Henri Martin, "Moissonneuse à la gerbe de blé" ("Ceifeira com feixe de trigo"), 1916, óleo sobre tela, 54,5 x 70 cm, Colecção particular
Quem gosta de poesia não é raro encontrar, lendo ou ouvindo, textos que lhe suscitem a exclamação: «Este poema fascina-me! Quem me dera ter sido eu a escrevê-lo!». No caso de Nuno Júdice, aconteceu-nos isso com "O Sentido do Poema", dito (primorosamente) pelo autor, quando o ouvimos pela mão de Luís Caetano numa memorável edição especial d' "A Força das Coisas", transmitida no Dia Mundial da Poesia de 2009. Esse registo também já foi divulgado no apontamento "A Vida Breve", pelo mesmo realizador da nossa rádio, o que nos possibilita disponibilizar o respectivo link, a pensar naqueles que, tal como nós, apreciam a dimensão oral da poesia. Homenageamos assim, ainda que muito singelamente, o grande poeta Nuno Júdice, aproveitando para deixar expressa a vontade de nos debruçarmos, com maior fôlego, sobre a sua valiosa produção.
Para já, damos nota, com elevado apreço a Luís Caetano, da edição d' "A Ronda da Noite" de ontem inteiramente consagrada a Nuno Júdice, com uma esmerada sequência de registos em voz própria intercalados com boa música [>> RTP-Play].
O SENTIDO DO POEMA
Poema de Nuno Júdice (in "A Matéria do Poema", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2008 – p. 117)
Dito pelo autor* (2008, registo do arquivo da RDP) ["A Vida Breve", 8 Abr. 2022 >> RTP-Play]
Há um sentido nas frases em que o verão passa,
e que vai espigando na seara do poema – para
que um dia a ceifeira do Outono o colha com
a sua foice mais sombria, deixando vazio o campo
e cinzento o horizonte. Mas vou abrindo,
com o arado do poema, os sulcos de onde outros
sentidos irão nascer; e espero que o Inverno
passe, e voltem os primeiros pássaros da
primavera com o canto matinal em que desperta
a natureza. E vejo a ceifeira pousar a foice,
tirar o chapéu de palha para que os seus
cabelos se confundam com o amarelo
das flores, e beber a luz solar com os seus
olhos ávidos de azul. Já não é a deusa
que transporta ao colo a morte; nem
a sombra que empurra, com os seus braços
de gelo, o carro do dia para ocidente. Estende
no chão o linho do instante; e é nele
que celebro a missa do poema, para
que não se perca o sentido das frases
em que o que o verão permanece.
Algumas partes da letra da canção "Fala da Mulher Sozinha" sugerem que o seu autor, o poeta Eduardo Olímpio, tinha no pensamento uma prostituta de rua sofrendo quase até à loucura de solidão, porém animada pela esperança e pela vontade indómita de rasgar essa solidão e «chegar ao cume, ao cimo, ao alto» do lugar de bem-estar e felicidade a que todo o ser humano tem direito. Nesse desiderato muitas outras mulheres (a solidão não escolhe género mas segundo estudos efectuados afecta mais as mulheres) se sentem irmanadas, de tal sorte que esta canção pode ser considerada o seu "grito do Ipiranga" de libertação da solidão. Aliás, as múltiplas versões que já teve, depois da gravação original por Paco Bandeira, publicada em 1976 (pela Valentim de Carvalho, sob o selo Decca, no LP "Cara ou Coroa"), todas cantadas por intérpretes femininas, maioritariamente fadistas, são um bom sinal do quanto a mensagem nela expressa significa para as mulheres livres e emancipadas do nosso tempo. E sendo a interpretação de Margarida Bessa a melhor, a nosso ouvir, escolhemo-la para assinalar poético-musicalmente o presente Dia Internacional da Mulher. Boa escuta!
E de que modo a estação pública de rádio homenageou a Mulher neste dia que lhe é dedicado?
Começamos por dar boa nota da rubrica "Vamos Todos Morrer" (Antena 3), na qual o seu autor, Hugo van der Ding, continuando a boa tradição de homenagear figuras femininas no dia 8 de Março, escolheu para hoje a primeira rainha reinante da Europa, Urraca I de Leão (1080-1126), cognominada 'A Temerária' e tia do nosso D. Afonso Henriques [>> RTP-Play].
Na Antena 2, e porque é sexta-feira, tivemos, por volta das 10h:45, com repetição cerca das 15h:45, mais uma edição da rubrica semanal "Virtuosas: as Mulheres na História da Música", hoje consagrada à compositora irlandesa Ina Boyle (1889-1967) [>> RTP-Play]. Fazemos questão de exprimir, uma vez mais, o nosso apreço e o nosso louvor ao seu autor, João Rodrigues Pedro, pelo trabalho sério e diligente com que vem mantendo aquele apontamento que representa verdadeiro serviço público na nossa rádio. Relativamente ao mesmo profissional, apraz-nos enaltecer o cuidado que teve, a exemplo do que fez nos anos anteriores, de levar ao seu espaço vespertino "Baile de Máscaras" somente música de compositoras, no caso da francesa Louise Farrenc (1804-1875) e da inglesa Ethel Smyth (1858-1944).
E que mais? Nas incursões que andámos a fazer às emissões das três antenas nacionais, mau grado o incómodo, nada mais apanhámos digno de nota na programação. Nem sequer houve a preocupação de mexer na oferta musical, de maneira que fosse inteiramente de autoras e intérpretes femininas ou que, o não sendo, tivesse como temática o eterno feminino e as múltiplas questões e problemáticas relacionadas com a mulher na sociedade moderna. Seria de bom-tom e não daria assim tanto trabalho pois é abundante o repertório de qualidade (endógeno e exógeno) a que se podia deitar mão. O facto dos directores de programação das Antenas 1, 2 e 3 serem homens não é certamente alheio à clamorosa inacção. Só resta saber se se tratou de puro desleixo (o que não deixa de ser grave) ou se a causa radica em machismo/misoginia (o que é ainda mais grave e absolutamente intolerável na rádio estatal portuguesa, ademais no ano do 50.º aniversário da Revolução dos Cravos que tornou possível o reconhecimento à mulher de muitos direitos que lhe estavam coarctados).
