26 maio 2015

"E Deus Criou o Mundo": proselitismo abraâmico na rádio pública

Nas actuais grelhas das Antenas 1 e 2, há um programa falado chamado "E Deus Criou o Mundo", no qual um moderador (Henrique Mota, ex-director de informação da Rádio Renascença e fundador da editora livreira Principia) vai dando a palavra, ora a um judeu (Isaac Assor, oficiante da sinagoga de Lisboa), ora a um católico (Pedro Gil, director do Gabinete de Imprensa da Opus Dei em Portugal), ora a um muçulmano (Abdul Madgi Vakil, ex-presidente do Banco Efisa e do BPN), que alegadamente não falam em nome das religiões que professam mas a título pessoal. Ainda assim, são as respectivas ideias religiosas (e não outras) as que expõem quando lhes é pedido que se pronunciem acerca de determinado assunto. A primeira questão que um ouvinte que não professa qualquer daquelas religiões (professando outra ou nenhuma) tem de formular é esta: com que critério se cria na rádio do Estado, que estatutariamente é laica e se deve reger por rigorosos critérios de pluralismo, um programa circunscrito a três confissões religiosas, ignorando todas as outras com fiéis residentes em Portugal e – não menos importante – o livre-pensamento? É por se considerar que as três religiões abraâmicas são as que realmente contam e tudo o resto não interessa?
Um programa pondo à mesma mesa o judaísmo, o catolicismo e o islamismo poderia fazer sentido na Idade Média, como forma de estabelecer pontes de entendimento entre fés que embora tendo um tronco comum divergiram para posições dogmáticas praticamente inconciliáveis, mas no século XXI peca por manifesto e indisfarçável anacronismo. Não porque essas religiões deixassem de ter praticantes (se bem que, no caso do catolicismo, a prática ritualista tenha registado um acentuado decréscimo nas últimas décadas), mas por não ser admissível que se ignore todo o pensamento que a Humanidade produziu depois da Reforma Luterana e, sobretudo, a partir do Iluminismo. Por conseguinte, a ausência no programa de um protestante e, ainda mais, de um livre-pensador (agnóstico ou ateu), constitui uma lacuna gravíssima, que urge colmatar. Não é proselitismo religioso (no caso, de matriz abraâmica) que queremos no serviço público de rádio mas que os assuntos levados à antena sejam objecto de uma análise suficientemente ampla e plural, devendo obrigatoriamente de estar representado o livre-pensamento. Só assim os ouvintes ficam em condições de, livremente e sem antolhos, formaram ou alicerçarem a sua opinião sobre determinado tema, em face das ideias e dos argumentos expostos. Coisa bem diferente, portanto, do condicionamento a que vêm sendo sujeitos. E para provar como o livre-pensamento (ou o pensamento não confessional, se se preferir) é de capital importância na análise de qualquer assunto que seja do domínio do humano – e toda a religião existe para dar (ou tentar dar) resposta a inquietações humanas –, aqui se deixa dois textos ensaísticos que Agostinho da Silva publicou em 1942 e 1943, respectivamente, "O Cristianismo" e "Doutrina Cristã".



