16 janeiro 2007

Antena 2: mudanças positivas mas insuficientes

No início do ano, a grelha da Antena 2 voltou a ter novas mexidas que me merecem alguns comentários. Em primeiro lugar, começo por me congratular com a mudança de "Questões de Moral" e de outros programas de autor para as 23:05 horas (em vez da meia-noite como acontecia até agora) sendo repetidos às 12:00 no dia homónimo da semana seguinte. Positivo é também os programas que tinham periodicidade quinzenal passarem a ter periodicidade semanal e alguns programas do fim-de-semana como "Em Sintonia com António Cartaxo" ou "Um Certo Olhar" que, até agora, eram emitidos uma única vez, passarem a ter outra transmissão (às 16 horas, durante a semana), o que dá mais possibilidades de audição a ouvintes com hábitos de escuta e disponibilidades de tempo diferentes. Outra alteração que considero positiva, foi a criação de mais um espaço para a transmissão de concertos – "Salão Nobre" (de segunda a sexta-feira, 14:00) – que conjuntamente com o "Grande Auditório" (de segunda a sexta-feira, 21:00), dá aos melómanos uma oferta muito razoável da música que se vai tocando nos principais festivais e recitais, quer estrangeiros quer nacionais. Saúdo também o regresso de um programa de ciência – "Laboratório" (domingo, 13:30) – e também de uma nova rubrica de poesia – "Voz Alta" (de segunda a sexta-feira, 23:00) – na qual os nossos poetas dizem poemas da sua lavra. Já tinha chamado a atenção para o facto da única rubrica de poesia até agora existente na rádio pública – "Os Sons Férteis" – passar apenas uma vez por dia (às 11:00) e não ser repetida (sobretudo a pensar nos ouvintes não informatizados) e, nessa medida, é de saudar que a poesia recitada tenha agora mais um cantinho na Antena 2 (na Antena 1 é que continua a faltar!). Ainda em maré de coisas positivas, devo confessar a minha satisfação pelo surgimento de um novo programa de evocações – "Além Tempo", de Luís Ramos (sábados, 12:30) –, que vem colmatar a lacuna que se fazia sentir desde meados de 2005, quando foi inexplicavelmente extinto o programa "Evocações". E pelo que me foi dado ouvir até agora, também me agradaram os novos programas de autor de temática musical: "Caleidoscópio", de Luís Ribeiro (sábados, 21:00; segundas, 16:00); "Memória do Som", de Piñeiro Nagy (domingos, 21:00; quartas, 16:00); "Cosmorama", de Alexandre Branco e Ana Telles (terças, 12:00, 23:05). Já não posso dizer o mesmo de "Fuga da Arte" (sábados, 24:00) e de "Vias de Facto" (domingos, 24:00), dois programas que, pelos tipos de música neles contemplados, estão totalmente deslocados na Antena 2 constituindo autênticas aberrações na grelha. Aliás, existe uma clara dualidade de critérios quando se extingue o "Café Plaza", por alegadamente passar música não adequada à Antena 2 e se mantém programas com músicas que, além de destoarem na rádio clássica, ferem a sensibilidade e o gosto de boa parte dos ouvintes. Também não gostei que o programa "Páginas de Português" que era transmitida à hora de almoço de domingo (13:30) tenha sido catapultado para as 17:00, um horário muito mais ingrato. E lamento também – e profundamente – a não continuação de "Páginas Esquecidas", de Ana Paula Ferreira, que para mim era a rubrica mais interessante da Antena 2, logo a seguir ao apontamento de poesia e música de Paulo Rato. A este propósito, não posso deixar de manifestar o meu descontentamento pela desvalorização / marginalização que a cultura humanística fora do universo musical vem sofrendo na Antena 2. Vejamos: além das duas rubricas de poesia e dos programas "Questões de Moral" (reflexão), "Páginas de Português" (língua portuguesa) e "Lugar ao Sul" (cultura tradicional) e, em parte, "A Força das Coisas" (magazine de Luís Caetano), tudo o mais são espaços de entrevista (ou de comentário) e pequenos formatos sobre a actualidade cultural (novidades discográficas, novidades literárias, filmes em estreia, peças em cena, exposições, concertos). É importante que haja entrevistas e espaços sobre os eventos culturais que vão acontecendo no país, mas o serviço público de rádio pressupõe algo mais: aproveitar as potencialidades e peculiaridades da rádio para a produção / divulgação de conteúdos nos vários campos do Saber e das Artes. Neste contexto, é pertinente referir a História, a Literatura e o Teatro, áreas em que rádio podia desempenhar um importante papel e nalgumas situações até insubstituível. E tudo isso podia ser feito a custo zero pois bastaria fazer uso do riquíssimo arquivo histórico, um acervo imenso mas quase totalmente inexplorado. Convém lembrar que nesse arquivo, quer a