19 janeiro 2023

Eugénio de Andrade por João Perry


Fotografia extraída do blogue "Cais da Memória"


Eugénio de Andrade: figuras de melancolia

Vitorino Nemésio saudou a primeira edição de As Mãos e os Frutos, de Eugénio de Andrade, publicando no Diário Popular, em 1948, uma recensão intitulada "Frutos Líricos". Nesse artigo, que constitui um dos primeiros estudos da poesia eugeniana, Nemésio antevê algumas características essenciais que haveriam de confirmar-se na obra subsequente, e diz, a certa altura, o seguinte: "Uma tristeza lírica de timbre sossegado repassa de ponta a ponta esta recolha aparentemente pagã de poemas". O reconhecimento da tristeza como um dos elementos aglutinadores de As Mãos e os Frutos é uma consideração aparentemente desconcertante, tratando-se do livro de um poeta cuja poesia constitui, segundo Óscar Lopes, um dos raros exemplos de plenitude, "na nossa lírica portuguesa de frustrações à vista". Com efeito, a serenidade solar constitui um dos veios estruturantes do universo literário de Eugénio de Andrade, mas a afirmação de uma visão jubilosa do mundo não é composta apenas de luz; há, pelo contrário, uma gradação de matizes conatural à complexidade da realidade humana.
Aparentemente luminosa, a poesia de Eugénio de Andrade é, de facto, atravessada, desde o início, por um sopro de melancolia que deflui dos mesmos elementos que consubstanciam uma adesão prazenteira à vida e ao mundo, porque a consciência do tempo e da sua inexorável labilidade fragiliza a relação do homem com os frutos da terra. No famoso dístico "Estou de passagem:/ amo o efémero", inserto no livro Ostinato Rigore, o poeta inscreve, de forma lapidar, o lema da sua cosmovisão, estabelecendo um nexo de causalidade entre a vida como brevidade – na tradição catuliana da breuis lux – e a sua consumação num plano de pura imanência. Amar o efémero, porque a vida é breve, pressupõe uma concepção do homem como ser inteiramente consumptível pelo tempo, sem possibilidade de transcendência, e sem confiança nas formas de permanência, incluindo a poesia, como se pode constatar no texto "Como Longa Despedia", do livro À Sombra da Memória, quando Eugénio de Andrade compara o seu trabalho de poeta ao ofício de pedreiro desempenhado pelo avô, concluindo a aproximação da seguinte maneira: "Ele usava o granito como material, as suas casas estão ainda de pé; o neto trabalha com poeira, sem nenhuma pretensão de desafiar o tempo".
Esta desconstrução do tópico clássico da perenidade da poesia – sintetizado por Horácio no primeiro verso da ode trinta do livro terceiro: "Exegi momumentum aere perennius" – é inteiramente coerente com a formulação de uma mundividência que postula o apego ao efémero como meio eficaz de contrabalançar a perecibilidade do homem. No fundo, Eugénio de Andrade configura, na sua poesia, uma actualização dos preceitos do carpe diem, partindo dos pressupostos filosóficos que já haviam sido reflectidos pelos poetas greco-romanos. Ora, a defesa de um projecto de vida alicerçado na necessidade de aproveitar cada momento decorre de uma visão do mundo intrinsecamente melancólica. Quando Horácio diz, na ode onze do livro primeiro, "carpe diem, quam minimum credula postero", faz depender o conselho, em imperativo, de uma explicação cotextual que enfatiza a celeridade do tempo presente ("Dum loquimur, fugerit inuida/aetas") e a imponderabilidade do futuro ("quam minimum credula postero").
A noção de carpe diem é, portanto, defluente de um entendimento da vida como tempo frágil, refractário ao controlo humano. É, pois, muito significativa a maneira como Eugénio de Andrade, logo em As Mãos e os Frutos, reactiva a lição dos poetas clássicos – particularmente Homero, Semónides e Mimnermo – aproximando a condição humana da insegurança das folhas perturbadas pela brisa: "Somos folhas breves onde dormem/ aves de sombra e solidão./ Somos só folhas e o seu rumor./ Inseguros, incapazes de ser flor,/ até a brisa nos perturba e faz tremer./ Por isso a cada gesto que fazemos/ cada ave se transforma noutro ser".
A velhice constitui um dos temas que, na obra de Eugénio de Andrade, propiciam uma visão melancólica da vida; e a figuração disfórica do envelhecimento é ampliada pela convocação de dois outros temas axiais do poeta: o erotismo e a relação conflituosa com a poesia. Numa das entrevistas coligidas em Rosto Precário, o poeta, reflectindo sobre a relativa morosidade da sua produção literária, faz, a certa altura, a seguinte constatação: "Ler, ouvir música, viajar, amar um corpo jovem é bem melhor que escrever poesia. Aliás escrever, já o tenho dito, nunca me deu prazer". A referência ao "corpo jovem" é particularmente relevante neste contexto, porque o corpo erótico é sempre juvenil; na erótica eugeniana não há lugar para o corpo envelhecido. Em entrevista a Helena Vaz da Silva, o poeta manifesta, de forma inequívoca, a sua visão repulsiva da velhice, "uma coisa horrível", entendida como "a ruína do corpo, o peso sobre os outros, o desamparo". Esta visão desapiedada é compreensível e inteiramente pertinente numa poesia que reafirma, em múltiplos passos, a centralidade do corpo como lugar da pátria e da casa. Recordem-se, por exemplo, os conhecidos versos do poema "Espelho", do volume Mar de Setembro: "Que rompam as águas:/ é de um corpo que falo// Nunca tive outra pátria,/ nem outro espelho; nunca tive outra casa". Consequentemente, envelhecer significa ir ficando sem pátria e sem casa, porque paralelamente à ruína física também a poesia vai ficando diferente: a decrepitude do desejo torna as palavras ariscas e indomáveis.
As referências à senescência vão sendo disseminadas pelos vários livros de Eugénio de Andrade, adquirindo uma visibilidade mais marcada a partir de Memória doutro Rio (1978) e Branco no Branco (1984). Nos poemas em prosa de Memória doutro Rio, a ameaça da ruína torna-se perceptível nos sinais do corpo – "Temos um corpo inclinado para o sol, em declínio, é certo", "Aprendo uma gramática de exílio, nas vertentes do silêncio." [...]

