20 julho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (IV)

A edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1971 foi menos pobre – há que reconhecê-lo – no que à vertente cultural diz respeito.
Tivemos:

1. Transmissão de um excerto de "Monangambé", poema do angolano António Jacinto cantado pelo compatriota Rui Mingas [>>
YouTube]; faltou a identificação da canção pois os ouvintes, designadamente os mais jovens, não são obrigados a conhecer músicas e artistas que hoje é praticamente impossível de ouvir na rádio;
2. Transmissão, a propósito da referência ao julgamento de Charles Manson, líder de uma seita de delinquentes que, em Agosto de 1969, assassinou a actriz Sharon Tate (mulher do realizador Roman Polanski) e amigos, de um excerto do tema "Helter Skelter", dos Beatles [>>
YouTube], que faz parte do duplo LP homónimo editado em 1968 e comummente conhecido por "White Album" ("Álbum Branco") [completo >> YouTube];
3. Referência aos concertos de ajuda ao Bangladesh, organizados por iniciativa do ex-beatle George Harrison, em Nova Iorque (Madison Square Garden) e em Londres (The Oval Cricket Ground), tendo sido mencionados alguns dos artistas que neles participaram: George Harrison, Ravi Shakar, Ringo Starr, Billy Preston e Bob Dylan (em Nova Iorque); The Who, Lindisfarne, The Faces e outros (em Londres); transmissão do tema "Bangladesh", de George Harrison [>>
YouTube]; não teria sido também nada despropositada, sendo o país alvo da ajuda vizinho da Índia, a passagem da belíssima música "Bangla Dhun" que Ravi Shankar tocou no Madison Square Garden [>> YouTube];
4. Transmissão de um excerto da canção "Imagine", de John Lennon, que como muito bem foi referido se transformou numa espécie de hino à utopia [>>
YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube];
5. Referência à 1.ª edição do Festival de Vilar de Mouros, realizado por iniciativa de António Augusto Barge (faltou a justa homenagem a este homem) nas imediações daquela aldeia do concelho de Caminha, de 31 de Julho a 15 de Agosto, e citação de alguns dos nomes que aí actuaram: Elton John, Manfred Man, Amália Rodrigues, Duo Ouro Negro, Celos, Banda da Guarda Nacional Republicana, Beatnicks, Coral Polifónico de Viana do Castelo, Psico, Jorge Palma, Rão Kyao, companhia de bailado Verde Gaio, Quarteto 1111; para ilustrar o evento foi passado, sem identificação, um excerto do tema "Ode to the Beatles", do Quarteto 1111 [>>
YouTube];
6. Transmissão de um excerto de uma peça de teatro de revista não identificada, com o actor José Viana e outros;
7. Referência à atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao poeta chileno Pablo Neruda; transmissão de um breve excerto de um depoimento que o próprio Pablo Neruda deu a propósito da distinção; ficou a faltar a desejável passagem de um dos poemas do autor de "Canto Geral", por exemplo, a (bem actual, por sinal) "Ode ao Pão" recitada por Mário Viegas [>>
YouTube];
8. Menção de algumas obras de autores portugueses editadas em 1971 e proibidas pela PIDE: "Nítido Nulo", de Vergílio Ferreira; "Obscuro Domínio", de Eugénio de Andrade; "Memória", de Álvaro Guerra; "O Irreal Quotidiano", de José Gomes Ferreira; "Entre Duas Memórias", de Carlos de Oliveira; "Minha Senhora de Mim", de Maria Teresa Horta; "Um Barco para Ítaca", de Manuel Alegre; "O Cancioneiro da Esperança", de Maria Teresa Horta e José Carlos Ary dos Santos; e "O Dilema da Política Portuguesa", de Mário Sottomayor Cardia; ficou a faltar a desejável ilustração sonora de duas ou três destas obras, o que no caso de livros de poesia não seria nada difícil de fazer; por exemplo, de "Minha Senhora de Mim" bastaria transmitir um dos quatro poemas musicados por Nuno Filipe e cantados por Teresa Paula Brito, que integram o EP homónimo, editado nesse mesmo ano de 1971 e mais recentemente (2000) incluídos numa compilação da cantora editada pela Movieplay: "Existem Pedras" [>>
YouTube], "Poema sobre a Recusa" [>> YouTube]; "Meu Aceso Lume" - "Meu Amor" [>> YouTube]; não havendo vontade ou interesse em passar um destes espécimes cantados, julgo que não seria nada complicado de encontrar no arquivo da RDP poemas publicados em 1971 (de Maria Teresa Horta ou de qualquer outro autor) ditos por Paulo Rato, António Cardoso Pinto ou outros;
9. Referência ao início da publicação pela Fundação Calouste Gulbenkian da revista Colóquio Artes, sob a direcção de José Augusto França; teria sido oportuna a inclusão de uma entrevista, caso exista, do insigne historiador e crítico de arte falando do assunto;
10. Transmissão de um excerto de uma entrevista de Erskine Caldwell concedida a Maria Leonor, aquando da visita (a terceira) do escritor norte-americano a Portugal, antecedida de uma breve nota bibliográfica; ficou a faltar um excerto da adaptação radiofónica, caso exista, de uma das obras do autor de "A Estrada do Tabaco" ("Tobacco Road", 1932), romance que foi adaptado ao cinema por John Ford, em 1941 [momentos musicais >>
YouTube], "Nós, os Vivos" ("We Are the Living", 1933), "A Jeira de Deus" ("God's Little Acre", 1933), "O Pregador" ("Journeyman", 1935), "Um Rapaz da Geórgia" ("Georgia Boy", 1943) e "A Terra Trágica" ("Tragic Ground", 1944);
11. Transmissão de um excerto de uma entrevista de Rosa Ramalho concedida a Maria Leonor, complementada com uma oportuna e louvável resenha biográfica da grande barrista de Barcelos, falecida em 1977, aos 89 anos de idade; nunca tinha ouvido a voz de Rosa Ramalho [cuja arte tem sido prosseguida pela neta Júlia Ramalho >>
YouTube] e, por isso, não posso deixar de manifestar o meu agrado pelo resgate da gravação; aproveito para dizer que a rádio pública devia ser mais ambiciosa e criar um espaço destinado à transmissão integral de todas as entrevistas concedidas por eminentes figuras da Cultura (portuguesas e estrangeiras) que estão a apodrecer no arquivo histórico, sem que ninguém as possa ouvir e aprender com elas; bem sei que esta é uma questão que ultrapassa as competências das Sras. Ana Aranha e Iolanda Ferreira, pelo que a dirijo às estâncias superiores da RDP.

Ficaram de fora outros acontecimentos de cariz cultural dignos de nota:


