02 julho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II)

Na edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1969, os assuntos de índole política e militar continuaram a preponderar, de forma esmagadora e sufocante.
De eventos culturais, apenas três mereceram menção – festival de Woodstock, programa televisivo "Zip-Zip" e a fundação dos Monty Python –, ainda assim sem o desejável desenvolvimento e conveniente ilustração sonora. Por exemplo: teria sido de bom tom que tivessem passado a "Pedra Filosofal" [>> YouTube], que Manuel Freire estreou precisamente no "Zip-Zip", e que ficou como um dos mais superlativos espécimes do nosso património poético-musical; já quanto ao festival de Woodstock, ficou a faltar um ou dois dos temas aí gravados mais emblemáticos do "flower power" (as flores da paz e do amor contra a Guerra do Vietname).

Aqui se referenciam, para que conste, alguns eventos importantes do ano de 1969 que foram (incompreensivelmente) omitidos:

1. Falecimento do escritor Alves Redol; paladino do neo-realismo e um dos nomes maiores dessa corrente literária, é autor dos romances "Gaibéus", "Avieiros", "Fanga", "Porto Manso", "Horizonte Cerrado", "A Barca dos Sete Lemes", "Uma Fenda na Muralha" e "Barranco de Cegos", entre outros, sem esquecer a peça de teatro "A Forja", uma das mais admiráveis abordagens dramáticas à incontornável problemática da morte;
2. Falecimento do escritor José Régio; figura cimeira da "Presença", distinguiu-se como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta; várias das suas obras, entre as quais a peça "Benilde ou a Virgem Mãe", foram adaptadas ao cinema por Manoel de Oliveira; haverá português (não troglodita) que nunca tenha ouvido, por João Villaret, o celebérrimo "Cântico Negro"? [>> YouTube];
3. Falecimento do fadista Carlos Ramos; começou como guitarrista acompanhador (nomeadamente de Ercília Costa, numa digressão pelos Estados Unidos da América, em 1939), afirmando-se depois como cantor, acompanhando-se a si próprio à guitarra; a ele se devem algumas das mais brilhantes pérolas do fado-canção, como o "Fado das Queixas" (letra de Frederico de Brito e música de Carlos Rocha) [>> YouTube];
4. Falecimento do regente de orquestra suíço Ernest Ansermet; maestro dos "Ballets Russes", de Diaghilev, a partir de 1915, fundou, três anos mais tarde, em Genebra, a (que se tornaria famosa) Orchestre de la Suisse Romande, à frente da qual se manteve até 1966; é o responsável por muitas gravações de referência, sobretudo de Stravinski, Debussy e Ravel;
5. Falecimento da actriz norte-americana Judy Garland; alcançou a imortalidade ao encarnar a pequena Dorothy no filme "O Feiticeiro de Oz" (1939), de Victor Fleming, onde canta "Over the Rainbow" [>> YouTube];
6. Atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett; expoente máximo do teatro do absurdo, "En Entendant Godot" ("À Espera de Godot"), escrita em 1948, publicada em 1952 e levada à cena, pela primeira vez, a 4 de Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris, é a sua peça mais emblemática e representada;
7. Edição do álbum "Contos Velhos, Rumos Novos", de José Afonso; é o disco em que o cantautor se faz acompanhar, pela primeira vez, por outros instrumentos além da viola – trompa, harmónica, cavaquinho, marimba, bombo – sem esquecer uma voz feminina (Teresa Paula Brito) que participa no tema "Vai, Maria, Vai" [>> YouTube]; deste belíssimo álbum, são de realçar: "Bailia" (sobre poema do trovador medieval Airas Nunes) [>> YouTube]; "Qualquer Dia" (poema de Fernando Miguel Bernardes) [>> YouTube], "Era de Noite e Levaram" (poema de Luís de Andrade Pignatelli) [>> YouTube] e "Já o Tempo se Habitua" (poema e música de José Afonso) [>> YouTube];
8. Edição do álbum "O Canto e as Armas", de Adriano Correia de Oliveira; baseado em poemas do livro homónimo de Manuel Alegre, que então se encontrava no exílio, o disco inclui espécimes de tocante beleza, tais como "Canto da Nossa Tristeza" [>> YouTube], "Trova do Vento Que Passa n.º 2" [>> YouTube] e "As Mãos" [>> YouTube];
9. Edição do álbum "Flores para Coimbra", de António Bernardino; constituído maioritariamente por poemas de Manuel Alegre, musicados por António Portugal e Francisco Filipe Martins, este é um disco referencial na história da canção de Coimbra; "E Alegre se Fez Triste", "Canção do Exílio", "Fado para um Amor Ausente", "Guitarras do Meu País", "Canto do Silêncio" e "Cantiga para os Que Partem" (sobre poema da galega Rosalía de Castro, que Adriano Correia de Oliveira gravaria no ano seguinte, com música de José Niza, sob o título "Cantar de Emigração") [>> YouTube] contam-se entre a dúzia de temas do alinhamento;
10. Edição do álbum "Canções do Mar e da Vida", de Luiz Goes; disco fundamental para a afirmação da balada de Coimbra, nele constam "Canção do Regresso", "Cântico de um Pescador", "Boneca de Trapo", "Cantiga de um Vagabundo" e esse verdadeiro hino de apelo à solidariedade e à fraternidade que é "Homem Só, Meu Irmão" [>> YouTube];
11. Edição do álbum "Epopeia", da Filarmónica Fraude; do mítico e meteórico grupo de António Avelar de Pinho (textos) e Luís Linhares (músicas), o conceptual "Epopeia", centrado na época dos Descobrimentos, é um dos discos mais singulares, arrojados e ambiciosos que se fizeram em Portugal nos anos 60; pode mesmo dizer-se, sem exagero, que foi precursor desse autêntico colosso da música portuguesa que é "Por Este Rio Acima" (1982), de Fausto Bordalo Dias; destaque para os temas "Na Ilha Virgem", "Só Marinheiros e Escravos se Afundam com a Nau" [>> YouTube], "Homenagem Póstuma", "Sebastião Morreu!" e "Os Bem-Aventurados";
12. Fecundação 'in vitro', pela primeira vez, de um óvulo humano, pelo fisiologista britânico Robert Geoffrey Edwards; primeiro e fundamental passo para a ciência no capítulo da reprodução humana, que possibilitou o nascimento do primeiro bebé-proveta, Louise Brown, em 1978; Robert Geoffrey Edwards será galardoado com o Prémio Nobel da Medicina em 2010.

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.
Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.


