02 abril 2025

Reinaldo Ferreira: "Quero um cavalo de várias cores"


© Câmara Municipal de Torres Novas (in https://mediotejo.net/)
Pintura mural, 2021, da autoria do artista terceirense Pantónio (António Correia, n. 1975), no chamado "muro da Vila Pinho", à entrada da cidade de Torres Novas pela Rua do Bom Amor. A obra evoca a Escola Prática de Cavalaria que funcionou naquela localidade ribatejana, entre 1902 e 1957.


«O jornal "Médio Tejo" noticia o lançamento, já este sábado, na biblioteca municipal Gustavo Pinto Lopes, de um "Roteiro de Arte Mural do Concelho de Torres Novas". O roteiro, da autoria da historiadora de arte Marta Nunes Ferreira, reúne registos dos mais importantes murais de arte urbana do concelho de Torres Novas, abrangendo o período que vai de 1974 até aos nossos dias.
O lançamento deste roteiro vai reunir na biblioteca municipal torrejana um lote relevante de autores de murais e de especialistas em conservação e restauro de arte urbana.
Ele dá-nos um bom incentivo a que marquemos na agenda uma próxima incursão pela terra de Maria Lamas onde a minha infância parava, de vez em quando, para comprar figos secos, tal como fazia desvio em Abrantes para reabastecimento da palha mais doce.
Torres Novas já me tinha surpreendido com o belo painel de azulejos do ceramista João Branco, instalado no Largo do Paço, em memória do antigo Teatro Virgínia.
Numa visita mais recente, deslumbrei-me com os cavalos em desfilada numa outra parede da cidade. A magnífica cavalgada que nos surpreende numa das entradas de Torres Novas é uma vibrante homenagem à antiga Escola Prática de Cavalaria, nascida da criatividade do açoriano Pantónio, um artista urbano da Terceira que tem espalhado talento em muros de muitas cidades do mundo.
Sempre sou tocado pela poeira que os cavalos levantam no meu olhar quando passam por mim na vertigem dos murais.
Certa vez, no restaurante da antiga pousada de Miranda do Douro, esqueci-me do pequeno-almoço e deixei que o pensamento fosse a galope com os cavalos de Júlio Resende.
Se não sabeis do que falo, procurai versos antigos de Sophia inspirados nos "Painéis que Resende desenhou para o monumento que devia ser construído em Sagres". Lá estão os cavalos, "suas crinas de vento / seus colares de espuma / seus gritos / seus perigos / seus abismos de fogo".
Mas estes cavalos em tropel desatado numa parede de Torres Novas, estes cavalos libertando-se das selas, crinas ao vento, estes cavalos que hão-de constar, não o duvido, do anunciado "Roteiro de Arte Mural" do concelho ganham aos meus olhos uma especial condição, são os meus cavalos à solta de Ary na voz de Tordo, são os meus cavalos de várias cores com selas feitas de restos de nuvem, tal como Reinaldo Ferreira os imaginou. Porque correm na parede de uma rua que não é uma rua qualquer. Correm numa parede da rua do Bom Amor.» [Fernando Alves, "Rua do Bom Amor", in "Os Dias que Correm", 2 Abr. 2025]


Do poema "Quero um cavalo de várias cores", de Reinaldo Ferreira (1922-1959), publicado, já postumamente, na colectânea "Poemas" (Lourenço Marques: Imprensa Nacional de Moçambique, 1960), não faltam gravações, quer na forma recitada, quer na forma musicada/cantada. No primeiro caso, contam-se as de Rui Gomes (196?), José Fanha (2004), Vítor de Sousa (2005) e Afonso Dias (2006). No registo de canção referenciámos ainda mais, pelos seguintes intérpretes: João Maria Tudella (1969), Frei Hermano da Câmara (1972), António Pedro Braga (1972), Eduardo Vera (1984), Filipa Pais (2003), Bruma Project (2018), Carminho (2018) e Gonçalo Salgueiro (2022). E não é de excluir a hipótese de haver omissões...
Tendo Fernando Alves evocado este belo e inspirado poema de Reinaldo Ferreira, era de bom-tom que a sua crónica, aquando da radiodifusão, hoje de manhã, tivesse sido rematada com um dos registos indicados, ou outro. Mas não: nada! Nuno Galopim de Carvalho e o seu comparsa Ricardo Soares, como de costume, fizeram de conta que nada disso era com eles e não estiveram para se darem ao incómodo. E os ouvintes do canal generalista da rádio do Estado, ante a continuada e reiterada desconsideração a quem vêm sendo votados, bem podem lastimar-se por o dinheiro que lhes é (coercivamente) cobrado na factura da electricidade servir para alimentar indivíduos negligentes e preguiçosos!...
Esses ouvintes desdenhados e despeitados que aqui acederem poderão, ainda que fora da sede mais própria e lógica, colmatar a lacuna que a Antena 1 lhes deixou em aberto. Escolhemos dois registos da nossa particular afeição, um recitado e outro cantado: o primeiro por José Fanha, extraído do audiolivro "Poemas com Animais" (Edições Gailivro, 2004); e o segundo por Filipa Pais, com música de Ricardo J. Dias, que abre o alinhamento do primoroso álbum "À Porta do Mundo" (Vachier & Associados, 2003), galardoado com o então prestigiado Prémio José Afonso. Boa escuta!



