16 outubro 2024

Vitorino: "Moças de Bencatel" (Conde de Monsaraz)


Ceifeira do Baixo Alentejo, 1957, ilustração da autoria de Laura Costa.


«A notícia já terá justificado mais do que uma rodada numa das noites decantadas em volta das talhas da adega Manuel Varrasquinho, na rua do Monte de Cima. Ou na adega Moreira. Ou na do Amador. São tantas as adegas de Ervidel.
A Voz da Planície e a Rádio Castrense fizeram ecoar a novidade e, nos campos que Giacometti percorreu colhendo toadas da monda, alguém terá ensaiado a receita de um verso, saudando a chegada da nova médica. "Ervidel tem bons cantores", apregoava uma moda que talvez conste do rol de cantorias do Grupo Coral As Margens do Roxo. Magníficos altos, como Inácio Moleirinho Valverde, belos pontos, um deles de apelido Virtuoso. Quererá saber, por certo, a nova doutora, quando os ouvir, que apelido têm os cantadores de Ervidel, "terra brilhante". E eles, levando a mão à aba do chapéu, entre duas rodadas de vinho novo, "Caixinha, um seu criado", Chaíça, Pão Mole, é bela e longa a correnteza de apelidos em "Ervidel, terra brilhante".
Lembro-me da primeira vez que se me revelou Ervidel, na dobra da Nacional 2, ainda a estrada não estava na moda. Vinha de Ferreira, de umas migas de espargos no Chico, e ali estava aquele aconchego de cal, um presépio de talhas a dois passos das largas águas do Roxo.
Em boa hora, como se dizia nos discursos de vénia cheios de nove horas, a Câmara de Aljustrel apreciou ao detalhe o Regulamento Municipal de Apoio à Fixação de Médicos e, ainda que tal empreitada devesse caber em primeira instância ao governo, fez a sua parte. Está formalizado o apoio à fixação de uma nova médica no concelho. E a nova médica vai garantir a prestação de cuidados de saúde na extensão de Ervidel.
Andam caçadores pelos campos, outros pescam nas águas da barragem. Assim pudesse passar por estes campos, como passou pelos de Bencatel, um novo conde de Monsaraz que enaltecesse as moças da terra nuns versos a pedir uma moda charmosa de Vitorino. Também aqui "estão desertas as eiras".
A nova médica de Ervidel ouvirá, por certo, na dobra de uma consulta, mais cedo que tarde, por entre avulsos ais das cruzes e suspiros de melancolia dos mais velhos, os versos do poeta popular Raimundo Afonso que ali nasceu e, ainda menino, pastoreou rebanhos, e no vento imprimiu as rimas com que entendia o mundo, doze livros publicados antes de aprender a ler. Figura maior, dele ficou para a memória mais funda da rádio, a conversa que mestre Rafael Correia registou no "Lugar ao Sul" [edição de 10 Fev. 2007 >> RTP-Arquivos]. Já cá não estão, ambos, estão desertas as eiras. Mas em chegando o São Martinho, brindemos, nós todos e a nova médica da extensão de Ervidel, com o vinho novo das talhas. No Varrasquinho ou no Raposo, no Moreira ou no Amador. Onde houver uma talha, em Ervidel, terra brilhante.» [Fernando Alves, "Ervidel, terra brilhante", in "Os Dias que Correm", 16 Out. 2024]


A alusão poético-musical que Fernando Alves fez na sua crónica de hoje não podia ser mais explícita: canção "Moças de Bencatel", de Vitorino, sobre poema do Conde de Monsaraz. Infelizmente, o manga-de-alpaca Ricardo Soares, por sua espontânea vontade ou acatando ordens estritas de Nuno Galopim de Carvalho (não sabemos ao certo), nada fez. E assim a crónica de Fernando Alves foi para o ar, mais uma vez, a seco, sem o remate musical que a complementaria e muito contentaria os ouvintes da Antena 1, mormente aqueles – entre os quais se conta o escrevente destas linhas – que se habituaram (e bem) a escutar a crónica na TSF-Rádio Jornal sempre seguida de um trecho musical relacionado com o assunto tratado.
Neste caso, a transmissão da canção de Vitorino, além de revelá-la a alguns ouvintes que a desconhecem (sobretudo os mais jovens), teria o 'efeito colateral' de fazer alguma justiça ao cantautor que tão marginalizado tem sido por quem administra a 'playlist'. Aqui fica, pois, o espécime poético-musical que foi rudemente sonegado ao auditório da Antena 1. Boa escuta!



Moças de Bencatel



Poema: Conde de Monsaraz (António de Macedo Papança, 1852-1913) (excerto ligeiramente adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Vitorino Salomé
Arranjo: João Lucas
Intérprete: Vitorino* (in LP "Sul", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 1994, Parlophone/Warner Music Portugal, 201?)




Ó moças de Bencatel,
Não vos zangueis se vos ralho:
Muito amor, pouco trabalho;
Pouco trigo, muito mel;
— Fiai-vos no que vos digo
E não fiqueis mal comigo,
Ó moças de Bencatel —
Para vós, para a lavoira,
Tomai tento, melhor fôra
Muito trigo e pouco mel.

Vejo terras de pousio,
Que andaram sempre lavradas,
Todas cobertas de flores;
Mas quando chegar o frio
E passarem os calores,
E as chaminés apagadas
E as camas sem cobertores,
Mal irá às namoradas
E pior aos lavradores. [bis]

[instrumental]

Funçanatas e derriços,
Cantigas e pasmaceiras,
Fazem fugir aos serviços
E faltar às sementeiras:
Eis porque estão os cortiços
Abarrotados de mel
E estão desertas as eiras,  | bis
Ó moças de Bencatel.        |

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Vitorino – voz
Zé Peixoto – guitarras
Zé Marreiros – sintetizadores
Paulo Jorge Ferreira – baixo
João Lucas – piano e acordeão
Carlos Salomé – guitarra, cavaquinho e trancanholas
José Salguiero – bateria e percussões
Rui Castro – baixo
Edgar Caramelo – saxofones alto e tenor
Tomás Pimentel – trompete
Eduardo Abreu – flauta
Elsa Bruxelas – flauta
Manuel Salomé – acordeão
Janita Salomé – voz em "Moças de Bencatel" e adufes
Joaquim C. de Lima – violino
Martin Turnlund – violino
Kenneth Frazer – violoncelo
Teófilo Moreira – contrabaixo
Pedro Caldeira Cabral – baixo e viola francesa
Manuel João Vieira – bandolim
"Camisa Amarela"
Márcio – cavaquinho
Tércio – cavaquinho
Rodrigo – bandolim
Luchinha – violão
António Pinho Vargas – piano e sintetizador
José Nogueira – saxofone alto
Pedro Barreiros – contrabaixo
Mário Barreiros – bateria
Paulo Curado – saxofone soprano