Fala da Mulher Sozinha
Letra: Eduardo Olímpio
Música: Paco Bandeira
Intérprete: Margarida Bessa* (in CD "Fado", Movieplay, 1995)
[instrumental]
Já estou louca de estar só,
Acompanhada de nada;
Já estou cheia de ser rua
Tão corrida, tão pisada;
Já estou prenhe de amizades,
Tão barriga de saudades...
Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar o olhar duma canção:
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!
Na cidade sou loucura,
Sou begónia, sou ciúme...
E eu que sonhava ser lume,
Caminho, atalho e lonjura,
Não tenho assento na festa,
Sou a migalha que resta...
Ai eu ainda um dia irei rasgar a solidão
E nela entrelaçar o olhar duma canção:
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!
[instrumental]
Chegar ao cume, ao cimo, ao alto,
Mais longe e mais além,
Mas a saber que sou alguém!
* Margarida Bessa – voz
António Parreira e Paulo Parreira – guitarras portuguesas
Francisco Gonçalves – viola
Joel Pina – viola baixo
Foi na sombria e funesta madrugada de 23 de Fevereiro de 1987 que José Afonso partiu deste mundo, sucumbindo a uma doença terrível e fatídica (esclerose lateral amiotrófica). Completaram-se hoje 37 anos e em evocação do maior vulto da Música Popular Portuguesa destacamos a canção "Zeca", com letra de Hélia Correia e música de Janita Salomé, interpretada pelo autor da belíssima melodia. Trata-se de uma versão ao vivo gravada nos espectáculos «José Afonso – "A Utopia e a Música"», realizados no Centro Cultural de Belém, nos dias 22 e 23 de Fevereiro de 1998, mas só publicada em 2004, o que aconteceu – refira-se a título de curiosidade –, um decénio após a edição da gravação original, na voz de Filipa Pais, já objecto de destaque neste blogue, em 2009 [cf. Filipa Pais: "Zeca"]. A revisitação da canção, ainda que noutra interpretação, justifica-se plenamente por seis boas razões: primeira, pelas palavras lapidares que a poetisa Hélia Correia escolheu para retratar o autor d' "Os Vampiros"; segunda, pela inspirada música que se adequa na perfeição ao poema; terceira, pelo primoroso arranjo concebido por João Paulo Esteves da Silva e executado pelo próprio (ao piano) e por outros talentosos instrumentistas; quarta, pela irrepreensível e tocante interpretação de Janita Salomé; quinta, porque as comemorações do 50.º aniversário do 25 de Abril de 1974 não podem (não devem) dispensar a homenagem que é devida aos cantores que desbravaram os caminhos que conduziram à Revolução dos Cravos (e José Afonso foi – é oportuno relembrar – o mais proeminente de todos esses destemidos arautos da Liberdade); e sexta, por se tratar de um espécime pouquíssimo divulgado. Nas 'playlists' das rádios de cobertura nacional, inclusive na da Antena 1, é impossível de apanhá-lo, similarmente, aliás, à generalidade do repertório de Janita. Se o boicote à obra discográfica do categorizado artista, que ocupa, por mérito próprio, um lugar de relevo na História da Música Popular Portuguesa, é grave nas estações privadas, ainda mais o é na estatal, atendendo às particulares obrigações que tem no domínio da divulgação da melhor música que se fez em Portugal. Urge, pois, que sejam tomadas as medidas necessárias para tornar a rádio pública mais justa para com Janita Salomé e, bem assim, para com muitos outros intérpretes (em nome próprio ou integrados em colectivos) que deram um significativo contributo para o enriquecimento do património musical/fonográfico português!
Zeca
Letra: Hélia Correia
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* [in CD "Utopia: Vitorino e Janita Salomé cantam José Afonso (ao vivo)", Virgin/EMI-VC, 2004]
[instrumental]
Quero falar-te e o coração, de comovido,
perde as palavras que juntara para ti.
Cantar-te sei e apenas isso faz sentido.
Menino d'oiro,
vem sentar-te aqui!
Menino d'oiro,
vem sentar-te aqui!
Por todo o ano é tempo de cantar janeiras.
Mulher da erva, inda agora a vi passar.
Por mar profundo, terra e todas as fronteiras
venham mais cinco
mil p'ra te saudar.
Venham mais cinco
mil p'ra te saudar.
Pode o Sol morrer de velho,
pode o gelo arder também,
mas a voz que de ti nasce
já não morre com ninguém.
[instrumental]
No céu cinzento, o astro mudo inda revela
um bater de asas, o disfarce do seu pé.
Bebem do sangue, comem tudo... olhai, cautela!
O que faz falta
já se sabe o que é.
O que faz falta
já se sabe o que é.
Junta-te a nós, ó bairro negro! vem, falua,
p'la noite fora até que se erga o sol de Verão!
Solta as amarras, sopra, ó vento! continua,
que este homem não
se foi embora, não!
Que este homem não
se foi embora, não!
Pode o Sol morrer de velho,
pode o gelo arder também,
mas a voz que de ti nasce
já não morre com ninguém.
* Janita Salomé – voz e percussão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Jorge Reis – saxofone soprano
Rui Alves – percussão
Já corremos de mãos dadas
a mais secreta noite do mundo
já subimos ao alto da montanha
sabemos todos os nomes do medo e da alegria
em ti me transcendo
podia morrer nos teus olhos,
se nestes dias de cigarras doidas
perderes de vista o meu coração vagabundo
dá-me um sinal
abraçar-nos-emos de novo
antes dos rigorosos frios
de novo o grande sobressalto
o formidável estremecimento dos instantes felizes
podia morrer nos teus olhos amada rádio.
