
(in https://www.facebook.com/junta.de.freguesia.de.vilela)
Monumental exemplar de carvalho-alvarinho (Quercus robur), sito na freguesia de Calvos, concelho de Póvoa de Lanhoso.
Este carvalho tem 23 metros de altura, 40 m de diâmetro médio da copa, 7,4 m de diâmetro médio do tronco e um perímetro à altura do peito de 10 metros. A idade da árvore está calculada em mais de 500 anos.
É considerada árvore de interesse público desde 22 de Agosto de 1997. [fonte: Wikipédia]
[Para ver a imagem em ecrã inteiro, noutra janela, é favor clicar aqui]
«Por esta altura do ano, o carvalho galego cobre-se de flores que se agrupam em inflorescências unissexuais, em amentilhos masculinos e femininos abraçados na mesma árvore. É como se, entrelaçados nos poderosos troncos do carvalho galego, pitas e sardões festejassem uma eterna Páscoa de bolotas.
Gosto da palavra amentilho que pende, como esplendorosa insígnia, das mais portentosas árvores, dos amieiros ou dos salgueiros que namoram as águas, dos carvalhos que tornam os bosques inexpugnáveis. Gosto da palavra inflorescência iluminando os pedúnculos do carvalho galego que hoje será plantado em Lousada.
O município de Lousada iniciou, há quase dez anos, um projecto de restauro ecológico do território, envolvendo acções continuadas de voluntariado ambiental. Isso quer dizer que, nestes quase dez anos, foram organizadas mais de 300 plantações, envolvendo mais de 14 mil voluntários, o que permitiu restaurar mais de 100 hectares. Esta circunstância faz de Lousada um caso exemplar, merecedor de um amentilho de palavras gratas. Tudo somado, nestes quase dez anos, os de Lousada plantaram mais de 155 mil árvores. Não apenas carvalhos. Também medronheiros, sobreiros, salgueiros-negros, pilriteiros.
Tomai nota, senhores. O carvalho galego que hoje vai ser plantado em Lousada não é apenas mais um. O exemplar que hoje será entregue à terra de Gascos e Sousões é descendente do carvalho de Calvos, a admirável árvore com mais de 500 anos, a mais antiga da Península Ibérica e segunda mais antiga da Europa.
Muitos amantes da natureza procuram o lugar de Calvos, Póvoa de Lanhoso, para render homenagem a essa árvore que resiste desde o século XVI, contemporânea de Da Vinci e de Copérnico, de Gil Vicente e de Erasmo de Roterdão, de Fernão Mendes Pinto e de Garcia de Orta.
O acto de hoje, em Lousada, é mais do que um pretexto para a pedagogia da biodiversidade e do bem-estar de uma comunidade. É um hino à perenidade e à permanência.
Vivam os carvalhos galegos de Lousada.» [Fernando Alves, "O carvalho de Lousada", in "Os Dias que Correm", 22 Mai. 2025]
«Os Bugalhos nasceram no Porto em 2015. Animistas, humanistas, reais. Compõem música alternativa de expressão portuguesa; misturam poesia autoral com ritmos tradicionais; histórias próximas do imaginário popular com melodias originais.» Assim se apresenta, na plataforma Bandcamp, o projecto Bugalhos que, a 20 de Março de 2021, lançou, sob o selo Açor, do Prof. Emiliano Toste, o álbum "Alvorário". A fechar o alinhamento, na posição décima quarta, figura a canção "Carvalho Grande", com letra e música de António-Pedro e Blandino, originalmente concebida para a peça "Que Raio de Mundo" que foi levada à cena em 2013 pelo Teatro Regional da Serra de Montemuro, companhia sediada na aldeia de Campo Benfeito, no concelho de Castro Daire.
