04 julho 2006

Espaços musicais no Rádio Clube Português



Como é sabido, a situação da música de qualidade, na generalidade das rádios nacionais, é indiscutivelmente má (para não dizer péssima), o que para tal muito tem contribuído a tacanhez e incultura dos indivíduos a quem têm sido confiadas as 'playlists', os quais se limitam a decalcar o que de pior é feito em terras do Tio Sam. E se isto é verdade para a música de proveniência ou de matriz anglo-saxónica, ainda o é com maior acuidade para as músicas de outras matrizes culturais e linguísticas, designadamente as latinas – francesa, italiana, hispânica e lusófona. No caso concreto da música portuguesa, a situação de marginalização a que ela vinha sendo votada pelas rádios de cobertura nacional era de tal ordem que se tornou imperiosa a aprovação de uma nova lei a determinar quotas mínimas obrigatórias. Como já tive oportunidade de dizer num texto publicado em 13 de Janeiro passado, não são as quotas, por si só, que irão resolver o problema da música portuguesa no seu conjunto porque há um problema cultural nas chefias das rádios que ainda está por resolver. No entanto, não me recuso a admitir que o facto da lei existir (ou melhor a ameaça de pesadas penalizações ao seu incumprimento) possa ter como efeito secundário o surgimento de espaços reservados à música portuguesa e não apenas a subida da frequência com que determinados nomes (os fregueses do costume) aparecem nas 'playlists'. Penso que a existência de espaços musicais temáticos organizados por géneros e estilos é a melhor forma de corresponder às diferentes expectativas e sensibilidades dos vários segmentos do auditório. Uma 'playlist' onde, por exemplo, a seguir aos Creedence Clearwater Revival passam os Santos e Pecadores, ou a seguir a Nara Leão passa a Madonna acaba por se tornar uma coisa incaracterística e indigesta e, que sob o pretexto de agradar a todos os públicos, acaba por não satisfazer verdadeiramente ninguém. O ecletismo deve ser defendido, mas penso que a melhor forma de lhe dar expressão numa rádio generalista é através de espaços diferenciados por géneros e estilos musicais e com uma linha editorial coerente, onde cada ouvinte já sabe de antemão com o que pode contar (o que propicia a fidelização de públicos distintos na mesma estação emissora). Neste contexto, constato com agrado que no Rádio Clube Português esta filosofia tem vindo a ser desenvolvida sob a direcção de Luís Osório (na foto), um homem dos media que tenho em boa conta (do televisivo "Portugalmente" ainda guardo gratas recordações). Ao Clube Disco (sábados, das 19:00 às 2:00h da manhã) dedicado ao 'disco sound' somam-se agora novos espaços temáticos: Clube do Swing (aos domingos, das 22:00 às 24:00h) dedicado ao jazz cantado (um pouco na esteira de "A Menina Dança?", de José Duarte); Tapete Voador (aos sábados e domingos, das 17:00 às 19:00h) onde passam os grandes nomes do rock e da pop dos anos 60, 70 e 80; e Transatlântico (aos sábados e domingos, das 12:00 às 14:00h) reservado à música portuguesa e brasileira. Relativamente a este último, faço questão de saudar a sua criação porque a boa música de língua portuguesa bem precisa de espaços que lhe dêem guarida, atendendo à marginalização a que tem sido votada nas 'playlists' nas rádios de cobertura nacional. Um programa de música portuguesa e brasileira vem mesmo a calhar para colmatar (ou pelo menos, mitigar) o vazio deixado pelo desaparecimento do programa que José Nuno Martins tinha na Antena 1. A propósito, não seria altura deste modelo de programação musical ser também aplicado no primeiro canal da rádio pública? A adopção de espaços musicais temáticos afigura-se ainda mais pertinente e premente na Antena 1, já que a 'playlist' do Rádio Clube é incomparavelmente melhor (boa parte da música anglo-americana que passa no Rádio Clube conta-se entre a melhor de sempre, bem diferente do lixo que pulula nas Antena 1 e 3). Entristece-me e revolta-me o caminho que vem sendo trilhado pela rádio pública, mas congratulo-me que seja uma rádio privada – no caso o Rádio Clube – que esteja a concretizar medidas consentâneas com o conceito de serviço público. E é justamente neste âmbito que aproveito para deixar algumas propostas à consideração de Luís Osório:
1 – um espaço onde se pudessem ouvir os discos sugeridos por Nuno Rogeiro, de preferência com pequenas notas sobre as músicas e os respectivos autores/intérpretes;
2 – no "Tapete Voador", em vez de um alinhamento com rock e pop misturados penso que seria mais inteligente separá-los em blocos diferentes. Quem se deleita a ouvir The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Led Zeppelin ou Deep Purple é muito provável que sinta pouco (ou nenhum) prazer a ouvir The Carpenters, Carly Simon, Diana Ross ou Sheena Easton, e vice-versa. E isto não significa nenhum juízo de valor a respeito dos nomes citados e dos respectivos estilos: trata-se apenas não misturar alhos com bugalhos e de pôr cada macaco no seu galho. E já agora aproveito para manifestar o meu desejo pelo reforço no "Tapete Voador" do 'blues rock' e do rock progressivo, estilos que emergiram na segunda metade da década de 60 e estariam no auge até meados dos anos 70. Alguns exemplos: The Animals, The Paul Butterfield Blues Band, Cream, The Yardbirds, Bluesbreakers, Eric Clapton, Jeff Beck, Ten Years After, The Who, Mothers of Invention/Frank Zappa, Genesis, Yes, Rick Wakeman, King Crimson, Procol Harum, Van Der Graaf Generator, Jethro Tull, Pink Floyd;
3 – um espaço dedicado ao country e também ao folk de ambos os lados do Atlântico;
4 – um espaço reservado à música latina – francesa, italiana, espanhola e hispano-americana;
5 – um espaço dedicado ao fado, desde o antigo ao mais recente e incluindo também a canção coimbrã;
6 – maior atenção no "Transatlântico" (ou noutro espaço a criar) à música popular portuguesa (tradicional e de autor), uma área importantíssima da nossa criação musical mas muito mal tratada nas rádios nacionais. A título exemplificativo, apresento um rol de cantores, músicos e agrupamentos de qualidade que inclui boa parte dos nomes maiores da música portuguesa de sempre: Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Pedro Barroso, Manuel Freire, Luiz Goes, Paco Bandeira, José Mário Branco, Luís Cília, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Afonso Dias, João Afonso, Amélia Muge, Filipa Pais, Né Ladeiras, Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, Rão Kyao, Pedro Jóia, José Peixoto, Joel Xavier, Eduardo Ramos, José Medeiros, Francisco Naia, Isabel Silvestre, Teresa Silva Carvalho, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Maio Moço, Navegante, Raízes, Pedra d'Hera, Rosa-dos-Ventos, Belaurora, Almanaque, Quadrilha, Contrabando, Real Companhia, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel, Galandum Galundaina, Popularis, Trovas à Toa, Nem Truz Nem Muz, Dar de Vaia, Roda Pé, Modas ao Luar, Segue-me à Capela, Moçoilas, etc..

