27 maio 2014

Em memória de Vasco Graça Moura (1942-2014)


Vasco Graça Moura fotografado por Rodrigo Cabral.


Fiz uma longa aprendizagem,
muitas rasuras e rascunhos,
muitos registos de passagem,
muitos borrões e gatafunhos
são outros tantos testemunhos
do meu mester, das minhas lavras,
uso a cabeça e às vezes punhos
de renda ou não. Ah, as palavras!

O Óscar Lopes e o David
deram-me as regras do jardim:
vinho fazer da minha vide,
nunca ficar assim-assim,
montar em pêlo e em selim.
Das teorias me dispenso:
pensaram tudo antes de mim
o E.P.C. e o E. Lourenço.

                VASCO GRAÇA MOURA
                (in "Testamento de VGM", 2.ª edição,
                Porto: Edições Asa, 2002 – p. 20)


Um intelectual com espírito renascentista

O que mais impressionava em Vasco Graça Moura era essa espécie de energia intelectual renascentista, que o levava a ter uma intervenção cívica constante, uma actividade política e uma vida profissional intensas, e ainda assim arranjar tempo para criar uma obra literária (traduções incluídas) de uma extensão, diversidade e qualidade francamente invulgares.
Poeta e tradutor de grandes poetas, romancista, ensaísta, dramaturgo, cronista, antologiador, historiador honoris causa, advogado, político, gestor cultural – e podia acrescentar-se várias outras actividades –, Graça Moura foi um improvável espírito renascentista encarnado neste presente um pouco caótico de mais para o seu assumido gosto pela ordem e pela disciplina. Mesmo que nos fiquemos pela sua obra literária em sentido lato, seria talvez preciso recuarmos a um Jorge de Sena para encontrarmos um antecessor convincente do seu labor criativo e intelectual.
Autor de quase trinta livros de poemas, de Modo Mudando (1963) a O Caderno da Casa das Nuvens (2010), foi ainda um tradutor épico, que parecia ter particular prazer em impor-se desafios colossais, como o de verter em português a Divina Comédia e a Vita Nuova de Dante, ou as Rimas e Triunfos de Petrarca, ou os Testamentos de François Villon, ou ainda a integral dos Sonetos de Shakespeare.
Escolhas que certamente coincidem com as suas paixões pessoais de leitor, mas às quais também não terá sido alheio um forte sentido de missão: Graça Moura empenhou-se, como tradutor, em enriquecer o património literário disponível em língua portuguesa, como se esforçou, enquanto responsável da Imprensa Nacional/Casa da Moeda (IN/CM), que dirigiu ao longo da década de 1980, por combater o progressivo esquecimento dos grandes autores portugueses do passado.
Traduzindo directamente do espanhol, do francês, do italiano, do inglês e do alemão, traduziu, além dos autores já referidos, extensas escolhas de poetas como Pierre Ronsard, Rainer Maria Rilke, Gottfried Benn, Walter Benjamin, Federico García Lorca, Jaime Sabines, H. M. Enzensberger ou Seamus Heaney, e ofereceu-nos ainda versões portuguesas de algumas das peças mais importantes dos três grandes dramaturgos franceses do século XVII: Corneille, Molière e Racine.
É por estas duas dimensões, a de poeta e a de tradutor, que é mais reconhecido, e foram elas que lhe valeram as principais distinções atribuídas à sua obra, a começar pelo Prémio Pessoa, em 1995, e incluindo a criteriosa Coroa de Ouro do Festival de Struga, na Macedónia, que recebeu em 2004 – entre os vencedores das três edições anteriores contam-se dois prémios Nobel: Tomas Tranströmer e Seamus Heaney – e o Prémio Nacional de Tradução atribuído em 2007 pelo Ministério da Cultura italiano.
Mas outras dimensões da obra de Graça Moura, como a ficção ou o ensaísmo, estão longe de ser negligenciáveis. Se títulos como Luís de Camões, Alguns Desafios (1980), Camões e a Divina Proporção (1985) ou Os Penhascos e a Serpente (1987) lhe dão um lugar de indiscutível relevo entre os camonistas contemporâneos, os seus ensaios abarcam temas tão variados como os Descobrimentos, a pintura portuguesa da Renascença, a construção da identidade cultural europeia, o fado, a pintura de José Rodrigues ou Graça Morais, a literatura de David Mourão-Ferreira ou Vitorino Nemésio, para citar apenas uma breve amostra. À qual não se pode deixar de somar o tópico do Acordo Ortográfico, que considerava um crime de lesa-língua, e ao qual dedicou, em 2008, o ensaio Acordo Ortográfico: a Perspectiva do Desastre. Tentar travar a sua aplicação tornou-se o grande combate cívico dos seus últimos anos.
Como ficcionista estreou-se relativamente tarde, em 1987, com Quatro Últimas Canções, um romance no qual a música erudita, uma das suas paixões – a par da pintura, que chegou a praticar –, ocupa um lugar fundamental, contaminando a própria estrutura narrativa. Talvez por ter surgido tardiamente, a ficção de Graça Moura foi sempre vista como um corpo secundário na sua obra, juízo não isento de alguma injustiça, quer pela qualidade de algumas obras, quer pela extensão que acabou por atingir, com mais de uma dúzia de livros, incluindo romances, novelas e volumes de contos.
Para se dar uma ideia mais completa da bibliografia de Graça Moura, que ultrapassa bem uma centena de títulos, seria ainda necessário falar do dramaturgo ocasional – autor de Ronda dos Meninos Expostos (1987) e da sátira Auto de Mofino Mendes (1994) –, do truculento cronista cujos textos estão reunidos em volumes como Papéis de Jornal e Outros Materiais (1997) ou Contra Bernardo Soares e Outras Observações (1999), ou ainda do diarista de Circunstâncias Vividas (1995).
Uma produção que se torna ainda mais espantosa se tivermos em conta que Graça Moura começou cedo a assumir cargos públicos de elevada responsabilidade, tendo-os desempenhado com reconhecidos zelo e competência. A seguir ao 25 de Abril de 1974, foi duas vezes secretário de Estado: da Segurança Social (no IV Governo Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves) e dos Retornados (no VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo). Militante do então PPD, desfiliou-se logo em 1975, mas manteve uma fidelidade ao partido que só em circunstâncias excepcionais quebrou, como sucederia nas eleições presidenciais de 1980, quando apoiou Ramalho Eanes contra Soares Carneiro.
Nunca escondeu a sua particular admiração por Cavaco Silva, quer como primeiro-ministro, quer como presidente da República, a ponto de ter incluído uma balada do bom cavaquista nessa espécie de auto-retrato poético a que chamou, na linha de Villon, Testamento de VGM (2001).
Vasco Graça Moura nasceu no Porto, a 3 de Janeiro de 1942, em casa dos seus avós maternos, na Foz do Douro. Fez os dois primeiros anos da primária em casa, estudando com uma professora inglesa, e frequentou depois o Colégio Brotero, onde se manteve até ao final do secundário.
Matriculou-se depois em Direito, na Universidade de Lisboa, e é ainda estudante quando publica, em 1963, numa edição de autor, o seu livro de estreia, Modo Mudando. Nos últimos anos da licenciatura, usufruiu do estatuto de aluno voluntário porque arranjara emprego numa conserveira de Matosinhos. Era correspondente de línguas estrangeiras, e não deixa de ter graça essa afinidade biográfica com Fernando Pessoa, que nunca será capaz de admirar e a quem, por (significativa) piada, chamará um dia "o poeta Aleixo da razão".
Concluída a licenciatura em 1966, dedicou-se à advocacia, que teve de interromper para cumprir o serviço militar obrigatório. Passou trinta e nove meses na tropa, numa altura em que era já casado e pai de dois filhos. Divorciou-se da sua primeira mulher, Maria Fernanda Sá Dantas, no início dos anos 80, e voltou a casar-se mais duas vezes, primeiro com a ensaísta Clara Crabbé Rocha [filha de Miguel Torga e de Andrée Crabbé Rocha], em 1985, e depois com Maria do Rosário Sousa Machado, em 1987, com quem teve mais duas filhas, enternecidamente referidas em vários poemas dos seus últimos livros.
Embora tenha editado a expensas próprias três livros de poemas ainda antes do 25 de Abril de 1974, é O Mês de Dezembro e Outros Poemas, publicado em 1976 pela Inova, que leva a sua poesia a um público mais vasto.
Ao mesmo tempo que ia exercendo intermitentemente a advocacia, foi director de programas da RTP-2 [1978], director da IN/CM de 1979 a 1989, comissário de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha [1988-1992] e comissário-geral da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, funções que exerceu de 1988 até ao final de 1995, quando pôs o lugar à disposição do recém-empossado primeiro-ministro António Guterres, que o substituiu por António Hespanha. Integrou ainda o conselho de opinião da RTP, o conselho directivo da Fundação Luso-Americana, o conselho-geral do Instituto Camões e dirigiu o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Gulbenkian [sucedendo a Vergílio Ferreira, entre 1996 e 1999].
Eleito para o Parlamento Europeu nas listas do PSD em 1999, cumpriu dois mandatos como eurodeputado. Em Janeiro de 2012 foi nomeado presidente do Centro Cultural de Belém, uma decisão polémica e que levou à demissão do conselho directivo, em protesto contra as razões invocadas para a não recondução de António Mega Ferreira. Mas entre os que defenderam a escolha, elogiando as qualidades de Graça Moura para o cargo, contou-se a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de Lima, que nomeara o seu antecessor.
Na homenagem de Janeiro [2014] na Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva, presidente da instituição, salientou o papel central do poeta na vida cultural portuguesa dos últimos quarenta anos e acrescentou que Graça Moura "é digno de partilhar a galeria dos grandes vultos da Renascença". E o ensaísta Eduardo Lourenço, organizador do colóquio, falou do "homem de acção" e do "humanista" que sempre se quis ver implicado na vida do seu país. "O mundo de Vasco é o mundo todo com o seu mistério e o seu enigma insondáveis", disse Lourenço. "É um teatro-mundo de configuração barroca e iluminista" em que o autor, "consciente de que vivemos no Ocidente uma espécie de noite de Deus", continua a ser um europeísta convicto, e que nunca lê Portugal numa perspectiva complexada em relação à Europa.

                        LUÍS MIGUEL QUEIRÓS,
                        (in jornal "Público", 28 Abr. 2014)


Contam-se em mais de quarenta os poemas de Vasco Graça Moura que, até à data da morte, foram transpostos para canção e gravados em disco, alguns por mais do que um intérprete. Pois, por incrível que pareça, nem um – um sequer – desses espécimes figura na 'playlist' da Antena 1! O falecimento do insigne poeta e tradutor bem podia ter sido o pretexto para se colmatar a lacuna, mas decorrido um mês sobre a triste notícia, constata-se que está «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes». Os ouvintes/pagantes da contribuição do audiovisual perguntam: é desta forma negligente, desleixada e preguiçosa que a rádio pública cumpre a sua obrigação de divulgar os autores que mais validamente contribuíram para o nosso património poético-musical?
Não podendo contemporizar com tão condenável atitude, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma mão-cheia de poemas cantados que têm a assinatura de Vasco Graça Moura, ora como autor (a maioria), ora como adaptador e tradutor.
Antes, e em complemento ao artigo acima transcrito, faculta-se a audição de duas edições do programa "Agora... Acontece!" em que Carlos Pinto Coelho esteve à conversa com Vasco Graça Moura e ainda o documentário radiofónico sobre o autor e cidadão realizado por Ana Aranha para a série "Vidas Que Contam".


"Agora... Acontece!" N.º 262, de 16 Abr. 2004



Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a respeito da sua actividade de deputado no Parlamento Europeu [a partir de 27':58"]


"Agora... Acontece!" N.º 286, de 02 Ago. 2004



Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a propósito da sua tradução d' "As Rimas", de Francesco Petrarca (Bertrand Editora, 2003) [a partir de 05':58"]


"Vidas Que Contam", de 25 Jun. 2013
http://www.rtp.pt/play/p328/e121512/vidas-que-contam

Documentário radiofónico sobre Vasco Graça Moura; autoria e realização de Ana Aranha



O Atol dos Amores



Poema: Vasco Graça Moura (in "Os Rostos Comunicantes", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984; "Poesia 1963/1995", Lisboa: Quetzal Editores, 2007 – p. 313)
Música: Jorge Salgueiro
Intérprete: Negros de Luz* (in CD "Canções da Inquietação", Foco Musical, 1998; CD "10 Anos de Inquietação", Tradisom, 2005)


O atol dos amores
é uma porção de terra rodeada
de amor por todos os lados?
uma porção de amor rodeada
de terra por todos os lados?
rodeada de água?
rodeada?
ah, todo o amor é árduo a humano trato
e se interroga e ninguém
é uma ilha
onde se caça. Apenas
se conhece asperamente
seu rodeado mapa de coral. Apenas
contra a morte
a ilha, a redondilha.


