09 abril 2018

Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra Mundial


Adriano Sousa Lopes, "Rendição nas Trincheiras", 1923, óleo sobre tela, 296 x 1252 cm, Museu Militar de Lisboa [vide pormenores abaixo].


«21 de Março [1918].

        Os homens e as coisas gastam-se rapidamente. Acelera-se com vertigem o ritmo da morte.
        Uma das duas ou três únicas casas, por enquanto intactas, é aquela onde se abrigou o comandante do batalhão, o capitão Brun [André Brun]. É lá que passo algumas horas da noite. Mas logo de princípio começam a chover sobre toda a planície as granadas de gases. Sopra o vento. Não obstante as portas e as janelas estarem fechadas, o quarto para onde eu e o Frazão nos atirámos está empestado do cheiro nauseabundo. Pomos as máscaras e tentamos dormir com elas postas. Mas aquilo, horas seguidas, somado às nossas infinitas fadigas, cansa de tal maneira que acaba por destruir a noção do perigo, e deitamo-la fora. Ficamos prostrados em tamanha sonolência, que somos insensíveis à ideia da morte.
        As granadas caem às centenas, aos milhares, durante toda a noite. Entram na terra, com um baque surdo, sem estrondo, numa explosão abafada.
Mal clareia a manhã, olho pela janela. É uma madrugada amarela, empanada pela imensa nuvem dos gases, que o vento esgarça.»

                      JAIME CORTESÃO
                      [in "Memórias da Grande Guerra (1916-1919)",
                      Porto: Renascença Portuguesa, 1919 – p. 184].


O desastre que a Batalha de La Lys, iniciada a 9 de Abril de 1918, foi para o Corpo Expedicionário Português acabou por tornar-se o símbolo, por excelência, do desaire que constituiu, no seu conjunto, a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra. Desaire esse que somado à deterioração das condições de vida da população veio a ditar o fim da República e levar à instauração da ditadura militar e subsequente (e longa) autocracia salazarista.
Se para alguma coisa serve a História é para dela serem tiradas as devidas ilações do que não se deve voltar a fazer e o centenário daquele trágico acontecimento pode ser aproveitado pelos portugueses de hoje para a necessária e desejável reflexão acerca dos múltiplos aspectos que rodearam a participação do país na Guerra e das tremendas repercussões económicas e sociais. O programa "Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra" [>> RTP-Play], em boa hora realizado por Ana Aranha, dá um óptimo contributo nesse sentido. Aqui ficam, pois, as sinopses e os links dos 14 episódios. Quem desejar saber mais pode deitar mão a bons livros que até à data se publicaram e que ao fundo se referenciam.


CEM MIL PORTUGUESES NA PRIMEIRA GUERRA

Ep. 1 | 03 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Destaque para o que se passou em Moçambique, entre 1914 e 1918. Conversa com os jornalistas Ricardo Marques e Manuel Carvalho, autores, respectivamente, dos livros "Os Fantasmas do Rovuma" e "A Guerra Que Portugal Quis Esquecer".

Ep. 2 | 10 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
O historiador António José Telo apresenta as principais teses contidas no livro "O CEP: Os Militares Sacrificados pela Má Política", de que é um dos autores.

Ep. 3 | 17 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Nesta edição, falamos dos cerca de 7 mil militares portugueses que foram feitos prisioneiros pelos alemães e do longo período de cativeiro. Com Fátima Mariano, jornalista e investigadora do Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.

Ep. 4 | 24 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Carlos Silveira, historiador de arte, dá-nos a conhecer dois nomes ligados às imagens da guerra: o pintor Adriano Sousa Lopes e o fotógrafo Arnaldo Garcez. Ambos acompanharam o Corpo Expedicionário Português, em França.

Ep. 5 | 03 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Com Isabel Braz, bisneta do Capitão António Braz, combatente e prisioneiro de guerra. Nesta edição, também ouvimos um som raro: a voz de um prisioneiro de guerra português [João Neves] captada num campo de detenção alemão.

Ep. 6 | 10 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Nesta edição, fazemos uma visita ao Arquivo Histórico-Militar, com o Coronel Américo Carreira Martins e o Capitão Cunha Roberto, e conversamos o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, presidente da Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da I Guerra Mundial.

Ep. 7 | 17 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Conversa com Gil Manuel dos Santos, neto do combatente António dos Santos Pereira que escreveu as suas memórias da guerra: a partida para a Flandres, a vida nas trincheiras...

Ep. 8 | 24 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
A Grande Guerra nos Açores, com o historiador Sérgio Alberto Fontes Rezendes.

Ep. 9 | 31 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
O Portal da Guerra 1914-18 (http://www.portugal1914.org/) é um dos temas da conversa com a historiadora Maria Fernanda Rollo, actualmente Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Ep. 10 | 07 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Noémia Novais e Nuno Mira Vaz falam sobre a imprensa, a censura, a propaganda e as opiniões públicas em Portugal, entre 1914 e 1918.

Ep. 11 | 14 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Com a investigadora Natividade Monteiro que tem estudado a participação das mulheres portuguesas na Grande Guerra, tanto no país como nas trincheiras em França.

