02 julho 2013

Ser Poeta


Desenho da autoria de Edgard Braga, publicado no seu livro de poesia "Desbragada" (São Paulo: Editora Max Lomonad, 1984)


"Ser Poeta": com estas duas palavras, carregadas de significado, começa o poema mais conhecido de Florbela Espanca. Amplamente conhecido muito graças a João Gil, que teve a feliz ideia de musicá-lo e de propor a sua gravação aos demais elementos do Trovante que assim deram à música portuguesa uma pérola de elevado quilate. É dos poemas que melhor definem a condição de poeta, mas outros existem que importa ter em consideração. Aqui se apresentam alguns deles, em jeito de homenagem a todos os poetas, eruditos e populares, sem esquecer os analfabetos ou semi-analfabetos, aos quais Rafael Correia sempre deu voz no referencial "Lugar ao Sul".
Antes, ou depois (para o caso é indiferente), há que ouvir também uma série de edições da rubrica "David Ferreira a contar" e uma edição especial do programa "A Cena do Ódio" consagradas à poesia, que foram, afinal, o móbil deste artigo. Ouvindo poesia, cantada ou recitada, nutrimos a mente e ficamos menos "subalimentados do sonho". Bom proveito!


DAVID FERREIRA A CONTAR | 26 Out. 2012 [>> RTP-Play]
NATÁLIA CORREIA
- "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. UPAV, 1991, EMI-VC, 1996) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 13 Nov. 2012 [>> RTP-Play]
LUÍS VAZ DE CAMÕES
- "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", por Sérgio Godinho (in LP/CD "Aos Amores", EMI-VC, 1989) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 29 Nov. 2012 [>> RTP-Play]
FLORBELA ESPANCA, ALMEIDA GARRETT, ARY DOS SANTOS, CARLOS QUEIROZ
- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Barca Bela", de Almeida Garrett, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1971; CD "Teresa Silva Carvalho", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 35, Movieplay, 1994; CD "Poesia EnCantada", vol. 1, EMI-VC, 2002; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Adágio", de Ary dos Santos, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1971; CD "Teresa Silva Carvalho", Col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube]
- "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1971; CD "Teresa Silva Carvalho", Col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 28 Jan. 2013 [>> RTP-Play]
ANTÓNIO GEDEÃO
- "Poema do Fecho Éclair", por Carlos Mendes (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998) [>> YouTube]
- "Pedra Filosofal", por Manuel Freire (in single "Pedra Filosofal / Menina dos Olhos Tristes", Zip-Zip, 1970; CD "Pedra Filosofal" (compilação), Strauss, 1993, CNM, 2004; CD "Poesia EnCantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 15 Mar. 2013 [>> RTP-Play]
NATÁLIA CORREIA
- "Autogénese", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [>> YouTube]
- "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. UPAV, 1991, EMI-VC, 1996) [>> YouTube]
- "A Defesa do Poeta", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [YouTube]
- "Dom Fulano", de D. Dinis (adap. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "No Vale de Fuenteovejuna", de Lope de Vega (adap. Natália Correia), por José Afonso (in LP "Contos Velhos, Rumos Novos", Orfeu, 1969, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Amores Eu Tenho", de Pero Meogo (adap. Natália Correia), por Natália Correia e Amália Rodrigues (in LP "Cantigas d'Amigos", Columbia/VC, 1971, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2011) [>> YouTube]
- "Senhores, sou um poeta" ("A Defesa do Poeta"), por Maria Bethânia (in 2CD "Maricotinha ao Vivo": CD 2, Biscoito Fino, 2002) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 8 Abr. 2013 [>> RTP-Play]
JOSÉ DE ALMADA NEGREIROS
- "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube / Parte II >> YouTube / Parte III >> YouTube]
- "Manifesto Anti-Dantas", por Mário Viegas (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978, reed. Público, 2006) [>> YouTube]
- "Rondel do Alentejo", por Amália Rodrigues (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]
- "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube / Parte II >> YouTube / Parte III >> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 29 Mai. 2013 [>> RTP-Play]
MIGUEL TORGA
- "Bucólica", por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; CD "Poesia EnCantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]
- "Bucólica", por Sophia de Mello Breyner Andresen (registo do arquivo da RDP, 1976)
- "Confiança", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
- "Fantasia", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)