                O CRISTIANISMO

Por: Agostinho da Silva



        O primeiro texto pagão que nos fala dos cristãos é uma carta que Plínio o Moço, então governador da Bitínia, província romana da Ásia Menor, enviou a Trajano, no ano 112, a comunicar-lhe que tinha mandado prender um certo número de pessoas que se reuniam de madrugada para entoar hinos a Cristo; não há na carta de Plínio nenhuma referência, nenhuma garantia da existência histórica de Jesus; apenas se fala da existência de cristãos, mais de um século depois do nascimento de Cristo. Por 115, data que se pode pôr como a mais recuada possível, compõe Tácito os Anais e no livro XV, parágrafo 45, conta que Nero, desejoso de fazer calar os boatos que o davam como incendiário de Roma, apresentara como culpados os cristãos, cujo nome, escreve o historiador, vinha de Cristo que, no tempo de Pilatos, principado de Tibério, sofrera suplício; para um certo número de críticos, a passagem foi interpolada no texto de Tácito por um cristão; parece, no entanto, que é difícil pôr em dúvida a autenticidade da frase; sendo ela autêntica, tem que se discutir donde veio a informação a Tácito; é difícil assegurar que a tenha colhido nos arquivos, parecendo o mais provável que os pontos essenciais relativos à vida de Cristo já fossem por essa altura bastante conhecidos de todos; os cristãos, pela época em que Tácito escrevia, tinham a sua comunidade de Roma bem organizada e os textos evangélicos já deviam ter-se fixado; pelo menos, é difícil apontar o texto de Tácito como garantia absoluta da existência histórica de Jesus. Suetónio, que publicou as suas Vidas dos Doze Césares cerca de 121, escreve no capítulo 21 da Vida de Cláudio que o imperador expulsou de Roma os judeus que andavam em frequentes tumultos, por instigação de Cresto; podendo admitir-se que Cresto seja Cristo, havia a dificuldade de ser dado como contemporâneo e promotor, presente, dos tumultos: essa dificuldade põe-se de parte porque os cristãos acreditavam que Jesus estava com eles e era natural que um pagão interpretasse ou exprimisse mal essa crença; sabe-se também que houve conflitos entre judeus e cristãos e é talvez a essa questão que Suetónio se refere; em todo o caso, o texto nada prova sobre a existência de Cristo: a prova é toda da existência dos cristãos, cerca de vinte anos depois da data tradicional da morte de Jesus, e de que eles se davam com discípulos de Cristo. Dos historiadores judaicos, sabemos que Justo de Tiberíade, nascido por volta do ano 30, não fazia a mais pequena referência a Jesus; Flávio Josefo (37?-100?) fala de Cristo nas Antiguidades Judaicas, entre a narrativa dos tumultos de Jerusalém e a deportação para a Sardenha de quatro mil judeus (18,3,3); declara que Jesus era mais do que um homem, por praticar actos maravilhosos, que foi o Messias, que ressurgiu ao terceiro dia, que viveu segundo as profecias; como Flávio Josefo depois de escritas estas linhas se não converteu ao cristianismo, como o texto se insere entre duas narrativas de carácter diferente, como, por outro lado, sabemos que o texto de Flávio Josefo foi trabalhado pelos cristãos, é empresa arriscada a de defender a autenticidade do parágrafo; um texto da mesma obra, 20,9,1, em que se menciona um irmão de Jesus chamado Cristo, é talvez mais difícil de pôr de parte, podendo, no entanto, defender-se que se trata de uma interpolação. O relatório de Pilatos e a carta de Lêntulo que se costumam citar como garantia da existência de Cristo não têm nenhuma espécie de autenticidade histórica.
        Dos textos cristãos temos de considerar em primeiro lugar os Actos dos Apóstolos, que devem ter sido compostos nos princípios do século II e cujo carácter lendário não deixa tomá-los, pelo historiador, que tem naturalmente uma atitude diversa da dos crentes e igualmente respeitável, como testemunhos seguros e insuspeitos. Nas Epístolas de S. Paulo, que teria, segundo parece, sido contemporâneo de Jesus, há poucos informes sobre Jesus: o que interessava a S. Paulo, verdadeiro fundador da nova religião, não era o Jesus que nascera na Galileia, pregara entre os judeus e viera acabar a Jerusalém; o que o prende é o Cristo que morre para salvar o género humano e que ressurge para voltar à plena glória; é o princípio da substituição do Jesus terrestre pelo Cristo teológico e místico que só pode interessar à história de S. Paulo ou dos doutrinários que se seguiram. Os outros textos apostólicos têm, de um modo geral, o mesmo carácter: o Jesus histórico é visto através do que pensam os Apóstolos depois da morte e da ressurreição do seu Mestre; além de tudo, o facto de se terem mantido durante muito tempo sob a forma oral deve ter prejudicado a autenticidade de muitos pontos. Quanto aos Evangelhos, que são os documentos essenciais, temos de os dividir em dois grupos, porque o Evangelho segundo S. João difere totalmente dos Evangelhos segundo S. Marcos, S. Mateus e S. Lucas; é uma elaboração culta, toda repassada de teologia e de misticismo, de alguns dos dados fornecidos pelos outros Evangelhos; a aproximação ou tentativa de aproximação com doutrinas gregas, de modo a tornar mais fácil a assimilação do cristianismo, é patente em todo o texto; de resto, o Evangelho segundo S. João menciona muitos episódios que não aparecem nos outros Evangelhos, contradita-os em pontos em que os três textos estão de acordo e apresenta-nos um Jesus de carácter bastante