Quero um cavalo de várias cores



Poema de Reinaldo Ferreira (in "Poemas", Lourenço Marques: Imprensa Nacional de Moçambique, 1960; "Poemas", Col. Poetas de Hoje, N.º 21, Lisboa: Portugália Editora, 1966; "Poemas", Col. O Chão da Palavra/Poesia, Lisboa: Nova Vega, 1998)
Recitado por José Fanha* (in Livro/CD "Poemas com Animais", Canelas - Vila Nova de Gaia: Edições Gailivro, 2004)


Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva — nimbos e cerros —
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?


* José Fanha – declamação
Sonoplastia – Sam e Luís Pereira
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Fanha
https://www.nonio.uminho.pt/netescrita/autores/jfanha.html
https://queridasbibliotecas.blogspot.com/
https://www.youtube.com/@SaltaLetrinhas/videos?query=jose+fanha



Que o Mundo É Meu



Poema: Reinaldo Ferreira (ligeiramente adaptado de "Quero um cavalo de várias cores") [texto original >> acima]
Música: Ricardo J. Dias
Arranjo: Ricardo J. Dias e Mário Delgado
Intérprete: Filipa Pais* (in CD "À Porta do Mundo", Vachier & Associados, 2003)




[instrumental]

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva — nimbos e cerros —
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu. [4x]

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinha
Sem um cavalo de várias cores?

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva — nimbos e cerros —
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu. [4x]

[instrumental / vocalizos]


* [Créditos gerais do disco:]
Filipa Pais – voz
João Paulo Esteves da Silva – piano
Ricardo J. Dias – acordeão, gaita-de-foles, pife
Yuri Daniel – contrabaixo, baixo
Quiné (Joaquim Manuel Teles) – percussão
Manuel Rocha – violino
Eduardo Miranda – bandolim
Mário Delgado – guitarras

Produção – Ricardo Dias e João Paulo Esteves da Silva
Produção executiva – Vachier & Associados
Gravado no Estúdio Xangrilá, Lisboa, de Julho a Setembro de 2000, e no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Maio de 2002
Gravação – Nuno Pimentel, Jorge Barata, Maria João Castanheira e Fernando Nunes
Mistura – Ricardo J. Dias e Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Filipa_Pais
https://www.facebook.com/filipapaisofficial/
https://music.youtube.com/channel/UCmbnz8RS_Q0cltKLmgjRkWw



Capa da 1.ª edição do livro "Poemas", de Reinaldo Ferreira (Lourenço Marques: Imprensa Nacional de Moçambique, 1960)
Desenho – Dianne Lidcchi



Capa da 2.ª edição do livro "Poemas", de Reinaldo Ferreira, estudo de José Régio (Col. Poetas de Hoje, N.º 21, Lisboa: Portugália Editora, 1966)
Concepção – João da Câmara Leme



Capa de outra edição do livro "Poemas", de Reinaldo Ferreira, estudo de José Régio, pref. Guilherme de Melo (Col. O Chão da Palavra/Poesia, Lisboa: Nova Vega, Dez. 1998)



Capa do livro (com CD) "Poemas com Animais", por José Fanha (Canelas - Vila Nova de Gaia: Edições Gailivro, Mar. 2004)
Ilustrações e design – Pedro Pires



Capa do CD "À Porta do Mundo", de Filipa Pais (Vachier & Associados, 2003)
Fotografia – Isabel Pinto
Design – Golpe de Estado (desenhos inspirados em "Corto Maltese", de Hugo Pratt, e em "O Princepezinho", de Antoine de Saint-Exupéry).