E orquestra composta por:
António Miranda, Floriana Oliveira, Cecília Branco, Alexandra Mendes, Luís Cunha, Stephanie Abson, Catherine Graig, Aníbal Lima, Rosário Oliveira, Oliver Pereira, Jorge Teixeira, Teresa Beatriz, André Cameron, Joaquim Lima, Bernard Lindley, Irene Lima, Richard Higgins, Andrea Arksey, Alberto Campos, Mary Sue, António Ferreira, Fernando Flores, Ricardo Ramalho, Denise Ribera, António Serafim, Artur Moreira, Ian Scott, Orlando Ribeiro, Arlindo Santos, Adácio Pestana, Jonatham Luxton, António Nogueira, A. Reis Gomes, Tomás Pimentel, Nélson Rocha, Emídio Coutinho, José Oliveira

Produção – Vitorino e João Lucas
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Engenheiros de som – Hugo Ribeiro, Tó Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos
URL: https://www.vitorinosalome.pt/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/vitorino/
https://www.facebook.com/VitorinoSalome.officialpage
https://www.youtube.com/channel/UCuRPFnby4OlKEz5kzN655bA
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=vitorino



MOÇAS DE BENCATEL

(Conde de Monsaraz, in "Musa Alentejana", Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1908 – p. 117-119; "Obras do Conde de Monsaraz", Vol. III, Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1958)


Ó moças de Bencatel,
Não vos zangueis se vos ralho:
Muito amor, pouco trabalho;
Pouco trigo, muito mel;
— Fiai-vos no que vos digo
E não fiqueis mal comigo,
Ó moças de Bencatel —
Para vós, para a lavoura,
Tomai tento, melhor fôra
Muito trigo e pouco mel.

Vejo terras de pousio,
Que andaram sempre lavradas,
Todas cobertas de flores;
Mas quando chegar o frio
E passarem os calores,
E as chaminés apagadas
E as camas sem cobertores,
Mal irá às namoradas
E pior aos lavradores.

Funçanatas e derriços,
Cantigas e pasmaceiras,
Fazem fugir aos serviços
E faltar às sementeiras:
Eis porque estão os cortiços
Abarrotados de mel
E estão desertas as eiras,
Ó moças de Bencatel.

Como abelhas, as cantigas,
Por entre moitas e brejos,
Fabricam favos de beijos
Nas bocas das raparigas,
E os mocetões das aldeias,
Sem canseiras nem cuidados,
Largam ancinhos e arados
Para crestar as colmeias...

Ó moças de Bencatel,
Vós tendes as bocas cheias…
Acautelai-vos, senão
Haveis de ficar sem mel,
Sem maridos e sem pão!



António de Macedo Papança (1852-1913), 1.º Conde de Monsaraz – fotografia publicada na revista "O Occidente", de 20 Out. 1906 [>> resenha biográfica]



Capa da 1.ª edição do livro "Musa Alentejana", do Conde de Monsaraz (Lisboa: Livraria Clássica Editora, 1908)



Capa de outra edição do livro "Musa Alentejana", do Conde de Monsaraz (Lisboa: Livraria Ferin, 1954)
Ilustração – Alberto Souza



Capa do LP "Sul", de Vitorino (EMI-VC, 1985)
Concepção – Fátima Rolo.

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Outros artigos com repertório interpretado por Vitorino ou da sua autoria:
A infância e a música portuguesa
Celebrando Luís Pignatelli
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Vitorino: "Marcha Ingénua"
Vitorino: "O Capitão dos Tanques"
Vitorino: "Postal para D. João III"
"Ó Meu Menino Jesus" (tradicional do Alto Alentejo)

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Outros artigos relacionados com a crónica de Fernando Alves na Antena 1:
Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"
"Sons d'Outrora" em viola da terra, por Miguel Pimentel

Pablo Neruda: "Ode ao Pão", por Mário Viegas


Pão alentejano
(in https://ruralea.com/pao-alentejano-receita-original/)


PÃO

São muito antigos os registos do fabrico de pão, sendo um dos primeiros alimentos processados pelo Homem. Consta que foi nas pequenas aldeias palafitas, na região actualmente ocupada pela Suíça, que surgiu pela primeira vez esta mistura de grãos de cereal moídos (farinha) com água e sal, em 10 000 a.C.. Mais tarde, cerca de 5000 a.C., com a descoberta dos fermentos, o pão aproximou-se mais daquilo que comemos actualmente. Aproximadamente um milénio depois, os Egípcios vulgarizaram a produção de pão e, por volta do ano 500 a. C., surgia em Roma a primeira escola de padaria. O pão foi sustento de civilizações inteiras e o seu fabrico manteve-se quase inalterado até ao século XIX, altura em que foi pela primeira vez introduzida a mecanização nos processos de fabrico. Inicialmente rejeitado pelos consumidores, este pão "industrial" veio fazer com que as padarias dessem lugar a panificadoras com grande capacidade de produção.
O pão é o produto obtido da amassadura, fermentação e cozedura, em condições adequadas, das farinhas de trigo, centeio, triticale ou milho, estremes ou em mistura, com água potável e fermento ou levedura. Pode ainda conter sal e outros ingredientes, nomeadamente aditivos e auxiliares tecnológicos, nas condições legalmente fixadas [Portaria n.º 425/98, de 25 de Julho]. Nutricionalmente, o pão é uma boa fonte de hidratos de carbono, proteínas vegetais, ferro, magnésio, fibras alimentares e vitaminas do complexo B, fundamentais para o desenvolvimento e saúde do organismo.
[in https://www.asae.gov.pt/perguntas-frequentes1/area-alimentar/pao.aspx]


Assinalamos o presente Dia Mundial da Alimentação, que é igualmente o Dia Mundial do Pão, nada mais nada menos do que com a admirável "Ode ao Pão", escrita por Pablo Neruda, traduzida por Fernando Assis Pacheco e recitada por Mário Viegas. A eloquência das palavras do poeta «chileno de nascimento, hispano-americano pela língua e pela cultura, universalista pelo coração, pela razão, pela poesia» (citando o tradutor), notavelmente reforçada pela primorosa recitação, em tom de proclamação, de Mário Viegas, dispensa-nos o esforço de tecer comentários que, aliás, pecariam por superfluidade. É ouvir/ler este impressivo fonograma/texto e, depois, jamais esmorecer na luta para que nunca falte o pão a cada ser humano que habita a Terra.