1. Falecimento do jornalista e escritor Augusto de Castro; formado em Direito, exerceu funções diplomáticas em Londres, Paris, Bruxelas e Roma; foi, a partir de 1919 e durante largos períodos, director do "Diário de Notícias"; a sua produção literária inclui, entre outras obras, as peças de teatro "Caminho Perdido" (1906), "Chá das Cinco" (1909), "Vertigem" (1910), "A Culpa" (1918) e "Amor" (1934), o livro de contos "O Amor e o Tempo" (1929) e os ensaios "A Crise Internacional e a Política Externa Portuguesa" (1949) e "Garrett e o Teatro Português" (1954); foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1945, ocupando a cadeira n.º 5 deixada vaga pelo poeta Eugénio de Castro (1869-1944);
2. Falecimento do actor António Silva; de origem humilde, começou a trabalhar com marçano (numa retrosaria e numa drogaria) ao mesmo tempo que fazia o Curso Geral do Comércio; atraído pelo teatro, integrou vários grupos amadores até se estrear como profissional (1910) na Companhia Alves da Silva desempenhando um pequeno papel na peça "O Novo Cristo", de Leon Tolstoi, levada à cena no Teatro da Rua dos Condes; com a Companhia António de Sousa fez uma prolongada digressão ao Brasil onde participou em três filmes, hoje perdidos – "Ubirajara" (1919), "Convém Martelar" (1920) e "Coração de Gaúcho" (1920); de regresso a Portugal é contratado pela Companhia Satanella-Amarante e transforma-se numa das mais populares vedetas do teatro ligeiro, fazendo rir multidões no Parque Mayer; aí o vai buscar Cottinelli Telmo para fazer de alfaiate Caetano (pai da costureirinha Beatriz Costa) em "A Canção de Lisboa" (1933) [>> YouTube], filme que estabelece as bases da chamada "comédia à portuguesa"; o seu talento para encarnar, com inimitável sentido histriónico, figuras arquetípicas da pequena burguesia lisboeta está bem patente em vários filmes ainda hoje muito populares, como: "O Pátio das Cantigas" (1942) [>> YouTube], "O Costa do Castelo" (1943) [>> YouTube], "A Menina da Rádio" (1944) [>> YouTube], "A Vizinha do Lado" (1945) [>> YouTube], "O Leão da Estrela" (1947) [>> YouTube], "Fado, História d'uma Cantadeira" (1947) [>> YouTube] e "O Grande Elias" (1950) [>> YouTube];
3. Falecimento do actor francês Fernandel; de seu verdadeiro nome Fernand Joseph Désiré Contandin, foi um dos comediantes mais famosos do século XX; a notoriedade alcançada com o filme "Le Blanc et le Noir (1931), de Robert Florey, catapulta-o para uma longa carreira de sucesso só interrompida com a morte, tendo participado em mais de cem filmes, entre os quais "Angèle" (1934), de Marcel Pagnol, "Carnet de Bal" (1937) e "Ma Vache et Moi" (1962), ambos de Julien Duvivier; a sua fama internacional deveu-se sobretudo à encarnação cinematográfica de Don Camillo [>> YouTube], personagem criada pelo escritor italiano Giovanni Guareschi (1908-1968); foi dos actores que melhor soube conjugar o cómico com o dramático [entrevista >> YouTube];
4. Falecimento do compositor russo Igor Stravinski; discípulo de Rimski-Korsakov, foi um dos compositores mais inovadores e revolucionários das primeiras décadas do século XX, com as suites de bailado, compostas, por encomenda do seu compatriota Sergei Diaghilev, para os Ballets Russes – "L'Oiseau de Feu" ("O Pássaro de Fogo", 1910) [>>
YouTube] [suite final >> YouTube] [ao vivo em Londres, 1965, New Philharmonia Orchestra, dir. Igor Stravinski >> YouTube] [coreografia de Maurice Béjart, por Michaël Denard >> YouTube], "Petrushka" (1911) [Bolshoi Ballet Company / Bolshoi State Academic Theatre Orchestra, dir. Andrey Chistiakov – cena I >> YouTube, cena II >> YouTube, cena III >> YouTube, cena IV >> YouTube], e sobretudo "Le Sacre du Printemps" ("A Sagração da Primavera", 1913) [Orchestre de Paris, dir. Pierre Boulez, 2002 >> YouTube] [coreografia de Maurice Béjart >> YouTube] que causou grande tumulto na assistência aquando da estreia, a 29 de Maio de 1913, no Théâtre des Champs-Élysées, sob a batuta do prestigiado maestro Pierre Monteux; a sua vasta e prolífica produção posterior inclui os bailados "Chant du Rossignol" ("O Canto do Rouxinol", 1917) [Berlin Radio Symphony Orchestra, dir. Lorin Maazel >> YouTube], "L'Histoire du Soldat" ("A História do Soldado", 1918) [The Prince William Symphony Players, dir. David Montgomery >> YouTube], "Pulcinella" ("Pulchinela", 1920) [Columbia Symphony Orchestra, dir. Igor Stravinski >> YouTube], "Les Noces" ("As Bodas", 1923) [Mariinsky Ballet, coreografia de Bronislava Nijinska, dir. Valery Gergiev >> YouTube], "Apollon Musagète" ("Apolo Musageta", 1928) [Opéra de Paris, coreografia de George Balanchine >> YouTube], as óperas "Oedipus Rex" ("Édipo Rei", 1927) [encenação de Julie Taymor, 1993 – parte 1 >> YouTube, parte 2 >> YouTube, parte 3 >> YouTube, parte 4 >> YouTube] e "The Rake's Progress" ("A Carreira do Libertino", 1951) [Prelúdio, dir. Sylvain Cambreling, encenação de Peter Mussbach >> YouTube] e a "Symphonie de Psaumes" ("Sinfonia dos Salmos", para coro e orquestra, 1930) [London Symphony Orchestra & English Bach Festival Chorus, dir. Leonard Bernstein >> YouTube], estreada em Bruxelas sob a direcção de Ernest Ansermet; faleceu em Nova Iorque, aos 88 anos de idade, e foi sepultado, em cumprimento do desejo que deixara expresso, no cemitério da ilha de San Michele, em Veneza, onde jaz próximo do amigo Diaghilev [>> YouTube];
5. Falecimento do músico norte-americano Louis Armstrong; nascido com o século no seio de uma família muito humilde de Nova Orleães, é geralmente considerado um dos maiores vultos (se não mesmo o maior) da História do Jazz; começou a notabilizar-se nos anos 20, como tocador de corneta, passando depois para a trompete, de que se tornou um exímio executante; como cantor, é-lhe atribuída a invenção do "scat singing" (sílabas improvisadas em vez de palavras verdadeiras); da sua vasta discografia merece destaque o histórico álbum que gravou com Ella Fitzgerald para a etiqueta Verve, "Ella & Louis" (1956), um extraordinário alforbe de pérolas do jazz cantado a dois, abrilhantadas com os solos da sua maravilhosa trompete: "Can't We Be Friends?" [>>
YouTube], "Isn't This a Lovely Day?" [>> YouTube], "Moonlight in Vermont" [>> YouTube], "They Can't Take That Away from Me" [>> YouTube], "Under a Blanket of Blue" [>> YouTube], "Tenderly" [>> YouTube], "A Foggy Day" [>> YouTube], "Stars Fell on Alabama [>> YouTube], "Cheek to Cheek" [>> YouTube], "The Nearness of You" [>> YouTube] e "April in Paris" [>> YouTube]; a canção "What a Wonderful World" [>> YouTube] [>> YouTube], que editou em 1968 no álbum homónimo catapultou-o muito para além das fronteiras do jazz e granjeou-lhe fama mundial; participou em dezenas filmes, entre os quais "Jam Session" (1944), "Alta Sociedade" ("High Society", 1956) [>> YouTube] e "Hello, Dolly" (1969) [>> YouTube]; contou a fase inicial da sua vida na autobiografia "Satchmo, My Life in New Orleans" (1954);
6. Falecimento do cantor norte-americano Jim Morrison; vocalista e figura central do lendário grupo californiano The Doors – com Ray Manzarek (teclados), Robbie Krugger (guitarra) e John Densmore (bateria) –, James Douglas Morrison era um cultor de poesia (admirava William Blake e Arthur Rimbaud) e levou-a para o rock (não por acaso o nome do grupo foi inspirado no título de um livro de Aldous Huxley, "The Doors of Perception", por sua vez extraído de um verso de William Blake, "If the doors of perception were cleansed"); o consumo excessivo do álcool e de drogas duras acabaria por ceifar-lhe a vida, aos 27 anos de idade – a 3 de Julho de 1971 é encontrado inanimado na banheira do apartamento onde se encontrava hospedado em Paris; foi sepultado no cemitério Père Lachaise, sendo a sua campa ainda hoje alvo de romagens [>> YouTube]; do repertório que integra os sete álbuns que gravou no seio dos Doors – "The Doors" (1967), "Strange Days" (1967), "Waiting For The Sun" (1968), "The Soft Parade" (1969), "Morrison Hotel" (1970), "Absolutely Live" (1970) e "L.A. Woman" (1971) – são de referência obrigatória os temas "Light My Fire" [>> YouTube] [ao vivo no Hollywood Bowl, 1968 >> YouTube], "Alabama Song" [>> YouTube] [ao vivo no Hollywood Bowl, 1968 >> YouTube], "Roadhouse Blues" [>>
YouTube] [ao vivo no Hollywood Bowl, 1970 >> YouTube] [ao vivo em Nova Iorque, 1970 >> YouTube], "Riders on the Storm" [>> YouTube] [>> YouTube] e o profético "The End" [>> YouTube] [ao vivo no Hollywood Bowl, 1968 >> YouTube], que Francis Ford Coppola viria a incluir na banda sonora do filme "Apocalipse Now" (1979) [>> YouTube] [Redux End Theme >> YouTube]; vários dos poemas recitados que deixou gravados numa maquete foram publicados em 1978 num álbum intitulado "An American Prayer" [poema "A Feast of Friends" >> YouTube] [álbum completo >> YouTube]; o actor Val Kilmer personificou-o no cinema, sob a direcção de Oliver Stone, em "The Doors – O Mito de Uma Geração" (1991) [>> YouTube] ["The End" >> YouTube];
7. Falecimento da estilista francesa Coco Chanel; começou a ser conhecida durante a I Guerra Mundial, com os fatos de trabalho que desenhou para as mulheres que nas fábricas substituíam os homens ausentes em combate; revolucionou a moda feminina nos anos 20 e 30, com o "vestidinho preto", saias e casacos de recorte clássico; «estilo simples, mas com classe» era o seu lema; também se dedicou aos perfumes, tendo ficado famoso o "Chanel N.º 5", criado a seu pedido por Ernest Beaux, em 1921, e que era o preferido de Marilyn Monroe; a relação amorosa que manteve com o compositor Igor Stravinski esteve na base do filme de Jan Kounen, "Coco Chanel & Igor Stravinsky" (2009) [>> YouTube]; 
8. Estreia do filme "Morte em Veneza", de Luchino Visconti; adaptado do romance homónimo de Thomas Mann, publicado em 1912, o filme tem como cenário a Veneza dos inícios do século XX, onde um solitário compositor de meia-idade (Dirk Bogarde) avista um adolescente, arquétipo da beleza andrógina, e fica intensamente atraído por ele; obra de extraordinário apuro plástico, "Morte em Veneza" [>> YouTube] começa e termina com as notas nostálgicas do "Adagietto", da 5.ª Sinfonia, de Gustav Mahler [>> YouTube] [versão de Bruno Walter, 1938 >> YouTube], muito tendo contribuído para a divulgação desta magistral peça musical junto do grande público;