5 comentários:

Biranta disse...

A marginalização da música portuguesa, na rádio, é um problema que me preocupa! Frequentemente desligo o rádio do carro, pura e simplesmente, porque não encontro uma emissora que passe música portuguesa e recuso-me a ouvir "americanadas"... àsvezes lá me fico pelas rádios brasileiras, porque essas "não facilitam"... e fazem muito bem!
Não conheço a lei, mas concordo que, não sendo a solução, é importante que exista uma lei que ponha cobro a esta pouca vergonha e a esta falta de carácter...
A situação parece-me humilhante quando passo nalgum local público que tenha música e ouço só música "estrangeira". Em espanha, por exemplo, não me aconteceu isso: ouvir, em espaços públicos, música não espanhola...
Essa gentalha nem dá conta, porque não têm carácter, mas nem os estrangeiros têm respeito por nós, ao verificarem uma coisa destas. Pois se nem nós nos respeitamos...
Depois queixam-se de que a música portuguesa não é conhecida no estrangeiro. Pois se, quando os estrangeiros nos visitam, só ouvem a sua própria música, se é "desconhecida" cá, como pode ser conhecida "lá fora"?
Mas isso é uma questão de formação intelectual e de cultura, de referências que não existem nessa gente. Além da falta de respeito pelos seus concidadãos; porque certamente existirão muitas outras pessoas como eu que se sentem humilhadas, aviltadas e indignadas ao ouvirem só música estrangeira nos espaços públicos. Para mim é um vexame!
Esta é mais uma daquelas leis que não devia ser necessária, mas que ainda bem que existe (uma lei que imponha, no mínimo, quotas de música portuguesa).
Eu resolveria a coisa de forma muito mais simples: explicava muito bem a medida e a sua importância para a auto-estima e consideração numa nação e proibia e emissão de música não portuguesa em espaços públicos... Quais quotas qual o quê. Quem quiser ouvir música estrangeira que a ouça em privado, ou em grupos que assim o queiram e decidam. Agora impôr a toda a gente APENAS música estrangeira?
Não faltariam rádios a "produzir" programas audíveis nos espaços públicos...

campoobrigatorio disse...