diferente do Jesus dos outros Evangelhos: é um Jesus eterno, pronto para o culto, semelhante ao que nos aparece nas Epístolas de S. Paulo. Os restantes três Evangelhos são chamados Sinópticos porque é possível dispô-los de maneira que as narrativas coincidam, embora haja também algumas dissemelhanças; mas, na verdade, é mais importante o que têm de comum; é difícil marcar-lhes uma data de composição, parecendo como mais provável que tenham sido escritos entre cinquenta e cem anos depois da morte de Cristo; devem ter sido redigidos fora da Palestina e o texto é pouco seguro, porque entre a altura em que foram escritos e a época em que entraram no cânone e, portanto, se estabilizaram devem ter decorrido uns cem anos; é quase certo ainda que houve um Evangelho primitivo e que os nossos actuais Evangelhos não são mais do que redacções ou recensões desse texto único, segundo S. Marcos, S. Mateus ou S. Lucas; o que mais se aproximaria do Evangelho protótipo, o que nos aparece como mais antigo, é o de S. Marcos; é provável também que S. Mateus e S. Lucas tenham trabalhado sobre S. Marcos: tenderiam a prová-lo os desenvolvimentos, comuns aos dois, sobre episódios narrados em S. Marcos com simplicidade e rapidez; seria então necessário admitir que os dois evangelistas tinham ao seu dispor um outro texto, o dos Discursos ou Ditos de Jesus. Os Evangelhos não canónicos e os textos apócrifos são, ou secundários em relação aos canónicos, ou de pura fantasia.
        Perante a pobreza e a reduzida segurança histórica dos textos que temos ao nosso dispor, levantou-se, a partir do século XVIII o problema de saber se Jesus tivera ou não uma existência real; todo o interessado num ataque à Igreja cristã ou, de um modo mais largo, às concepções religiosas, tomou quase sempre o partido da negativa ou pelo menos da dúvida; asseguravam que Jesus, a existir, teria sido mencionado nos historiadores não cristãos, o que era desconhecer por completo o grau de importância de Cristo no mundo pagão, e que os textos cristãos não mereciam a menor confiança, o que era alargar ao total o que só pode afirmar-se de uma parte; por seu turno, os que se batiam pelo lado contrário defenderam posições absolutamente insustentáveis. Modernamente, o sentimento de hostilidade desapareceu bastante dentre os críticos que sustentam a tese da não existência de Jesus: para eles, Cristo é uma personagem mítica fabricada em todos os pormenores por um hábil mosaico de textos do Velho Testamento e de lendas respeitantes aos numerosos deuses da Ásia Menor e do Egipto; o fundador ou fundadores do cristianismo, o inventor da doutrina, vendo-se na necessidade de um deus, teria criado Cristo; as interpretações fantasistas a que os mitólogos sujeitam os textos, as aproximações audaciosas, as explicações absurdas para o que encontram de inexplicável dentro da sua maneira de ver são em número demasiado para que se lhes possa dar grande crédito; o não admitirem a existência histórica de Jesus leva-os sempre, apesar de toda a possível habilidade dialéctica, ao ponto fundamental de admitirem um pensador inicial, já que seria excessivo romantismo o de acreditarem num movimento colectivo como autor do Evangelho; é questão diferente a de saber se a vida desse pensador decorreu ou não segundo o que se conta nos Evangelhos e nos outros textos e se houve ou não intromissão de lendas e de episódios da vida de outros profetas ou deuses; há um cristianismo, uma doutrina e um movimento cujo surgir se tem de explicar; o mais simples, o mais de acordo com os testemunhos, o que levanta menos problemas de interpretação, e está, ponto importante mesmo em história, mais de acordo com o bom senso, é aceitar a existência histórica de Jesus, embora com o afastamento dos textos que, muito importantes para o crente, não o são tanto para o historiador; as frases que se citaram dos historiadores pagãos não são negativas da existência, antes pelo contrário; pelo menos deixam a questão em aberto; os textos cristãos têm, sempre sob o ponto de vista do historiador, muito de lendário, muito de interessante para o investigador de mitos religiosos, mas há um núcleo de afirmações que não parece ser fácil abalar: a personalidade de Jesus resiste aos ataques da crítica histórica; eis o que tem importância para quem vê o problema sem paixão.
        Segundo o que se pode apurar de mais provável, e pondo de parte todo o maravilhoso que envolve a vida de Cristo, teria ele nascido na Galileia, talvez em Nazaré, talvez em Belém, em data que admite uma incerteza de quinze anos, tendo sido o dia que hoje se celebra como o Natal do Cristo fixado em Roma apenas no século IV. Era filho de Maria e de José, possivelmente carpinteiro, embora pareça que a profissão do pai de Cristo vem apenas de uma má interpretação do texto aramaico, língua em que Jesus se exprimia e em que devem ter sido redigidas as primeiras narrativas. Os filhos foram vários e há elementos para estabelecer a existência de irmãos e irmãs de Cristo; puseram-lhe o nome de Jesus, derivado do nome hebraico [Joshua] de que se tirou para português Josué, e bastante vulgar no tempo; um texto evangélico fala ainda de um outro nome, Emanuel, cuja significação, «Deus connosco», se aproxima de certo modo do de Jesus: «Socorro de Iahvé (Jeová)»; é difícil estabelecer se o cognome de Nazareno vem de Nazaré ou de uma seita religiosa a que Jesus teria pertencido. Nada se sabe quanto