Ora, para remate poético-musical à crónica de hoje em que Fernando Alves enalteceu os carvalhos-galegos (também comummente chamados carvalhos-alvarinhos) e, muito particularmente, o multicentenário carvalho de Calvos, tesouro reverencial da flora portuguesa, ibérica e europeia, não havia registo mais apropriado e pertinente do que aquela bela canção "Carvalho Grande", dos Bugalhos, atendendo ao adequadíssimo título e – não menos importante – ao teor da letra em que está expressa a necessidade imperiosa de estimarmos as árvores, mormente as autóctones folhosas (carvalhos, castanheiros, sobreiros, azinheiras, loureiros, amieiros, salgueiros, ulmeiros, teixos...) por serem mais benéficas para a biodiversidade e pela muito maior resistência que oferecem aos incêndios, os quais, em virtude da subida da temperatura média do planeta, tenderão a ser mais frequentes e violentos.
Estamos muito em crer que Fernando Alves teria apreciado de sobremaneira que este "Carvalho Grande", dos Bugalhos, servisse de epílogo arbóreo feito de palavras e de música ao preito de homenagem que rendeu ao monumental carvalho de Calvos. E para a maioria dos ouvintes seria certamente uma agradabilíssima revelação, pois deve ser reduzido o número daqueles que conhecem o grupo, por causa da soez e criminosa marginalização que a música (de raiz) tradicional vem sofrendo há largos anos na Antena 1 e que se acentuou após a saída (forçada) do Sr. Armando Carvalhêda. Esses ouvintes a quem a rádio que pagam falhou uma vez mais na prestação do serviço público que esperam e merecem podem aqui relaxar o corpo e a mente à sombra do "Carvalho Grande", tão afectuosamente tratado pelos Bugalhos. Boa escuta e revigorantes inspirações de ar puro!
A pensar nos visitantes que desejarem saber mais sobre o carvalho, deixamos ao fundo o primoroso texto monográfico da autoria de António Bagão Félix respigado, com a devida vénia, do seu livro "Quarenta Árvores em discurso directo" (Porto Editora, 2025). Boa leitura!
Carvalho Grande
Letra e música: António-Pedro e Blandino
Arranjo: Bugalhos
Intérprete: Bugalhos* (in CD "Alvorário", Açor/Emiliano Toste, 2021)
[instrumental]
- Esta história que vamos contar
- Do Carvalho Grande
- Do Carvalho Grande
- Árvore, vila, vida, terra, gente, povo, mundo
- Temos de a partilhar
- Porque ela é nossa
- Vossa
- Temos de a partilhar
- Porque ela é nossa
- Vossa
- Venham!
[instrumental]
Temos um tesouro lindo
Que está entre nós
Escondido, guardado
Porque estamos sós.
[bis]
Vem daí, ó António!
Vem daí, ó Zulmira!
Precisamos de todos
P'ra fazer um novo dia.
[bis]
Neste Raio de Mundo,
Neste Mundo Incrível.
[bis]
[instrumental]
Temos um tesouro lindo
Que está entre nós:
Se olharmos pelos outros
Já não estamos sós.
[bis]
Vem daí, ó António!
Vem daí, ó Zulmira!
Precisamos de todos
P'ra fazer um novo dia.
[bis]
Neste Raio de Mundo,
Neste Mundo Incrível.
[bis]
[instrumental]
Já passámos tanto,
Já amámos tanto,
Já tanto trabalhámos
Nesta Terra que é de todos.
[bis]
E que tem de mudar
P'ra ser mais justa e sã,
E nós mais felizes
Num melhor amanhã!
[bis]
Neste Raio de Mundo,
Neste Mundo Incrível.