Texto relacionado:
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor

25 junho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor

Graças à gravação pré-programada, posso dar-me ao luxo de ouvir os programas de rádio e televisão do meu interesse nos horários que mais me convêm. As minhas manhãs se sábado são por regra consagradas à audição de rádio, começando, cerca das 09:00, com o imperdível "Lugar ao Sul", seguindo-se "A Vida dos Sons", magazine histórico realizado por Ana Aranha e Iolanda Ferreira com base no arquivo sonoro da RDP (escrevo RDP porque faço questão de não deixar cair esta prestigiada marca no âmbito do casamento forçado e desigual com a RTP). Tenho acompanhado "A Vida dos Sons" desde o início (se bem me lembro, a primeira edição foi consagrada aos alvores da gravação sonora com a invenção do fonógrafo por Thomas Edison, em 1877) e com muito interesse e proveito, devo acrescentar, em reconhecimento do trabalho realizado pelas autoras. No entanto, a edição de sábado passado (respeitante a 1968) e as seis ou sete precedentes tiveram o condão de me deixar com a sensação de alguma monotonia e enfado. E porquê? Porque os acontecimentos de natureza política e militar passaram a preencher, quase em exclusivo, cada edição, ficando a componente cultural reduzida a praticamente nada. Não acredito que tal esteja a acontecer devido a uma hipotética míngua de actividade cultural na década de 60. Em todos os anos desse decénio houve certamente muitos eventos culturais dignos de referência: lançamento de livros e discos, estreias de filmes e peças de teatro, exposições, actuação em Portugal de nomes míticos da música (erudita e popular), falecimento de figuras importantes das artes, letras e ciências, etc. A menos que tenham sido entretanto destruídos, existem no arquivo da RDP muitos registos de peças de teatro radiofónico, de obras de ficção adaptadas para rádio (que eram transmitidas em episódios) e de poesia, sem esquecer as centenas de entrevistas realizadas por Igrejas Caeiro e outros. Seria de todo o interesse que esses registos fossem resgatados, em tributo a tantos homens e mulheres que marcaram o seu tempo e que, em muitos casos, deixaram obra relevante para a posteridade. E nem sequer se pede que as gravações sejam exactamente coetâneas ao evento a assinalar. Um exemplo: em 1968 (apenas para citar o ano respeitante à edição de sábado passado), saiu o romance "O Delfim", de José Cardoso Pires. Seria perfeitamente lógico que se resgatasse o excerto de uma entrevista (ainda que gravada muito mais tarde) em que o escritor tivesse falado do livro e, em complemento, caso exista, uma passagem da adaptação radiofónica da obra, mesmo que tendo sido feita nos anos 80 ou 90. E assim ficava devidamente assinalada a edição de um dos mais notáveis frescos literários do Portugal marialva que esteava o salazarismo. Outro exemplo, também relativo a 1968: a edição do belíssimo álbum "Cantares do Andarilho", de José Afonso. Para a assinalar, bastaria transmitir o excerto de uma entrevista feita ao cantautor em que ele se tivesse referido ao disco, seguida de uma das respectivas canções (talvez "Vejam Bem" [>> YouTube], visto ter-se tornado uma espécie de hino de resistência à ditadura).
As autoras do programa poderão alegar que nos 50 minutos que têm à sua disposição não dá para meter muito mais do que a vertente política e militar. Nesse caso, que se faça duas edições para cada ano. A exemplo, aliás, do que chegou a ser feito – e bem – no ano de 1961 e também em determinados anos das décadas de 30, 40 e 50. É que havendo um fabuloso acervo de fonogramas de cariz cultural no arquivo da RDP, penso que constitui uma falha grave eles não serem contemplados num programa que visa – presumivelmente – dar uma panorâmica abrangente do que aconteceu no país e no mundo desde que há registo áudio e que, por acaso, se chama "A Vida dos Sons". Afinal de contas, tais sons também têm vida: bem mais, aliás, do que boa parte dos discursos e declarações de políticos e chefes militares... Entre um inócuo discurso de Américo Thomaz ou um qualquer apontamento de reportagem laudatório de Oliveira Salazar ou apologético da Guerra Colonial e uma peça de Bernardo Santareno, uma adaptação de um conto de José Rodrigues Miguéis, ou um poema dito por João Villaret, Mário Viegas ou Carmen Dolores, eu não tenho a mais pequena dúvida acerca de quais mais satisfação e enriquecimento espiritual me proporcionam.
Em suma: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.

15 junho 2012

Em memória de Raul Nery (1921-2012)



Raul Nery, de seu nome completo Raul Filipe Nery, nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Engrácia), a 10 de Janeiro de 1921. Revelou, desde tenra idade, vocação para a música, dedicando-se primeiramente ao bandolim. Por influência de um tio, aprende a tocar guitarra portuguesa, recebendo lições do pai de Salvador Freire. Com apenas nove anos de idade, começa a tocar publicamente em diversos recintos de fado amador e, dois anos depois, recebe o epíteto de "o jovem e prodigioso guitarrista", no programa que anunciava um espectáculo misto, em que acompanharia, ao lado do violista Alfredo Gomes de Azevedo, a fadista Ercília Costa, a quem o povo chamava "a Santa do Fado". Em 1938, com 17 anos de idade, estreia-se no "Retiro da Severa", ao lado de músicos consagrados como Armando Freire, mais conhecido como Armandinho, Abel Negrão e Santos Moreira. Armandinho foi, de facto, a sua grande referência na arte de tocar a guitarra portuguesa, conforme declarou numa entrevista: «Eu aprendi muito com o Armandinho. Ele ia criando umas melodias, e eu fixava-as de cabeça com muita facilidade. Ia para casa e no outro dia continuávamos a trabalhar na melodia. Foi quem mais me influenciou e ganhei algumas maneiras como ele tocava».
Trabalhou no teatro de revista acompanhando diversos artistas, entre os quais Estêvão Amarante, Berta Cardoso e Hermínia Silva. Esteve também ligado a várias casas de fado, como o "Café Luso", a "Adega Machado" e a "Adega Mesquita". Nesta última, acompanhou Fernando Farinha, com quem estabeleceu «fortes laços de amizade, a ponto de o convidar para padrinho dos meus filhos».
Depois da II Guerra Mundial, foi o acompanhador, com Santos Moreira (viola), de Amália Rodrigues em muitos espectáculos no país e no estrangeiro, designadamente os realizados ao âmbito do Plano Marshall. Entre vários episódios marcantes, o músico recordou a ovação que receberam de pé no Teatro Argentina, em Roma, onde actuaram «integrados num elenco predominantemente da música clássica».
Nunca descurando os estudos académicos, Raul Nery veio a concluir o curso de agente técnico de engenharia já no auge da sua carreira de guitarrista, integrando, em 1954, os quadros da companhia petrolífera Sacor. Acabou, naturalmente, por encontrar algumas dificuldades de conciliação de ambas as actividades, sobretudo aquando das deslocações ao estrangeiro, sendo por vezes forçado a abdicar do acompanhamento dos artistas, nomeadamente de Amália Rodrigues.
Sucedendo a Fernando de Freitas, foi, durante duas décadas, o guitarrista exclusivo de Maria Teresa de Noronha, emparceirando com o violista Joaquim do Vale (Covinhas), no programa semanal que a fadista manteve até 1961 na Emissora Nacional, em actuações na televisão, na gravação de discos, em espectáculos no estrangeiro e em festas particulares. «Foi uma das mais extraordinárias artistas de fado que conheci e tinha um estilo incomparável.», afirmou o músico.
Em 1958, Raul Nery actuou em Londres, como solista, em gravações com a orquestra de George Melachrino, com a qual gravou os temas "Uma Casa Portuguesa", "Canção do Mar", "Mãe Preta", "Coimbra", "Um Pequeno Café", "Fado Obrigado", "Rapsódia Portuguesa", "Variações em Ré". Foi também convidado pela BBC para uma actuação no programa televisivo "In Town Tonight", merecendo da imprensa inglesa o epíteto "the musical memory man".
A convite da Emissora Nacional, em 1959, fundou com José Fontes Rocha (segunda guitarra portuguesa), Júlio Gomes (viola) e Joel Pina (viola baixo) o Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Além do programa quinzenal que durante uma década manteve na rádio pública, o quarteto foi o suporte instrumental de muitos fadistas, quer em espectáculos ao vivo, quer em gravações discográficas. «Todos os grandes, de Amália, Maria Teresa de Noronha, Hermínia, a Tony de Matos, Max, Fernanda Maria, gravaram connosco», recorda Joel Pina. A fama que o conjunto granjeou valeu-lhe um contrato com a orquestra inglesa de George Melachrino, para a gravação do disco "Lisbon at Twilight", que obteria enorme sucesso.
Raul Nery, acabaria por abandonar relativamente cedo, nos inícios dos anos 80, a actividade que o consagrou como um dos maiores executantes de guitarra portuguesa e uma personalidade incontornável da História do Fado.
Entre as distinções que recebeu em vida, conta-se o prémio de consagração de carreira da Fundação Amália Rodrigues.
Em declarações ao jornal "Público", Ricardo Parreira, um dos mais talentosos guitarristas da nova geração, fala assim do grande músico: «Raul Nery foi o guitarrista que mais desenvolveu o acompanhamento à voz. Tinha como característica essencial o bom gosto. Em todos os discos dele que eu tenho, o bom gosto está presente. Sempre foi uma referência para mim. Desde pequeno, o meu pai [António Parreira] punha-me a ouvir Raul Nery para eu aprender.» [Fontes principais: sites do "Museu do Fado" e do "Público"]


Um dos espécimes em que está bem patente a arte do exímio guitarrista que foi Raul Nery é o "Fado Anadia", de Maria Teresa de Noronha, que aqui se deixa, em jeito de tributo à sua memória.



