10 janeiro 2007

Em defesa do programa "Ritornello"

Antes de mais, começo por me solidarizar com Jorge Rodrigues, o autor e apresentador do programa "Ritornello" pois tenho o grande prazer e proveito de pertencer ao vasto auditório que costuma ouvi-lo ao fim da tarde, na Antena 2. Além de ser um profissional de alto gabarito e um grande conhecedor do repertório erudito e respectivos intérpretes, Jorge Rodrigues possui também uma das melhores vozes da Antena 2, coisa nada despicienda numa rádio onde o serviço de locução sofreu nos últimos tempos uma acentuada degradação. A somar a isso, os convidados que criteriosamente escolhe para levar ao estúdio representam um motivo de acrescido interesse para o ouvinte por lhe permitir desvendar o lado menos institucional e menos cinzento das figuras públicas, designadamente através das suas escolhas musicais. Foi através do "Ritornello" que fiquei a conhecer os gostos musicais de figuras tão importantes como Eugénio de Andrade, Mário Cláudio ou José Saramago, entre outras. E jamais esquecerei a emissão em que participou, via telefone, de D. Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena, emissão essa especialmente dedicada aos magníficos poemas alusivos a obras-primas da música erudita ("Variações Goldberg" de Bach, "Requiem" de Mozart, etc.) que o grande poeta escreveu no livro "Arte de Música". Por tudo isto, não posso compreender, e ainda menos aceitar, a proibição imposta a Jorge Rodrigues de fazer entrevistas no seu programa, restringindo-o à função de tocador de CDs. Em primeiro lugar, e sem pôr em causa a autoridade da direcção na definição das linhas orientadoras da programação, compete à mesma direcção respeitar a liberdade e a autonomia dos realizadores no exercício do seu métier. Ora o "Ritornello" é um programa de autor e ainda por cima em directo e, como tal, faz todo o sentido que o realizador tenha a liberdade de poder contar com a participação, presencial ou à distância, de pessoas que, a seu ver, possam dar um contributo válido para a valorização do serviço público. Neste sentido, a limitação imposta pela direcção, além de descabida, parece-me abusiva e, indubitavelmente, lesiva da dignidade e do brio profissional do autor do programa. Em segundo lugar, estamos a falar, nem mais nem menos, do programa de maior audiência da Antena 2, facto que deve ser salientado e enaltecido porque conseguido por mérito do autor e sem descer na fasquia de qualidade e sem cedências à mediocridade. E se o programa regista tão altas audiências é porque os exigentes ouvintes da Antena 2, a par da música, também apreciam as conversas que Jorge Rodrigues entabula com os seus convidados, pormenor que a direcção devia ter em conta. A menos que Rui Pêgo queira ter a pretensão paternalista e arrogante de achar que os ouvintes estão errados e que ele, na sua superior infalibilidade, é que sabe o que é bom para eles. Em terceiro lugar, não consigo entender a razão para, de um momento para o outro, não poder haver entrevistas no "Ritornello" quando elas existem no programa congénere do período da manhã, o "Império dos Sentidos". Com que critério e fundamento é que Rui Pêgo quer banir as entrevistas na viagem de regresso do emprego e as mantém na viagem de ida para o mesmo? A meu ver, a audição de uma entrevista faz muito mais sentido na viagem de regresso porque, em princípio, o ouvinte já não tem a pressa e a azáfama de chegar a tempo ao emprego e, como tal, pode dispensar outro tempo e atenção à audição de uma conversa. Como tal, o argumento apresentado por Rui Pêgo ao Correio da Manhã de um alegado servilismo não tem a mínima consistência e razoabilidade porque se Jorge Rodrigues dá voz a pessoas que criticam o Governo e as suas opções para a Cultura não seria eticamente aceitável que não desse oportunidade a representantes do Governo para exporem também as suas razões. É assim que as coisas funcionam em democracia, mas Rui Pêgo (e a administração que o mandatou) parece não perceberem essa coisa elementar. Ou será que a direcção da RDP para não ser acusada de alinhamento com o Governo (a exemplo do que tem acontecido com a televisão pública), se apressou a aproveitar este caso para fazer um frete encapotado ao Governo, calando na rádio pública as vozes incómodas? Em qualquer dos casos, estamos em presença de uma atitude claramente censória, que jamais se poderá aceitar num regime em que a liberdade de expressão está constitucionalmente consagrada e, ainda por cima, tratando-se de um órgão de comunicação social público. Não obstante, não descarto a hipótese deste caso ser um pretexto com outros fins pérfidos que publicamente não se quer assumir. Quer me parecer que o condicionamento imposto a Jorge Rodrigues e o ataque à sua dignidade profissional, tenha o propósito velado e não assumido de o irradiar de antena, o que aliás não seria caso inédito (veja-se o que aconteceu a Rui Dias José, Graça Vasconcelos, António Cardoso Pinto e Francisco Sena Santos). E não digo isto por mera especulação, já que a amputação da segunda hora do "Ritornello", em Setembro passado, representa por si só um desinvestimento no programa por parte da direcção e uma clara afronta ao seu autor, o qual já fora desconsiderado – é bom não esquecer – quando extinguiram o seu "Operamania" e não lhe entregaram o programa substituto, o "Cantabile". Estou em crer que o que se está a passar com o "Ritornello" se insere na estratégia da terra queimada, que passou a vigorar na Antena 2, com a extinção de programas modelares e a irradiação dos melhores profissionais para dar lugar aos tais mancebos 'imberbes' e a alguns colaboradores externos perfeitamente dispensáveis e supérfluos.
Por tudo isto, enquanto cidadão e ouvinte da Antena 2, não posso deixar de repudiar o ataque ao grande profissional que é Jorge Rodrigues e ao seu (e nosso) "Ritornello".