Ep. 12 | 21 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Conversa com Isabel Pestana Marques, historiadora e autora do livro "Das Trincheiras com Saudade".

Ep. 13 | 28 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Dois investigadores, Maria Lúcia de Brito Moura e Luís Alves de Fraga falam da assistência religiosa e do apoio médico que foi prestado nos teatros de guerra.

Ep. 14 | 05 Mai. 2017 [>> RTP-Play]
A historiadora Ana Paula Pires, do Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa), deixa-nos um retrato do nosso país decorrente da participação no primeiro grande conflito do séc. XX.















Adriano Sousa Lopes, "Rendição nas Trincheiras", 1923, óleo sobre tela, Museu Militar de Lisboa [pormenores].































Fotografias de militares portugueses nas trincheiras da Flandres tiradas por Arnaldo Garcez, fotógrafo oficial do Corpo Expedicionário Português (acervo do Arquivo Histórico-Militar, Lisboa).



Capa da 1.ª edição do livro "A Malta das Trincheiras: Migalhas da Grande Guerra 1917-1918", de André Brun (Lisboa: Guimarães & C.ª - Editores, 1918).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "Nas Trincheiras da Flandres (1917)", de Augusto Casimiro (Porto: Renascença Portuguesa, 1918).



Capa da 1.ª edição do livro "Calvários da Flandres", de Augusto Casimiro (Porto: Renascença Portuguesa, 1920).
Desenho por Adriano Sousa Lopes.
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "Na Flandres: O Episódio Militar de 9 de Abril", de Bazilio Telles (Porto: Eduardo Tavares Martins, 1918).



Capa da 1.ª edição do livro "Memórias da Grande Guerra (1916-1919)", de Jaime Cortesão (Porto: Renascença Portuguesa, 1919).



Capa da 1.ª edição do livro "Na Grande Guerra", de Américo Olavo (Lisboa: Guimarães & C.ª - Editores, 1919).



Capa da 1.ª edição do livro "A Mentira da Flandres e... o Medo", de João Ferreira do Amaral (Lisboa: J. Rodrigues & C.ª, 1922).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "A Batalha do Lys, A Batalha d'Armentières ou o 9 de Abril", de João Ferreira do Amaral (Porto: Tipografia do Comércio, 1923).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa do livro "Portugal - Grande Guerra: 1914-1918", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes (Lisboa: Diário de Notícias, 2003).



Capa do livro "Portugal e a Grande Guerra: 1914-1918", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes (Matosinhos: QuidNovi, 2010).
[>> informação complementar no blogue Porta-Livros]



Capa do livro "O CEP: Os Militares Sacrificados pela Má Política", de António José Telo e Pedro Marquês de Sousa (Porto: Fronteira do Caos Editores, 2016).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]



Capa do livro "De Lisboa a La Lys: O Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial", de Filipe Ribeiro de Meneses (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2018)
[>> informação complementar no blogue Alma Lusa]



Capa do livro "Os Portugueses nas Trincheiras: Um Quotidiano de Guerra", de Isabel Pestana Marques (Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2002).



Capa do livro "Das Trincheiras, com Saudade: A Vida Quotidiana dos Militares Portugueses na Primeira Guerra Mundial", de Isabel Pestana Marques (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008).
[>> informação complementar no blogue Alma Lusa]



Capa do livro "Na Sombra do Expedicionário: A Vida em Combate de Soldados Portugueses na Primeira Guerra Mundial", de Fernando Rita (Porto: Fronteira do Caos Editores, 2013).
[>> informação complementar no blogue Na Fronteira do Caos Editores]



Capa do livro "Nas Trincheiras da Flandres: Com Deus ou sem Deus, Eis a Questão", de Maria Lúcia de Brito Moura (Lisboa: Edições Colibri, 2010).
[>> informação complementar no site das Edições Colibri]



Capa do livro "Quando Raul Foi à Guerra: Memórias de um Médico Português na I Guerra Mundial", de Raul de Carvalho (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2013).
[>> informação complementar no site http://www.portugal1914.org/]



Capa do livro "Memórias Esquecidas: A Vida do Capitão António Braz", de Isabel Braz (Lisboa: Chiado Editora, 2014).
[>> informação complementar no blogue Almanaque Republicano]



Capa do livro "António Pereira dos Santos: De Chaves a Copenhaga: A Saga de um Combatente", de Gil Manuel Morgado dos Santos e Gil Filipe Calvão Santos (Lisboa: Prefácio, 2008).
[>> informação complementar no blogue da Biblioteca Escolar de Palmeira]



Capa do livro "Prisioneiros Portugueses na Alemanha (Guerra de 1914-1918)", de Manuel H. Lourinho (Porto: Edição do autor, 1980).