Fado Anadia



Letra: Marques dos Santos
Música: José Maria dos Cavalinhos (1874, dedicada ao 4.º Conde da Anadia, D. José Maria de Sá Pereira e Menezes Pais do Amaral de Almeida e Vasconcelos Quifel Barberino, amante de fado, falecido a 10 de Julho de 1870, com 31 anos de idade)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Eu sei que no céu profundo
Nunca brilhou minha estrela;
Sinto que a vida do mundo     | bis
Jamais poderei vivê-la.          |

[instrumental]

Penso que a vida que vivo
Não passa duma ilusão,
Pois não encontro o motivo   | bis
Do bater do coração.            |

[instrumental]

Creio viver sem ter vida,
Viver vida sem alento
Tal como folha caída              | bis
Andando ao sabor do vento.   |

[instrumental]

Não quero sofrer a sorte
Nesta má sina contida;
Prefiro pedir à morte           | bis
Que me leve à outra vida.   |

[instrumental]


* Maria Teresa de Noronha – voz
Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo

Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
URL: http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=362
http://www.portaldofado.net/content/view/1647/280/
http://www.portaldofado.net/content/view/1648/280/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Nery
http://www.macua.org/biografias/raulfilipenery.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/70294.html
http://ofadodelisboa.blogspot.com/2007/02/o-conjunto-de-guitarras-de-ral-nery.html
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=2145

15 maio 2012

Em memória de Bernardo Sassetti (1970-2012)



Pianista e compositor, Bernardo Sassetti nasceu em Lisboa, a 24 de Junho de 1970. Iniciou os estudos clássicos de piano, aos nove anos de idade, com a professora Maria Fernanda Costa e, mais tarde, com o professor António Menéres Barbosa, tendo frequentado também a Academia dos Amadores de Música. Fascinado com a música de Bill Evans, derivou para o jazz, estudando com Zé Eduardo, Horace Parlan e Sir Roland Hanna.
Iniciou a sua carreira profissional em 1987, afirmando-se desde essa altura como uma peça fundamental em várias formações nacionais. A maturidade e a qualidade do seu jazz, evidenciadas no quarteto de Carlos Martins e no Moreiras Jazztet com apenas dezoito anos de idade, não deixariam de crescer, sedimentadas numa destreza discursiva invulgar e numa invenção harmónica notável. Para além das inúmeras digressões realizadas um pouco por todo o mundo com pequenas formações por si lideradas ou em contextos mais alargados, como a série de concertos realizados na China, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Hong Kong, Bernando Sassetti trabalhou ao longo dos anos com músicos de excepção em gravações e apresentações pontuais, tendo inscritas no seu currículo colaborações com Andy Sheppard, Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Paquito D'Rivera, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson, Charles McPherson, Steve Nelson, ou integrado na United Nations Orchestra e no quinteto do trompetista britânico Guy Barker – com o qual gravou o CD "Into The Blue" (Verve), nomeado para os Mercury Awards '95 - Ten albums of the year.
Os seus primeiros registos discográficos em nome próprio, "Salsetti" (1994, em colaboração com Paquito D'Rivera) e "Mundos" (1997), bem como as suas suites "Ecos de África", "Sons do Brasil" e "Suite Ibérica", evidenciam já uma engenhosa técnica de composição marcada por um caloroso rigor harmónico enquadrado numa matriz rítmica que privilegia a música afro-latina, sem faltar à originalidade nem ceder à trivialidade.
Em 1997, participou no álbum "What Love Is", de Guy Barker, acompanhado pela London Philarmonic Orchestra, cujo convidado especial foi o cantor Sting. Foi este o registo que esteve na origem do convite que o realizador britânico Anthony Minghella, por intermédio da Paramount Pictures, veio a fazer a Bernardo Sassetti para participar na banda sonora do filme "O Talentoso Mr. Ripley" (1999), para o qual gravou três temas: "My Funny Valentine", com Matt Damon; "Tu Vuo' Fa L'Americano" com Matt Damon, Jude Law e o cantor italiano Fiorello; e "You Don't Know What Love Is" com o cantor escocês John Martyn. A composição de música para cinema de ficção e documental viria a tornar-se uma das principais vertentes da actividade de Bernardo Sassetti, sendo de mencionar: "Facas e Anjos" (2000), de Eduardo Guedes; "Maria do Mar", de José Leitão Barros, sob encomenda da Cinemateca Portuguesa, em 2000; "As Terças da Bailarina Gorda" (2000), curta-metragem de Jeanne Waltz; "Aniversário" (2000), telefilme de Mário Barroso; "O Segredo" (2000), de Leandro Ferreira; "Quaresma" (2003), de José Álvaro Morais; "Noite em Branco" (2003), documentário de Olivier Blanc; "A Costa dos Murmúrios" (2004), de Margarida Cardoso; e "Alice" (2005), de Marco Martins. Participou ainda, como solista, no filme "Pax" (1994), de Eduardo Guedes, e na curta-metragem "Bloodcount" (1999), de Bernard McLoughlan.
O CD "Nocturno", gravado na casa de Maria João Pires, em Belgais, e editado pela editora portuguesa Clean Feed, em 2002, viria a ser distinguido com o Prémio Carlos Paredes, instituído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Em 2003, Bernardo Sassetti associou-se a Mário Laginha para a gravação de um disco onde pudessem dar expressão às suas afinidades electivas, aprofundando a experiência que haviam tido em 1999 no festival "Jazz em Agosto", onde tocaram juntos a convite da Fundação Calouste Gulbenkian. A edição recebeu o título simples e inequívoco de "Mário Laginha & Bernardo Sassetti". Ainda com Mário Laginha, gravou várias versões instrumentais de canções de José Afonso para o segundo CD da colectânea "Grândolas" (2004), comemorativa do 30.º aniversário do 25 de Abril. Em Outubro de 2006, realizou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com Mário Laginha e Pedro Burmester, o concerto "3 Pianos" que seria editado em DVD, no ano seguinte. Da discografia de Bernardo Sassetti, merecem ainda destaque os álbuns "Indigo" (2003), "Livre" (2004), "Ascent" (2005), amplamente aclamados pela crítica especializada.
Em parceria com Carlos do Carmo, gravou em 2010, o CD "Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti" em que, além de assegurar a execução pianística e assinar os arranjos de todos os temas, compôs a música de uma das duas canções originais – "Retrato" (com letra de Mário Cláudio).
Na extensa lista de colaborações com outros intérpretes, como acompanhador e/ou como compositor/arranjador, contam-se os seguintes discos: "Impressões" (1994) e "Olhar" (1999), de Carlos Barretto; "Cumplicidades" (1994), de Luís Represas; "Into The Blue" (1994), "What Love Is" (1998) e "Timeswing" (2000), de Guy Barker; "Luandando" (1995), de Moreiras Jazztet; "Tom Maior: Homenagem a Tom Jobim" (1995), de Naná Sousa Dias; "Dundunbanza!" (1995) e "Tibiri Tabara" (1998), do grupo cubano Sierra Maestra; "Passagem" (1996), "Sempre" (1999), "Do Outro Lado" (2006) e "Água" (2008), de Carlos Martins; "Desafinados" (1996), de Tetvocal; "Carlos do Carmo ao Vivo: Coliseu dos Recreios Lisboa: 40 Anos de Carreira" (2004); "Jamaica By Night" (2010), de Andy Hamilton; e "Mútuo Consentimento" (2011), de Sérgio Godinho. [Fontes principais: "Infopédia" e "JazzPortugal"]


