitarra quando as interpreta. E se as contribuições dos fadistas são, em geral, inspiradas e sedutoras, é nos instrumentais que Mário Pacheco melhor expõe a sua "linguagem" musical: oiçam-se as "Variações", dos tempos lentos até aos arpejos mais eloquentes, ou os temas delicados a Carlos Paredes e Fontes Rocha, onde as abordagens, em síntese, das sonoridades coimbrãs e lisboetas revelam o estilo e a alma do guitarrista Mário Pacheco.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 07.09.2007).

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Minha Alma de Amor Sedenta, de António dos Santos
(CD, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)



Nascido em Lisboa no ano de 1919, António dos Santos nunca ultrapassou um estatuto de popularidade de culto, muito relacionado com a sua aversão à promoção e com a sua abordagem quase diletante do canto. Inicialmente fadista jocoso, género que abraçou no início de carreira aos 15 anos, a sua música derivaria lentamente para um parente lisboeta, nostálgico e dolente, da balada coimbrã, numa presciente antecipação de um estilo que nos anos sessenta se tornaria importantíssimo. Proprietário de uma casa típica em Alfama, "O Cantinho do António", onde actuava para clientes e amigos, acompanhando-se a si próprio à viola, António dos Santos gravou muito pouco: apenas três discos (em 1964, 1965 e 1968). Faleceu em 1993 e não deixou seguidores do seu estilo inconfundível. Além do público anónimo, foi também admirado por muitos dos seus pares, entre os quais Alfredo Marceneiro e Georges Moustaki.
Esta compilação chamada "Minha Alma de Amor Sedenta", título tomado de uma das suas baladas mais emblemáticas, e em boa hora editada pela Som Livre em parceria com a Valentim de Carvalho, permite-nos hoje (re)descobrir o essencial da sua obra.
Com acompanhamento de António Pessoa (viola) e Liberto Conde (viola baixo), são doze os temas cantados por António dos Santos nesta antologia: "Gaivotas em Terra" (Mascarenhas Barreto / António dos Santos), "Partir é Morrer Um Pouco" (Mascarenhas Barreto / António dos Santos), "Minha Alma de Amor Sedenta" (António dos Santos), "Recordando" (António Veloso Reis Camelo / António dos Santos), "Uma Chuva de Tristeza" (Mendes de Carvalho / António dos Santos), "As Tuas Mãos" (Figueiredo Barros / António dos Santos), "Fado é Canto Peregrino" (Mascarenhas Barreto / António dos Santos), "Ficas a Saber" (Maria Alexandrina / António dos Santos), "Nostalgia de Alfama" (António Veloso Reis Camelo / António dos Santos), "Disseste-me Adeus" (Carlos Miguel de Araújo / António dos Santos), "Fado Triste" (António dos Santos) e "Ilusão Perdida" (António dos Santos).

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Outro Sentido, de António Zambujo
(CD, Ocarina, 2007)



Em "Outro sentido", António Zambujo (que nasceu em Beja em 1975 e já foi distinguido com o Prémio Amália Rodrigues de Melhor Fadista 2006) dá continuidade ao trabalho anterior, "Por meu cante" (2004), mas vai ainda mais longe na exploração de outras linguagens musicais para além do fado: a música tradicional portuguesa, a música popular brasileira e o jazz. Neste disco, o cantor lançou a si próprio o desafio de recriar clássicos da música de Portugal e do Brasil. "Queria actualizá-los musicalmente. Alguns dos temas escolhi-os porque sempre gostei muito das interpretações que já tinham sido gravadas e queria poder cantá-los à minha maneira. Este não é assumidamente um disco de fados e antes um disco com fados, onde exploro outras sonoridades como o jazz e a bossa nova que influenciaram a minha formação musical", disse António Zambujo. "Identifiquei-me desde sempre com os temas tradicionais portugueses, com as canções de João Gilberto e Caetano Veloso assim como com a voz e a trompete de Chet Baker", acrescentou.