* Negros de Luz:
Juliana Telmo – voz (soprano)
Dolores de Matos – voz (contralto)
Carlos Ançã – voz (tenor)
Carlos Cóias – voz (baixo)
Óscar Mourão – piano
António Barbosa – violino
Paulo Viana – violino
Susana Cordeiro – violeta
Carlos Faria – violoncelo
José Carinhas – percussão

Direcção musical – Jorge Salgueiro
Produção executiva – Miguel Pernes
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores, de Janeiro a Maio de 1998
Gravação, misturas e produção – Zé Vasco, António Pinheiro da Silva e Jorge Salgueiro



Poetas de Lisboa



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 18; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 196)
Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira": CD 2, EMI-VC, 1999)




É bom lembrar mais vozes pois Lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso do Cesário
e alguma em ironias do Pessoa

Para cada gaivota há um do O'Neill
para cada paixão um do David
e há Pedro Homem de Mello que divide
entre Alfama e Cabanas seu perfil

E há também o Ary e muitos mais,
entre eles o Camões e o Tolentino,
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

Muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso vem asinha
assim do coração para a garganta

Que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa


* Carlos do Carmo – voz
Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo)
Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito)
José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo)
Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito)
José Elmiro Nunes – baixo acústico

Concepção musical – Carlos do Carmo
Produção – Alfredo Almeida
Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998
Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada
Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Nasceu Assim, Cresceu Assim



Poema: Vasco Graça Moura (excerto de "Genealogia") [texto integral >> abaixo]
Música: Fernando Tordo
Intérprete: Carlos do Carmo* (in CD "Nove Fados e Uma Canção de Amor", Mercury/Universal, 2002)




Talvez a mãe fosse rameira de bordel
talvez o pai um decadente aristocrata
talvez lhe dessem à nascença amor e fel
talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata

talvez o tenham educado sem maneiras
entre desordens, navalhadas e paixões
talvez ouvisse vendavais e bebedeiras
e as violências que rasgavam corações

talvez ardesse variamente em várias chamas
talvez a história fosse ainda mais bizarra
no desamparo teve sempre duas amas
que se chamavam a Viola e a Guitarra

pois junto delas já talvez o reconheçam
talvez recusem dar-lhe o nome de Enjeitado
e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam
nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado


* Carlos do Carmo – voz
Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola
Fernando Araújo – viola baixo acústica

Arranjos – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha e Carlos Manuel Proença
Produção – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha, Carlos Manuel Proença e Nuno Faria
Consultadoria de produção – Alfredo Almeida
Produção executiva – Nuno Faria / Condado Azul, Lda.
Coordenação de edição – Paula Homem / Universal Music Portugal
Gravação – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Setembro e Outubro de 2002
Assistente – Pedro Ferreira
Misturas – Fernando Abrantes, Nuno Faria e Alfredo Almeida, nos Estúdios MDL
Masterização e edição digital – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL



Genealogia

(Vasco Graça Moura, in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 70-71; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 241-242)


Talvez a mãe fosse puta de bordel
talvez o pai um decadente aristocrata
talvez lhe dessem à nascença amor e fel
talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata

talvez o tenham educado sem maneiras
entre desordens, navalhadas e paixões
talvez ouvisse vendavais e bebedeiras
e as violências que rasgavam corações

talvez crescendo tenha visto que o destino
era a palavra que melhor compreendia
na sem-razão do seu sentido genuíno
ao abandono, isso era certo, assim crescia

talvez mais tarde solidão, erro, saudade
e má fortuna, amor ardente, amarga sina
viessem dar à sua voz a qualidade
do desespero e o timbre escuro da surdina

sofria muito, muitas vezes delirando,
talvez então cantasse rouco um amor louco
bem poucas vezes soube amar em fogo brando
e muitas vezes tanto amar sabia a pouco

talvez ardesse variamente em várias chamas
talvez a história fosse ainda mais bizarra
no desamparo teve sempre duas amas
que se chamavam a Viola e a Guitarra

pois junto delas já talvez o reconheçam
talvez recusem dar-lhe o nome de Enjeitado
e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam
nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado



Morrer de Ingratidão



Poema: Vasco Graça Moura
Música: António Victorino d'Almeida
Intérpretes: Maria João Pires* & Carlos do Carmo (in CD "Maria João Pires / Carlos do Carmo", Universal, 2012)




Vou sempre a jogo quando me convidas
e apenas sei que perco sempre a mão
há no baralho amor e solidão
e atraiçoa-me o tempo às escondidas.

As coisas sendo assim são o que são:
com gaivotas de sombra repetidas
e as cartas todas já distribuídas,
eu apostei a alma e o coração.

As ilusões passaram das medidas
e em noites tresloucadas de paixão
trazes um cheiro a fado e a perdição
e dás cabo de mim e não duvidas.

Nessas linhas que tens na tua mão
há estrelas cadentes esquecidas
e é na sina febril das nossas vidas
que eu vou morrer da tua ingratidão.


* Maria João Pires – piano
Carlos do Carmo – voz

Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012
Engenheiro de gravação – Joaquim Monte
Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio



Rosa Nocturna



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 43-44; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 218-219)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Ana Sofia Varela* (in CD "Ana Sofia Varela", EMI-VC, 2002)




Dei-te uma rosa e no espelho
entre a sombra e o vermelho
estranhaste o seu clarão
agora só a debrua
a luz irreal da Lua
no vago da escuridão

nela vi quanto dizias,
davas, rias, prometias
vão murmúrio, vão rumor
louca, louca esta existência
tresloucada incandescência
que o sangue lhe vinha pôr

e era tão intensa a vida
que a fugaz rosa colhida
já nem no espelho perdura
fez-se rosa em desalento
que a noite mesmo sem vento
só de a tocar desfigura

vão-lhe as pétalas caindo
e à medida que fugindo
a Lua desaparece
e a manhã quando desperta
já só vê a forma incerta
de uma réstia que estremece

[instrumental]

triste vida a que me afoite
a fazer de cada noite
uma flor, uma quimera
mas rosa, a rosa terás
outra e outra e outra atrás
da que morre à tua espera


* Ana Sofia Varela – voz
Mário Pacheco – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola
Paulo Paz – contrabaixo

Arranjos – Mário Pacheco
Gravado e misturado por João Martins, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, de Janeiro a Maio de 2001
Assistentes – Artur David, Luís Caldeira
Masterizado por Joe Fossard, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Crónica



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 16; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 194)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Eram barcos e barcos que largavam
fez-se dessa matéria a nossa vida
marujos e soldados que embarcavam
e gente que chorava à despedida

ficámos sempre ou quase ou por um triz
correndo atrás das sombras inseguras
sempre a sonhar com índias e brasis
e a descobrir as próprias desventuras

memória avermelhada dos corais
com sangue e sofrimento amalgamados
se rasga escuridões e temporais
traz-nos também nas algas enredados

e ganhou-se e perdeu-se a navegar
por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar
tão devagar nas rodas do destino

que ou nós nos encontramos ou então
ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão
sem que o canto sequer nos sobreviva

[instrumental]

e ganhou-se e perdeu-se a navegar
por má fortuna e vento repentino
e o tempo foi passando devagar
tão devagar nas rodas do destino

que ou nós nos encontramos ou então
ficamos uma vez mais à deriva
neste canto que é nosso próprio chão     | bis
sem que o canto sequer nos sobreviva   |


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – 1.ª guitarra portuguesa
Bernardo Couto – 2.ª guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Ficção e Realidade



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 55; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 228)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Ela cantava o fado e de repente
fez-se na tasca enorme zaragata:
chegara o seu amante da fragata
e não gostou de ouvi-la tão ardente

e ao ver que os olhos dela se cravavam
nos olhos de um rufia devagar
a cena foi de faca e alguidar
como depois os outros relatavam

calaram-se o guitarra e o viola
e os mais à meia-luz emudeciam
pois só passos felinos se mediam
no lampejar riscado a ponta e mola

é quando um deles cambaleia e vence-o
a golfada fatal de sangue e vinho
tingindo peito, mangas, colarinho,
e a quebrar num soluço esse silêncio

já não há casos destes na cidade
e eu já não sei quem estendeu a mão
mas num golpe certeiro ao coração
tornou-se esta ficção realidade

[instrumental]

já não há casos destes na cidade
e eu já não sei quem estendeu a mão
mas num golpe certeiro ao coração
tornou-se esta ficção realidade


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Sinais de Cinza



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 22-23; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 199-200)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


No beco abandonado
sem horas que distinga
com letra que se vinga
do sangue atormentado
vai inscrevendo o fado
na trémula restinga
do corpo macerado
e a pena é uma seringa

quase em andrajos nua
no olhar parado voga
torpor de asas de droga
na palidez da sua
face de quem se afoga
chupou-lhe o rosto a lua
sonâmbula flutua
e nada aos deuses roga

tão longe a juventude
em cinzas deslembrada,
e tão desfigurada
ajude ou desajude
já não lhe vale de nada:
mesmo que a sombra mude
na sombra se degrada
sem que anjo algum a escude

menina e moça assim
em casa de seus pais
criada entre alecrim
e rosas no jardim
levaram-na os sinais
das luzes irreais
agora é quase o fim
que a vida estava a mais

[instrumental]

menina e moça assim
em casa de seus pais
criada entre alecrim
e rosas no jardim
levaram-na os sinais
das luzes irreais
agora é quase o fim
que a vida estava a mais


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – 1.ª guitarra portuguesa
Bernardo Couto – 2.ª guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Casario



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 19; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 197)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Em Lisboa eu prefiro o casario
que se narcisa visto da outra banda
no espelho às vezes turvo deste rio
na limpidez do rio às vezes branda

é entre o Mar da Palha e o Bugio
que o renque das fachadas se desmanda
em tons de porcelana ao desafio
em cada patamar, cada varanda

e a luz de água e azul a derramar-se
vem envolver-lhe o vulto reflectido,
dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se
como um banho lustral e desmedido

é véu de gaze leve o seu disfarce
mas é tão ténue e frágil o tecido
que pode acontecer que ainda o esgarce
um voo de gaivotas esquecido

então seu corpo sob o céu rasgado
terá uma outra luz densa e leitosa
translúcida nudez do compassado
coração da cidade branca e rosa

[instrumental]

e a luz de água e azul a derramar-se
vem envolver-lhe o vulto reflectido,
dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se
como um banho lustral e desmedido

então seu corpo sob o céu rasgado
terá uma outra luz densa e leitosa
translúcida nudez do compassado
coração da cidade branca e rosa

[instrumental]


* António Pinto Basto – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa e viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Fado da Sereia



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 68-69; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 239-240)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Ela era cantadeira e um caso sério
rainha sem rival no seu ofício
e já tinha levado só por vício
três faias e um banqueiro ao cemitério

a voz despia-a toda se cantava
no arfar do xaile preto e do decote
tinha a força nocturna de um archote
e a raiva e a revolta de uma escrava

na boca o seu vermelho era sangrento
nas mãos curvava as unhas como garras
nas ancas tinha a curva das guitarras
as fúrias no cabelo eram do vento

os olhos eram de aço se os abria
cravando-os em incautos corações
e ao serem mais funestas as paixões
todo o seu corpo branco estremecia

cantava como o fogo que devasta
as almas e as cidades de repente
chamavam-lhe "a sereia" toda a gente
e era como a maré quando ela arrasta

morreu de um desespero de facadas
no peito, nas carótidas, na cara,
deu-lhas alguém que um dia atraiçoara
e preferiu as mãos ensanguentadas

não vi mulher mais bela em toda a vida
e em forma de mulher mais tempestade
nem voz ouvi que fosse mais verdade
nem verdade a cantar mais incontida

baixou por sua vez ao cemitério
rainha sem rival no seu ofício
o que era de contar agora disse-o
fica por desvendar o seu mistério

[instrumental]

baixou por sua vez ao cemitério
rainha sem rival no seu ofício
o que era de contar agora disse-o   | bis
fica por desvendar o seu mistério    |


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – 1.ª guitarra portuguesa
Bernardo Couto – 2.ª guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Fado do Conhecimento



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 42; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 217)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


                    «Que afagos tão suaves, que ira honesta»
                                 LUÍS DE CAMÕES
                                 (estrofe 83 do Canto IX
                                 d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)

Fiz no teu corpo à noite a travessia
de mares e céus e terras e vulcões
e em breve rodopio as estações
detinham-se esquecidas e foi dia
fiz no teu corpo à noite a travessia

a memória das praias e florestas
perpassou-me na pele e entranhou-se
como um suave afago que assim fosse
espuma que ficou de iras honestas
a memória das praias e florestas

e ao despertar de tanta sonolência
formou-se devagar esta canção
para entreter de novo o coração
tão paciente em sua impaciência

até que sendo noite eu atravesso
uma outra vez o mundo, o mar, o vento,
amar é sempre mais conhecimento
e conhecer é tudo o que eu te peço.

