14 março 2023

Celeste Rodrigues: "Velhas Sombras"



Apesar do enorme êxito popular que, nos anos 1950/60, foi a sua despretensiosa e orelhuda "Olha a Mala" (letra e música de Manuel Casimiro) [>> YouTube], e das muitas actuações no estrangeiro (onde se contaram salas que não são para qualquer um, como o Concertgebouw de Amesterdão, a parisiense La Cité de la Musique, o londrino Royal Elizabeth Hall e o nova-iorquino Carnegie Hall), Celeste Rodrigues acabou por não ter, no panorama musical português, uma projecção consentânea com a sua singular qualidade de intérprete dotada de «voz de bonito timbre, de um colorido que varia de cambiantes, que se torna clara e fresca quando interpreta a canção parafolclórica ou reflecte um dramatismo nostálgico quando canta fados...» (parafraseando Mário Martins). Para esse défice de reconhecimento no seu país contribuíram o seu temperamento arredio à autopromoção («Reconheço que não dou a importância que devia dar à minha vida artística – canto porque gosto de cantar», in revista "Álbum da Canção", 01.05.1967) e o facto de ser irmã de Amália cujo nome intensamente rutilante acabou, inevitavelmente, por ofuscar o seu. Embora sem ser extenso, o acervo de gravações de Celeste Rodrigues, de que parte considerável não foi ainda reeditada com o som devidamente tratado, não é parco em espécimes de antologia, mormente no domínio do fado, dos quais o mais conhecido e revisitado é a "Lenda das Algas" [>> YouTube], com letra de Laerte Neves sobre a música que Jaime Mendes compusera para o "Fado da Cigana", gravado por Hermínia Silva no início da década de 1950. Bem menos divulgado mas que testemunha perfeitamente a requintada qualidade interpretativa de Celeste Rodrigues é o fado-canção "Velhas Sombras", com letra de António Sousa Freitas e música de Nóbrega e Sousa, que a artista gravou para o álbum de título igual ao seu nome, publicado em 1974, sob a chancela FF (selo da editora Riso e Ritmo). Dado que a temática abordada é intemporal – a transitoriedade da vida humana e o apelo irresistível do amor mau grado as sombras que pode carregar –, achámos por bem dar-lhe aqui destaque, em memória da distinta fadista Celeste Rodrigues neste dia do centenário do seu nascimento, esperando que mereça o apreço dos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio". Boa escuta!

Apraz-nos notar a homenagem que, hoje, a Antena 1 tem prestado a Celeste Rodrigues, com múltiplos apontamentos e programas especiais, designadamente a reposição da rubrica "David Ferreira a Contar" originalmente emitida há cinco anos e que segundo o autor terá sequência [>> RTP-Play], a transmissão do documentário "A Árvore Celeste", da autoria de Pedro Miguel Ribeiro, com os depoimentos do neto Diogo Varela Silva, dos bisnetos Gaspar Varela e Sebastião Varela, do musicólogo Rui Vieira Nery e da fadista Katia Guerreiro [>> RTP-Play] e a edição especial do programa "Fado Cravo", feita ao vivo e em directo a partir do Museu do Fado, onde a autora, Aldina Duarte, conversou com Diogo Varela Silva a respeito, obviamente, de Celeste Rodrigues [>> RTP-Play].
De acordo com o anunciado na emissão da Antena 1, e pelo que nos é dado observar na página da plataforma RTP-Play "Celeste 100", mais documentários serão transmitidos nos próximos dias, o que merece o nosso efusivo aplauso. Cumpre-nos pois felicitar Nuno Galopim, na sua qualidade de director de programas, e deixar expresso o desejo de que algo do repertório de Celeste Rodrigues possa, doravante, ser ouvido pelos ouvintes da Antena 1 quando roda a 'playlist'. É bom que as efemérides sejam assinaladas, mas importa que depois o legado de categorizados artistas desaparecidos não seja votado ao silêncio.



Velhas Sombras



Letra: António Sousa Freitas
Música: Nóbrega e Sousa
Criação: Alice Amaro (in EP "Sou Quem Sou", Alvorada/Rádio Triunfo, 1967)
Intérprete: Celeste Rodrigues* (in LP "Celeste Rodrigues", FF/Riso e Ritmo, 1974; CD "Celeste Rodrigues", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 55, Movieplay, 1994)




Por toda a vida as sombras passam
Num rumo igual a outro rumo;
As sombras vão e não se abraçam
E as vidas são nuvens e fumo.

Assim eu passo também
Meus dias, meus anos,
Num sonho antigo que tem
Tristezas, enganos.
E só dou por mim agora,
Meu amor, a cantar aquele dia,
Estranho dia, estranha hora
Das velhas sombras tão sombrias.

Amar-te é como o amor responde
Ao seu apelo, ao seu cantar,
E traz as sombras em que esconde
A tua sombra, o teu olhar.

Assim eu passo também
Meus dias, meus anos,
Num sonho antigo que tem
Tristezas, enganos...
E só dou por mim agora,
Meu amor, a cantar aquele dia,
Estranho dia, estranha hora
Das velhas sombras tão sombrias.

[instrumental]

Assim eu passo também
Meus dias, meus anos,
Num sonho antigo que tem
Tristezas, enganos...
E só dou por mim agora,
Meu amor, a cantar aquele dia,
Estranho dia, estranha hora
Das velhas sombras tão sombrias.


* Celeste Rodrigues – voz
Carlos Gonçalves e António Chainho – guitarras portuguesas
José Maria Nóbrega – viola
Raul Silva – viola baixo
URL: https://www.museudofado.pt/fado/personalidade/celeste-rodrigues
https://www.youtube.com/@ValentimdeCarvalhoPT/videos?query=celeste+rodrigues
https://music.youtube.com/channel/UCcVQ5pMWj0gEjkzEg9RqVJQ



Capa do LP "Celeste Rodrigues" (FF/Riso e Ritmo, 1974)



Capa da compilação em CD "Celeste Rodrigues" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 55, Movieplay, 1994)

08 março 2023

Elisa Lisboa: "Mulher-Mágoa" (Ary dos Santos)



Além de socialmente estigmatizante, a prostituição causa quase sempre em quem, por absoluta necessidade económica, a ela se sujeita, ou é obrigado por outrem a sujeitar-se, sofrimento psíquico (e, não raras vezes, também físico – por exemplo, o relacionado com doenças sexualmente transmissíveis). Sofrimento tanto mais dilacerante e traumatizante quanto maior for a consciência que a mulher tiver da sua degradante condição de objecto mercantil: «Já não sou uma pessoa: sou apenas um corpo à venda no mercado na venalidade, nada mais do que mera mercadoria». Mercadoria – acrescente-se – que apenas tem valor enquanto para ela houver comprador. Afinal, um bem fungível e descartável como qualquer outro na sociedade de consumo em que tudo se mede em função do valor estritamente comercial que tiver num determinado momento ou intervalo de tempo, segundo a sacrossanta lei da oferta e da procura. O drama dessas mulheres com a alma torturada, perdidas na "rua da vida", a quem foi usurpada a auto-estima sem a qual nenhum ser humano pode viver com dignidade, sensibilizou o poeta José Carlos Ary dos Santos impelindo-o a escrever os admiráveis versos que, com música de Nuno Nazareth Fernandes, constituem a canção "Mulher-Mágoa" que Elisa Lisboa primorosamente interpretou, em 1969, para o EP homónimo. Uma pérola do nosso cancioneiro que esteve perdida no vinil durante mais de cinquenta anos e foi finalmente, em 2021, resgatada dos arquivos da Valentim de Carvalho e disponibilizada nas plataformas digitais. A temática dos versos poderia sugerir, à partida, uma toada triste e langorosa, de autocomiseração, mas não foi esse o caminho que Elisa Lisboa trilhou: a sua interpretação é efusiva e vigorosa, rescendendo jovialidade (embora não totalmente indiferente à índole dramática do assunto), como que para evidenciar que mais importante do que lamuriar as agruras e os tormentos por que se passou é metamorfoseá-los em experiência fortificante que possibilite o salto para uma vida menos amargurada e mais edificante. Ao destacarmos a tocante canção "Mulher-Mágoa", na fascinante voz de Elisa Lisboa, neste dia do seu aniversário (nasceu a 8 de Março de 1944) e que é consagrado à Mulher em muitos países (naqueles em que há a preocupação de zelar pelos direitos humanos), procuramos exprimir a nossa compaixão por todas as mulheres que os tropeções da vida fizeram cair na prostituição, muito especialmente aquelas que são impiedosamente maltratadas e exploradas por redes criminosas de tráfico de seres humanos.