A produção foi assegurada por Ricardo Cruz, tal como já acontecera nos dois discos anteriores de Zambujo, e os arranjos são da responsabilidade de Ricardo Cruz, de Carlos Manuel Proença e do próprio cantor. A base musical do disco é o viola acústica, sendo o artista acompanhado por Carlos Manuel Proença (guitarra clássica), José Manuel Neto e Paulo Parreira (guitarra portuguesa), Ricardo Cruz (contrabaixo, baixo acústico), Daniela de Brito (violoncelo), Mário Delgado (guitarra eléctrica), Fernando Nunes (programação de loop), Paulo Guerreiro (trompas), sendo que o cantor também se acompanha à viola no tema "A Nossa Contradição".
Do álbum merece destaque o tema açoriano "Chamateia" (António Melo Sousa / Luís Alberto Bettencourt) que conta com a participação especial das Vozes Búlgaras Angelite, sob a direcção de Georgi Petkov. Este é indubitavelmente um dos momentos culminantes do álbum, em que a voz de Zambujo se passeia, graciosa, por entre a polifonia vocal do coro búlgaro. "Foi uma feliz coincidência, o grupo estava em digressão em Portugal, ouviram o tema e gostaram, e gravámos no Teatro Viriato, em Viseu", explicou o cantor que considera este um dos temas "mais tocantes". Outro tema de raiz tradicional é "Para que Quero Eu Olhos", numa delicada recriação do tema imortalizado por Adriano Correia de Oliveira. Do cancioneiro brasileiro, Zambujo escolheu "Quando Tu Passas por Mim" (Vinicius de Moraes / Antônio Maria) e "Lábios que Beijei" (J. Cascata / Leonel Azevedo). Do repertório de Amália, canta quatro fados: "Amor de Mel, Amor de Fel" (Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves), "Nem às Paredes Confesso" (Max / Artur Ribeiro / Francisco Ferrer Trindade), "Fadista Louco" e "Foi Deus", ambos da autoria do também alentejano Alberto Janes. Ao algo esquecido Carlos Ramos (1907-1969), foi buscar "Eu Já Não Sei" (Domingos Gonçalves Costa / Carlos Gonçalves). "Foi para mim um desafio recriar todos estes clássicos da música portuguesa, aos quais proponho a minha perspectiva musical", disse António Zambujo. Falta ainda referir o experimental "Outro Sentido" que dá título ao disco, "Ao Sul" que João Monge escreveu e João Gil musicou para a Ala dos Namorados e "A Nossa Contradição", com letra de Aldina Duarte sobre música de Alfredo Marceneiro.
Eis a sequência completa dos treze temas de "Outro Sentido": "Amor de Mel, Amor de Fel" (Amália Rodrigues / Carlos Gonçalves), "Eu Já Não Sei" (Domingos Gonçalves Costa / Carlos Gonçalves), "Fado Menor" (letra de Maria Manuel Cid), "Quando Tu Passas por Mim" (Vinicius de Moraes / Antônio Maria), "Para que Quero Eu Olhos" (tradicional), "Lábios que Beijei" (J. Cascata / Leonel Azevedo), "Nem às Paredes Confesso" (Max / Artur Ribeiro / Francisco Ferrer Trindade), "A Nossa Contradição" (Aldina Duarte, Alfredo Duarte "Marceneiro"), "Chamateia" (António Melo de Sousa / Luís Alberto Bettencourt), "Fadista Louco" (Alberto Janes), "Outro Sentido" (Carlos Manuel Proença / Ricardo Cruz), "Ao Sul" (João Monge / João Gil) e "Foi Deus" (Alberto Janes).
Em recensão crítica ao disco, assim se pronunciou Nuno Pacheco: «Ao terceiro disco, António Zambujo, agora com 32 anos, fixa em definitivo o território do seu canto algures entre o fado (onde começou) e a trova, entre a pose fadista e as influências múltiplas do seu cante alentejano, da música portuguesa de raiz, da música brasileira ou até do jazz. Mais longe de "O Mesmo Fado" (2002) e mais próximo de "Por Meu Cante" (2004), este "Outro Sentido" é vocalmente o seu trabalho mais maduro e equilibrado, mas também o mais coerentemente eclético. Voltando com sucesso ao fado ("Eu Já Não Sei", "Fado Menor", "Nem às Paredes Confesso", "Fadista Louco", "A Nossa Contradição" ou "Foi Deus", este parcialmente "a capella"), arrisca com bons resultados uma interpretação pessoalíssima de clássicos brasileiros ("Lábios que Beijei", "Quando Tu Passas por Mim"), apossa-se de um tema tradicional que fez parte do repertório de Adriano Correia de Oliveira ("Para que Quero Eu Olhos"), dá novo lirismo a "Ao Sul", da Ala dos Namorados, mescla bossa-nova e Chet Baker nas malhas onomatopaicas do tema-título e aproxima a lira açoriana das polifonias búlgaras no tocante "Chamateia". Apesar do excesso de versões, tudo o resto vai num bom sentido.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 05.10.2007).

