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Os ritos e os mitos têm desempenhado uma função de procura e ligação ao profundo, de regresso à origem, na explicação dos mistérios; apaziguam e reconfortam, conferindo significado e valor à nossa existência. Nas culturas que separam o mundo do divino do mundo do quotidiano, a relação entre Sagrado e Profano pode ser interpretada como religião e não religião. No entanto, nas sociedades arcaicas, cada intervenção do homem no ambiente rural, como o abrir a terra com um arado ou o derrubar uma árvore da floresta, possuem os ritmos de uma sacralidade latente, não se sentindo diferenciação entre as actividades laico-profanas e a actividade sagrada. É como se vivessem numa permanente imersão no sagrado. Existe uma pulsão unificante, onde tudo é sagrado e profano.
FILIPE RAPOSO
Desde os tempos mais remotos, sobretudo desde a Revolução Agrícola, o Homem atribuiu ao Sol e também à Lua carácter sagrado: por um lado, por presidirem, respectivamente ao dia e à noite, na sucessão cíclica do tempo, e, por outro lado, pela tomada de consciência de que os dois corpos celestes, principalmente o não por acaso designado astro-rei, regiam a vida à face da Terra. No Antigo Egipto, o Sol estava personificado no deus Rá e os faraós, a partir do fim do Império Antigo, proclamavam-se «filhos de Rá». Houve mesmo um faraó, Amenófis IV, que tentou uma reforma religiosa radical: substituir o politeísmo pela adoração única do Sol, agora chamado Áton, e ele próprio se rebaptizou com o nome de Akhenáton que significa "Aquele que louva Áton". Embora a rejeição do politeísmo não tenha vingado no Egipto onde o culto dos múltiplos deuses ancestrais, com Ámon à cabeça, foi restaurado pouco depois da morte de Akhenáton, pelo seu filho, Tutankhámon, correspondendo ao desejo da mui poderosa e influente classe sacerdotal, alguns autores modernos, designadamente Sigmund Freud (no livro "Moisés e o Monoteísmo", 1939), advogam que aquela concepção religiosa foi determinante para o nascimento do monoteísmo hebraico. Também os Romanos divinizaram o Sol, chamado Sol Invictus, cujo culto adquiriu enorme força política e religiosa a partir do século III d.C., com imperadores como Aureliano a elevarem o astro-rei ao topo do panteão oficial do império. O Sol era então visto como a divindade suprema e o imperador, com o seu poder absoluto e inquestionável, considerado o seu equivalente na Terra, governando o império tal e qual o Sol pontifica, majestoso e invencível, no Céu. E não é de estranhar que para fomentar e facilitar a adopção do cristianismo pelos pagãos, Cristo tenha sido apresentado como o Sol Invictus e, por isso, este recebesse o nome de Emanuel (o Manel, na boca de populares em Portugal, até há não muitas décadas). E o cancioneiro popular português não deixa, obviamente, de testemunhar a admiração reverencial que o povo sempre nutriu pelo Sol, como está lapidarmente patente na seguinte quadra alentejana que o cantautor Paulo Ribeiro incluiu na canção "Vai-se o Sol e Vem a Lua" [>> YouTube], que ocupa a posição 9.ª do alinhamento do álbum "Aqui Tão Perto do Sol" (Edições Valentim de Carvalho, 2002):
O Sol é que alegra o dia,
Pela manhã quando nasce;
Ai de nós o que seria
Se o Sol um dia faltasse!
Outra variante desta quadra, com o mesmo incipit, seguida de uma votada à Lua formam a "Cantiga do Sol", que Rita Maria (canto) e Filipe Raposo (piano) interpretam, de maneira magistral e assaz cativante, no álbum "The Art of Song, Vol. 2: Between Sacred and Profane" (Roda Music, 2023). Ora, dado que o solstício de 2026, no Hemisfério Norte, aconteceu de manhã, mais precisamente às 08h:25 UTC (09h:25, hora de Portugal), em conformidade com os primeiros versos da cantiga, achámos por bem dar-lhe destaque e assim assinalarmos o início da estação estival. Boa escuta!
No universo dos canais da rádio pública, seria bom que, pelo menos, as Antenas 1 e 2 divulgassem, de modo conveniente, o meritório trabalho de Filipe Raposo, quer em nome individual, quer em parceria com outros intérpretes, como Rita Maria, de tal sorte que o espécime ora apresentado pudesse chegar aos tímpanos dos ouvintes/contribuintes, e assim estes terem menos razões de queixa do deficiente serviço que recebem em troca do pagamento (forçado) da contribuição do audiovisual.
Cantiga do Sol
Letra e música: Popular
Arranjo: Filipe Raposo
Intérpretes: Rita Maria & Filipe Raposo* (in CD "The Art of Song, Vol. 2: Between Sacred and Profane", Roda Music, 2023)
O sol é que alegra o dia [bis]
Pela manhã ao nascer; [bis]
Eu bem sei quem anda triste [bis]
E se alegra em me ver. [bis]
[vocalizos / instrumental]
Ó lua da meia-noite, [bis]
Faz favor de me dizer: [bis]
Em que pontos vai a lua [bis]
Quando quer amanhecer? [bis]
[vocalizos / instrumental]
* Rita Maria – voz
Filipe Raposo – voz
URL: https://clavenamao.org/rita-maria/
URL: https://filiperaposo.com/
https://music.youtube.com/channel/UC8cmfs2H-onz88_mN5Yz4lA

Capa do CD "The Art of Song, Vol. 2: Between Sacred and Profane", de Rita Maria & Filipe Raposo (Roda Music, 2023)
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