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Outros artigos com poesia de (ou dita por) José Fanha:
A infância e a música portuguesa
A vitória do azeite
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)

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Outros artigos com repertório de Filipa Pais:
Filipa Pais: "Zeca"
A infância e a música portuguesa
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)

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Outros artigos relacionados com a crónica de Fernando Alves na Antena 1:
Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"
"Sons d'Outrora" em viola da terra, por Miguel Pimentel
Vitorino: "Moças de Bencatel" (Conde de Monsaraz)
Teresa Silva Carvalho: "Barca Bela" (Almeida Garrett)
António Borges Coelho: "Sou Barco"
Celeste Rodrigues: "Chapéu Preto"
Sérgio Godinho: "Tem Ratos"
Ruy Belo: "E Tudo Era Possível", por Nicolau Santos
Jacques Brel: "J'Arrive"
A tristeza lusitana
Segréis de Lisboa: "Ay flores do verde pino" (D. Dinis)
Manuel D'Oliveira: "O Momento Azul"
Aldina Duarte: "Flor do Cardo" (João Monge)
José Mário Branco: "Inquietação"
Chico Buarque: "Bom Conselho"
Teresa Paula Brito: "Meu Aceso Lume - Meu Amor" (Maria Teresa Horta)
Adriano Correia de Oliveira: "Pensamento" (Manuel Alegre)
Fausto Bordalo Dias: "Comboio Malandro" (António Jacinto)
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde" com Luiz Avellar: "As Nuvens Que Andam no Ar"
Amélia Muge: "Ai, Flores"
Afonso Dias: "Os Amigos" (Camilo Castelo Branco)
Pedro Barroso: "Barca em Chão de Lama"
António Gedeão: "Poema do Coração"

25 março 2025

António Gedeão: "Poema do Coração"


(in https://www.hospitaldaluz.pt/)


«Soube-se recentemente que, pela primeira vez na História, um homem saiu de um hospital caminhando sem coração. Aconteceu na Austrália. O homem viveu mais de três meses com um coração de titânio, até chegar o dia do transplante e poder sentir de novo o batimento do "pedaço de carne inexplicado", se posso usar o modo como a grande Yourcenar se referiu ao músculo que nos bate no peito.
Há tipos que ameaçam falar-nos com "o coração nas mãos". É uma bengala tão frequente como aquela que leva os editores de notícias a dizerem dos temas destacados no alinhamento que eles estão "em cima da mesa". Os seus entrevistados tentam escapar ao cerco das perguntas argumentando que o tema não "está em cima da mesa". É uma expressão que me irrita particularmente, embora não me faça cair o coração aos pés.
O cientista Rómulo de Carvalho tratou deste caso na sua circunstância de poeta António Gedeão. No "Poema do Coração" ele começa por lamentar não poder falar-nos com o coração nas mãos. "Mas o meu coração é como o dos compêndios/ Tem duas válvulas (a tricúspide e a mitral) / e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos)".
Lembrei-me do homem que caminhou com o seu coração de titânio e lembrei-me do coração poético de Gedeão, lendo hoje no "El País" a entrevista com Natalia Trayanova, biofísica e especialista em cardiologia computacional numa universidade norte-americana. O jornal apresenta-a como "criadora de corações virtuais", explicando que ela cria "gémeos digitais" para cada paciente e que isso facilita cirurgias em casos de problemas cardíacos graves.
Já não posso conversar, de novo, com o gentil, ainda que austero, professor Rómulo de Carvalho a quem entrevistei há muitos anos, coração aos saltos, na sua qualidade de poeta António Gedeão. Talvez ele me respondesse diferentemente do poema: "Por vezes acontece/ ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados / e uma lâmina baça e agreste, que endurece/ a luz dos olhos em bisel cortados. / Parece então que o coração estremece./ Mas não./ Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,/ que esse vento que sopra e ateia os incêndios/ é coisa do simpático./ Vem tudo nos compêndios".
Procurei pegadas anteriores da mesma investigadora Natalia Trayanova. Há uns dois anos, ela procurava uma luz que incidisse no coração e pudesse substituir os choques dos desfibrilhadores e do bypass.
Pareceu-me poético, ela falava afinal de uma luz que seria transportada até ao coração por fibra óptica, alta engenharia, aguenta, coração.
Mas logo os últimos versos do poema me chamam para a realidade: "Então, meninos!/ Vamos à lição!/ Em quantas partes se divide o coração?"» [Fernando Alves, "Corações virtuais", in "Os Dias que Correm", 25 Mar. 2025]


Entre os que escutaram a crónica, aquando da radiodifusão, hoje de manhã, os amantes de poesia, pelo menos, depois de ouvirem Fernando Alves citar versos do "Poema do Coração", teriam certamente apreciado que a Antena 1 os presenteasse com a transmissão do poema completo, preferencialmente dito pelo autor, logo que o cronista se calasse. Mais uma vez, e infelizmente, Nuno Galopim de Carvalho e o seu homem de mão, Ricardo Soares, não mexeram uma palha, mostrando a desconsideração em que têm quem lhes paga o salário.
Eis, pois, o "Poema do Coração", de António Gedeão, na voz do autor. O registo saiu primeiramente no EP "A Poesia de António Gedeão dita pelo Autor" em 1969 (Colecção 'A Voz e o Texto', Decca/VC) e teve reedição em disco compacto no ano de 2018 pelas Edições Valentim de Carvalho no âmbito da colecção "...Dizem os Poetas". Boa escuta!