9. Estreia do filme "Laranja Mecânica" ("A Clockwork Orange"), de Stanley Kubrick; baseado no romance homónimo de Anthony Burgess (1962), e protagonizado por Malcolm McDowell, não é uma obra apologética da violência, antes um magistral exercício de antevisão do que poderá acontecer nas sociedades em que os pais e educadores abdiquem do seu dever de transmitir aos seus educandos os valores da civilidade e do respeito pelo outro; esta notável obra cinematográfica tem ainda o mérito, por um lado, de mostrar que os actos de extrema violência (assassínios e violações), longe de edificarem, conduzem à sua marginalização/destruição de quem os pratica, e, por outro lado, de desmascarar o poder político e o sistema de saúde de países supostamente democráticos (a acção passa-se na insuspeita Inglaterra) na violação dos mais elementares direitos humanos com o pretexto do "tratamento" de perigosos delinquentes; refira-se, a título de curiosidade, que "Laranja Mecânica" [>> YouTube] foi o primeiro filme produzido em sistema Dolby; na banda sonora pontifica a canção "Singin' in the Rain", originalmente cantada e dançada por Gene Kelly no filme "Serenata à Chuva" (1952) [>> YouTube] e, em lugar de grande destaque, o maravilhoso e arrebatador scherzo molto vivace (segundo andamento) da 9.ª Sinfonia, de Beethoven [>> YouTube] [Hungarian Philharmonic Orchestra, dir. Janos Ferencsik >> YouTube];
10. Estreia do filme "Vilarinho das Furnas", de António Campos; notável documentário sobre a aldeia comunitária de Vilarinho das Furnas, situada na margem direita do rio Homem (afluente do Cávado), no concelho de Terras de Bouro, antes de ser abandonada pelos cerca de 250 habitantes (57 famílias) para desaparecer sob as águas de uma barragem hidroeléctrica; é o Portugal ancestral que soçobra ante o progresso (ou uma certa ideia de progresso) [>> YouTube]
11. Estreia em cena da ópera-rock "Jesus Christ Superstar", de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber; foi o sucesso alcançado com o duplo LP "Jesus Christ Superstar" (1970) que deu a Andrew Lloyd Webber a ideia transpor a obra para o palco; estreada a 12 de Outubro de 1971, no Mark Hellinger Theatre, de Nova Iorque, "Jesus Christ Superstar" tornou-se um dos musicais mais vistos da Broadway e – como não podia deixar de ser – veio a ter também uma versão cinematográfica realizada, em 1973, por Norman Jewison [>> YouTube]; a versão portuguesa do musical seria levada à cena por Filipe La Féria, pela primeira vez a 16 de Junho de 2007, no Teatro Rivoli (Porto), com o fadista Gonçalo Salgueiro no papel de Cristo [>>
YouTube]; à parte alguns aspectos algo datados, "Jesus Christ Superstar" vale sobretudo pela ousadia de pôr em confronto as ideias inconciliáveis de dois homens – Jesus Cristo e Judas Iscariotes –, contribuindo assim para a necessária reflexão, de crentes e não crentes, acerca dos verdadeiros motivos (não necessariamente concordantes com os Evangelhos) que terão levado Pôncio Pilatos, homem ponderado e astuto, a mandar executar, como um vulgar criminoso, um homem pacífico e aparentemente inofensivo para o domínio romano na Judeia;
12. Edição do álbum "Cantigas do Maio", de José Afonso; «O mais histórico e o mais referencial de todos os discos da música popular portuguesa. Gravado no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Herouville (França), entre 11 de Outubro e 4 de Novembro de 1971, com arranjos e direcção musical a cargo de José Mário Branco, este disco assinala a primeira viragem de fundo na revolução musical iniciada por Zeca uma dúzia de anos antes. O tratamento instrumental de cada tema, a beleza poética e a subversão temática atingem aqui um nível nunca anteriormente possível. E, uma vez mais, Zeca recusa a facilidade, incluindo canções onde o surreal é já assumido na sua totalidade (para desespero da direita e de uma certa esquerda, que insistia na necessidade de uma "definição clara" de Zeca, à luz do "socialismo científico") como "Ronda das Mafarricas" [>> YouTube] ou "Senhor Arcanjo" [>> YouTube], a par de belíssimos temas de inspiração popular, como "Maio, Maduro Maio" [>> YouTube], "Milho Verde" [>> YouTube], "A Mulher da Erva" [>> YouTube] ou "Cantigas do Maio" [>> YouTube] e de óbvios cantos de resistência, como o "Cantar Alentejano" [>> YouTube], dedicado a Catarina Eufémia, camponesa assassinada pela GNR, ou "Coro da Primavera" [>>
YouTube]. Gravado num tempo recorde e contando apenas com as participações de meia-dúzia de músicos (Carlos Correia, Michel Delaporte, Christian Padovan, Tony Branis, Jacques Granier e Francisco Fanhais, além de, naturalmente, José Mário Branco e Zeca), este disco seria considerado, em 1978, como o melhor de sempre da música popular portuguesa, numa votação organizada pelo "Sete" que contou com a participação de 25 críticos e jornalistas. Um tema, no entanto, bastaria para fazer de "Cantigas do Maio" um marco da história portuguesa: "Grândola, Vila Morena" [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube], escolhida em 1974 como senha para o arranque do Movimento dos Capitães, que em 25 de Abril derrubou a ditadura fascista.» (Viriato Teles);
13. Edição do álbum "Gente de Aqui e de Agora", de Adriano Correia de Oliveira; é outro disco fundamental para a emancipação da música popular portuguesa relativamente à balada com simples acompanhamento à viola, pela maior sofisticação dos arranjos com o recurso a múltiplos instrumentos e, por vezes, a orquestra; os arranjos foram repartidos por Rui Ressureição, Thilo Krasmann, José Calvário e José Niza, que assina a totalidade das composições para os dez poemas do alinhamento: dois do galego Manuel Curros Enríquez ("Emigração" [>>
YouTube] e "Para Rosalía"), dois de Manuel Alegre ("E Alegre se Fez Triste" [>> YouTube] e "Canção Tão Simples" [>> YouTube]), um do Conde de Monsaraz ("O Senhor Morgado" [>> YouTube]), um de Fernando Miguel Bernardes ("Cana Verde" [>> YouTube]), um de Raul de Carvalho ("A Vila de Alvito"), um de Luís de Andrade Pignatelli ("Cantiga de Amigo" [>> YouTube]), um de António Ferreira Guedes ("Roseira Brava" [>> YouTube]) e um de António Aleixo ("História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro" [>> YouTube]);
14. Edição do álbum "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco; é o primeiro disco de grande fôlego de José Mário Branco (antes editara apenas dois EP) e um trabalho de capital importância para a afirmação da música popular portuguesa, sedimentando o caminho aberto por José Afonso e Adriano Correia de Oliveira; gravado no Strawberry Studio, em Herouville (arredores de Paris), e contando com a colaboração de músicos sobretudo estrangeiros, José Mário Branco é o autor dos arranjos, bem como de todas as músicas, com excepção da que dá título ao disco (que é de Jean Sommer); quanto à poesia, temos a de Sérgio Godinho ("Cantiga para Pedir Dois Tostões" [>> YouTube], "Cantiga do Fogo e da Guerra" [>> YouTube], "O Charlatão" [ao vivo com Sérgio Godinho >> YouTube] e "Casa Comigo, Marta" [>> YouTube]), a de Natália Correia ("Queixa das Almas Jovens Censuradas" [>> YouTube]), a de Alexandre O'Neill ("Perfilados de Medo" [>> YouTube]), a de Luís de Camões ("Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades" [>> YouTube]) e a do próprio José Mário Branco ("Nevoeiro" [>> YouTube] e "Mariazinha" [>> YouTube]);
15. Edição do álbum "Movimento Perpétuo", de Carlos Paredes; sequência lógica do LP "Guitarra Portuguesa" (1967), neste álbum o músico apresenta-se ainda mais inspirado e arrebatador; como escreveu Mário Correia, «é um Carlos Paredes demolidor das nossas veias, revolvendo-nos as entranhas de povo colectivo emergindo das cordas da guitarra, aquele que anima este "Movimento Perpétuo"»; o acompanhamento é na viola de Fernando Alvim, surgindo em "Mudar de Vida" (Tema [>> YouTube] e Música de Fundo [>> YouTube] do filme homónimo realizado por Paulo Rocha) a flauta de Tiago Velez; aos outros temas todos da autoria de Carlos Paredes – "Movimento Perpétuo" [>> YouTube], "Variações em Ré menor" [>> YouTube], "Danças Portuguesas N.º 2" [>> YouTube], "Variações em Mi menor" [>> YouTube], "Fantasia N.º 2" [>> YouTube], "Variações sobre uma Dança Popular", "António Marinheiro" (tema da peça de Bernardo Santareno) [>> YouTube] e "Canção" [>> YouTube] –, o guitarrista adicionou "Valsa" [>> YouTube] composta pelo seu avô paterno, Gonçalo Paredes;
16. Edição do álbum "Cantigas de Amigos", de Natália Correia, Amália Rodrigues e Ary dos Santos; o mais desconhecido (a edição em CD só aconteceu em finais de 2011) e, no entanto, um dos títulos mais encantadores da discografia de Amália; tudo teve origem na publicação em 1970, pela Editorial Estampa, do livro "Cantares dos Trovadores Galego-Portugueses", apresentando para cada espécime o texto original e a respectiva versão em português moderno da lavra da poetisa Natália Correia, grande amiga de Amália Rodrigues; a elas se juntou outro dilecto amigo, Ary dos Santos, e assim ficou completa a trindade de vozes que, suportadas pelas guitarras portuguesas de José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves, a viola de Pedro Leal e a viola baixo de Joel Pina, deram nova vida a um punhado de 14 trovas medievais (maioritariamente cantigas de amigo e de escárnio e maldizer): "Vim Esperar o Meu Amigo" [>>
YouTube], "Vem Comigo, Irmã", "Perigosas Elas São", "Ah, Quisesse Deus" [>> YouTube], "Senhora que Bem Pareceis", "E Pede-Me Agora o que Não Devia" [>> YouTube], "O Rapinante", "Uma Pastora Delgada", "Lá Vão as Flores" [>> YouTube], "Nem por Rei ou Infante Eu me Trocaria", "Sejamos como Toda a Gente", "Ai, Dona Feia, Foste-vos Queixar", "Amores Eu Tenho" [>> YouTube] e "Alegre Eu Ando"; o ramalhete ficou completo com a "Ermida de São Simeão" que Amália gravara em 1964; a belíssima capa do álbum tem a assinatura de outra conviva dos serões amalianos, a pintora Maluda.