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À Noite, de Carlos do Carmo
(LP/CD, Universal/TugaLand, 2007)



«Para Carlos do Carmo, este ano [2007] foi muito proveitoso: além do filme de Carlos Saura ("Fados"), onde canta e participou como consultor, reuniu em disco vários da geração anterior à sua, sob a desigmnação de "Fados de Uma Vida" (ed. Farol) e lançou ainda um disco de originais a partir de uma ideia também ela original – músicas de fados clássicos (Alexandrino, Cravo, Mayer, Puxavante, Vitória, etc.) com letras de não fadistas. Quanto ao conceito, o cantor, nascido em 1939 e com 44 anos de carreira, diz: "É uma arrumação de prateleiras da minha vida. Conheci muita gente do fado, desde criança, habituei-me a ouvi-los cantar, tocar. Mas houve figuras, para mim, que se destacaram particularmente [fala de compositores]. Cito quatro: o Frederico de Brito, que fez para mim tão lindos fados, o Armandinho, o Alfredo Marceneiro e o Joaquim Campos. Porquê falar nestes quatro? Estive cuidadosamente a estudá-los, quase todos, os compositores tradicionais dos anos 20, 30 e 40 e reparei que os bons têm uma média de três, quatro fados bons, enquanto os muito bons têm nove em cada dez. Foi essa a razão da minha escolha." Escolha que teve uma ajuda forjada na sabedoria, a do guitarrista José Fontes Rocha. "Há um certo hábito de chamar mestres aí aos guitarristas, o que me faz uma certa confusão. Mas na realidade o mestre que nós temos vivo é o José Fontes Rocha. Sabe das coisas, conhece-as, vem de muito longe, sabe-as executar, não está decadente e tem uma memória prodigiosa. Estivemos em minha casa e ele ajudou-me bastante." Quanto aos letristas "foi a parte mais louca." "Lembrava-me que, quando se falava na dificuldade em encontrar autores musicais para o fado, fui ter com o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo, o [José Luís] Tinoco, o António Victorino de Almeida, o José Mário Branco, o Sérgio Godinho, e aí estão os fados." Quem tenta uma vez tenta duas. Vasco Graça Moura, que um dia lhe escrevera "quinze fados seguidos", já entrara para "o clube". Porque não outros? "Um dia estava a ler a ‘Egoísta’, a revista do Casino do Estoril, e reparei num texto interessante de fado escrito pelo Fernando Pinto do Amaral. Achei curiosíssimo e comecei por ali. Ele foi amabilíssimo e disse-me que teria o maior prazer." E deu-lhe outra pista: Nuno Júdice. "Fui muito bem acolhido, também." Depois ligou a Maria do Rosário Pedreira que conhece desde pequena, pois os pais dela são seus padrinhos de casamento. "O pai era boémio, frequentava as casas de fado e dizia Régio, Pessoa, Sá-Carneiro, de forma extraordinária." Também aceitou. "Depois falei com o meu velho amigo José Manuel Mendes que já há muito me manda poemas mas que não são para fado. E finalmente, o Júlio Pomar que entre as coisas que andava a escrever para um livro que irá editar, tinha alguns fados, com quadras muito engraçadas" (de Júlio Pomar é também o retrato original de Carlos do Carmo, a óleo, que está na capa do disco). Os outros dois nomes surgiram de relações antigas: "O José Luís Tinoco já entrava há bastante tempo nos meus discos. Pedi-lhe um texto para uma música do Armandinho, que exigia um cuidado especial, e ele fez." Por último, Luís Represas: "Gosto muito dele desde miúdo, nunca tinha escrito para mim." Dois jantares em casa de Carlos do Carmo selaram a aventura: "Parecíamos uns miúdos, discutimos tudo, cada um levou para casa um CD com a música de escolheu." Depois foram escrever e começaram a enviar mails, a telefonar. "O que me agradou profundamente foi o entusiasmo com que trabalharam. E outra coisa que me encanta no ser humano: estamos a falar de professores universitários, de gente de cultura, que esteve nisto com uma modéstia, uma humildade e uma vontade de fazer que me comoveu. E penso que o fado ganhou novos poetas, que é uma vitória."» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 16.11.2007).
Citam-se também as oportunas palavras que Rui Vieira Nery escreveu para o livro que acompanha o CD: «Não admira que Carlos do Carmo que tão bem conheceu Alfredo Marceneiro e Joaquim Campos e que ao longo da sua vida contactou desde sempre com o melhor da herança de Armandinho na guitarra portuguesa, sinta de quando em quando necessidade de regressar como interprete a estas raízes nucleares do Fado. Fê-lo já em diferentes momentos da sua carreira, fá-lo agora num estádio de grande maturidade que lhe vem de poder olhar para trás e fazer um balanço sereno de quase cinquenta anos a cantar o Fado. Regressa aos clássicos com um carinho evidente, sabendo que é nele que repousa uma tradição de muitas décadas, ainda anteriores ao seu próprio arranque pessoal como fadista, e da qual é possivelmente o continuador mais legítimo na sua geração. Mas neste olhar não há saudosismos, e muito menos a tentativa de fixar artificialmente em qualquer fórmula estereotipada uma tradição que a história nos mostra ter sido sempre viva e mutante. No seu canto há elementos de uma sabedoria feita de tradição acumulada, mas há também a construção da sua própria personalidade de intérprete e o caldear de tudo o que ouviu e interiorizou, dentro e fora do Fado.
Armandino, Marceneiro e Campos trabalharam com os maiores poetas populares da Lisboa do seu tempo: Henrique Rego, Francisco Radamanto, Carlos Conde, Frederico de Brito, todos eles arquétipos perfeitos de uma certa escolha de temas, de uma panóplia característica de imagens poéticas, de uma maneira de rimar o verso e de o rimar que parecia pedia o canto. Carlos do Carmo desafia agora um conjunto de grandes poetas contemporâneos a construírem a mesma ponte que ele próprio representa entre tradição e contemporaneidade. Fernando Pinto do Amaral, José Luís Tinoco, José Manuel Mendes, Luís Represas, Maria do Rosário Pedreira, Nuno Júdice e o sempre surpreendente bastião de juventude criativa que é Júlio Pomar procuram isso mesmo – não abdicar de uma linguagem que lhes é própria, nem de um olhar poético carregado de modernidade, mas ao mesmo tempo recuperar nos seus versos uma musicalidade intrínseca e um imaginário expressivo que foram sempre o apanágio da melhor poesia de Fado e que parecem fazer já parte inseparável da própria carga genética fadista. Nesta lição de Fado dada serenamente por um grande mestre cruzam-se sete poetas que souberam partilhar deste olhar de Janus que contempla ao mesmo tempo o passado e futuro. À NOITE, naturalmente, porque por alguma razão mais profunda do que os habituais clichés que continuam a assombrar a reflexão sobre o género, o Fado preferiu desde sempre este registo intimista de uma penumbra a envolver o canto de todas as dores.» (Rui Vieira Nery, 2007)
Produzido pelo próprio Carlos do Carmo, que se faz acompanhar de José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado) e José Marino Freitas (baixo acústico), "À Noite" é composto por doze temas: "Insónia" (José Luís Tinoco / Armandinho), "Pontas Soltas" (Maria do Rosário Pedreira / Joaquim Campos), "Fado do 112" (Júlio Pomar / Armandinho), "Lisboa Oxalá" (Nuno Júdice / Joaquim Campos), "Margens da Solidão" (José Manuel Mendes / Alfredo Duarte "Marceneiro"), "À Noite" (Nuno Júdice / Alfredo Duarte "Marceneiro"), "A Guitarra e o Clarim" (Júlio Pomar / Joaquim Campos), "Vem, Não Te Atrases" (Maria do Rosário Pedreira / Armandinho), "Madrugada" (Fernando Pinto do Amaral / Alfredo Duarte "Marceneiro"), "Vou Contigo, Coração" (Fernando Pinto do Amaral / Alfredo Duarte "Marceneiro"), "Fado dos Meus Fados" (José Manuel Mendes / Joaquim Campos) e "Enredo" (Luís Represas / Armandinho).
Na recensão crítica ao disco, escreve Nuno Pacheco: «Trinta anos depois de um disco que marcou a história do fado ("Um Homem na Cidade", 1977), Carlos do Carmo mantém neste "À Noite", a par da ousadia do projecto, uma capacidade interpretativa de grande nível, mesmo quando as letras parecem destinadas a trocar-lhe as voltas e dificultar-lhe o trabalho. E os músicos, que ele tem feito questão de elogiar em público, fazem aqui por merecer todos os elogios. Escutá-los atentamente, alheando-nos por momentos da voz, é um exercício esclarecedor.» (Nuno Pacheco, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 14.12.2007

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Sementes do Fado, de Os Músicos do Tejo
(CD, Ed. de Autor, 2007)