Fernando Alves (1988)
O Portugal de Fernando Alves
Por: Eduardo Dâmaso (jornalista)
É no Verão que mais consigo ouvir um jornalista que há muito sigo e aprecio. É no Verão que a rádio repete as jóias que o Fernando Alves vai lapidando ao longo do ano, que nem sempre se cruzam no meu caminho, demasiado apressado, entre estios. É no Verão que consigo parar um bocadinho para ouvir a respiração do Portugal que ele, sempre delicadamente, nos traz, na TSF. Esse País que não está na velocidade das auto-estradas ou nos relatórios macro-económicos. Que não encontro no atavio das leis e, tampouco, nas preocupações políticas, demasiado centradas na batalha do és-por-mim-ou-és-contra-mim. Que não fervilha em projectos milionários, demasiado imperceptíveis na óptica do interesse público, folgazões na despesa e fugidios no escrutínio. Também não encontro esse País no jornalismo de cada dia. Pelo menos, com a regularidade que seria desejável. Mea culpa. Não ignoro a minha quota de responsabilidade. Mas, ainda assim, é o jornalismo que vai limpando as armas e disparando uns tiros nessa luta da memória contra o esquecimento e a indiferença. E Fernando Alves é um dos grandes expoentes dessa teimosia profissional, quase heróica, que insiste em peneirar qualquer rasto de humanidade nos confins da Guarda e de Bragança, nas estradas remendadas do Alentejo e do barrocal algarvio. Que não larga o interior à invernia da desertificação. Que não desiste das pessoas e das suas vidas, que nos fala do trabalho, tantas vezes do trabalho brutalmente penoso, das infâncias talhadas na lavoura e noutros labores do campo. Na disciplina e no ar rarefeito dos seminários, pontos cardeais nesse velho mundo das Beiras de Vergílio Ferreira e de outros escritores, único caminho para o famoso elevador social, de saída da pobreza e da miséria para gerações e gerações de portugueses.
Fernando Alves é um pescador de estórias e de poesia, é um perscrutador da nossa História. Que maravilha a sua caminhada radiofónica, um esplendor de sons e palavras, de encontros e descobertas, pela Viagem a Portugal, de José Saramago, nos 100 anos do escritor. Que maravilha esta série, mais recente, a que chama Onde nos Levam os Caminhos. Que maravilha diária os seus Sinais, exercício maior do cronista pelos caminhos da ironia, das metáforas esculpidas no rigor da palavra, das perífrases, elipses ou apóstrofes, num manejo encantatório dos recursos da língua de Camões, Pessoa, Junqueiro, Eça ou Camilo.
Pois, foi no Verão passado que me senti como se estivesse a levar o mais belo dos livros para a sombra de um chaparro, lá no meu Alentejo, e ali ficasse mergulhado nas curvas do viajante, até a sesta me apanhar. Metido nalguma fila de trânsito, parado num parque de estacionamento abrigado da canícula, a fazer tempo para um almoço qualquer, levando a voz da rádio no telemóvel, deleitado em casa, foi no Verão do ano passado que tive mais prazer a ouvir o Fernando Alves do que a ler a Viagem do Saramago, um e outro artífices da palavra, uma das maiores invenções da humanidade.
Pela mão do Fernando Alves revisito o meu próprio caminho, as origens que se confundem com a terra que arde em Odemira reencontradas no que vou ouvindo nas reportagens do jornalista e andarilho. Reencontro a velha generosidade rural de quem amanha a terra, mas também serve nos bombeiros, no clube desportivo, na misericórdia ou no transporte dos mais velhos e acamados. Gente desse País que raramente é levado, nas suas vidas e estórias, ao parlamento. Que vive amarrada à servidão das taxas de juro, da falta de emprego e de casa para os filhos. Ou que conta os tostões da magra pensão para comprar os remédios e trocar os óculos. Que paga, obediente, nesse mundo de taxas e taxinhas que engorda um Estado ainda longe de um patamar de eficiência decente. [...]
Pela mão, pela voz e engenho do Fernando Alves revisito os tempos de uma adolescência pessoal e colectiva que o 25 de Abril abriu, de Odemira a Setúbal, de Coimbra ao Porto, de Portugal à descoberta do mundo. A adolescência de um País que invadiu as ruas, os campos e as praias, hoje, aqui e ali, já interditas ao passo livre, como acontece em alguns pontos do litoral vicentino, tomado pelas promessas de um turismo de luxo, servido por preços estratosféricos. Descubro, enfim, como aquela moradora do Bairro da Liberdade, no dia em que o Papa [Francisco] ali foi, que para levar o 25 de Abril ao imenso bairro que é Portugal, a caminhada ainda é longa. Com Fernando Alves, porém, fica sempre a esperança do caminho e nunca o pessimismo da sua intransponibilidade.