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas. Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.


Textos relacionados:
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II)
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (III)

10 julho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (III)

A edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1970 voltou a ser parca e mísera em assuntos de cariz cultural. Foram contemplados: a dissolução dos Beatles (com honras de abertura), a Exposição Universal de Osaka (Japão) e a conquista pela pianista Maria João Pires do Prémio Beethoven, em Bruxelas. Também foi passado o excerto de uma entrevista concedida por José Mário Branco a José Manuel Nunes que era para passar no programa "Página Um", mas que nunca foi para o ar, por interdição da direcção da Rádio Renascença. Desconhecia de todo a existência desta gravação, e aproveito para deixar aqui a minha nota de reconhecimento pelo oportuno resgate.
Foi ainda feita referência (brevíssima) aos seguintes discos: "Traz Outro Amigo Também", de José Afonso; "Cantaremos", de Adriano Correia de Oliveira; "Com Que Voz", de Amália Rodrigues; e "Amália-Vinicius", de Amália Rodrigues com Vinicius de Moraes e outros amigos. O que não pode deixar de se criticar é que edições tão relevantes da História da Música Portuguesa tenham recebido uma simples e fugidia citação, ou seja, sem o mínimo desenvolvimento e sem qualquer ilustração sonora. Quer dizer: os assuntos relacionados com a política e com a guerra são tratados com toda a dignidade, ao passo que os culturais recebem uma breve nota à margem. Não posso, de forma alguma, concordar com esta atitude de considerar a actividade cultural matéria de segunda ou terceira categoria, mais própria de regimes autocráticos e obscurantistas. Será que as Sras. Ana Aranha e Iolanda Ferreira – que eu tenho como pessoas sem laivos ditatoriais, lúcidas e inteligentes – já se deram conta de que ao adoptarem tal atitude estão a fazer o jogo do inimigo e, ironicamente, a darem concretização à "profecia" de José Freire Antunes «o futuro de Portugal será amassado por filhos duradouros da cultura salazarista»?

Aqui fica a lista (não exaustiva, naturalmente) de factos ocorridos em 1970 que não foram devidamente tratados ou, pura e simplesmente, ignorados:

1. Falecimento do escritor e artista plástico José de Almada Negreiros; artista multifacetado, foi um dos fundadores do modernismo português, colaborando na revista "Orpheu" (1915), com Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro; nesta fase, ficou famoso o seu "Manifesto Anti-Dantas", muitos anos mais tarde gravado pelo próprio autor [>> YouTube] e depois, em 1978, por Mário Viegas [>> YouTube]; para além da literatura, em que merecem destaque o livro de poesia "A Invenção do Dia Claro" (1921) e o romance "Nome de Guerra" (escrito em 1925 e publicado em 1938), Almada Negreiros distinguiu-se sobretudo no domínio da pintura, desenho e artes decorativas; as suas realizações plásticas mais conhecidas são os vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima (à avenida de Berna), os frescos das gares marítimas de Alcântara e da Rocha do Conde de Óbidos, o retrato de Fernando Pessoa (sentado a uma mesa com o n.º 2 da "Orpheu") e o painel "Começar" (no átrio da sede da Fundação Calouste Gulbenkian);
2. Falecimento do escritor Tomaz de Figueiredo; contribuiu para o ressurgimento da tradição romanesca camiliana, sendo a sua escrita caracterizada por um estilo onde o castiço se funde com o lirismo e por uma técnica narrativa singularmente moderna; da sua produção, destaca-se o romance "A Toca do Lobo" (1947), distinguido com o Prémio Eça de Queiroz;
3. Falecimento do matemático e filósofo britânico Bertrand Russell; notabilizou-se pelo seu trabalho na Lógica e na Teoria do Conhecimento; entre as suas obras contam-se "Principia Mathematica" (1910-13, em colaboração com Alfred North Whitehead), "O ABC da Relatividade" (1925) e "História da Filosofia Ocidental" (1945), que lhe valeu o Prémio Nobel da Literatura em 1950;
4. Falecimento do músico norte-americano Jimi Hendrix; o seu estilo experimental e heterodoxo de tocar a guitarra eléctrica, usando efeitos especiais como o "feedback" e a distorção, revolucionou o uso do instrumento no rock; radicado em Londres, a partir de 1966, formou com baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell o grupo Jimi Hendrix Experience, no seio do qual gravou alguns dos seus maiores 'hits', como como "Hey Joe" [>> YouTube] [no Festival de Woodstock, 1969 >> YouTube], "Purple Haze" [>> YouTube] [no Royal Albert Hall >> YouTube] e "The Wind Cries, Mary" [>> YouTube] [no Festival de Monterrey, 1967 >> YouTube]; o tema "Voodoo Chile" [>> YouTube], inserto no álbum "Electric Ladyland" (1968), é considerado um dos espécimes mais esplendorosos da sua produção; morreu no auge da fama, aparentemente sufocado por vómitos resultantes de uma dose exagerada de soporíferos;
5. Falecimento da cantora norte-americana Janis Joplin; de espírito rebelde e insubmisso, era dona de uma voz extraordinariamente expressiva e enérgica com que reinventou os blues para a nova linguagem rock; o abuso do álcool e das drogas causou-lhe a morte aos 27 anos de idade; editado postumamente, o álbum "Pearl" (1971) alcançaria retumbante sucesso, especialmente pelos temas "Cry Baby" [>> YouTube] [ao vivo em Toronto >> YouTube], "Me & Bobby McGee" [>> YouTube] e "Mercedes Benz" [>> YouTube];
6. Atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao escritor russo Aleksandr Soljenityne; duas vezes condecorado por feitos militares na II Guerra Mundial, a crítica ao regime de Estaline fê-lo cair em desgraça; condenado a oito anos de trabalhos forçados, é deportado para a Sibéria, em 1945, vindo a ser reabilitado em 1957, já sob o consulado de Nikita Krushchev; essa dura e sofrida experiência estará na base dos livros "Um Dia na Vida de Ivan Desinovitch" (1962), "O Primeiro Círculo" (1968) e "O Pavilhão dos Cancerosos" (1968) que lhe valem o reconhecimento da Academia de Estocolmo; na sequência publicação do primeiro volume da obra "O Arquipélago de Gulag" no Ocidente (1973-1974), é-lhe retirada a cidadania russa e expulso da União Soviética; radica-se nos Estados Unidos da América, acabando por regressar à Rússia duas décadas mais tarde;
7. Estreia do filme "L'Enfant Sauvage" ("O Menino Selvagem"), de François Truffaut; baseado no caso verídico de uma criança que tendo sido abandonada numa floresta aí viveu, fora do contacto humano, até aos doze anos de idade, o filme tem o grande mérito de mostrar o quão indelevelmente marcante é para o ser humano o meio em que decorrem os primeiros anos de vida [>> YouTube];
8. Edição do álbum "Amália-Vinicius", de Amália Rodrigues com Vinicius de Moraes e outros amigos; gravado na casa de Amália, à rua de São Bento, na noite de 19 de Dezembro de 1968, no disco participam, além de Vinicius de Morais e dos músicos José Fontes Rocha (guitarra portuguesa) e Pedro Leal (viola), os poetas Ary dos Santos, Natália Correia e David Mourão-Ferreira; entre fados e poemas recitados, são dezanove os espécimes que integram o álbum (originalmente um duplo LP), cujo alinhamento abre, muito sugestivamente, com o "Retrato de Amália", de e por Ary dos Santos [>> YouTube];
9. Edição do álbum "Com Que Voz", de Amália Rodrigues; integralmente composto por composições de Alain Oulman para poemas de Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira, Manuel Alegre, Luís de Camões, António de Sousa, Alexandre O'Neill, Pedro Homem de Mello e Ary dos Santos, este disco é considerado por muitos o ponto culminante de toda a discografia de Amália; com acompanhamento de José Fontes Rocha (guitarra portuguesa) e Pedro Leal (viola), são doze os temas do alinhamento: "Naufrágio" [>> YouTube], "Maria Lisboa" [>> YouTube], "Trova do Vento que Passa" [>> YouTube], "Com que Voz" [>> YouTube], "Cravos de Papel" [>> YouTube] [na TV Alemã, 1972 >> YouTube], "As Mãos que Trago" [>> YouTube], "Gaivota" [>> YouTube], "Havemos de Ir a Viana" [>> YouTube], "Cuidei que Tinha Morrido" [>> YouTube], "Formiga Bossa Nossa" [>> YouTube], "Meu Limão de Amargura" [>> YouTube] e "Madrugada de Alfama" [>> YouTube];
10. Edição do álbum "Cantaremos", de Adriano Correia de Oliveira; é o primeiro disco de Adriano que conta com a colaboração de José Niza, que assina a música de três temas, um sobre poema da galega Rosalía de Castro ("Cantar de Emigração") [>> YouTube] [>> YouTube] e dois sobre poemas de António Gedeão ("Fala do Homem Nascido" [>> YouTube] e "Lágrima de Preta" [>> YouTube]); completam o alinhamento duas recriações do cancioneiro açoriano, com arranjos de Carlos Alberto Moniz ("O Sol Préguntou à Lua" [>> YouTube] e "Sapateia" [>> YouTube]), três canções sobre poemas de Manuel Alegre ("Saudade, Pedra e Espada" [>> YouTube], "Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência" [>> YouTube] e a sublime "Canção com Lágrimas" [>> YouTube]), e ainda "Cantar Para Um Pastor" (poema de Matilde Rosa Araújo) [>> YouTube], "Como Hei-de Amar Serenamente" (poema de Fernando Assis Pacheco) [>> YouTube] e "A Noite dos Poetas" (poema de António Barahona da Fonseca) [>> YouTube]; a voz cristalina e melodiosa de Adriano Correia de Oliveira cantando alguns dos mais belos espécimes da poesia portuguesa e o magistral acompanhamento da viola de Rui Pato fazem de "Cantaremos" um dos mais preciosos tesouros do nosso património discográfico;
11. Edição do álbum "Traz Outro Amigo Também", de José Afonso; gravado em Londres, nos Estúdios Pye, com Carlos Correia (Bóris), na viola, em substituição de Rui Pato (que estava impedido pela PIDE de sair do país), e Filipe Sousa Colaço, na segunda viola e pandeireta, o disco é, nas palavras de Viriato Teles, «um imenso poema de fraternidade a que não falta a raiva de quem se sabe cercado; uma raiva que tem a sua expressão mais evidente nas interpretações de "Os Eunucos" (cuidadosamente subintitulado "No Reino da Etiópia") [>> YouTube] e do soberbo e angustiante poema de Jorge de Sena, "Epígrafe para a Arte de Furtar"» [>> YouTube]; este é o registo de José Afonso em que surgem, pela primeira vez e de forma explícita, as referências a África, mais concretamente a Moçambique (onde leccionou durante três anos), em "Avenida de Angola" [>> YouTube] e "Carta a Miguel Djéje" [>> YouTube]; além do tema-título, "Traz Outro Amigo Também" [>> YouTube] [videoclip >> YouTube], e das belas recriações do cancioneiro tradicional "Maria Faia" [>> YouTube] e "Moda do Entrudo" [>> YouTube], merecem ainda destaque: "Canto Moço" [>> YouTube], "Canção do Desterro (Emigrantes)" [>> YouTube], "Verdes São os Campos" (a terceira visitação do cantor à lírica camoniana) [>> YouTube] e a belíssima "Cantiga do Monte" [>> YouTube].