Lembramo-nos muito bem de ter ouvido este tocante registo pela mão do saudoso Rafael Correia, no seu memorável "Lugar ao Sul", e de nos ter causado uma indelével impressão. Nunca mais lográmos apanhá-lo na Antena 1 (nem noutra rádio). E aqui temos, inevitavelmente, de voltar a denunciar a gritante lacuna de uma rubrica regular de poesia na grelha do primeiro canal da estação pública de radiodifusão. O mesmo – convém lembrar – que tem um mui digno e honroso historial nessa vertente cultural, quer antes quer depois do 25 de Abril de 1974, e que um tal António Luís Marinho, já no presente século, criminosamente descontinuou, sem que os sucedâneos locatários da direcção de programação tivessem a clarividência de emendar a mão. Um apontamento diário de poesia feito com registos do arquivo histórico e de edições discográficas teria uma repercussão insignificante no orçamento do canal, pelo que o factor económico não pode ser aduzido como justificação. É tão-somente uma questão de sensibilidade e de efectiva tomada de consciência, por parte de quem manda, das obrigações culturais que a Antena 1 também tem e nunca devia descurar.



Ode ao Pão



Poema de Pablo Neruda ("Oda al Pan", in "Odas Elementales", Buenos Aires: Editorial Losada, 1954) [texto original em castelhano >> abaixo]
Traduzido por Fernando Assis Pacheco (in "Antologia Breve", de Pablo Neruda, Col. Cadernos de Poesia, Vol. 2, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969 – p. 68-75)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos para Dizer...", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos para Dizer", Público, 2006)




Pão,
com farinha,
água
e fogo
te levantas.
Espesso e leve,
reclinado e redondo,
repetes
o ventre
da mãe,
equinocial
germinação
terrestre.
Pão,
que fácil
e que profundo tu és:
no tabuleiro branco
da padaria
estendem-se as tuas filas
como utensílios, pratos
ou papéis,
e de súbito
a onda
da vida,
a conjunção do germe
e do fogo,
cresces, cresces
de súbito
como
cintura, boca, seios,
colinas da terra,
vidas,
sobe o calor, inunda-te
a plenitude, o vento
da fecundidade,
e então
imobiliza-se a tua cor de oiro,
e quando já estão prenhes
os teus pequenos ventres
a cicatriz escura
deixou sinal de fogo
em todo o teu doirado
sistema
de hemisférios.
Agora,
intacto,
és
acção de homem,
milagre repetido,
vontade da vida.

Ó pão de cada boca
não
te imploraremos,
nós, os homens,
não somos
mendigos
de vagos deuses
ou de anjos obscuros:
do mar e da terra
faremos pão,
plantaremos de trigo
a terra e os planetas,
o pão de cada boca,
de cada homem,
em cada dia
chegará porque fomos
semeá-lo
e fazê-lo,
não para um homem, mas
para todos,
o pão, o pão
para todos os povos
e com ele o que possui
forma e sabor de pão
repartiremos:
a terra,
a beleza,
o amor,
tudo isso
tem sabor de pão,
forma de pão,
germinação de farinha,
tudo
nasceu para ser compartilhado,
para ser entregue,
para se multiplicar.

Por isso, Pão,
se foges
da casa do homem,
se te escondem,
se te negam,
se o avarento
te prostitui,
se o rico
te armazena,
se o trigo
não procura sulco e terra,
pão,
não rezaremos
pão,
não mendigaremos,
lutaremos por ti com outros homens,
com todos os famintos,
por todos os rios, pelo ar
iremos procurar-te,
a terra toda repartiremos
para que tu germines,
e connosco
avançará a terra:
a água, o fogo, o homem
lutarão junto a nós.
Iremos coroados
de espigas,
conquistando
terra e pão para todos,
e então
também a vida
terá forma de pão,
será simples e profunda,
inumerável e pura.
Todos os seres
terão direito
à terra e à vida,
e assim será o pão de amanhã,
o pão de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será o produto
da mais longa e dura
luta humana.

Não tem asas
a vitória terrestre:
tem pão sobre os seus ombros,
e voa corajosa
libertando a terra
como uma padeira
levada pelo vento.


* Mário Viegas – voz

Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto
Masterização (edição em CD) – José António Regada
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Viegas
https://www.infopedia.pt/$mario-viegas
https://www.youtube.com/@DoTempoDosSonhos/videos?query=mario+viegas



Oda al Pan

(Pablo Neruda, in "Odas Elementales", Buenos Aires: Editorial Losada, 1954, 2.ª edição, Buenos Aires: Editorial Losada, 1958 – p. 151-154)


Pan,
con harina,
agua
y fuego
te levantas.
Espeso y leve,
recostado y redondo,
repites
el vientre
de la madre,
equinoccial
germinación
terrestre.
Pan,
qué fácil
y qué profundo eres:
en la bandeja blanca
de la panadería
se alargan tus hileras
como utensilios, platos
o papeles,
y de pronto,
la ola
de la vida,
la conjunción del germen
y del fuego,
creces, creces
de pronto
como
cintura, boca, senos,
colinas de la tierra,
vidas,
sube el calor, te inunda
la plenitud, el viento
de la fecundidad,
y entonces
se inmoviliza tu color de oro,
y cuando se preñaron
tus pequeños vientres,
la cicatriz morena
dejó su quemadura
en todo su dorado
sistema
de hemisferios.
Ahora,
intacto,
eres
acción de hombre,
milagro repetido,
voluntad de la vida.

Oh pan de cada boca,
no
te imploraremos,
los hombres
no somos
mendigos
de vagos dioses
o de ángeles oscuros:
del mar y de la tierra
haremos pan,
plantaremos de trigo,
la tierra y los planetas,
el pan de cada boca,
de cada hombre,
en cada día
llegará porque fuimos
a sembrarlo
y a hacerlo,
no para un hombre sino
para todos,
el pan, el pan
para todos los pueblos
y con él lo que tiene
forma y sabor de pan
repartiremos:
la tierra,
la belleza,
el amor,
todo eso
tiene sabor de pan,
forma de pan,
germinación de harina,
todo
nació para ser compartido,
para ser entregado,
para multiplicarse.

Por eso, Pan,
si huyes
de la casa del hombre,
si te ocultan,
te niegan,
si el avaro
te prostituye,
si el rico
te acapara,
si el trigo
no busca surco y tierra,
pan,
no rezaremos,
pan,
no mendigaremos,
lucharemos por ti con otros hombres,
con todos los hambrientos,
por todos los ríos y el aire
iremos a buscarte,
toda la tierra la repartiremos
para que tú germines,
y con nosotros
avanzará la tierra:
el agua, el fuego, el hombre
lucharán con nosotros.
Iremos coronados
con espigas,
conquistando
tierra y pan para todos,
y entonces
también la vida
tendrá forma de pan,
será simple y profunda,
imnumerable y pura.
Todos los seres
tendrán derecho
a la tierra y la vida,
y así será el pan de mañana,
el pan de cada boca,
sagrado,
consagrado,
porque será el producto
de la más larga dura
lucha humana.