(in revista "Sábado", 10 Ago. 2023 – p. 52)
Fernando Alves (n. Lisboa, 1954), depois de colaborar no jornal do liceu de Benguela, deixou-se impressionar pelo sonoplasta Acácio Vieira que fazia emissões em directo com base em dois gira-discos. A 1 de Julho de 1970, ainda não tinha 16 anos de idade, entrou no Rádio Clube de Benguela como locutor, a substituir uma colega que saíra da cidade. Ele tinha voz grave, boa articulação e não dava erros de português. Rapidamente teve um programa próprio, mas revelou-se problemático ao ler textos políticos incómodos e ao passar canções de José Afonso e de Adriano Correia de Oliveira. Em 1973, mudou-se para Sá da Bandeira [actual Lubango] e trocou a rádio por um lugar no centro de emprego local. Mas não demorou a encontrar-se com Emídio Rangel e a aceitar o convite deste para trabalhar no seu programa de três horas na Rádio Comercial de Angola. Rangel tinha um estúdio de rádio, escrevia os conteúdos do programa, angariava a publicidade e empregava sete profissionais. Fernando Alves manteve-se na cidade de Sá da Bandeira após Abril de 1974, ligado ao grupo que tomaria conta da Rádio Comercial de Angola, mas acabou afastado. Ingressou, seguidamente, na Emissora Nacional de Angola, onde permaneceu alguns meses, antes de retornar a Lisboa e ser admitido na RDP, onde fez de tudo, excepto relatos de futebol. Abraçando um novo desafio lançado por Emídio Rangel, Fernando Alves foi um dos jornalistas fundadores (ao lado, entre outros, de Adelino Gomes, António Jorge Branco, David Borges e Joaquim Furtado) da TSF-Cooperativa de Profissionais de Rádio, que se estreou no éter nacional a 17 de Junho de 1984 e que, apesar de ser uma estação 'pirata' (ou talvez por isso mesmo), revolucionou o jornalismo radiofónico português tornando démodé a forma acomodada e cerimoniosa como então a informação era tratada e fornecida ao público. A 29 de Fevereiro de 1988, a TSF-Rádio Jornal passou, finalmente, a emitir legalmente e Fernando Alves continuaria persistentemente fiel a essa sua amada rádio, cujo lema (por si mesmo criado) era «Por uma boa história vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo». Até que, em Setembro de 2023, desgostoso com a arbitrária destituição do director e seu amigo Domingos Andrade pela nova administração executiva do grupo Global Media, Fernando Alves, num gesto de solidariedade e antevendo «um desfecho triste» para a rádio que ajudara a criar e engrandecer, resolveu meter os papéis para a reforma. Cessou assim, quase quatro décadas volvidas, o vínculo profissional do eminente jornalista-cronista-repórter à TSF, não sem deixar 'órfãos' os rádio-ouvintes que não dispensavam os seus "Sinais" (que estavam no ar desde 1995) e se deliciavam com os maravilhosos programas do repórter-andarilho que se sucederam ao longo dos anos, de que os mais recentes foram os supracitados "Viagem a Portugal" e "Onde nos Levam os Caminhos". Já tivemos o ensejo de dar destaque ao primeiro [cf. "Viagem a Portugal": Fernando Alves nos passos de Saramago] e, hoje, em jeito de celebração do Dia Mundial da Rádio, focamo-nos no segundo: um precioso repositório de 44 saborosas entrevistas com portugueses sábios, quase todos desconhecidos do grande público. Boa escuta!
Uma breve nota adicional para exprimirmos o nosso regozijo por ter sido dada a oportunidade a Fernando Alves de voltar à rádio, no caso à Antena 1, para fazer o programa "Tão Longe, Tão Perto", a emitir nas manhãs de sábado, depois do noticiário das 11h:00, já a partir do próximo dia 17. A não perder!
ONDE NOS LEVAM OS CAMINHOS
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Ep. 12 | 04 Dez. 2022 [>> TSF / MP3] Ernestino Maravalhas, um entomólogo rendido à magia do Barroso: «Boticas é um santuário de borboletas».
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Ep. 15 | 25 Dez. 2022 [>> TSF / MP3] Luís Antero, paisagista sonoro, em Alvoco das Várzeas: vamos escutar o rio Alvoco?
Ep. 16 | 08 Jan. 2023 [>> TSF / MP3] Fernando Mão de Ferro, editor: três mil livros depois, todos os caminhos levam à Ribeira de Nisa.
Ep. 17 | 15 Jan. 2023 [>> TSF / MP3] Vítor Nogueira, poeta e director da Biblioteca de Vila Real, leva-nos pelos caminhos da Idade Média.
Ep. 18 | 22 Jan. 2023 [>> TSF / MP3] José Caldeira Martins, o veterinário aposentado que guarda o estranho falar dos de Alpalhão.
Ep. 19 | 29 Jan. 2023 [>> TSF / MP3] Luísa Pinto, encenadora, actriz e professora de teatro: porque é que «Anónimo não é nome de mulher».
Ep. 20 | 05 Fev. 2023 [>> TSF / MP3] Conceição Lopes, arqueóloga do mundo: «Eu sou aquela do casaco verde, na foto do Gageiro, no Piódão».
Ep. 21 | 12 Fev. 2023 [>> TSF / MP3] Manuel Jorge Marmelo, escritor: tantos romances conversados, esticando o pernil à mesa do Zé Bota, no Porto.
Ep. 22 | 19 Fev. 2023 [>> TSF / MP3] Custódia Casanova, a guardiã das memórias de Pavia.
Ep. 23 | 26 Fev. 2023 [>> TSF / MP3] José Castanheira, historiador do mar algarvio: uma murejona contra o sueste, no velho cais de Olhão.
Ep. 24 | 05 Mar. 2023 [>> TSF / MP3] José Manuel Mendes, escritor, professor universitário, presidente da APE: as memórias de um bracarense nascido em Luanda.
Ep. 25 | 12 Mar. 2023 [>> TSF / MP3] Francisco Lopes, historiador: uma paixão pelas árvores com quartel-general em Abrantes.
Ep. 26 | 19 Mar. 2023 [>> TSF / MP3] Ana Cristina Martins, responsável pelo Museu Municipal de Arouca: vamos botar cantas!
Ep. 27 | 26 Mar. 2023 [>> TSF / MP3] Almiro Mateus, médico jubilado em Penafiel: «Há por aí muitos doutores e poucos médicos».
Ep. 28 | 02 Abr. 2023 [>> TSF / MP3] Afonso Dias, fundador do GAC, músico, poeta, deputado honorário: «Não vos esqueçais da Constituição».
Ep. 29 | 09 Abr. 2023 [>> TSF / MP3] Luís Farinha, historiador, autor de "Sipote, uma aldeia do Pinhal": regresso às amoras da infância.