[6x]
[instrumental]
* Bugalhos:
André Oliveira – violino e voz
Blandino – concertina, guitarras, harmónicas e voz
Inês Caetano – cavaquinho, percussões e voz
Rita Só – percussões e voz
Produção – João Ramoa e Bugalhos
Gravado em 'live session' no Cabriolet Music Studio, Porto, em Dezembro de 2019 e Fevereiro de 2020
Captação, mistura e masterização – João Ramoa
URL: https://www.facebook.com/bugalhosbanda
https://bugalhos.bandcamp.com/

Capa do CD "Alvorário", do grupo Bugalhos (Açor/Emiliano Toste, 2021)
Ilustração e design – Catarina Santos
CARVALHO
Por: António Bagão Félix

Quercus: este é o nome pelo qual é conhecido o meu vasto género botânico. Uma designação que passou da quase incógnita nomenclatura taxonómica para a trivialidade dos nomes que se ouvem no quotidiano, por força do movimento associativo ecológico Quercus e de outras instituições de preservação ambiental, como o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), que exibe uma folha minha no seu logótipo. Isto quer dizer que me ligam – e bem – à valorização e sustentação da floresta e, por essa via, da Natureza no seu estado mais saudável.
A minha família botânica é a das Fagáceas, à qual pertencem também outros géneros bem conhecidos, como a faia e o castanheiro. Somos algumas centenas de espécies, disseminadas quase exclusivamente no hemisfério norte do planeta (até aos 60° de latitude), embora algumas habitem zonas mais tropicais, desde que em altitude. Temos, obviamente, muitos traços comuns, mas também diferenças assinaláveis, o que é natural numa tão vasta casta. Há espécies de folha caduca (sobretudo as que habitam as terras mais setentrionais e frias) e espécies de folha persistente (oriundas das zonas mais mediterrânicas e temperadas). Há espécies de crescimento rápido e outras de mais lento desenvolvimento. Há espécies de imponente porte arbóreo e outras mais arbustivas. Antes de me apresentar mais detalhada e individualmente, não posso deixar de mencionar as mais conhecidas em Portugal. Começo pelo sobreiro, chaparro ou sobro (Quercus suber), de enorme importância na paisagem do Sul e no aproveitamento da sua casca suberosa (a cortiça que é extraída em cada 9 anos, após os primeiros 25 anos de vida). Passo para a também estimada azinheira (Quercus rotundifolia) que, além de fazer companhia ao sobreiro no montado, ficou para sempre ligada aos pastorinhos de Fátima. Estas duas tão chegadas parentes são espécies autóctones de folha persistente que, desde tempos medievais, têm sido objecto de medidas de preservação. A actual Lei de Bases da Política Florestal reforça a protecção legal dos montados de sobreiro e de azinheira e preconiza um plano específico de conservação e de desenvolvimento, enquanto sistemas agrários de particular valia sócio-económica e ambiental, sendo o seu abate, em regra, proibido.
Portugal tem a maior área de montado de sobro e de azinho do mundo, num total de cerca de um milhão e duzentos mil hectares, ou seja, de mais de 20% de toda a floresta do país.
Uma curiosidade: a origem do vocábulo montado parece residir no nome de um imposto que, na Idade Média, era cobrado pelo uso dos montes comuns para pasto de animais, prática a que, então, se dava o nome de «montar». Espero que esta relação incómoda com impostos se tenha diluído com o passar dos séculos...
Destaco, ainda, os meus primos direitos, carvalho-cerquinho ou carvalho-português (Quercus faginea), carvalho-negral (Quercus pyrenaica), carrasco (Quercus coccifera), carvalho-das-canárias (Quercus canariensis), carvalho-vermelho (Quercus coccinea), carvalho-americano (Quercus rubra), carvalhiça ou carvalho-anão (Quercus lusitanica), para já não falar das muitas hibridações, nem sempre facilmente identificáveis e resultantes do convívio afectuoso entre algumas delas.
Feita esta brevíssima apresentação dos meus parentes, vou, agora, assinalar o meu cartão de cidadão vegetal. O meu nome é o de carvalho-comum, carvalho-alvarinho ou carvalho-roble. Ou mais simplesmente: carvalho. Na designação latina, Lineu adicionou ao género Quercus a palavra robur, que significa precisamente forte e robusto (aliás, os antigos Romanos designavam já como robur os carvalhos ou outras árvores de madeira dura e forte). Consideram-me um must em várias categorias definidoras do mundo arborescente: no vigor e robustez, na estatura, na longevidade e resistência e na qualidade da madeira.