aos estudos que Jesus fez durante a sua infância; teria talvez frequentado uma escola elementar, se é certo que elas existiam; em todo o caso, em escola ou sem ela, teria aprendido a ler e a escrever, sendo iniciado em casa, ou num anexo da sinagoga, no estudo da Tora, conjunto dos textos sagrados, que todo o menino judeu, pelo menos a partir de certa época, lia por volta dos dez anos; não há, no entanto, nos Evangelhos nenhuma prova dos conhecimentos profundos que Jesus teria da Tora e deve dizer-se que o pormenor também não tem importância, embora Cristo tivesse dado como objecto da sua missão o cumprimento da Lei e dos Profetas. Desconhecem-se quais as influências religiosas que haveria à volta de Jesus; é de admitir que tivesse algum conhecimento das doutrinas essénicas, do pensamento judaico-alexandrino e sobretudo do farisaísmo, com cujas opiniões em muitos casos se mostra de acordo, embora reprove a prática; é até possível que grande parte das invectivas evangélicas contra o fariseu venha menos de Jesus do que do redactor interessado no ataque aos que se mostravam adversários irredutíveis e perigosos da nova religião; as relações de Cristo com outras seitas judaicas são difíceis de marcar porque pouco sabemos do que pregavam e das condições em que se desenvolveram; Jesus deve ter feito a Jerusalém as visitas que eram rituais entre os judeus, pelo menos na Páscoa, sendo possível que dessas visitas tivesse vindo muito elemento importante para a formação do seu pensamento; é, por outro lado, impossível estabelecer nada de certo sobre a influência que teria havido da parte de S. João Baptista. Como profissão teria tido Jesus a de carpinteiro, se não se trata de uma confusão com a do pai: de qualquer modo teria tido um ofício que o mantinha em contacto com a gente humilde da Galileia; sabia das suas queixas e das suas aspirações a uma vida melhor.
        Por volta dos trinta anos, talvez devido ao exemplo de Baptista, mais seguramente por um impulso íntimo, Jesus começa a pregar, depois de um período de recolhimento e de meditação no deserto, ou, pelo menos, em local afastado dos centros mais importantes; a família de Jesus, mãe e irmãos, não aceitou de bom grado o caminho que tomara Cristo e por várias vezes tentou dissuadi-lo: a oposição dos parentes, que melhor deviam compreendê-lo, parece ter feito em Jesus grande impressão e ter, por certos aspectos, marcado o seu pensamento ou, talvez melhor, a sua atitude; liberto dos seus e mais à vontade em terra estranha do que entre patrícios, Jesus vai pela Galileia, por Gérasa, pela Betsaida, pelos territórios do Sídon e de Tiro e pelas cercanias de Jerusalém, pregando a sua doutrina de uma renovação espiritual e de um reino divino a estabelecer na Terra; seguem-no alguns discípulos, gente humilde, que a personalidade de Jesus, talvez mais que as suas ideias, impressionam fortemente; acreditam num triunfo próximo e vão para Jerusalém cheios de esperança de que Jesus se conseguirá impor. Enquanto Cristo andara pelas aldeias não houvera oposição de importância: Jesus era, possivelmente, olhado pelos dirigentes como uma personagem extravagante, mas de cuja reduzida influência, e ainda assim longe dos centros onde se decidiam as grandes questões religiosas e políticas, nada havia a temer; a vinda a Jerusalém, sobretudo por ocasião da Páscoa, com a grande multidão que havia na cidade e a exaltação religiosa e patriótica que era natural, punha a questão de maneira diferente. A primeira oposição veio dos sacerdotes do Templo, conservadores, dispostos a defender os seus lugares e a sua influência sobre o povo: e se é certo que Jesus provocou tumultos no vestíbulo do Templo, expulsando os vendilhões, mais se lhes devia ter despertado a atenção e apurado o desejo de agir contra o perigoso inovador. Por outro lado, os romanos, que dominavam a Judeia, temiam toda a agitação judaica durante as festas da Páscoa, porque facilmente podia degenerar em revolta: fazia-se o reforço das guarnições e o governador romano estava pronto a agir com toda a energia. Provavelmente por denúncia do conselho de sacerdotes, Jesus foi preso pela polícia romana, ouvido por Pôncio Pilatos, se era ele o pretor; uma manifestação da populaça, talvez organizada pelos sacerdotes, forçou o romano a uma decisão, a de condenar Jesus à morte; é possível, no entanto, que não haja em tudo isto senão uma invenção de evangelista para tornar odiosos os judeus; levado para uma iminência junto da cidade, sofreu Jesus o suplício da crucificação segundo o processo oriental que os romanos tinham adoptado e de que os nossos crucifixos dão uma ideia errada; são bastante suspeitas, em autenticidade histórica, todas as circunstâncias tradicionais do processo e da morte de Jesus.