Ep. 30 | 16 Abr. 2023 [>> TSF / MP3] Jorge Vaz de Carvalho, cantor lírico, professor, tradutor premiado, poeta, ensaísta: conversa num caramanchão com vista para o rio.
Ep. 31 | 23 Abr. 2023 [>> TSF / MP3] Padre Telmo Ferraz, 97 anos, capelão de barragens: ele tocou o lodo e as estrelas.
Ep. 32 | 30 Abr. 2023 [>> TSF / MP3] João Nunes da Silva, fotógrafo de Natureza: a paixão de um dos fundadores da Quercus pelos flamingos e pelo sal da Ria de Aveiro.
Ep. 33 | 07 Mai. 2023 [>> TSF
/ MP3]
A paisagem no olhar do pintor João Queiroz, um rapaz dos Olivais que gosta de bétulas. Talvez caminhos?
Ep. 34 | 14 Mai. 2023 [>> TSF / MP3] Manuel Pinheiro, "rei da lampreia" no Gaveto, em Matosinhos: para Mário Soares ele era «o melhor nas tripas à moda do Porto».
Ep. 35 | 21 Mai. 2023 [>> TSF / MP3] João Luís Sequeira, director do Espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta: «Qualquer português devia conhecer o miradouro de São
Leonardo de Galafura».
Ep. 36 | 28 Mai. 2023 [>> TSF / MP3] Francisco Clamote, o notário reformado em Almada e a sua discreta paixão por plantas e pássaros.
Ep. 37 | 04 Jun. 2023 [>> TSF / MP3] Joaquim Igreja, professor na escola secundária da Guarda: o que o agarra a este lugar são os grandes penedos de granito.
Ep. 38 | 11 Jun. 2023 [>> TSF / MP3] António José Correia, do surf em Peniche à Rede de Estações Náuticas: ele é o homem de todas as águas.
Ep. 39 | 18 Jun. 2023 [>> TSF / MP3] António dos Santos, 83 anos, tipógrafo, guardião das memórias do antigo orfanato municipal de Setúbal.
Ep. 40 | 25 Jun. 2023 [>> TSF / MP3] António Durães, actor e encenador, à mesa, em Baião: «O teatro salvou-me».
Ep. 41 | 02 Jul. 2023 [>> TSF / MP3] Pedro Caldeira Cabral: o grande cuidador e estudioso da guitarra portuguesa e dos sons da Terra Quente.
Ep. 42 | 17 Set. 2023 [>> TSF / MP3] Jorge Monteiro, armador sem barco, na Fuseta: "Em noite de lua cheia, não se anda ao carapau".
Ep. 43 | 24 Set. 2023 [>> TSF / MP3] Joaquim Gonçalves, o livreiro de Sines: «Gostava de receber Itamar Vieira Júnior, aqui na A das Artes. Ele é um dos maiores escritores do nosso século».
Ep. 44 | 01 Out. 2023 [>> TSF / MP3] António Ramalho Almeida, pneumologista, autor do livro "A Face Romântica da Tuberculose": «José Maria Pedroto foi uma pessoa que me ensinou medicina».
Capa do livro "Sinais", de Fernando Alves (Oficina do Livro, 2000)
O livro colige 62 crónicas e é acompanhado de um CD com as gravações de 22. Porque, como escreveu Emídio Rangel, seu amigo e companheiro de aventuras radiofónicas, «não chega saborear o texto destes "sinais" mas ouvir/sentir a forma como ele morde as sílabas ou injecta ternura nos versos que cria».
Capa do livro "Sinais: As Últimas 50 Crónicas na TSF", de Fernando Alves (Âncora Editora, Nov. 2023)
Integrado na quadra natalícia — com a alegoria «até aos Reis é sempre Natal» —, o dia de Reis, ou Epifania, traduz um dos mais relevantes episódios tradicionais associados ao nascimento de Jesus Cristo. A sua comemoração celebra-se no dia 6 de Janeiro, excepto nos lugares onde não é dia santo de guarda, em que se festeja no domingo que ocorre entre os dias 2 e 8 de Janeiro. Constituindo uma das muitas festas pagãs perfilhadas e cristianizadas pela Igreja, a Epifania (cujo antigo nome entre os Cristãos era Teofania) englobava na sua origem a maior parte das celebrações a Cristo: o seu nascimento; a adoração dos Reis Magos; o seu baptismo; a sua vida e sofrimento na Terra e os seus milagres. A partir do ano de 54, separou-se a Natividade — comemoração do seu nascimento — da Epifania, passando esta a ser consagrada, exclusivamente, aos Reis Magos. A data para essa celebração, fixada no ano de 1164 a 6 de Janeiro, pretendia assinalar a viagem dos três Reis Magos, vindos, segundo o Evangelho, dos seus longínquos países do Oriente até Belém, guiados por uma estrela, para render homenagem e oferecer os seus presentes a Cristo recém-nascido. De seus nomes Gaspar (de olhos amendoados e barba fina), Baltasar (negro e imponente) e Melchior (o mais velho dos três, de longa barba branca), os Reis Magos pagãos simbolizam a riqueza, o poder, a ciência e a homenagem de todos os povos da Terra a Cristo Redentor. Paramentados com as suas preciosas vestes, tiaras sobre as cabeças e tesouros nas mãos, assim se apresentaram perante o Menino — até aí adorado apenas por pastores —, a quem ofereceram os seus presentes: um deles três libras de oiro (para o Rei), o outro três libras de incenso (para o Deus) e o outro ainda três libras de mirra (para os restos mortais do Homem). Segundo S. Mateus (o único que narra o episódio dos Magos no Evangelho), estes terão tido uma conversa com Herodes, que não se repetiu, visto, em sonhos, terem sido avisados para o não tornarem a fazer.