E de que modo tem a rádio pública celebrado este Dia Internacional da Mulher?
Começando pela Antena 1, temos de assinalar elogiosamente o programa de debate "Consulta Pública" que teve como tema a igualdade de género, numa mesa-redonda moderada pelo jornalista Nuno Rodrigues, em que participaram Susana Peralta (economista e professora universitária), Sara Falcão Casaca (socióloga e investigadora do ISEG), Manuel Albano (vice-presidente da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género) e Margarida Couto (advogada e presidente do GRACE - Grupo de Reflexão e Apoio à Cidadania Empresarial) [>> RTP-Play]. Tratou-se, na verdade, de um bom contributo no âmbito do trabalho (nunca terminado) que as competentes entidades oficiais e privadas vem desenvolvendo no campo da sensibilização da sociedade para o problema da discriminação de que a Mulher ainda é alvo em vários domínios, sem esquecer o candente flagelo dos maus-tratos físicos e psíquicos, de que a violência doméstica e os uxoricídios são a face mais trágica. Já no caso da oferta musical da Antena 1 (e também da Antena 3) tudo foi igual a um dia vulgar, o que denota lassidão e preguiça dos directores de programação, respectivamente Nuno Galopim e Nuno Reis. Quer dizer: optaram por ficar displicentemente quietinhos e descansados em vez de fazerem o que se impunha e que era o preenchimento das 'playlists' exclusivamente com repertório que, independentemente do sexo do intérprete, aborda a condição feminina e os vários aspectos de que se reveste o tratamento desigual, discriminatório e abusivo exercido sobre as mulheres. Repertório esse que, ao contrário do que alguém mais desatento e menos bem informado poderia supor, está bem longe de ser escasso, mesmo só no universo da música de língua portuguesa...
Relativamente à Antena 2, merece menção prévia o realizador Germano Campos que, por antecipação, nas edições de sábado e de domingo do seu programa "Café Plaza", incluiu duas boas sequências de canções latinas dedicadas à mulher e ainda o poema "Receita de Mulher", de e por Vinicius de Moraes [a partir de 15':48'' >> RTP-Play / a partir de 24':24'' >> RTP-Play]. No dia de hoje, o preenchimento dos espaços de música 'ad-hoc' (fora dos programas de autor pré-gravados) somente com obras e peças musicais compostas ou interpretadas por mulheres era o mínimo dos mínimos que podia ser feito, se nisso tivesse existido empenho da direcção de programas, o que lamentavelmente não aconteceu. Como em qualquer outro dia do ano, ficou ao inteiro critério dos animadores desses espaços escolherem o que lhes deu na real gana, ainda que completamente alheio à composição e/ou interpretação feminina. As honrosas excepções a tal alheamento deram-se por iniciativa de: André Pinto que, na terceira hora do espaço "Boulevard", dando nota de um recital evocativo de D. Maria Bárbara de Bragança (filha do rei D. João V), a realizar na Biblioteca do Convento de Mafra, onde a soprano Carla Caramujo iria interpretar a cantata "A Quel Leggiadro Volto", de Francisco António de Almeida, transmitiu a ária "In queste lacrime, Arsindo specchiasti", eduzida do scherzo pastorale "Il Trionfo d'Amore", do mesmo compositor, interpretada pela soprano Ana Quintans e os Músicos do Tejo, sob a direcção de Marcos Magalhães [>> YouTube Music]; e de João Rodrigues Pedro que, na primeira hora do "Baile de Máscaras", transmitiu dois trechos da autoria de mulheres compositoras – a ária "Lasciatemi qui solo", pertencente ao "Il Primo Libro delle Musiche" (1618), da florentina Francesca Caccini (1587-c.1641), cantada pela soprano galesa Ruby Hughes, acompanhada por Jonas Nordberg (tiorba) & Mime Yamahiro-Brinkmann (violoncelo) [>> Spotify], e a peça orquestral "Le Songe de Cléopâtre" ("O Sonho de Cleópatra"), da compositora francesa Mel Bonis (1858-1937), pela Orchestre National de Metz, sob a regência de David Reiland [>> YouTube Music]. Não surpreende que o realizador João Rodrigues Pedro tenha sido o profissional da Antena 2 mais zeloso a não deixar passar em vão o Dia Internacional da Mulher porque já tivera esse mui louvável cuidado nos anos anteriores. Aliás, a divulgação de obras de compositoras tem acontecido com assinalável frequência no seu espaço "Baile de Máscaras", sendo oportuno mencionar também a rubrica semanal "Virtuosas: as Mulheres na História da Música" que vem mantendo desde o passado 6 de Janeiro e tem emissão às sextas-feiras por volta das 10h:45 e repete cerca das 15h:45 [>> RTP-Play].



Mulher-Mágoa



Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: Nuno Nazareth Fernandes
Arranjo: Jorge Machado
Intérprete: Elisa Lisboa* (in EP "Mulher-Mágoa", Columbia/EMI, 1969; reed. digital: Edições Valentim de Carvalho, 2021)




[vocalizos]

Ando na rua da noite,
Bebo vinho de saudade;
Cada esquina é um açoite
Fustigando a claridade.

Vou de noite pela noite
De uma vida sem idade:
Não há corpo onde me acoite,
Não há casas na cidade.

Vou de noite pelo ventre
De ruas mal-assombradas,
Levo uma alma doente
Nas minhas mãos desfasadas.

Vou de noite pela noite,
De uma vida sem idade:
Não há corpo onde me acoite,
Não há casas na cidade.

No rio vejo um navio
Rumando rumo à infância...
Tenho frio, tenho frio,
Morro do mal da distância.

Corro as ruas da cidade
Sempre à procura de mim,
Mas ela não tem piedade
E nunca mais chego ao fim.

Ando na rua da vida,
Bebo sumo de tristeza;
Deitando contas à vida
Somo apenas a pobreza.

Ando na rua da vida,
Bebo sumo de tristeza;
Quem andar assim perdida
Não se encontra, com certeza.

Na cama só vejo lama,
Na rua só piso água;
Quem me fala? Quem me chama
O nome de Mulher-Mágoa?

Corro as ruas da cidade
Sempre à procura de mim,
Mas ela não tem piedade
E nunca mais chego ao fim.

[vocalizos]


* Elisa Lisboa – voz
Orquestra dirigida por Jorge Machado
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Elisa_Lisboa
https://music.youtube.com/channel/UCiREHraFssH6-zXErJKULYA



Capa do EP "Mulher-Mágoa", de Elisa Lisboa (Columbia/EMI, 1969).