Marcos Magalhães (cravo), Ana Quintans (voz) e Ricardo Rocha (guitarra portuguesa): é esta a formação do grupo Os Músicos do Tejo que nos apresenta o disco "As Sementes do Fado", numa abordagem livre às modinhas de finais do séc. XVIII e princípios do XIX (reinados de D. Maria I e D. João VI). Segundo alguns reputados estudiosos, a modinha luso-brasileira é uma das influências remotas do fado e daí o título escolhido para o álbum. Tal como no fado, os temas dominantes das modinhas são o amor, a dor e a melancolia. Foram não só cantadas em meios populares como nos teatros e salões da aristocracia e burguesia. E foi pelo facto de terem sido anotadas em partituras que alguns dos seus melhores espécimes chegaram intactos até aos nossos dias. A ideia do disco surgiu quando Marcos Magalhães leu a obra "Para Uma História do Fado", de Rui Vieira Nery: "Ele fala das modinhas como o ascendente mais antigo do fado e desmonta algumas ideias mais antigas como a de que o fado viria do tempo dos Descobrimentos", diz o cravista, em entrevista concedida a Pedro Boléo (in "Público": Suplemento "Ípsilon", 28.12.2007). Marcos Magalhães mete então mãos a uma aturada investigação e depressa se apercebe que as modinhas eram algo mais que as peças ligeiras e sem grande interesse, como antes julgava: "Foi um encontro que nos fez ver as modinhas de outra maneira. Este disco é uma tentativa de tirar as modinhas do museu." Havia, contudo, um problema: as partituras apresentam os acompanhamentos de forma muito esquemática, com apenas algumas notas fundamentais. Nem sequer se trata do baixo contínuo, o acompanhamento típico do barroco, que era improvisado a partir das notas graves e cifras que estruturam a harmonia. "O que fizemos foi não ligar a esse acompanhamento mas usar a base harmónica e fazer um acompanhamento improvisado a meio caminho entre o baixo contínuo e o fado", explica Marcos Magalhães. Já Ricardo Rocha refere: "Puxei um bocadinho para a balada de Coimbra, no ritmo e na linha melódica." Por seu lado, a cantora Ana Quintans, que nunca cantou fado, afirma que o propósito dos Músicos do Tejo foi "revisitar e transformar as modinhas, cruzando um interpretação barroca com o universo do fado. Tinha cantado modinhas com cravo, mas a sonoridade da guitarra portuguesa obriga a uma atitude diferente. A ideia era cantar da forma mais natural possível." (ibidem).
Com produção e direcção artística de Marcos Magalhães, o CD "As Sementes do Fado" é composto por dezoito temas, entre modinhas e peças instrumentais: "Foi por mim, foi pela sorte" (Anónimo), "Fenece doce esperança" (Raphael Coelho Machado), "Minuete" (António da Silva Leite), "He somente a minha vida sempre penar e sofrer" (Francisco Xavier Baptista), "Ternas aves" (Jozé Mesquita), "Andantino" (António da Silva Leite), "Tocata do S.ro Francisco Gerardo" (António da Silva Leite), "Cosi dolce amante sposo" (Marcos Portugal), "Desprezar do mundo a glória" (António da Silva Leite), "Amor concedeum’um prémio" (António da Silva Leite), "60 Minuete" (Manuel José Vidigal), "3.ro Minuete" (Manuel José Vidigal), "Avezinha" (Beneficiado V. J. Coelho), "Frescas praias do Barreiro" (A. J. do Rego), "Deuzes do Olimpo" (D. José Acuña), "Que fiz eu à natureza" (Jozé Maurício), "1.º andamento da Sonata em dó menor n.º 16" (Carlos Seixas) e "Os laços d’amor" (D. José Acuña).
Em recensão crítica ao disco, Pedro Boléo escreveu: «A modinha é uma das formas musicais que se pensa estar na origem do fado. Mas este não é um disco de fado – trata-se antes de um projecto de música barroca, com algumas características pouco comuns. Antes de mais, a combinação de instrumentos – cravo e guitarra portuguesa -, para além da voz de Ana Quintans, uma das melhores cantoras das novas gerações. Os intérpretes tem todos eles pouco mais de trinta anos. Esta edição de autor é sinal de uma dinâmica extremamente importante na música portuguesa de qualidade. Marcos Magalhães, cravista e grande impulsionador do projecto, é o responsável pela direcção artística e por grande parte do trabalho técnico de montagem e edição. Recriam-se nesta gravação certos ambientes musicais cultivados pela aristocracia e burguesia ascendente da segunda metade do século XVIII e inícios do século XIX. A modinha luso-brasileira era também uma canção popular, transmitida oralmente. A maior parte das partituras que chegarem até nós correspondem no entanto a um repertório mais erudito, praticado nos teatros e salões da época. Mas este disco é mais do que uma curiosidade ou uma recuperação de um repertório que teve uma larguíssima difusão nos finais de Oitocentos e que hoje está bastante esquecido. Para além da divulgação e gravação de algumas modinhas pela primeira vez, propõe-nos uma reinvenção e uma recriação da modinha, aliando rigor e reflexão histórica a uma liberdade interpretativa contagiante (onde também há espaço para a improvisação e a ornamentação, como havia na música desta época). Graças à qualidade dos intérpretes e ao seu gesto criativo, a gravação ultrapassa em muito a mera reconstituição histórica, para nos apresentar um fresco ponto de vista sobre este antepassado do fado. Não há aqui apenas modinhas: podemos ouvir ainda outras peças para cravo e guitarra do período barroco (uma sonata para cravo de Carlos Seixas tocada de um ponto de vista muito pouco habitual, ou um andamento de uma tocata de António Silva Leite, por exemplo). Nas modinhas há uma interessante fusão dos timbres do cravo e da guitarra que suportam as qualidades vocais de Quintans. Nalgumas peças estamos na fronteira da ópera, como em "Cosi dolce amante sposo", de Marcos Portugal, ou no dueto "Amor concedeum’um prémio" (com a voz "dupla" da soprano). A voz ágil de Quintans, longe de pretender fazer uma abordagem "fadista" das peças, é especialmente adequada e expressiva numa modinha como "Frescas praias do Barreiro" ou na dramática faixa de abertura "Foi por mim, foi pela sorte". A forma como canta em português, com uma dicção cuidada e algum virtuosismo nas partes mais agudas e ornamentais é a prova de que o preconceito na música erudita em relação à língua portuguesa não faz sentido – desde que se compreenda a especificidade da língua em que se canta. Marcos Magalhães e Ricardo Rocha conseguem um grande equilíbrio tímbrico e mostram, nas passagens mais simples como em alguns momentos de maior virtuosismo, uma frescura interpretativa incomum. Este disco tem a importância de revelar um projecto original e ousado no panorama da nossa edição discográfica e no campo da música barroca. É, para além disso, um objecto muito cuidado (incluindo também um texto de Rui Vieira Nery que contextualiza as obras social e historicamente) e extremamente inventivo.» (Pedro Boléo, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 28.12.2007)