ANTÓNIO MANUEL FERREIRA, Universidade de Aveiro (in http://www2.dlc.ua.pt/classicos/eug.andrade%202.pdf)



Fez hoje exactamente cem anos que nasceu em Póvoa da Atalaia, aldeia do concelho do Fundão, um menino que receberia como nome de baptismo José Fontinhas e que, volvidos dois decénios e meio, em 1948, já sob o pseudónimo literário de Eugénio de Andrade, suscitou efusivo aplauso da crítica com o livro "As Mãos e os Frutos". Uma obra distintiva e marcante no panorama literário português por revelar uma linguagem poética singular, na qual já estão patentes os principais traços característicos da posterior produção eugeniana, designadamente o recurso preponderante a elementos, entes e fenómenos da Natureza para a construção de um lirismo rico em imagens e metáforas, a musicalidade (bebida nos simbolistas, sobretudo em Camilo Pessanha), e a exaltação do corpo enquanto veículo do amor (na esteira de António Botto). Considerado, ainda em vida, um dos maiores poetas portugueses da segunda metade do século XX, Eugénio de Andrade foi, segundo alguns reputados estudiosos, o que melhor exprimiu na lírica lusitana contemporânea o amor e o erotismo, desde o mais subtil ao mais explícito. Dessa vertente da poesia eugeniana dá bom testemunho o LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", editado pela Sassetti, sob o selo Guilda da Música, em 1973, à guisa de celebração do 50.º aniversário do nascimento do poeta. Contemplando todos os títulos de poesia de Eugénio (à parte as antologias) publicados desde "As Mãos e os Frutos" (1948) até "Véspera da Água" (1973), que correspondem à fase mais fulgurante e consagrada da sua produção, os poemas estão admiravelmente sequenciados/encadeados formando uma 'narrativa' lógica, qual argumento de um filme. O álbum frui-se mesmo como se de um filme se tratasse, sendo as imagens as que são sugeridas pelas palavras na voz de João Perry e pela primorosa encenação sonora, gizada por Manuel Jorge Veloso. Um filme de sons que, tal como acontece com as obras-primas da sétima arte, proporciona a quem ousar ouvê-lo, uma experiência assaz prazenteira. E podendo acompanhar-se a audição com a leitura dos textos, mais enriquecedora poderá ser a fruição deste meritório trabalho. Foi a pensar justamente nisso que achámos por bem aqui apresentar o álbum integral e todos os textos lidos por João Perry, neste dia de comemoração do centenário de Eugénio de Andrade. Boa escuta!