[instrumental]

E ao despertar de tanta sonolência
formou-se devagar esta canção
para entreter de novo o coração
tão paciente em sua impaciência

até que sendo noite eu atravesso
uma outra vez o mundo, o mar, o vento,
amar é sempre mais conhecimento    | 3x
e conhecer é tudo o que eu te peço.   |


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – 1.ª guitarra portuguesa
Bernardo Couto – 2.ª guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Toada de Goa



Poema: Vasco Graça Moura (in "O Concerto Campestre", Lisboa: Quetzal Editores, 1993; "Poesia 1963/1995", Lisboa: Quetzal Editores, 2007 – p. 469-470)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Com um nó na garganta
com o sarro de tanta
noitada de Lisboa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

pode ser o resgate
do coração que bate
descompassado à toa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

pode ser uma espuma
de já coisa nenhuma
só lembrança que voa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

pode ser o inseguro
fogo-fátuo no escuro
lá no mastro da proa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

pode ser este brusco
silêncio ao lusco-fusco
que nas almas ressoa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

entre azul e lilás
pode ser o fugaz
tempo que não perdoa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

nesta dura deriva
da memória cativa
que a saudade magoa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

[instrumental]

amanhecer em Goa    | bis
entardecer em Goa    | 

entre azul e lilás
pode ser o fugaz
tempo que não perdoa
amanhecer em Goa
entardecer em Goa

nesta dura deriva
da memória cativa
que a saudade magoa
amanhecer em Goa
anoitecer em Goa


* António Pinto Basto – voz
José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa
Francisco Gonçalves – viola
Armando Figueiredo – viola baixo



Fado da Corda Bamba



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 58-59; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 230-231)
Música: José Campos e Sousa
Intérprete: António Pinto Basto* com Maria João Quadros (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003)


Se você me deixou na corda bamba
e se eu me estatelei mordendo o pó
não sei se isso é um fado ou se é um samba
se mantém a toada ou se descamba
sei que se foi embora e fiquei só

não sei se isso é um fado ou se é um samba
não sei se isto é um fado ou se é um samba

se é um fado deixaste-me no Tejo
se é samba foi no Rio de Janeiro
duas medidas para um só desejo
em fado ou samba assim no duplo ensejo
da mesma língua a dar-lhe um só roteiro

duas medidas para um só desejo
duas medidas para um só desejo

antes fique eu a meio do caminho
da nossa vida para recordá-la
ou mais depressa ou mais devagarinho
poderei sussurrá-la num fadinho
ou num sambinha doce murmurá-la

ou mais depressa ou mais devagarinho
ou mais depressa ou mais devagarinho

se é fado direi "tu" mas imagina
que se é samba prossigo com "você"
em qualquer caso nunca desafina
sujeito e predicado são rotina
de em fado ou samba perguntar porquê

em qualquer caso nunca desafina
em qualquer caso nunca desafina

mas se você me deixou na corda bamba
e se eu me estatelei mordendo o pó
não sei se isso é um fado ou se é um samba
se mantém a toada ou se descamba
sei que se foi embora e fiquei só

e canto o mesmo fado e o mesmo samba

[instrumental]

em qualquer caso nunca desafina

ai se você me deixou na corda bamba
e se eu me estatelei mordendo o pó
não sei se isso é um fado ou se é um samba
se mantém a toada ou se descamba
sei que se foi embora e fiquei só

e canto o mesmo fado e o mesmo samba
e canto o mesmo fado e o mesmo samba

se você me deixou na corda bamba
e se eu me estatelei mordendo o pó
não sei se isso é um fado ou se é um samba
se mantém a toada ou se descamba
sei que se foi embora e eu fiquei só


* António Pinto Basto – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Armando Figueiredo – viola e viola baixo
Cajó (Carlos Jorge Vales) – percussão

Produção e arranjos – José Campos e Sousa
Arranjo de "Fado da Corda Bamba" – Armando Figueiredo
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores - Oeiras, em Outubro e Novembro de 2002
Engenheiro de som – Joel Conde
Masterização – Joe Fossard



Se a alma te reprova



Poema: William Shakespeare; trad. Vasco Graça Moura (ligeiramente adaptado) [tradução ipsis verbis >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)




Faz só meu nome teu amor e amor;
e amas-me então pois eu te chamo Ardor.

Se a alma te reprova eu venha perto,
jura à cega, que o teu ardor eu fosse;
ardor tem, como saber, sítio certo
e assim me enchas, amor, medida doce.

Ardor enche de ardor e amor teu cofre,
ai, lardeia-o de ardor!, e ardor apronto
e bem prova que em vazadouro sofre:
se o número é grande, eu só não conto.

Faz só meu nome teu amor e amor;
e amas-me então pois eu te chamo Ardor.

Então que eu passe em grupo sem ser visto,
sendo um nas contas dessa feitoria;
tem-me em nada, se te agradar registo
de que este nada em ti é doçaria.

Faz só meu nome teu amor e amor;
e amas-me então pois eu te chamo Ardor.

Faz só meu nome teu amor e amor;
e amas-me então pois eu te chamo Ardor.


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo



Se a alma te reprova eu venha perto

(William Shakespeare; trad. Vasco Graça Moura, in "Os Sonetos de Shakespeare: Versão Integral", Soneto n.º 136, Lisboa: Bertrand Editora, 2002 – p. 283)


Se a alma te reprova eu venha perto,
jura à cega, que o teu ardor eu fosse;
ardor tem, como sabes, sítio certo
e assim me enchas, amor, medida doce.
Ardor enche de ardor e amor teu cofre,
ai, lardeia-o de ardor!, e ardor apronto
e bem prova que em vazadouro sofre:
se o número é grande, eu só não conto.
Então que eu passe em grupo sem ser visto,
sendo um nas contas dessa feitoria;
tem-me em nada, se te agradar registo
de que este nada em ti é doçaria.
        Faz só meu nome teu amor e amor;
        e amas-me então pois eu me chamo Ardor.



Soneto Destruído



Poema: Vasco Graça Moura (de "Quatro Sonetos", in "O Retrato de Francisca Matroco e Outros Poemas", Lisboa: Quetzal Editores, 1998; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 308)
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)




Talvez logo na berma de uma estrada
um par se beije transtornadamente
e o destino os separe de repente
entre as duas e as três da madrugada

talvez a lua fria os desinvente
e só lhes traga sombras e mais nada
e por saída só lhes dê a entrada
para o túnel da noite à sua frente

[instrumental]

talvez então as faces se desolem
talvez depois em cinza e solidão
a aurora ponha um luto, talvez colem
as nuvens o seu dorso rente ao chão

talvez por não ousar ninguém mereça
o que viveu. Talvez não amanheça.


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Miguel Carvalhinho – guitarra clássica
Fernando Maia – viola baixo

Arranjos e produção – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002



Cristal (Tinha Algum Vinho Ainda)



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 8-9; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 53)
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Ulisses", Emarcy/Universal Music S.A.S. France, 2005)


[instrumental]

Tinha algum vinho ainda o copo que atirei
por cima do meu ombro e foi cair ao Tejo
de madrugada, amor, e havia esse lampejo
do fogo em teu olhar a impor-me a sua lei

da minha sombra à tua, em sombras pelo cais
tinha um som inda rouco o fado que eu cantava
tão perto já de ti, não sei se respirava,
nem se era para sempre ou para nunca mais

meu amor, meu amor, meu amor, por quanto me dizias
estranho murmurar levado pelo vento
por quanto era paixão e agora é desalento
o meu rosto estremece em águas tão sombrias

por quanta embriaguez então nos consumiu
fiquei como o cristal, mas creio que esqueceste,
do copo em que eu bebi e tu também bebeste
que foi cair ao rio e nele se partiu

meu amor, meu amor...


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Ricardo J. Dias – piano
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo

Arranjos – Custódio Castelo e Ricardo J. Dias
Produção – Custódio Castelo
Co-produção e programação – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music S.A.S. France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Junho a Setembro de 2004



Tango



Poema: Vasco Graça Moura (in "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 92-93)
Música: Mário Laginha
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Kronos", Emarcy/Universal Music Classics France, 2009)


Deixa-me enlaçar-te
quando a noite cai
quando os nossos passos
cruzam o destino,
quando em toda a parte
de entre as sombras sai
em soluços baços
choro repentino.

Pobre coração
tinto de amargura,
no vaivém mais triste
já foste e vieste.
Se na escuridão
tanta luz impura
noutros olhos viste,
porque o não disseste?

Ah, desesperado,
quanta hora perdida
foge a todo o pano
hoje em meu redor.
Tango incendiado
pela minha vida,
voz que em mim engano
mas que sei de cor,

luar entre os ramos,
aço de um punhal,
noite perfumada
de cruéis lampejos,
corpos que enlaçamos
nessa hora fatal,
alma entrecortada
de adeus e desejos.

Pobre coração,
tinto de amargura,
no tango mais triste
já foste e vieste.
Se na escuridão
tanta luz impura
noutros olhos viste,
porque o não disseste?


* Cristina Branco – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Bernardo Moreira – contrabaixo

Arranjos e produção musical – Ricardo J. Dias
Produção – Yann Ollivier / Universal Music Classics France
Produção executiva – Olga Carneiro / ONC Produções
Gravado e masterizado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro e Dezembro de 2008



Soluço



Poema: Vasco Graça Moura
Música: Pedro Moreira
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Não Há Só Tangos em Paris", Emarcy/Universal Music Classics & Jazz France, 2011)




Aqui me tens agora toda nua
deitada junto a ti como se fosse
branco areal onde se espraia a lua
e o marulhar das vagas é mais doce.

Sou estrela-do-mar e sou molusco
sou mucosa e cetim de lés-a-lés,
sou de dor e prazer e sou um brusco
redemoinho de algas e marés.

Sou a ninfa que vai desgovernada
feita espuma a entrar no temporal,
sou vulcão, carne viva, uivo e golfada
de amor e de agonia em espiral.

Sou garras, dentes, língua, turbilhão
da lava de carícias nas veredas
de me enroscar em ti e ao fim, então,
sou um longo soluço em labaredas.


* Cristina Branco – voz
João Paulo Esteves da Silva – piano

Produção – Pedro Moreira
Coordenação – Paulo Ochôa e Olga Carneiro / ONC Produções Culturais
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music Classics & Jazz France
Gravado por Nelson Carvalho e Tiago de Sousa, em Setembro de 2010
Misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Masterizado por Andy Vandette, no Masterdisk, Nova Iorque



Presságios de Alfama



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 80-81; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 97-98)
Música: Carlos Paredes ("António Marinheiro – Tema da Peça", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)




Névoa e partida
vaivém das vagas
luzes no mar

vela perdida
vozes pressagas
a vêm tocar

vozes pressagas
quanto agoirar

luz esquecida
como te apagas
a tremular

ó louca vida,
como naufragas
a navegar

vozes pressagas
quanto agoirar

morre a gaivota
doente
e à tua rota
vai rente
num triste trino
a chama
o teu destino,
Alfama

morte que sem olhos fita
pelo mar vem a desdita

pó de saudade,
cinzas sem lume
escuridão

e tempestade
noite e negrume
no coração

noite e negrume
no coração

às cegas vou
e não sei
quem violou
esta lei
quem poluiu
o meu linho
quem me impediu
o caminho

meu destino já marcado
erros meus que são meu fado

[instrumental]

meu destino já marcado
erros meus que são meu fado



Lamento das Rosas Bravas



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 82-83; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 99-100)
Música: Carlos Paredes ("Nas Asas da Saudade", in CD "Asas Sobre o Mundo", Philips/PolyGram, 1989)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)




Asas de um lenço
no azul imenso
ave que vai voar
nave no alto mar

agora que partiste
fica onde moravas
esta valsinha triste
entre as rosas bravas

e no fim
do lamento
no jardim
sopra o vento

vida assim
desolada,
névoa em mim,
sombras, nada.

Vem à toa
a saudade
e magoa
e vibra no meu peito,
chega e parte
a chamar-te
meu amor, ó meu amor perfeito

e se um dia nalgum voo repentino
a saudade for nas asas do destino
vai correr mundo
e levar o coração
vagabundo
à tua mão

[instrumental]

agora que partiste
fica onde moravas
esta valsinha triste
entre as rosas bravas

e no fim
do lamento
no jardim
sopra o vento

vida assim
desolada,
névoa em mim,
sombras, nada.