Sou uma espécie caducifólia, defendendo-me assim da tormenta dos dias gélidos, sobretudo no Norte de Portugal, onde ocupo vastas áreas de florestação. As minhas tão características folhas que, todavia, os mais ignorantes confundem com o plátano ou o bordo, apresentam-se simples, alternas e profundamente lobadas, com um comprimento entre os 6 e os 20 centímetros, quase sésseis e glabras e com três a sete pares de suaves lóbulos e, nalguns casos, com duas aurículas na base. Apresentam uma característica que as diferencia de muitas árvores: são geralmente mais largas na parte superior do que no pé. Outro traço distintivo é a pronunciada nervação principal e secundária, mormente se observada do limbo inferior. Têm tanto de impressivamente verdes na sua pujança primaveril, como de acentuadamente acastanhado quando teimam em tardar a despedida no Inverno. Se há outras árvores que, outonalmente, apresentam um hábito expressivo de tonalidades mais amarelas ou sombrias, eu dou-me ao mundo com uma copa de um castanho uniforme e inigualável, que a torna vistosa mesmo na hora da despedida anual.
Suportado por uma raiz gavião ou principal muito forte, que me permite ter uma excelente condição de fixação ao solo, o meu tronco cinzento é vigoroso e liso, lentamente tornado algo gretado e mais pardacento com a idade. A copa é vistosa, formada por ramos mais fortes e torcidos, sobretudo na parte baixa e média do tronco, e outros mais franzinos e esverdeados quase aleatoriamente distribuídos, dando-me uma forma que, embora nem sempre regular, é ampla e arredondada, podendo chegar aos 40 metros de altura. Gosto de solos frescos e profundos e sou assumidamente fotófito.
As minhas flores masculinas dispostas em amentilhos, de um pálido verde, e as femininas, mais acastanhadas e de tamanho diminuto, dispostas pedunculadas na extremidade dos raminhos, formam-se na Primavera e no mesmo pé. O resultado do seu enlace é a minha tão conhecida bolota ou glande, que é o nome por que é designado o meu fruto, que surge por volta de Outubro. A bolota, mais ou menos oblonga, tem entre 1,5 e 4 centímetros de comprimento e é bastante pedunculada, ao contrário das folhas. Este aspecto está, provavelmente, na origem de outro nome botânico que me foi dado pelo aluno de Lineu, o alemão Jakob Friedrich Ehrhart (1742-1795): Quercus pedunculata. A bolota começa por se apresentar vestida de um verde-pardo, tornando-se castanha com a maturação. A parte inferior da glande assenta numa cúpula em forma de malga, revestida por escamas quase planas. Sou uma árvore que, por temperamento casto e um sereno modo de estar, só ao fim de algumas dezenas de anos (umas vezes 40, outras até 8o anos!) floresce, o que, convenhamos, vai contra a norma dos tempos, que impele à iniciação sexual em plena juventude ou mesmo numa idade bem mais precoce. Acontece que as tais dezenas de anos são, para mim, ainda a plena e viçosa juventude, pois que a minha longevidade vai até às altas centenas ou mesmo um milhar de anos. Há, até, um provérbio japonês que diz que levo 300 anos a crescer, outros 300 a manter-me adulta e mais 300 a morrer. Bem, mas depois de florescer a primeira vez, é um ver-se-te-avias. Todos os anos dou à luz as minhas bolotinhas, com afecto e desvelo, que ainda fazem a delícia dos suínos, apesar da concorrência de outros alimentos, e que até foram usadas para fazer uma espécie de substituto do café no período mais dramático das duas Guerras Mundiais do passado século. Já desde o tempo dos druidas celtas, a minha forma é maliciosamente associada à glande do órgão sexual masculino, existindo até certas superstições sobre a virilidade humana, que aqui me escuso de comentar. Uma última anotação para quem tenha de mim uma ideia demasiado superficial: nos meus ramos surgem excrescências ou «berlindes» arredondados e castanhos, causados pela picada e depósito de larvas de vespa, que de lá saem quando se transformam em insectos adultos. São os chamados bugalhos. Será caso para advertir, com toda a propriedade, que, por favor, e a meu propósito, não misturem alhos com bugalhos...