Capa do livro "Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial: Frente Europeia - 1917/1918", de Maria José Oliveira (Porto Salvo - Oeiras: Saída de Emergência, 1917).
[>> informação complementar no site da editora Saída de Emergência]



Capa do livro "Portugal na Grande Guerra: Guerristas e Antiguerristas: Estudos e Documentos", Apresentação de João Medina (Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa / Instituto Nacional de Investigação Científica, 1986).
[>> informação complementar no blogue Livreiro Monasticon]



Capa do livro "Imprensa e I Guerra Mundial: Censura e Propaganda 1914-1918", de Noémia Malva Novais (Casal de Cambra - Sintra: Caleidoscópio, 2016).
[>> informação complementar no Repositório da Universidade Nova]



Capa do livro "Portugal, os Portugueses, as Opiniões Públicas e a Guerra de 1914-1918", de Nuno Mira Vaz (Viseu: Quartzo, 2016).
[>> informação complementar no site da Revista Militar]



Capa do livro "Portugal e a I Guerra Mundial: A República e a Economia de Guerra", de Ana Paula Pires (Casal de Cambra - Sintra: Caleidoscópio, 2009).



Capa do livro "Grande Guerra: Angola, Moçambique e Flandres 1914-1918", de Aniceto Afonso, Col. Batalhas da História de Portugal, vol. 18 (Matosinhos: Quidnovi, 2006).
[>> informação complementar no site http://ultramar.terraweb.biz/]



Capa do livro "A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa: Angola e Moçambique (1914-1918)", de Marco Fortunato Arrifes (Lisboa: Edições Cosmos / Instituto de Defesa Nacional, 2004).
[>> informação complementar no site do Instituto de Defesa Nacional]



Capa do livro "Os Fantasmas do Rovuma: A Epopeia dos Soldados Portugueses em África na I Guerra Mundial", de Ricardo Marques (Lisboa: Oficina do Livro, 2012).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]



Capa do livro "A Grande Guerra em Moçambique", de Fernando Abecassis (Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa / Comissão Portuguesa de História Militar, 2014).
[>> informação complementar no site da Revista Militar]



Capa do livro "A Guerra Que Portugal Quis Esquecer: O Desastre do Exército Português em Moçambique na Primeira Guerra Mundial", de Manuel Carvalho (Porto: Porto Editora, 2015).
[>> informação complementar no site http://www.portugal1914.org/]



Capa do livro "Moçambique na I Guerra Mundial: Diário de um alferes-médico, Joaquim Alves Correia de Araújo: 1917-1918", org. Teresa Araújo (Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015).
[>> informação complementar no blogue Almanaque Republicano]



Capa do livro "A Grande Guerra nos Açores: Memória Histórica e Património Militar", de Sérgio Alberto Fontes Rezendes (Ponta Delgada: Letras Lavadas Edições, 2014).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]

27 março 2018

"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores


Carmen Dolores encarnando Isabella, na tragicomédia "Dente por Dente" ("Measure for Measure"), de William Shakespeare, numa versão de Luiz Francisco Rebello, levada à cena pelo Teatro Moderno de Lisboa, com encenação, cenários e figurinos de António Pedro, no Cinema Império, em 1964.
© José Marques / Museu Nacional do Teatro (MNT 248870) [MatrizNet]


O teatro para mim é, cada vez mais, uma verdade sem grandes artifícios, porque a magia está sempre lá, na comunhão que se estabelece, na ideia que corre célere e é apanhada, num relance, pelo espectador atento e disponível. O teatro é aquele pulsar de corações contentes. O teatro é aquele silêncio quase sufocante à espera do imprevisto. O teatro é feito de pedaços de vida, juntamente com pedaços de sonho.
É o gesto que hoje foi diferente, porque se soltou de mim, sem eu dar conta, e foi registado por aquele espectador que está ali para sentir, para vibrar connosco. É esta lágrima suspensa que eu não sei se hoje vai rolar pelo rosto congestionado de dor ou se permanece feita lago, nos olhos de expressão magoada. É estarmos ali «vivos», em comunhão uns com os outros. É esta aragem que junta no ar as nossas respirações e faz do espaço uma amálgama de sentimentos que se confundem entre si.
O teatro é o efémero que, através da nossa memória, pode acompanhar-nos a vida inteira.

CARMEN DOLORES (in "No Palco da Memória", Lisboa: Sextante Editora, 2013 – p. 99-100)


Meus queridos autores, que tanto me destes sem pedir nada em troca. Claro que nós, intérpretes, também damos tudo! Mas, em relação à poesia, ela é-me tão necessária, tão verdadeiramente vital para o meu equilíbrio, que nunca representará qualquer espécie de sacrifício, pelo contrário, ela é a minha evasão (e como eu gostava de transmitir esse sentimento aos outros que andam por aí perdidos, a aturdir-se por veredas sem saídas!), ela é a minha melhor companheira nos momentos bons e nos menos bons.