[instrumental]

Asas de um lenço
no azul imenso
ave que vai voar
nave no alto mar



Tia Minha Gentil



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 88-89; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 104)
Música: Carlos Paredes ("Canção para Titi", in CD "Canção para Titi: Os Inéditos de 1993", EMI-VC, 2000)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)


[instrumental]

Tia minha
tão gentil que me educaste,
da minha vida adivinha
o que sempre adivinhaste

tia minha,
que em menino me cuidaste,
e da manhã à tardinha,
eras flor curvando a haste

tia minha,
em pequeno acompanhaste
tu sozinha, tu sozinha,
tanta dor que dissipaste

tia minha,
cresci, sofri, que contraste,
tia minha vem asinha,
saber como me lembraste

tia minha,
por muito que a vida arraste,
se eras outra mãe que eu tinha,
mãe como ela ficaste

tia minha,
não mereces que te baste
esta guitarra à noitinha:
meu coração escutaste

tia minha,
que em menino me cuidaste,
e da manhã à tardinha,
eras flor curvando a haste

tia minha,
em pequeno acompanhaste
tu sozinha, tu sozinha,
tanta dor que dissipaste

[instrumental]

tia minha,
não mereces que te baste
esta guitarra à noitinha:
meu coração escutaste



Ah Não II



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 90-91; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 105)
Música: Carlos Paredes ("Asas Sobre o Mundo", in CD "Asas Sobre o Mundo", Philips/PolyGram, 1989)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)


[instrumental]

Meu amor, meu amor,
foste-me sonho e pão,
foste febre e fervor,
razão e sem razão,

e sede e sabor
das manhãs de verão,
mas minha prisão,
ah não

e em tanto calor
nada foi em vão,
mas minha prisão,
ah não

[instrumental]

meu amor, meu amor,
não te peço perdão,
não te peço favor,
não te peço aversão,

não te peço dor,
nem a contrição,
nem o coração,
ah não

agora ao sol-pôr
meus olhos se vão
e não voltarão
ah não

agora ao sol-pôr
meus olhos se vão
e não voltarão
ah não



Canção de Alcipe



Poema: Marquesa de Alorna [texto original >> abaixo], adaptado por Vasco Graça Moura
Música: Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues, para o filme "Bocage" (1936), de José Leitão de Barros; arr. Carlos Paredes (grav. 1971, in CD "Na Corrente", EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)




Sozinha no bosque fui
com os meus tristes pensamentos,
lá calei minhas saudades,
e fiz trégua aos meus tormentos.

Olhei então para a lua
que as sombras já rasgava,
e no tremular das águas
seus raios soltava,
seus raios soltava.

Nessa torrente
da despedida
vejo, assustada,
a minha vida.

Do peito as dores
iam cessar,
voa a tristeza
torna o meu penar.

Do peito as dores
iam cessar,
tornam tristezas
a voar.

Sozinha no bosque fui
com os meus tristes pensamentos,
lá calei minhas saudades,
e fiz trégua aos meus tormentos.

Olhei então para a lua
que as sombras já rasgava,
e no tremular das águas
seus raios soltava,
seus raios soltava.

[instrumental]

Nessa torrente
da despedida
vejo, assustada,
a minha vida.

Do peito as dores
iam cessar,
voa a tristeza
torna o meu penar.

Do peito as dores
iam cessar,
tornam tristezas
a voar.

[instrumental]



CANTIGA

(Marquesa de Alorna, 1750-1839, in "Poetas do Século XVIII", selecção, prefácio e notas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa: Seara Nova, 1967 – p. 103-104)


Sozinha no bosque
com meus pensamentos,
calei as saudades,
fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.

Naquela torrente
que vai despedida
encontro, assustada,
a imagem da vida.

Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a penar.



Horas de Breu



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 92-93; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 106-107)
Música: Carlos Paredes ("Melodia N.º 2", in LP "Guitarra Portuguesa", Columbia/VC, 1967, reed. EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)




No dia
de eu me ir embora
não sei se chora
quem me prendeu

na hora
da despedida
a minha vida
quase morreu

agora
só corre a água
da mágoa
que amor me deu

e mora
no coração
um vão
só de breu

na rua
de madrugada
esta balada
triste gemeu

e a lua
quando tentava
ver quem cantava
viu que era eu

agora
só corre a água
da mágoa
que amor me deu

e mora
no coração
um vão
só de breu

[instrumental]

agora
só corre a água
da mágoa
que amor me deu

e mora
no coração
um vão
só de breu

[instrumental]



Valsa das Sombras



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 94-95; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 108-109)
Música: Gonçalo Paredes e Artur Paredes; arr. Carlos Paredes ("Valsa", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)




Agora esta valsa na lenta espiral
do baile de sombras em que às vezes danças
quando a noite cai e é de pedra e cal
no espelho vazio das minhas lembranças,

agora esta valsa no avesso dos dias,
na melancolia das suas oitavas,
repete de leve nas horas sombrias
as loucas palavras que me murmuravas

agora esta valsa quando te atravessas
nesta solidão envolta num xaile
lembra-me uma a uma as tuas promessas
na luz apagada deste fim de baile

qualquer valsa agora são passos em volta,
na vida sem rumo o adeus é cruel,
galopam as nuvens deixadas à solta,
ficou-me o deserto, ainda sabe a mel

vejo o teu vulto e é muito tarde
nesta distância sem regresso
talvez a vida me acobarde
se à tua ausência eu me confesso

nem saberei o que me espera
nem que rosário de amargura
nem se é inverno a primavera
nem se este amor se fez loucura

[instrumental]

agora esta valsa na lenta espiral
do baile de sombras em que às vezes danças
quando a noite cai e é de pedra e cal
no espelho vazio das minhas lembranças,

qualquer valsa agora são passos em volta,
na vida sem rumo o adeus é cruel,
galopam as nuvens deixadas à solta,
ficou-me o deserto, ainda sabe a mel

[instrumental]

nem saberei o que me espera
nem que rosário de amargura
nem se é inverno a primavera
nem se este amor se fez loucura



Tim-Tim por Tim-Tim



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 86-87; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 102-103)
Música: Carlos Paredes ("Canção", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)


Do rio ao mar
verde cor
branca espuma vã

não vás cuidar
minha flor
na luz de amanhã

hoje é sem par
e o sol-pôr
tem na lua a irmã

vai devagar
meu amor
feito de hortelã

como dizer
destas nuvens na sede?

como entender
o princípio e o fim?

nesta espiral
do viver
dentro da canção

há um sinal
a bater
só no coração

sangue fatal
a correr
para a solidão

e é musical
a doer
entre o sim e o não

como dizer
entre o não e o sim?

como entender
o princípio e o fim
postos dentro de mim?

postos dentro de mim
e tim-tim por tim-tim?

do rio ao mar
verde cor
branca espuma vã

não vás cuidar
minha flor
na luz de amanhã

hoje é sem par
e o sol-pôr
tem na lua a irmã

vai devagar
meu amor
feito de hortelã

[instrumental]

hoje é sem par
e o sol-pôr
tem na lua a irmã

vai devagar
meu amor
feito de hortelã


* Mísia – voz
Manuel Rocha – violino
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Quinteto de cordas "Camerata de Bourgogne":
Jean-François Corvaisier – 1.º violino
Laurent Lagarde – violoncelo
Alain Pelissier – violeta
Valérie Pelissier – violeta
Pierre Sylvan – contrabaixo
Henri Agnel – cistre (em "Ah Não II")

Arranjos e direcção musical – Henri Agnel
Direcção do projecto – Pascal Bussy / Warner Jazz France
Produção executiva – Igor Szabason / IS Music
Assistente – Laurence Gilles
Gravado no Studio Gam, Waimes (Bélgica), em Junho de 2003
Engenheiro de som – Silvio Soave
Misturas – Silvio Soave, no CATI Audio, Roman (França)



Coração



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 76-77; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 94)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Mísia* (in CD "Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes", Polydor/Universal, 2003)


Coração de mar e vento
que aos corações lanças redes
és perpetuo movimento
na guitarra do Paredes,

pões esperança e amargura,
vibras sombra e luz nas notas,
e em surdina tens gaivotas
de saudade e de aventura,

coração tumultuário,
ó faminto coração,
solidário e solitário,
a prender nuvens ao chão,

coração da melodia,
coração em que murmuram
sol e lua e se misturam
em funda melancolia,

de tantas fomes e sedes
coração terno e violento,
és perpétuo movimento
na guitarra do Paredes

ó faminto coração,
a prender nuvens ao chão,

[instrumental]

de tantas fomes e sedes
coração terno e violento,
és perpétuo movimento
na guitarra do Paredes


* Mísia – voz
João Paulo Esteves da Silva – piano

Produção – Mísia e João Paulo Esteves da Silva
Produção executiva – Carmo Stichini
Gravado, misturado e masterizado por Joe Fossard, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Fogo Preso



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 44-45; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 73)
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/Naïve/EMI-VC, 2005)


[instrumental]

Quando se ateia em nós um fogo preso,
o corpo a corpo em que ele vai girando
faz o meu corpo arder no teu aceso
e nos calcina e assim nos vai matando

essa luz repentina
até perder alento,
e então é quando
a sombra se ilumina,
e é tudo esquecimento,
tão violento e brando.

Sacode a luz o nosso ser surpreso
e devastados nós vamos a seu mando,
ai nessa prisão o mundo perde o peso
e em fogo preso à noite as chamas vão pairando

e vão-se libertando
fogo e contentamento,
a revoar num bando
de beijos tão sem tento
que não sabemos quando
são fogo, ou água, ou vento,

[instrumental]

a revoar num bando
de beijos tão sem tento,
que perdem o comando
do próprio esquecimento.


* Mísia – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico



Fado do Lugar-Comum



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 34-35; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 68-69)
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailado)
Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/Naïve/EMI-VC, 2005)


Vida amarga a que passei
de infortúnios sem história
governou-a a dura lei
vida amarga a que passei
do amor e da desmemória

tristes palavras ao vento
fui deitando devagar,
sabiam ao meu lamento
tristes palavras ao vento
eram meu jogo de azar

tenho os olhos rasos de água
e em tanta melancolia
como flor feita da mágoa
tenho os olhos rasos de água
nos limos da maresia

a chorar mal reconheço
o coração tão estranho
assim virado do avesso
a chorar mal reconheço
a voz com que o acompanho

meu pobre contentamento
meus nervos então arrase
ao ver momento a momento
meu pobre contentamento
ter falhado, estando quase

ah, fado, és lugar-comum
sustentas-me o coração
sem lhe fazer bem nenhum
ah, fado, és lugar-comum
e pura contradição


* Mísia – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico



Gaivota Doente



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 32-33; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 67)
Música: Mário Pacheco
Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/Naïve/EMI-VC, 2005)




Perguntei ao mar salgado
pela gaivota doente
por seu voo desenhado
à crista das ondas rente

seu bico tocava a espuma
e nas asas transportava
branco estilhaço de bruma
que à luz do sol faiscava

perguntei ao mar salgado
pela gaivota doente

viveu na rosa-dos-ventos
nos halos da maresia
e entre os algodões cinzentos
das nuvens quando as havia

viveu na rosa-dos-ventos

mas o mar já não a espelha
não vem mais à maré vaza
nem às nuvens aparelha
nem o vento é sua casa

nem o vento é sua casa

[instrumental]

perguntei ao mar salgado
pela gaivota doente
por seu voo desenhado
à crista das ondas rente

digo ao mar salgado assim:
nunca mais ninguém a viu
nem voa dentro de mim
porque o meu amor partiu


* Mísia – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico

Arranjos – José Manuel Neto, com colaboração de Carlos Manuel Proença
Conceito e produção artística – Mísia
Produção executiva – Inês Mota / Liberdades Poéticas, Lda.
Gravado nos Estúdios Xangrilá (Lisboa), Studio Plus XXX (Paris), Studio de la Seine (Paris), Audio Spot Studio Digital (Madrid), Gallery Studio (Londres), Todd's Studio (Nova York)
Engenheiro de som – Silvio Soave



Fado de Santa Catarina



Poema: Vasco Graça Moura (versão em quadras) [versão em décimas >> abaixo]
Música: José Fontes Rocha
Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)


Quero a luz leve e vibrante
da Lisboa ribeirinha
fazer menos vida errante
ter, ter uma casa bem minha

casa antiga, casa nova
mas de traça pombalina
meu coração posto à prova
junto a Santa Catarina

ver do alto o rio, espelho
que a certas horas revela
algum quadro do Botelho
a entrar-me pela janela

durante o dia divide-a
fronteira de sombra e luz
marcada por uma orquídea
que num copo de água pus

e se à noite tem perfume
que as rosas rubras lhe dão
a lua dá-lhe um volume
musical de solidão

não é preciso mais nada:
sobre a mesa pão e vinho
a porta fica encostada
empurra-a devagarinho.