        Se é tarefa difícil a de estabelecer uma biografia de Jesus, não o é menos a de uma sistematização da sua doutrina; o facto mais importante em Cristo não é ele aparecer com um pensamento bem nítido, bem coerente, fruto de uma meditação regular e demorada: o que prendeu os discípulos e o povo da Galileia, o que fez tomar como um guia dos homens foi a sua personalidade, a um tempo cheia de amor e de audácia, foi o calmo, sincero heroísmo que o fez ir em defesa dos pobres, dos humildes, contra uma organização social que os oprimia, foi o entusiasmo, a piedade que o levaram a trazer aos homens a esperança de um magnífico futuro, foi a sua crença de que há um fundo bom na humanidade e de que é possível construir na terra um paraíso; os devotos da Lei, os adoradores oficiais de Deus, estavam longe de mais e apareciam ao povo como mais dispostos a aliar-se com os governantes em tudo que significasse opressão moral ou material, do que a esforçar-se por que surgisse um mundo diferente; era certo que no que falavam ou escreviam citavam muito o amor dos homens e a veneração do espírito divino, louvavam a mansidão e a humildade, mas também não era menos certo que o seu procedimento, quase sem excepção, se guiava bastante pelas linhas contrárias; quando Jesus surgiu tudo foi diferente: o pregador praticava a sua doutrina, manifestava-se contrário, com uma coragem que os impressionava, a tudo que lhes era hostil na vida e não se contentava, como os outros, com uma vaga esperança de que um dia, nos céus, todos seriam recompensados das suas agruras; era na terra, no mundo sólido, tangível, de realidades, no mundo em que eles tinham fome e sede e sentiam as dores do trabalho, que Jesus lhes prometia uma vida diferente, uma existência de eleitos. Perante estas ideias fundamentais, pouco lhes importava que o pensamento de Jesus fosse ou não sistemático; até foi decerto elemento importante no trabalho de Cristo que o seu ensino fosse tão familiar, tão acessível, tão adaptado, quase sempre, à compreensão dos ouvintes; uma lógica muito estrita, uma apresentação demasiado escolástica tê-lo-iam prejudicado; de resto havia mais em Jesus uma emoção, um sentir directo perante os sofrimentos e as esperanças do povo, um contacto imediato com a essência da sua vida, do que um forte poder de raciocínio, uma clareza excepcional de inteligência. A esta dificuldade intrínseca que vem da personalidade de Jesus juntam-se, para nós, outras que não são menos graves: frequentemente, o pensamento de Cristo apresenta-se-nos contraditório, ou porque o foi na realidade, ou porque há no Mestre e nos seus discípulos duas fontes de ser que se contrariam, a do que traziam como inovadores e a do que recebiam do ambiente, como homens que viviam no seu país e no seu tempo; é possível também que houvesse uma doutrina para os mais íntimos, para os que deviam ser o sal da Terra, outra para o vulgar e que tomemos como moral para todos a que seria apenas a do pequeno grupo destinado a fundar o Reino; por outro lado, seria fácil provar que Jesus não fazia uma distinção clara entre os preceitos que dava para se viver até o grande dia em que tudo se havia de transformar e as suas visões do que seria a vida logo que o Reino se instaurasse; finalmente, temos de contar com a introdução de sentenças pelos cristãos, levados por interesse de proselitismo ou de teologia, e com a inevitável deturpação que fazemos ao ler, com o espírito ou os espíritos de hoje, os textos de há vinte séculos.
        Há, porém, um certo número de pontos que parecem poder afirmar-se com alguma segurança. O primeiro refere-se ao carácter religioso do pensamento de Jesus: se se considerar religioso o que falar em Deus ou mostrar veneração por um lugar de ritos, certamente que Jesus tem de ser contado entre os religiosos; se, porém, se tomar como atitude religiosa a de uma forte consciência moral em face de todos os problemas universais, a de quem procura uma solução do problema essencial da existência, isto é, do problema do bem e do mal, com todas as suas implicações, procurando ir até aos limites da questão e não recuando perante o que aparece como resultado, o que fez, por exemplo, um Buda, então Cristo não pode apontar-se como um grande mestre religioso; nem uma única vez ele põe a dificuldade e toda a sua força espiritual parece empregar-se no sentido de que se organize a terra de modo que a vida material aos homens não pese sobre eles e as almas possam dedicar-se ao que é verdadeiramente humano; Buda fala dos problemas que existiriam, mesmo para o homem que tivesse toda a parte material da sua existência perfeitamente resolvida: ele próprio é um príncipe que tem tudo quanto quer e que tudo abandona porque sente o trágico da vida, de uma vida que é trágica exactamente porque é vida; a acção, por consequência, aparece como um mal para o Buda; o que encontramos em Cristo é bem diferente: Jesus vem dos pobres, é um deles, e interessam-no pouco as questões metafísicas, como o interessam pouco as questões morais que não signifiquem uma ajuda para o estabelecimento do Reino; a piedade, o amor do próximo, são em Buda uma consequência da vanidade e da dor de viver: deve-se ser bom para tudo o que existe, porque tudo sofre de existir; a piedade de Jesus, o amor que ele reclama são uma força revolucionária, neste sentido de que hão-de apressar a vinda do mundo divinizado: se o rico amasse o seu irmão, pensa Jesus, as riquezas igualmente distribuídas dariam para todos e o mundo seria feliz; mas Buda, ao abandonar a riqueza, não o faz por amor aos outros: sendo pobre sofre menos, porque vive com menos intensidade. Exactamente porque não anseia por nenhum modelo do mundo, mas quer abolir o mundo, exactamente porque não tem de apontar aos homens um padrão de existência e uma esperança de protecção, mas o Nada, Buda não precisa de Deus; em Jesus ele aparece continuamente e tão presente em tudo, nos céus, na terra, nas plantas e nos meninos, que quase poderíamos falar num panteísmo, se, por outro lado, Jesus não mantivesse firme a ideia de um mundo absolutamente distinto de Deus; o que é certo, no entanto, é que o Deus de Cristo não aparece definido com clareza; a ele, que vem pregar uma transformação social, basta-lhe a ideia de um Pai, Senhor do mundo, Criador dos homens, extremamente bondoso e extremamente justo, que ajudará seus filhos a possuírem o Reino e castigará os que se opuserem à vitória dos pobres; quanto ao resto, Deus é a um tempo pessoal e impessoal, transcendente e imanente, e ficam por resolver, até, nalguns casos, por tocar, problemas ligados ao de Deus e tão importantes como o das relações entre o homem e o espírito divino, o do bem e do mal, o do livre arbítrio e do fatalismo, o da conciliação de uma suprema bondade com uma suprema justiça.