E como tem a rádio pública vindo a celebrar este nome maior das nossas Letras?
Começando pela Antena 1, registamos com agrado a transmissão, no turno da manhã (no "Espaço das 10"), da reportagem "Uma Casa para Eugénio", feita pelo jornalista Miguel Bastos, na qual falaram diversas pessoas ligadas a iniciativas de homenagem ao poeta ou que o conheceram de perto e o estudaram, como o Prof. Arnaldo Saraiva [>> RTP-Play]. Também nos demos conta da transmissão, ao longo do dia, da leitura de poemas curtos e excertos de poemas (nem sempre bem, mas enfim...), e de algumas canções feitas sobre poesia eugeniana, entre as quais "Não É Verdade", por Simone de Oliveira, e "Despertar", pelo grupo Trovante. Congratulamo-nos que Nuno Galopim não tenha deixado passar a efeméride em vão e só lamentamos que nos outros dias do ano seja virtualmente impossível ouvir-se na Antena 1 alguma das muitas canções com versos de Eugénio de Andrade que se gravaram entre nós [cf. Celebrando Eugénio de Andrade].
Na Antena 3 nada nos constou, nas várias incursões que fizemos à respectiva emissão, o que nos leva a deduzir que o director do canal, Nuno Reis, se esteve a marimbar para Eugénio de Andrade. Vergonhoso!
Na Antena 2, temos de enaltecer o zelo que Paulo Alves Guerra (no programa da manhã) e Luís Caetano (em vários espaços da sua responsabilidade, mormente na rubrica "A Vida Breve" e no programa "A Ronda da Noite") têm mostrado na divulgação, mesmo fora de efemérides, da poesia de grandes vultos da nossa literatura, Eugénio de Andrade incluído. E no dia de hoje as palavras do ilustre 'aniversariante', em voz própria, teriam, forçosamente, de marcar presença. E marcaram! Por decisão da direcção de programas, encabeçada por João Almeida, também surgiu em antena, há semanas, o apontamento "Eugénio de Andrade: A Caminho do Centenário", que tem consistido na leitura de um poema, por admiradores da poesia eugeniana, tais como o editor e poeta Jorge Reis Sá, a cineasta Margarida Gil, o arquitecto João Appleton e o já referido professor Arnaldo Saraiva [>> RTP-Play]. Apreciamos a iniciativa mas sabe-nos a pouco. Num canal de rádio especialmente vocacionado para a Cultura, a celebração de um poeta/escritor, ademais da dimensão de Eugénio de Andrade, requer algo mais do que dar a ouvir poesia ou prosa. Devia realizar-se (e ainda se está a tempo) um ciclo de programas, com o contributo de especialistas eugenianos, para ajudar os ouvintes literariamente menos habilitados a compreenderem os múltiplos aspectos da obra de Eugénio de Andrade, mais aclamado como poeta, mas que também foi um distinto autor de prosa memorialística e ensaística, tradutor, organizador de antologias e correspondente com outros poetas (como Jorge de Sena) e com compositores (como Fernando Lopes-Graça, que musicou vários poemas seus). Em suma, algo que acrescentasse conhecimento crítico na mente do comum ouvinte, o qual, já apetrechado dos convenientes instrumentos de interpretação e análise, pudesse desfrutar da obra eugeniana com outro alcance e proveito intelectual. Refira-se, a talhe de foice, que os ciclos temáticos sobre figuras gradas da Cultura (nacional e estrangeira), movimentos artísticos e outros eventos historicamente relevantes foram uma marca de excelência da Antena 2 até ao fim do consulado de João Pereira Bastos (se bem nos lembramos, o último ciclo realizado foi o dedicado a Bocage). Importa que essa boa tradição, insanamente suspensa pelo consórcio Rui Pêgo/João Almeida, seja retomada. A bem do serviço público de rádio!