* Mísia – voz
Luís Pacheco Cunha – violino



Fado de Santa Catarina

(Vasco Graça Moura, in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 18-19; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 60-61)


No peitoril da janela
uma caprichosa orquídea
verde, castanha, amarela,
sinal da tua perfídia.

Quero a luz leve e vibrante
da Lisboa ribeirinha
quero uma casa bem minha
e a vida menos errante,
quero a gaivota distante
que o meu olhar atropela,
quero o rio que revela
como se fosse um espelho
algum quadro do Botelho
no peitoril da janela.

Quero a traça pombalina
de uma casa antiga e nova,
quero pôr o fado à prova
junto a Santa Catarina.
Já vi que a casa fascina
a Mafalda, a Berta, a Lídia:
quando é de dia divide-a
fronteira de sombra e luz
e num copo de água pus
uma caprichosa orquídea.

Se à noite as rosas lhe dão
um esquisito perfume,
a lua dá-lhe o volume
musical da solidão.
Mas sobre as tábuas do chão
vê-se inda a sombra daquela
orquídea curva e singela,
flor das nossas tentações
e das minhas condições,
verde, castanha, amarela.

E tu alta madrugada
podes vir devagarinho,
sobre a mesa há pão e vinho
e a porta fica encostada,
não é preciso mais nada.
Creio que amas sem insídia,
e a vida é tua, decide-a,
mas se achas que isso a atrasa
fico eu de olhos em brasa,
sinal da tua perfídia.



Fado Inventaire



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 102-103; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 115) [tradução livre >> abaixo]
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailado)
Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)




C'est la chanson de ma vie
entre soleil et brouillard,
entre amour et jalousie,
ce vol pur qui déshabille
une mouette, un regard,

c'est l'endroit et le revers
de l'absence sans retour,
c'est la passion, c'est l'enfer
d'une attente à bout de nerfs,
c'est la mer au point du jour,

c'est le Taje qui murmure
des échos des caravelles,
c'est ta voix à l'embouchure,
l'écume, la déchirure
d'un printemps sans hirondelles.

C'est la blancheur, le parfum
des vieux quartiers de Lisbonne
et la force du destin,
l'ivresse de l'incertain
dans l'âme qui robinsonne.

[instrumental]

Ma légitime défense
mon coeur qui bat en sursaut
la mesure de l'absence,
l'espoir fou, l'impatience
et voilà: c'est le fado...

la mesure de l'absence,
l'espoir fou, l'impatience
et voilà: c'est mon fado...


* Mísia – voz
Ângelo Freire – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico
Daniel Mille – acordeão

Direcção artística – Mísia
Produção executiva – Flavio D'Ancona
Gravação e mistura – Charles De Schutter (Acousti Studio, Paris / Studio Rec'n Roll, Bruxelas)
Masterização – Mike Marsh (The Exchange Mastering)



Fado Inventário

É a canção da minha vida
entre o sol e a neblina,
entre o amor e o ciúme,
este voo puro que desnuda
uma gaivota, um olhar,

é o direito e o avesso
da ausência sem regresso,
é a paixão, é o inferno
duma espera nervosa,
é o mar da aurora,

é o Tejo que murmura
ecos das caravelas,
é a tua voz no estuário,
a espuma, o rasgão
duma primavera sem andorinhas.

É a brancura, o cheiro
dos velhos bairros de Lisboa
e a força do destino,
a embriaguez do incerto
na alma que isolada vive.

Minha legítima defesa
meu coração que bate em sobressalto
a medida da ausência,
a esperança insana, a impaciência
em suma: é o fado...

a medida da ausência,
a esperança insana, a impaciência
em suma: é o meu fado...



Sem Saber



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 84-85; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 101)
Música: Carlos Paredes ("Mudar de Vida – Tema", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Arranjo: Christina Pluhar
Intérprete: L'Arpeggiata* com Mísia (in CD "Mediterraneo", Christina Pluhar/Virgin Classics, 2013)




[instrumental]

Sem saber
porque te amei assim,
porque chorei por mim,

sem saber
com que punhais tu feres,
magoas mais e queres,

sem saber
onde é que estás, nem como,
o que te traz sem rumo,

[instrumental]

sem saber
se tanto amor devora
mais do que a dor que chora,

sem saber
se vais mudar, se então
podes voltar ou não,

sem saber
se em mim mudou a vida,
se em ti ficou perdida.

Sem saber
da solidão depois
no coração dos dois,

[instrumental]

sem saber
quanto me dóis na voz,
ou se há heróis em nós.


* Mísia – voz
Daniel Pinto – guitarra portuguesa
Sandro Daniel – viola de fado
Sarah Ridy – harpa barroca
Margit Übellacker – saltério
Francesco Turrisi – cravo
Boris Schmidt – baixo
Christina Pluhar – tiorba
Direcção musical – Christina Pluhar



Fado da Capicua



Poema: Vasco Graça Moura (in "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 245-246; "Letras do Fado Vulgar", 2.ª edição, Lisboa: Quetzal Editores, 2001)
Música: Carlos Maria Trindade
Intérprete: Anabela* (in CD "Aether", Elec3city, 2005)


[instrumental]

Telefonei-te da rua
32123 urgente
dizes que te deixe em paz
azar o da capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás

Moras no beco da lua
101 lado nascente
mas em casa nunca estás
má sina a da capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás [bis]

É dia 11 a tua
festa e eu não vou lá estar presente
33 anos farás
há sempre uma capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás [bis]

[instrumental]

De 1001 modos flutua
a sonhar-te a minha mente
nas horas boas e más
ansiosa capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás

Mas se o olhar nos desagua
e em meus olhos de repente
o par dos teus se compraz
é bonita a capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás [bis]

É dia 11 a tua
festa e eu não vou lá estar presente
33 anos farás
há sempre uma capicua
que se lê de trás p'ra a frente
e da frente para trás [bis]

[instrumental]


* Anabela – voz
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Miguel Monteiro – viola
José Marino de Freitas – baixo acústico



Toada do Desengano



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 48-49; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 75)
Música: Franklin Godinho (Fado Franklin de Sextilhas)
Intérprete: Mariza* (in CD "Transparente", World Connection/Capitol/EMI-VC, 2005)




[instrumental]

Este amor, este meu fado,
tão vivido e magoado
entre o sim e o todavia,
este amor desgovernado,
marcado a fogo e calcado
em funda melancolia

este amor dilacerado,
este amor que noite e dia
me arrebata e me agonia,
este amor desenganado,
de saudades macerado,
a encher-me a vida vazia,

[instrumental]

este amor alucinado,
este amor que desvaria
entre o luto e a alegria,
sendo assim desencontrado
meu amor desesperado,
que outro amor eu cantaria?


* Mariza – voz
Mário Pacheco – guitarra portuguesa
António Neto – viola
Jorge Hélder – contrabaixo
Paulo Sérgio Santos – clarinete

Produção, arranjos e direcção musical – Jaques Morelenbaum
Produção executiva – Albert Nijmolen, João Pedro Ruela e Paulo Junqueiro
Gravado e misturado nos Estúdios AR, Rio de Janeiro, por Marcelo Sabóia e Pablo Vitório
Assistente de mistura – Bruno Stehling
Masterizado por Ricardo Garcia, nos Estúdios Magic Master, Rio de Janeiro



Era a Noite Que Caía



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 30-31; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 66)
Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição)
Intérprete: Joana Amendoeira & Mar Ensemble* (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)




Era a noite que caía
e na sombra recolhia
o voo das andorinhas.
Era a voz que se calava,
era a dor de ver que estava
sem as tuas mãos nas minhas.

Eram passos que escutei,
que eram teus ainda pensei,
iludiu-me o coração.
Foram pela rua escura
longe da minha amargura
e acompanhei-os em vão.

Fiquei perto da janela,
pus-me a abri-la com cautela,
fiz disfarce da cortina.
Vi então na luz incerta
que a rua estava deserta
e deserta estava a esquina.

Era só eu na escuridão,
era no peito um rasgão,
era já no céu a lua,
que me importa?, à minha porta
a sombra que se recorta
bem pode ainda ser a tua.

[instrumental]

que me importa?, à minha porta
a sombra que se recorta
bem pode ainda ser a tua.


* Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo

Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva
Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música
Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado)
Captação de áudio – Luiz Delgado
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, de Setembro a Outubro de 2008



As Quatro Operações



Poema: Vasco Graça Moura
Música: Pedro Pinhal e Joana Amendoeira
Intérprete: Joana Amendoeira* (in CD "Sétimo Fado", Nosso Fado, 2010)


Fui deitar contas à vida,
fiz as quatro operações;
num instante e de seguida,
tirei certas conclusões.

Comecei pela adição,
porque te amei mais e mais;
se fiz essa soma à mão,
fiz também contas mentais.

Aprendi a tabuada
e vi que multiplicar
era a forma acelerada
de o meu amor aumentar.

Depois vi que subtraía
a tua deslealdade
e o total se reduzia
para menos de metade.

Essa foi a consequência
da mentira repetida
e assim a minha existência
acabava dividida.

E agora não me comove
dar-te uma prova provada:
fiz sempre a prova dos nove
e deu noves fora nada.

[instrumental]

Enfim, não leves a mal
que eu te diga em voz serena:
não tiro a prova real             | 3x
porque já não vale a pena.   |


* Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo
Filipe Raposo – piano
Davide Zaccaria – violoncelo
Paulo Santos – acordeão
João Ferreira – percussão (em "As Quatro Operações")

Arranjos musicais – Filipe Raposo
Gravação – Maria João Castanheira, nos Estúdios Namouche, Lisboa, de Dezembro de 2009 a Fevereiro de 2010
Misturas no Estúdio La Strada, em Fevereiro e Março de 2010
Masterização – António Pinheiro da Silva, em Março de 2010



Vou Por Ruas, Vou Por Praças



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 25-26; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 202-203)
Música: Viviane (Viviana Parra Guerreiro)
Intérprete: Viviane* (in CD "Viviane", ZipMix/Zona Música, 2007)


Vou por ruas, vou por praças
por onde à noite derivo
arcadas, paredes baças
luzes trémulas, escassas
e silêncios de que vivo [bis]

rente ao baixo casario
vou por húmidas vielas
chega-me o cheiro do rio
e confio e desconfio
a desoras, sem cautelas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina

sigo pois no labirinto
de Lisboa a horas tardas
vou perdido mas pressinto
ou sei mesmo por instinto
que nalgum lugar me aguardas [bis]

e por isso em cada muro
cada porta e cada esquina
te procuro e me procuro
por teu corpo me aventuro
e o teu rosto me ilumina [bis]

ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina
ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina


* [Créditos gerais do disco:]
Viviane – voz, flauta
Tó Viegas – guitarra portuguesa, guitarra acústica
Rui Freire – bateria
Yuri Daniel – contrabaixo
Luís Simões – baixo acústico
Paulo Borges – acordeão, piano
Celina da Piedade – acordeão
Nelson Conceição – acordeão
Raimundo Seixas – guitarra portuguesa
Miguel Drago – guitarra portuguesa

Produção musical – Tó Viegas e Viviane
Produção executiva – Tó Viegas
Gravado e misturado por Tiago Lopes, no Estúdio ZIPMIX, Quelfes – Olhão, durante os meses de Novembro e Dezembro de 2006
Masterizado por Tó Pinheiro da Silva



Ó Meu Amor, Não Te Atrases



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 40-41; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 215-216)
Música: Viviane (Viviana Parra Guerreiro)
Intérprete: Viviane* (in CD "As Pequenas Gavetas do Amor", ZipMix Records, 2011)




[instrumental]

Ó meu amor, não te atrases
vou agora pôr-te à prova
esta noite é Lua Nova
e tu não sabes de fases

se chegas tarde eu te acuso
de que andarás a enganar-me:
vindo de ti, cada abuso
me soa a sinal de alarme

teus olhos arregalados
não são desculpa melhor
sabes cá chegar de cor
e mesmo de olhos fechados

nem um cego se perdia
lá fora agitam-se os ramos
nas brenhas da ventania
é tarde, porém jurámos

que enquanto este amor se guarde
e seja o nosso segredo
virias cedo, bem cedo
e havias de partir tarde

[instrumental]

sendo a Lua Nova ou Cheia
ou Crescente ou Minguante
o que a nós nos incendeia
é fogo de outro quadrante

é clarão de uma outra luz
que ao pressentir os teus passos
acendi quando dispus
quatro quartos nos teus braços [4x]