Poema do Coração



Poema de António Gedeão [in "Linhas de Força", Coimbra: Edição do autor, 1967 – p. 9-10; "Poesias Completas (1956-1967)", Col. Poetas de Hoje, N.º 17, 2.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1968 – p. 235-236, 5.ª edição, Lisboa: Portugália Editora, 1975 – p. 235-236; "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997 – p. 58-59; "Poesia Completa", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997; Obra Poética", Lisboa: Edições João Sá da Costa, 2001; "Obra Completa", Lisboa: Relógio d'Água Editores, 2004, 2007, 2022]
Recitado pelo autor (in EP "A Poesia de António Gedeão dita pelo Autor", Col. 'A Voz e o Texto', Decca/VC, 1969; CD "António Gedeão", Col. '...Dizem os Poetas', Vol. 3, Edições Valentim de Carvalho, 2018)




Eu queria que o Amor estivesse realmente no coração,
e também a Bondade,
e a Sinceridade,
e tudo, e tudo o mais, tudo estivesse realmente no coração.
Então poderia dizer-vos:
«Meus amados irmãos,
falo-vos do coração»,
ou então:
«com o coração nas mãos».

Mas o meu coração é como o dos compêndios.
Tem duas válvulas (a tricúspida e a mitral)
e os seus compartimentos (duas aurículas e dois ventrículos).
O sangue ao circular contrai-os e distende-os
segundo a obrigação das leis dos movimentos.

Por vezes acontece
ver-se um homem, sem querer, com os lábios apertados,
e uma lâmina baça e agreste, que endurece
a luz dos olhos em bisel cortados.
Parece então que o coração estremece.
Mas não.
Sabe-se, e muito bem, com fundamento prático,
que esse vento que sopra e que ateia os incêndios,
é coisa do simpático.
Vem tudo nos compêndios.

Então, meninos!
Vamos à lição!
Em quantas partes se divide o coração?


* António Gedeão – voz
URL: http://cvc.instituto-camoes.pt/figuras/antoniogedeao.html
https://www.romulodecarvalho.net/
https://purl.pt/12157/1/index.html
https://dererummundi.blogspot.com/2019/10/poesia-e-ciencia-em-antonio-gedeao.html
https://music.youtube.com/channel/UCLAfs1EWokoUvjDzwdkC8QQ



Capa do livro "Linhas de Força", de António Gedeão (Coimbra: Atlântida Editora, 1967)



Capa da 2.ª edição do livro "Poesias Completas (1956-1967)", de António Gedeão (Col. Poetas de Hoje, N.º 17, Lisboa: Portugália Editora, 1968)
Concepção – João da Câmara Leme



Capa da 4.ª edição do livro "Poesias Completas (1956-1967)", de António Gedeão (Col. Poetas de Hoje, N.º 17, Lisboa: Portugália Editora, 1972)
Concepção – João da Câmara Leme



Capa da 8.ª edição do livro "Poesias Completas", de António Gedeão (Lisboa: Sá da Costa, 1982)
Concepção – Sebastião Rodrigues



Capa da 1.ª edição do livro "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", de António Gedeão (Lisboa: Edições João Sá da Costa, Mar. 1997)
Concepção e direcção gráfica – João Machado



Capa de outra edição do livro "Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor", de António Gedeão (Col. Cadernos de Poesia, Série Maior, Lisboa: Glaciar, Jun. 2022)
Concepção – Laura Quina



Sobrecapa do livro "Poesia Completa", de António Gedeão (Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)
Pintura – Júlio Pomar



Capa do livro "Obra Poética", de António Gedeão (Lisboa: Edições João Sá da Costa, 2001)



Capa da 1.ª edição do livro "Obra Completa", de António Gedeão (Lisboa: Relógio d'Água Editores, Nov. 2004)



Capa da 3.ª edição do livro "Obra Completa", de António Gedeão (Lisboa: Relógio d'Água Editores, Mai. 2022)



Capa do EP "A Poesia de António Gedeão dita pelo Autor" (Col. 'A Voz e o Texto', Decca/VC, 1969)