        Quanto ao homem, pensa Jesus, em primeiro lugar, que ele é, na Terra, um ser superior aos outros; porque tem uma alma vale mais do que os animais e as plantas e todo o mundo é naturalmente o seu servidor: quando os bons possuírem a terra, o homem servir-se-á de tudo o que o mundo lhe apresenta, ou para as necessidades materiais, que sempre terá, o que não quer dizer que lhe absorvam o pensamento, ou para que por meio da criação possa compreender e louvar o Criador; para Cristo, o homem é o centro da vida na Terra e tem o direito de utilizá-la para viver bem; esse viver bem poderá dar-lhe um dia a possibilidade, que não tem hoje, de se comprazer no espírito, de adorar o Eterno, ou tomado como um Deus-pessoa ou tomado como o pensamento do universo; Jesus acha que o homem não tem ao seu dispor outra «linguagem de Deus» que não seja a do mundo, a do conjunto das coisas que lhe impressionam os sentidos, o que pode não ser contraditório com a ideia da existência de uma alma; é esse mundo que tem de conquistar para ser homem, para revelar toda a bondade, toda a beleza que lhe são inerentes. Para Jesus, o homem não é um ser mau, nem aparece nos Evangelhos a ideia de uma queda ou de uma salvação necessária; as criancinhas, não corrompidas pela sociedade, tão naturais ainda como os lírios do vale ou as estrelas do céu, são boas, são afectuosas, aparecem-lhe como o modelo do que deve ser o discípulo perfeito; são as organizações sociais fundadas na injustiça e na opressão que corrompem o homem, o afastam da sua própria natureza, o impedem de ver Deus; para Jesus, a maior desgraça do homem é esse exílio de si próprio, exílio que pode terminar quando a miséria não for mais do que um facto do passado e tão longe de nós que nem a sua lembrança nos possa vir pungir. Simplesmente, para que o Reino venha e firmemente se estabeleça é preciso que os homens façam um esforço pela bondade, se arrependam, ou, melhor, virem de rumo na sua concepção da vida e atendam aos sofrimentos dos seus irmãos homens; tal dever incumbe naturalmente em maior grau aos poderosos, aos dirigentes, aos que têm nas suas mãos o destino dos povos, aos que manejam as riquezas da terra; as invectivas contra os ricos não têm outro significado: Jesus revolta-se contra o seu egoísmo, contra o desprezo em que têm a vida alheia, contra a vontade de se manterem na sua posição, sejam quais forem os sofrimentos dos outros; não quer dizer que na maior parte das vezes os pobres não sejam tão maus como os ricos: a sua frase acerca dos pobres em espírito condena os maus ricos e os maus pobres; mas Jesus sabe também que a realizar-se o ideal da maioria dos ricos — ser rico de qualquer modo — nunca mais se poderá estabelecer o Reino, ao passo que se se realizar o ideal da maioria dos pobres — terem todos o que precisam — o Reino ficará como que automaticamente estabelecido; a moral de Jesus é, portanto, a do desprendimento dos bens terrestres, isto é, a de não trabalhar por eles contra os outros, a do amor dos homens como único culto digno de verdadeiros adoradores de Deus, a do auxílio a quem deseja outro futuro, a da cooperação na obra construtiva que servirá a todos; os inimigos de Deus são, para Jesus, os inimigos do povo: a esses nada os salvará, por muito dinheiro que tenham, nem por maiores que sejam as ofertas no Templo, nem por mais que rezem, nem por muito protegidos que se julguem pela polícia dos sacerdotes ou pela polícia dos romanos.
        A expressão Reino dos Céus ou Reino de Deus que Jesus emprega para designar a humanidade futura não significa de modo algum uma ascensão, após a morte, para um paraíso distante e vago; neste ponto os textos são bem explícitos: é a terra o que os bons possuirão, não o céu, é a nós que há-de vir o Reino e não os homens que terão de ir ao Reino; Reino dos Céus ou Reino de Deus quer dizer Reino divino, isto é, realização na terra do pensamento de Deus; parece que se interpretaria facilmente o que pensava Jesus substituindo-se Reino de Deus por plenitude de vida; o Reino é um momento do mundo, uma fase final de uma longa evolução em que os homens, sem necessidades materiais por satisfazer, se sentirão plenamente de acordo consigo e de acordo com o universo; estarão utilizadas todas as suas possibilidades numa actividade harmónica e bela; o problema de discutir se, realizado todo o progresso material, a Humanidade será feliz, se não haverá outras aspirações, já é outro problema e Jesus não o põe, o que acentua bem o carácter social da sua pregação: a questão urgente é a do material, como base indispensável para uma liberdade de espírito; Jesus entende que é absolutamente necessário que o homem não tenha de pensar, com uma preocupação angustiada