DAVID FERREIRA A CONTAR | 30 Mai. 2013 [>> RTP-Play]
FLORBELA ESPANCA
- "Amar!", por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Perdidamente" ("Ser Poeta"), por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante": CD 2, EMI-VC, 1991) [>> YouTube]
- "Rústica", por Jafumega (in LP "Recados", Polydor/Polygram, 1983; CD "Jáfu'Mega" (compilação), Polydor/Polygram, 1990)


DAVID FERREIRA A CONTAR | 31 Mai. 2013 [>> RTP-Play]
PEDRO HOMEM DE MELLO
- "Fria Claridade" ("Naufrágio"), por Amália Rodrigues (in disco 78 rpm "Ave-Maria Fadista / Fria Claridade", Melodia, 1952; CD "Amália Rodrigues", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> YouTube]
- "Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", por Amália Rodrigues (in disco 78 rpm "Lá Porque Tens Cinco Pedras/Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", Melodia, 1952; Col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> Vimeo]
- "Povo Que Lavas no Rio" ("Povo"), por Amália Rodrigues (in LP "Amália Rodrigues (Busto)", Columbia/VC, 1962, reed. EMI-VC, 1989, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "O Rapaz da Camisola Verde", por Frei Hermano da Câmara (in EP "Túnica Negra", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1970; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", EMI-VC, 1989; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Havemos de Ir a Viana", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD 1, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 3 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
EUGÉNIO DE ANDRADE
- "Adeus (Palavras Gastas)", por Simone de Oliveira (in LP "Simone", Alvorada, 1979; CD "Simone de Oliveira", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 26, Movieplay, 1994) [>> YouTube]
- "Elegia das Águas Negras para Che Guevara", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [>> YouTube]
- "Lisboa", por Trovante (in LP "Baile no Bosque", Valentim de Carvalho, 1981, reed. EMI-VC, 1988, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 4 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
FERNANDO PESSOA
- "No Comboio Descendente", por José Afonso (in LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Autopsicografia", por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD 1, CNM, 2010) [>> YouTube]
- "O Menino de Sua Mãe", por Mafalda Veiga (in LP "Pássaros do Sul", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1993, CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]
- "Ai Margarida", por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995-2013", EMI, 2013) [>> YouTube]
- "Cavaleiro Monge" ("Do Vale à Montanha"), por Mariza (in CD "Fado Curvo", Word Connection/EMI-VC, 2003; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 5 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
JOSÉ RÉGIO
- "Cântico Negro", pelo autor (in LP "José Régio por José Régio", Orfeu, 1958, reed. Movieplay, 1994) [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone, 1959; reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por Paulo Gracindo [>> YouTube]
- "Cântico Negro", por Maria Bethânia (in LP "Nossos Momentos", Philips, 1982, reed. Universal, 2006) [>> YouTube]
- "Fado Português", por Amália Rodrigues (in LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "Fado Português", por Amália Rodrigues (grav. 19 Dez. 1968, in LP "Amália-Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]


DAVID FERREIRA A CONTAR | 6 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS
- "O Objecto", pelo autor (in LP "Amália-Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Desfolhada Portuguesa", por Simone de Oliveira (in EP "Desfolhada Portuguesa", Decca/VC, 1969; CD "O Melhor de Simone", EMI-VC, 1992; 2CD "Simone de Oliveira: Perfil: 50 Anos", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "Tourada", por Fernando Tordo (in single "Tourada / Carta De Longe", Tecla, 1973; CD "Carlos Mendes e Fernando Tordo", Col. O Melhor dos Melhores, vol. 67, Movieplay, 1997) [>> YouTube]
- "Alfama", por Amália Rodrigues (in LP "Cantigas Numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "O Cacilheiro", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995) [>> YouTube]
- "Namorados da Cidade", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995)
- "Fado da Pouca Sorte", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995)


DAVID FERREIRA A CONTAR | 7 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
ALEXANDRE O'NEILL
- "Gaivota", por Amália Rodrigues (in LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD 1, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]
- "Formiga Bossa Nossa", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD 1, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]
- "O Macaco (Valsa Lisboeta)", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)
- "O'Neill (alguns poemas com endereço)", por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube]
- "Cão", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)


