05 dezembro 2011

Um requiem cortado em pedacinhos

Infelizmente, após a saída de João Pereira Bastos, a Antena 2 passou a dar-me motivos bastantes para a não sintonizar de forma assídua e regular, ao invés do que antes fazia. Com muito prazer e proveito intelectual, devo acrescentar em reconhecimento ao anterior director de programas.
Além da notória desqualificação da programação (se é que tal palavra é apropriada a uma grelha, em boa parte, preenchida com espaços de música "ad hoc" e sem qualquer lógica editorial), o capital humano é hoje incomparavelmente de muito mais baixo nível, quer no tocante à preparação intelectual, domínio e uso escorreito da língua portuguesa (léxico, sintaxe e prosódia), quer no que respeita ao timbre e colocação das vozes da locução – aspecto que alguns tendem a considerar acessório mas que não é nada despiciendo em rádio. Como se tudo isto não bastasse, os srs. Rui Pêgo e João Almeida, não percebendo que um canal de serviço público cultural não se pode reger pelos mesmos critérios das estações privadas de onde vieram, não descansaram enquanto não infestaram a Antena 2 com essa autêntica praga que são os sucessivos blocos de 'jingles' e 'spots' promocionais (a coisas da mais variada índole e de nula ou insignificante relevância cultural, denotando uma escandalosa promiscuidade com interesses privados). Para poupar os meus ouvidos a tão recorrente e despudorada agressão, a minha escuta da antena (pretensamente) cultural da rádio pública, passou a restringir-se a uns poucos programas de autor, por coincidência todos iniciados no consulado de João Pereira Bastos (circunstância que não deixa de ser bem eloquente quanto à míngua de programas de qualidade surgidos por iniciativa da direcção sucedânea).
Domingo passado, logo depois do toque de despertar (programado para as 09:05, justamente para escapar ao cartucho de 'jingles' e 'spots', que é disparado na viragem de cada hora), caí na ingenuidade de ligar para a Antena 2. E digo "ingenuidade" porque não decorreu muito tempo até me arrepender da decisão. O locutor de serviço, Pedro Rafael Costa, aparece a dizer que iríamos ouvir o "Requiem", de Mozart, pela Capela Real da Catalunha, de Jordi Savall e de Montserrat Figueras, esta recentemente desaparecida. Sendo a missa de defuntos do genial compositor de Salzburgo uma das minhas obras dilectas de toda a música (erudita ou não), e dado que a gravação que possuo na minha colecção é outra, fiquei com o apetite aguçado e estava na expectativa de começar o meu domingo em grande. Puro engano!... Ao fim de dois ou três andamentos (o que não terá ido muito além de uns escassos dez a quinze minutos), a transmissão é abruptamente interrompida pelo citado locutor, dizendo que a secção seguinte do "Requiem" (a segunda de várias, presume-se) ficaria para o próximo fim-de-semana. Como interpretar tão estrambólico procedimento? Será que o sr. Pedro Rafael Costa deseja a todo o custo fidelizar ouvintes ao seu espaço musical e o truque é repartir obras apetecíveis em pedacinhos, por dias diferentes, no caso com uma semana de desfasamento? Se é essa a ideia, comigo não pega. No próximo domingo, não vou, com toda a certeza, despertar com a Antena 2. Está completamente fora de questão! Preferiria mil vezes comprar o disco e ouvi-lo de fio a pavio, sem quaisquer constrangimentos. Se há obras que só fazem sentido se ouvidas na íntegra a cada fruição, o "Requiem", de Mozart, é indubitavelmente uma delas. Dá-la a ouvir aos pedacinhos em dias diferentes (mas mesmo que fosse no mesmo dia...), não só é um perfeito disparate, como um péssimo serviço prestado à Música. Não dignifica a obra, amesquinha o autor que a criou e defrauda o ouvinte. Tratando-se de uma das mais superlativas obras-primas da História da Música, o "Requiem", de Wolfgang Amadeus Mozart, não é equiparável a uma vulgar telenovela em que se deixa a trama em suspenso para o próximo episódio...
Enquanto cidadão e contribuinte, não posso deixar de formular esta pertinente questão a quem de direito: ninguém quer acudir à Antena 2? Se não, eu tenho de ponderar seriamente a suspensão do pagamento da chamada contribuição do audiovisual.


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