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Convexo: A Música de Zeca Afonso, de Jacinta
(CD, HM Música, 2007)



Depois dos aclamados "Tribute to Bessie Smith" (2003) e "Day Dream" (2006), ambos com chancela da prestigiada etiqueta Blue Note, Jacinta publica "Convexo" (ed. HM Música), um álbum integralmente composto por versões de temas de José Afonso. A música de José Afonso sempre ocupou um lugar muito especial na vida de Jacinta e a ideia de fazer o disco terá surgido da calorosa receptividade do público às suas interpretações ao vivo de temas do autor de "Venham Mais Cinco". Jacinta conta: «A sua música marcou-me desde os tempos de escuteira. Lembro as 24 horas seguidas de guitarra ao ombro, caminhando e animando um grupo de chefes e caminheiros. Na chegada, às 6 da manhã já os dedos latejavam de calos novos e a voz doía, brindando o amanhecer com cânticos portugueses – Zeca Afonso interpretado sempre com muito fervor. Um dos primeiros palcos que me marcou foi o Teatro Aveirense, 1200 pessoas ruidosas e emocionadas com a minha abertura solene "a capella": "O Cavaleiro e o Anjo". Segui com mais cinco temas do Zeca, alternando e misturando com outros artistas. O público crescia ao rubro e eu interpretava como que em transe canções que nunca antes cantara e que memorizei como que por magia no próprio dia do espectáculo: "Endechas a Bárbara Escrava", "Cantigas do Maio", "Vejam Bem"... Depois veio o jazz e muita música diferente da portuguesa e vim a esgotar o CCB mais tarde com "Tribute to Bessie Smith", que fiz questão de abrir com Zeca Afonso. O Zeca voltou a surgir na minha "Canção de Embalar", com Greg Osby em "Day Dream". A reacção dos públicos a esta canção ao vivo tem sido tão surpreendente e participativa que me inspirou para a criação de "Convexo". O título é inspirado numa das minhas canções favoritas do Zeca: "Tenho um Primo Convexo". Convexo porque é "para fora" da norma, é fora da tradição popular portuguesa que marca a obra do Zeca, é para fora daquilo que normalmente se ouve quando se faz a música do Zeca Afonso, daí ser um disco "Convexo"». (Jacinta).
E até que ponto é aceitável e legítimo abordar a obra de José Afonso segundo o idioma jazzístico, ou seja, numa linguagem, à primeira vista, tão distante do seu estilo? Jacinta responde: "Estava à espera de estados de choque e de ser apelidada de 'herege' ao mexer desta forma na música deste nosso grande ícone da canção portuguesa. Mas a própria filha do Zeca me disse que o pai adorava jazz, que ia a todos os festivais de jazz da sua época, e que ficaria muito orgulhoso se ouvisse as minhas versões jazzísticas da sua música." (entrevista a José Duarte, in site
Jazz Portugal, 14.12.2007). Viriato Teles, conhecido estudioso da obra de José Afonso, argumenta no mesmo sentido: «Zeca Afonso é um compositor de características genuinamente populares, mas que nem por isso deixa de ser profundamente eclético: a sua música reúne os elementos essenciais da tradição lusitana aliados ao jazz, às músicas populares de África e da Europa, aos grandes clássicos e ao que de melhor produziram os contemporâneos – tal como a sua poesia conjuga os cancioneiros medievais com a escola brechtiana, a lírica tradicional com a lógica dos surrealistas, a intervenção política e o experimentalismo mais ousado. [...] É uma obra tão rica e tão plural que [reinterpretá-la] se torna convenhamos, uma tentação. E, aberto como era às novas tendências e a encorajar os mais novos, José Afonso teria decerto aplaudido todos os que, partindo do seu trabalho, procuram ir mais longe – nos arranjos, nas interpretações, nas atitudes – e tentam não apenas recriar as suas músicas, mas, de certo modo, voltar a inventá-las.»
Com produção de Jacinta e Maria Joana Pereira, e arranjos de Rui Caetano e da própria cantora, "Convexo", inclui onze temas, assim alinhados: "Adeus ó Serra da Lapa", "O Homem Voltou", "A Formiga no Carreiro", "Era Um Redondo Vocábulo", "Cantigas do Maio", "Tenho Um Primo Convexo", "Se Voaras Mais ao Perto", "A Morte Saiu à Rua", "Que Amor Não Me Engana", "De Não Saber o Que Me Espera" e "Coimbra do Mondego".
Em recensão ao disco, António Rúbio escreveu: «Há muito que Jacinta tinha este projecto – um disco apenas com música de Zeca Afonso. Todos os seus concertos incluíam uma ou duas canções de Zeca e no seu último CD para a Blue Note, "Day Dream", introduziu a "Canção de Embalar" no meio de temas de Duke Ellington e de Thelonious Monk. São onze as canções escolhidas. Não encontramos as mais populares, como "Grândola, Vila Morena" ou "Os Vampiros", opção correcta para não cair em facilitismos nem popularismos. Através dos seus arranjos e dos de Rui Caetano, Jacinta consegue conjugar várias linguagens musicais, indo do jazz até aos ritmos latino-americanos, o que impregna estas versões de um eclético modernismo. Até o "scat" entra neste jogo de bom gosto. Muito flexível e com impecável dicção, a cantora portuguesa dá uma forma completamente nova ao repertório de José Afonso. O piano de Rui Caetano está sempre presente no apoio à consistência da voz, e os seus solos são criteriosos e bem adaptados aos arranjos, revelando uma profunda sensibilidade. [A bateria de] Bruno Pedroso, por seu lado, baliza o ritmo com inteira competência, dando frescura e vida a todo o disco. Um trabalho de grande qualidade em todos os capítulos.» (António Rúbio, in revista "Jazz.pt", Nov-Dez 2007)