Discografia:

- Ao Vivo no Festival de Jazz de Guimarães (CD, Groove/Movieplay, 1994), Conrad Herwig e Trio de Bernardo Sassetti (com Bernardo Moreira e André Sousa Machado)
- Salsetti (CD, Groove/Movieplay, 1994), com Paquito D'Rivera
- Mundos (CD, Emarcy/Polygram, 1997)
- Nocturno (CD, Clean Feed, 2002), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Mário Laginha e Bernardo Sassetti (CD, ONC, 2003)
- Grândolas (CD 2, Guilda da Música/CNM, 2004), com Mário Laginha
- Indigo (CD, Clean Feed, 2004)
- Livre (CD, Clean Feed, 2004)
- Ascent (CD, Clean Feed, 2005), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Alice (CD, Trem Azul, 2006), banda sonora do filme de Marco Martins
- Unreal: Sidewalk Cartoon (CD, Trem Azul, 2006)
- Dúvida (1964) (CD, Trem Azul, 2007), música para a peça de teatro "Doubt", de John Patrick Shanley, levada à cena no Teatro Maria Matos, com encenação de Ana Luísa Guimarães e Diogo Infante
- 3 Pianos (DVD, Incubadora d'Artes, 2007), com Mário Laginha e Pedro Burmester
- Um Amor de Perdição (CD, Trem Azul, 2009), banda sonora do filme de Mário Barroso
- Palace Ghosts and Drunken Hymns (CD, Clean Feed, 2009), com o Will Holshouser Trio (David Phillips, Ron Horton e Will Holshouser)
- Second Life (CD, Utopia Música, 2009), banda sonora do filme de Alexandre Valente e Miguel Gaudêncio
- Trago Fado nos Sentidos: ao vivo na Casa da Música (CD, Casa da Música, 2009), com Mário Laginha
- Motion (CD, Clean Feed, 2010), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti (CD, Universal, 2010)


Retrato



Letra: Mário Cláudio
Música: Bernardo Sassetti
Intérpretes: Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti* (in CD "Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti", Universal, 2010)




[instrumental]

Quando a tarde passa, abre-se outra porta.
Se o morcego voa, a estrela desponta,
Ser de hoje ou de sempre, nada disso importa,
Todo o tempo corre só por nossa conta.

Sei de praias brancas, de velas queimadas,
Se perdi meus passos em longa carreira,
Tive pais e filhos, tive namoradas,
E encontrei-me logo aqui mesmo à beira.

Jogo minhas cartas na mesa da vida,
Recolho moedas e penas também,
Alma incandescente, de frio transida,
Quem me dá certezas que o livro não tem?

O vinho bebido ao sangue juntei,
E os frutos da terra descobri em mim,
Que ninguém me diga que morreu sem lei,
Que ninguém me diga que morreu assim!


* Carlos do Carmo – voz
Bernardo Sassetti – piano
Músico convidado:
Filipe Quaresma – violoncelo

Produção musical – Carlos do Carmo
Arranjos musicais – Bernardo Sassetti
Produção executiva – Tiago Palma / Universal Music Portugal
Gravado por Tó Pinheiro da Silva e João Bessa, assistido por Manuel Reis, nos Boom Studios, Vila Nova de Gaia, excepto violoncelo, gravado por Tó Pinheiro da Silva e João Szasz, nos Estúdios Vale de Lobos, Almargem do Bispo - Sintra, entre Julho e Outubro de 2010
Misturado e masterizado por Tó Pinheiro da Silva
URL: http://www.youtube.com/user/bernardosassetti
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Sassetti
http://www.infopedia.pt/$bernardo-sassetti
http://www.jazzportugal.ua.pt/web/ver_musicos.asp?id=6
http://www.cleanfeed-records.com/artista.asp?intID=74
http://www.pedromendes.com/onc/musicos/sassetti/index.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/bernardo_sassetti
http://cotonete.iol.pt/artistas/musicas.aspx?id=7929
http://www.last.fm/pt/music/Bernardo+Sassetti

09 abril 2012

Adriano Correia de Oliveira: "As Balas" (Manuel da Fonseca)



No dia em que Adriano Correia de Oliveira completaria 70 anos de idade, se não tivesse partido antes de tempo, o blogue "A Nossa Rádio" presta tributo à memória do grande cantor e compositor, deixando aqui uma das suas mais magistrais (e menos divulgadas) criações: "As Balas", sobre um belo poema de Manuel da Fonseca. Um tocante libelo contra a pulsão de violência e morte de que – infelizmente – a Humanidade não conseguiu ainda libertar-se!



As Balas



Poema: Manuel da Fonseca
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP "Que Nunca Mais", Orfeu, 1975, reed. Movieplay, 1997; "Obra Completa": CD "Que Nunca Mais: Adriano Canta Manuel da Fonseca", Movieplay, 1994, 2007)




[instrumental]

Dá o Outono as uvas e o vinho
Dos olivais azeite nos é dado
Dá a cama e a mesa o verde pinho
As balas deram sangue derramado

Dá a chuva o Inverno criador
Às sementes dá sulcos o arado
No lar a lenha em chama dá calor
As balas deram sangue derramado

Dá a Primavera o campo colorido
Glória e coroa do mundo renovado
Aos corações dá o amor renascido
As balas deram sangue derramado

[instrumental]

Dá o sol as searas pelo Verão
O fermento no trigo amassado
No esbraseado forno cresce o pão
As balas deram sangue derramado

Dá cada dia ao homem novo alento
De conquistar o bem que lhe é negado
Dá a conquista um puro sentimento
As balas deram sangue derramado

De meditar, concluir, ir e fazer
Dá sobre o mundo o homem atirado
À paz de um mundo novo de viver
As balas deram sangue derramado

[instrumental]

Dá a certeza, o querer e o construir
O que tanto nos negou o ódio armado
Que a vida construir é destruir
Balas que deram sangue derramado

Essas balas deram sangue derramado
Só roubo e fome e o sangue derramado
Só ruína e peste e o sangue derramado
Só crime e morte e o sangue derramado

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Adriano Correia de Oliveira – voz
Fausto Bordalo Dias – guitarra acústica, percussão, kazu, coros
Júlio Pereira – guitarra solo, baixo, piano, órgão, bandolim, buzuki, cadeira, coros
Zau e Pantera – percussões
Vitorino Salomé – acordeão
José Luís Simões – trombones de varas
Carlos Paredes – guitarra portuguesa

Arranjos e direcção musical – Fausto Bordalo Dias
Gravado nos Estúdios Rádio Triunfo, Lisboa
Técnico de som – José Manuel Fortes
Biografia e discografia em: "A Nossa Rádio"
URL: http://www.adrianocorreiadeoliveira.com/
http://adriano.esenviseu.net/index.asp
http://myspace.com/adrianocorreiadeoliveira
http://pt.wikipedia.org/wiki/Adriano_Correia_de_Oliveira
http://www.infopedia.pt/$adriano-correia-de-oliveira
http://www.avintes.net/adriano.htm
http://www.artistas-espectaculos.com/discos/pt/adriano+correia+de+oliveira.htm
http://guedelhudos.blogspot.com/search/label/Adriano%20Correia%20de%20Oliveira
http://www.portaldofado.net/content/view/279/280/
http://fado.com/index.php?option=com_content&task=view&id=59&Itemid=67
http://deltagata.no.sapo.pt/adriano.html
http://adrianocorreiadeoliveira.blog.simplesnet.pt/
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/adriano_correia_de_oliveira
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=44
http://www.last.fm/pt/music/Adriano+Correia+de+Oliveira