Capa do CD "António Gedeão" (Col. "...Dizem os Poetas", Vol. 3, Edições Valentim de Carvalho, 2018)
Concepção – Maria Mónica

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Outros artigos com poesia de António Gedeão:
Adriano Correia de Oliveira: um grande cantor silenciado na rádio pública
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)

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Outros artigos relacionados com a crónica de Fernando Alves na Antena 1:
Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"
"Sons d'Outrora" em viola da terra, por Miguel Pimentel
Vitorino: "Moças de Bencatel" (Conde de Monsaraz)
Teresa Silva Carvalho: "Barca Bela" (Almeida Garrett)
António Borges Coelho: "Sou Barco"
Celeste Rodrigues: "Chapéu Preto"
Sérgio Godinho: "Tem Ratos"
Ruy Belo: "E Tudo Era Possível", por Nicolau Santos
Jacques Brel: "J'Arrive"
A tristeza lusitana
Segréis de Lisboa: "Ay flores do verde pino" (D. Dinis)
Manuel D'Oliveira: "O Momento Azul"
Aldina Duarte: "Flor do Cardo" (João Monge)
José Mário Branco: "Inquietação"
Chico Buarque: "Bom Conselho"
Teresa Paula Brito: "Meu Aceso Lume - Meu Amor" (Maria Teresa Horta)
Adriano Correia de Oliveira: "Pensamento" (Manuel Alegre)
Fausto Bordalo Dias: "Comboio Malandro" (António Jacinto)
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde" com Luiz Avellar: "As Nuvens Que Andam no Ar"
Amélia Muge: "Ai, Flores"
Afonso Dias: "Os Amigos" (Camilo Castelo Branco)
Pedro Barroso: "Barca em Chão de Lama"

23 março 2025

Herberto Helder: "Fonte" (II), por Luísa Cruz


© John Oliveira, 2021
(in https://www.instagram.com/arte.johnoliveira/)


Completou-se hoje (de madrugada) um decénio exacto sobre a data em que partiu, para o Olimpo dos Poetas, Herberto Helder, figura grada da poesia (de língua) portuguesa contemporânea pós-pessoana. Assinalamos a efeméride pondo em destaque a segunda parte do poema "Fonte", ou, se se preferir, o segundo poema do ciclo assim intitulado (não sabemos qual das duas formulações corresponde, em maior rigor, à intenção do poeta quando deu o título genérico de "Fonte" aos seis admiráveis nacos de poesia em homenagem às mães que publicou, no ano de 1961, em "A Colher na Boca", um dos seus livros mais fundamentais).
Quanto ao registo áudio, e uma vez que incluímos o lido pelo autor no artigo "Em memória de Herberto Helder (1930-2015)", achámos por bem ir respigar o recitado pela actriz Luísa Cruz do CD n.º 2 do antológico audiolivro "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", que a Assírio & Alvim editou em 2004, no âmbito da sua colecção "Sons".
Aproveitamos o ensejo para recomendar (vivamente) a audição da edição do programa "A Ronda da Noite" da passada sexta-feira, Dia Mundial da Poesia, que Luís Caetano (a nossa vénia!) dedicou à poética de Herberto Helder, na voz do autor, intercalada com sublimes trechos musicais bachianos, em comemoração do 340.° aniversário do nascimento do divino Johann Sebastian Bach [>> RTP-Play].
Boas celebrações herbertiana e bachiana!



FONTE (II)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Vol. 1, Lisboa: Plátano Editora, 1973; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1981; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 43-44; "Ofício Cantante: Poesia Completa", Lisboa: Assírio & Alvim, 2009; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014 – p. 47-48)
Recitado por Luísa Cruz* (in livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD 2, Col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


                           II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


* Luísa Cruz – voz

Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel
URL: https://www.facebook.com/actrizluisacruz/
https://www.alexandregoncalves.eu/luisa-cruz.html
https://wikidobragens.fandom.com/pt/wiki/Lu%C3%ADsa_Cruz



Capa do livro "A Colher na Boca", de Herberto Helder (Lisboa: Edições Ática, 1961)
Concepção – António Domingues



Capa da 1.ª edição do livro "Poesia Toda", Vol. 1, de Herberto Helder (Lisboa: Plátano Editora, 1973)



Capa da 2.ª edição do livro "Poesia Toda", de Herberto Helder (Lisboa: Assírio & Alvim, 1981)



Capa da 3.ª edição do livro "Poesia Toda", de Herberto Helder (Lisboa: Assírio & Alvim, Nov. 1990)



Capa do livro "Ofício Cantante: Poesia Completa", de Herberto Helder (Lisboa: Assírio & Alvim, Jan. 2009)
Pintura de Ilda David (2008)



Capa do livro "Poemas Completos", de Herberto Helder (Porto: Porto Editora, Out. 2014)



Capa do livro (com 2 CD) "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX" (Col. Sons, Assírio & Alvim, 2004).