No tiene alas
la victoria terrestre:
tiene pan en sus hombros,
y vuela valerosa
liberando la tierra
como una panadera
conducida en el viento.



Capa da 1.ª edição do livro "Odas Elementales", de Pablo Neruda (Buenos Aires: Editorial Losada, 1954)
Desenho – Silvio Baldessari



Capa da 1.ª edição do livro "Antologia Breve", de Pablo Neruda; Selecção e tradução: Fernando Assis Pacheco (Col. Cadernos de Poesia, N.º 2, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969)
Orientação gráfica – Fernando Felgueiras



Capa do LP "Pretextos para Dizer...", de Mário Viegas (Orfeu, 1978)
Fotografia – Luiz Carvalho
Design gráfico – João Massapina



Capa do livro (com CD) "Pretextos para Dizer", vol. 5 de "Mário Viegas: Discografia Completa" (Público, 2006)
Design gráfico – José Santa-Bárbara.

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Outros artigos com poesia recitada por Mário Viegas:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
A infância e a música portuguesa
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
Ser Poeta
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Manuel Alegre: "País de Abril", por Mário Viegas

06 outubro 2024

Luís de Camões: "Perdigão perdeu a pena"


Perdiz-vermelha ou perdiz-comum (Alectoris rufa).
© Alexandre Rica Cardoso, 2019 (in https://www.avesdeportugal.info/aleruf/).


«Camões escreveu essas coisas porque lá por dentro dele era bem português e o seu estado de alma era o nosso. A pena de nós próprios. Isso tudo é a mesma coisa. O Camões tratou as palavras "destino" e "fado" como nunca mais ninguém tratará, assim eu penso. Há nele a mesma noção de destino, de fatalidade, de pena de si próprio. Fiquei toda contente quando descobri que ele dava a isto o mesmo sentido que lhe dá o povo que eu tinha ao pé da porta. Para mim, ele é o maior fadista português: sabia falar de fado como ninguém.»

              AMÁLIA RODRIGUES
              (em entrevista concedida a João Gonçalves,
              in jornal "Semanário", 27 Abr. 1985)


Completando-se o primeiro quarto de século sobre a morte de Amália no ano do quinto centenário do nascimento de Luís de Camões, que ela tanto admirava e com quem muito se identificava nesse estado de alma fadista, impunha-se, neste dia amaliano que é de saudade por excelência, fazer uma celebração conjunta. Ora como já apresentámos, no artigo "Camões recitado e cantado (II)", a totalidade dos seis poemas camonianos (canónicos) mais o apócrifo "Com que voz chorarei meu triste fado" a que Amália deu voz e foram publicados em disco, cinco com música de Alain Oulman e dois de Carlos Gonçalves, entendemos direccionar o foco da nossa atenção, na presente data, para um deles em particular: o vilancete em redondilha maior incipit "Perdigão perdeu a pena", que na edição discográfica – álbum "Cantigas numa Língua Antiga" (1977) – surge com o título simples de "Perdigão". Trata-se de um espécime da Lírica Camoniana em que está lapidarmente expresso o sentimento de desventura e fatalidade do genial vate (no caso, respeitante ao insucesso do Poeta – metaforicamente figurado num perdigão – nos seus esforços para alcançar o amor da amada – alta torre –, a qual se mostra sobranceiramente indiferente ao amador) que muito dizia a Amália e que a motivou a gravá-lo, num momento do seu percurso artístico – é oportuno referi-lo – ainda no rescaldo do PREC, durante o qual a colossal artista fora vítima de golpes baixos e acusada, por alguns indivíduos mais fanáticos e insolentes, de ter sido uma despudorada apoiante do Estado Novo. Talvez esses seus mesquinhos detractores nunca tivessem ouvido "Abandono (Fado Peniche)" [>> YouTube Music], "Senhora do Livramento" [>> YouTube Music], "Trova do Vento que Passa" [>> YouTube Music] e outro repertório sobre poesia de autores que estavam longe de serem simpatizantes do regime instituído por Salazar e mantido por Caetano (como Sidónio Muralha, Manuel Alegre e Ary dos Santos), e também talvez eles desconhecessem (ou quisessem ignorar) que Amália havia ajudado, com dinheiro, boa gente que, na clandestinidade, lutava contra a ditadura, e que ela mesma fora vigiada pela PIDE precisamente por suspeita de auxiliar antifascistas.
Aproveitamos o ensejo para deixar também, a seguir ao original amaliano, a versão (muito competente) que Katia Guerreiro gravou do mesmo "Perdigão" com música de Alain Oulman, e, a abrir a sequência, o registo recitado na voz do actor Carlos Wallenstein.
Votos de escuta prazenteira bafejada pelo enlevante estro camoniano!

E de que modo tem a Antena 1 evocado Amália neste 6 de Outubro, o 25.º após a sua partida para a eternidade?
Assinalamos a edição especial do programa "Gramofone", de João Carlos Callixto, que teve como convidado Frederico Santiago, o curador das novas edições (com muitos inéditos) do espólio fonográfico amaliano à guarda das Edições Valentim de Carvalho [>> RTP-Play]. E está também anunciado que a emissão do programa "Alma Lusa" (depois do noticiário da meia-noite), com realização de Edgar Canelas, será igualmente consagrada a Amália, «ora em palavras ditas na primeira pessoa ora através de memórias do seu biógrafo, Vítor Pavão dos Santos» (cf. https://antena1.rtp.pt/antena1/amalia-25-anos-depois/).
Registamos estas iniciativas com agrado, mas não podemos deixar de apontar o dedo acusador à direcção de programas da Antena 1, na pessoa de Nuno Galopim de Carvalho, pelo silenciamento na 'playlist', ao longo do ano, da obra discográfica de Amália, que não é uma artista qualquer – convém ter isto sempre bem presente – mas tão-só a maior intérprete vocal portuguesa (popular), provavelmente de todos os tempos, indubitavelmente a maior desde que foi inventado o registo sonoro. E não estamos a pedir que passem os espécimes mais conhecidos do vulgo, mas que haja a preocupação de pegar em repertório menos divulgado, porque é também (e sobretudo) para isso que existe o serviço público de radiodifusão.



Perdigão perdeu a pena



Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", org. Estêvão Lopes, Lisboa, 1598; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 805)
Recitado por Carlos Wallenstein* (in LP "Camões: Antologia", Série 'Disco Falado', Guilda da Música/Sassetti, 1973; CD "Camões: Antologia", Série 'Palavras', Strauss, 2002)




          MOTE ALHEIO

Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.

          VOLTAS

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.