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Outros artigos de homenagem à mulher:
João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"
Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)
Teresa Silva Carvalho: "Mulher da Erva"
João Lóio com Regina Castro: "Uma Criada para Todo o Serviço"

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Outros artigos com poesia da autoria ou na voz de Ary dos Santos:
Amália: dez anos de saudade
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Carlos Paredes

23 fevereiro 2023

Vitorino: "Postal para D. João III"


Caricatura da autoria de João Abel Manta (in livro "Caricaturas Portuguesas dos Anos de Salazar", Lisboa: O Jornal, 1978), mostrando um cardeal e outros clérigos observando reverencialmente o devoto Salazar, que está em compenetrada oração, munido de um rosário na mão esquerda.


O rei D. João III ficou desditosamente assinalado na História de Portugal por ter sido o introdutor em terras lusas, no ano de 1536, do nefando e eufemisticamente denominado Tribunal do Santo Ofício, vulgo Inquisição. Foi também por nomeação sua que, em 1539, o seu irmão D. Henrique [>> biografia], então arcebispo de Braga, futuro arcebispo de Évora (1540-1564), cardeal (1546) e arcebispo de Lisboa (1564-1574), se tornou inquisidor-mor do Reino, condição que manteve até 1579, quando já havia tomado assento no trono régio, que ficara vago em Agosto de 1578, na sequência do desaparecimento de D. Sebastião em Alcácer Quibir.
Quatro séculos mais tarde, outro cardeal, de seu nome Manuel Gonçalves Cerejeira, na qualidade de Patriarca de Lisboa e, por inerência, figura máxima da hierarquia da Igreja Católica Portuguesa, com o propósito de restaurar os privilégios e as regalias que a sua instituição havia perdido na Primeira República, por acção de Afonso Costa, não hesitou em estabelecer um pacto com o ditatorial Estado Novo que o seu amigo António de Oliveira Salazar, empossado presidente do Ministério (primeiro-ministro) por Óscar Carmona a 5 de Julho de 1932, instituiu ao aprovar e plebiscitar uma nova Constituição (1933). E mediante a Concordata, assinada a 7 de Maio de 1940, a Igreja Católica Portuguesa alcançou uma posição de privilégio no regime, tornando-se ela mesma um dos seus pilares de sustentação. Coerente com o seu ideário, o cardeal Cerejeira sempre se manteve apoiante do Estado Novo, mesmo quando este passou a ser alvo de mais ampla e intensa contestação, a partir das eleições presidenciais de 1958 (nas quais o candidato da oposição, o General Humberto Delgado, foi descaradamente boicotado durante a campanha eleitoral e fraudulentamente roubado nas urnas) e, sobretudo, após a eclosão da Guerra Colonial, em Fevereiro de 1961. Entre esses contestatários contavam-se muitos católicos, os chamados católicos progressistas, quer leigos quer clérigos (por exemplo, o Pe. José da Felicidade Alves, prior da paróquia de Santa Maria de Belém), que o velho cardeal não se coibiu de desaprovar e castigar 'exemplarmente'. Essa atitude neo-inquisitorial, de flagrante cumplicidade com um regime político repressivo e torcionário, impressionou o jovem alentejano, estudante de Belas-Artes em Lisboa, Vitorino Salomé Vieira, que uns anos mais tarde, verteu a impressão negativa que ficara no seu espírito do severo cardeal num bilhete-postal poético-musical dirigido ao rei ironicamente cognominado 'O Piedoso', e que incluiu no álbum "Leitaria Garrett" (1984). O irmão daquele monarca quinhentista, o Cardeal D. Henrique, além de se comprazer a torturar e a queimar, em 'purificadores' autos-de-fé, judeus, bruxas, sodomitas, hereges e outros desalinhados da ortodoxia católica romana, não dispensava a companhia de jovens amas (a toponímia da cidade de Évora ainda guarda memória delas na "Rua das Amas do Cardeal"), uma das quais, Maria da Motta, de 27 anos de idade, o amamentou nos últimos meses de vida, quando o senil soberano morava no paço de Almeirim onde acabou por morrer... As amas do Cardeal Cerejeira, essas, tinham natureza diferente: eram as forças repressivas da ditadura salazarista, mormente a P.I.D.E. e a P.J. (a Judite, na gíria). No "Postal para D. João III", Vitorino refere explicitamente a segunda e embora a primeira, criada por Salazar, não seja nomeada, infere-se que era sobretudo ela que, de noite, ia bater à porta dos que eram suspeitos de andarem a conspirar contra o 'Pai' Salazar e a blasfemar contra a 'Santa Madre' Igreja. O tom insurgente que Vitorino Salomé imprimiu ao seu 'postal' de denúncia dos ímpetos desenfreados da vetusta instituição eclesiástica para controlar e submeter as consciências ao seu domínio, em aliança com poderes políticos despóticos, remetem-nos para a "Arcebispíada" [>> YouTube], de José Afonso, a quem, muito pertinentemente, o distinto cantautor redondense dedicou o seu 'postal' libertário. Tal dedicatória foi também o móbil que nos levou a escolhê-lo para aqui o destacarmos neste dia em que se completaram 36 anos sobre o (prematuro) desaparecimento do autor de "Enquanto Há Força". De notar o refinado arranjo para cravo e quinteto de cordas concebido pelo argentino Alejandro Erlich-Oliva, contrabaixista e membro-fundador do Opus Ensemble, que confiou o cravo à sua colega Olga Prats, a qual o toca esplendidamente. Sendo o "Postal para D. João III" um dos espécimes menos divulgados do repertório de Vitorino, estamos em crer que para alguns (talvez a maioria) dos visitantes do blogue "A Nossa Rádio" será uma agradável descoberta. Boa escuta!

Um dia destes, lográmos ouvir na Antena 1, num espaço da 'playlist', a canção "Queda do Império", de e por Vitorino (com a colaboração vocal de Filipa Pais), o que nos deixou bastante surpresos, conhecendo nós o ignóbil ostracismo a que o categorizado cantautor vinha sendo votado há largos anos, e tendo em conta o obsceno favorecimento que o novo manda-chuva do canal, Nuno Galopim, tem dado a tudo o que seja música pop, principalmente a anglo-americana dos anos 80, em prejuízo da melhor música que se produziu e produz entre nós. Perguntamos: há na 'playlist' mais alguma canção de Vitorino? Duvidamos que haja, mas seria bom que houvesse umas quantas, sobretudo das menos conhecidas. Porque os ouvintes merecem conhecer melhor a obra de um dos nomes maiores da História da Música Portuguesa e também em razão da dívida de reconhecimento e gratidão que Portugal tem para com o artista.



Postal para D. João III



Letra e música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Leitaria Garrett", EMI/Vecemi, 1984, reed. EMI-VC, 1993; CD "As Mais Bonitas 2: Ao Alcance da Mão", EMI-VC, 2002, Capitol/EMI Music Portugal, 2012, Parlophone/Warner Music Portugal, 2018; 3CD "Tudo": CD 2 – "Lisboa", EMI Music Portugal, 2005)




                          Ao Zeca Afonso


[instrumental]

Acorda, João III!
Querem-te roubar a fama:
Um cardeal interesseiro
Pelo Santo Ofício chama.

Diz que vem p'ra nos salvar
Da tentação de Mafoma;
Metido numa redoma,
Jura que é inofensivo.

Traz baú de ordenações,
Cadafalso e sambenito;
Cara de corpo-delito,
Volta o polé p'ràs funções.

Eu, por mim, faço um manguito
Às amas do cardeal!
Vou-te mandar um postal
Com novas dos teus filhotes.

De todos a mais notada,
Com pergaminho d'elite,
Essa bastarda a Judite,
Tens-lhe a alma confiada.

Bate-me à porta de noite,
Diz que sou um excomungado:
Mil heresias, culpado,
Carbonário, contumaz,

Diabo, anarquista negro,
Blasfémia não controlada...
Quer saber qual o segredo
Da alma duma granada.

Eu, por mim, faço um manguito...