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Outro artigo com poesia de Herberto Helder:
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)

21 março 2025

Maria Teresa Horta: "Minha Senhora de Mim" e "O Corpo"



Uma das peculiaridades (talvez a mais fulcral) da poesia de Maria Teresa Horta é a clara assumpção pelo sujeito poético do género feminino (não por acaso a autora fazia questão de identificar-se como poetisa, evitando a apropriação de "poeta", substantivo masculino ou, segundo algum uso mais recente, sem género definido), sendo que na produção de feição erótica está bem explícita a sua heterossexualidade e a afirmação plena (sem peias) do seu direito enquanto mulher ao prazer em interacção corporal com um (o seu) homem. Os poemas "Minha Senhora de Mim" (glosando um verso de Francisco Sá de Miranda, "Comigo me desavim") e "O Corpo" exemplificam cabalmente o que acabámos de enunciar e dado que se contavam entre os favoritos da autora, que fez questão de gravá-los para serem incluídos num disco colectivo patrocinado pela SPA – "A Voz dos Poetas", 2017 –, afigurou-se-nos que era de elementar justiça dar-lhes destaque no presente Dia Mundial da Poesia, o primeiro que acontece sem a presença (física) de Maria Teresa Horta entre nós. O primeiro faz parte do livro homónimo, publicado em 1971 e logo apreendido pela PIDE/DGS, e o segundo integra "Educação Sentimental" (título tomado do romance de Gustave Flaubert), volume que não teve a mesma desditosa sorte porque já foi editado depois da Revolução dos Cravos (em 1976). Mesmo assim a obra não deixou de constituir, nas palavras da autora, «um acto de pura insubordinação» e «um dos meus livros mais subversivos». E valha a verdade que ainda hoje é uma obra desafiante para muitas cabeças...
A pensar naqueles que fiquem com o desejo de ouvir mais gravações, deixamos os links das múltiplas edições da rubrica "A Vida Breve" respeitantes a poesia de Maria Teresa Horta dita pela própria, que Luís Caetano escolheu para render-lhe homenagem depois da triste ocorrência da sua morte, em Fevereiro passado. Boas audições poéticas!


A VIDA BREVE | 5 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Pequenos dizeres sobre a mulher

A VIDA BREVE | 6 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: As Bibliotecas

A VIDA BREVE | 7 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Poema

A VIDA BREVE | 10 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: A Leitora

A VIDA BREVE | 11 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Carta a Maria

A VIDA BREVE | 12 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Trajecto na escrita

A VIDA BREVE | 13 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Verso e veia

A VIDA BREVE | 14 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Ponto de honra

A VIDA BREVE | 18 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Anunciações (excerto)

A VIDA BREVE | 19 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Três poemas

A VIDA BREVE | 20 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Português

A VIDA BREVE | 21 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Escrever

A VIDA BREVE | 25 Fev. 2025 [>> RTP-Play]
Maria Teresa Horta: Cavalo da Memória



MINHA SENHORA DE MIM



Poema de Maria Teresa Horta (in "Minha Senhora de Mim", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1971 – p 17; "Poesia Reunida", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009; "Eu Sou a Minha Poesia: Antologia Pessoal", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2019)
Recitado pela autora* (in livro/CD "A Voz dos Poetas", Sociedade Portuguesa de Autores/Ovação, 2017)




Comigo me desavim
minha senhora
de mim

sem ser dor ou ser cansaço
nem o corpo que disfarço

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

nunca dizendo comigo
o amigo nos meus braços

Comigo me desavim
minha senhora
de mim

recusando o que é desfeito
no interior do meu peito



O CORPO



Poema de Maria Teresa Horta (in "Educação Sentimental", Lisboa: A Comuna, 1976 – p. 93-94; "As Palavras do Corpo: Antologia de Poesia Erótica", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2012 – p. 89-90; "Poesia Reunida", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2009 – p. 400-401)
Recitado pela autora* (in livro/CD "A Voz dos Poetas", Sociedade Portuguesa de Autores/Ovação, 2017)




Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo,

digo no corpo
os sítios e os lugares

de feltro os seios
de lâminas os dentes
de seda as coxas
o dorso, em seus vagares.

Lazeres do corpo:
os ombros,
as lisuras — o colo alto
a boca retomada

o fim das pernas
a porta da ternura,
dentro dos lábios
o fim da madrugada.