e absorvente, nos cuidados do corpo: não só, a não ser em casos excepcionais, virá daí uma perturbação do espírito, como também se impedirá todo o verdadeiro ascetismo que consiste, para Jesus, não num corte do que podemos desejar na vida, mas num dispensar, sem esforço, daquilo que nem desejamos; não há nos Evangelhos um único preceito de ascetismo que envolva violência de espírito sobre o corpo e que tenha por consequência o inevitável estreitamento do espírito; é este último que tem de se desenvolver bastante, que tem de ser forte no grau necessário para que possa não ser dominado pelo corpo; ora as condições económicas da Humanidade, tais como Jesus as conheceu e se mantiveram depois, não deixam que o espírito se exerça e afirme; no Reino não haverá problemas económicos, todos hão-de ser como as flores que não fiam nem tecem e andam com vestuários mais belos do que os de Salomão ou como as aves ligeiras que sempre encontram alimento e lugar para um ninho; no Reino, que se abrirá a todos, sem distinção de nações, de raças, de classes ou de castas, não haverá violências, mesmo as de defesa, nem juramentos, nem posse de bens materiais, nem o homem terá de ser previdente, no contínuo temor da velhice, da doença, da morte; no Reino ninguém terá que trabalhar, o que significa certamente que ninguém terá de se sujeitar a tarefas que vão contra as suas tendências íntimas ou abatem a saúde ou são puras formas de escravatura; no Reino se poderá ter desprezo pelo dinheiro, dado que exista; no Reino não haverá a menor ideia de organização familiar, que Jesus liga, decididamente, a um certo estádio de evolução económica e moral; no Reino não haverá Estado, com príncipes que oprimam os cidadãos, antes cada um será, voluntariamente, por amor e interesse do espírito, o servidor dos outros; no Reino não haverá processos, nem tribunais, nem juízes; no Reino não haverá senão bondade, amor, fervor espiritual, contemplação das ideias, profunda, segura, inabalável felicidade.
        Não havia para Jesus ou para os seus discípulos dúvida alguma de que o advento do Reino estava próximo, de que todos os que o escutavam nele se poderiam instalar; o desastre de Jerusalém veio mostrar que o mundo não acolhia os incitamentos de Jesus como ele esperava, e os Apóstolos tiveram que transferir a ideia do Reino da Terra para os Céus; segundo eles, a verdade, que lhes era naturalmente indiscutível, da pregação de Cristo só se salvava falando de uma ressurreição e de um paraíso, de uma ida ao Reino, não de uma vinda do Reino; da doutrina social passava-se à doutrina religiosa e abria-se o caminho a todas as deturpações, a todos os acrescentos; dentro em pouco a Jesus se substituiria S. Paulo, a Igreja apareceria em lugar da comunidade primitiva dos reformadores do mundo; no entanto, o choque da personalidade de Jesus fora demasiado forte para que tudo se abolisse e a cada passo as autoridades tiveram de intervir para sufocar os movimentos subversivos de verdadeiros cristãos; a ideia de um futuro económico melhor, de uma idade de ouro levada para o termo da evolução humana, de um protesto contra as desigualdades sociais, de uma esperança nas possibilidades do homem, mostrava-se apesar de tudo e reviveu com mais pureza, seguindo nisto o primeiro que a formulou, em pensadores que nada tinham que ver com a religião do que naqueles que se apregoavam religiosos. No entanto, a queda de Jesus era inevitável e pode-se talvez defender a afirmação, que parecerá paradoxal, de que tão amigos da humanidade como Jesus foram os que o condenaram e os que impediram que a sua doutrina se conservasse social; o futuro será tão possível pela palavra de Jesus como pelos actos dos que transformaram uma ideia revolucionária numa religião inofensiva para os seus interesses e até, depois de Constantino, favorável aos seus interesses; efectivamente, como os meios de produção eram, no tempo de Jesus, insuficientes para sustentar bem toda a Humanidade, era justo que vivessem melhor os mais capazes de iniciativa, de inteligência, de perseverança; tudo o que havia, repartido igualmente por todos, daria pouco mais do que a fome a cada um e então a Humanidade condenar-se-ia a um vegetar de que nada de bom poderia sair; o sacrifício de milhões de homens deu a alguns a possibilidade de criarem, pelas ciências e pelas técnicas, os meios de produção suficientes para que o resultado de uma divisão equitativa não seja a miséria geral, mas a abastança geral e, portanto, para que possa realizar-se a previsão do Reino; o que Jesus disse do rico e do poderoso só é justo no momento em que, havendo o suficiente para todos, alguns tentam impedir que o Reino se estabeleça; é então que tomam o seu pleno significado as palavras de Jesus quando afirma que não veio a trazer a paz, mas a guerra e fala da probabilidade de o Reino se instaurar só depois de uma catástrofe que pareça abalar os próprios fundamentos do mundo; não há em Jesus, como o quiseram muitos dos seus continuadores, uma resignação absoluta ao mal, uma desistência de todo o combate, um recuo perante a violência que seja preciso empregar se quem adora acima de tudo a riqueza se colocar ante o Reino para impedir que entrem os outros e ele próprio; acima de tudo é-se pacífico e sempre terá paz quem por ela vier, o que não exclui a possibilidade de, cortados os caminhos de entendimento, encontrar as espadas quem pela espada se quiser defender.