CARMEN DOLORES (in "No Palco da Memória", Lisboa: Sextante Editora, 2013 – p. 32)


A voz, ex-libris da identidade que a definiu, tornou-a referência na comunicação em língua portuguesa, ao serviço da grande literatura (sobretudo poesia), que tem divulgado encantatoriamente. No teatro, no cinema, na televisão, em recitais, em livros, em conferências, Carmen Dolores transformou a carreira pessoal numa obra de abertura aos outros, de acrescentamento dos outros, ajudando a despertar para a cultura várias gerações de nós, gerações que lhe são para sempre devedoras [...]. Carmen Dolores soube abandonar os palcos em apoteose — na peça Copenhaga, superiormente encenada por João Lourenço — mas não o público, que a esse continua ligada pela escrita (fascinantes as suas memórias), pelo convívio (é uma oradora notável), pela disponibilidade de subtilíssimas atenções. A busca da harmonia e da sabedoria, da solidariedade e da criatividade marcou-a indelevelmente, corajosamente veja-se a sua lucidez nos ímpares Comediantes de Lisboa e Teatro Moderno de Lisboa, por exemplo; veja-se a sua intensidade nas inigualáveis Espingardas da Mãe Carrar e Danças da Morte (as duas magníficas versões de Jorge Listopad), por exemplo. Maravilhosa Carmen Dolores!

FERNANDO DACOSTA (in "Vozes Dentro de Mim", de Carmen Dolores, Lisboa: Sextante Editora, 2017 – contracapa)


Carmen Dolores [resenha biográfica no site do >> Instituto Camões] é, indiscutivelmente, uma das mais notáveis actrizes portuguesas de sempre e não apenas do período que vai, sensivelmente, da II Guerra Mundial até 2005 (ano em que se retirou). Testemunham-no aqueles que a viram e ouviram ao vivo em palco ou em saraus de poesia e também os documentos áudio e audiovisuais que existem da sua arte na rádio, no disco, no cinema e na televisão. De entre todos estes meios, o que sempre mais a cativou foi a rádio, onde começou a dizer poesia, aos catorze anos de idade [na Rádio Sonora, de Lacombe Neves, à rua Morais Soares, em Lisboa], actividade que manteve pelos anos fora, a par do teatro radiofónico (peças e obras romanescas por episódios, vulgo folhetins). Uma paixão perpétua, como a própria actriz tem reafirmado em várias entrevistas, aproveitando para denunciar a lastimável ausência de teatro nas hodiernas ondas hertzianas e também a míngua de poesia dita por categorizados recitadores. Em ambos os campos Carmen Dolores deu cartas na rádio portuguesa, sendo de menção obrigatória os espaços "Tempo de Poesia" (de Carlos Queiroz), "Poesia, Música e Sonho" (de Miguel Trigueiros), "Teatro Radiofónico" (de Virgínia Victorino, usando o pseudónimo Maria João do Valle), "Rádio-Drama" (de Alice Ogando), "Teatro das Comédias" (de Álvaro Benamor), "Noite de Teatro", "Tempo de Teatro" (de Fernando Curado Ribeiro e Eduardo Street) e "Teatro Imaginário" (de Eduardo Street), sem esquecer os muitos folhetins, quer na Emissora Nacional quer no Rádio Clube Português, entre os quais "O Rosário" (de Florence Louisa Barclay), "Tristão e Isolda", "Retrato de uma Senhora" (de Henry James), "A Paixão de Raquel" (de Wilkie Collins), "Penélope, a Rainha Solitária" (de Claude Meillan), "Guerra e Paz" (de Lev Tolstói), "História da Rainha Santa", "Eurico, o Presbítero" (de Alexandre Herculano), "Esteiros" (de Soeiro Pereira Gomes) e "Barranco de Cegos" (de Alves Redol). São disso prova os mais de setecentos registos guardados no arquivo histórico.
Pelo relevante serviço que prestou à rádio pública, todas as acções que a mesma desenvolva em homenagem à emérita actriz serão sempre poucas. Nesta ordem de ideias, cumpre-me aplaudir o realizador João Pereira Bastos pelo ciclo, em quatro capítulos, que em boa hora consagrou a Carmen Dolores, no seu programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play]. Foi a oportunidade que muitos ouvintes tiveram de descobrir ou revisitar quatro magníficas peças de teatro e uma mão-cheia de poemas, uns retirados do arquivo histórico (programa "Poesia, Música e Sonho") e outros extraídos do CD "Poemas da Minha Vida" (Dito e Feito, 2003). No caso das peças, apenas uma – "A Súplica", de Fernando Dacosta – não era estranha aos meus ouvidos. As outras três – "A Gaivota", de Anton Tchekov; "Um Mês no Campo", de Ivan Turgueniev; e "Na Vida Como no Palco", de Clifford Odets – nunca as havia escutado, simplesmente porque foram produzidas/emitidas antes de eu ter nascido, sem que nunca mais tenham sido repostas por alguma das antenas nacionais da rádio estatal, Antena 1 ou Antena 2 (é possível que muitas tenham sido retransmitidas pela RDP-Internacional enquanto Eduardo Street lá permaneceu, em regime de quase 'emprateleirado', mas essas estavam fora do meu alcance auditivo). E muitas mais dezenas de peças interessantes haverá decerto no arquivo (com ou sem Carmen Dolores no elenco) que são desconhecidas ao escrevente destas linhas e, bem assim, aos ouvintes do mesmo escalão etário e mais novos. Por conseguinte, e sem prejuízo do resgate das mais bem conseguidas realizações, para o programa "Memória" ou para outro espaço a criar na grelha da Antena 2, importa que todo o acervo de teatro radiofónico seja disponibilizado na plataforma RTP-Arquivos, a fim de que possa ser fruído por todos quantos apreciam a nobre e difícil arte de representar só com a voz. Um espólio de tão elevado valor cultural não pode permanecer fora do alcance da comunidade: podendo aceder-lhe, os cidadãos de hoje têm a oportunidade de se enriquecerem intelectualmente e, por arrasto, de cultivarem a memória dos actores, "encenadores", realizadores e técnicos que deram o seu melhor para que as obras fossem audíveis e cativantes. Penso, aliás, que essa é a melhor forma de prestar tributo aos artistas e aos briosos profissionais do "teatro do imaginário" (e da arte de Talma, genericamente entendida). Vale mais do que mil estátuas ou nomes de ruas, praças e pracetas.
Aqui ficam as sinopses e os links relativos às quatro edições do programa "Ecos da Ribalta" consagradas à arte de Carmen Dolores:


ECOS DA RIBALTA | 20 Dez. 2017 [>> RTP-Play]
  1. Poema "Quase", de Mário de Sá-Carneiro, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  2. Poema "A Rainha de Kachmir", de Gomes Leal, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Peça "A Súplica" (monólogo), um original de Fernando Dacosta
    Adaptação: Filipe La Féria
    Direcção: Filipe La Féria
    Intérprete: Carmen Dolores
    Realização: Eduardo Street, com Noel Cardoso e Fernando Pires [TEMPO DE TEATRO, 1985].

ECOS DA RIBALTA | 27 Dez. 2017 [>> RTP-Play]
  1. Peça "A Gaivota", de Anton Tchekov
    Tradução e adaptação: Alice Ogando
    Direcção: Alice Ogando
    Intérpretes (e personagens): Carmen Dolores (Nina), Rogério Paulo (Boris), Alice Ogando (Irina) Aura Abranches (Paulina), Alves da Costa (Pedro), Carlos Duarte (Constantino), Luís Filipe (Dr. Dorn), Maria Filomena (Masha), Luís Santos (Simão), Carlos Gonçalves (Ilia), Ivone de Moura (a criada)
    Assistência técnica: Francisco Vicente
    Produção: Castela Esteves
    Realização: Alice Ogando [RÁDIO-DRAMA, Nov. 1959].

ECOS DA RIBALTA | 21 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
  1. Sete poemas de Rainer Maria Rilke, em tradução de Paulo Quintela (com versos de ligação da autoria de Miguel Trigueiros), recitados por Carmen Dolores e Manuel Lereno
    Assistência técnica: Manuel Sanches
    Realização: Manuel Cunha [POESIA, MÚSICA E SONHO, 1972].
  2. Poema "Os Atacadores", de Alexandre O'Neill, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Poema "Se eu fosse...", de Irene Lisboa, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  4. Peça "Um Mês no Campo", de Ivan Turgueniev
    Tradução e adaptação: Ricardo Alberty
    Direcção e ensaio: Álvaro Benamor
    Intérpretes (e personagens): Carmen Dolores (Natalya Petrovna), Álvaro Benamor (Mikhail Alexandrovitch Rakitin), Brunilde Júdice (Anna Semionovna), Maria Emília Baptista (Lizaveta Bogdanovna), Carlos Fernando (Kolya), João Lourenço (Alexei Nikolaievitch), Santos Gomes (Matvei), Ivone de Moura (Vera Alexandrovna) e Assis Pacheco (Inácio Ilitch)
    Assistência técnica: Fernando Pires
    Montagem: Gomes Serra [TEATRO DAS COMÉDIAS, 1964].

ECOS DA RIBALTA | 28 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
  1. Peça "Na Vida Como no Palco", de Clifford Odets
    Adaptação: Carlos de Evoramonte (pseudónimo de Victor Veres)
    Direcção e ensaio: Álvaro Benamor
    Intérpretes (e personagens): Assis Pacheco (Frank Elgin, o actor), Carmen Dolores (Georgie Elgin, a mulher do actor), Álvaro Benamor (Bernie Dodd, o encenador), António Sarmento (Phil Cook, o empresário) e Gabriel Pais (Paul Unger, o autor)
    Captação: Teixeira Alves
    Registo de som: Mendes de Oliveira
    Montagem: Jorge Santos [TEATRO DAS COMÉDIAS].
  2. Poema "O Som de um Piano Antigo", de João José Cochofel, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  3. Poema "É preciso saber porque se é triste", de Manuel Alegre, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  4. Poema "Meio-Dia", de Sophia de Mello Breyner Andresen, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  5. Poema "Sugestão", de Carlos Queiroz, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  6. Poema "Vivam, apenas", de José Gomes Ferreira, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  7. Poema "Canção", de António Pedro, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  8. Poema "Dez Reis de Esperança", de António Gedeão, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  9. Poema "Lusitânia no Bairro Latino", de António Nobre, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).
  10. Poema "Voz nos Campos de Almada", de Mário Cesariny, recitado por Carmen Dolores (in CD "Poemas da Minha Vida", Dito e Feito, 2003).