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Outros artigos com canções interpretadas por Adriano Correia de Oliveira:
Adriano Correia de Oliveira: um grande cantor silenciado na rádio pública
E Alegre se Fez Triste
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira
Em memória de Adriano

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2011

(em preparação)

21 março 2012

Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas

Quando a UNESCO resolveu instituir o 21 de Março como Dia Mundial da Poesia terá sido com o propósito de a confinar a esse dia, visto não ser coisa prestável para os outros 364/365 dias do ano? Não. Bem pelo contrário!
O Dia Mundial da Poesia existe justamente para lembrar e sensibilizar as pessoas e as instituições da importância de que se reveste para o ser humano cultivar a poesia em qualquer dia e momento. Nesta ordem de ideias, não posso deixar de voltar a apontar o dedo à Antena 2 (e, já agora, também às Antenas 1 e 3) pela gritante ausência de um apontamento diário de poesia, desde que "Os Sons Férteis" chegaram ao fim. Isso aconteceu a 31 de Dezembro de 2008, já lá vão, portanto, mais de três anos, o que é bem eloquente da insensibilidade cultural de Rui Pêgo e seus adjuntos. Havendo no arquivo da RDP um fabuloso acervo de poesia dita, tal lacuna cultural no serviço público de rádio constitui, para todos os efeitos, um inominável crime de lesa-cultura.
Uma das vozes que disse poesia aos microfones da rádio portuguesa, primeiramente por mão de Júlio Isidro, foi a de Mário Viegas, e é dele que aqui se deixa um dos mais admiráveis exemplos da arte de bem dizer as palavras dos poetas: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena. Pelo tocante humanismo e apelo à tolerância de que está impregnado, este poema devia ser de audição obrigatória por toda a gente, em especial pelos mais jovens.



Francisco Goya, "Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808", 1814, óleo sobre tela, 268 × 347 cm, Museu do Prado, Madrid


CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA



Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1963; "Poesia II", org. Mécia de Sena, col. Obras de Jorge de Sena, Lisboa: Moraes Editores, 1978; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1988 – p. 121, 123-124; "Antologia Poética", Porto: Edições Asa, 1999 – p. 108-111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos para Dizer", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos para Dizer", Público, 2006)
Música de Luís Cília


Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.


Lisboa, 25/06/1959


* Mário Viegas – voz
Luís Cília – guitarra
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2008
URL: http://www.companhiateatraldochiado.pt/marioviegas.php
http://pt.wikipedia.org/wiki/M%C3%A1rio_Viegas
http://www.infopedia.pt/$mario-viegas
http://deltacat.blogs.sapo.pt/arquivo/1066153.html
http://myspace.com/marioviegas

29 fevereiro 2012

Um testemunho sobre António Luís Marinho

Por: Miguel Sousa Tavares (jornalista e escritor)



«A minha consciência obriga-me a tornar público um episódio que sempre mantive privado, porque não me ocorreu fazer diferente. Em 2004, Santana Lopes era primeiro-ministro e eu mantinha, há uns anos, uma crónica de opinião semanal na Antena 1, cujo director se chamava Luís Marinho. Desde a tomada de posse que fui crítico contundente do Governo Santana Lopes, até que um dia o Luís Marinho me chamou e começou com uma conversa circular acabando por confessar que achava que a minha crónica devia ser substituída por um outro tipo de intervenção qualquer, talvez enquadrada com outros, e na qual ele iria meditar. Disse-lhe que não valia a pena quebrar a cabeça a pensar na alternativa: eu conhecia as regras do jogo. E ali mesmo me despedi, sem mais nem um tostão, deixando-o, ao que me pareceu, visivelmente aliviado. Hoje, depois de ter lido o depoimento do ex-subdirector da Antena 1, Ricardo Alexandre, não tenho dúvidas de que Luís Marinho continua fiel ao seu roteiro, tendo assim servido o Governo Santana Lopes, o Governo Sócrates e agora o Governo Passos Coelho/Relvas — e sempre a subir. Acontece, porém, que Pedro Rosa Mendes é um grande jornalista e um grande escritor: o país deve-lhe. Quanto a Luís Marinho, sinceramente, não me recordo de qualquer coisa que o jornalismo lhe deva: um texto, uma reportagem, uma entrevista. É o meu testemunho, que ninguém me pediu: apenas para que conste.»

                                  (in "Expresso", 25.02.2012)



António Luís Marinho: actualmente director-geral de conteúdos da Rádio e Televisão de Portugal.

Notas:
1. Em complemento a este texto, recomenda-se a leitura do artigo de Hugo Torres publicado no "Público", de 25.01.2012.
2. A edição da pertinente crónica do jornalista Pedro Rosa Mendes respeitante ao regime cleptocrático angolano, que causou incómodo e, como tudo leva a crer, foi o móbil do abrupto cancelamento de "Este Tempo" por António Luís Marinho, em leal obediência a Miguel Relvas, ainda está disponível no arquivo online. Caso venha a ser retirada, agradece-se o alerta a fim de se facultar uma via alternativa de audição. Censura, jamais!

23 fevereiro 2012

José Afonso: "Fui à Beira do Mar"




No dia em que se assinalam os 25 anos do desaparecimento de José Afonso, o blogue "A Nossa Rádio" rende-lhe uma singela homenagem destacando um dos mais belos e, incompreensivelmente, menos divulgados espécimes do seu vasto legado poético-musical, "Fui à Beira do Mar". Um tema em que está bem expresso o empenho cívico e artístico de um homem que nunca calou a sua voz, apesar das imensas adversidades que enfrentou, tendo sempre em mira a «capital da alegria: cidade do homem, não do lobo mas irmão.» Uma mensagem de grande actualidade...



Fui à Beira do Mar



Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996)




[instrumental]

Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:

"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"

[instrumental]

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"

Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.

[instrumental]

Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"

Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"

[instrumental]


* José Afonso – voz
Benedicto, Carlos Alberto Moniz, Carlos Medrano, Carlos Villa, Ernesto Duarte, José Dominguez, José Jorge Letria, José Niza, Maité, Maria do Amparo, Pedro Vicedo, Pepe Ébano e Teresa Silva Carvalho – instrumentos e 2.as vozes (trabalho de grupo)

Produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Celada, Madrid, de 6 a 13 de Novembro de 1972
Captação de som – Paco Molina, António Olariaga, Pepe Fernandez, Juan Carlos Ramirez e Juan António Molina
Mistura – Paco Molina
Texto sobre o disco em: Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio
URL: http://www.aja.pt/
http://vejambem.blogspot.com/
http://myspace.com/associacaojoseafonso
http://www.youtube.com/associacaojoseafonso
http://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Afonso
http://www.infopedia.pt/$jose-afonso
http://www.revues-plurielles.org/_uploads/pdf/17_16_5.pdf
http://www.arlindo-correia.com/080401.html
http://www.portaldofado.net/content/view/266/280/
http://fado.com/index.php?option=com_content&task=view&id=72&Itemid=67
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/162335.html
http://delta02.blog.simplesnet.pt/
http://zecafonso.com.sapo.pt/Jose%20Afonso.html
http://www.infoalternativa.org/radio/radio/jose-afonso_cantigas-do-maio/index.php?autoplay=1
http://myspace.com/joseafonso
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/jose_afonso
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=1350
http://www.last.fm/pt/music/Jos%C3%A9+Afonso

22 fevereiro 2012

Igrejas Caeiro: "Perfil de um Artista''