DAVID FERREIRA A CONTAR | 10 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
LUÍS VAZ DE CAMÕES
- "Lianor", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989) [>> YouTube]
- "Erros Meus", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "Dura Memória", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; 2LP "O Melhor de Amália: Volume II - Tudo Isto é Fado", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]


"A CENA DO ÓDIO" N.º 111 | 2 Jun. 2013 [>> RTP-Play]
A FEIRA DOS POETAS
- "Sonnet 43", de William Shakespeare, por Rufus Wainwright (in CD "All Days Are Nights: Songs For Lulu", Decca Records, 2010) [>> YouTube]
- "Endechas a Bárbara Escrava", de Luís de Camões, por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Les Passantes", de Antoine Pol, por Georges Brassens (in LP "Fernande", Philips, 1972; 5CD "Georges Brassens: Les 100 Plus Belles Chansons", Universal Music France, 2008) [>> YouTube]
- "Casa", de David Mourão-Ferreira, pelo autor (in CD "Um Monumento de Palavras", EMI-VC, 1995)
- "Casa", de David Mourão-Ferreira, por Camané (in CD "Do Amor e dos Dias", EMI, 2010) [>> YouTube]
- "Menos Tu Vientre", de Miguel Hernandez, por Joan Manuel Serrat (in LP "Miguel Hernandez", Zafiro/Novola, 1972, reed. Ariola/BMG España, 2000) [>> YouTube]
- "Les Pensionnaires", de Paul Verlaine, por Leo Ferré (in 2 LP "Verlaine et Rimbaud chantés par Leo Ferré", Barclay, 1964, reed. Barclay, 2004) [>> YouTube]
- "Serenata em Dó Maior", de Miguel Torga, pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
- "Bucólica", de Miguel Torga, por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; CD "Poesia EnCantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]
- "Soneto à Maneira de Camões", de Sophia de Mello Breyner Andresen, pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959)
- "Perdidamente" ("Ser Poeta"), de Florbela Espanca, por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante": CD 2, EMI-VC, 1991) [>> YouTube]
- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; CD "Poesia EnCantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube]
- "Florbela Espanca-me", de Manuel João Vieira, por Ena Pá 2000 (in CD "Opus Gay", Discossete, 1997, reed. Espacial, 2012) [>> YouTube]
- "O'Neill (alguns poemas com endereço)", de Alexandre O'Neill, por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube]
- "Pastelaria", de Mário Cesariny, pelo autor (in LP "Mário Cesariny: Poesia (1943-1968)", por Graça Lobo e Mário Cesariny, Col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1975)
- "Verdad, Mentira", de Luis de Góngora, por Paco Ibañez (in LP "La Poesia Española de Ahora y de Siempre", Moshé-Naïm, 1968; CD "Paco Ibáñez 2", EMEN/PDI, 2000) [>> YouTube]
- "Dom Fulano", de D. Dinis (adap. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube]
- "No Comboio Descendente", de Fernando Pessoa, por Couple Coffee (in CD "Co'as Tamanquinhas do Zeca", Transformadores, 2007) [>> YouTube]
- "Ai Margarida", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995 -2013", EMI, 2013) [>> YouTube]
- "Baudelaire" ("Le serpent qui danse"), de Charles Baudelaire, por Serge Gainsbourg (in LP "Serge Gainsbourg ‎N.° 4", Philips, 1962, reed. Club Dial, 1994, Mercury France/Universal, 2001) [>> YouTube]
- "La Malabaraise" ("À Une Malabaraise"), de Charles Baudelaire, por Leo Ferré (in 2LP "Léo Ferré chante Baudelaire", Barclay, 1967, reed. Barclay, 1990, Barclay/Universal, 2004) [>> YouTube]
- "Les Feuilles Mortes", de Jacques Prévert, por Mireille Mathieu (in LP "Les Grandes Chansons Françaises", Ariola, 1985; 3CD "Amoureusement Vôtre": CD 1, EMI Music, 2002) [>> YouTube]



Capa da compilação em CD "Poesia EnCantada", vol. 1 (EMI-VC, 2002)
Design – Washing Machine - Produção de Imagem, Lda.
Selecção e notas – David Ferreira
Assistência na recolha de trechos – Jwana Godinho



Capa da compilação em CD "Poesia EnCantada", vol. 2 (EMI-VC, 2004)
Design – Washing Machine - Produção de Imagem, Lda.
Selecção – Aldina Duarte, Teresa Mourão-Ferreira, David Ferreira



Poeta



Poema de Antero de Quental
Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)


Quereis saber que é ser-se poeta?
Pois bem. Aqui vos deixo em breves traços:
É vaguear em sonhos p'los espaços,
Sem que o nosso ideal encontre a meta!

