31 janeiro 2013

Antena 2: uma pobreza de rádio



Após a última edição original do "Questões de Moral", a 29 de Outubro de 2012 (cf. Em defesa do programa "Questões de Moral"), o programa permaneceu no ar em regime de reposições e temia-se que viesse a ser eliminado da grelha a breve prazo. E, de facto, isso veio mesmo a acontecer logo no início do corrente ano, o que não pode deixar de suscitar o vivo e veemente repúdio do seu fiel auditório. Não sendo a solução ideal, a reposição sempre era melhor do que nada, visto não haver interesse de quem manda (ou desmanda) na RDP em que Joel Costa continue a colaborar com a Antena 2, nos termos previstos na lei. Mas não foi só o "Questões de Moral" a ser (criminosamente) expurgado da grelha do canal supostamente cultural do serviço público de rádio. Desapareceram vários outros programas de autor, dos quais destaco "Descobertas", da autoria de Maria Augusta Gonçalves, que no início das tardes dominicais divulgava interessantíssimas novas edições discográficas, não raro de obras nunca antes gravadas em disco, designadamente de música barroca e de períodos anteriores. A justificação apresentada ou a apresentar será, presumo, do seguinte teor: «em face do aperto financeiro imposto pelo Governo à Rádio e Televisão de Portugal, era inevitável cortar nas despesas do sector rádio e a Antena 2 não podia ficar de fora». Em primeiro lugar, tenho de contestar o critério ao abrigo do qual se extingue um programa de inegável interesse como "Descobertas" e se mantém essa autêntica aberração editorial que dá pelo nome de "Fuga da Arte". Isto para já não falar no inefável (de desmedida erudição) Pedro Malaquias e no verborrento/comedor de sílabas Paulo Alves Guerra... Em segundo lugar, e olhando para a programação das três antenas nacionais da RDP (faço questão de não deixar cair esta prestigiada sigla, ademais tendo sido salvaguardada na legislação vigente), é facilmente constatável que a foi a Antena 2 que sofreu os cortes mais significativos, tendo as Antenas 1 e 3 ficado quase intactas. Como se explica tal opção? Foi o Presidente do Conselho de Administração, Alberto da Ponte, que fez questão de direccionar os cortes a fazer no orçamento da RDP para a Antena 2, quiçá por ter menor número de ouvintes do que as outras, ou foram os responsáveis directos pelos conteúdos e programas, António Luís Marinho e Rui Pêgo, dois indivíduos "nados e criados" em rádios de música pop, que resolveram poupar as Antenas 1 e 3, por serem aquelas em que mais se revêem? Bem, independentemente de se saber quem tomou a decisão, não se pode deixar de a questionar, precisamente por ir completamente ao arrepio da missão mais nobre do serviço público de rádio: a promoção/satisfação cultural dos cidadãos. Quando se opta por sacrificar a antena que melhor cumpre essa obrigação (apesar das deficiências, que decorrem sobretudo da inépcia dos locatários da direcção de programas) e se poupa as antenas vocacionadas para o entretenimento, acaba-se inevitavelmente por dar razão a quem questiona o financiamento público, designadamente a contribuição do audiovisual, justamente por não servir para a prestação de um serviço formativo e altamente diferenciado daquele que é oferecido pelas estações privadas.
A drástica redução dos programas de autor na Antena 2 e o consequente alargamento da componente estritamente musical podia ter sido mitigada mediante uma efectiva arrumação e estruturação da grelha. Em vez de espaços alargados de música a esmo, sequenciada aleatoriamente, misturando numa imensa caldeirada os mais variados géneros, estilos e épocas (como acontece em "Boulevard", "Vibrato" e "Baile de Máscaras"), que não dão cabal satisfação aos melómanos mais exigentes nem proporcionam efectivo enriquecimento a quem deseja cultivar-se na vertente erudita, importaria ter espaços temáticos/conceptuais, a exemplo dos que houve durante o consulado de João Pereira Bastos: "Das Origens ao Barroco", "Barroco Vocal", "Barroco Instrumental", "Música Sinfónica e Coral-Sinfónica", "Música de Câmara", "Instrumentos Solistas", "Música de Dança", "Canções", "Árias e Duetos de Ópera", "Música Sacra", "Perfil de um Autor", "Intérprete da Semana", etc... Infelizmente, a dupla Rui Pêgo/João Almeida, fiel ao timbre laxista e preguiçoso que a tem caracterizado, deixou tudo na mesma (como a lesma). Para ajudar à desgraça, continua a praga de 'spots' e 'jingles' disparados sacro-santamente de hora a hora, ou quando dá na real gana dos "locutores" de serviço (ponho a palavra "locutores" entre aspas porque na verdade a alguns falta perfil e competência para o exercício da função), assim como o quase total deserto de matéria não musical, se exceptuarmos alguma coisa de História e Literatura por vezes presente no exíguo "Além-Tempo" e na componente textual do "Musica Aeterna", e um ou outro assunto abordado nos programas de Luís Caetano ("A Força das Coisas" e "Última Edição"). Por que motivo não foi ainda colmata a lacuna de um apontamento diário de poesia recitada, quatro anos decorridos sobre o fim d' "Os Sons Férteis"? É assim tão complicado desenterrar o que de bom existe – e é muito – no arquivo histórico? E onde está o teatro radiofónico tão proficientemente realizado por Eduardo Street?
Pode afirmar-se com toda a propriedade que a Antena 2, longe de ser "uma classe de rádio", como foi há uns dez-quinze anos, é hoje uma triste e comiserativa "pobreza de rádio". Pobreza essa que, como é bom de ver, não resulta apenas de ter menos dinheiro à sua disposição mas, em boa medida, da incapacidade e tacanhez de quem a dirige.
 

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