Com um percurso profissional repartido entre o cinema [participou, entre outros, nos filmes "Amor de Perdição" (1943), de António Lopes Ribeiro; "Camões" (1946), de José Leitão de Barros; "O Trigo e o Joio" (1965), de Manuel Guimarães], o teatro (contracenou em várias peças com Eunice Muñoz e Ruy de Carvalho) e a rádio, foi efectivamente na rádio que Francisco Igrejas Caeiro mais se notabilizou, apesar da perseguição de que foi vítima pelo regime salazarista, mesmo depois de ter sido expulso da Emissora Nacional (1948), só porque o seu nome constava nas listas do M.U.D. (Movimento de Unidade Democrática). O folhetim humorístico "A Lelé e o Zéquinha" (de 1947 a 1948, com Vasco Santana e Irene Velez, sua mulher, na Emissora Nacional), o programa itinerante de variedades "Companheiros da Alegria" (de 1951 a 1954, para o Rádio Clube Português), e, sobretudo, a impressionante série de entrevistas "Perfil dum Artista" (de 1954 a 1960, para o Rádio Clube Português), que contemplou 258 personalidades das artes e das letras portuguesas e estrangeiras (num total de 300 edições), garantem-lhe um lugar de destaque nos anais da rádio portuguesa. Pode mesmo dizer-se, em exagero, que o principal legado de Igrejas Caeiro para a posteridade é o conjunto de registos de "Perfil dum Artista", acervo de inestimável valor histórico e documental. É muito provável até que para algumas figuras da cultura portuguesa do século XX o único registo de voz que exista é o desses fonogramas. Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, António Sérgio, Jaime Cortesão, Alfredo Guisado, Fernanda de Castro, Alves Redol, Manuel da Fonseca, Manuel Mendes, Natália Correia, Júlio Pomar, José Leitão de Barros, João Villaret, Vasco Santana, António Silva, Eugénio Salvador, Maria Lalande, Pedro de Freitas Branco e Fernando Lopes-Graça são alguns dos nomes que integram a extensa galeria de "Perfil dum Artista".
Os registos (desconheço se todos – é bem possível que alguns tenham sido entretanto destruídos) estão soterrados e esquecidos sob o pó, no arquivo histórico da RDP. Ora o melhor tributo que a rádio pública pode prestar à memória de Igrejas Caeiro (e, bem assim, à dos seus eméritos entrevistados) é a transmissão de todas essas entrevistas, as quais muitas pessoas, salvo algumas de mais veterana idade, nunca ouviram. Isto, se exceptuarmos as três ou quatro que Luís Caetano – honra lhe seja feita – resgatou às teias de aranha para presentear ao auditório d' "A Força das Coisas". Fica formalizada a proposta, na esperança de que não seja arrogantemente ignorada, como tem sido timbre da actual direcção de programas da RDP, deixando transparecer a ideia de que a satisfação umbilical do sr. Rui Pêgo é muito mais importante do que a prestação de serviço público.

Pelo inegável valor documental que também tem, e por amável deferência da Sr.ª Luísa Barragon, aqui se deixa o registo de uma entrevista que o próprio Igrejas Caeiro concedeu a Carlos Pinto Coelho, em 1998, para o programa de rádio "Agora... Acontece!".


"Agora... Acontece!" N.º 007, de 16 Nov. 1998



Igrejas Caeiro entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir do minuto 20]

15 fevereiro 2012

"As Idades do Mundo": uma viagem pela História da Arte


Francisco de Holanda, "O primeiro dia da criação do mundo: O caos e a criação da luz", in De Aetatibus Mundi Imagines, 1545-1547, Biblioteca Nacional de Espanha, Madrid


«Tomando como ponto de partida a obra-prima do pintor português Francisco de Holanda De Aetatibus Mundi Imagines, ou Imagens das Idades do Mundo, realizada no triénio 1545-1547, onde, numa linguagem totalmente inovadora e através de mais de centena e meia de ilustrações, se narra a história do mundo a partir do primeiro dia da Criação, concebemos uma série de doze programas que toma como denominação parte daquele título.
As características cíclicas da história da Humanidade, aliadas à permanente influência e contaminação de vários tipos de linguagens e de imagéticas, proporcionaram o eterno retorno às concepções do passado, nem que fosse apenas para as renegar, sendo os mesmos temas, por diversas vezes e ao longo dos tempos, retomados e apreendidos de diferentes formas pelos seus autores.
Tal como afirma o filósofo francês Gilles Deleuze ao caracterizar a cultura universal como "a civilização da imagem", o tema principal destas emissões será o da sua força e a poderosa capacidade de arrebatamento, deleite ou, simplesmente, horror.
Privilegiando a música e a palavra que lhe está associada, abordaremos, ao longo dos próximos domingos, personalidades ímpares do génio artístico universal, as quais contribuíram, de forma indelével, para a renovação da imagem do mundo em diferentes momentos da História.» [Ana Mântua e João Chambers, in boletim de programação da Antena 2, Jan. 2012]


Saúda-se o surgimento na Antena 2 de mais uma série da autoria de Ana Mântua e João Chambers, que tão boa impressão e proveito já me haviam dado com "Divina Proporção" e "A Herança de Atena". Tendo a direcção de Rui Pêgo e João Almeida eliminado da grelha praticamente todos os conteúdos culturais não musicais em que João Pereira Bastos vinha apostando (hoje não há uma rubrica de poesia, não há teatro radiofónico, não há um programa de História, não há um programa de Sociologia/Antropologia, etc., etc.) tudo o que apareça nas vertentes culturais e artísticas fora do estrito domínio da música é de louvar.
O que não se compreende é que um programa que tem uma forte componente de palavra, como "As Idades do Mundo", tenha uma única passagem (domingos, 10h:00-11h:00). Será que a dupla Rui Pêgo / João Almeida ainda não percebeu que os programas de autor, particularmente os não (estritamente) musicais, devem passar, no mínimo, duas vezes, de preferência em quadrantes horários diferentes, de modo a chegaram ao máximo número de ouvintes possível? Nem todas as pessoas têm a mesma disponibilidade para ouvir rádio numa determinada altura e as que, por qualquer razão, não podem (ou não lhes dá jeito) sintonizar a Antena 2 naquele dia/hora ficam sem alternativa. Refiro-me, obviamente, a uma alternativa hertziana porque se é certo que há um arquivo on-line, não deixa de ser também verdade que um sector nada desprezível do auditório tradicional da Antena 2 não tem internet, ou mesmo que a tenha, prefere o modo de audição via éter. Nesta conformidade, passar programas em que houve um investimento acrescido (como são os realizados por colaboradores externos à estação) uma única vez, significa, em boa medida, atirar o dinheiro dos contribuintes ao ar...

As Idades do Mundo
Antena 2, domingos, às 10h:00
Texto: Ana Mântua
Selecção musical: João Chambers.


AS IDADES DO MUNDO

Ep. 1 | 8 Jan. 2012 [>> RTP-Play]
"As Idades do Mundo" em Francisco de Holanda (1517-1585): as visões inovadoras da Criação deste eminente teórico e pintor do Renascimento português, ilustradas através de obras de Damião de Góis, Alessandro Striggio, Frei Manuel Cardoso, Diogo Dias Melgás, Felice Anerio, Duarte Lobo, Manuel Rodrigues Coelho, Giovanni Pierluigi da Palestrina, António Carreira e Filipe de Magalhães, todos contemporâneos no Portugal e na Península Itálica do século XVI.

Ep. 2 | 15 Jan. 2012 [>> RTP-Play]
As "Imagens do Mundo" e da Humanidade através das visões de Jheronimus Bosch (?-1516) e da música de Joachimus de Monte, Cristianus Hollander, Jean Richafort, Nicolas Gombert e de autores anónimos, extraída dos "Livros de Coro do Colégio das Sete Horas Litúrgicas" da Igreja de São Pedro, na cidade de Leiden, nos Países Baixos, sobrevivente da fúria iconoclasta e destruidora, dos dias 25 e 26 de Agosto de 1566, que discordava da existência, não particularmente devota, de alguns membros da ordem religiosa local.