Querer ter a magia dum profeta,
Ter forças p'ra vencer nossos fracassos,
À ilusão e à vida dar os braços
Quando o Cupido atira a sua seta.

É descer aos mistérios das ravinas,
Desvendar horizontes nas colinas
E em tudo achar motivos de beleza!

Ser simples como as ervas pelo chão
E agradecer a Deus este condão,
Que é sentir dentro em nós a Natureza!


* Afonso Dias – voz
Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias
Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



Perdidamente



Poema: Florbela Espanca (soneto "Ser Poeta", in "Charneca em Flor", Coimbra: Livraria Gonçalves, 1931; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – p. 319)
Música: João Gil
Arranjo: Artur Costa
Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante": CD 2, EMI-VC, 1991)




Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhas de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!


* Trovante:
Artur Costa – saxofone
Fernando Júdice – baixo
João Gil – guitarras e coros
José Martins – sintetizador
José Salgueiro – bateria, percussão e coros
Luís Represas – voz

Manuel Faria – piano e sintetizador
Produção – Manuel Faria e Artur Costa
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987
Engenheiro de som – Paulo Neves
Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa



A Defesa do Poeta



Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Colecção Poesia, vol. 3, Lisboa: Quadrante, 1972 – p. 44-45; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443-444; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 330-331)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)


Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.


Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 330)

* Eunice Muñoz – voz
Selecção de textos – António Barahona da Fonseca
Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010



Poema do Lavrador de Palavras aos Políticos



Poema e música: Pedro Barroso
Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Criticamente", Lusogram, 1999)




[instrumental]

Não me perguntem coisas daquelas que eu não creia
não me perguntem coisas daquelas que eu não sei
remeto para os senhores todas as decisões do mundo
tais como governar, fazer decretos-lei

no meio da tempestade, no meio das sapiências
se poeta nasci, poeta morrerei
nem homem de gravata nem homem de ciências
apenas de mim próprio, e pouco, serei rei

das decisões do mundo lerei o que entender
que dentro de mim mesmo às vezes nasce um rio
e é esse desafio que nunca hei-de esquecer
e é essa a diferença que faz este feitio

mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanhecer
e bastará o azul que em ave me tornei

[instrumental]

mantenham com cuidado as árvores e estradas
p'ra a gente poder ver, p'ra a gente circular
que eu basta-me saúde e o sonho tão distante
e a boca perturbante que tu me sabes dar

e a festa de viver e o gozo e a paisagem
nesta curva do Tejo, soprando a brisa leve
e na tranquilidade assim desta viagem
parasse o tempo aqui, eterno, fresco e breve

que eu voo por toda a parte mas noutro horizonte
e vivo as coisas simples e rio-me da ambição
e ao fim de tanto ver, escolherei um monte
de onde assistirei, sorrindo, ao vosso enfarte

da ânsia de possuir, da ânsia de mostrar,
da ânsia da importância, da ânsia de mandar

mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanheceu
e bastará o azul que em ave me tornei

[instrumental]

mas digam, por favor, de onde nasce o Sol
que eu basta-me o calor – para lá me voltarei
e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra
me bastará que chova que o resto eu o farei
e digam, por favor, se o dia amanheceu
e bastará o azul que em ave me tornei


* [Créditos gerais do disco:]
Pedro Barroso – voz, piano, viola, adufe, harmónica, teclados
Nuno Fernandes – tuba
Luís Sá Pessoa – violoncelo e arranjos para corda
Carlos Dâmaso – guitarra portuguesa, flautas, bandolim
Nuno Barroso – piano, teclados
Jorge Nascimento – piano, acordeão, teclados

Arranjos – Pedro Barroso e todos os músicos
Produção, coordenação e direcção musical – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Quinta da Voz, Casal da Raposa - Riachos
Técnicos de som – Carlos Dâmaso e António Silva



Cântico Negro



Poema de José Régio (in "Poemas de Deus e do Diabo", Coimbra, 1925; "Antologia Poética", org. Eugénio Lisboa, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993 – p. 18-19)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone, 1959, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




«Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: «vem por aqui»!
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: «vem por aqui»?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: «vem por aqui»!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
— Sei que não vou por aí!