* Vitorino – voz
Olga Prats – cravo
Aníbal Lima e Manuel Gomes – violinos
Isabel Pimentel – viola d'arco
Teresa Portugal Núncio – violoncelo
Adriano Aguiar – contrabaixo
Direcção musical e arranjo – Alejandro Erlich-Oliva

Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, no mês de Outubro de 1984
Engenheiro de som – Hugo Ribeiro
Técnico assistente – Miguel Gonçalves
Assistente de montagem – José de Carvalho
URL: https://www.vitorinosalome.pt/
https://www.meloteca.com/portfolio-item/vitorino/
https://www.facebook.com/VitorinoSalome.officialpage
https://www.youtube.com/channel/UCuRPFnby4OlKEz5kzN655bA
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=vitorino



Évora: esquina da Rua José Elias Garcia com a Rua das Amas do Cardeal.
Fotografia extraída do blogue "A Terra e a Gente".



Évora: identificação da Rua das Amas do Cardial [sic], em azulejos.



Évora: retrato do Cardeal D. Henrique, em painel azulejar, sobre a mesma parede.
Fotografia extraída do blogue "A Terra e a Gente".

HENRICVS PORT REX XVII VIXIT ANN LXVIII OBIIT. Á. M.DLXXX
[Henrique, XVII rei de Portugal (ou dos Portugueses), viveu LXVIII (68) anos. Faleceu no ano de MDLXXX (1580)].



Capa do LP "Leitaria Garrett", de Vitorino (EMI-VC, 1984)
Concepção – Carlos Ramalho
Fotografia – João d'Assunção



Capa da compilação em CD "As Mais Bonitas 2", de Vitorino (EMI-VC, 2002)
Fotografia – Inês Gonçalves
Design gráfico – Fátima Rolo Duarte



Capa da compilação em triplo CD "Tudo", de Vitorino (EMI Music Portugal, 2005)
Direcção artística – João Vieira
Design – Hildebrando Soares

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Outros artigos com poemas/canções de homenagem ou dedicados a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)
José Medeiros: "O Cantador"
Janita Salomé: "Quando a Luz Fechou os Olhos"
Amélia Muge: "Os Novos Anjos" (ao Zeca Afonso)
Manuel Freire: "O Zeca"

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Outros artigos com repertório interpretado por Vitorino ou da sua autoria:
A infância e a música portuguesa
Celebrando Luís Pignatelli
Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Vitorino: "Marcha Ingénua"
Vitorino: "O Capitão dos Tanques"

01 fevereiro 2023

Luís Cília: "Tango Poluído"



A actividade humana, desde os primeiros hominídeos, sempre teve impacto no meio ambiente, mas foi com a Revolução Industrial, a partir de finais do século XVIII, e sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial que se foram tornando mais perceptíveis e visíveis os efeitos nefastos da utilização, cada vez em maior escala, do carvão, do petróleo e do urânio como fontes de energia, e também as consequências perniciosas da incessante devastação de florestas virgens (principalmente equatoriais e tropicais) e da destruição ou contaminação de outros habitats naturais (terrestres, fluviais e marinhos). A tal ponto que nos países mais industrializados emergiram e foram ganhando expressão movimentos ambientalistas e partidos ecologistas que se empenharam/empenham na defesa dos ecossistemas naturais e da biodiversidade, não por romantismo (ao invés do que algumas pessoas menos bem informadas julgavam) mas pela aguda consciência de que são imprescindíveis à vida humana na Terra (o planeta, esse, mesmo que deixe de ter condições de habitabilidade para o homo sapiens e para muitas outras espécies animais e vegetais continuará a rodar sobre o seu eixo imaginário e a orbitar em torno do Sol). Em Portugal, país essencialmente agrário e renitente à industrialização (por opção de Salazar), a tomada de consciência dos problemas ambientais deu-se alguns anos mais tarde, já depois da Revolução dos Cravos, e nela desempenharam importante papel vários artistas da canção, como Amália Rodrigues [com "Caldeirada (Poluição)", 1977], Fausto Bordalo Dias [com "Se Tu Fores Ver o Mar (Rosalinda)", 1977], Pedro Barroso (com "Em Ferrel" e "Canção ao Rio Almonda", 1980) e Luís Cília (com "Tango Poluído", 1981). As duas primeiras canções são ainda hoje razoavelmente conhecidas, mas já o mesmo não poderá afirmar-se acerca das outras. No caso do "Tango Poluído" tal desconhecimento é particularmente injusto porque se trata de uma pérola de alto quilate. Magistralmente concebido e interpretado por Luís Cília, fazendo uso de cativante e jovial verve (em tom irónico e humorístico pode dizer-se coisas muito sérias), o "Tango Poluído", apesar de contar com mais de quarenta anos (saiu no primoroso álbum "Marginal", gravado e publicado no segundo semestre de 1981), não perdeu uma pitadinha de actualidade. Os vários tipos de poluição lá apontados persistem no país e no mundo e, em modo crescente, afectando milhões de pessoas, directa ou indirectamente (quantos seres humanos, a cada ano que passa, adoecem, morrem ou caem na penúria em consequência da poluição do ar, da água, dos solos, dos alimentos, bem como de fenómenos meteorológicos/climáticos extremos associados à poluição – ciclones, inundações, tornados, canículas, secas, desertificação?). A própria possibilidade da ocorrência do holocausto nuclear voltou a estar bem na ordem do dia. E, outrossim, a Televisão continua a ser um veículo de poluição mental, agora em aliança com outro agente altamente poluidor das consciências: as chamadas redes sociais. Importa, pois, escutar, como ouvidos de ouvir, o actualíssimo "Tango Poluído", interiorizar a mensagem nele expressa e agir em conformidade. Porque dessa tão necessária acção, consciente e empenhada, depende a saúde e a vida de milhões de pessoas, assim como, a prazo, a sobrevivência da própria Humanidade! Tendo em mente tal imperativo escolhemos este espécime do vasto repertório ciliano para darmos-lhe destaque nesta data, em jeito de celebração do 80.º aniversário do categorizado cantautor. Crentes de que Luís Cília apreciará este gesto do blogue "A Nossa Rádio", apesar de singelo, aproveitamos o ensejo para manifestar-lhe a nossa gratidão pelo relevante contributo que deu para o enriquecimento do património musical português e endereçar-lhe os nossos parabéns e sinceros votos de vida longa, repleta de saúde. Bem-haja, Luís Cília!