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.
Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.

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Artigos relacionados:
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II)

06 julho 2012

Publicidade comercial na rádio pública (II)



«Boa viagem aos que vão para o trabalho ou em passeio.
Boa viagem à turma que vai em visita de estudo ou de recreio.
Boa viagem ao Jorge que vai levar no seu motão,
A quem vai de férias com os filhos e o cão,
À equipa de futebol que vai a todo o lado jogar,
E a si, que em Portugal e lá fora, nos faz avançar.
Brisa: 40 anos sempre a andar!»

Este é um anúncio que vem sendo transmitido pela RDP-Antena 1.
O Contrato de Concessão do Serviço Público de Radiodifusão Sonora, na sua Cláusula 10.ª (Limites à Transmissão de Publicidade), reza assim:

1 - A Concessionária apenas poderá incluir na sua programação referências publicitárias de interesse geral, de natureza cultural ou sob a forma de patrocínio, incluindo os de iniciativas culturais por si organizadas ou transmitidas.
2 - Os patrocínios obedecerão ao disposto no Código da Publicidade e respeitarão as orientações da UER sobre o patrocínio de programas que são objecto de intercâmbio.

Como é facilmente constatável, a anúncio em causa constitui uma flagrante infracção ao consignado nos pontos anteriores, pois a entidade à qual a publicidade diz respeito não exerce actividade na área cultural, nem estamos em presença da promoção de uma iniciativa de cariz cultural ou humanitário da qual a Brisa seja a patrocinadora.
A Brisa é, como se sabe, uma empresa que se dedica à exploração de portagens em auto-estradas e tem fins lucrativos, isto é, os resultados líquidos da sua actividade são distribuídos pelos accionistas. Por conseguinte, se a Brisa quer publicidade terá de a pagar, recorrendo aos órgãos de comunicação que dependem dessas receitas para a sua sobrevivência.
A Antena 1 (vale o mesmo para qualquer outro canal da rádio pública), ao aceitar transmitir publicidade, peca de três maneiras:

  1. Subtraindo recursos financeiros ao sector privado da comunicação social, pondo em risco a saúde económica dessas empresas, ainda para mais num período de acentuada recessão e de natural retracção dos anunciantes;
  2. Beneficiando, sem razão plausível, determinadas marcas/empresas com publicidade gratuita (*), violando claramente o princípio da equidade relativamente às demais marcas/empresas congéneres; eu não sou accionista de nenhuma das outras concessionárias de auto-estradas, mas se fosse teria razão bastante para me queixar de estar a ser prejudicado;
  3. Defraudando as legítimas expectativas dos ouvintes que pagam a chamada contribuição do audiovisual (e outros impostos) com o pressuposto de virem a usufruir de um serviço livre de publicidade.

(*) presumindo que a Brisa não paga nada em troca do favor que lhe é prestado pela rádio do Estado. Se paga, das duas uma: ou o dinheiro entra nos cofres da empresa, configurando uma forma de financiamento ilegal; ou não entra, e alguém se está a "abotoar" com ele (aqui temos matéria de polícia). Não havendo pilim envolvido na coisa, não será de estranhar que mais algum(uns) fulano(s) passe(m) a circular nas auto-estradas da Brisa a título gratuito (via verde à borla, pois então!).

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Publicidadecomercial na rádio pública

02 julho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (II)

Na edição do programa "A Vida dos Sons" relativa ao ano de 1969, os assuntos de índole política e militar continuaram a preponderar, de forma esmagadora e sufocante.
De eventos culturais, apenas três mereceram menção – festival de Woodstock, programa televisivo "Zip-Zip" e a fundação dos Monty Python –, ainda assim sem o desejável desenvolvimento e conveniente ilustração sonora. Por exemplo: teria sido de bom tom que tivessem passado a "Pedra Filosofal" [>> YouTube], que Manuel Freire estreou precisamente no "Zip-Zip", e que ficou como um dos mais superlativos espécimes do nosso património poético-musical; já quanto ao festival de Woodstock, ficou a faltar um ou dois dos temas aí gravados mais emblemáticos do "flower power" (as flores da paz e do amor contra a Guerra do Vietname).