FALAR DE RÁDIO?
Uma das funções da rádio é formar. Mas é certo e sabido que muitos jornalistas e animadores não dão o devido valor a esta função - ou porque não querem, ou porque não sabem. Falar correctamente na rádio é uma maneira de formar, pois o ouvinte repete o que é dito, podendo mesmo corrigir o português que usa no dia-a-dia. Mas o contrário também é verdade.
A linguagem radiofónica deve de ser simples e a dicção deve ser correcta, para que a mensagem possa ser entendida pelo maior número possível de ouvintes. Termos eruditos ou demasiado técnicos não são desejáveis, pois ao serem utilizadas palavras menos comuns, estas tornam-se ruído para quem não as descodifica de imediato. João Paulo Meneses, no livro Tudo o que se passa na TSF ...Para um “livro de estilo”, cita C. Terrien*: «Não estás cá para fazeres carreira de escritor. Na imprensa escrita podemos sempre reler-nos, completar-nos. Não quando nos encontramos diante de um microfone. O mesmo acontece com o ouvinte: é preciso que ele compreenda, que capte imediatamente, senão deixa de ouvir».
Já ouvi (e li, o que é pior) erros como “interviu” (interveio); “madrasto” (ou é padrasto ou é madrasta); “ouvisto” (ou é vi, ou é ouvi); e, já agora, “Hades” (palavra que muito confundem com “hás-de”) é, na mitologia grega, o deus do mundo inferior, soberano dos mortos. Por estas e por outras, quem escreve e fala nos media e não tem o cuidado necessário com o português é, agora, candidato a figurar numa lista de prevaricadores que Lauro Portugal vai apresentar no sítio do Clube dos Jornalistas.

* Lavoinne, Yves. A Rádio. Editora Vega, Lisboa, pag.67.

Maria disse...

SAUDOSISMO, foi o que me levou a colocar este comentário…

Texto demasiado longo, que muito fala do RCP!
Talvez a minha falta de cultura, não sirva para interpretar… mas ficam umas questões no ar:

Sr. Álvaro Ferreira, não foi o Sr. que defendeu desde sempre estes principios para a RDP?
Trocou de estação, ou consegue dominar (ouvir) RDP-Antena1-Antena2-Antena3- não me lembro nem vou fazer um “reload” ( acho que é assim que se diz “actualizar” na Internet) à minha memória não sei se falou também das restantes ( Internacional, Africa, Madeira, Açores) e agora também o RCP?

Gostava de ter as suas capacidades, a minha limitação não mo permite! Tenho uma “grande inveja” do seu poder crítico e analítico.

E muitas saudades de músicas e interpretes, de quem o Sr. fala.

PS Como participante (Contributo), não poderia colocar também botões para a MARGINAL, BESTFM e RCP?

OLIVERVOVO disse...

sinto saudades do tempo em que vivi ai em portugal , trabalhava na pontinha e escutava todos os dias a rcp, nosso brasil tao grande e nao tem uma radio tao boa ,,, um abraco a todos e ate um dia ...so a passeio e claro..mandar abraços ao amigo brasileiro que ai esta , fiu...trabalha em restaurante.moro em maringa no estado do PARANA.

Avô Mokka disse...

Sou o Avô Mokka (Fernando) do grupo Trovas à Tôa.

Vou ser sintético para mais fácil leitura:

1- Não estou preocupado com "publicidades" porque o nosso grupo não se dedica à vertente comercial.
2- Estou preocupado com "DIVULGAÇÃO" e "CULTURA" que é essa a nossa função.

3- O que ficou dito neste artigo (não conheço pessoalmente o autor) vai justamente de encontro à nossa ideia do que devia ser uma rádio responsável, agradável e com um bom nível de profissionalismo.

4- Relembrar valores e trabalhos de qualidade deve sempre sobrepor-se ao acto de acompanhar modas 8que geralmente são até de curtíssima duração).

5- Satisfazer a todos não deveria sobrepor-se ao acto de previlegiar a quem tem bom gosto, divulga a cultura e promove a arte.

6- Independentemente de considerações sobre quais as melhores rádios do País, naturalmente que me entristece termos tão pouca escolha. A maior parte do tempo de programação das rádios em Portugal (excepção óbvia da Antena 2) são variações sobre o mesmo tema de música pimba (quer esta seja portuguesa, ou estrangeira ou rotulada de POP, ROCK, FOLK, RAP, NEW WAVE, etc. etc. etc.).


RESUMO: Concordo vivamente com a essência deste artigo e bem haja o seu autor.


Saudações diatónicas
Avô Mokka