Capa do livro "Retrato Inacabado", de Carmen Dolores (Lisboa: Edições 'O Jornal', 1984)



Capa do livro "No Palco da Memória", de Carmen Dolores (Lisboa: Sextante Editora, 2013)
Carmen Dolores encarnando Virginia Woolf, na peça "Virgínia", de Edna O'Brein, levada à cena no Teatro Nacional D. Maria II, em 1985, com encenação de Carlos Avilez, cenografia e figurinos de Ana Silva e Sousa.
Fotografia – Pedro Soares.
Design – Henrique Cayatte Design, com Susana Cruz.



Capa do livro "Vozes Dentro de Mim", de Carmen Dolores (Lisboa: Sextante Editora, 2017)
Carmen Dolores encarnando Helene Alving, na peça "Espectros", de Henrik Ibsen, levada à cena pelo Teatro Experimental de Cascais, com encenação de Carlos Avilez, cenografia e figurinos de Ana Silva e Sousa, no Teatro Municipal Mirita Casimiro (Monte Estoril), em 1992.
Fotografia – Luísa Gomes.
Design – Manuel Pessoa.

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21 março 2018

Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre


Cascata da ribeira do Alcube, na Serra da Arrábida


Poucos terão sido os poetas, mormente os eruditos, que não versejaram a respeito da poesia ou, dito por outras palavras, que não fizeram da poesia (ou da arte poética, se se preferir) o objecto do poema. Entre eles, e com vários espécimes publicados, conta-se o poeta que chamava à Serra da Arrábida a sua Serra-Mãe: Sebastião da Gama. A nossa escolha, para este Dia Mundial da Poesia, recaiu naquele que dá pelo título de "Louvor da Poesia". É recitado pelo actor José Nobre, sobre lastro musical concebido e executado pelo (já desaparecido) pianista e compositor Rui Serôdio, e foi extraído do CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora" [vide capa ao fundo], produzido pela Associação Cultural Sebastião da Gama e publicado em 2010, com chancela JGC.
António Cardoso Pinto, saudoso realizador de rádio, recitador e poeta [biografia e poemas no site Triplo V], manteve na Antena 1, durante sete anos (de 1996 a 2003) um memorável apontamento de poesia, primeiramente chamado "À Esquina da 1", depois "À Esquina do Século", e finalmente "À Esquina do Mundo". Esta última denominação prendia-se com o facto da fonte dos poemas ser a volumosa antologia "Rosa do Mundo: 2001 Poemas para o Futuro" (Assírio & Alvim, 2001), organizada por Manuela Correia, sob a direcção editorial de Manuel Hermínio Monteiro. Nunca mais existiu no canal uma rubrica regular de poesia. Perguntamos: e porquê, se há tanto e bom material no arquivo, sem esquecer o disponível em discos? Uma coisa nada dispendiosa de se fazer e com a vantagem de dar à Antena 1 um toque de distinção no panorama das rádios de 'playlist'. Ou será que a direcção de programas entende que os ouvintes de hoje já não são merecedores desse "luxo cultural" que é a poesia?



LOUVOR DA POESIA



Poema de Sebastião da Gama (in "Campo Aberto", Lisboa: Portugália, 1951; Lisboa: Edições Ática, Colecção Poesia, 4.ª edição, 1983 – p. 45)
Recitado por José Nobre* (in CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora", JGC, 2010)
Música: Rui Serôdio


Dá-se aos que têm sede,
não exige pureza.
Ah!, se fôssemos puros,
p'ra melhor merecê-la...

Sabe a terra, a montanhas,
caules tenros, raízes,
e no entanto desce
da floresta dos mitos.

Água tão generosa
como a que a gente bebe,
fuja dela Narciso
e quem não tenha sede.


* José Nobre – voz
Rui Serôdio – piano
Selecção de textos – João Reis Ribeiro e Maria Barroso
Produção – Associação Cultural Sebastião da Gama
Gravado no estúdio Sounds of Heaven, Lisboa, em Outubro de 2009
Gravação de vozes – David Neutel
Mistura e masterização – Jorge Calheiros



Capa do CD "Sebastião da Gama: Meu Caminho É por Mim Fora" (JGC, 2010)
Grafismo por Jorge Calheiros
O disco contém 26 poemas recitados por Fernando Guerreiro, Célia David, Maria Clementina, Maria Barroso e José Nobre.