* Carlos Wallenstein – voz

Selecção de textos/poemas – Carlos Wallenstein
Direcção literária – Alberto Ferreira
Assistente de produção – Carmen Santos
Produção – Sassetti
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa
Captação de som e montagem – Moreno Pinto
Remasterização – Jorge d'Avillez (Strauss Studio, Lisboa)
URL: http://www.cinept.ubi.pt/pt/pessoa/2143690279/Carlos+Wallenstein
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/perfil-carlos-wallenstein/
https://music.youtube.com/channel/UCAB5mYWk4Z9tVkwp-RrXdgQ



Perdigão



Poema: Luís de Camões (ligeiramente adaptado) [texto original >> acima]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Cantigas numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)




[instrumental]

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Perdigão perdeu a pena.

[instrumental]

Quis voar a uma alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha. | bis
Perdigão perdeu a pena.          |


* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola

Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital (edição em CD) – Fernando Paulo
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
URL: https://amaliarodrigues.pt/pt/amalia/
https://www.museudofado.pt/index.php/fado/personalidade/amalia-rodrigues
https://centenarioamaliarodrigues.pt/
https://www.youtube.com/c/amaliarodriguesofficial
https://music.youtube.com/channel/UCF_E888KGi1ko8nk9Pus_2g



Perdigão



Poema: Luís de Camões (ligeiramente adaptado) [texto original >> no topo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Katia Guerreiro* (in CD "Nas Mãos do Fado", Ocarina, 2003)




[instrumental]

Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Perdigão perdeu a pena.

[instrumental]

Quis voar a uma alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha. | bis
Perdigão perdeu a pena.          |


* Katia Guerreiro – voz
Paulo Valentim – guitarra portuguesa
João Veiga – guitarra clássica
Rodrigo Serrão – contrabaixo

Produção executiva – Joaquim Balas
Gravado e masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, Cacém, de Agosto a Outubro de 2003
Misturado por Katia Guerreiro e António Cordeiro
URL: https://katiaguerreiro.pt/
https://www.museudofado.pt/index.php/fado/personalidade/katia-guerreiro
https://www.facebook.com/katiaguerreiro.official/
https://www.youtube.com/@KatiaGuerreiroFado
https://music.youtube.com/channel/UCk8hihYmq_eb4SPXenCGqnA





Capa e contracapa do LP "Cantigas numa Língua Antiga", de Amália Rodrigues (Columbia/VC, 1977)
Concepção – Manuel Correia
Fotografias – Augusto Cabrita



Capa do LP "Camões: Antologia", de Carlos Wallenstein (Série 'Disco Falado', Guilda da Música/Sassetti, 1973)
Concepção – Soares Rocha



Capa da reedição em CD do álbum "Camões: Antologia", de Carlos Wallenstein (Série 'Palavras', Strauss, 2002)
Retrato de Camões – Soares Rocha
Grafismo – João P. Cachenha



Capa do CD "Nas Mãos do Fado", de Katia Guerreiro (Ocarina, 2003)
Fotografia – Rui Ochôa
Grafismo – Ivone Ralha.

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Outros artigos com poesia e/ou teatro de Luís de Camões:
Camões recitado e cantado
Camões recitado e cantado (II)
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Camões recitado e cantado (III)
Camões recitado e cantado (IV)
Camões recitado e cantado (V)
Camões recitado e cantado (VI)
Camões recitado e cantado (VII)
Camões recitado e cantado (VIII)
Camões recitado e cantado (IX)
Luís de Camões: "Os Lusíadas" (dois excertos), por Carlos Wallenstein
Luís Cília: "Se me Levam Águas" (Luís de Camões)
Teatro camoniano em versão radiofónica
Camões por Carmen Dolores
José Mário Branco: "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades"
Camões recitado e cantado (X)
Camões evocado por Sophia
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara Escrava"

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Outros artigos com repertório de Amália em voz própria:
Ser Poeta
Celebrando Vinicius de Moraes
Camões recitado e cantado (II)
Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)
Amália Rodrigues: "Abril" (Manuel Alegre)
Poesia trovadoresca adaptada por Natália Correia

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Artigos com canções de tributo a Amália:
Amália: dez anos de saudade
«Do João Braga para a Amália»

02 outubro 2024

"Sons d'Outrora" em viola da terra, por Miguel Pimentel


Mestre Miguel Pimentel (viola da terra) e Emanuel Medeiros (violão) – fotografia tirada por Manuel Medeiros no claustro do Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, e reproduzida no caderno do CD "Sons d'Outrora" (DisRego, 1997).


«Quem em algum momento tenha intuído uma estranha música secreta produzida no interior da Terra pode acompanhar hoje, ao fim da tarde, a primeira de uma série de conferências on-line de acesso livre promovidas pelo Instituto de Altos Estudos da Academia das Ciências de Lisboa. O chapéu largo da iniciativa acolhe uma abordagem da sismologia que abre múltiplos corredores entre a ciência e a sociedade. A professora Ana Ferreira, que há uma década dá aulas numa universidade londrina onde dirige uma equipa de investigação em sismologia global, dá hoje uma entrevista ao "Diário de Notícias". Na entrevista, a sismóloga (cuja conferência nos convida a sondar o interior da Terra) explica o que a levou a estabelecer contactos profissionais com o pianista e compositor de jazz Liam Noble. Ela acredita que "a música e a sismologia têm muitas semelhanças" e isso não nos deve remeter para as notícias sobre a actividade sísmica registada no sismógrafo da Escola Delfim Santos e comprovadamente provocada pelo concerto de Taylor Swift em Lisboa. Não é disso que se trata, mas da música que irrompe de cada abalo sísmico. Neste dia oficialmente consagrado à viola da terra, apetece ouvir um dos tangedores das ilhas, como lhes chamou Gaspar Frutuoso. O chão da Terceira tem revelado uma caixa-de-ressonância alta que parece pedir uma sapateia ou um pezinho com acordes dolentes da viola dos dois corações.
A sismóloga Ana Ferreira partilha hoje com o DN o seu desejo de vir a construir, na parceria com o pianista de jazz Liam Noble, "novas composições musicais com base nos sons de uma expedição marítima" que coordenou recentemente.
Ela acredita que "os dados sísmicos são, no fundo, como canções ou sons vindos do interior da Terra".
Já cá não está a compositora Berta Alves de Sousa que em 1949 criou a versão para piano de um tema de pouco mais de dois minutos a que chamou Tremor de Terra. Composto com instrumentos sintéticos, o Tremor de Terra da pianista que estudou com Vianna da Motta antes de dar aulas de música de câmara no Conservatório de Música do Porto, conheceria ainda, em 52, uma versão para orquestra.
Desconheço a existência de um registo sonoro desta criação da pedagoga e compositora que foi também, em meados dos anos 40, crítica musical do desaparecido "Primeiro de Janeiro".
Mas gostaria de cruzar a partitura deste Tremor de Terra com o registo sismográfico do mais recente abalo no chão da Terceira.
Em fundo à conferência de logo à tarde da sismóloga Ana Ferreira faria soar o gemido dolente de uma viola da terra cruzado com a onda jazzística de Liam Noble, assim sondado o mais fundo e ígneo estremecimento da música sob os nossos pés.» [Fernando Alves, "Escuta como a Terra se faz música", in "Os Dias que Correm", 2 Out. 2024]