Na Bíblia Sagrada é muito frequente ser uma árvore citada e apreciada. Aliás, sou uma espécie com grande tradição religiosa e espiritual. Associam-me quase sempre à longevidade e à sabedoria própria da ancianidade. Mas também à robustez física e moral. Para os antigos Gregos, era a árvore de Zeus, com a qual, na Odisseia, Ulisses se aconselhou sobre o seu regresso. Os druidas celtas elegeram-me como a árvore sagrada, simbolizando os mais puros sentimentos de lealdade, serenidade e vigor. Há aqui até um curioso cruzamento: a própria palavra druida, que designa estes sacerdotes e guias animistas da sociedade celta, advém da junção de dois vocábulos que significavam carvalho e saber. Não pecarei por excesso se disser que o saber ou conhecimento do carvalho, pela sua representatividade e simbologia, era sinónimo de ser conhecedor de todas as árvores da Natureza. Ao longo da História dos povos, transporto não só um enraizado misticismo, como uma perspectiva cósmica. Também para os antigos povos germanos e eslavos, sempre fui estimado como uma árvore elevada à categoria de sagrada, tendo sido dedicada ao deus do trovão (Thor). Nas terras teutónicas, fui o símbolo dos heróis vitoriosos, aos quais era simbolicamente ofertada uma coroa com viçosas folhas de um carvalho, que o regime nazi aproveitou na sua propaganda belicista. Hoje, estou reabilitado através da estilização da minha folha, nas moedas de um, dois e cinco cêntimos do euro que se fabricam na Alemanha, na continuação da ilustração que já fazia parte do antigo pfennig do marco alemão.
Volto à Bíblia. Sei que nunca foram dissipadas umas certas dúvidas sobre algumas das citações que me são feitas, defendendo alguns estudiosos bíblicos que, afinal, não era a mim que se referiam, mas a uma outra estimada árvore, a Pistacia terebinthus ou terebinto. Mas eu ou ela (ou as duas) somos abundantemente mencionadas. No Antigo Testamento, 23 vezes, ao que sei (já no Novo Testamento não há qualquer referência). Em especial no Génesis. Quando o Senhor apareceu a Abraão, estava este na terra de Canaã percorrendo-a «até ao lugar de Siquém, até aos carvalhos de Moré» (Gn 12,6). Mais tarde «Abraão desmontou as suas tendas e foi viver junto aos carvalhos de Mambré, próximo de Hébron e ali construiu um altar ao Senhor» (Gn 13,18). Rebeca foi sepultada debaixo de um carvalho: «que foi chamado Carvalho dos Prantos» (Gn 35,8). A minha madeira sempre foi apreciada pela sua robustez, resistência e grande durabilidade, mesmo que mergulhada em água, donde, aliás, a sua presença na construção naval. É por isso que estranho um pouco esse conhecido provérbio português de que «pequeno machado derruba grande carvalho»... Ainda uma curiosa referência: diz a tradição milenar que a Arca de Noé foi feita com a minha madeira, embora se conte, igualmente, que teria sido de cipreste. Da minha casca também se extraem substâncias com elevado teor de tanino, apropriado para tinturas. Sou também muito apreciado pela utilização para as aduelas das pipas, em que envelhecem, nobremente, vinho do Porto, conhaques e outras bebidas espirituosas.
