08 março 2021

Teresa Silva Carvalho: "Mulher da Erva"


© Luís Lobo Henriques


MULHER DA ERVA
Elfiede Engelmayer dá a explicação deste texto: trata-se de uma velha mulher do Alentejo que ganhava a vida com a venda de erva. José Afonso conheceu-a quando ela já tinha mais de setenta anos. Todos os dias, andava pelas ruas e estradas com uma cesta de erva cuja venda era o seu sustento e com que se alimentava o gado. Esta "profissão" desapareceu com a modernização da agricultura. A canção relata o encontro entre o cantor e a mulher. Na segunda estrofe, ele vê-a a subir a estrada, vindo na sua direcção. Na terceira, eles trocam algumas palavras e depois ela prossegue o seu caminho sem ouvir o comentário do cantor. Na primeira estrofe, a "vela condenada pela onda" simboliza que ela não tem, e nunca teve, futuro.

Oona Soenario (in "A Canção de Intervenção Portuguesa: Contribuição para um estudo e tradução de textos", Universidade de Antuérpia, 1994-1995) [cf. http://www.aja.pt/verso-dos-versos/]


Uma velha camponesa alentejana acartando erva, provavelmente à cabeça, qual besta de carga, para venda e assim prover ao seu mísero sustento não podia deixar de suscitar a compaixão do humanista que era José Afonso. E aquela vida sem futuro, de árdua sobrevivência, sensibilizou-o de tal maneira que se sentiu impelido a conceber a canção "Mulher da Erva", cuja melodia é uma das mais belas (e foram muitas) que saíram do génio criativo do autor de "Cantigas do Maio", álbum no qual foi publicada.
Sendo verdade que já não existem vendedoras ambulantes de erva, ainda é possível ver, em aldeias e lugarejos da Beira Interior e de Trás-os-Montes, mulheres carregando, à cabeça ou às costas, feixes de pasto para as suas cabras e ovelhas. A essas e a todas as outras mulheres que, no campo ou na cidade, executam trabalhos não qualificados, muitas vezes degradantes, pelos quais auferem um rendimento tão magro que não lhes permite mais que a simples sobrevivência, dia após dia, rendemos a nossa solidária homenagem pondo em destaque, neste Dia Internacional da Mulher, a extraordinária canção "Mulher da Erva". Não a original, que é razoavelmente conhecida [>> YouTube], mas uma soberba versão incompreensivelmente esquecida: a cantada por Teresa Silva Carvalho, com introdução de Vitorino, que faz parte do álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", editado em 1977. Tendo ganhado notoriedade como excelente intérprete de fado, Teresa Silva Carvalho, que foi também compositora de mérito (bastará referir os clássicos "Amar", sobre um soneto de Florbela Espanca, e "Barca Bela", sobre um poema de Almeida Garrett), atingiu o apogeu da sua arte canora precisamente no álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", que continua a ser um dos mais cativantes e aprazíveis de se ouvir de toda a História da Música Popular Portuguesa. Também graças – é justo reconhecê-lo – à magistral produção de Vitorino Salomé que convidou músicos de primeiríssima água, dos quais nos permitimos realçar Júlio Pereira, Pedro Caldeira Cabral e Catarina Latino, a qual, com a flauta barroca e a cornamusa, confere ao repertório um toque de raro encanto.