Aqui se referenciam, para que conste, alguns eventos importantes do ano de 1969 que foram (incompreensivelmente) omitidos:

1. Falecimento do escritor Alves Redol; paladino do neo-realismo e um dos nomes maiores dessa corrente literária, é autor dos romances "Gaibéus", "Avieiros", "Fanga", "Porto Manso", "Horizonte Cerrado", "A Barca dos Sete Lemes", "Uma Fenda na Muralha" e "Barranco de Cegos", entre outros, sem esquecer a peça de teatro "A Forja", uma das mais admiráveis abordagens dramáticas à incontornável problemática da morte;
2. Falecimento do escritor José Régio; figura cimeira da "Presença", distinguiu-se como poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta; várias das suas obras, entre as quais a peça "Benilde ou a Virgem Mãe", foram adaptadas ao cinema por Manoel de Oliveira; haverá português (não troglodita) que nunca tenha ouvido, por João Villaret, o celebérrimo "Cântico Negro"? [>> YouTube];
3. Falecimento do fadista Carlos Ramos; começou como guitarrista acompanhador (nomeadamente de Ercília Costa, numa digressão pelos Estados Unidos da América, em 1939), afirmando-se depois como cantor, acompanhando-se a si próprio à guitarra; a ele se devem algumas das mais brilhantes pérolas do fado-canção, como o "Fado das Queixas" (letra de Frederico de Brito e música de Carlos Rocha) [>> YouTube];
4. Falecimento do regente de orquestra suíço Ernest Ansermet; maestro dos "Ballets Russes", de Diaghilev, a partir de 1915, fundou, três anos mais tarde, em Genebra, a (que se tornaria famosa) Orchestre de la Suisse Romande, à frente da qual se manteve até 1966; é o responsável por muitas gravações de referência, sobretudo de Stravinski, Debussy e Ravel;
5. Falecimento da actriz norte-americana Judy Garland; alcançou a imortalidade ao encarnar a pequena Dorothy no filme "O Feiticeiro de Oz" (1939), de Victor Fleming, onde canta "Over the Rainbow" [>> YouTube];
6. Atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao dramaturgo irlandês Samuel Beckett; expoente máximo do teatro do absurdo, "En Entendant Godot" ("À Espera de Godot"), escrita em 1948, publicada em 1952 e levada à cena, pela primeira vez, a 4 de Janeiro de 1953, no Théâtre de Babylone, em Paris, é a sua peça mais emblemática e representada;
7. Edição do álbum "Contos Velhos, Rumos Novos", de José Afonso; é o disco em que o cantautor se faz acompanhar, pela primeira vez, por outros instrumentos além da viola – trompa, harmónica, cavaquinho, marimba, bombo – sem esquecer uma voz feminina (Teresa Paula Brito) que participa no tema "Vai, Maria, Vai" [>> YouTube]; deste belíssimo álbum, são de realçar: "Bailia" (sobre poema do trovador medieval Airas Nunes) [>> YouTube]; "Qualquer Dia" (poema de Fernando Miguel Bernardes) [>> YouTube], "Era de Noite e Levaram" (poema de Luís de Andrade Pignatelli) [>> YouTube] e "Já o Tempo se Habitua" (poema e música de José Afonso) [>> YouTube];
8. Edição do álbum "O Canto e as Armas", de Adriano Correia de Oliveira; baseado em poemas do livro homónimo de Manuel Alegre, que então se encontrava no exílio, o disco inclui espécimes de tocante beleza, tais como "Canto da Nossa Tristeza" [>> YouTube], "Trova do Vento Que Passa n.º 2" [>> YouTube] e "As Mãos" [>> YouTube];
9. Edição do álbum "Flores para Coimbra", de António Bernardino; constituído maioritariamente por poemas de Manuel Alegre, musicados por António Portugal e Francisco Filipe Martins, este é um disco referencial na história da canção de Coimbra; "E Alegre se Fez Triste", "Canção do Exílio", "Fado para um Amor Ausente", "Guitarras do Meu País", "Canto do Silêncio" e "Cantiga para os Que Partem" (sobre poema da galega Rosalía de Castro, que Adriano Correia de Oliveira gravaria no ano seguinte, com música de José Niza, sob o título "Cantar de Emigração") [>> YouTube] contam-se entre a dúzia de temas do alinhamento;
10. Edição do álbum "Canções do Mar e da Vida", de Luiz Goes; disco fundamental para a afirmação da balada de Coimbra, nele constam "Canção do Regresso", "Cântico de um Pescador", "Boneca de Trapo", "Cantiga de um Vagabundo" e esse verdadeiro hino de apelo à solidariedade e à fraternidade que é "Homem Só, Meu Irmão" [>> YouTube];
11. Edição do álbum "Epopeia", da Filarmónica Fraude; do mítico e meteórico grupo de António Avelar de Pinho (textos) e Luís Linhares (músicas), o conceptual "Epopeia", centrado na época dos Descobrimentos, é um dos discos mais singulares, arrojados e ambiciosos que se fizeram em Portugal nos anos 60; pode mesmo dizer-se, sem exagero, que foi precursor desse autêntico colosso da música portuguesa que é "Por Este Rio Acima" (1982), de Fausto Bordalo Dias; destaque para os temas "Na Ilha Virgem", "Só Marinheiros e Escravos se Afundam com a Nau" [>> YouTube], "Homenagem Póstuma", "Sebastião Morreu!" e "Os Bem-Aventurados";
12. Fecundação 'in vitro', pela primeira vez, de um óvulo humano, pelo fisiologista britânico Robert Geoffrey Edwards; primeiro e fundamental passo para a ciência no capítulo da reprodução humana, que possibilitou o nascimento do primeiro bebé-proveta, Louise Brown, em 1978; Robert Geoffrey Edwards será galardoado com o Prémio Nobel da Medicina em 2010.

Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.
Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.
Renova-se o pedido: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.


Texto relacionado:
"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor

25 junho 2012

"A Vida dos Sons": deseja-se menos cinzenta e mais multicolor

Graças à gravação pré-programada, posso dar-me ao luxo de ouvir os programas de rádio e televisão do meu interesse nos horários que mais me convêm. As minhas manhãs se sábado são por regra consagradas à audição de rádio, começando, cerca das 09:00, com o imperdível "Lugar ao Sul", seguindo-se "A Vida dos Sons", magazine histórico realizado por Ana Aranha e Iolanda Ferreira com base no arquivo sonoro da RDP (escrevo RDP porque faço questão de não deixar cair esta prestigiada marca no âmbito do casamento forçado e desigual com a RTP). Tenho acompanhado "A Vida dos Sons" desde o início (se bem me lembro, a primeira edição foi consagrada aos alvores da gravação sonora com a invenção do fonógrafo por Thomas Edison, em 1877) e com muito interesse e proveito, devo acrescentar, em reconhecimento do trabalho realizado pelas autoras. No entanto, a edição de sábado passado (respeitante a 1968) e as seis ou sete precedentes tiveram o condão de me deixar com a sensação de alguma monotonia e enfado. E porquê? Porque os acontecimentos de natureza política e militar passaram a preencher, quase em exclusivo, cada edição, ficando a componente cultural reduzida a praticamente nada. Não acredito que tal esteja a acontecer devido a uma hipotética míngua de actividade cultural na década de 60. Em todos os anos desse decénio houve certamente muitos eventos culturais dignos de referência: lançamento de livros e discos, estreias de filmes e peças de teatro, exposições, actuação em Portugal de nomes míticos da música (erudita e popular), falecimento de figuras importantes das artes, letras e ciências, etc. A menos que tenham sido entretanto destruídos, existem no arquivo da RDP muitos registos de peças de teatro radiofónico, de obras de ficção adaptadas para rádio (que eram transmitidas em episódios) e de poesia, sem esquecer as centenas de entrevistas realizadas por Igrejas Caeiro e outros. Seria de todo o interesse que esses registos fossem resgatados, em tributo a tantos homens e mulheres que marcaram o seu tempo e que, em muitos casos, deixaram obra relevante para a posteridade. E nem sequer se pede que as gravações sejam exactamente coetâneas ao evento a assinalar. Um exemplo: em 1968 (apenas para citar o ano respeitante à edição de sábado passado), saiu o romance "O Delfim", de José Cardoso Pires. Seria perfeitamente lógico que se resgatasse o excerto de uma entrevista (ainda que gravada muito mais tarde) em que o escritor tivesse falado do livro e, em complemento, caso exista, uma passagem da adaptação radiofónica da obra, mesmo que tendo sido feita nos anos 80 ou 90. E assim ficava devidamente assinalada a edição de um dos mais notáveis frescos literários do Portugal marialva que esteava o salazarismo. Outro exemplo, também relativo a 1968: a edição do belíssimo álbum "Cantares do Andarilho", de José Afonso. Para a assinalar, bastaria transmitir o excerto de uma entrevista feita ao cantautor em que ele se tivesse referido ao disco, seguida de uma das respectivas canções (talvez "Vejam Bem" [>> YouTube], visto ter-se tornado uma espécie de hino de resistência à ditadura).
As autoras do programa poderão alegar que nos 50 minutos que têm à sua disposição não dá para meter muito mais do que a vertente política e militar. Nesse caso, que se faça duas edições para cada ano. A exemplo, aliás, do que chegou a ser feito – e bem – no ano de 1961 e também em determinados anos das décadas de 30, 40 e 50. É que havendo um fabuloso acervo de fonogramas de cariz cultural no arquivo da RDP, penso que constitui uma falha grave eles não serem contemplados num programa que visa – presumivelmente – dar uma panorâmica abrangente do que aconteceu no país e no mundo desde que há registo áudio e que, por acaso, se chama "A Vida dos Sons". Afinal de contas, tais sons também têm vida: bem mais, aliás, do que boa parte dos discursos e declarações de políticos e chefes militares... Entre um inócuo discurso de Américo Thomaz ou um qualquer apontamento de reportagem laudatório de Oliveira Salazar ou apologético da Guerra Colonial e uma peça de Bernardo Santareno, uma adaptação de um conto de José Rodrigues Miguéis, ou um poema dito por João Villaret, Mário Viegas ou Carmen Dolores, eu não tenho a mais pequena dúvida acerca de quais mais satisfação e enriquecimento espiritual me proporcionam.
Em suma: deseja-se que "A Vida dos Sons" seja menos cinzenta e mais multicolor.