("O Cristianismo", série "Iniciação: Cadernos de Informação Cultural", Lisboa: Edição do autor, 1942; in "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora, 1999 – p. 67-80)



                DOUTRINA CRISTÃ

Por: Agostinho da Silva



        1. Existe um Deus que é o conjunto de tudo quanto apercebemos no Universo. Tudo o que existe contém Deus, Deus contém tudo o que existe. Pode-se, sem blasfémia, considerar o aspecto imanente ou o aspecto transcendente de Deus; pode-se, sem blasfémia, falar não de Deus mas apenas do Universo, com Espírito e Matéria, formando um todo indissolúvel. A doutrina de Deus, tal como a pôs Cristo, permite considerar todas as religiões como boas embora em graus diferentes, todos os homens como religiosos. Não poderá, portanto, fazer-se em nome de Deus qualquer perseguição: todo o homem é livre para examinar e escolher; a maior ou menor capacidade de exame e o resultado da escolha serão, em qualquer caso, a expressão do que ele é e do máximo a que pode chegar segundo as suas capacidades.

        2. A visão mais alta que podemos ter de Deus, nós que somos apenas uma parte do Universo, é uma visão de Inteligência e de Amor; os pecados fundamentais que o homem poderá cometer são as limitações da Inteligência ou do Amor: toda a doutrina estreita, sem tolerância e sem compreensão da variedade do mundo, toda a ignorância voluntária, todo o impedimento posto ao progresso intelectual da humanidade, toda a violência, todo o ódio, limitam o nosso espírito e o dos outros, impedem que sintamos a grandeza, a universalidade de Deus.

        3. Deus não exige de nós nenhum culto; prestamos a nossa homenagem a Deus, entramos em contacto pleno com o Universo, quando desenvolvemos a nossa Inteligência e o nosso Amor: um laboratório, uma biblioteca são templos de Deus; uma escola é um templo de Deus; uma oficina é um templo de Deus; um homem é um templo de Deus, e o mais belo de todos. Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor; e praticamos o mais elevado dos cultos a Deus quando propagamos a cultura, o que significa o derrubamento de todas as barreiras que se opõem ao Espírito. Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus, os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos; mas dos que subirem mais alto não pode haver outra atitude senão a de os ajudar a transpor o longo caminho que ainda têm diante. Ninguém reprovará o seu irmão por ele ser o que é; mas com paciência e persistência, com inteligência e com amor, procurará levá-lo ao nível mais alto.

        4. Para que possa compreender Deus, para que possa, melhorando-se, melhorar também os outros, o homem precisa de ser livre; as liberdades essenciais são três: liberdade de cultura, liberdade de organização social, liberdade económica. Pela liberdade de cultura, o homem poderá desenvolver ao máximo o seu espírito crítico e criador; ninguém lhe fechará nenhum domínio, ninguém impedirá que transmita aos outros o que tiver aprendido ou pensado. Pela liberdade de organização social, o homem intervém no arranjo da sua vida em sociedade, administrando e guiando, em sistemas cada vez mais perfeitos à medida que a sua cultura se for alargando; para o bom governante, cada cidadão não é uma cabeça de rebanho; é como que o aluno de uma escola de humanidade: tem de se educar para o melhor dos regimes, através dos regimes possíveis. Pela liberdade económica, o homem assegura o necessário para que o seu espírito se liberte de preocupações materiais e possa dedicar-se ao que existe de mais belo e de mais amplo; nenhum homem deve ser explorado por outro homem; ninguém deve, pela posse dos meios de produção e de transporte, que permitem explorar, pôr em perigo a sua liberdade de Espírito ou a liberdade de Espírito dos outros. No Reino Divino, na organização humana mais perfeita, não haverá nenhuma restrição de cultura, nenhuma coacção de governo, nenhuma propriedade. A tudo isto se poderá chegar gradualmente e pelo esforço fraterno de todos.

("Doutrina Cristã", Lisboa: Edição do autor, 1943; in "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora, 1999 – p. 81-82)



Capa do livro "Textos e Ensaios Filosóficos I" (Âncora Editora, 1999)

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