Ep. 3 | 22 Jan. 2012 [>> RTP-Play]
"Museus de papel" – a génese de uma História da Arte e das Ciências através das imagens: as recolhas de antiguidades, o nascimento do discurso histórico durante os séculos XVII e XVIII e o repertório de Orazio Benevolo, Claudio Monteverdi, Tarquinio Merula, Giacomo Carissimi, Benedetto Ferrari, Johann Sebastian Bach, Pietro Paolo Bencini, Virgilio Mazzocchi, Marc-Antoine Charpentier, Michel-Richard Delalande, Jacques André François d’Agincour e de um autor anónimo.

Ep. 4 | 29 Jan. 2012 [>> RTP-Play]
Os movimentos pós-impressionistas e o caminho da modernidade: o simbolismo, uma nova apreensão da realidade visível e a música de Maurice Ravel, Claude Debussy, Gabriel Fauré, Camille Saint-Saëns, Hector Berlioz, Gustav Mahler e Jean Delibes.

Ep. 5 | 5 Fev. 2012 [>> RTP-Play]
A nova orientação de gosto implementada pelos pintores italianos que laboraram em Portugal durante o reinado de D. João V, "O Magnânimo".

Ep. 6 | 12 Fev. 2012 [>> RTP-Play]
Do traçado no solo ao projecto: a evolução do desenho de arquitectura durante a Idade Média.

Ep. 7 | 19 Fev. 2012 [>> RTP-Play]
"Grão Vasco", o pintor-herói. A imagem e a obra, ambígua e plural, de Vasco Fernandes e a sua projecção no tempo.

Ep. 8 | 26 Fev. 2012 [>> RTP-Play]
Jacob Jordaens, um pintor dividido entre o catolicismo e o protestantismo na Antuérpia do século XVII.

Ep. 9 | 4 Mar. 2012 [>> RTP-Play]
A Pintura Naturalista Portuguesa: o reflexo de uma cultura e de uma identidade nacional.

Ep. 10 | 11 Mar. 2012 [>> RTP-Play]
Natureza-morta: a imitação da Natureza e os seus significados.

Ep. 11 | 18 Mar. 2012 [>> RTP-Play]
Clássico e Romântico: relação dialéctica ou antítese entre conceitos?

Ep. 12 | 25 Mar. 2012 [>> RTP-Play]
Vincenzo Foppa e a Capela Portinari: a obra mecenática de um banqueiro de Milão na segunda metade do século XV.

[Actualizado em 27 Mar. 2012]



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel esquerdo, 1505-1506, óleo sobre madeira, 131,5 x 53 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central, 1505-1506, óleo sobre madeira, 131,5 x 119 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel central (pormenor), 1505-1506, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa



Jheronimus Bosch, "As Tentações de Santo Antão": painel direito, 1505-1506, óleo sobre madeira, 131,5 x 53 cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

05 dezembro 2011

Um requiem cortado em pedacinhos

Infelizmente, após a saída de João Pereira Bastos, a Antena 2 passou a dar-me motivos bastantes para a não sintonizar de forma assídua e regular, ao invés do que antes fazia. Com muito prazer e proveito intelectual, devo acrescentar em reconhecimento ao anterior director de programas.
Além da notória desqualificação da programação (se é que tal palavra é apropriada a uma grelha, em boa parte, preenchida com espaços de música "ad hoc" e sem qualquer lógica editorial), o capital humano é hoje incomparavelmente de muito mais baixo nível, quer no tocante à preparação intelectual, domínio e uso escorreito da língua portuguesa (léxico, sintaxe e prosódia), quer no que respeita ao timbre e colocação das vozes da locução – aspecto que alguns tendem a considerar acessório mas que não é nada despiciendo em rádio. Como se tudo isto não bastasse, os srs. Rui Pêgo e João Almeida, não percebendo que um canal de serviço público cultural não se pode reger pelos mesmos critérios das estações privadas de onde vieram, não descansaram enquanto não infestaram a Antena 2 com essa autêntica praga que são os sucessivos blocos de 'jingles' e 'spots' promocionais (a coisas da mais variada índole e de nula ou insignificante relevância cultural, denotando uma escandalosa promiscuidade com interesses privados). Para poupar os meus ouvidos a tão recorrente e despudorada agressão, a minha escuta da antena (pretensamente) cultural da rádio pública, passou a restringir-se a uns poucos programas de autor, por coincidência todos iniciados no consulado de João Pereira Bastos (circunstância que não deixa de ser bem eloquente quanto à míngua de programas de qualidade surgidos por iniciativa da direcção sucedânea).
Domingo passado, logo depois do toque de despertar (programado para as 09:05, justamente para escapar ao cartucho de 'jingles' e 'spots', que é disparado na viragem de cada hora), caí na ingenuidade de ligar para a Antena 2. E digo "ingenuidade" porque não decorreu muito tempo até me arrepender da decisão. O locutor de serviço, Pedro Rafael Costa, aparece a dizer que iríamos ouvir o "Requiem", de Mozart, pela Capela Real da Catalunha, de Jordi Savall e de Montserrat Figueras, esta recentemente desaparecida. Sendo a missa de defuntos do genial compositor de Salzburgo uma das minhas obras dilectas de toda a música (erudita ou não), e dado que a gravação que possuo na minha colecção é outra, fiquei com o apetite aguçado e estava na expectativa de começar o meu domingo em grande. Puro engano!... Ao fim de dois ou três andamentos (o que não terá ido muito além de uns escassos dez a quinze minutos), a transmissão é abruptamente interrompida pelo citado locutor, dizendo que a secção seguinte do "Requiem" (a segunda de várias, presume-se) ficaria para o próximo fim-de-semana. Como interpretar tão estrambólico procedimento? Será que o sr. Pedro Rafael Costa deseja a todo o custo fidelizar ouvintes ao seu espaço musical e o truque é repartir obras apetecíveis em pedacinhos, por dias diferentes, no caso com uma semana de desfasamento? Se é essa a ideia, comigo não pega. No próximo domingo, não vou, com toda a certeza, despertar com a Antena 2. Está completamente fora de questão! Preferiria mil vezes comprar o disco e ouvi-lo de fio a pavio, sem quaisquer constrangimentos. Se há obras que só fazem sentido se ouvidas na íntegra a cada fruição, o "Requiem", de Mozart, é indubitavelmente uma delas. Dá-la a ouvir aos pedacinhos em dias diferentes (mas mesmo que fosse no mesmo dia...), não só é um perfeito disparate, como um péssimo serviço prestado à Música. Não dignifica a obra, amesquinha o autor que a criou e defrauda o ouvinte. Tratando-se de uma das mais superlativas obras-primas da História da Música, o "Requiem", de Wolfgang Amadeus Mozart, não é equiparável a uma vulgar telenovela em que se deixa a trama em suspenso para o próximo episódio...
Enquanto cidadão e contribuinte, não posso deixar de formular esta pertinente questão a quem de direito: ninguém quer acudir à Antena 2? Se não, eu tenho de ponderar seriamente a suspensão do pagamento da chamada contribuição do audiovisual.


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20 outubro 2011

Porquê o fim da reposição do "Teatro Imaginário"?

