22 setembro 2021

José Medeiros: "Outono Adiado"


Gustave Courbet, "La mer d'automne" ("Mar de Outono"), 1867, óleo sobre tela, 54 × 73 cm, Ohara Museum of Art, Kurashiki, Japão
[Para ver o quadro em ecrã inteiro clicar aqui]


Quando se compara a vida de uma pessoa ao ciclo das estações do ano, com início no equinócio da Primavera, quanto mais tarde surgir o Outono dessa vida tanto melhor: para a própria, em primeiro lugar, e para aquelas que ela ama e que a amam (que fundeiam o seu fado no cais desse Outono adiado, como diz José Medeiros dirigindo-se à sua mulher, Conceição Medeiros).
No que respeita ao ciclo das estações determinadas pelo movimento de translação da Terra em torno do Sol, é o equinócio do Outono que marca o início da estação que sucede ao Verão. Neste 2021, no hemisfério norte aconteceu às 20h:21 (hora de Portugal Continental, 19h:21 UTC). Estando por debelar a pandemia vírica que há quase dois anos vem assolando a Humanidade, o Outono que ora começa não poderá ser vivido em pleno por muitas pessoas, principalmente pelas que têm sistemas imunitários mais frágeis. Para essas e, em certa medida, também para a generalidade da população, este Outono será constrangido, restando a esperança de que o próximo seja perfeitamente normal. Dá-se, por assim dizer, um adiamento pelo período de um ano do Outono plena e livremente desfrutável. Para já, a audição da belíssima canção "Outono Adiado", de e por José Medeiros, impregnada de nostalgia como é próprio do tempo outonal, constitui um excelente lenitivo para impaciência de esperar.

Quem se der ao cuidado (e ao desprazer) de acompanhar a emissão da Antena 1, fora dos escassos programas de autor que divulgam música, facilmente se dá conta da fraca qualidade da oferta musical, da presença excessiva de produção estrangeira não lusófona, quase toda medíocre, e da ausência de um extenso rol de artistas portugueses de mérito reconhecido. O categorizado poeta, compositor e intérprete José Medeiros é uma dessas vítimas do criminoso silenciamento. Assim acontece por vontade de quem trata da 'playlist', decerto com o beneplácito das cúpulas da empresa Rádio e Televisão de Portugal, para as quais as obrigações do serviço público de rádio no capítulo da música (de língua) portuguesa, legalmente estabelecidas, não são mais do que letra-morta. Mas não pode ser! Urge que se ponha côbro a tal indecência! Num Estado cujos governantes não se cansam de apregoar que é de direito democrático não se pode tolerar que haja entidades suportadas pelos contribuintes a agir em flagrante infracção das leis e dos demais diplomas regulamentares promulgados pelos órgãos de soberania.



Outono Adiado



Letra e música: José Medeiros (Para a São)
Intérprete: José Medeiros* (in Livro/2CD "Fados, Fantasmas e Folias": CD 2, Algarpalcos, 2010)


[instrumental]

Na minha voz há um navio
Sulcando o mar do desencanto;
Na minha voz, um desvario,
Uma incerteza, um quebranto.

Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.

Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Se eu tatuar a rosa-dos-ventos
Nas levadias desse mar encapelado,
Se eu for lavrador de encantamentos
Teu varadouro há-de ser meu chão sagrado.

[instrumental]

Já lancei uma garrafa ao mar,
Sei quanto é preciso navegar;
Meu anseio é fundear meu fado
No cais desse teu Outono adiado.

Na tua voz há um veleiro
Engravidando as marés:
Fonte de luz, doce luzeiro
Amanhecendo no convés.

Rumos de formosas caravelas
Sulcando a poeira das estrelas...
Ancorei as rimas do meu fado
No cais desse teu Outono adiado.


* José Medeiros – piano e voz
Manuel Rocha – violinos
Gil Alves – flauta
Jorge Silva – sintetizador

Arranjo – José Medeiros, com a colaboração de todos os músicos
Produção – Eduardo Manuel, João Domingos (Algarpalcos), Raul Resendes e Jorge Lavouras
Gravado em Ponta Delgada (Ilha de São Miguel) por Raul Resendes, em Lisboa por Paulo Feijão, e em Coimbra por Luís Pedro Madeira
Misturas – Raul Resendes
Masterização – António Pinheiro da Silva
URL: http://www.zecamedeiros.com/
https://www.facebook.com/Zeca.Medeiros
https://www.youtube.com/channel/UC_PhP5SeNuItFD8ZpokTpLA/videos
http://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/search?query=rosa+dos+ventos



Capa do Livro/2CD "Fados, Fantasmas e Folias", de José Medeiros (Algarpalcos, 2010)
Desenho gráfico – Bruno Correia
Desenho – José Medeiros

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Outros artigos com repertório alusivo do Outono:
Celebrando Maria Teresa de Noronha
Max: "Outono na Cidade"
Jorge Cravo: "Outono à Beira-Rio"
Diabo a Sete: "Outono Embargado"

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Outro artigo com repertório de José Medeiros:
José Medeiros: "O Cantador"

1 comentário:

SOL da Esteva disse...

Descrição magnífica. Poema e música, DIVINOS!!!...

Abraço
SOL da Esteva