São igualmente os Reis que baptizam o manjar cerimonial da doçaria alimentar desta data: o bolo-rei (espécie de pão doce recheado e enfeitado com frutos secos e cristalizados: pinhões, amêndoas, nozes, passas; laranja, figo, cereja, abóbora), cuja tradição se espalhou por quase toda a Europa e alguns países da América (particularmente da América Latina), a resultar, supostamente, do bolo janual, que os Romanos ofereciam e trocavam entre si nas festas do primeiro dia do Ano Novo. Ao bolo juntavam um ramo de verdura colhido num bosque dedicado à deusa Strena, ou Strénia. Do nome da deusa derivarão o vocábulo francês étrenne (que significa «presentes de Ano Novo») e a palavra «estreias», termo que, em certas localidades do nosso país, continua ainda a utilizar-se para definir o acto de oferecer presentes de «boas festas» («dar as estreias»). Todavia, se recuarmos no tempo, deparamos com as «estreias» (atrenua) relacionadas com mascaradas, banquetes, jogos e outras celebrações realizadas pelos povos pagãos. Daí, no Concílio de Tours, em 567, ter sido sugerido que as «estreias» pagãs dessem lugar «às esmolas de carácter cristão e litúrgico», de modo a atenuar os vestígios do politeísmo. Ao bolo janual e ao ramo de verdura acrescentavam os Romanos pequenas lembranças (tâmaras, figos, mel), com votos de bom ano, paz e felicidade. Este costume tornou-se depois mais exigente, acabando o oiro e a prata por substituir os singelos presentes. Em diversos países foi hábito durante muito tempo introduzir no bolo uma pequena cruz de porcelana (que se juntava à fava), substituída depois por minúsculas figurinhas humanas. Tradição que se conserva, ainda hoje, aliada à expectativa de quem será o achador da fava ou do «brinde», que consiste, actualmente, num qualquer objecto minúsculo apropriado para esse efeito.
Associados à quadra natalícia, vamos encontrar também as janeiras e os Reis, que representam peditórios cantados na noite de Natal, de Ano Novo e de Reis. Herança provável das próprias strenas romanas, a entoação dos cânticos tem por finalidade receber dádivas que se revestem de um carácter alusivo e propiciatório, a remeter-nos, como noutras celebrações, para tempos remotos, em que se celebravam deuses e divindades pagãos ou eram pedidas ou oferecidas dádivas no início do ano comum, símbolo de bom augúrio, quer para quem as pedia, quer para quem as doava. O costume, espalhado ainda hoje por toda a Europa, em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Alemanha, entre outros, continua a celebrar-se, com os seus seculares cânticos de religiosidade popular e festiva. Formados por grupos de homens e mulheres, os janeireiros e reiseiros, acompanhados ou não por músicos, percorrem os lugares, de porta em porta, a pedir oferendas em troca da entoação das «loas» ao Menino, das janeiras e dos Reis. De assinalar, porém, a semelhança destes grupos com os grupos que entoam pela Quaresma o «Cantar das Almas» (ou «Amentação» ou «Encomendação das Almas»). Tanto num caso como no outro, os donativos em dinheiro assim angariados revertem para «mandar rezar missas pelas almas do Purgatório». A diferença está, tão-só, nas ofertas de carácter alimentar (chouriços, queijo, castanhas, maçãs), que revertem para os próprios janeireiros ou reiseiros (géneros consumidos, geralmente, em repasto conjunto), e nos seus cânticos festivos, com intenção de benefícios, ou seja, na forma cristianizada da celebração propiciatória do Ano Novo, enquanto no «Cantar das Almas» apenas se ritualiza o sentido penitente e piedoso dos cânticos de consagração, integrados nas comemorações da quadra pascal. Esta semelhança fazia-se notar, principalmente, em Cunqueira (Proença-a-Nova, Beira Baixa), onde em tempos idos os janeireiros pediam «uma quartilha de milho para as almas» ou o «folário», sem prejuízo, todavia, das dádivas alimentares. Também antigamente, na região de Trás-os-Montes, era costume, nos quatro dias que antecediam os Reis, juntarem-se rapazes e raparigas que percorriam os lugares a pedir de casa em casa as «janeirinhas». À frente do grupo seguia um rapaz com uma candeia de azeite, que voltava a ser cheia quando aquele acabava pelos donos da casa seguinte. Em troca, recebiam chouriços, maçãs, passas, castanhas, vinho e outros géneros, com os quais organizavam uma pequena festa, geralmente à roda de uma fogueira, onde assavam e comiam os chouriços e as castanhas oferecidos. Na mesma região (Felgar, Moncorvo), realizava-se no dia 1 de Janeiro a Festa dos Rapazes, conhecida por Festa da Senhora dos Moços, em que os rapazes, em grupo, palmilhavam a freguesia fazendo um peditório. As ofertas (chouriços, orelheira, bolos, frutos secos, vinho, etc.) eram presas depois nos galhos de um ramo (o «galheiro»), que cada um segurava na mão, sendo as ofertas leiloadas no final da «ronda». Respeitando a tradição destes dias, observada de norte a sul de Portugal, os janeireiros, ou cantadores das janeiras, e os reiseiros, ao saudar os donos das casas, vão também anunciar nas velhas canções de cariz popular o nascimento de Jesus e a visita dos Reis Magos. No Algarve perguntava-se primeiro: «reza ou cantiga?», e, conforme a resposta, os janeireiros rezavam ou cantavam em troca de oferendas. Em Niza (Alto Alentejo) rapazes e raparigas organizavam-se em grupos de quatro elementos para cantar o «Menino Jesus» («loas de Natal») e os Reis («loas dos Reis»), antes e depois do Natal. Escolhiam de preferência as casas onde calculavam ser mais rendosa a recepção e ao abrir da porta diziam: «Menino Jesus da Nazaré, quer que cá cante?». Perante a resposta afirmativa, entravam na casa, onde estava reunida a família (quase sempre na cozinha), e logo começava a «loa». Ainda no Alentejo (Beja), constituía tradição oferecer aos grupos que cantavam as «loas» nas vésperas de Ano Bom ou dos Reis as populares «costas», bolos feitos de massa semelhante à do pão, a que se junta açúcar ou mel, sumo de laranja, ovos, leite e canela, moldados à mão e apresentando formas diversas.