«Neste dia oficialmente consagrado à viola da terra, apetece ouvir um dos tangedores das ilhas, como lhes chamou Gaspar Frutuoso. O chão da Terceira tem revelado uma caixa-de-ressonância alta que parece pedir uma sapateia ou um pezinho com acordes dolentes da viola dos dois corações.»
Este excerto da crónica de Fernando Alves emitida pela Antena 1, hoje pouco antes das 9h:00 da manhã, estava mesmo a pedir que, mal o cronista terminasse de lê-la, surgisse na mesma frequência do espectro hertziano um trecho musical em viola da terra. Assim não aconteceu. O locutor Ricardo Soares apressou-se a rezar a ladainha da meteorologia e das temperaturas previstas para todas as capitais de distrito de Portugal. Não sabemos se não quis dar-se ao trabalho de procurar uma gravação de viola da terra, para rematar a crónica, pondo esta no ar um tempinho antes (o mesmo que durasse o instrumental da viola típica açoriana, que viria a seguir), ou se recebeu instruções expressas de Nuno Galopim de Carvalho para jamais fazer a ilustração musical da imperdível crónica de Fernando Alves. Qualquer que seja o caso, tem a nossa veemente reprovação porque tal ilustração musical – é oportuno frisar –, além de fazer justiça ao teor da crónica, seria uma soberana e excelente oportunidade para dar a ouvir repertório e intérpretes ausentes da 'playlist' e, nessa medida, um sinal diferenciador e distintivo da emissão da Antena 1 no éter nacional, pelo menos em comparação com a TSF e a RR.
À boleia da sugestão de Fernando Alves, o blogue "A Nossa Rádio" celebra o presente Dia da Viola da Terra, apresentando sete fascinantes peças instrumentais, todas da tradição açoriana (micaelense), eximiamente tocadas por Mestre Miguel Pimentel (1940-2022), que são parte integrante do seu primoroso álbum "Sons d'Outrora" (DisRego, 1997). Servem de homenagem, ainda que singela, ao notabilíssimo tangedor de viola da terra natural da localidade da Maia (concelho de Ribeira Grande, Ilha de São Miguel), fazendo assim jus às palavras de Fernando Alves: «apetece ouvir um dos tangedores das ilhas».
Qualquer um destes sete espécimes, epítomes da superlativa arte de Mestre Miguel Pimentel, seria um magnífico remate musical à crónica de hoje de Fernando Alves.



Sapateia



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Pezinho Velho (1.ª versão)



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Mouraria



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Chamarrita do Meio



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Saudade (1.ª versão)



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Pezinho da Vila (2.ª versão)



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão



Aurora



Música: Tradicional (Maia, Ribeira Grande, Ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Miguel Pimentel* (in CD "Sons d'Outrora", DisRego, 1997)


(instrumental)


* Miguel Pimentel – viola da terra
Emanuel Medeiros – violão

Gravado no Museu Carlos Machado, Ponta Delgada, em Fevereiro de 1997, pela RDP-Açores
Captação – Jorge Santos
Mistura – Raul Resendes e Jorge Santos
Master – Nuno Miguel (RDP-Antena 3)
URL: https://audiencia.pt/miguel-de-braga-pimentel-o-homem-que-impulsionou-a-viola-da-terra/
https://www.youtube.com/@carvalhorafa1980/videos?query=miguel+pimentel



Capa do CD "Sons d'Outrora", de Miguel Pimentel (DisRego, 1997)
Concepção – Miguel Pimentel.

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Outro artigo com repertório tocado por Miguel Pimentel:
Miguel Pimentel com Maria José Victória: "Bons Anos"

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Outros artigos com repertório tocado em viola da terra:
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos
Um Natal à viola da terra, por Rafael Carvalho
Miguel Pimentel com Maria José Victória: "Bons Anos"
Rafael Carvalho: "Bons Anos e Anos Bons"

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Outro artigo relacionado com a crónica de Fernando Alves na Antena 1:
Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"

01 outubro 2024

Ana Barroso: "Música"


© Pilar Torres.
Euterpe, a musa da música, na mitologia grega, representada em escultura de mármore pelo austríaco Josef Klieber, 1824, actualmente em exposição no Museu Albertina, Viena, Áustria.


A música é, para os verdadeiros compositores/intérpretes, a amante e a deusa que amam e veneram incondicionalmente, apesar de nem sempre receberem, em troca desse amor e dessa adoração, a compensação material considerada justa e digna (a gratificação espiritual, essa está garantida). É dessa relação dos autores/executantes de mérito com a arte dos sons – irresistível mas não raras vezes espinhosa e dolorosa para os sujeitos que a mantêm – que nascem as obras/interpretações com o poder de transformar (e até transfigurar) aqueles que as fruírem, tornando-os menos animalescos e mais divinos.
O que acabámos de enunciar foi-nos suscitado pela bela canção de Ana Barroso simplesmente intitulada "Música", com letra da cantora e música de José Peixoto, à qual fazemos a justiça de dar destaque neste Dia Mundial da Música, à beira de se completar um decénio sobre a edição do álbum respectivo, "Diário", que aconteceu a 6 de Outubro de 2014. Estamos em crer que será mais uma boa descoberta para a maioria dos visitantes do blogue "A Nossa Rádio", porque a cantautora Ana Barroso tem sido bastante maltratada pelas rádios nacionais. No caso da estatal, o CD "Diário", embora tenha sido Disco Antena 1 e de, na ocasião, terem sido transmitidas algumas canções, rapidamente foi atirado para o baú dos intocáveis por quem administra a 'playlist', a mesma onde é dado lugar – de primazia – a uma quantidade descomunal de produtos sonoros medíocres e rascas (chamar-lhes música seria ofender a musa) que poluem o canal e constituem um torpe insulto aos tímpanos mais asseados e menos tolerantes ao lixo. Acaso quem manda na programação musical da Antena 1 tem real noção do mal que está a fazer a tantos e tantos bons artistas portugueses, especialmente àqueles que mais beneficiariam com a divulgação radiofónica do seu trabalho? E os pagantes da contribuição do audiovisual que apreciam a música portuguesa de qualidade e têm todo o direito de ouvi-la na rádio que financiam, por quanto tempo mais estarão dispostos a suportar tamanho desvario?