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Memórias de Quem, de João Paulo Esteves da Silva
(CD, Clean Feed/Trem Azul, 2007)



«Se as marcas do talento do pianista João Paulo já tinham sido evidentes nas anteriores edições Clean Feed onde participou ("As Sete Ilhas de Lisboa", com Paulo Curado e Bruno Pedroso, e "Quase Então" com a cantora Paula Oliveira), faltava ainda um registo mais pessoal que confirmasse todas as expectativas. O seu novo disco "Memórias de Quem", piano solo, é esse documento e afirma definitivamente João Paulo Esteves da Silva como um dos mais brilhantes improvisadores surgidos em solo nacional. No entanto, esta vertente de improviso de inspiração jazzística, com que se tem notabilizado, contraria a sua formação musical inicial. Filho de uma mãe pianista, uma intensa educação clássica ajudou-o a alcançar a classificação máxima no Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional – quando já tinha descoberto o jazz e mantinha projectos paralelos aos estúdos clássicos. Depois de um longo "exílio" em Paris (1982-1994), regressou para colaborar como arranjador e director musical no álbum que Vitorino trabalhou a partir de textos de António Lobo Antunes, o belo "Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada". Para além desta cooperação com o cantor alentejano, colaborou ainda com outras grandes figuras da música popular portuguesa, contribuindo de forma marcante para muitas obras de referência – participou no clássico "Por Este Rio Acima" de Fausto, ajudou no álbum "Ser Solidário" de José Mário Branco e manteve com Sérgio Godinho uma relação privilegiada que se traduziu em três álbuns: "Canto da Boca" (1981), "Coincidências" (1983) e "Tinta Permanente" (1993). Apesar de todas estas incursões em terrenos da música popular, João Paulo nunca se desviou do caminho que decidiu para si mesmo: criar música original inspirada na tradição portuguesa e aberta à improvisação permitida pelo jazz. E são precisamente estas coordenadas que guiam o novo álbum "Memórias de Quem". Testemunho que comprova maturidade criativa, este disco é um pico obrigatório de uma carreira discográfica iniciada em nome individual em 1995, com "Serra Sem Fim" (Farol). Entre as várias colaborações que se seguiram ficou uma lista imensa de discos a evidenciar a sua grande capacidade criativa: "Almas e Danças" (Farol, 1996), "O Exílio" (Marecordings, 1999), "Almas" (Marecordings, 2000), "Esquina" (Marecordings, 2000), "Nascer" (Marecordings, 2001) e os já citados "Quase Então" (Clean Feed, 2003) e "As Sete Ilhas de Lisboa" (Clean Feed, 2003). Até agora o seu único disco a solo [absoluto] tinha sido "Roda, Les Suites Portugaises", editado em França em 2002 com selo L’Empreinte Digitale. Já esta nova edição Clean Feed é a grande oportunidade que o pianista tem para mostrar, numa escala mais alargada, o seu talento numa arrojada (e corajosa) aventura solitária, sem rede. Quer João Paulo utilize como base melodias tradicionais (portuguesas e sefarditas) ou recorra simplesmente à improvisação, em "Memórias de Quem" a construção dos temas segue uma linearidade clássica, há uma estruturação consistente e há uma grande noção de harmonia que envolve todo o disco. Ao ouvirmos temas como "Mi Alma" ou "Durme" é impossível ficarmos indiferentes a toda a sua beleza e a faixa "Memórias de Quem" (também com a voz do pianista) quase se aproxima de uma certa religiosidade. Pleno de fluência discursiva (não será despropositado evocar o trabalho de Keith Jarrett a solo), este será sem qualquer dúvida um dos mais belos álbuns portugueses do ano e um marco nacional na abordagem da linguagem improvisacional do jazz ao piano.» (Nuno Catarino, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 25.05.2007)
Produzido por João Paulo Esteves da Silva e Pedro Santos, "Memórias de Quem" inclui nove temas, assim alinhados: "Mi Alma", "Ramagem", "O Incêndio", "Durme", "Fantasmas", "Através", "Memórias de Quem", "Soneto de Renato" e "Ritspah".


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http://www.oncproducoes.com/bios/joao_paulo.html
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Espaço, de Mário Laginha Trio
(CD, Clean Feed/Trem Azul, 2007)