Poesia de Eugénio de Andrade (1.ª Parte)



Dita por João Perry* (in LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)




SOBRE O CAMINHO


Nada.

Nem o branco trigo do espaço
nem as agulhas cravadas na pupila dos pássaros
te dirão a palavra.

Não interrogues não perguntes
entre a razão e a turbulência da neve
não há diferenças.

Não colecciones dejectos o teu destino és tu.

Despe-te
não há outro caminho.


[in "Véspera da Água", Porto: Editorial Inova, 1973; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 178]



É todo um mundo confuso


     É todo um mundo confuso, de penetração difícil, tanto mais difícil quanto mais pretendo pô-lo claro, transparente. Não sei se houve primeiro lágrimas ou o som do harmónio. Em todo o caso lembro-me de duas casas — uma na Eira, outra no Adro. Sei que as lágrimas e as estrelas eram na casa da Eira e a música do harmónio na casa do Adro.
     Minha mãe disse-me que eu nasci na casa do Adro, e que só um pouco mais tarde, quando a família a abandonou de todo, nos mudámos para a casa da Eira. Ambas eram casas pequenas, térreas, com duas divisões, mais que suficientes para mãe e filho viverem. Ainda há poucos anos vi essas casitas onde eu e a mãe começámos a ser um do outro, e pareceram-me incrivelmente pequenas, mais pequenas ainda de que certas salas de brinquedos que os meninos ricos têm na cidade.
     Em frente da porta de entrada havia uma arca enorme. Sei que nessas arcas arrumam os pobres tudo o que têm: a roupa do corpo, a roupa da cama, o milho para moer, o pão e a faca embrulhados num pano de linho grosseiro. Lembro-me do cheiro que sai da arca quando se abre — é um cheiro forte, são, de frutos naturais que a terra dá.
     Ora um dia, quando me aproximei da arca — sabe-se lá se para dar a entender a minha mãe que queria pão — estava lá em cima uma coisa que eu nunca tinha visto. Em bicos de pés, deitei-lhe a mão e puxei. Então o que aconteceu foi maravilhoso: de dentro saiu um som bonito, mais bonito ainda do que a voz de minha mãe, que certamente eu já ouvira cantar. E talvez não, talvez eu não tivesse ouvido ainda minha mãe cantar. Minha mãe era nesse tempo uma mulher triste.

[...]

     Senhora Sant'Ana,
     tapai-me cum véu,
     que eu sou pequenino,
     levai-me prò Céu.

[...]


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 37-38]



CANÇÃO BREVE


Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 44-45]



AS PALAVRAS


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


[in "Coração do Dia", Lisboa: Iniciativas Editoriais, 1958; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 88]



TO A GREEN GOD


Trazia consigo a graça
das fontes, quando anoitece.
Era o corpo como um rio
em sereno desafio
com as margens, quando desce.

Andava como quem passa,
sem ter tempo de parar.
Ervas nasciam dos passos,
cresciam troncos dos braços
quando os erguia no ar.

Sorria como quem dança.
E desfolhava ao dançar
o corpo, que lhe tremia
num ritmo que ele sabia
que os deuses devem usar.

E seguia o seu caminho,
porque era um deus que passava.
Alheio a tudo o que via,
enleado na melodia
duma flauta que tocava.


[in "As Mãos e os Frutos", Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 22-23; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 23]



Não canto porque sonho


Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.

Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.

Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.


[in "As Mãos e os Frutos", poema VI, Lisboa: Portugália Editora, 1948 – p. 16-17; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 21]



POEMA À MÃE


No mais fundo de ti
eu sei que te traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
     Era uma vez uma princesa
     no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


[in "Os Amantes sem Dinheiro", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1950; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 47-48]



AS JANELAS


As janelas
Abrem-se sobre as fontes.