Saberão que fui um aliado leal e protector do mítico Robin dos Bosques que, em mim, se refugiava na densa floresta de Sherwood? E que a Távola Redonda, à volta da qual se reuniam os cavaleiros do lendário Rei Artur, passou para a imaginária história como sendo da minha madeira? E que foi sob um carvalho de Guernica que os Reis Católicos, Isabel e Fernando, juraram respeitar as leis e costumes daquela zona basca da Biscaia, então anexada pela coroa espanhola? Por isso, estou também ligado à ideia da resistência e da soberania. Este velho carvalho de Guernica (Guernikako arbola, em basco) ficou associado, para sempre, ao simbolismo do respeito pela autonomia descentralizada. Durou cerca de 400 anos e o seu sucessor não foi abatido, pela aviação alemã e nacionalista, aquando do massacre daquela pequena localidade em plena Guerra Civil (1937). Morreu, já neste século, mas deixou descendência para simbolizar a autonomia basca. De tal modo que a tradição se manteve e o presidente do governo basco prestava juramento debaixo do simbólico carvalho de Guernica. O grande poeta romântico inglês William Wordsworth (1770-1850) também o imortalizou, através de um belo poema [soneto, em tradução de Jorge de Sena], que faz jus ao significado do apelido do próprio poeta:
O CARVALHO DE GUERNICA
Carvalho de Guernica! Árvore mais
Sagrada que em Dodona a que escondia
Uma divina voz (a fé o cria)
Dando da aérea fronde altos sinais!
Como podes florir em tempos tais?
Que esp'rança o Sol te traz, ou que alegria?
São-te trazidas pela maresia,
Ou por leves orvalhos matinais?
Bem-vindo seja o golpe que em ti caia,
E em terra alongue a tua fronde imensa,
Se nunca mais, à sua sombra densa,
Venham legislador's sentar-se ovantes,
Senhor's e camponeses, como dantes,
Guardiães das liberdades da Biscaia.
Sou considerada árvore nacional em vários países como a Inglaterra, a Estónia, Gales, a Alemanha e a Itália (onde faço parte do brasão nacional) e, neste livro, acompanhada da oliveira e, em menor grau, do freixo, sou a árvore que mais se liga a muitas famílias, que me lisonjearam adoptando, como seu apelido, o meu nome Carvalho, ou nomes derivados, como Carvalhal, Carvalheira e Carvalhosa. Há também terras, lugares e montes que se me associaram. Várias freguesias: Carvalho, em Celorico de Basto e Penacova, e Carvalhal, em Abrantes, Bombarral, Grândola, Meda e Sertã. Existem ainda duas localidades que recorrem ao meu nome colectivo, adicionando-lhe um bem sugestivo adjectivo: Carvalhal Benfeito, freguesia no concelho das Caldas da Rainha, e Carvalhal do Sapo, uma aldeia de Góis. Também Cercal (de que poderá ter derivado o cerquinho) terá tido a sua origem em Quercus. Por fim, o concelho de Barcelos – o que mais freguesias tem: 89 – tem duas delas a mim ligadas: Carvalhal e Carvalhas.
Há um assinalável número de carvalhos na lista oficial de árvores de interesse público. Sem menosprezo por nenhum deles, gostaria, todavia, de salientar alguns. O carvalho de Calvos, com mais de meio milénio de vida e contemporâneo dos Descobrimentos, provavelmente o mais idoso da Península Ibérica, está situado na Póvoa de Lanhoso e tem cerca de 30 metros de altura e 35 metros de diâmetro da copa. O carvalho-da-forca, com 300 anos, na Praça do Município de Montalegre, deve o seu nome ao anátema de estar muito perto do sítio onde se montava o cadafalso para o enforcamento de condenados à morte, o último dos quais em 1844. Em Montalegre, e junto ao Mosteiro de Santa Maria das Júnias, existe outro exemplar classificado. Em Castro Daire, havia um carvalho vetusto, dos primórdios da nacionalidade portuguesa, com uma tal envergadura (cerca de 12 metros de perímetro à altura do peito) que lá se fazia o presépio natalício. Em 1987, chegou o seu obituário, resultante de um impiedoso temporal. O que dele ficou foram os restos mortais do tronco, agora com a companhia nascente de um outro carvalho lá plantado que, por força da tradição e da preservação memorial, continua a ser conhecido pelo «carvalho do presépio». Neste concelho existe ainda um carvalho classificado, mais precisamente no largo principal da freguesia de Ribolhos.