Digo do corpo,
o corpo:
e do meu corpo,

as ancas breves
ao gosto dos abraços

os olhos fundos
e as mãos ardentes
com que me prendes
em súbitos cansaços

Vício do corpo:
o teu
com seu veneno

que bebo e sugo
até ao mais amargo,
ao mais cruel grau
do esgotamento
e onde em silêncio
nado
em cada espasmo

Digo do corpo,
o corpo:
o nosso corpo

Digo do corpo
o gozo
do que faço

Digo do corpo
o uso
dos meus dias

e a alegria do corpo
sem disfarce


* Maria Teresa Horta – voz
URL: https://www.facebook.com/Maria-Teresa-Horta-P%C3%A1gina-Oficial-163002943815613/
http://livro.dglab.gov.pt/sites/DGLB/Portugues/autores/Paginas/PesquisaAutores1.aspx?AutorId=10201



Capa da 1.ª edição do livro "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta (Col. Cadernos de Poesia, N.º 18, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1971)
Orientação gráfica – Fernando Felgueiras



Capa da 2.ª edição do livro "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta (Col. Nova Visão Futura, Lisboa: Editorial Futura, 1974)



Capa da 3.ª edição do livro "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta (Col. Poesia, Lisboa: Gótica, 2001)



Capa da 4.ª edição do livro "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta (Lisboa: Publicações Dom Quixote, Mai. 2015)



Capa do livro "Educação Sentimental", de Maria Teresa Horta (Lisboa: A Comuna, 1976)



Capa do livro "As Palavras do Corpo: Antologia de Poesia Erótica", de Maria Teresa Horta (Lisboa: Publicações Dom Quixote, Fev. 2012)



Capa do livro "Poesia Reunida", de Maria Teresa Horta (Lisboa: Publicações Dom Quixote, Fev. 2009)



Capa do livro "Eu Sou a Minha Poesia: Antologia Pessoal", de Maria Teresa Horta (Lisboa: Publicações Dom Quixote, Abr. 2019)
Fotografia – Luís Barros (marido da poetisa)



Capa do livro/CD "A Voz dos Poetas" (Sociedade Portuguesa de Autores/Ovação, 2017)

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Outros artigos com poesia de Maria Teresa Horta:
Dialecto: "Instrumentos de Trabalho" (Maria Teresa Horta)
Maria Teresa Horta: "Mulher-Poetisa"
Teresa Paula Brito: "Meu Aceso Lume - Meu Amor" (Maria Teresa Horta)

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Outros artigos com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Miguel Torga: "Natal"
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
A infância e a música portuguesa
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
Celebrando Agostinho da Silva
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Camões recitado e cantado (III)
Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Camões recitado e cantado (IV)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto
Miguel Torga: "Natividade"
António Botto: "Homem que vens de humanas desventuras"
Fernando Namora: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado (V)
Miguel Torga: "A um Negrilho"
Camões recitado e cantado (VI)
Mário Dionísio: "Solidariedade", por Carmen Dolores
Manuel Alegre: "País de Abril", por Mário Viegas
Camões recitado e cantado (VII)
Florbela Espanca: "À Morte", por Eunice Muñoz
Camões recitado e cantado (VIII)
Eugénio de Andrade por João Perry
A Natalidade de Natália Natália Correia: "A Casa do Poeta", por Afonso Dias
Camões recitado e cantado (IX)
Poesia trovadoresca adaptada por Natália Correia
Natália Correia: "Ode à Paz", por Afonso Dias
Nuno Júdice: "O Sentido do Poema"
Luís de Camões: "Os Lusíadas" (dois excertos), por Carlos Wallenstein
Camões por Carmen Dolores
Camões recitado e cantado (X)
"Em Memória de uma Camponesa Assassinada"
Luís de Camões: "Endechas a Bárbara Escrava"
Luís de Camões: "Perdigão perdeu a pena"
Pablo Neruda: "Ode ao Pão", por Mário Viegas
Ruy Belo: "E Tudo Era Possível", por Nicolau Santos
José Gomes Ferreira: "O general entrou na cidade", por Carmen Dolores

20 março 2025

Carlos Paredes: "Canto da Primavera"


Primavera, iluminura do códice Tacuinum Sanitatis, finais do séc. XIV, pertencente à Biblioteca Casanatense, Roma (MS 4182) [in https://commons.wikimedia.org/].
Este tratado em latim sobre saúde e bem-estar, profusamente ilustrado, baseia-se no Taqwim al-Sihha ("Calendário de Saúde"), escrito em árabe pelo médico e teólogo cristão (nestoriano) Ibn Butlān (Bagdad, c.1001 - Antioquia, 1066).