Nota: Embora com alguns ligeiros desvios ao texto de José Régio, este registo de João Villaret é um primoroso testemunho da inigualável arte de recitar do grande actor e, nessa medida, seria injusto preteri-lo a favor de outra leitura sem a mesma intensidade expressiva ainda que mais fiel às palavras exactas do autor.



A Alma dos Poetas



Poema: Florbela Espanca (poema "Poetas", caderno "Trocando Olhares", in "Obras Completas de Florbela Espanca", vol. I, recolha, leitura e notas por Rui Guedes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987 – p. 88; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – p. 94)
Música: Adão Carvalho
Intérprete: Chamaste-m'ó?* (in CD "A Inocência da Noite", Açor/Emiliano Toste, 2002)


[instrumental]

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no mar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala ao peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas

E eu que arrasto amarguras
Que nunca entendeu ninguém
Tenho alma p'ra sentir
A dos poetas também!


08-01-1916

* Chamaste-m'ó?:
Adão Carvalho – coros
Blandino Sérgio – voz, coros, viola braguesa, bandolim, guitarra
Carlos Adolfo – percussões, teclados, piano
Isabel Martinho – voz, coros
Octávio Fonseca – voz, coros, guitarra
Ricardo Rocha – concertina, melódica, guitarra
Sérgio Ferreira – coros, guitarra, viola braguesa

Produção – Chamaste-m'ó? e Emiliano Toste
Gravação, mistura e masterização – Emiliano Toste, no Estúdio Toste, São Mamede de Infesta



Eu nunca guardei rebanhos



Poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (poema I de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Col. Poesia, Série 'Obras Completas de Fernando Pessoa', Vol. III, Lisboa: Edições Ática, 1946, 10.ª edição, 1993 – p. 21-23)
Recitado por Mário Viegas* (in 2LP "O Guardador de Rebanhos": LP 1, Guilda da Música/Sassetti, 1983; CD "O Guardador de Rebanhos I", Público, 2006; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD 2, CNM, 2010)




Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr-do-sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Com um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo do outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.


* Mário Viegas – voz
Produção – Sassetti
Gravado nos Estúdios T.S.F. durante os meses de Setembro e Outubro de 1983
Captação – Carlos Lima



Autopsicografia



Poema: Fernando Pessoa (28-2-1929, in "Presença", n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; "Poesias de Fernando Pessoa", Col. Poesia, Série 'Obras Completas de Fernando Pessoa', Vol. I, Lisboa: Edições Ática, 1942, 14.ª edição, Lisboa: Edições Ática, 1993 – p. 235)
Música: Filipe Pinto
Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)




O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.


* Mísia – voz
Ângelo Freire – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Daniel Pinto – baixo acústico
Luís Pacheco Cunha – violino

Direcção artística – Mísia
Produção executiva – Flavio D'Ancona
Gravação e mistura – Charles De Schutter (Acousti Studio, Paris / Studio Rec'n Roll, Bruxelas)
Masterização – Mike Marsh (The Exchange Mastering)



Poetas de Lisboa



Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – p. 18; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – p. 196)
Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira": CD 2, EMI-VC, 1999)




É bom lembrar mais vozes pois Lisboa
cidade com poético fadário
cabe toda num verso do Cesário
e alguma em ironias do Pessoa

Para cada gaivota há um do O'Neill
para cada paixão um do David
e há Pedro Homem de Mello que divide
entre Alfama e Cabanas seu perfil

E há também o Ary e muitos mais,
entre eles o Camões e o Tolentino,
ou tomando por fado o seu destino
ou dando de seu riso alguns sinais

Muito do que escreveram e se canta
na música de fado que já tinha
o próprio som do verso vem asinha
assim do coração para a garganta

Que bom seria tê-los a uma mesa
de café comparando as emoções
e a descobrirem novas relações
entre o seu fado e a língua portuguesa


* Carlos do Carmo – voz
Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo)
Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito)
José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo)
Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito)
José Elmiro Nunes – baixo acústico

Concepção musical – Carlos do Carmo
Produção – Alfredo Almeida
Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998
Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada
Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores



Ao Poeta Perguntei



Poema e música: Alberto Janes
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Oiça Lá ó Senhor Vinho", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; CD "Maria Lisboa" (compilação), EMI-VC, 2004)




Ao poeta perguntei:
Como é que os versos assim aparecem?
Disse-me só: Eu cá não sei...
São coisas que me acontecem!