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Outro artigo com poesia de Sebastião da Gama:
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores

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Outros artigos com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Miguel Torga: "Natal"
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
A infância e a música portuguesa
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
Celebrando Vinicius de Moraes
Fernando Pessoa por João Villaret
Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
Celebrando Agostinho da Silva
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Camões recitado e cantado (III)

20 março 2018

Roda Pé: "Primavera Alentejana"


© Teresa Azevedo


Rafael Correia, durante as quase três décadas em que realizou, nos estúdios da RDP-Faro para a emissão nacional da Antena 1, o seu maravilhoso programa "Lugar ao Sul" [reedição >> RTP-Play], sempre teve o mui louvável cuidado de aguçar o apetite dos ouvintes para as saborosas e nutritivas iguarias sonoras que recolhia no Portugal profundo, com canções, poemas recitados e trechos instrumentais extraídos de edições discográficas. Enquanto fiel ouvinte, tive assim a oportunidade de descobrir muitos e magníficos espécimes do nosso património fonográfico que de outro modo me teriam passado ao lado. Aliás, dezenas e dezenas dessas gravações nunca mais as ouvi na Antena 1, nem em qualquer outra rádio. É o caso da canção "Primavera Alentejana", sobre poema de Hermínia Gaidão Costa, que o grupo eborense Roda Pé gravou no CD "Escarpados Caminhos", editado em 2004 pela editora conimbricense Public-Art. E que melhor dia para revisitá-la do que este em que começa a Primavera, e estando os campos alentejanos já cobertos de verdura depois da abundante chuva? Espero que a apreciem.
A talhe de foice, não posso deixar de, uma vez mais, apontar o dedo à direcção de programas da Antena 1 pela reiterada marginalização a que vem votando a música popular portuguesa, seja a tradicional seja a de autor tributária da matriz tradicional. Atente-se na 'playlist' que é um perfeito deserto de música tradicional e nos escassíssimos espaços a ela consagrados – "Cantos da Casa", de Armando Carvalhêda [rubrica >> RTP-Play / programa >> RTP-Play], e "O Povo Que Volta a Cantar", de Tiago Pereira [>> RTP-Play] – que estão em horários de sono e sem que sejam repetidos a horas de vigília.



Primavera Alentejana



Poema: Hermínia Gaidão Costa (em memória de Margarida Gaidão)
Música: Hermínia Gaidão Costa e Roda Pé
Arranjo: Roda Pé e João Bacelar
Intérprete: Roda Pé* com Joana Negrão e Celina da Piedade (in CD "Escarpados Caminhos", Public-Art, 2004)


[instrumental]

Rompe a aurora, nasce o dia
Iluminando o montado;
Como um hino à alegria
Ouve-se balir o gado.

Roxo, verde e amarelo –
Olho à volta – é o que vejo;
Não há nada assim tão belo,
Ó meu querido Alentejo!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

[coros / instrumental]

Perfumados de poejo
Os campos de solidão:
É assim o Alentejo
Que trago no coração.

O melro canta no silvado,
O grilo num buraquinho;
E eu por ti apaixonada,
Alentejo, meu cantinho!

Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas,
Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas.

Já não são como eram antes
Mondados pelas moçoilas,
Lindos campos verdejantes
Matizados de papoilas.

[coros / instrumental]


* Roda Pé:
Agostinho Teodoro – baixo eléctrico
Daniel Canelas – violino
Estêvão – guitarra acústica
Joaquim Manuel – acordeão
João Bacelar – percussão, bandola, berimbau de boca, reco-sapo, almofariz, programação e sampling
Participações especiais:
Joana Negrão – voz
Celina da Piedade – 2.ª voz

Produção – João Bacelar e Roda Pé
Gravado no Estúdio Quinta Dimensão, Azaruja-Évora, de Dezembro de 2003 a Abril de 2004
Misturas e masterização – João Bacelar
URL: http://www.roda-pe.com/



Capa do CD "Escarpados Caminhos", do grupo Roda Pé (Public-Art, 2004)
Concepção gráfica – Fernando Costa e Ricardo Costa

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Outro artigo com uma canção alusiva à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"

16 março 2018

Ana Moura: "Creio" (Natália Correia)



Um dos mais belos poemas de Natália Correia e, por extensão, de toda a poesia de língua portuguesa é aquele que começa com o verso "Creio nos anjos que andam pelo mundo". Finda o livro "Sonetos Românticos", publicado em 1990 e que no ano seguinte seria galardoado com o Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores.
A primeira versão cantada do soneto é de Janita Salomé, com música da sua autoria, que integra o CD "Raiano" (1994), a qual incluímos, em 2013, no artigo "Celebrando Natália Correia". Outros intérpretes vieram também a gravá-lo, tendo um deles sido a fadista Ana Moura, com música de Jorge Fernando, no álbum "Aconteceu" (2004). É essa versão que aqui apresentamos, em evocação da insigne poetisa, no dia em que se completa um quarteirão de anos sobre o seu desaparecimento.
Não podia a Antena 1 ter este poema cantado na respectiva 'playlist'? Podia e devia! Não só este como muitos outros saídos do punho de Natália Correia, alguns dos quais podem ser apreciados no artigo acima referido. E isso assume ainda mais pertinência se atentarmos na confrangedora pobreza da esmagadora maioria das canções que meteram na 'playlist'. Indigência essa – acrescente-se – que não se restringe à vertente poética: abrange igualmente as componentes da música e da interpretação (sem esquecer a qualidade genérica das vozes, que é de bradar aos céus).



Creio



Poema: Natália Correia ("Creio nos anjos que andam pelo mundo", poema IV do ciclo "Poesia: ó véspera de prodígio!", in "Sonetos Românticos", Col. Horas de Poesia, vol. 2, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1990; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 392; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 616)
Música: Jorge Fernando
Intérprete: Ana Moura * (in 2CD "Aconteceu": CD 1 – "À Porta do Fado", Mercury/Universal Music, 2004)




Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.


