
© Álvaro João, 1973.
Nascida em Beja, a 8 de Março de 1946, Antónia de Jesus Montes Tonicha começou o seu percurso artístico profissional aos 18 anos de idade, em 1964 (nesse ano gravou o EP colectivo "Canções de Natal", em parceria com Saudade dos Santos, Gina Maria e Paulo Jorge, e no ano seguinte o seu primeiro disco em nome individual, o EP de título genérico "Luar para esta Noite"). Com o repertório que foi gravando nos anos seguintes, mormente o de origem popular/folclórica (por exemplo, o ribatejano "Vira dos Malmequeres"), a que a rádio dá bom acolhimento, Tonicha grangeia assinalável popularidade. Mas é a canção vencedora, em 1971, do VIII Grande Prémio TV da Canção Portuguesa, "Menina do Alto da Serra", com poema de José Carlos Ary dos Santos e música de Nuno Nazareth Fernandes, que catapulta a cantora para um patamar artístico mais elevado e lhe confere amplo reconhecimento e respeitabilidade. Ela própria bem o percebeu ao afirmar «pela primeira vez cantei um poema dum autêntico poeta». Foi o início de uma profícua colaboração entre Ary dos Santos e Tonicha que tornou a distinta intérprete uma das que mais letras/poemas gravou do autor de "Estrela da Tarde" (só ultrapassada por Fernando Tordo e por Carlos do Carmo). Nesse acervo poético conta-se "Rosa, Rosae" que Tonicha cantou, com música de João Henrique e orquestração de José Calvário, para o EP "A Rapariga e o Poeta", publicado em 1973 por Arnaldo Trindade, sob o selo Orfeu. É pois com a belíssima, mas muito pouco divulgada, "Rosa, Rosae" que o escrevente destas linhas se associa à celebração do 80.º aniversário de Tonicha, deixando expresso o seu agradecimento à artista pela oportunidade que lhe concedeu de apreciar esta e outras refulgentes pérolas presentes do seu legado discográfico. O poema-canção ora em destaque serve, ao mesmo tempo, para assinalar o Dia Internacional da Mulher, pois as palavras de Ary dos Santos e a mensagem que transmitem em prol da dignificação da condição feminina no âmbito da conjugalidade, na maviosa e expressiva voz de Tonicha, não podiam vir mais a propósito. E não foi certamente fruto do acaso ter Ary escolhido, para o título do seu poema, o nome da flor mais usado como nome próprio de mulher...
Boa escuta, aromatizada com o irresistível odor das Rosas!
Atendendo à obrigação que a Antena 1 tem, mercê do financiamento público, de acarinhar e divulgar o nosso património musical/discográfico mais valioso e perene, esta "Rosa, Rosae" bem poderia figurar na 'playlist', até como forma de fazer alguma justiça a Tonicha que tão maltratada tem sido pela rádio do Estado há um ror de anos...
Rosa, Rosae
Letra: José Carlos Ary dos Santos
Música: João Henrique
Orquestração: José Calvário
Intérprete: Tonicha* [in EP "A Rapariga e o Poeta", Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; LP "Tonicha" (compilação), Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973; CD "Tonicha", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 21, Movieplay, 1994]
É nas tuas mãos de vidro
é no teu olhar aberto
que aparece o espelho certo
conseguido.
Amar de longe é tão perto
Amar de perto é tão vivo
que não pode haver decerto
castigo.
Sim eu vejo em ti a minha força
tu vês em mim a tua rosa
formosa.
Sou a flor do espanto e da ternura
não serei casta nem pura
sou rosa.
Mas rosa que vive e dança
amada mas não segura
rosa que nunca se cansa
dos ventos da desventura
rosa, rosae
da ternura.
É nas tuas mãos vazias
que eu deponho a vida inteira
com espinhos todos os dias
roseira.
Roseira mas não lareira
do fogo brando do lar
apenas rosa fronteira
do mar.
Sim eu vejo em ti o meu perfume
a lava densa do ciúme
demente.
Sim eu sou a rosa sem queixume
flor vermelha do meu lume
ardente.
Demente mas sem loucura
formosa mas sem vaidade
apenas rosa brancura
apenas rosa vontade
rosa, rosae
liberdade!
[vocalizos / instrumental]
* Tonicha – voz
Orquestra dirigida por José Calvário
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Tonicha
https://tonicha-clube-de-fas.blogspot.com/
https://www.youtube.com/@tonichaclubedefas2179/videos
https://music.youtube.com/channel/UC6e6qDCt5CCGFgwf2fxKwnA

Capa do EP "A Rapariga e o Poeta", de Tonicha (Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973)
Fotografia – Álvaro João

Capa da compilação em LP "Tonicha" (Orfeu/Arnaldo Trindade, 1973)
Fotografia – Álvaro João

Capa da compilação em CD "Tonicha" (Col. O Melhor dos Melhores, vol. 21, Movieplay, 1994).
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Outros artigos de homenagem à mulher:
Celebrando Vinicius de Moraes
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
"O Fio de Ariadne": em demanda de algumas das mais talentosas artistas do Ocidente
João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"
Em memória de Tereza Tarouca (1942-2019)
Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)
Teresa Silva Carvalho: "Mulher da Erva"
João Lóio com Regina Castro: "Uma Criada para Todo o Serviço"
Maria Teresa Horta: "Mulher-Poetisa"
Elisa Lisboa: "Mulher-Mágoa" (Ary dos Santos)
Margarida Bessa: "Fala da Mulher Sozinha"
Virtuosas: as Mulheres na História da Música
Herberto Helder: "Fonte" (II), por Luísa Cruz
Eugénio de Andrade: "As Mães"
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Outro artigo com repertório interpretado por Tonicha:
A infância e a música portuguesa
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Outros artigos com poesia da autoria ou na voz de Ary dos Santos:
Amália: dez anos de saudade
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Carlos Paredes
Elisa Lisboa: "Mulher-Mágoa" (Ary dos Santos)
Poesia trovadoresca adaptada por Natália Correia
Carlos do Carmo: "Fado Varina" (Ary dos Santos)
Ary dos Santos: "As Portas Que Abril Abriu"
Simone de Oliveira: "O País (do Eça de Queiroz)" (Ary dos Santos)







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