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Cantar os Reis, esperar os Reis, correr os Reis ou tirar os Reis são as denominações decorrentes das práticas da quadra que liga o Ano Novo ao dia de Reis. Todas elas integradas nas celebrações tradicionais onde os ritos, os cânticos e os peditórios se cruzam numa praxe (que visa a obtenção de benefícios), a um tempo festiva e expectante, face à renovação e revitalização da Natureza, com a entrada de um novo ano.
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Igualmente provável é a celebração dos Reis resultar de antigos rituais ligados ao culto dos politeístas solares e da sua festa da consagração da luz do Sol no solstício de Dezembro, efectuada no Egipto sob o título Festum Osirid nati, ou Inventio Osirid, em data correspondente ao nosso 6 de Janeiro, designada pelos Judeus como Festa das Luzes, ou Khanu Ka. Há também quem sustente ter a sua comemoração origem nas festas romanas em honra de Jano (de onde provém o nome de Janeiro), o deus das duas faces: um voltada para o futuro, a outra para o passado.
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Em diversas regiões (Trás-os-Montes e Ribatejo, por exemplo), o cantar dos Reis pode prolongar-se até à data limite, ou seja, até ao dia de S. Sebastião (20 de Janeiro), dizendo o povo: «No dia de S. Sebastião, cantam-se os Reis, se os dão.» Por isso, nos Açores, os cânticos de 5 para 6 de Janeiro têm o nome de Reis, enquanto os que se cantam na noite de 19 para 20 são chamados Sebastianas. Estes cânticos apresentam uma articulação idêntica à dos Reis, residindo a diferença apenas nos versos.
SOLEDADE MARTINHO COSTA (in "Festas e Tradições Portuguesas: Janeiro", Lisboa: Círculo de Leitores, 2002 – p. 35, 63-69 e 73)
Fundado pela poetisa terceirense Maria Francisca Bettencourt, e tendo efectuado a sua primeira apresentação pública a 16 de Julho de 1966, o Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense tornou-se uma referência entre os colectivos açorianos de índole folclórica, pelo relevante contributo que tem dado para o esforço (nunca suficiente) de manter viva a tradição musical e de dança da Ilha Terceira. Os cantares do ciclo do Natal contam-se, como não podia deixar de ser, no seu repertório, parte do qual corresponde ao conteúdo do CD "Festa Redonda", publicado em 2003, com chancela Açor, do Prof. Emiliano Toste. O alinhamento do álbum abre com um belíssimo "Cantar à Porta", alusivo aos Reis Magos, que nos serve na perfeição para a ilustração musical da presente Epifania. Esta cantiga deve ser familiar aos terceirenses, pelo menos àqueles que já tiveram ocasião de presenciar alguma actuação do grupo a festejar os Reis, mas são poucos os continentais que alguma vez a ouviram. E isso explica-se grandemente pela muito deficiente divulgação que a Antena 1 vem dando à música tradicional portuguesa, ainda mais a dos arquipélagos atlânticos, ao negar-lhe lugar na 'playlist' (por discricionaríssima vontade de quem ocupa a direcção de programas), relegando-a para dois espaços semanais em horários esconsos: "A Árvore da Música" (domingos, depois do noticiário das 07h:00 da manhã), neste caso para novas edições; e "Alma Lusa" (depois do noticiário da meia-noite de domingo e até às 02h:00 da madrugada de segunda-feira), programa essencialmente devotado ao fado. Uma situação deveras vergonhosa e de todo intolerável a que urge pôr cobro!
Cantar à Porta
Letra e música: Popular (Ilha Terceira, Açores)
Intérprete: Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense* (in CD "Festa Redonda", Açor/Emiliano Toste, 2003)
[instrumental]
Uma estrela, uma estrela nos guia
No caminho, no caminho da virtude...
[instrumental]
Uma estrela nos guia
No caminho, no caminho da virtude...
[instrumental]
Ó dono, ó dono da moradia,
Lá vai à... lá vai à vossa saúde!
[instrumental]
Ó dono da moradia,
Lá vai à... lá vai à vossa saúde!
[instrumental]
Reis Magos, Reis Magos viram Jesus
Numa gruta, numa gruta em Belém;
[instrumental]
Reis Magos viram Jesus
Numa gruta, numa gruta em Belém;
[instrumental]
Guiados, guiados pela mesma luz,
Queremos, queremos vê-lo também!
[instrumental]
Guiados pela mesma luz,
Queremos, queremos vê-lo também!
[instrumental]
* [Créditos gerais do disco:]
Grupo de Baile da Canção Regional Terceirense:
Direcção do grupo – Vera Cunha Azevedo, Margarida Pessoa Pires, Alberto Borba Gonçalves
Direcção técnica – Manuel Brito de Azevedo
Violas (de 12 e de 15 cordas) – Bruno Bettencourt, Jorge David Sousa, José Gabriel Flor, Margarida Oliveira
Violões – Francisco Lourenço (Xavier), José Sales, Manuel Brito de Azevedo
Ferrinhos e mandador – Francisco Gomes (Chico Batata)
Vozes solistas e coros – Andreia Borges, Francisco Lourenço (Xavier), José Pereira Borges, Karla Almeida, Manuel Brito de Azevedo, Reginaldo Fernandes, Rui Fortuna, Vera Duarte
Coros – Alberto Gonçalves, António José Borba, Bruno Bettencourt, Conceição Flor, Francisco Gomes (Chico Batata), João Vicente, Margarida Oliveira, Paula Sales, Virgínia Borges
Participações especiais:
José João Silva – violino
Fernando Ávila – clarinete
José António Santiago – trompete
Manuel Lima – contrabaixo
Rui Furtado – trombone
Tibério Vargas – bombardino
Julie Joy, "World Peace", p. 23 Jan. 2018 (in "Fine Art America")
A paz é a única maneira de nos sentirmos
verdadeiramente humanos.