15 junho 2012

Em memória de Raul Nery (1921-2012)



Raul Nery, de seu nome completo Raul Filipe Nery, nasceu em Lisboa (freguesia de Santa Engrácia), a 10 de Janeiro de 1921. Revelou, desde tenra idade, vocação para a música, dedicando-se primeiramente ao bandolim. Por influência de um tio, aprende a tocar guitarra portuguesa, recebendo lições do pai de Salvador Freire. Com apenas nove anos de idade, começa a tocar publicamente em diversos recintos de fado amador e, dois anos depois, recebe o epíteto de "o jovem e prodigioso guitarrista", no programa que anunciava um espectáculo misto, em que acompanharia, ao lado do violista Alfredo Gomes de Azevedo, a fadista Ercília Costa, a quem o povo chamava "a Santa do Fado". Em 1938, com 17 anos de idade, estreia-se no "Retiro da Severa", ao lado de músicos consagrados como Armando Freire, mais conhecido como Armandinho, Abel Negrão e Santos Moreira. Armandinho foi, de facto, a sua grande referência na arte de tocar a guitarra portuguesa, conforme declarou numa entrevista: «Eu aprendi muito com o Armandinho. Ele ia criando umas melodias, e eu fixava-as de cabeça com muita facilidade. Ia para casa e no outro dia continuávamos a trabalhar na melodia. Foi quem mais me influenciou e ganhei algumas maneiras como ele tocava».
Trabalhou no teatro de revista acompanhando diversos artistas, entre os quais Estêvão Amarante, Berta Cardoso e Hermínia Silva. Esteve também ligado a várias casas de fado, como o "Café Luso", a "Adega Machado" e a "Adega Mesquita". Nesta última, acompanhou Fernando Farinha, com quem estabeleceu «fortes laços de amizade, a ponto de o convidar para padrinho dos meus filhos».
Depois da II Guerra Mundial, foi o acompanhador, com Santos Moreira (viola), de Amália Rodrigues em muitos espectáculos no país e no estrangeiro, designadamente os realizados ao âmbito do Plano Marshall. Entre vários episódios marcantes, o músico recordou a ovação que receberam de pé no Teatro Argentina, em Roma, onde actuaram «integrados num elenco predominantemente da música clássica».
Nunca descurando os estudos académicos, Raul Nery veio a concluir o curso de agente técnico de engenharia já no auge da sua carreira de guitarrista, integrando, em 1954, os quadros da companhia petrolífera Sacor. Acabou, naturalmente, por encontrar algumas dificuldades de conciliação de ambas as actividades, sobretudo aquando das deslocações ao estrangeiro, sendo por vezes forçado a abdicar do acompanhamento dos artistas, nomeadamente de Amália Rodrigues.
Sucedendo a Fernando de Freitas, foi, durante duas décadas, o guitarrista exclusivo de Maria Teresa de Noronha, emparceirando com o violista Joaquim do Vale (Covinhas), no programa semanal que a fadista manteve até 1961 na Emissora Nacional, em actuações na televisão, na gravação de discos, em espectáculos no estrangeiro e em festas particulares. «Foi uma das mais extraordinárias artistas de fado que conheci e tinha um estilo incomparável.», afirmou o músico.
Em 1958, Raul Nery actuou em Londres, como solista, em gravações com a orquestra de George Melachrino, com a qual gravou os temas "Uma Casa Portuguesa", "Canção do Mar", "Mãe Preta", "Coimbra", "Um Pequeno Café", "Fado Obrigado", "Rapsódia Portuguesa", "Variações em Ré". Foi também convidado pela BBC para uma actuação no programa televisivo "In Town Tonight", merecendo da imprensa inglesa o epíteto "the musical memory man".
A convite da Emissora Nacional, em 1959, fundou com José Fontes Rocha (segunda guitarra portuguesa), Júlio Gomes (viola) e Joel Pina (viola baixo) o Conjunto de Guitarras de Raul Nery. Além do programa quinzenal que durante uma década manteve na rádio pública, o quarteto foi o suporte instrumental de muitos fadistas, quer em espectáculos ao vivo, quer em gravações discográficas. «Todos os grandes, de Amália, Maria Teresa de Noronha, Hermínia, a Tony de Matos, Max, Fernanda Maria, gravaram connosco», recorda Joel Pina. A fama que o conjunto granjeou valeu-lhe um contrato com a orquestra inglesa de George Melachrino, para a gravação do disco "Lisbon at Twilight", que obteria enorme sucesso.
Raul Nery, acabaria por abandonar relativamente cedo, nos inícios dos anos 80, a actividade que o consagrou como um dos maiores executantes de guitarra portuguesa e uma personalidade incontornável da História do Fado.
Entre as distinções que recebeu em vida, conta-se o prémio de consagração de carreira da Fundação Amália Rodrigues.
Em declarações ao jornal "Público", Ricardo Parreira, um dos mais talentosos guitarristas da nova geração, fala assim do grande músico: «Raul Nery foi o guitarrista que mais desenvolveu o acompanhamento à voz. Tinha como característica essencial o bom gosto. Em todos os discos dele que eu tenho, o bom gosto está presente. Sempre foi uma referência para mim. Desde pequeno, o meu pai [António Parreira] punha-me a ouvir Raul Nery para eu aprender.» [Fontes principais: sites do "Museu do Fado" e do "Público"]


Um dos espécimes em que está bem patente a arte do exímio guitarrista que foi Raul Nery é o "Fado Anadia", de Maria Teresa de Noronha, que aqui se deixa, em jeito de tributo à sua memória.



Fado Anadia



Letra: Marques dos Santos
Música: José Maria dos Cavalinhos (1874, dedicada ao 4.º Conde da Anadia, D. José Maria de Sá Pereira e Menezes Pais do Amaral de Almeida e Vasconcelos Quifel Barberino, amante de fado, falecido a 10 de Julho de 1870, com 31 anos de idade)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Eu sei que no céu profundo
Nunca brilhou minha estrela;
Sinto que a vida do mundo     | bis
Jamais poderei vivê-la.          |

[instrumental]

Penso que a vida que vivo
Não passa duma ilusão,
Pois não encontro o motivo   | bis
Do bater do coração.            |

[instrumental]

Creio viver sem ter vida,
Viver vida sem alento
Tal como folha caída              | bis
Andando ao sabor do vento.   |

[instrumental]

Não quero sofrer a sorte
Nesta má sina contida;
Prefiro pedir à morte           | bis
Que me leve à outra vida.   |

[instrumental]


* Maria Teresa de Noronha – voz
Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo

Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
URL: http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=362
http://www.portaldofado.net/content/view/1647/280/
http://www.portaldofado.net/content/view/1648/280/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_Nery
http://www.macua.org/biografias/raulfilipenery.html
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/70294.html
http://ofadodelisboa.blogspot.com/2007/02/o-conjunto-de-guitarras-de-ral-nery.html
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=2145

15 maio 2012

Em memória de Bernardo Sassetti (1970-2012)