Estando a decorrer as comemorações do centenário do nascimento de Carlos Paredes, impõe-se que escolhamos, para assinalar a chegada da estação do renascimento e das flores de 2025 (que vem acompanhada de sol, aplacando a fúria do ciclone Martinho), o "Canto da Primavera" que fecha o alinhamento da edição em CD do álbum "Espelho de Sons", lançado em Março de 1988 pela PolyGram sob o selo Philips (na edição em LP, de conteúdo mais reduzido, aquele trecho não consta), e incluído também no LP/CD "Asas sobre o Mundo" (Philips/PolyGram, 1989). Refira-se, a título de curiosidade, que, a exemplo da maior parte do material integrante do CD "Espelho de Sons", este "Canto da Primavera" não é uma composição inédita. Já saíra em dois LPs, a saber: "Meister der Portugiesischen Gitarre" (Amiga/RDA, 1977) fechando a suite "Das Gold und das Getreide" ("O Oiro e o Trigo"), aparecendo aí com a designação de "Erster Mai" ("Primeiro de Maio"); e "Concerto de Frankfurt" (Philips/PolyGram, 1983), encerrando a suite "Seis Guitarradas sobre uma Fábula", onde surge com o título de "Festa da Primavera".
Boa escuta, com votos de uma soalheira e sadia Primavera!

Na Antena 1, durante a semana que antecedeu o dia do centenário do nascimento de Carlos Paredes (16 de Fevereiro, domingo), foi possível ouvir música de Carlos Paredes, em apontamentos e em programas especiais consagrados ao genial guitarrista, iniciativa que apreciámos e de que damos boa nota. Volvido pouco mais de um mês, já nada da produção de Carlos Paredes se consegue apanhar na emissão do primeiro canal da rádio do Estado. Nem sequer algo de repertório cantado por outrem sobre música do criador de "Verdes Anos"!... Quem manda na programação da Antena 1 deve achar que Carlos Paredes é "vinha vindimada", mas em contrapartida não se coíbe de dar insistente promoção a quantidades industriais de lixo sonoro, quer velho (sobretudo anglo-saxão), quer novo (maioritariamente de fabrico interno). Pergunta óbvia e pertinente: valerá mesmo a pena os consumidores de electricidade continuarem a honrar o pagamento da contribuição do audiovisual?



Canto da Primavera



Música: Carlos Paredes
Intérprete: Carlos Paredes* (in CD "Espelho de Sons", Philips/PolyGram, 1988; CD "Asas sobre o Mundo", Philips/PolyGram, 1989; livro/8CD "O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993": CD 6 – "Asas", EMI-VC, 2003; 2CD "Carlos Paredes: Antologia 62/98": CD 1 e CD 2, Universal Music Portugal, 2007)




(instrumental)


* Carlos Paredes – guitarra portuguesa
Luísa Amaro – guitarra clássica (cordas de nylon)

Produção – Tozé Brito
Gravado no Angel Studio 2, Lisboa, em 1987
Técnico de som – José Manuel Fortes
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Carlos_Paredes
https://www.museudofado.pt/fado/personalidade/carlos-paredes
https://viriatoteles.com/dispersos/colaboracoes/153-o-mundo-segundo-carlos-paredes.html
https://www.youtube.com/channel/UCh5tYA07B0Uur5Mo1gbPmYQ/videos?query=carlos+paredes
https://music.youtube.com/channel/UCj1y__qVlbJZwynbWv22eoQ



Capa do CD "Espelho de Sons", de Carlos Paredes (Philips/PolyGram, 1988)
Desenho – Carlos Martins Pereira



Capa do CD "Asas sobre o Mundo", de Carlos Paredes (Philips/PolyGram, 1989)



Capa da edição (livro com 8 CD) "O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993" (EMI-VC, 2003)



Capa da compilação em 2 CD "Carlos Paredes: Antologia 62/98" (Universal Music Portugal, 2007)

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Outros artigos com repertório alusivo à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"
Roda Pé: "Primavera Alentejana"
Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba": "No Tempo da Primavera"
Amália Rodrigues: "Primavera" (David Mourão-Ferreira)
Francisco Filipe Martins: "Canção da Primavera"
Grupo Coral da Casa do Povo de Santo Aleixo da Restauração: "É Lindo na Primavera"
Celina da Piedade: "Primavera"
Rão Kyao & Lu Yanan: Primavera

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Outros artigos com música de Carlos Paredes:
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014)
Celebrando Carlos Paredes
Poesia trovadoresca adaptada por Natália Correia
"Em Memória de uma Camponesa Assassinada"