Luís Cília forma, com José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, o trio pioneiro de cantautores portugueses que, impelidos por dever cívico e moral, se devotaram à canção popular de intervenção, tendo em mira a libertação da opressão e da mordaça salazarista/marcelista e a instauração da liberdade e da justiça social tão almejadas pelo povo português. Afigura-se oportuno citar Eduardo M. Raposo: «Luís Cília foi o primeiro cantor de intervenção que, no exílio [em França], denunciou a guerra colonial e a falta de liberdade em Portugal. Gravando ininterruptamente a partir de 1964, realizou uma grande actividade musical, tanto discográfica como no que concerne à realização de recitais, tendo-se profissionalizado em 1967. Mas além disso, Luís Cília dedicou-se, durante vários anos, ao estudo de harmonia e composição, o que era algo invulgar no universo dos cantores de intervenção. Esta formação musical fez de Luís Cília um dos mais respeitados compositores da actualidade, procurado pelas mais importantes instituições, nomeadamente desde que, nos [finais dos] anos 80, optou pela composição pura, o que aconteceu, também, devido às muitas solicitações.» (in "Canto de Intervenção: 1960-1974", 2.ª edição revista e aumentada, Lisboa: Público, 2005, p. 76).
Sem descurar a faceta de autor de letras (de que o "Tango Poluído" é um magnífico exemplo) e a de compositor de música instrumental/incidental para teatro, dança, cinema, telefilmes e séries televisivas, foi no mister de musicar e interpretar poesia alheia, maioritariamente respigada de livros, que Luís Cília se afirmou de modo mais significativo alcançando um lugar de relevo na História da Música Portuguesa. Efectivamente, entre o primeiro álbum, "Portugal-Angola: Chants de Lutte" (Chant du Monde, 1964), e o último trabalho de canções, "Penumbra" (Transmédia, 1987), a sua discografia constitui um dos mais ricos e admiráveis repositórios de poesia (de língua) portuguesa musicada e cantada, abarcando um extenso rol de autores, desde os menos conhecidos do público e/ou menos reconhecidos pela crítica literária encartada e pela academia, até aos mais canónicos (Camões, Almeida Garrett, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Carlos de Oliveira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, David Mourão-Ferreira, António Gedeão, Mário Cesariny, Manuel Alegre, Pedro Tamen). Poesia intemporal, na sua maior parte, logo visitável e fruível nos dias de hoje, com inegável proveito intelectual. Então, como se justifica que o repertório de Luís Cília nela assente não seja alvo de divulgação na estação pública? Até há alguns anos podia servir de desculpa o facto da obra discográfica do cantautor estar quase toda por reeditar em CD (quase toda e não toda, uma vez que o álbum "Bailados", de 1995, teve edição original em CD, e em 1996 foi publicada em França a antologia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" e em 2014 saiu em Portugal uma compilação no âmbito da colecção "Canto & Autores", em edição conjunta da Levoir e do jornal "Público"). Hoje já estão disponíveis nas plataformas digitais, iTunes e Amazon incluídas, seis álbuns de Luís Cília – cinco de canções e um de peças instrumentais –, não se podendo tolerável mais que o artista continue a ser impiedosamente silenciado na pública Antena 1. Pelo reconhecimento de que Luís Cília é credor da parte do seu país e pelo direito que assiste aos ouvintes/contribuintes – dos seniores aos mais novos – de escutarem algo do seu valioso legado musical!



Tango Poluído



Letra e música: Luís Cília
Intérprete: Luís Cília* (in LP "Marginal", Diapasão/Sassetti, 1981)




[instrumental]

Ai que bom, que bom que é!
Ai que grande reinação!
Não há no mundo melhor
Que viver em poluição!

Aos domingos, no Verão,
Lá vou eu, de madrugada,
Recompor-me da saúde
Nas praias da Cruz Quebrada:
Banhando-me ao pé do esgoto,
Respirando os seus odores,
Ao chegar o fim do dia
Vou p'ra casa com mais cores.

Fui um dia p'rà montanha
E passei um mau bocado:
Respirando o tal ar puro,
Quase morri sufocado;
Fiquei logo com os pulmões
A pedir por caridade
O cheiro a óleo queimado
Que respiro na cidade.

Ai que bom, que bom que é!
Ai que grande reinação!
Não há no mundo melhor
Que viver em poluição!

Não me venhas com a conversa
Das comidas naturais,
Dás-me cabo dos tomates
Com esses sermões papais.
O frango só com hormonas,
Salsichas só enlatadas,
Peixinho só do Barreiro
E frutas bem sulfatadas.

Há p'ra aí quem diga mal
Da nossa Televisão,
Mas dela já não me passo
P'rà minha cultivação:
Vinte e cinco horas por dia
De cultura e informação
Poluindo a consciência,
Tudo a Bem da Nação.

Ai que bueno, que bueno!
Ai que grande reinação!
Não há no mundo melhor
Que viver em poluição!

Vi um tal da ecologia
Gritando como um possesso
Contra a bomba nuclear,
Contra a bomba do progresso.
Fiz-lhe ver que estava errado,
Pois não há nada mais belo
Nem há morte mais limpinha
Que o quente do cogumelo.

Disse-me um da intervenção:
"Lá estás tu com essa mania,
A cantar o tango assim
Estás a imitar o Letria".
Mas eu estou certo e seguro
Que o Jôjô não leva a mal,
Embora ele tenha a patente
Do tango em Portugal.

Ai que bom, que bom que é!
Ai que grande reinação!
Não há no mundo melhor
Que viver em poluição!

Ai que bueno, que bueno!
Ai que grande reinação!
Não há no mundo melhor
Que morrer em poluição!


* Luís Cília – voz e viola
Filomena Cardoso – violino
Teresa Ribeiro – violeta
João Neves – violoncelo
Pedro Osório – acordeão
Pedro Casaes – viola baixo

Direcção musical – Luís Cília
Produção – Sassetti
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa, em Agosto de 1981
Técnico de som – Rui Remígio
URL: http://www.luiscilia.com/
https://www.youtube.com/user/LeoMOV/videos
https://www.youtube.com/channel/UCqL_T8TPQ2ffVAKn-v4kN_A



Capa do lado A do LP "Marginal", de Luís Cília (Diapasão/Sassetti, 1981)
Concepção, foto e grafismo – Judite Cília



Capa do lado B do LP "Marginal", de Luís Cília (Diapasão/Sassetti, 1981)
Concepção e grafismo – Judite Cília
Quadro – Rogério do Amaral
Fotografia do quadro – Luís F. de Oliveira

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Outros artigos com repertório interpretado por Luís Cília ou da sua autoria:
A infância e a música portuguesa
Em memória de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013)
Celebrando Eugénio de Andrade
Camões recitado e cantado (V)
José Saramago: "Dia Não"
Adriano Correia de Oliveira: "Exílio" (Manuel Alegre)

19 janeiro 2023

Eugénio de Andrade por João Perry


Fotografia extraída do blogue "Cais da Memória"