Abrem para o esplendor
dos juncos altos e das dunas,

para a extrema embriaguez
de um corpo nu nas areias.

As janelas abrem para a loucura
da sombra de um lírio entre as pernas.

Abrem para a luz extenuada
e masculina das colinas,

para as águas tresmalhadas,
para a língua em chama nas virilhas.

As janelas abrem para a doçura
da morte prometida nas espadas.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 141-142]



EROS


Nunca o verão se demorara
assim nos lábios
e na água
— como podíamos morrer,
tão próximos
e nus e inocentes?


[in "Mar de Setembro", Porto: Imprensa Portuguesa, 1961; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 113]



VAGUÍSSIMO RETRATO


Levar-te à boca,
beber a água
mais funda do teu ser —

se a luz é tanta,
como se pode morrer?


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 145-146]



APENAS UM CORPO


Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.


[in "Até Amanhã", Lisboa: Guimarães Editores, 1956; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 75-76]



LITANIA


Iluminou-se o teu corpo na noite,
o teu corpo, mar azul de ser tão branco,
caminhando ao meu encontro,
trazendo os teus cabelos soltos
como a terra traz as árvores consigo,
cuidadosamente, maternalmente,
como se cada folha
fosse uma criança adormecida,
trazendo os teus olhos povoados
duma multidão sombria, desfolhando
a corola dos beijos que te dou.

Meu amor,
amor duma viagem nocturna
no colo das andorinhas,
iluminou-se o teu corpo na noite.
Iluminou-se com a palavra exacta
que muda os cavalos em rios,
os rios em aves,
as aves na tua boca.

Ó coração interior da madrugada,
ó rumor de água sem contorno,
iluminou-se o teu corpo,
o teu corpo,
irreal como um barco,
perto, distante, perdido,
pelo qual os amantes
se beijam os pés e perdem a cor.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 57-58]



Poesia de Eugénio de Andrade (2.ª Parte)



Dita por João Perry* (in LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry", Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)




DESDE O CHÃO


A pele porosa do silêncio
agora que a noite sangra nos pulsos
traz-me o teu rumor de chuva branca.

O verão anda por aí, o cheiro
violento da beladona cega a terra.
Cega também a boca que procura
trabalhos de amor. Encontra apenas
o nó de sombra das palavras.

Palavras... Onde um só grito
bastaria, há a gordura
das palavras. Palavras...,
quando apetecem claridades súbitas,
o sumo estreme, a ponta extrema
do teu corpo, arco, flecha,
corola de água aberta
ao fogo a prumo do meu corpo.

Do chão ao cume das colinas da terra,
eis as areias. Cala-te.
Deita-te. Morre. Debaixo dos meus flancos.
A terra toda em cima. Agora arde. Agora.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 153-154]



OS JOELHOS


Considerai os joelhos com doçura:
vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 147]



PLENAMENTE


A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

esperar o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 144]



NAS ERVAS


Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar

os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta

aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão,

porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve,

abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho —
a glande leve.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 147-148]



ARTE DE NAVEGAR


Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 149]



A MÃO


A mão
que no fundo da noite chama,

num sopro mais ligeiro
que a pedra do desejo

ou o cheiro
do feno quente ainda
da última gota de água,

a mão
esquece a árvore onde fez ninho

e vai pousar
entre o frio dos joelhos

devagar.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 157]



VEGETAL E SÓ


É outono, desprende-te de mim.

Solta-me os cabelos, potros indomáveis
sem nenhuma melancolia,
sem encontros marcados,
sem cartas a responder.

Deixa-me o braço direito,
o mais ardente dos meus braços,
o mais azul,
o mais feito para voar.

Devolve-me o meu rosto antigo
sem lágrimas sepultadas nos lábios,
sem nenhuma criança acordada
nas pálpebras pesadas

Deixa-me só, vegetal e só,
correndo como um rio de folhas
para a noite onde a mais bela aventura
se escreve exactamente sem nenhuma letra.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 62]



RETRATO COM SOMBRA


Que morte é a sombra deste retrato
onde eu assisto ao dobrar dos dias,
órfão de ti e duma aventura suspensa?