Decorrido um ano sobre "Canções e Fugas" (Universal, 2006), álbum distinguido com importantes galardões (Prémio SPA Millennium BCP e Prémio Carlos Paredes), Mário Laginha apresenta-nos "Espaço". "São dois projectos que eu estava, desde há muito, decidido a realizar, mas que, por várias razões, fui adiando no tempo. Têm um enorme significado para mim e julgo que dão uma imagem razoavelmente alargada do meu universo musical. Uma das coisas que mais me agrada neles é que são muito diferentes. Um – "Canções e Fugas" – põe em confronto composições com estrutura de canção, com espaço para a improvisação, com as fugas, uma técnica de escrita a vozes sem qualquer tipo de improvisação. "Espaço" é um disco mais livre, com um tipo de diálogo e comunicação entre os músicos que sempre adorei." (entrevista a Paulo Barbosa, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 08.06.2007). O álbum resulta de uma encomenda da Trienal de Arquitectura de Lisboa, e obedece um conceito definido: estabelecer um paralelismo entre a música e a arquitectura. "Quando me propuseram este projecto de fazer música relacionando-a com a arquitectura, demorei algum tempo a escolher o caminho a seguir. É óbvio que poderiam ter sido muitos outros caminhos, mas foram dois os que mais me atraíram. Um, o de fazer uma música muito depurada e simples que remetesse para um certo tipo de espaço muito limpo e aberto. Aqui a ideia seria a de criar uma música que tentasse ampliar as sensações que essa arquitectura provoca. O outro – que achei mais estimulante – seria partir de conceitos muito utilizados ou relacionados com o universo da arquitectura e, utilizando o meu vocabulário musical, fazer uma interpretação desses mesmos conceitos. Foi o que fiz e julgo que o resultado, não se afastando do meu universo musical, permite a quem o ouve perceber o tipo de paralelismos que utilizei. Como digo no texto que escrevi no CD, sem esta proposta, a música não seria a mesma." (ibidem).
Com produção do próprio Mário Laginha, são oito os temas que preenchem este "Espaço": "Tráfico", "Tanto espaço", "Paredes que nos rodeiam", "Escada", "Plano", "Baixo contínuo", "Esculpir" e "Vazio urbano".
Em recensão crítica ao disco, assim discorre Paulo Barbosa: «Bastará uma única audição desta gravação para que se fique com a certeza de que, depois do solo absoluto de "Canções e Fugas", Mário Laginha acertou em cheio no alvo, outra vez. Difícil será, no entanto, que nos contentemos com uma só audição deste magnífico álbum, recheado de música contagiante, simultaneamente reconfortante e estimulante. A determinação com que o pianista dirige o trio e a resposta que recebe de Bernardo Moreira (contrabaixo) e de Alexandre Frazão (bateria), parceiros ideais, verdadeiros cúmplices espirituais e físicos nesta sua nova aventura, elevam as capacidades interpretativas do grupo a um nível reservado apenas aos melhores. A empatia a que acima de alude está patente tanto no modo como os músicos se relacionam entre si na execução destas composições de Laginha, como no tipo de relação que estabelecem com a própria música. Tanto quanto o seu compositor, Moreira e Frazão vivem esta música como se lhes fosse própria, respirando-o com toda a urgência, como se de ar se tratasse, como se dela dependesse a sua sobrevivência. Posto isto, vamos à música que Laginha parece compor com a mesma exigência e a mesma convicção com que toca. Neste trabalho, encomendado pela Trienal de Arquitectura de Lisboa 2007, cada composição constitui, enquanto tal, uma ideia perfeitamente acabada. No entanto, e porque Laginha concebe sempre algo mais do que meros veículos de improvisação, cada uma destas peças soa como um plano minuciosamente estruturado que apela, no entanto, à força criativa destes seus intérpretes para que se veja plenamente cumprido. Esse equilíbrio entre composição e interpretação é bem ilustrado logo na faixa que faz arrancar o álbum, um agitadíssimo "Tráfico", onde a escrupulosa forma que define o tema é, logo após a sua exposição, submetida à tensão quase sufocante (e tecnicamente estonteante) de uma breve passagem a solo, na qual o pianista se concentra no registo mais grave do instrumento, a ele se juntando depois o contrabaixista e o baterista para, num rápido impulso, descolar até à atmosfera, onde gravitarão, num swing inebriante, até ao regresso do tema. Este tipo de orientação é adoptado em várias outras faixas, como "Paredes que nos rodeiam" ou "Baixo contínuo", mas é mais evidente ainda em "Escada". Nesta composição, de ambiência inicialmente sombria e marcada por uma escrita densa, na leitura da qual os pratos de Frazão fazem a música com o pianista, o trio liberta-se, depois, sobre uma batida quase hip-hop, numa agitada escalada que, mais uma vez, só pára com a reposição do tema. "Baixo contínuo" vive da fuga e é uma excelente ilustração, bem distinta da que já conhecemos por Brad Mehldau, do recurso à composição contrapontística no contexto do trio de piano. As três baladas, para além de trazerem o desejado contraste com aqueles momentos mais enérgicos, são de uma beleza insuperável. Por muito bem que Bernardo Moreira esteja (e está!) em todo o disco, é em temas como "Tanto espaço" e "Esculpir" ou na primeira metade de "Plano" (um magnífico "rubato") que, por via uma singular riqueza melódica e rítmica, o seu contrabaixo atinge um maior nível de expressividade. É também em "Plano" que, mais para o final, Mário Laginha, já então sobre um tempo explícito, revela uma outra faceta, evocando por momentos o som africano de Abdullah Ibrahim. Aqui está o disco que demolirá qualquer dúvida quanto ao lugar de Mário Laginha no seio dos maiores pianistas da actualidade e que é, desde já, um dos grandes discos de 2007.» (Paulo Barbosa, in "Público": Suplemento "Ípsilon", 08.06.2007).

URL: http://www.mariolaginha.org
http://www.myspace.com/mariolaginha


Fontes:
- Literatura inclusa nos discos citados
- Jornais/revistas referenciados no texto
- Páginas da internet


E agora a pergunta sacramental: quantos dos discos acima destacados estão representados nas ‘playlists’ das Antenas 1 e 3? Os dedos de uma só mão chegam (e sobram) para os contar. Em face desta clamorosa e aberrante situação, cumpre-me lançar um apelo a quem tem por responsabilidade fiscalizar e avaliar o serviço público de rádio: faça-se uma monitorização à programação musical das referidas antenas e averigúe-se, à luz da legislação que enquadra e regulamenta o serviço público de rádio, se objectivamente não existe uma clara e evidente discrepância entre o que é expectável da rádio do Estado e os conteúdos musicais actualmente dominantes nas respectivas ‘playlists’. ‘Playlists’ essas que, convém lembrar (sobretudo aos mais distraídos), estão pejadas de autêntico lixo sonoro, tanto exógeno como endógeno, o qual, além de degradar a qualidade do serviço, tem ainda o efeito perverso de estar ocupar o lugar que legitimamente devia caber à melhor música portuguesa (lusófona e instrumental), que assim acaba por ser relegada para uma quase clandestinidade no éter nacional.