Eugénio de Andrade: figuras de melancolia

Vitorino Nemésio saudou a primeira edição de As Mãos e os Frutos, de Eugénio de Andrade, publicando no Diário Popular, em 1948, uma recensão intitulada "Frutos Líricos". Nesse artigo, que constitui um dos primeiros estudos da poesia eugeniana, Nemésio antevê algumas características essenciais que haveriam de confirmar-se na obra subsequente, e diz, a certa altura, o seguinte: "Uma tristeza lírica de timbre sossegado repassa de ponta a ponta esta recolha aparentemente pagã de poemas". O reconhecimento da tristeza como um dos elementos aglutinadores de As Mãos e os Frutos é uma consideração aparentemente desconcertante, tratando-se do livro de um poeta cuja poesia constitui, segundo Óscar Lopes, um dos raros exemplos de plenitude, "na nossa lírica portuguesa de frustrações à vista". Com efeito, a serenidade solar constitui um dos veios estruturantes do universo literário de Eugénio de Andrade, mas a afirmação de uma visão jubilosa do mundo não é composta apenas de luz; há, pelo contrário, uma gradação de matizes conatural à complexidade da realidade humana.
Aparentemente luminosa, a poesia de Eugénio de Andrade é, de facto, atravessada, desde o início, por um sopro de melancolia que deflui dos mesmos elementos que consubstanciam uma adesão prazenteira à vida e ao mundo, porque a consciência do tempo e da sua inexorável labilidade fragiliza a relação do homem com os frutos da terra. No famoso dístico "Estou de passagem:/ amo o efémero", inserto no livro Ostinato Rigore, o poeta inscreve, de forma lapidar, o lema da sua cosmovisão, estabelecendo um nexo de causalidade entre a vida como brevidade – na tradição catuliana da breuis lux – e a sua consumação num plano de pura imanência. Amar o efémero, porque a vida é breve, pressupõe uma concepção do homem como ser inteiramente consumptível pelo tempo, sem possibilidade de transcendência, e sem confiança nas formas de permanência, incluindo a poesia, como se pode constatar no texto "Como Longa Despedia", do livro À Sombra da Memória, quando Eugénio de Andrade compara o seu trabalho de poeta ao ofício de pedreiro desempenhado pelo avô, concluindo a aproximação da seguinte maneira: "Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo".
Esta desconstrução do tópico clássico da perenidade da poesia – sintetizado por Horácio no primeiro verso da ode trinta do livro terceiro: "Exegi momumentum aere perennius" – é inteiramente coerente com a formulação de uma mundividência que postula o apego ao efémero como meio eficaz de contrabalançar a perecibilidade do homem. No fundo, Eugénio de Andrade configura, na sua poesia, uma actualização dos preceitos do carpe diem, partindo dos pressupostos filosóficos que já haviam sido reflectidos pelos poetas greco-romanos. Ora, a defesa de um projecto de vida alicerçado na necessidade de aproveitar cada momento decorre de uma visão do mundo intrinsecamente melancólica. Quando Horácio diz, na ode onze do livro primeiro, "carpe diem, quam minimum credula postero", faz depender o conselho, em imperativo, de uma explicação cotextual que enfatiza a celeridade do tempo presente ("Dum loquimur, fugerit inuida/aetas") e a imponderabilidade do futuro ("quam minimum credula postero").
A noção de carpe diem é, portanto, defluente de um entendimento da vida como tempo frágil, refractário ao controlo humano. É, pois, muito significativa a maneira como Eugénio de Andrade, logo em As Mãos e os Frutos, reactiva a lição dos poetas clássicos – particularmente Homero, Semónides e Mimnermo – aproximando a condição humana da insegurança das folhas perturbadas pela brisa: "Somos folhas breves onde dormem/ aves de sombra e solidão./ Somos só folhas e o seu rumor./ Inseguros, incapazes de ser flor,/ até a brisa nos perturba e faz tremer./ Por isso a cada gesto que fazemos/ cada ave se transforma noutro ser".
A velhice constitui um dos temas que, na obra de Eugénio de Andrade, propiciam uma visão melancólica da vida; e a figuração disfórica do envelhecimento é ampliada pela convocação de dois outros temas axiais do poeta: o erotismo e a relação conflituosa com a poesia. Numa das entrevistas coligidas em Rosto Precário, o poeta, reflectindo sobre a relativa morosidade da sua produção literária, faz, a certa altura, a seguinte constatação: "Ler, ouvir música, viajar, amar um corpo jovem é bem melhor que escrever poesia. Aliás escrever, já o tenho dito, nunca me deu prazer". A referência ao "corpo jovem" é particularmente relevante neste contexto, porque o corpo erótico é sempre juvenil; na erótica eugeniana não há lugar para o corpo envelhecido. Em entrevista a Helena Vaz da Silva, o poeta manifesta, de forma inequívoca, a sua visão repulsiva da velhice, "uma coisa horrível", entendida como "a ruína do corpo, o peso sobre os outros, o desamparo". Esta visão desapiedada é compreensível e inteiramente pertinente numa poesia que reafirma, em múltiplos passos, a centralidade do corpo como lugar da pátria e da casa. Recordem-se, por exemplo, os conhecidos versos do poema "Espelho", do volume Mar de Setembro: "Que rompam as águas:/ é de um corpo que falo// Nunca tive outra pátria,/ nem outro espelho; nunca tive outra casa". Consequentemente, envelhecer significa ir ficando sem pátria e sem casa, porque paralelamente à ruína física também a poesia vai ficando diferente: a decrepitude do desejo torna as palavras ariscas e indomáveis.
As referências à senescência vão sendo disseminadas pelos vários livros de Eugénio de Andrade, adquirindo uma visibilidade mais marcada a partir de Memória doutro Rio (1978) e Branco no Branco (1984). Nos poemas em prosa de Memória doutro Rio, a ameaça da ruína torna-se perceptível nos sinais do corpo – "Temos um corpo inclinado para o sol, em declínio, é certo", "Aprendo uma gramática de exílio, nas vertentes do silêncio." [...]

                  ANTÓNIO MANUEL FERREIRA,
                  Universidade de Aveiro
                  (in http://www2.dlc.ua.pt/classicos/)


Fez hoje exactamente cem anos que nasceu em Póvoa da Atalaia, aldeia do concelho do Fundão, um menino que receberia como nome de baptismo José Fontinhas e que, volvidos dois decénios e meio, em 1948, já sob o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, suscitou efusivo aplauso da crítica com o livro "As Mãos e os Frutos". Uma obra distintiva e marcante no panorama literário português por revelar uma linguagem poética singular, na qual já estão patentes os principais traços característicos da posterior produção eugeniana, designadamente o recurso preponderante a elementos, entes e fenómenos da Natureza para a construção de um lirismo rico em imagens e metáforas, a musicalidade (bebida nos simbolistas, sobretudo em Camilo Pessanha), e a exaltação do corpo enquanto veículo do amor (na esteira de António Botto). Considerado, ainda em vida, um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, Eugénio de Andrade foi, segundo alguns reputados estudiosos, o que melhor exprimiu na lírica lusitana contemporânea o amor e o erotismo, desde o mais subtil ao mais explícito. Dessa vertente da poesia eugeniana dá bom testemunho o LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", editado pela Sassetti, sob o selo Guilda da Música, em 1973, à guisa de celebração do 50.º aniversário do nascimento do poeta. Contemplando todos os títulos de poesia de Eugénio (à parte as antologias) publicados desde "As Mãos e os Frutos" (1948) até "Véspera da Água" (1973), que correspondem à fase mais fulgurante e consagrada da sua produção, os poemas estão admiravelmente sequenciados/encadeados formando uma 'narrativa' lógica, qual argumento de um filme. O álbum frui-se mesmo como se de um filme se tratasse, sendo as imagens as que são sugeridas pelas palavras na voz de João Perry e pela primorosa encenação sonora, gizada por Manuel Jorge Veloso. Um filme de sons que, tal como acontece com as obras-primas da sétima arte, proporciona a quem ousar ouvê-lo, uma experiência assaz prazenteira. E podendo acompanhar-se a audição com a leitura dos textos, mais enriquecedora poderá ser a fruição deste meritório trabalho. Foi a pensar justamente nisso que achámos por bem aqui apresentar o álbum integral e todos os textos lidos por João Perry, neste dia de comemoração do centenário de Eugénio de Andrade. Boa escuta!