* [Créditos gerais do disco:]
Viviane – voz, flauta
Tó Viegas – guitarra portuguesa, guitarra acústica
Rui Freire – bateria
Xico Santos – contrabaixo
Nelson Conceição – acordeão
Miguel Drago – guitarra portuguesa
João Mogo – trompete
Tiago Rêgo – percussões

Produção musical – Tó Viegas e Viviane
Produção executiva – Tó Viegas
Gravado e misturado por Tiago Lopes, no Estúdio ZIPMIX, Quelfes – Olhão, durante os meses de Junho e Julho de 2010
Masterizado por Tó Pinheiro da Silva



Fado dos Trevos



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 28-29; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 65)
Música: Florêncio de Carvalho
Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010)




A vida é feita de escolhas:
quis escolher uma vez
um trevo de quatro folhas
mas só vi trevos de três

quis então cantar nas ruas
um fado que as três resuma
mais valem três do que duas
e mais duas que nenhuma

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero
no meu onde, como e quando,
tinha de partir do zero

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero

[instrumental]

acontece que entretanto
deu-se um golpe de teatro
encontrei-te e amei-te tanto
que as três valeram por quatro

e assim nas minhas escolhas
eu tinha razão talvez
transformando em quatro folhas
trevos que eram só de três

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero
no meu onde, como e quando,
tinha de partir do zero

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero

[instrumental]

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero
no meu onde, como e quando,
tinha de partir do zero

e então cantando e somando
o que quero e o que não quero



Mais e Menos



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 36-37; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 70)
Música: José Marques do Amaral
Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010)


[instrumental]

No amor, regras que contem,
há uma só que não é vã:
amar hoje mais do que ontem
mas bem menos que amanhã

e eu num fado que isto guarde
também acrescentaria
amo-te mais cada tarde
do que amei nascendo o dia

e cada vez muito mais
do que antes, mas tais requintes
são muito menos, ver vais,
do que nos dias seguintes

com resultados tão plenos
como somar dois e dois:
muito mais e muito menos
conforme "antes" e "depois"

no amor, regras que contem,
há uma só que não é vã:
amar hoje mais do que ontem
mas bem menos que amanhã



Não me Peças Perdão



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 52-53; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 77)
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado CUF)
Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010)


[instrumental]

Não me peças perdão, a culpa é minha:
foi este tempo todo descuidado,
foi não achar que o fim um dia vinha
foi ficar sem defesas a teu lado

foi nunca te lembrar em sobressalto
foi não deixar falar a tua boca
foi não pensar em ventos no mar alto
foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca

foi deixar-me viver em falsa paz
foi afagar-te as mãos sem as prender
ou foi prendê-las mal e tanto faz
julgar que se morria de prazer

agora é tarde, sim, tarde demais,
tropeço às cegas nesta dura lei,
não sei se vale a pena dar sinais
e o que te hei-de dizer também não sei.

[instrumental]


* Clara – voz
Luís Ribeiro – guitarra portuguesa
Florêncio de Carvalho – viola
Joel Pina – baixo acústico



Talvez



Poema: Vasco Graça Moura
Música: Luís Pedro Fonseca
Intérprete: Cristina Nóbrega* (in CD "Retratos", Sony Music, 2010)


Talvez digas um dia o que me queres,
talvez não queiras afinal dizê-lo,
talvez passes a mão no meu cabelo,
talvez não pense em ti, talvez me esperes

Talvez, sendo isto assim, fosse melhor
falhar-se o nosso encontro por um triz
talvez não me afagasses como eu quis,
talvez não nos soubéssemos de cor

Mas não sei bem, respostas não mas dês,
vivo só de murmúrios repetidos,
de enganos de alma e fome dos sentidos,
talvez seja cruel, talvez, talvez...

Se nada dás, porém, nada te dou
neste vaivém que sempre nos sustenta,
e se a própria saudade nos inventa,
não sei talvez quem és mas sei quem sou.

[instrumental]

Talvez, sendo isto assim, fosse melhor
falhar-se o nosso encontro por um triz
talvez não me afagasses como eu quis,
talvez não nos soubéssemos de cor

Mas não sei bem, respostas não mas dês,
vivo só de murmúrios repetidos,
de enganos de alma e fome dos sentidos,
talvez seja cruel, talvez, talvez...

Se nada dás, porém, nada te dou
neste vaivém que sempre nos sustenta,
e se a própria saudade nos inventa,
não sei talvez quem és mas sei quem sou.


* Cristina Nóbrega – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Rogério Ferreira – viola de fado
Pedro Festa – contrabaixo



Questão de Culpa



Poema: Vasco Graça Moura
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Nóbrega* (in CD "Retratos", Sony Music, 2010)


Que me deixasses só e te afastasses
foi o que te pedi, sabe-lo bem
e quando me deixasses, nem falasses
do fim do nosso amor com mais ninguém

Mas se andas por aqui como se a vida
continuasse a mesma entre nós dois
tristemente iludida, a despedida
para um adeus cruel, mas só depois

Se é ao banco dos réus que tu me arrastas
como se o fim do amor fosse algum crime
se com palavras gastas tu te afastas,
mas queres que de ti eu me aproxime

É que talvez não saibas que te amei
e que esse louco amor não continua
de tanto que passei, desesperei
e se a saudade é minha, a culpa é tua

[instrumental]

É que talvez não saibas que te amei
e que esse louco amor não continua
de tanto que passei, desesperei
e se a saudade é minha, a culpa é tua


* Cristina Nóbrega – voz
Carlos Gonçalves – guitarra portuguesa
Rogério Ferreira – viola de fado
Pedro Festa – contrabaixo

Produção – Luís Pedro Fonseca
Gravado e misturado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por André Tavares
Masterizado por Fernando Abrantes



Recado



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 15; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 193)
Música: Miguel Ramos (Fado Alberto)
Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010)


[instrumental]

Leva a Lisboa azul quadriculada
que a Vieira da Silva já pintou
e a última gaivota que riscou
a sua leve luz acidulada

leva a névoa que cai pela amurada
e a corrente do Tejo não lavou
leva as pedras que o tempo afeiçoou
e a saudade na voz sobressaltada

leva uma vela branca desfraldada
a que no mar salgado desenhou
um rumo que dos mapas não constou
e se desfez depois sob a nortada

leva também a vida amargurada
que o pobre coração desgovernou
e o recado febril que não chegou
contando da paixão desesperada

leva o tempo que foi e não voltou
e levarás contigo tudo e nada


* Patrícia Costa – voz
Miguel Amaral – guitarra portuguesa
André Teixeira – viola
João Penedo – contrabaixo

Gravação e mistura – Francisco Maldonado, no Porto
Masterização – Francisco Maldonado, em Londres



Prometo Queimar as Cartas



Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – p. 50-51; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – p. 76)
Música: Vanessa Sassine e José Ferra
Intérprete: Cacau* (in CD "Cacau", Cacau, 2014)


[instrumental]

Prometo queimar as cartas
que me escreveste e bem quis
agora que tu te apartas
ficar com as mais febris

terei todas as cautelas,
rasgo tudo, queimo tudo,
a minha alma arde com elas
e o coração fica mudo

[instrumental]

prefiro a tua franqueza
mesmo que seja brutal:
se já eram chama acesa,
arderão mais, não faz mal

[instrumental]

quero coragem, vou tê-la,
mas tê-la assim dói imenso,
ter a vida e desfazê-la,
meu amor, não me convenço

e quanto mais cartas queime,
nada me custa, descansa:
dei-te tudo e então deitei-me
nas cinzas da minha esperança.


* Cacau:
Vanessa Sassine – voz
José Ferra – guitarra
André Mariano – percussão
Jorge Fundo – baixo
Pedro Vieira – piano
Bruno Ferreira – clarinete

Produção – Pedro Vieira e José Ferra
Gravado e misturado por Pedro Vieira, na MusicFlat, Carvalhos - Vila Nova de Gaia, de 25 de Abril de 2012 a 13 de Março de 2014
Masterização – Miguel Pinheiro Marques (Bender Mastering Studio)



Capa do livro "Letras do Fado Vulgar", de Vasco Graça Moura (Quetzal Editores, 1997)
Desenho – Mário Eloy



Capa do livro "Mais Fados & Companhia", de Vasco Graça Moura (Público, 2004)
Ilustração – Stuart de Carvalhais.

25 abril 2014

Contrabando: "Verdade ou Mentira?"



Antes do 25 de Abril de 1974 eram muitas as canções que estavam proibidas de passar na Emissora Nacional. Havia, portanto, um condicionamento paternalista da música que era oferecida aos ouvintes («nós é que sabemos o que deveis ouvir e que não vos faça mal à cabeça»). Quarenta anos volvidos sobre "o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio" (citando Sophia) que trouxe ao país a Liberdade e ditou o fim da Censura, podemos afirmar que o condicionamento musical já não existe na rádio do Estado? Quem se der ao cuidado de prestar alguma atenção às Antenas 1 e 3 não terá dificuldade em aperceber-se de que as respectivas 'playlists' (listas pré-formatadas) são usadas como instrumento de censura – não assumida mas real – de uma porção muito significativa da melhor música portuguesa (cantada e instrumental).
Desse extenso rol de pérolas votadas ao ostracismo, aqui se apresenta uma que tem tudo a ver com a presente efeméride: "Verdade ou Mentira?", com letra e música de Nuno Cabrita, interpretada pelo grupo eborense Contrabando.



Verdade ou Mentira?



Letra e música: Nuno Cabrita
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)


[instrumental]

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?

Verdade ou mentira
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?

Verdade ou mentira
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?

Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]

[instrumental]

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?

Verdade ou mentira
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
O povo se alevantou?
Que naquela manhã
O povo se alevantou?

Verdade ou mentira
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?

Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]

[instrumental]


* Nuno Cabrita – voz e percussões
Henrique Lopes – guitarras acústicas e percussões
Manuel Chambel – baixo eléctrico

Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita
Gravado e misturado por José Liaça, no Tâmara Estúdio, Évora, em Abril de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999
URL: https://contrabando.pt/
http://palcoprincipal.sapo.pt/contrabando
http://myspace.com/contrabandoonline


Nota:
Outras pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo podem ser apreciadas em http://perolasdamusicapt.blogspot.com/

03 abril 2014

Celebrando Agostinho da Silva



            Sou marujo mestre e monge
            marujo de águas paradas
            mas que levam os navios
            às terras por mim sonhadas

            também sou mestre de escola
            em que toda a gente cabe
            se depois de estudar tudo
            sentir bem que nada sabe

            mas nem terra ou mar me prendem
            e para voar mais longe
            dum mosteiro que não houve
            e não haja me fiz monge.

                        AGOSTINHO DA SILVA
                        (in "Uns Poemas de Agostinho",
                        Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 111)