Outros discos de música portuguesa editados em 2007:
(por ordem alfabética dos nomes dos intérpretes)

- Ala dos Namorados: "Mentiroso Normal" (CD, Universal, 2007)
- Ana Moura: "Para Além da Saudade" (CD, Universal, 2007)
- André Fernandes: "Cubo" (CD, Tone of a Pitch, 2007)
- António Pinto Basto: "Bodas de Coral" (CD, Zona Música, 2007)
- Banda Futrica e Amigos: "Com Zeca no Coração" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2007)
- Bernardo Sassetti: "Dúvida" (CD, Clean Feed/Trem Azul, 2007)
- Cantaremos Adriano: "Homenagem a Adriano Correia de Oliveira: 25 anos após a sua morte" (CD, Musicart, 2007)
- Clã: "Cintura" (CD, Capitol/EMI, 2007)
- Couple Coffee: "Co’as Tamanquinhas do Zeca" (CD, Transformadores, 2007)
- Cramol: "Vozes de Nós" (2CD, Ocarina, 2007)
- Custódio Castelo e Margarida Guerreiro: "Encores do Fado: Live" (CD, Ovação, 2007)
- Dead Combo: "Guitars From Nothing" (CD, Rastilho Records, 2007)
- Donna Maria: "Música para Ser Humano" (CD, EMI, 2007)
- Erva de Cheiro: "Que Viva o Zeca: Tributo" (CD, Musicart, 2007)
- Eugénia Melo e Castro: "PoPortugal" (CD, Universal, 2007)
- Fausto Bordalo Dias: "18 Canções de Amor e Mais Uma de Ressentido Protesto" (CD, Farol, 2007)

- Fernando Guerreiro: "Guitarra Só" (CD, InforArte, 2007)
- Fernando Rolim: "Regresso de quem nunca partiu" (CD, Ovação, 2007)
- Galandum Galundaina: "Ao Vivo no Teatro Municipal de Bragança" (DVD, Açor/Emiliano Toste, 2007)
- Henrique: "Vício do Fado" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2007)
- J.P. Simões: "1970" (CD, NorteSul/Valentim de Carvalho, 2007)
- Jorge Palma: "Voo Nocturno" (CD, Capitol/EMI, 2007)
- Júlio Resende Quinteto: "dA Alma" (CD, Clean Feed/Trem Azul, 2007)
- Lena d’Água: "Sempre: Ao Vivo no Hot Clube de Portugal" (CD/DVD, Blue Note, 2007)
- Mafalda Veiga e João Pedro Pais: "Lado a Lado" (CD/DVD, Som Livre, 2007)
- Malteses (Os): "Vagueando: Ao Sabor da Música" (CD, 2007)

- Maria João: "João" (CD, Universal, 2007)
- Mário Moita: "Fado ao Piano: O Luar É Meu Amigo" (CD, Ed. de Autor, 2007)
- Moças Nagragadas: "Cantares de Natal, Ano Bom e Reis" (CD, 2007)

- Musicalbi: "Mastiço" (CD, 2007)
- Neurónios Abariados: "Abariações" (CD, Açor/Emiliano Toste, 2007)

- Paco Bandeira: "Canto do Espelho" (CD, Farol, 2007)
- Paula Oliveira & Bernardo Moreira: "Fado Roubado" (CD/DVD, Universal, 2007)
- Pedro Abrunhosa: "Luz" (CD, Universal, 2007)
- Rodrigo Leão: "Portugal, Um Retrato Social" (CD, Sony BMG, 2007)
- Sal: "Sal" (CD, Elec3city, 2007)
- Sexteto Mário Barreiros: "Dedadas" (CD, Clave do Som, 2007)
- Sofia Ribeiro & Marc Demuth Quartet: "Orik" (CD, Edição de Autor, 2007)
- Sons da Fala: "Sons da Fala" (CD, Som Livre, 2007)
- Sons do Vagar: "Sons do Vagar" (CD, Associ'Arte, 2007)
- Teresa Salgueiro & Lusitânia Ensemble: "La Serena" (CD, Farol, 2007)
- Terra d’Água / Davide Zaccaria (com Maria Anadon, Lúcia Moniz, Filipa Pais, Dulce Pontes e Uxia): "Terra do Zeca: Tributo a José Afonso" (CD, Som Livre, 2007)
- Tiago Bettencourt & Mantha: "Jardim" (CD, Universal, 2007)
- Toques do Caramulo: "Toques do Caramulo É ao Vivo! " (CD, Associação d'Orfeu, 2007)
- UHF: "Canções Prometidas" (CD, Farol, 2007)
- Vários: "Adriano, Aqui e Agora: o Tributo" (CD, Movieplay, 2007)

- Vários: "Adriano Sempre" (CD, Grandmúsica, 2007)
- Vários: "As Marchas do São Luiz" (CD, Som Livre, 2007)
- Vários: "Fados by Carlos Saura" (CD, EMI, 2007)
- Vários: "Fados de Uma Vida: As Escolhas de Carlos do Carmo" (CD, Farol, 2007)

- Vários: "Lisboa" (CD, Lisboa Records, 2007)
- Xaile: "Xaile" (CD, Universal, 2007)

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Textos sobre música portuguesa:

Galeria da Música Portuguesa
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007

2 comentários:

RD disse...

Excelente lista...ainda que haja algumas coisa que não conheço!

RD

Alan Romero disse...

Parabéns pelo ótimo panorama das edições discográficas portuguesas no ano passado. Já ouvi boa parte dos citados, e vou procurar conhecer o resto.
Creio que vale destacar o excelente CD dos Couple Coffee, "Co'as Tamanquinhas do Zeca!", que felizmente não foi esquecido na relação final. Este é, na minha opinião, o melhor album de versões do Zeca, e ficará como um saudável estímulo aos próximos que pegarem no desafio de recriar obra tão universal.