Tu não eras só este perfil.
Tu não eras só este sossego aconchegado
nas mãos como num regaço.
Tu não eras apenas
este horizonte de areias com árvores distantes.

Falta aqui tudo o que amámos juntos,
o teu sorriso com as ruas dentro,
o secreto rumor das tuas veias
abrindo sulcos de luz ou de palavras
no rosto da noite inesperada.
Falta sobretudo à roda dos teus olhos
a pura ressonância da alegria.

Lembro-me de uma noite em que ficámos nus
para embalar um beijo ou uma lágrima,
trémulos, de mãos cortadas, até romper o dia,
largo, intacto,
nas pálpebras molhadas dos lírios.

Tu não eras ainda este perfil
com uma rosa de cinza na mão direita.
Eu andava dentro de ti
como um pequeno rio de sol
dentro da semente,
porque nós — é preciso dizê-lo —
tínhamos nascido um dentro do outro
naquela noite.

Esse é o teu rosto verdadeiro;
aquele rosto que vou juntando ao teu retrato
como quando era pequeno:
recortando aqui,
colando ali,
até que uma fonte rasgue a tua boca
e a noite fique transbordante de água.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 59-60]



ADEUS


Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos
ou, se preferes, a minha boca nos teus olhos,
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve, e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens,
e sobre as nuvens mar perfeito
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 57]



PROCURO-TE


Procuro a ternura súbita,
os olhos como um sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugitiva voz da água entre o azul
de um prado ou de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando se aperta contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.


[in "As Palavras Interditas", Lisboa: Centro Bibliográfico, 1951; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 64-65]



O SILÊNCIO


Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
ainda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas.


[in "Obscuro Domínio", Porto: Editorial Inova, 1971; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 164]



ESCUTO O SILÊNCIO


Escuto o silêncio: em abril
os dias são
frágeis, impacientes e amargos;
os passos
miúdos dos teus dezasseis anos
perdem-se nas ruas, regressam
com restos de sol e chuva
nos sapatos,
invadem o meu domínio de areias
apagadas,
e tudo começa a ser ave
ou lábios, e quer voar.

Um rumor cresce lentamente,
oh, lentamente
não cessa de crescer,
um rumor de pálpebras
ou pétalas
sobe de terraço em terraço,
descobre um dia
de cinzas com vestígios de beijos.

Um só rumor de sangue
jovem:
dezasseis luas altas,
selvagens, inocentes e alegres,
ferozmente enternecidas;
dezasseis potros
brancos na colina sobre as águas.

Como um rio cresce, cresce um rumor;
quero eu dizer,
assim um corpo cresce, assim
as ameixoeiras bravas
do jardim,
assim as mãos,
tão cheias de alegria,
tão cheias de abandono.

Um rumor de sementes,
de cabelos
ou ervas acabadas de cortar,
um irreal amanhecer de galos
cresce contigo,
na minha noite de quatro muros,
no limiar da minha boca,
onde te demoras a dizer-me adeus.

Escuto um rumor: é só silêncio.


[in "Ostinato Rigore", Lisboa: Guimarães Editores, 1964; "Poesia", 2.ª edição, org. Arnaldo Saraiva, Porto: Fundação Eugénio de Andrade, 2005 – p. 127-128]


* João Perry – voz
Direcção literária – Alberto Ferreira
Montagem e encenação sonora – Manuel Jorge Veloso
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em Setembro de 1973
Técnico de som – Moreno Pinto
URL: https://cinemaportuguesmemoriale.pt/Pessoas/id/6044/t/joao-perry
https://www.youtube.com/channel/UC-Ve4aeXNG7E4mNUhl3obSg



Manuscrito autografado do poema "Eros"



Capa do LP "Eugénio de Andrade: Selecção e interpretação de João Perry" (Série "Disco Falado", Guilda da Música/Sassetti, 1973)
Concepção – José Rodrigues

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Outros artigos com poesia de Eugénio de Andrade:
A infância e a música portuguesa
Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade
Celebrando Eugénio de Andrade

Poemas de Eugénio de Andrade e de outros autores em sua homenagem ditos por Luís Gaspar:
https://www.estudioraposa.com/

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