Música



Letra: Ana Barroso
Música: José Peixoto
Intérprete: Ana Barroso* (in CD "Diário", Ana Barroso, 2014)




[instrumental]

Eu só quero a música,
Essa amante incerta, ingrata,
Que me vence e persegue,
Mais parece que me mata.

E eu deixo-me encantar
Na cantiga do bandido,
Nas promessas que ela faz
Quando faz amor comigo.

Logo me deixo tomar
Com fogo e mansidão;
Ela pede o que não dá:
Cobra em dor e sem razão.

És mais forte do que a força
Que me esventra sem quebrar;
Dás o sopro, tiras fôlego,
Não há como te deixar.

[instrumental]

Eu deixo-me encantar
Na cantiga do bandido,
Nas promessas que ela faz
Quando faz amor comigo.

Logo me deixo tomar
Com fogo e mansidão;
Ela pede o que não dá:
Cobra em dor e sem razão.

És mais forte do que a força
Que me esventra sem quebrar;
Dás o sopro, tiras fôlego,
Não há como te deixar.

Quanto mais tomas e prendes,
Mais eu tenho p'ra te dar:
Abro as portas, desarmada,
Para ti, de par em par.

Quanto mais tomas e prendes,
Mais eu tenho p'ra te dar:
Abro as portas, desarmada,
Para ti, de par em par;

Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.
Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.
Para te fazer a deusa,
A reza, o meu altar.


* Ana Barroso – voz
José Peixoto – guitarra acústica
Carlos Barretto – contrabaixo
Vicky Marques – percussão

Arranjos e direcção musical – José Peixoto
Gravado nos Estúdios Primetime, Miraflores - Oeiras, por Luís Delgado
Misturado e masterizado por Luís Delgado
URL: https://www.facebook.com/anabarroso.pt
https://antena1.rtp.pt/musica/discos/disco-a1-ana-barroso-diario/
https://www.youtube.com/channel/UC_IIDVXStRRGbPWKm8YSZKQ
https://music.youtube.com/channel/UCsbDkE9WKlxShXG3cY-GjxQ



Capa do CD "Diário", de Ana Barroso (2014)
Fotografia – Rodrigo Cabral.

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Outros artigos comemorativos do Dia Mundial da Música:
Fernando Tordo: "Bendita Música"
Pedro Barroso: "Música de Mar"
Sérgio Godinho: "Mão na Música"
José Barros e Navegante: "Músicos, Cravos e Rosas"
Luiza Todi por Carmen Dolores segundo Margarida Lisboa
Franz Schubert: "An die Musik" (Franz von Schober)
Vai de Roda: "Minha Roda 'stá Parada; Quadrilha Mandada"

22 setembro 2024

Maria da Glória: "Tarde de Outono"


Alexi Zaitsev, "Fresh Breeze" ("Brisa Fresca"), 2008, óleo sobre tela, 60 x 50 cm
(in http://artrussia.ru/en/alexi_zaitsev/picture/4450)


A circunstância de o Outono de 2024 ter chegado ao início da tarde (12h:44, UTC / 13h:44, hora de Portugal Continental), na presente data, e de as condições meteorológicas/climáticas terem mudado repentinamente, passando de canícula (que favoreceu os devastadores e fatídicos incêndios na Região Norte) para céu nublado, chuva e temperaturas mais próprias da estação outonal, deu-nos o bom pretexto para resgatarmos a belíssima canção "Tarde de Outono", na cativante voz de Maria da Glória, que trata precisamente do surgimento abrupto de um temporal vespertino numa praia até aí nimbada por uma «imensidão de azul» em que, subentende-se, mar e céu se confundiam sob um sol radioso – adversidade essa que acaba por perder importância para a observadora ante a aparição (inesperada) do homem amado naquela praia que ficou deserta apenas para eles dois. A letra e a música, notavelmente inspiradas, têm a assinatura do elvense Francisco Veredas Bandeiras, mais conhecido por Paco Bandeira, tendo Jorge Machado ficado com a responsabilidade da orquestração, que a impregnou de tocante e contagiante nostalgia, como se impunha, conferindo a este espécime um raro e particular encanto.
Natural de Montemor-o-Novo, onde veio ao mundo a 21 de Março de 1944, Maria da Glória, graças às suas invulgares qualidades canoras, alcançou assinalável reconhecimento público nas décadas de 1960 e 70, mas é actualmente um nome muito pouco evocado sendo a sua obra bastante desconhecida, sobretudo dos menos veteranos. O escrevente destas linhas confessa que só a descobriu quando escutou a sua versão da canção "Canta, Camarada, Canta" (letra de autoria anónima / música de José Afonso) incluída na compilação "Aromas de Abril" (Edições Valentim de Carvalho/iPlay, 2010). Ficou então com muita vontade de ouvir mais da talentosa intérprete mas viu-se impossibilitado de satisfazer esse desejo porque a sua discografia estava ainda por reeditar. Teve de esperar até 2021, ano em que a empresa Edições Valentim de Carvalho resolveu, finalmente, disponibilizar nas plataformas de 'streaming' o repertório que Maria da Glória havia gravado para a casa, no qual se conta esta maravilhosa "Tarde de Outono" que será, assim acreditamos, uma extraordinária descoberta para a maioria dos visitantes do blogue "A Nossa Rádio". Boa escuta!

Tendo em conta que a edição de música em Portugal, hoje em dia, já não passa necessariamente, como era usual até há meia dúzia de anos, pelo suporte CD, sendo cada vez mais frequente a edição digital simples ou acompanhada de LP, a Antena 1 passou – e bem – a não fazer depender a divulgação de música portuguesa da sua publicação em CD-Áudio. Ora estando presentemente parte da produção fonográfica de Maria da Glória disponível em áudio digital, não é razoável nem tolerável que seja ignorada por quem superintende/administra a 'playlist' do canal generalista da estação pública que, por sinal, até se vangloria de ser «uma rádio com memória».



Tarde de Outono



Letra e música: Paco Bandeira (Francisco Veredas Bandeiras)
Arranjo: Jorge Machado
Intérprete: Maria da Glória* (in single "Tarde de Outono", Decca/VC, 1972; reed. digital: Edições Valentim de Carvalho, 2021)




[vocalizos / instrumental]

Foi numa tarde de Outono,
Soprava o vento do sul
Nessa praia ao abandono
Numa imensidão de azul.

Nuvens negras como breu
Cobriram o céu,
Escureceram o mar;
Vento forte, solidão,
Ondas turbilhão,
Nasce o temporal.

Barcos que cedem ao vento,
Gritos dispersos, lamentos;
Foi sinfonia
Que o vento inventou,
Na praia vazia
Nem um ser ficou.