E como tem a rádio pública vindo a celebrar este nome maior das nossas Letras?
Começando pela Antena 1, registamos com agrado a transmissão, no turno da manhã (no "Espaço das 10"), da reportagem "Uma Casa para Eugénio", feita pelo jornalista Miguel Bastos, na qual falaram diversas pessoas ligadas a iniciativas de homenagem ao poeta ou que o conheceram de perto e o estudaram, como o Prof. Arnaldo Saraiva [>> RTP-Play]. Também nos demos conta da transmissão, ao longo do dia, da leitura de poemas curtos e excertos de poemas (nem sempre bem, mas enfim...), e de algumas canções feitas sobre poesia eugeniana, entre as quais "Não É Verdade", por Simone de Oliveira, e "Despertar", pelo grupo Trovante. Congratulamo-nos que Nuno Galopim não tenha deixado passar a efeméride em vão e só lamentamos que nos outros dias do ano seja virtualmente impossível ouvir-se na Antena 1 alguma das muitas canções com versos de Eugénio de Andrade que se gravaram entre nós [cf. Celebrando Eugénio de Andrade].
Na Antena 3 nada nos constou, nas várias incursões que fizemos à respectiva emissão, o que nos leva a deduzir que o director do canal, Nuno Reis, se esteve a marimbar para Eugénio de Andrade. Vergonhoso!
Na Antena 2, temos de enaltecer o zelo que Paulo Alves Guerra (no programa da manhã) e Luís Caetano (em vários espaços da sua responsabilidade, mormente na rubrica "A Vida Breve" e no programa "A Ronda da Noite") têm mostrado na divulgação, mesmo fora de efemérides, da poesia de grandes vultos da nossa literatura, Eugénio de Andrade incluído. E no dia de hoje as palavras do ilustre 'aniversariante', em voz própria, teriam, forçosamente, de marcar presença. E marcaram! Por decisão da direcção de programas, encabeçada por João Almeida, também surgiu em antena, há semanas, o apontamento "Eugénio de Andrade: A Caminho do Centenário", que tem consistido na leitura de um poema, por admiradores da poesia eugeniana, tais como o editor e poeta Jorge Reis Sá, a cineasta Margarida Gil, o arquitecto João Appleton e o já referido professor Arnaldo Saraiva [>> RTP-Play]. Apreciamos a iniciativa mas sabe-nos a pouco. Num canal de rádio especialmente vocacionado para a Cultura, a celebração de um poeta/escritor, ademais da dimensão de Eugénio de Andrade, requer algo mais do que dar a ouvir poesia ou prosa. Devia realizar-se (e ainda se está a tempo) um ciclo de programas, com o contributo de especialistas eugenianos, para ajudar os ouvintes literariamente menos habilitados a compreenderem os múltiplos aspectos da obra de Eugénio de Andrade, mais aclamado como poeta, mas que também foi um distinto autor de prosa memorialística e ensaística, tradutor, organizador de antologias e correspondente com outros poetas (como Jorge de Sena) e com compositores (como Fernando Lopes-Graça, que musicou vários poemas seus). Em suma, algo que acrescentasse conhecimento crítico na mente do comum ouvinte, o qual, já apetrechado dos convenientes instrumentos de interpretação e análise, pudesse desfrutar da obra eugeniana com outro alcance e proveito intelectual. Refira-se, a talhe de foice, que os ciclos temáticos sobre figuras gradas da Cultura (nacional e estrangeira), movimentos artísticos e outros eventos historicamente relevantes foram uma marca de excelência da Antena 2 até ao fim do consulado de João Pereira Bastos (se bem nos lembramos, o último ciclo realizado foi o dedicado a Bocage). Importa que essa boa tradição, insanamente suspensa pelo consórcio Rui Pêgo/João Almeida, seja retomada. A bem do serviço público de rádio!



Poesia de Eugénio de Andrade (1.ª Parte)



Dita por João Perry* (in LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)




SOBRE O CAMINHO


Nada.

Nem o branco trigo do espaço
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferenças.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.


[in "Véspera da Água", Porto: Editorial Inova, 1973; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 178]



É todo um mundo confuso


     É todo um mundo confuso, de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casas — uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.
     Minha mãe disse-me que eu nasci na casa do Adro, e que só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas ainda de que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.
     Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca quando se abre — é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.
     Ora um dia, quando me aproximei da arca — sabe-se lá se para dar a entender a minha mãe que queria pão — estava lá em cima uma coisa que eu nunca tinha visto. Em bicos de pés, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saiu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste.

[...]

     Senhora Sant'Ana,
     tapai-me cum véu,
     que eu sou pequenino,
     levai-me prò Céu.

[...]


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 59-60; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 37-38]



CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 71; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 44-45]



AS PALAVRAS


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


[in "Coração do Dia", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958 – p. 12-13; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 154-155; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 88]



TO A GREEN GOD


Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.


[in "As Mãos e os Frutos", Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 22-23; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 27-28; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 23]



Não canto porque sonho


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.


[in "As Mãos e os Frutos", poema VI, Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 16-17; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 22; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 21]



POEMA À MÃE


No mais fundo de ti,
eu sei que te traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
     Era uma vez uma princesa
     no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes! — a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 81-83; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 47-48]



AS JANELAS


As janelas
Abrem-se sobre as fontes.

Abrem para o esplendor
dos juncos altos e das dunas,

para a extrema embriaguez
de um corpo nu nas areias.

As janelas abrem para a loucura
da sombra de um lírio entre as pernas.

Abrem para a luz extenuada
e masculina das colinas,

para as águas tresmalhadas,
para a língua em chama nas virilhas.

As janelas abrem para a doçura
da morte prometida nas espadas.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 141-142]



EROS


Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
— como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?


[in "Mar de Setembro", Porto: Imprensa Portuguesa, 1961; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 200; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 113]



VAGUÍSSIMO RETRATO


Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser —

se a luz é tanta,
como se pode morrer?


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 145-146]



APENAS UM CORPO


Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.


[in "Até Amanhã", Lisboa: Guimarães Editores, 1956; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 132-133; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 75-76]



LITANIA


Iluminou-se o teu corpo na noite,
o teu corpo, mar azul de ser tão branco,
caminhando ao meu encontro,
trazendo os teus cabelos soltos
como a terra traz as árvores consigo,
cuidadosamente, maternalmente,
como se cada folha
fosse uma criança adormecida,
trazendo os teus olhos povoados
de uma multidão sombria, desfolhando
a corola dos beijos que te dou...

Meu amor!,
amor duma viagem nocturna
no colo das andorinhas,
iluminou-se o teu corpo na noite!
Iluminou-se com a palavra exacta
que muda os cavalos em rios,
os rios em aves,
as aves na tua boca!

Ó coração interior da madrugada,
ó rumor de água sem contorno,
iluminou-se o teu corpo,
o teu corpo,
irreal como um barco,
perto, distante, perdido,
pelo qual os amantes
se beijam os pés e perdem a cor!


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 101-102; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 57-58]



Poesia de Eugénio de Andrade (2.ª Parte)



Dita por João Perry* (in LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)




DESDE O CHÃO


A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também a boca que procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Palavras... Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras...,
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas da terra,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Morre. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 153-154]



OS JOELHOS


Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 147]



PLENAMENTE


A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

esperar o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 144]



NAS ERVAS


Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão,

porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve,

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho —
a glande leve.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 147-148]



ARTE DE NAVEGAR


Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 149]



A MÃO


A mão
que no fundo da noite chama,

num sopro mais ligeiro
que a pedra do desejo

ou o cheiro
do feno quente ainda
da última gota de água,

a mão
esquece a árvore onde fez ninho

e vai pousar
entre o frio dos joelhos

devagar.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 157]



VEGETAL E SÓ


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o meu rosto antigo,
sem lágrimas sepultadas nos lábios,
sem nenhuma criança acordada
nas pálpebras pesadas

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 109-110; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 62]



RETRATO COM SOMBRA


Que morte é a sombra deste retrato,
onde eu assisto ao dobrar dos dias,
órfão de ti e de uma aventura suspensa?

Tu não eras só este perfil.
Tu não eras só este sossego aconchegado
nas mãos como num regaço.
Tu não eras apenas
este horizonte de areias com árvores distantes.

Falta aqui tudo o que amámos juntos,
o teu sorriso com as ruas dentro,
o secreto rumor das tuas veias
abrindo sulcos de luz ou de palavras
no rosto da noite inesperada.
Falta sobretudo à roda dos teus olhos
a pura ressonância da alegria.

Lembro-me de uma noite em que ficámos nus
para embalar um beijo ou uma lágrima,
trémulos, de mãos cortadas, até romper o dia,
largo, intacto,
nas pálpebras molhadas dos lírios.

Tu não eras ainda este perfil
com uma rosa de cinza na mão direita.
Eu andava dentro de ti
como um pequeno rio de sol
dentro da semente,
porque nós — é preciso dizê-lo! —
tínhamos nascido um dentro do outro
naquela noite.