Pianista e compositor, Bernardo Sassetti nasceu em Lisboa, a 24 de Junho de 1970. Iniciou os estudos clássicos de piano, aos nove anos de idade, com a professora Maria Fernanda Costa e, mais tarde, com o professor António Menéres Barbosa, tendo frequentado também a Academia dos Amadores de Música. Fascinado com a música de Bill Evans, derivou para o jazz, estudando com Zé Eduardo, Horace Parlan e Sir Roland Hanna.
Iniciou a sua carreira profissional em 1987, afirmando-se desde essa altura como uma peça fundamental em várias formações nacionais. A maturidade e a qualidade do seu jazz, evidenciadas no quarteto de Carlos Martins e no Moreiras Jazztet com apenas dezoito anos de idade, não deixariam de crescer, sedimentadas numa destreza discursiva invulgar e numa invenção harmónica notável. Para além das inúmeras digressões realizadas um pouco por todo o mundo com pequenas formações por si lideradas ou em contextos mais alargados, como a série de concertos realizados na China, acompanhado pela Orquestra Filarmónica de Hong Kong, Bernando Sassetti trabalhou ao longo dos anos com músicos de excepção em gravações e apresentações pontuais, tendo inscritas no seu currículo colaborações com Andy Sheppard, Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Paquito D'Rivera, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson, Charles McPherson, Steve Nelson, ou integrado na United Nations Orchestra e no quinteto do trompetista britânico Guy Barker – com o qual gravou o CD "Into The Blue" (Verve), nomeado para os Mercury Awards '95 - Ten albums of the year.
Os seus primeiros registos discográficos em nome próprio, "Salsetti" (1994, em colaboração com Paquito D'Rivera) e "Mundos" (1997), bem como as suas suites "Ecos de África", "Sons do Brasil" e "Suite Ibérica", evidenciam já uma engenhosa técnica de composição marcada por um caloroso rigor harmónico enquadrado numa matriz rítmica que privilegia a música afro-latina, sem faltar à originalidade nem ceder à trivialidade.
Em 1997, participou no álbum "What Love Is", de Guy Barker, acompanhado pela London Philarmonic Orchestra, cujo convidado especial foi o cantor Sting. Foi este o registo que esteve na origem do convite que o realizador britânico Anthony Minghella, por intermédio da Paramount Pictures, veio a fazer a Bernardo Sassetti para participar na banda sonora do filme "O Talentoso Mr. Ripley" (1999), para o qual gravou três temas: "My Funny Valentine", com Matt Damon; "Tu Vuo' Fa L'Americano" com Matt Damon, Jude Law e o cantor italiano Fiorello; e "You Don't Know What Love Is" com o cantor escocês John Martyn. A composição de música para cinema de ficção e documental viria a tornar-se uma das principais vertentes da actividade de Bernardo Sassetti, sendo de mencionar: "Facas e Anjos" (2000), de Eduardo Guedes; "Maria do Mar", de José Leitão Barros, sob encomenda da Cinemateca Portuguesa, em 2000; "As Terças da Bailarina Gorda" (2000), curta-metragem de Jeanne Waltz; "Aniversário" (2000), telefilme de Mário Barroso; "O Segredo" (2000), de Leandro Ferreira; "Quaresma" (2003), de José Álvaro Morais; "Noite em Branco" (2003), documentário de Olivier Blanc; "A Costa dos Murmúrios" (2004), de Margarida Cardoso; e "Alice" (2005), de Marco Martins. Participou ainda, como solista, no filme "Pax" (1994), de Eduardo Guedes, e na curta-metragem "Bloodcount" (1999), de Bernard McLoughlan.
O CD "Nocturno", gravado na casa de Maria João Pires, em Belgais, e editado pela editora portuguesa Clean Feed, em 2002, viria a ser distinguido com o Prémio Carlos Paredes, instituído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Em 2003, Bernardo Sassetti associou-se a Mário Laginha para a gravação de um disco onde pudessem dar expressão às suas afinidades electivas, aprofundando a experiência que haviam tido em 1999 no festival "Jazz em Agosto", onde tocaram juntos a convite da Fundação Calouste Gulbenkian. A edição recebeu o título simples e inequívoco de "Mário Laginha & Bernardo Sassetti". Ainda com Mário Laginha, gravou várias versões instrumentais de canções de José Afonso para o segundo CD da colectânea "Grândolas" (2004), comemorativa do 30.º aniversário do 25 de Abril. Em Outubro de 2006, realizou no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, com Mário Laginha e Pedro Burmester, o concerto "3 Pianos" que seria editado em DVD, no ano seguinte. Da discografia de Bernardo Sassetti, merecem ainda destaque os álbuns "Indigo" (2003), "Livre" (2004), "Ascent" (2005), amplamente aclamados pela crítica especializada.
Em parceria com Carlos do Carmo, gravou em 2010, o CD "Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti" em que, além de assegurar a execução pianística e assinar os arranjos de todos os temas, compôs a música de uma das duas canções originais – "Retrato" (com letra de Mário Cláudio).
Na extensa lista de colaborações com outros intérpretes, como acompanhador e/ou como compositor/arranjador, contam-se os seguintes discos: "Impressões" (1994) e "Olhar" (1999), de Carlos Barretto; "Cumplicidades" (1994), de Luís Represas; "Into The Blue" (1994), "What Love Is" (1998) e "Timeswing" (2000), de Guy Barker; "Luandando" (1995), de Moreiras Jazztet; "Tom Maior: Homenagem a Tom Jobim" (1995), de Naná Sousa Dias; "Dundunbanza!" (1995) e "Tibiri Tabara" (1998), do grupo cubano Sierra Maestra; "Passagem" (1996), "Sempre" (1999), "Do Outro Lado" (2006) e "Água" (2008), de Carlos Martins; "Desafinados" (1996), de Tetvocal; "Carlos do Carmo ao Vivo: Coliseu dos Recreios Lisboa: 40 Anos de Carreira" (2004); "Jamaica By Night" (2010), de Andy Hamilton; e "Mútuo Consentimento" (2011), de Sérgio Godinho. [Fontes principais: "Infopédia" e "JazzPortugal"]


Discografia:

- Ao Vivo no Festival de Jazz de Guimarães (CD, Groove/Movieplay, 1994), Conrad Herwig e Trio de Bernardo Sassetti (com Bernardo Moreira e André Sousa Machado)
- Salsetti (CD, Groove/Movieplay, 1994), com Paquito D'Rivera
- Mundos (CD, Emarcy/Polygram, 1997)
- Nocturno (CD, Clean Feed, 2002), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Mário Laginha e Bernardo Sassetti (CD, ONC, 2003)
- Grândolas (CD 2, Guilda da Música/CNM, 2004), com Mário Laginha
- Indigo (CD, Clean Feed, 2004)
- Livre (CD, Clean Feed, 2004)
- Ascent (CD, Clean Feed, 2005), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Alice (CD, Trem Azul, 2006), banda sonora do filme de Marco Martins
- Unreal: Sidewalk Cartoon (CD, Trem Azul, 2006)
- Dúvida (1964) (CD, Trem Azul, 2007), música para a peça de teatro "Doubt", de John Patrick Shanley, levada à cena no Teatro Maria Matos, com encenação de Ana Luísa Guimarães e Diogo Infante
- 3 Pianos (DVD, Incubadora d'Artes, 2007), com Mário Laginha e Pedro Burmester
- Um Amor de Perdição (CD, Trem Azul, 2009), banda sonora do filme de Mário Barroso
- Palace Ghosts and Drunken Hymns (CD, Clean Feed, 2009), com o Will Holshouser Trio (David Phillips, Ron Horton e Will Holshouser)
- Second Life (CD, Utopia Música, 2009), banda sonora do filme de Alexandre Valente e Miguel Gaudêncio
- Trago Fado nos Sentidos: ao vivo na Casa da Música (CD, Casa da Música, 2009), com Mário Laginha
- Motion (CD, Clean Feed, 2010), Bernardo Sassetti Trio (com Carlos Barretto e Alexandre Frazão)
- Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti (CD, Universal, 2010)


Retrato



Letra: Mário Cláudio
Música: Bernardo Sassetti
Intérpretes: Carlos do Carmo & Bernardo Sassetti* (in CD "Carlos do Carmo e Bernardo Sassetti", Universal, 2010)




[instrumental]

Quando a tarde passa, abre-se outra porta.
Se o morcego voa, a estrela desponta,
Ser de hoje ou de sempre, nada disso importa,
Todo o tempo corre só por nossa conta.

Sei de praias brancas, de velas queimadas,
Se perdi meus passos em longa carreira,
Tive pais e filhos, tive namoradas,
E encontrei-me logo aqui mesmo à beira.

Jogo minhas cartas na mesa da vida,
Recolho moedas e penas também,
Alma incandescente, de frio transida,
Quem me dá certezas que o livro não tem?

O vinho bebido ao sangue juntei,
E os frutos da terra descobri em mim,
Que ninguém me diga que morreu sem lei,
Que ninguém me diga que morreu assim!


* Carlos do Carmo – voz
Bernardo Sassetti – piano
Músico convidado:
Filipe Quaresma – violoncelo

Produção musical – Carlos do Carmo
Arranjos musicais – Bernardo Sassetti
Produção executiva – Tiago Palma / Universal Music Portugal
Gravado por Tó Pinheiro da Silva e João Bessa, assistido por Manuel Reis, nos Boom Studios, Vila Nova de Gaia, excepto violoncelo, gravado por Tó Pinheiro da Silva e João Szasz, nos Estúdios Vale de Lobos, Almargem do Bispo - Sintra, entre Julho e Outubro de 2010
Misturado e masterizado por Tó Pinheiro da Silva
URL: http://www.youtube.com/user/bernardosassetti
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bernardo_Sassetti
http://www.infopedia.pt/$bernardo-sassetti
http://www.jazzportugal.ua.pt/web/ver_musicos.asp?id=6
http://www.cleanfeed-records.com/artista.asp?intID=74
http://www.pedromendes.com/onc/musicos/sassetti/index.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/bernardo_sassetti
http://cotonete.iol.pt/artistas/musicas.aspx?id=7929
http://www.last.fm/pt/music/Bernardo+Sassetti