* Ana Moura – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
Filipe Larsen – viola baixo
Produção e arranjos – Jorge Fernando
Co-produção – André Déquech
Gravado nos Estúdios MDL, Paço de Arcos, por Samuel Henriques
Gravações adicionais – Luís Delgado
Misturado e masterizado por Fernando Abrantes



Capa da 1.ª edição do livro "Sonetos Românticos", de Natália Correia (Col. Horas de Poesia, vol. 2, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1990)



Sobrecapa do livro "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", de Natália Correia (Lisboa: Círculo de Leitores, 1993)
Concepção – Clementina Cabral



Capa da 1.ª edição do livro "Poesia Completa", de Natália Correia (Col. Poesia do Século XX, Vol. 32, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)



Capa do duplo CD "Aconteceu", de Ana Moura (Mercury/Universal Music, 2004)
Fotografia – Carlos Ramos.

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Outros artigos com poesia de Natália Correia:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Poesia na rádio (II)
Ser Poeta
Celebrando Natália Correia

23 fevereiro 2018

Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)



No dia em que se completa mais um ano – o 31.º – sobre o desaparecimento do "andarilho da utopia", o blogue "A Nossa Rádio" rende tributo à sua memória apresentando outra das canções que lhe foram expressamente dedicadas: "O Primeiro Canto", por Dulce Pontes, extraída do álbum com o mesmo título, editado em 1999. Disco esse que – acrescente-se a propósito – viria a ser galardoado, no ano seguinte, com o então muito prestigiado Prémio José Afonso, atribuído pela Câmara Municipal da Amadora.
Perguntamos: o que fez a Antena 1, nesta data, em memória do autor de "Vejam Bem"? Nada de nada! Tal desleixo até nem seria especialmente grave se nos demais 364 dias do ano civil o legado discográfico de José Afonso merecesse a atenção de quem gere a asquerosa 'playlist'. Mas como isso não tem acontecido, aqui fica lavrado o protesto de alguém que não pode pactuar com tão vil silenciamento, que, no fim de contas, é uma forma de censura, sob a capa de insondáveis critérios editoriais, a um dos criadores maiores da música portuguesa.



O Primeiro Canto (dedicado a José Afonso)



Letra: João Mendonça, Dulce Pontes e António Pinheiro da Silva
Música: Dulce Pontes e Leonardo Amuedo
Intérprete: Dulce Pontes* (in CD "O Primeiro Canto", Polydor B.V. The Netherlands/Universal, 1999)




[instrumental / vocalizos]

O tambor a tocar sem parar,
um lugar onde a gente se entrega,
o suor do teu corpo a lavar a terra.
O tambor a tocar sem parar,
o batuque que o ar reverbera,
o suor do teu rosto a lavrar a terra.

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia...

Azinheiras de ardente paixão
soltam folhas, suaves, na calma
do teu fogo brilhando a escrever na alma.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Logo de manhãzinha, subindo a ladeira já,
já vai a caminho a Maria Faia,
desenhando o peito moreno, um raminho de hortelã
na frescura dos passos, a eterna paz do Poeta.

Uma pena ilumina o viver
de outras penas de esperança perdida,
o teu rosto sereno a cantar a vida.

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

[instrumental / staccato vocal]

Ai, o meu amor era um pastor, o meu amor,
ai, ninguém lhe conheceu a dor.
Ai, o meu amor era um pastor Lusitano,
ai, que mais ninguém lhe faça dano.
Ai, o meu amor era um pastor verdadeiro,
ai, o meu amor foi o primeiro.

Estas fontes da nossa utopia
são sementes, são rostos sem véus,
o teu sonho profundo a espreitar dos céus!

Mil promessas de amor verdadeiro
vão bordando o teu manto guerreiro,
hoje e sempre serás o primeiro canto!

[vocalizos / instrumental]


* Dulce Pontes – voz solo e coros
Leonardo Amuedo – guitarra acústica e baixo
Kepa Junkera – trikitixa
Justin Vali – valiha (harpa de Madagáscar)
Wayne Sorter – saxofone soprano
João Ferreira – adufes e djembé solo
Trilok Gurtu – percussão, tablas e voz
Produção – Dulce Pontes, António Pinheiro da Silva e Albert Boekholt
Coordenação de produção – Ricardo Alevizos
Gravado no Helioscentric Studio (Reino Unido), de 1 de Março a 6 de Abril de 1999
Gravações adicionais no Olympic Studio (Reino Unido) e nos Wisseloord Studios (Holanda)
Misturado nos Wisseloord Studios (Holanda)
Engenheiros de som – António Pinheiro da Silva e Albert Boekholt
Masterizado por João Moura, António Pinheiro da Silva, Albert Boekholt e Dulce Pontes



Capa do CD "O Primeiro Canto" (Polydor B.V. The Netherlands/Universal, 1999)

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Outros artigos com poemas/canções de homenagem a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"