ALBERT EINSTEIN
A Paz, filha dilecta da Justiça e do Bem, é, todavia, frágil e soçobra quando acometida pelo monstro feroz da destruição e da morte que, nas línguas românicas ocidentais, tem o nome de guerra/guerre. Sendo esse monstro uma manifestação da faceta mais animalesca da espécie homo sapiens sapiens, a História já nos mostrou que pode ser contido/inactivado, se nesse nobilíssimo propósito a Humanidade se empenhar, de alma e coração. Assim aconteceu na Europa (continente que desde o colapso do Império Romano sempre fora palco de confrontos bélicos entre povos e nações) nas décadas que se seguiram à colossal hecatombe de 1939-45 – paz essa que só foi interrompida, em 1992, pela guerra da Bósnia-Herzegovina e, em Fevereiro de 2022, pela invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin. É verdade que noutras paragens, mormente no Próximo Oriente e em África, se sucederam guerras, mas quase todas de feição étnico-tribal-religiosa, em resultado da malévola herança dos colonizadores europeus (que traçaram fronteiras a régua e esquadro, sem o mínimo respeito pelos povos e culturas locais), e que têm sido bastante fomentadas pelo muito lucrativo negócio de armas, cuja indústria – é bom ter noção disso – se situa maioritariamente na América do Norte e na Europa. Tudo confrontos que, por estarem relativamente longe do Ocidente, tendiam a ser desconsiderados e esquecidos pelos governos e também sem especial impacto nas opiniões públicas. A inesperada invasão da Ucrânia por um déspota saudosista do grandioso passado do Império Russo e, mais recentemente, a reactivação da guerra na Palestina, decorrente da continuada e inqualificável opressão israelita sobre o povo palestino, despertaram muitos ocidentais da modorra em que parecia terem caído e espicaçaram-lhes as consciências para a necessidade de pugnarem pela defesa e promoção da Paz. Antes, distintos escritores e poetas já haviam escrito romances e poesia de denúncia dos horrores da guerra e em exaltação da benéfica Paz. Entre esses poemas conta-se a "Ode à Paz", de Natália Correia, talvez o mais lapidar libelo de repúdio da terrífica e mortífera guerra e de suplicante invocação da benigna e vivificante Paz. Atendendo à preocupante e perigosa situação a que o mundo chegou, este Dia Mundial da Paz, que é o 60.º primeiro de Janeiro após a publicação da encíclica Pacem in Terris, do bom papa João XXIII, afigurou-se-nos a oportunidade perfeita para revisitarmos a referida ode nataliana e darmos-lhe aqui destaque na voz de Afonso Dias. Sentir-nos-emos gratificados se a leitura/audição de tão lúcidas e sábias palavras ajudar os leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio" a valorizarem (mais) a Paz e a empenharem-se em acções concretas a seu favor. Não haja ilusões: a Paz mundial só se alcançará se as massas, sobretudo dos países económica e tecnologicamente mais desenvolvidos, se manifestarem de modo veemente e persistente pressionando os dirigentes políticos a tomarem decisões efectivas e justas que façam calar as armas e propiciem a conciliação dos povos desavindos!
Se o programa "Lugar ao Sul" ainda estivesse em antena, é certo que os ouvintes do primeiro canal da rádio pública teriam a oportunidade de escutar poesia recitada por Afonso Dias e, bem assim, canções suas. Hoje em dia, só muito esporadicamente surge uma ou outra canção do cantautor no espaço "Alma Lusa" e com a agravante da transmissão ser a desoras (entre a meia-noite de domingo e as 2h:00 da madrugada de segunda-feira, que é dia de trabalho). Importa, pois, que, sem prejuízo de passar a haver (e não há razão para que não haja) um espaço consagrado à exploração da vasta e preciosa discografia de música popular portuguesa – a de raiz tradicional e o repertório dos cantautores –, seja reformada a 'playlist' (cujo peso na programação musical do canal é descomunal) de modo a dar visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) à melhor música portuguesa de vários géneros (e não apenas da que se inscreve na área 'pop'), e se crie, também, um apontamento diário de poesia, a fim de dar divulgação radiofónica ao rico património discográfico de poesia dita/recitada de língua portuguesa. Aliás, a poesia dita sempre foi, desde os primórdios da estação pública de rádio, uma das suas marcas distintivas de excelência, e só por leviana e desatinada decisão do "subalimentado do sonho" António Luís Marinho é que foi suspensa, já lá vão vinte anos.
ODE À PAZ
Poema de Natália Correia (in "Drujba – Amizade", revista da Associação Portugal-Bulgária, Julho/Setembro de 1989; De "Inéditos (1985/1990)", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 311; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 559-560)
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)
Música de fundo: Piotr Ilitch Tchaikovski, "O Quebra-Nozes", Op. 71, Acto I: 9. Valsa dos Flocos de Neve, por
Baltimore Symphony Orchestra, dir. Sergiu Comissiona (Turnabout, 1979)
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
Sobrecapa do livro "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", de Natália Correia (Lisboa: Círculo de Leitores, 1993)
Concepção – Clementina Cabral
Capa da 1.ª edição do livro "Poesia Completa", de Natália Correia (Col. Poesia do Século XX, Vol. 32, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)
Capa do CD "Poesia de Natália Correia", de Afonso Dias, com a colaboração de Isabel Afonso Dias, Meguy, Rita Neves, Tânia Silva e Telma Veríssimo (Col. Selecta, Música XXI, 2007)