Esse é o teu rosto verdadeiro;
aquele rosto que vou juntando ao teu retrato
como quando era pequeno:
recortando aqui,
colando ali,
até que uma fonte rasgue a tua boca
e a noite fique transbordante de água.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 104-105; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 59-60]



ADEUS


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos
ou, se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve — e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 100; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 57]



PROCURO-TE


Procuro a ternura súbita,
os olhos como um sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugitiva voz da água entre o azul
de um prado ou de um corpo estendido!

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te!


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 113-114; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 64-65]



O SILÊNCIO


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 164]



ESCUTO O SILÊNCIO...


Escuto o silêncio: em abril
os dias são
frágeis, impacientes e amargos;
os passos
miúdos dos teus dezasseis anos
perdem-se nas ruas, regressam
com restos de sol e chuva
nos sapatos,
invadem o meu domínio de areias
apagadas,
e tudo começa a ser ave
ou lábios, e quer voar.

Um rumor cresce lentamente,
oh, lentamente
não cessa de crescer,
um rumor de pálpebras
ou pétalas
sobe de terraço em terraço,
descobre um dia
de cinzas com vestígios de beijos.

Um só rumor de sangue
jovem:
dezasseis luas altas,
selvagens, inocentes e alegres,
ferozmente enternecidas;
dezasseis potros
brancos na colina sobre as águas.

Como um rio cresce, cresce um rumor;
quero eu dizer,
assim um corpo cresce, assim
as ameixoeiras bravas
do jardim,
assim as mãos,
tão cheias de alegria,
oh, tão cheias de abandono!

Um rumor de sementes,
de cabelos
ou ervas acabadas de cortar,
um irreal amanhecer de galos
cresce contigo,
na minha noite de quatro muros,
no limiar da minha boca,
onde te demoras a dizer-me adeus.

Escuto um rumor: é só silêncio.


[in "Ostinato Rigore", Lisboa: Guimarães Editores, 1964; "Poemas: 1945-1965", Col. Poetas de Hoje, vol. 23, Lisboa: Portugália Editora, 1966 – p. 227-229; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 127-128]


* João Perry – voz

Selecção dos textos – João Perry
Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em Setembro de 1973
Técnico de som – Moreno Pinto
Montagem e encenação sonora – Manuel Jorge Veloso
URL: https://cinemaportuguesmemoriale.pt/Pessoas/id/6044/t/joao-perry
https://www.youtube.com/channel/UC-Ve4aeXNG7E4mNUhl3obSg



Manuscrito autografado do poema "Eros"



Capa do LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry" (Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)
Concepção – José Rodrigues

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Outros artigos com poesia de Eugénio de Andrade:
A infância e a música portuguesa
Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade
Celebrando Eugénio de Andrade
Camões recitado e cantado (V)

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Poemas de Eugénio de Andrade e de outros autores em sua homenagem ditos por Luís Gaspar:
https://www.estudioraposa.com/

01 janeiro 2023

Terra a Terra: "Estas Casas São Mui Altas"


Fotografia respigada do site "Portuguesices".


Do costume de cantar as Janeiras, preferencialmente à porta de casas abastadas, mediante o qual os deserdados da Fortuna visavam receber algo comestível, mesmo que fossem sobras dos manjares natalícios, para assim mitigarem as suas carências alimentares, resultou um dos mais curiosos e peculiares subgéneros do cancioneiro popular português associado ao ciclo festivo que começa na Natividade e se estende até à Epifania (ou um pouco depois). Um dos espécimes mais belos desse precioso acervo poético-musical cantava-se nas ruas da pitoresca aldeia de Monsanto, na Beira Baixa, e dá pelo título de "Estas Casas São Mui Altas". É pois dando aqui destaque a este tocante cantar de Janeiras, na interpretação do histórico grupo Terra a Terra, segundo um primoroso arranjo concebido por Jaime Ferreira, que exprimimos os nossos votos de Bom Ano aos leitores/visitantes do blogue "A Nossa Rádio" (habituais ou esporádicos), proporcionando também – assim o cremos – a alguns deles mais uma excelente descoberta de uma pérola perdida do nosso património musical/discográfico. E grafamos 'perdida' porque é virtualmente impossível de se ouvir, hoje em dia, no éter nacional, inclusive na pública Antena 1, cuja direcção de programas, encabeçada por Nuno Galopim, vem ostensivamente marginalizando a melhor música tradicional portuguesa como se de um repelente bicho peçonhento se tratasse.



Estas Casas São Mui Altas



Letra e música: Popular (Monsanto, Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: António Avelino Joyce (1938, «Relatório do Júri Provincial da Beira Baixa: IV - Acerca das canções populares de Monsanto e Paul», in "Ocidente: Revista Portuguesa", N.º 9, Lisboa: Jan. 1939; "A Canção Popular Portuguesa", de Fernando Lopes Graça, Lisboa: Publicações Europa-América, Colecção Saber, n.º 23, 1953 – p. 90, 3.ª edição, Colecção Saber, n.º 23, Mem Martins: Publicações Europa-América, s/d. – p. 109)
Arranjo: Jaime Ferreira
Intérprete: Terra a Terra* (in LP "Lá Vai Jeremias", Orfeu/Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 2005)




[instrumental]

Estas casas são mui altas,
     Mui altas,
Forradinhas de alegria. [bis]
Viva quem nelas passeia,
     Passeia,
Que é a Senhora Maria! [bis]

[instrumental]

Estas casas são mui altas,
     Mui altas,
Mas não lhes chegamos nós. [bis]
Viva quem nelas passeia,
     Passeia,
Quem está a fazer filhós! [bis]

[instrumental]

Levante-se lá, Senhora,
     Senhora,
Desse tão lindo assento! [bis]
Venha-nos dar as Janeiras,
     Janeiras,
Na boda do Nascimento! [bis]

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Terra a Terra:
Aníbal Madeira – voz, guitarras, baixo, xilofone, bongós, percussão
António Júlio – voz, cavaquinhos, percussões
Fernanda Lopes – voz
Jaime Ferreira – voz, flautas de bisel, piano, gaita-de-foles, percussões
Júlia Cruz – voz
Luísa Vasconcelos – voz, adufes
Mário Piçarra – voz, percussões
Victor Amorim – voz, guitarras, bandolim, cavaquinho, flautas de bisel, percussões

Músicos convidados:
Pedro Caldeira Cabral – alaúde, violoncino, flauta barroca, gaitas-de-foles
Paulo Brandão – trompa
António Manuel Alfaiate – trompa
José Duarte Neves – violoncelo
José Machado – violino
Paula Antunes – gaita-de-foles

Concepção do disco – Jaime Ferreira e Mário Piçarra
Direcção musical – Aníbal Madeira, Jaime Ferreira, Mário Piçarra e Victor Amorim
Direcção de produção – Aníbal Madeira, Jaime Ferreira, Mário Piçarra e Victor Amorim
Gravado nos Estúdios da Rádio Triunfo, Lisboa (Estrada da Luz), durante o Verão de 1985
Técnico de som – Jorge Barata
Misturas – Jorge Barata, Jaime Ferreira e Mário Piçarra
URL: https://www.sinfonias.org/mais/musica-portuguesa-anos-80/directorio/945-terra-a-terra
https://www.youtube.com/channel/UCrTlzaIfvPfpG3VKo5OxIag
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=terra+a+terra



Capa do LP "Lá Vai Jeremias", do grupo Terra a Terra (Orfeu/Rádio Triunfo, 1985)
Concepção – Jaime Ferreira
Design – Caixa Alta
Fotografia – Luís Pavão

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Outros artigos com repertório de Janeiras e/ou de Reis:
Música portuguesa de Natal
Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos
Catarina Moura, Ariel Ninas e César Prata: "Entrada de Aninovo"
Miguel Pimentel com Maria José Victória: "Bons Anos"
Rafael Carvalho: "Bons Anos e Anos Bons"