Regressando ao sobreiro e à azinheira, devo referir, com orgulho, que a escolha da «Árvore do Ano» (ver página 319), iniciada em 2018, já incidiu em três árvores destas duas espécies: no «sobreiro assobiador» em Águas de Moura (concelho de Palmela), logo no ano inaugural do concurso, na «azinheira secular do Monte do Barbeiro» em Alcaria Ruiva (concelho de Mértola), no ano de 2019, e no «sobreiro grande» localizado no Vale do Pereiro (concelho de Arraiolos), em 2022.
(in "Quarenta Árvores em discurso directo", Lisboa: Porto Editora, 2025 – p. 73-80)

Quercus robur

Quercus infectoria
Ilustrações integrantes da obra "Medical Botany", 1831, de John Stephenson e James Morss Churchill, reproduzidas em https://www.rawpixel.com/.

Capa do livro "Quarenta Árvores em discurso directo", de António Bagão Félix (Lisboa: Porto Editora, Fev. 2025)
Fotografia – António Bagão Félix.
___________________________________________
Outros artigos de temática ecológica:
Miguel Torga: "A um Negrilho"
Mário Dionísio: "Solidariedade", por Carmen Dolores
Luís Cília: "Tango Poluído"
Amélia Muge: "Ai, Flores"
Carlos Mendes: "Terra-Mãe" (José Jorge Letria)
Carlos Mendes: "Alcácer Que Vier" (Joaquim Pessoa)
Mário Moita: "Senhora Cegonha"
___________________________________________
Outros artigos relacionados com a crónica de Fernando Alves na Antena 1:
Galandum Galundaina: "Chin Glin Din"
"Sons d'Outrora" em viola da terra, por Miguel Pimentel
Vitorino: "Moças de Bencatel" (Conde de Monsaraz)
Teresa Silva Carvalho: "Barca Bela" (Almeida Garrett)
António Borges Coelho: "Sou Barco"
Celeste Rodrigues: "Chapéu Preto"
Sérgio Godinho: "Tem Ratos"
Ruy Belo: "E Tudo Era Possível", por Nicolau Santos
Jacques Brel: "J'Arrive"
A tristeza lusitana
Segréis de Lisboa: "Ay flores do verde pino" (D. Dinis)
Manuel D'Oliveira: "O Momento Azul"
Aldina Duarte: "Flor do Cardo" (João Monge)
José Mário Branco: "Inquietação"
Chico Buarque: "Bom Conselho"
Teresa Paula Brito: "Meu Aceso Lume - Meu Amor" (Maria Teresa Horta)
Adriano Correia de Oliveira: "Pensamento" (Manuel Alegre)
Fausto Bordalo Dias: "Comboio Malandro" (António Jacinto)
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde" com Luiz Avellar: "As Nuvens Que Andam no Ar"
Amélia Muge: "Ai, Flores"
Afonso Dias: "Os Amigos" (Camilo Castelo Branco)
Pedro Barroso: "Barca em Chão de Lama"
António Gedeão: "Poema do Coração"
Reinaldo Ferreira: "Quero um cavalo de várias cores"
Chico Buarque: "Construção"
João Afonso: "Tangerina dos Algarves"
Joan Manuel Serrat: "Cantares" (Antonio Machado e Joan Manuel Serrat)
Belaurora: "Lamento do Camponês" (Popular e Onésimo Teotónio Almeida)
Manuel Freire: "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (José Saramago)
João Afonso: "O Som dos Sapatos"
Fernando Pessoa: "Tenho dó das estrelas"
Carlos Mendes: "Alcácer Que Vier" (Joaquim Pessoa)
Janita Salomé: "Cerejeira das cerejas pretas miúdas" (Carlos Mota de Oliveira)
Mário Moita: "Senhora Cegonha"
Políbio Gomes dos Santos: "Poema da Voz Que Escuta", por Maria Barroso
Pedro Barroso: "Nasce Afrodite, amor, nasce o teu corpo" (José Saramago)







Sem comentários:
Enviar um comentário