A 27 de Dezembro de 2006, na sequência da morte de Eduardo Street, tive o ensejo de tocar na questão do importantíssimo acervo de teatro radiofónico guardado no arquivo da RDP e de lembrar a quem de direito da obrigação que a rádio estatal tinha (tem) – enquanto concessionária do serviço público de radiodifusão – de dar aos ouvintes (designadamente aos mais novos) a oportunidade de fruírem desse património cultural.
No Verão de 2007, a direcção de programas da Antena 2 entendeu por bem render homenagem a Eduardo Street, resgatando das teias de aranha cerca de uma dúzia de peças por ele realizadas. Saudei então a iniciativa, mas não deixei de lamentar a curta duração do ciclo.
Em Maio de 2010, portanto, volvidos mais três anos, encarei com regozijo o início da retransmissão do "Teatro Imaginário". Tendo em conta as centenas de peças existentes no arquivo histórico, eu estava na expectativa de me puder deliciar por alguns anos com as peças que Eduardo Street e outros antes dele (como Alice Ogando, Jorge Alves, Castela Esteves, Horácio Gonzaga e Teles Gomes) tão diligentemente realizaram. Pura ilusão! Desde finais de Agosto último, o "Teatro Imaginário" deixou de aparecer na Antena 2. Agora apenas temos aquele arremedo de teatro radiofónico, entre o experimental e o grosseiro, a que chamam de "Teatro Sem Fios". Eu pergunto: porquê o fim da reposição do "Teatro Imaginário"? Espero que não me venham com a desculpa esfarrapada da contenção de custos pois estamos a falar de registos do arquivo histórico, o mesmo é dizer de "produtos" acabados, logo sem encargos financeiros acrescidos para a empresa. Bem diferente, portanto, do desinteressante e enfadonho q.b. "Teatro Sem Fios". A haver cortes, que deixassem cair este último e mantivessem o "Teatro Imaginário".
De tudo o que ouvi na recente e inexplicavelmente interrompida reposição do "Teatro Imaginário", relevo as nove peças de Gil Vicente: "O Auto de Mofina Mendes", "O Velho da Horta", "A Farsa de Inês Pereira", "Auto da Barca do Inferno", "Romagem dos Agravados", "Auto de Sibila Cassandra", "Amadis de Gaula", "Auto da Cananeia" e "O Juiz da Beira". Magnífico e sublime o trabalho dos actores que nelas intervieram com o seu talento e arte. Tesouros que não têm preço e que, presumivelmente, estão longe de ser os únicos relativos a Gil Vicente. Quero acreditar que das dezenas de peças que o fundador do teatro português escreveu, outras terão sido transpostas para teatro radiofónico, tais como: "Auto da Visitação" (também conhecido por "Monólogo do Vaqueiro") (1502); "Auto da Índia" (1509); "Auto dos Reis Magos" (1510); "Auto da Fé" (1510); "Quem tem Farelos?" (1515); "Auto da Barca do Purgatório" (1518); "Auto da Barca da Glória" (1519); "Auto da Alma" (1518); "Auto da Fama" (1520); "O Pranto de Maria Parda" (1522); "Auto da Feira" (1526); "Breve Sumário da História de Deus" (1527), "Auto da Lusitânia" (1532); "Floresta de Enganos" (1536).
Não terá a rádio estatal a obrigação cultural de resgatá-las todas e dá-las a ouvir?
E quem diz Gil Vicente, diz Almeida Garrett, António Patrício, Luís de Sttau Monteiro e Bernardo Santareno (apenas para citar quatro proeminentes dramaturgos nacionais) dos quais não constou qualquer obra na temporada finda em Agosto. Importa não esquecer ainda os grandes autores estrangeiros que Eduardo Street, e outros, adaptaram e realizaram para a estação pública, desde os gregos antigos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Lope de Vega, Calderón de La Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Pushkin, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Jean Anouilh, entre muitos outros.
Poderemos falar de verdadeiro serviço público de rádio quando tão valioso património fonográfico é ocultado aos ouvintes e deixado a apodrecer nas catacumbas da Rádio e Televisão de Portugal? Perante tal atitude obscurantista de quem dirige a Antena 2, com que ânimo poderão os (potenciais) amantes da arte de Talma continuar a desembolsar a contribuição do audiovisual?

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19 setembro 2011

Pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo

José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Amália Rodrigues, Luiz Goes, Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, Manuel Freire, Carlos do Carmo, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Luís Cília, Vitorino, Janita Salomé, Teresa Silva Carvalho, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Carlos Mendes, Quarteto 1111, Banda do Casaco, Trovante, Né Ladeiras, João Lóio, Afonso Dias, José Medeiros, João Afonso, Amélia Muge, Filipa Pais, Isabel Silvestre (no seio do Grupo de Cantares de Manhouce ou a solo), Teresa Salgueiro (no seio dos Madredeus ou a solo), Rão Kyao, Júlio Pereira, José Peixoto, Pedro Jóia, António Pinho Vargas, João Paulo Esteves da Silva, Brigada Victor Jara, Almanaque, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Raízes, Terra a Terra, Pedra d'Hera, José Barros & Navegante, Gaiteiros de Lisboa, Frei Fado d'El Rei, Sebastião Antunes (no seio da Quadrilha ou a solo), Toque de Caixa, Galandum Galundaina, Realejo, Danças Ocultas, Diabo a Sete, Pé na Terra, Roda Pé, Vá-de-Viró, Belaurora, Helena Oliveira (no seio do grupo Orpheu ou a solo), César Prata...
As pessoas minimamente informadas e amantes de boa música sabem que todos os nomes citados são de artistas de primeira água, sendo que a eles se deve uma parte muito significativa do repertório mais valioso e perene da música portuguesa, desde que há registo fonográfico. Pois todos eles (e muitos outros detentores real mérito e valia – a lista completa seria fastidiosa) têm em comum a desdita se serem tratados como "filhos de um deus menor" pela rádio pública do seu próprio país. Uns (a maioria) estão, pura e simplesmente, excluídos na lista de difusão musical (vulgo 'playlist') do canal generalista da rádio estatal, a
Antena 1, e os poucos que nela figuram recebem, sem apelo nem agravo, tratamento de terceira classe. Quero com isto dizer que a sua representação se restringe a um ou dois temas (que geralmente nem sequer correspondem ao melhor dos respectivos repertórios), e com uma aparição em antena tão esparsa e rarefeita que ouvi-los torna-se um exercício quase tão difícil como encontrar uma agulha num palheiro.
Em contrapartida, a chamada "pop de plástico" (a vinda de fora e a produzida cá dentro) recebe tratamento de privilégio, quer em número de temas incluídos na 'playlist', quer na frequência de difusão dos mesmos.
Ora, como facilmente se poderá inferir, se a marginalização da melhor música portuguesa é grave em qualquer rádio generalista de Portugal, ainda mais o é na emissora do próprio Estado, atendendo à obrigação que tem (formalmente assumida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de a divulgar e promover de forma cabal e satisfatória. Obrigação essa que decorre da circunstância do financiamento ser público – contribuição do audiovisual (que actualmente se cifra em €27,00 anuais + I.V.A.) e transferências directas do Orçamento de Estado.
O que se disse a respeito da Antena 1 aplica-se igualmente à
Antena 3, outro canal do chamado "serviço público de rádio" que marginaliza, de forma perfeitamente criminosa, o nosso património musical mais valioso e qualificado.
Urge, portanto, que o problema seja resolvido por quem tem nas suas mãos o poder para tal. E para mostrar, com exemplos concretos e audíveis, o quanto é vasto e qualitativamente superior o repertório votado ao ostracismo pelas Antena 1 e 3, dar-se-á hoje início à expedição de uma circular, ao ritmo de uma por semana, com a letra de um espécime poético-musical (ou instrumental) e respectivo link para audição. Felizmente que a internet, nas suas diversas plataformas de armazenamento de som e vídeo, designadamente no YouTube (http://www.youtube.com/playlist?list=FLys6VB6Y_S4sv6_Xbet-9fA
), é já (e sê-lo-á cada vez mais) um importante repositório de boa música portuguesa.Para passar a receber a referida mensagem na sua caixa de e-mail, basta que se inscreva no Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL.


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