1 comentário:

pago.para.ver disse...

E só agora é que deram por isso? Onde é que estavam quando essa mesma estratégia de "terra queimada" tomou de assalto a Antena1?

É certo que a questão da "play list" é importante... mas não é o mais importante! Porque é apenas um sintoma de um mal maior que corroí a Rádio Pública.

Numa altura em que os melhores profissionais da Antena 1 se viam obrigados a optar pela reforma antecipada ou acabavam um guetos, prateleiras e despedimentos... Álvaro Ferreira estava preocupado com a selecção musical. Como se a marginalização dos profissionais da RDP fosse apenas uma questão interna e os protestos meramente... corporativos.

Enquanto isso, colaboradores externos - escolhidos a dedo e fieis às Direcções (porquê aqueles e não outros?) - iam ocupando todos os espaços de antena em que se produzia "palavra". Porque as Direcções sabem que o importante são as mensagens que são veiculadas. As música encaram-nas como um fundo (ou um embrulho)... Diga-se que, eu próprio, se quiser ouvir música, não ligo o rádio, ligo o ipod ou o cd e oiço o que me apetece e não aquilo que aos outros apetece.

Já repararam que, de uma plêiade de comunicadores como Carlos Campos, Vítor Dias, Hermano Manuel, Rui Dias José ou Julio Montenegro que nos contavam este país, foram suprimidos TODOS os espaços de programação em que se falava de terras e lugares de Portugal??? E que só subsiste o Lugar ao Sul (cada vez mais balcanizado naquele extremo continental) porque foi possivel amplificar protestos contra as ameaças da sua extinção. Já repararam que agora o serviço Público nesta matéria e assegurado pela privada TSF com o seu Terra a Terra???

O que se passa na Antena 2 é grave, mas a mordaça imposta a Jorge Rodrigues (e porque não dizê-lo, a Judite Lima) não difere de outras que fouram gradualmente sendo aplicadas na Antena 1, e noutras antenas da RDP, pelas mesma "desempoeiradas" e "liberais" Direcções.

É a CENSURA, meus senhores, a CENSURA! Que, apesar de não ser "prévia", não deixa de ser grave... porque assenta em formas de coacção que despoletam todos os mecanismos de auto-censura.

Ou pensam que um profissional com casa e filhos para sustentar pode correr riscos de desemprego???