Se Portugal fosse um país normal e as rádios de cobertura nacional tivessem nas respectivas direcções de programas pessoas cultas e dotadas de sensibilidade para apreciar e estimar o nosso património musical/discográfico mais autêntico e esteticamente válido, faixas do álbum "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" teriam presença garantida nas 'playlists'. A realidade, porém, é bem diferente e nem sequer lhe escapa a rádio que tem a obrigação legal de divulgar a melhor música portuguesa, a Antena 1, que há largos se compraz a promover a imundície sonora (chamar-lhe música seria excessiva bondade). Já na Antena 2, onde se esperaria menos escutar Teresa Silva Carvalho, foi possível ouvi-la, na edição de sábado passado do programa "Café Plaza" [>> RTP-Play], a cantar a sua "Mulher da Erva" (a primeira, pois a artista voltaria a gravar a canção para o álbum "Canções Gratas", de 1994). Aconteceu no âmbito de uma oportuna sequência de canções e poemas recitados dedicados à mulher que o realizador Germano Campos teve o louvável cuidado de fazer, em jeito de celebração antecipada do Dia Internacional da Mulher, lembrando os ouvintes – e bem - que todos os dias do ano deviam ser dias da mulher, de tal sorte – acrescentamos nós – que não fosse necessário haver uma data especial para alertar as consciências de que metade da Humanidade ainda é objecto de discriminação pela outra metade.
Ainda na Antena 2, mas num universo musical bem distinto, a nova música antiga europeia, há que enaltecer a iniciativa de João Chambers em devotar a edição de ontem do seu programa "Musica Aeterna" [>> RTP-Play] à condição da Mulher na Idade Média, a sua situação social perante a Igreja e o pensamento teológico vigente, em textos intercalados com canto gregoriano feminino composto pela abadessa alemã Hildegard von Bingen, cognominada 'A Sibila do Reno'.
Nesta data precisa, seria de bom-tom que a mesma Antena 2 preenchesse os espaços de continuidade (fora dos programas de autor) só com repertório composto e/ou interpretado por mulheres. Demo-nos conta de que foram transmitidas interpretações por mulheres (por Maria João Pires, de manhã; pelas cantoras Emőke Baráth e Jodie Devos, e pela flautista Sharon Bezaly, no turno da tarde) mas as peças tocadas por homens foram em muito maior número. E de mulheres compositoras apenas nos constaram Barbara Strozzi (trazida pela mão de Mafalda Serrano), Irene Poldowski, Fanny Mendelssohn e Cécile Chaminade (todas dadas a ouvir por João Pedro). Estas passagens avulsas denotam que não houve empenho da parte da direcção da Antena 2 na celebração do Dia Internacional da Mulher. E era extremamente fácil preencher um dia inteiro (muitos dias inteiros, aliás) exclusivamente com obras ou excertos de obras compostas ou interpretadas por mulheres, tão vasta, rica e diversificada é a discografia nesse capítulo. Ficar de braços cruzados sempre dá menos trabalho do que fazer o que se devia, não é verdade?
E o que fizeram os outros dois canais nacionais da rádio pública? A Antena 3, cumprindo o que vinha sendo anunciado há dias, tem passado somente canções interpretadas por mulheres. A Antena 1, pelo que nos tem sido dado perceber pelas fugazes incursões que lá temos feito (permanecer lá seria uma tortura), também vem transmitindo apenas intérpretes femininas. À parte a mediana ou mesmo baixa qualidade dos espécimes escolhidos, em ambos os canais têm sido passadas muitas canções estrangeiras (anglo-saxónicas, bem entendido). Não havia necessidade! Em Portugal há repertório bastante e de alta qualidade cantado por artistas femininas e estas, tendo em conta a situação bastante difícil (verdadeiramente crítica, nalguns casos) a que chegaram por causa da pandemia, mereciam que o serviço público de rádio fizesse jus à missão para a qual foi criado e as acarinhasse convenientemente dando-lhes o máximo apoio possível.



Mulher da Erva



Letra e música: José Afonso
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* / introdução por Vitorino (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)




Velha da terra morena
Pensa que é já lua cheia;
Vela que a onda condena
Feita em pedaços na areia.

[instrumental]

Saia rota subindo a estrada,
Inda a noite rompendo vem,
A mulher pega na braçada
De erva fresca, supremo bem.

Canta a rola numa ramada,
Pela estrada vai a mulher:
"Meu senhor, nesta caminhada
Nem m'alembra do amanhecer!"

Há quem viva sem dar por nada,
Há quem morra sem tal saber...
Velha ardida, velha queimada,
Vende a fruta se queres comer.

À noitinha, a mulher alcança
Quem lhe compra do seu manjar,
Para dar à cabrinha mansa,
Erva fresca da cor do mar.

[instrumental]

Na calçada uma mancha negra
Cobriu tudo e ali ficou:
Anda, velha da saia preta,
Flor que ao vento no chão tombou!

No Inverno terás fartura
Da erva fora supremo bem...
Canta, rola, tua amargura!
Manhã moça nunca mais vem...


* [Créditos gerais do disco:]
Teresa Silva Carvalho – voz
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Vitorino – voz masculina
Grupo Coral de Cantadores do Redondo
Produção e direcção musical – Vitorino
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto
URL: https://www.museudofado.pt/fado/personalidade/teresa-silva-carvalho



Capa do LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" (Orfeu, 1977)
Desenho e execução – Jean Laffront

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Outros artigos de homenagem à mulher:
João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"
Carlos Mendes: "Calçada de Carriche" (António Gedeão)

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Outros artigos com repertório de Teresa Silva Carvalho:
A vitória do azeite
Celebrando Luís Pignatelli

2 comentários:

Germano Campos disse...

Muito obrigado em nome do "Café Plaza"

Álvaro José Ferreira disse...

Um leitor deu-se ao cuidado de nos reportar, via e-mail, que na segunda hora do espaço "Baile de Máscaras", a seguir ao "Concerto Aberto", o locutor João Pedro transmitiu obras de outras duas compositoras, Dorothy Howell e Amy Beach, respectivamente o poema sinfónico "Lamia" e uma peça para piano. Ou seja, todos os trechos musicais do programa daquele dia foram compostos por mulheres.
Às 19h:00, a exemplo do geralmente acontece, rumámos para outra sintonia, pelo que agradecemos ao leitor a informação facultada e aproveitamos para louvar o zeloso cuidado de João Pedro, que foi o profissional da Antena 2 que levou mais a sério o Dia Internacional da Mulher.