UM HOMEM EXTRA-ORDINÁRIO

Por: Eduardo Lourenço




Parece fácil falar de Agostinho da Silva. Em fim de vida e graças à televisão, a sua figura, o seu pensar em directo e em voz alta para milhões de pessoas, como se tivesse conseguido unir milagrosamente a unidade do seu ser à sua aparência de Sócrates familiar, missionário sem mais missão que a de inculcar que todos somos naturalmente sábios e filósofos, Agostinho da Silva era a encarnação perfeita de uma existência transparente. No sentido original do termo, uma existência não-hipócrita. O mínimo de comédia de que precisamos para representar no palco da vida era-lhe estranho. Com razão, esta ausência de pose, que em outros podia passar pela mais refinada das poses, fascinava aqueles que assistiam, nem sempre convencidos, a este exemplo, mais do que raro, de um homem em que era impossível separar o verbo da acção por ele enunciada, como se fosse o acto mais óbvio e simples do mundo.
Podíamos atenuar este espanto que já não o era, catalogando Agostinho da Silva na categoria já sem surpresas, mas sempre surpreendente, do místico. É uma roupagem que lhe assenta bem e nem se vê outra que melhor defina o estilo de existência que nele se encarnou ou ele encarnou. Acontece apenas que a imagem do «místico» arrasta consigo um certo número de referências, evoca uma atmosfera eclesial e sobretudo, entre nós, uma tradição, por assim dizer, homologada oficialmente por uma autoridade institucional ou institucionalizada. E como era visível, nada estava mais distante de Agostinho da Silva do que esta inscrição do autor de Aproximações ao círculo da mística cristã tal como vulgarmente se entende e é exemplificada desde S. João da Cruz a Santa Teresa, ou mesmo pelo tão evocado S. Francisco de Assis. Claro que todos os «místicos», ou aquilo que assim chamam aqueles que o não são, mesmo os mais teologicamente insuspeitos, relevam do excepcional e da excepção. A esse título, Agostinho da Silva não destoaria na ilustre e canónica companhia. Digamos que pode figurar na mais rara espécie de homens que são os «místicos» se lhe acrescentarmos uma dose suplementar de «extravagância» ou, se se prefere, de excentricidade.
Não em meros termos de comportamento exterior, de total desprezo pelas regras, costumes ou ritos mundanos, que fazem parte do folclore da mais inequívoca santidade, mas da íntima e irredutível ex-centricidade. Agostinho da Silva não tendeu, graças a qualquer tipo de ascese, para uma experiência inefável do que se convenciona designar por Absoluto, transcendência mais ou menos heterogénea à essência humana. Agostinho da Silva, se foi «místico», foi-o de um misticismo «sulfuroso» pela natureza naturalista da sua visão do mundo e da vida. Não se instalou na excepção, pregou e viveu no combate à ideia de excepção, em todos os domínios, numa espécie de anarquismo profético e radioso, no fundo mais próximo de Rousseau que de qualquer figura clássica da família «mística».
O misticismo de Agostinho da Silva — se assim se lhe pode chamar — é um misticismo por defeito, por intencional desconsideração daquilo que, em todas as ordens, desde a do pensamento, da imaginação, da vontade, mas também da acção, se apresenta como exemplar. Foi, com uma naturalidade quase provocante, um marginal, mas não da marginalidade maldita, sacrificial, infeliz, que tanto agrada aos «mártires» da liberdade, da criação ou da acção. Se não fosse de essência provocatória, quase demoníaca, o seu utopismo, o seu optimismo voluntarista, a sua aparente ou realíssima recusa do trágico, seriam quase intoleráveis. É possível imaginar que neste grau, a sua aposta, diametralmente antagónica da de Pascal, releva, em qualquer desvão, de não sei que paradoxal ressentimento. Há em Agostinho da Silva um tão extremado gosto pela «estaca zero» do humano, uma tão intensa denegação de tudo o que signifique ou pretenda, a que título for, ser tido como «distinto», como «valioso» no sentido de se arrogar assim como signo de qualidade ou mérito, que só em termos de ressentimento parecem explicáveis. E, todavia, precisamente, a imagem que ele deu a quem o conheceu ou teve ocasião de o ver quando, cândida e desarmadamente, se ofereceu ao juízo público, parece incompatível com esse reflexo, característica de alguém secretamente ferido, como precisamente, mas também dando a impressão oposta, o foi Jean Jacques Rousseau.
Estamos a anos-luz daquela imagem-mito que não só nos últimos anos, mas penso, sempre, se colou ao homem e à figura de Agostinho da Silva, como exemplo de existência clara, sem sombra de sombra, vida activamente inserida na sua «pregação profética» sem hiato com a sua vida. Não foi um vagabundo irónico como Sócrates, nem um provocador cénico, mais em actos do que em palavras, como Diógenes, mas de um e outro exemplificou, aparentemente sem suscitar nem fundado espanto, nem desconfiança, junto daqueles que, incapazes de medir o alcance da sua palavra intrinsecamente subversiva, mais inclinados estavam — ou estão — a compará-lo a uma figura como S. Francisco de Assis.
Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares.
Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d' A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n' Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta de Águia e futuro historiador dos Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer, «sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S. Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão inocentemente sensual.
Agostinho da Silva retém um certo número de traços da visão do mundo ou da leitura da nossa maneira de ser proposta por Jaime Cortesão. Não foi impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais «erótico» e pouco recomendável, segundo os nossos hipócritas códigos vigentes, autor antigo, Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode deixar de se designar por «erótica» agostiniana. Um erotismo que não tem apenas o conteúdo negativo da recusa ou denegação do ascetismo, essência da comum espiritualidade lusitana, desde os bons tempos de Heitor Pinto, mas o gosto positivo pela vida, na sua natural pulsão vital e fonte de sedução. O seu famoso paracletismo, a apologia do Espírito Santo, não é apenas um eco mimético da tradição joaquimista [referente a Joaquim de Fiore], uma maneira de considerar findo o reino da Lei (o do Pai) e o do Sacrifício (o do Filho) com a entrada no terceiro reino, o da Liberdade, que é, sobretudo, o do Amor. Esse seu culto do Espírito Santo é o de uma nova Criação, filha da esperança e aberta como a esperança sobre um futuro em que o homem se descobrirá, ou descobrirão, ao abdicarem das formas imperfeitas da Lei e da Dor, como «eternas crianças» e imperadores da sua própria vida. Foi isto que Agostinho da Silva reteve como mais válido e profundo em Fernando Pessoa, o Fernando Pessoa da Mensagem, a quem dedicou a primeira leitura simbólica coerente (na luz da própria visão) que se conhece. Este homem de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos abandonamos ao sopro do «Espírito Santo», à lição de uma Natureza que ensina quando nós nos calamos. E assim, com o tempo, e cada vez mais despojado das realidades e investiduras do mundo, do mundo social e dos seus ritos, do mundo intelectual e das suas rendosas imposturas, Agostinho da Silva se revestiu, com todos os sinais da autenticidade, das conotações de um verdadeiro símbolo e até herói da Contra-Cultura. Ou melhor, de qualquer coisa mais rara que não vive da negação, mesmo a mais fundada — e em Agostinho da Silva também esse aspecto existe —, mas da transcendência do cultural, da vitória sobre ele quando se olha todo o seu imponente império, não como mera poesia da sandália dos deuses, mas com a inocência de uma criança que acaba de abrir os olhos para o Universo e a sua gratuita magnificência.
Como toda a gente da minha geração, conheci Agostinho da Silva através dos célebres fascículos vendidos então a quinze tostões, que punham o público ledor, culto ou popular, na intimidade de grandes figuras e, sobretudo, grandes e saborosos textos do passado. O primeiro que comprei foi sobre Stendhal, autor então em vias de reconhecimento universal e hoje, pensando bem, vejo nisso não um mero acaso, mas a chave para a futura inscrição de um homem que foi a Liberdade, mesmo no campo de um autor tão pessoal, tão classicamente inclassificável como o autor d' A Cartuxa de Parma. Mais tarde, li a sua tradução de três ensaios de Montaigne, pai da prosa do corpo, da alma e da inteligência, seu outro modelo — à parte o impessoal dos clássicos da infância — que o da sua própria vida, observados sem complacência, mas também sem reticências. Mas só o acaso de uma errância brasileira me fez encontrar o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio, naturalista por conta própria, em Santa Catarina, onde então Agostinho da Silva era uma espécie de oficioso secretário de assuntos culturais e, como sempre, um pólo de vida activamente contemplativa, de que não conheci segundo exemplo. Recebeu-me (recebeu-nos, a mim e minha mulher) como se me conhecesse desde sempre. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda, divertido com o meu assombro e não menos pequeno temor. A Natureza e a sua face misteriosa, terrífica, o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas, repousava nas suas mãos como num berço. Tinha domesticado «o mal» como se ele não existisse. Ou como se ele não o quisesse ver. Não sei se isto basta para perceber que espécie de «misticismo» era o seu. Mas bastou-me para sentir, e definitivamente, que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que me foi dado conhecer.

Lisboa, 7 de Março de 1995.

(prefácio ao livro "A Última Conversa - Agostinho da Silva, Entrevista de Luís Machado", Lisboa: Editorial Notícias, 1995)


Agostinho da Silva [>> resenha biográfica e >> bibliografia] faleceu a 3 de Abril de 1994, faz agora vinte anos. Ocasião para revisitarmos o ideário do visionário pensador, servindo-nos de alguns dos seus escritos (poemas e textos de cariz ensaístico), em voz alheia, seguidos dos vídeos das "Conversas Vadias", pois esta homenagem ficaria incompleta se não se pudesse ouvir o professor pela sua boca.
A propósito de registos em voz própria, importa não esquecer os realizados para a rádio, que não foram poucos, dos quais destaco as entrevistas concedidas a José Nuno Martins (para a Rádio Comercial), a Fernando Alves (para a Antena 1 e, mais tarde, para a TSF) e a Graças Vasconcelos (para a Antena 1 – programa "Imaginário"). Afigura-se pois pertinente lançar um repto à direcção da Antena 1: que se faça um ciclo evocativo de Agostinho da Silva aproveitando o material existente no arquivo histórico da RDP!



Soldado no Brasil, Marinheiro em Portugal



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 46)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Paulo de Carvalho* (in CD "Cores do Fado", MDL/Som Livre, 2004)


Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.


* Paulo de Carvalho – voz
André Sarbib – piano acústico
Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola acústica

Produção musical – Fernando Abrantes e Paulo de Carvalho
Produção executiva - Fernando Abrantes e Renato Júnior
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Março de 2004
Gravação, mistura e masterização – Fernando Abrantes



Ontem sonhei que sonhava



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 77)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Coisas do Ser e do Mar", AE-Artes do Espectáculo, 2008)




Ontem sonhei que sonhava
e me mantinha desperto
contente por me escapar
de um mundo que me era incerto

Quando tornei a dormir
já rompia a madrugada
e na clara luz não tinha
certeza alguma de nada

Seguro porque voltava
ao que é lógico e real
à vida que firme sabe
do que é bem e do que é mal


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – viola campaniça
Carlos Menezes – baixo eléctrico, contrabaixo
Valter Passarinho – percussão, bateria

Direcção musical – Nuno Cabrita, Henrique Lopes e Carlos Menezes
Produção – AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Produção executiva – Nuno Cabrita & AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Gravado, misturado e masterizado entre Junho e Dezembro de 2005
Captação de som – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém & Carlos Menezes, no CM Estúdio, Évora
Mistura – António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém
Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém



Teria passado a vida



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 123)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.



Três votos fará aquele



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 124)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.



Tudo pode vir do nada



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 125)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


Tudo pode vir do nada
várias tintas várias telas
esta vida em que vivemos
é apenas uma delas

mil outras no mesmo espaço
mil outras em hora igual
rivalizam no sonhar
o que pensamos real

e podemos ir além
neste quadro que vos traço
tempo é tempo imaginado
em que se limita o espaço.



Vos direi o que é o tal



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 140)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


Vos direi o que é o tal
alicerce em que me afundo
todos somos limitados
não o é porém o mundo

não ireis pois por ninguém
e por mim menos que nada
a vida vos seja guia
consultada e meditada

ou quem sabe se sonhada
ou quem sabe se inventada.



Por causa do mundo curvo



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 83)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)


Por causa do mundo curvo
eis aqui o que procuro
ter eu amor do passado
com a paixão do futuro

mas há remédio bem simples
para não ser inseguro
é amar vida sem tempo
ou seja o presente puro.


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – guitarras acústicas
José Carias – baixo eléctrico
Luís Melgueira – percussões

Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita
Gravado por Rui Guerreiro, no MG Estúdio, entre Setembro de 1998 e Março de 1999
Misturado por António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Abril e Maio de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999



Como penso que a matéria



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 28-29)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24 Set. 2010)


Como penso que a matéria
é só construção das almas
tenho eu que a examinar
com atenção e nas calmas

guiado por quem a sabe
com precisão matemática
lhe conhece o que é seguro
e o que é audácia temática

e como espero que a ciência
tenha sempre um atractivo
o de não dar do que existe
conceito definitivo

não só irei prosseguindo
em a saber mais e mais
me esforçarei por que todos
me possam ser como iguais

passarei com todo o gosto
por bom materialista
e em tudo que digam espírito
lhe procurarei a pista

incitarei a comer
incitarei a dormir
incitarei a morar
e às doenças resistir

goze cada qual matéria
até dela se enjoar
e solte as asas depois
se seu gosto for voar

que eu voarei por meu lado
no céu que os outros fizerem
quando depois de ter tudo
nem migalhas mais quiserem

irei calmo como sempre
pois nada me precipita
só depois de ser da física
passarei à metafísica

e bailarei com as almas
que quiserem vir comigo
feliz de serem felizes
as que ficaram consigo.