[vocalizos / instrumental]

Quando te vi, eu pensei
Que era uma visão
Perdida do Além;
Era, porém, uma estrela
Rasgando horizontes,
Criando outro céu.

Barcos que cedem ao vento,
Gritos dispersos, lamentos;
Foi sinfonia
Que o vento inventou,
Na praia vazia
Nem um ser ficou.

[vocalizos / instrumental]


* Maria da Glória – voz
Orquestra dirigida por Jorge Machado
URL: https://festivaiscancao.wordpress.com/2020/10/08/em-homenagem-a-maria-da-gloria-1-biografia-resumida-e-discografia/
https://soundcloud.com/mariadagloria
https://music.youtube.com/channel/UC81Y8CMa4fKLk4E2sbIzCBg



Capa do single "Tarde de Outono", de Maria da Glória (Decca/VC, 1972).

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Outros artigos com repertório alusivo ao Outono:
Celebrando Maria Teresa de Noronha
Max: "Outono na Cidade"
Jorge Cravo: "Outono à Beira-Rio"
Diabo a Sete: "Outono Embargado"
José Medeiros: "Outono Adiado"
Aníbal Raposo: "Balada de Outono" (Álamo Oliveira)
Silvestre Fonseca: "Balada de um Outono"

17 setembro 2024

Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"


Galandum Galundaina, com a formação de 2005: (da esquerda para a direita) irmãos Meirinhos (Manuel, Alexandre, Paulo) e Paulo Preto.


A crónica "Sinais", que Fernando Alves manteve na TSF-Rádio Jornal durante largos anos, tinha, além das lúcidas e nutritivas palavras em voz própria do distinto radialista, um atractivo suplementar: o ser rematada com uma peça musical (geralmente canção) tematicamente relacionada com o assunto tratado. Ontem, a imperdível crónica de Fernando Alves voltou à rádio, agora na Antena 1, sob o título "Os Dias que Correm" (e aproveitamos para manifestarmos o nosso contentamento por isso). O tema abordado na edição de hoje (radiodifundida antes das 09h:00 da manhã) foi o mirandês, assinalando o 26.º aniversário do reconhecimento pela Assembleia da República daquele idioma como uma das duas línguas oficiais de Portugal [>> RTP-Play]. E Fernando Alves termina a sua crónica com as seguintes palavras: «... não darei o dia por terminado sem escutar os Galandum Galundaina». Ora a exemplo do que acontecia na TSF, o escrevente destas linhas estava mesmo à espera que viesse logo a seguir uma canção do referido grupo, por exemplo, "Chin Glin Din", a qual, com toda a certeza, faria as delícias de (quase) todos os ouvintes. Mas não. Nada! O locutor de serviço, um tal Ricardo Soares, começa de imediato e secamente a debitar a costumeira e enfadonha ladainha das temperaturas previstas para todas as capitais de distrito de Portugal. Suspeitamos que se for interrogado do motivo de não ter transmitido uma canção dos Galandum Galundaina, como seria de bom-tom, se irá desculpar com a falta de tempo para tal. Mas tempo havia: bastaria passar a crónica mais cedo, nem que tivesse de 'sacrificar' a canção dos Sitiados que transmitiu imediatamente antes e que nada tinha a ver com o mirandês. Fica, pois, expresso o nosso pedido de que, doravante, haja o bom senso e o bom gosto de dar remate musical à crónica de Fernando Alves, e aí o mais recomendável mesmo será o próprio cronista indicar o espécime a transmitir.



Chin Glin Din



Letra e música: Tradicional (Duas Igrejas, Terra de Miranda, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Informante: Emerência Rodrigues
Recolha: Pablo Madrid Martín, Alberto Jambrina Leal, José Manuel González Matellán, com a colaboração de António Maria Mourinho e José Maria dos Reis (in LP "Terra de Miranda", Série "Musica Tradicional", Vol. 6, Saga, 1987, reed. Tecnosaga/Mundo da Canção, 1997)
Intérprete: Galandum Galundaina* (in CD "Modas i Anzonas", Açor/Emiliano Toste, 2005)




[instrumental]

Indo you pa la mie arada
Atrás de las mies chabacas,
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.
You birei atrás pur eilha
I achei la puorta cerrada.
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.

Quei ye aquilho, mulhier,
Que stá debaixo de la nuossa cama?
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.
Ye l gato de l cumbento
Que ben pa la nuossa gata.
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.

Trai la scupeta, mulhier,
Que l'heide dar ua scupetada!
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.
Nun hagas isso, marido,
Que çcunjuntas la cama!
      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.

[instrumental]

      Cun l chin glin din glin dina,
      Cun l chin glin din glan daba,
      Cun l chin glin din glin dina
      Se m'olbidou la guelhada.


Nota: «Ye un rimance de l que hai muitas bersones an toda la Península Eibérica. Trata la stória de la mulhier anfiel, neste causo cul Cura de l Cumbento. Era ua moda cantada ne ls filadouros que se fazíen ne l fin de brano, al redor dun lhume, a la puorta de casa donde ls bezinos s'ajuntában para cardar i filar la lhana, malhar, spadelar i filar l lhino. Nestes ajuntamentos çfilaba-se un sien fin de cuontas, adebinas, lhonas, ouraçones, modas, perrices... Las cantigas de ls flladouros eran de ritmo algo más lento dado pul trabalho de malhar, spadelar i cardar.» (Galandum Galundaina).

* L grupo Galandum Galundaina ye:
Alexandre Meirinhos – caixa, bombo, cântara, tamboril, chacalacas, colheres, pandeireta, charrascas, chocalhos, çaranda, boç (solo an "Chin Glin Din")
Manuel Meirinhos – fraita pastoril, cântara, tracanholas, boç
Paulo Meirinhos – bombo, gaita galhega, pandeireta, castanholas, triânglo, garrafa, boç
Paulo Preto – gaita mirandesa, çanfona, fraita pastoril, boç

Produçon i amanhos – Galandum Galundaina
Crabaçon i masterizaçon – Emiliano Toste (Estúdio Toste, São Mamede de Infesta)
Mistura – Emiliano Toste i Galandum Galundaina
URL: http://www.galandum.co.pt/
https://www.facebook.com/GalandumGalundaina
https://soundcloud.com/galandum-galundaina/tracks
https://www.youtube.com/user/galandumgalundaina/videos
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=galandum+galundaina
https://music.youtube.com/channel/UCoUnzR-rCsG8V9K1wVKQLxA



Capa do LP "Terra de Miranda", Série "Musica Tradicional", Vol. 6 (Saga, 1987)
Fotografia e grafismo – Roberto Ramos Blanco



Capa do CD "Modas i Anzonas", do grupo Galandum Galundaina (Açor/Emiliano Toste, 2005)
Desenho gráfico – José Meirinhos