História, quer a Literatura, quer o Teatro, têm uma larga e profusa representatividade. Começando pela História, faço uma referência muito especial a uma extraordinária série de programas da autoria de Maria João Martins intitulada "Na Máquina do Tempo" que, de uma forma muito aliciante, nos mostrava o lado menos institucional e escolástico de vários temas da História de Portugal. Ainda guardo uma gratíssima memória, pelo encantamento que me causou e pelo muito que aprendi, de um programa dedicado à evolução histórica daquele que é talvez o maior mito português – o sebastianismo. Ainda neste âmbito, tenho também de referir os ciclos temáticos que se fizeram sobre acontecimentos marcantes e figuras de relevo da História da Humanidade – escritores, poetas, dramaturgos, artistas, pensadores, cientistas, exploradores, estadistas, filantropos. Depois do ciclo que em 2005 foi dedicado a Bocage, a propósito dos 200 anos da morte do poeta, e com excepção de um programa sobre Rembrandt em meados de 2006, nada mais existiu, o que constitui uma grave omissão do serviço público. Por que motivo não se resgatam do arquivo esses conteúdos, a exemplo do que tem sido feito com as gravações musicais? E isto aplica-se, com igual propriedade, ao teatro radiofónico e a programas de divulgação / fruição literária. Já tratei do teatro no texto em que prestei o meu modesto tributo a Eduardo Street e, por isso, cumpre-me mencionar agora a leitura de livros. Por que razão não se dá a ouvir o que de melhor se fez neste campo? Por exemplo: "A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach" lida por Carmen Dolores; as "Viagens na Minha Terra", lida por Carlos Acheman; a "Peregrinação" (de Fernão Mendes Pinto), esta com uma soberba leitura de José Mário Branco numa magnífica realização de Margarida Lisboa). Eu iria até mais longe: a RDP prestaria um relevante serviço cultural ao país se procedesse à edição de audiolivros, que até poderia ser feita em parceria com um jornal de circulação nacional e/ou em protocolo com o Instituto do Livro e das Bibliotecas e com o Ministério da Educação, com vista à sua distribuição pela rede de bibliotecas públicas e pelas escolas do ensino básico. E se isto é verdade para a ficção, não deixa de o ser também para a poesia recitada e para o teatro radiofónico, um património de uma extraordinária riqueza no arquivo histórico e de uma valia inestimável mas escandalosamente desaproveitado. Numa altura em que se fala tanto de conteúdos áudio e vídeo, de que é que a rádio pública está à espera quando tem à sua disposição o maior e mais rico acervo fonográfico existente em Portugal? É altura do arquivo da RDP deixar de ser encarado como um cemitério – como apropriadamente lhe chamou Adelino Gomes – e que as preciosidades que lá existem sejam resgatadas para a luz do dia, quer através de edições discográficas, quer com a colocação na internet. No tocante a edições discográficas, já se começou a fazer alguma coisa (a caixa com obras de Fernando Lopes Graça é uma iniciativa muito louvável), mas na área dos registos não musicais ainda nada foi feito. Para mim, constitui um crime contra a memória e contra a cultura deixar o valiosíssimo arquivo histórico da RDP a apodrecer sob o pó do esquecimento, sem que ninguém dele possa tirar proveito. Porque só se ama o que se conhece e um arquivo fonográfico que não é dado a conhecer e não é fruído é como um livro que permanece fechado e não é lido. É como se não existisse, só que no caso do arquivo sonoro houve um investimento de dinheiros públicos em suportes de gravação e respectiva conservação que importaria fazer render (em todos os sentidos). E depois há a questão dos cidadãos cegos ou com deficiência visual de quem a rádio pública se parece ter esquecido. Volto a lembrar que tanto o teatro radiofónico como a leitura de livros são duas modalidades especialmente úteis aos invisuais que não podendo usufruir dos meios visuais (livros, televisão, artes cénicas, etc.) e ou não tendo acesso a literatura em Braille ou audiolivros (ainda há muitas bibliotecas públicas que os não disponibilizam) é legítimo que possam encontrar na rádio resposta às suas necessidades culturais.

1 comentário:

L. disse...

A Antena 2 parece estar agora a tomar um pouco de alento e energia.
Li o texto e agradeço ter chamado a atenção para programas e horários, de que ainda não tinha dado conta, isto porque perdi o interesse, durante o Verão, pela programação.
Questões de Moral, Em Sintonia..., Um certo Olhar (ao sábado à tarde,imperdível).
Laboratório e Voz alta, nunca ouvi, ma fiquei interessada.
Lamentável o horário de Os Sons Férteis!