Viva a Vida (Disse a Vida)



Poema: Agostinho da Silva (poema "Mas que gente esta tão triste" + dois primeiros versos do poema "Viva a vida disse a vida", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 63 e 142)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Claud* (in CD "Contradições", Som Livre, 2006)




Mas que gente esta tão triste
fumadores e fumadoras
com o seu império perdido
seu passado esquecido
e o futuro inconcebido
mas tem a vida seu jeito
com seu destino perfeito
seus planos a cumprir
só não os quis descobrir
para nada os demolir

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[4x]

Que ridícula figura
farão perante seus netos
se é que têm energia
bastante para haver netos
ou se não recusem estes
a nascer de tais avós
que sois claro todos vós
e seremos todos nós
se formos no mesmo rumo

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[4x]

Que sois claro todos vós
e seremos todos nós
se formos no mesmo rumo
com uma excepção parece
esta de mim que não fumo
[2x]

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[6x]


* [Créditos gerais do disco:]
Claud – voz
Paulo Cavaco – piano, teclados e programações
Ruca Rebordão e Paulo de Carvalho – percussões
Amadeu Magalhães – violas braguesas, cavaquinho e gaita-de-foles
Rui Curto – acordeão
Paulo Sousa – sitar
João Moreira – tablas
Coros – Claud, Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho

Arranjos – Paulo Cavaco
Direcção musical de projecto – Paulo de Carvalho
Produção – Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho
Produção executiva – Claud
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por Samuel Henriques, e nos Estúdios MusicArt, Barreiro, por Paulo Cavaco
Mistura – Fernando Abrantes e Paulo Cavaco, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos
Masterização – Fernando Abrantes



Bendito seja o desejo



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 21)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24 Set. 2010)


Bendito seja o desejo
abençoada a carícia
quanta pena das meninas
deserdadas de malícia

ou por medo do diabo
ou pelo dente de siso
não tiveram a feliz
propulsão do paraíso

propulsão não expulsão
que foi ela a força dada
para que houvesse na vida
a mais perfeita jornada

em que regresso nenhum
desejamos ao céu falho
em que do pai só havia
parado olhar duro ralho

a outro mundo vagamos
nossos votos ali vão
os de sumirmos de todo
no ponto sem dimensão

e vai uma nota ainda
de que peço mil perdões
o ponto sem dimensão
dá todas as dimensões.



Meu amor que te foste sem te ver



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 59)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Joana Amendoeira* & Mar Ensemble (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)


Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar

ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar

para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é querer
ao fado que só dá para se dar

por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.


* Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo
Filipe Raposo – acordeão

Mar Ensemble:
António Barbosa – 1.º violino
Paula Pestana – 2.º violino
Ricardo Mateus – viola d'arco
Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas
Maria Rosa – flauta
Rui Travasso – clarinete
Carlos Alberto – trompete
João Carlos – trompa

Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho
Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva
Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música
Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado)
Captação de áudio – Luiz Delgado
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008



Nada fiz a contragosto



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 62 e 90)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


Nada fiz a contragosto
tudo foi um prazer meu
e nada pedi à vida
do que a vida tanto deu.

Para tantos existir
é uma queixa pegada
terem de ganhar a vida
quando afinal lhes foi dada.



Na tristeza dos triunfos



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 73)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24 Set. 2010)


Na tristeza dos triunfos
e na alegria das dores
és nada pelo que digas
só vales pelo que fores.



Quem fala de Amor...



Texto de Agostinho da Silva (in "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 23; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 239)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15 Out. 2010)


Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama.



Nem verdade nem mentira



Poema de Agostinho da Silva (quinta e última quadra do poema "Por tudo perguntou Sócrates", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 88)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08 Out. 2010)


Nem verdade nem mentira
uma coisa assim assim
e se queres saber mais
não me perguntes a mim.



O que escrevo de versinho



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 79)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01 Out. 2010)


O que escrevo de versinho
é na verdade o que sinto
mas porque procuro a forma
de qualquer maneira minto

o que eu quero era poder
dar naquilo que escrevesse
de tal modo o que me sou
que a todos apreendesse

sem os prender no entanto
deixando-os livres de ser
mas que sentissem então
o que eu fosse sem dizer

ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se o não for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.



Ser Poema



Poema: Agostinho da Silva (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 / "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990)
Música: Pedro Abrunhosa
Intérprete: Anamar* (in CD "Anamar", Metropolitana, 2013)




Se eu chegar a ser de um Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

Não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

Terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já renascida da morte

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo
[bis]

Viva a vida disse a vida
e nunca mais se morreu
Deus em si nos retomando
o tempo eterno nos deu

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

Cada vez mente que sonha
dentro de mim tem mais voz
sonhadora que se sonha
e nos sonha a todos nós

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.
[bis]


* [Créditos gerais do disco:]
Anamar – voz
Paulo Borges – acordeão, piano, samplers
Tiago Maia – guitarras (eléctrica e acústica)
Francisco Santos – baixo, contrabaixo
Rui Freire – bateria, percussão
Coros – Anamar, Francisco Santos, José Bettencourt, Paulo Borges, Rui Freire, Tiago Maia

Arranjos e direcção musical – Paulo Borges
Produção – Anamar
Co-produção – Paulo Borges
Produção executiva – Anamar, Paulo Borges, Paulo Ventura
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Monte e José Fortes, em Agosto de 2012
Misturas – José Fortes
Masterização – Andy Van Dette



Queria que os portugueses



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 97-98)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24 Set. 2010)


Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma amanhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou a filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.



Portugal foi formado na beira de um Oceano



Texto de Agostinho da Silva (in "Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI", N.º 3, Lisboa: Zéfiro, 1.º Semestre de 2009)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08 Out. 2010)


Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão por vezes esmagadora imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânica imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, até enformarem aquilo que hoje conhecemos como o "português" e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão-de frutificar e unir nesse carácter aventureiro comum todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da História.
Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo além, talvez, excepto, nos Gregos e nos Fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso, um país tão pequeno conseguiu colonizar um país continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pôde para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nós um "país europeu" entrámos em longa depressão colectiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente.
Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, até a um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do Norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de "vida conversável" e aventura empolgante as formas de vida que os neo-germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar; o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o português e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos séculos depois a adesão a uma Comunidade Europeia com a qual nada temos a ver.



O povo culto



Texto de Agostinho da Silva (de "O Terceiro Caminho", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 26; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 217)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08 Out. 2010)


Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.



Tolerância às opiniões



Texto de Agostinho da Silva (de "Tolerância", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 20; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 214)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08 Out. 2010)


Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.



Realização e êxtase



Texto de Agostinho da Silva (de "Sobre o Êxtase", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 17-18; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 212-213)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08 Out. 2010)


Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós qualquer coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.



O grande educador



Texto de Agostinho da Silva (de "Sanderson of Oundle", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 45-46; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 106-107)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15 Out. 2010)


É além de tudo essencial que a escola se não separe do mundo; não há escolas e oficinas; há um certo género de oficinas em que trabalham crianças nas tarefas que lhes são adequadas e lhes vão facilitando o desenvolvimento do corpo e do espírito; vão colaborando no que podem e no que sabem para que a vida melhore. Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão.
O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola; que haja o trabalho proporcionado e alegre, amorosamente feito, porque se sabe necessário ao progresso, levado a cabo numa atitude de artista e de voluntário, disciplinado remador na jangada comum; que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.



Os malefícios da rivalidade na escola



Texto de Agostinho da Silva (de "Da Emulação", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 49-50; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 109-110)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15 Out. 2010)


Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e a ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de "struggle" que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.
Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.



O professor como mestre



Texto de Agostinho da Silva (de "Projecto de um Mestre", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 41-43; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 103-104)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15 Out. 2010)


Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.



Compreender e unir



Texto de Agostinho da Silva (de "Por um Fim de Batalha", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 59-60; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 116-117)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15 Out. 2010)


Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento.
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita.
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.



Capa do livro "Uns Poemas de Agostinho" (Ulmeiro, 1989)
Desenho de Miguel Horta.


A seguir, apresenta-se a integral das "Conversas Vadias" (treze episódios), originalmente transmitidas pela RTP-1 no ano de 1990.



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 1 - Maria Elisa Domingues (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 2 - Adelino Gomes (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 3 - Joaquim Letria (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 4 - Isabel Barreno (escritora)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 5 – Baptista-Bastos (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 6 - Alice Cruz (locutora e apresentadora de televisão)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 7 - Cáceres Monteiro (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 8 - Fernando Alves (jornalista de rádio)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 9 - Vasco Ramalho e João Carlos (estudantes)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 10 - Herman José (humorista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 11 - Miguel Esteves Cardoso (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 12 - Manuel António Pina (poeta e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 13 - Joaquim Vieira (jornalista e investigador)

___________________________________________

Outro artigo sobre Agostinho da Silva:
Agostinho da Silva: centenário do nascimento

27 março 2014

Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público

«O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade.
O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um facto vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas que renasce sempre das cinzas. É uma comunicação mágica em que cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do homem e desvenda a condição humana. Não são os seus criadores quem fala através do teatro: é a sociedade do seu próprio tempo.
O teatro tem inimigos visíveis: a ausência de educação artística na infância, que impede de descobri-lo e gozá-lo; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores das salas; e a indiferença e o desprezo dos governos que devem promovê-lo.
No teatro já falaram os deuses e os homens, mas agora é o homem que fala aos outros homens. Por isso, o teatro tem de ser maior e melhor do que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor da palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É preciso viver o teatro para entender o que nos está a acontecer, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e no pesadelo do quotidiano.» [Victor Hugo Rascón Banda, dramaturgo mexicano, 1948-2008]

Atentando nas grelhas das várias antenas da RDP, deparamo-nos com esta triste e desoladora realidade: não há teatro radiofónico! 
A lacuna é assaz incompreensível sabendo-se quão vasto e magnífico é o acervo de peças (dramas, comédias, farsas) e de adaptações de obras romanescas (contos, novelas, romances) existente no arquivo histórico, boa parte do qual realizado pelo saudoso Eduardo Street. Que o Dia Mundial do Teatro sirva para os srs. António Luís Marinho, Rui Pêgo e José Arantes porem a mão na consciência (se é que a têm) e tratarem de resgatar às teias de aranha esse precioso património, mormente os grandes clássicos da arte de Talma!
Convém ter presente que tal resgate assume uma pertinência acrescida nestes tempos de crise económica e social, em que muitos cidadãos se vêem impossibilitados de frequentar salas de teatro. Os que vivem em localidades onde estejam peças em cena, bem entendido. Dos outros portugueses (residentes em território nacional ou além-fronteiras), ao que parece, ninguém se lembra. E já nem falo dos cegos e amblíopes de Portugal. Estarão eles, porventura, isentos do pagamento da contribuição do audiovisual?


Máquina do vento: servia para imitar o som do vento e foi um dos artefactos mais usados no teatro radiofónico

21 março 2014

Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret

Todos os dias do ano são bons para se ler/ouvir poesia, a pretexto do quer que seja. Apesar de meramente convencional, o dia que lhe foi dedicado no calendário afigura-se pertinente para a celebração da poesia que versa sobre si mesma e a condição do poeta.
Aqui se apresenta a "Ode à Poesia", de Miguel Torga, na voz de João Villaret.

Desde Março de 2013, após um vazio de vários anos, passámos a ter na Antena 2 um apontamento regular de poesia, "A Vida Breve", restrito a gravações na voz dos autores. Não poderia a Antena 1, em complemento àquele, ter um espaço consagrado à divulgação do nosso rico património fonográfico de poesia dita por reputados recitadores (actores e locutores)?



ODE À POESIA



Poema de Miguel Torga (in "Odes", Coimbra: Coimbra Editora, 1946; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2007)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia;
— E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!

Vão homens a meu lado distraídos
Da sua condição de almas penadas;
Vão outros à janela, diluídos
Nas paisagens passadas...
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos
As tuas formas brancas e aladas?

Os campos, imprecisos, nos meus olhos,
Vão de braços abertos às montanhas;
O mar protesta contra não sei quê;
E eu, movido por ti, por tuas manhas,
A sonhar um painel que se não vê!

Porque me tocas? Porque me destinas
Este cilício vivo de cantar?
Porque hei-de eu padecer e ter matinas
Sem sequer acordar?

Porque há-de a tua voz chamar a estrela
Onde descansa e dorme a minha lira?
Que razão te dei eu
Para que a um gesto teu
A harmonia me fira?

Poeta sou e a ti me escravizei,
Incapaz de fugir ao meu destino.
Mas, se todo me dei,
Porque não há-de haver na tua lei
O lugar do menino
Que a fazer versos e a crescer fiquei?

Tanto me apetecia agora ser
Alguém que não cantasse nem sentisse!
Alguém que visse padecer,
E não visse...

Alguém que fosse pelo dia fora
Neutro como um rapaz
Que come e bebe a cada hora
Sem saber o que faz...

Alguém que não tivesse sentimentos,
Pressentimentos,
E coisas de escrever e de exprimir...
Alguém que se deitasse
No banco mais comprido que vagasse,
E pudesse dormir...

Mas eu sei que não posso.
Sei que sou todo vosso,
Ritmos, imagens, emoções!
Sei que serve quem ama,
E que eu jurei amor à minha dama,
À mágica senhora das paixões.

Musa bela, terrível e sagrada,
Imaculada Deusa do condão:
Aqui vou de longada;
Mas aqui estou, e aqui serás louvada,
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!



Erato, a musa da poesia lírica (estátua romana do séc. II, mármore, Museu Pio-Clementino, Vaticano)

_________________________________________

Outros artigos com poesia recitada por João Villaret:
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2013


[em preparação]

18 janeiro 2014