Sei que nos versos que fiz
Vivem motivos dos mais diversos...
E também sei que sendo feliz
Não saberia fazer os versos!

Ó meu amigo,
Não penses que a poesia
É só a caligrafia
Num perfeito alinhamento;
As rimas são assim como um coração
Em que cada pulsação
Nos recorda sofrimento;
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre
São coisas da própria vida!

Fiz versos como faz dia,
A luz do Sol sempre ao nascer;
Eu fiz os versos porque os fazia
Sem me lembrar de os fazer.

Como a expressão e os jeitos
Que p'ra cantar se vão dando à voz
Todos os versos andam já feitos
De brincadeira dentro de nós.

Ó meu amigo,
Não penses que a poesia
É só a caligrafia
Num perfeito alinhamento;
As rimas são assim como um coração
Em que cada pulsação
Nos recorda sofrimento;
E nos meus versos pode não haver medida
Mas o que há sempre
São coisas da própria vida!

E assim, amigo,
Já viste que a poesia
Não é só a caligrafia,
São coisas do sentimento.


* Amália Rodrigues – voz
José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves – guitarras portuguesas
Pedro Leal – viola
Joel Pina – viola baixo

Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro



O Poeta



Versos: António Aleixo (quadras avulsas extraídas de "Este Livro Que Vos Deixo")
Música: Paulo Cunha
Intérprete: Vá-de-Viró* (in CD "Outras Músicas", Música XXI, 2000)




[instrumental]

Peço às altas competências
perdão, porque mal sei ler,
p'ra aquelas deficiências
que os meus versos possam ter.

Julgam-me mui sabedor;
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!

Quem me vê dirá: não presta,
nem mesmo quando lhe fale,
porque ninguém traz na testa
o selo de quanto vale.

Meu aspecto te enganou;
o que a gente é não se vê;
pergunta a outrem quem sou,
pois o que sou nem eu sei.

Sou humilde, sou modesto;
mas, entre gente ilustrada,
talvez me digam que eu presto,
porque não presto p'ra nada.

Não sou esperto nem bruto,
nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

Não sei se sei: sou dos tais
a quem pouco saber cabe;
mas sei que é saber de mais
a gente saber que sabe!

O tal Aleixo, o poeta,
que dizem ser de Loulé,
é uma figura incompleta
sem o Magalhães ao pé.

Os meus versos o que são?
Devem ser, se não os confundo,
pedaços do coração
que deixo cá, neste mundo.

[instrumental]


* Vá-de-Viró:
Alexandra Rodrigues – violino e voz meio-soprano
Anton Khmelinskii – cavaquinho, guitarra e guitarra de 12 cordas
Cláudia Matias – voz meio-soprano
Eduardo Franco – voz tenor
Gonçalo Pescada – acordeão, concertina e voz barítono
Igor Martins – guitarra contrabaixo e voz tenor
João Pedro Cunha – violino
Maria do Rosário Arenga – voz soprano
Patrícia Martins – flautas de bisel soprano e contralto, tin-whistle e voz soprano
Paulo Cunha – gaita-de-foles galega, percussão (adufe, bendir, bombo, caixa de rufos, clavas, palmas, pinhas, reco-reco, sarronca, triângulo), ponteira e voz barítono
Paulo Girão – flauta transversal, flautim e voz barítono
Rui Mourinho – bandolim, guitarra, guitarra de cordas de aço e voz tenor
Sandra Apolinário – harmónica cromática e voz meio-soprano
Vanda Matias – voz soprano

Direcção musical – Paulo Cunha
Produção – Paulo Cunha
Co-produção – Adriano St. Aubyn
Gravado no Estúdio Unplugged, Faro, em Julho e Agosto de 2000
Engenheiro de som – Adriano St. Aubyn
Mistura e masterização digital – Adriano St. Aubyn e Paulo Cunha





Desenhos e poemas de Vasco de Lima Couto (1923-1980)

21 junho 2013

Revisitando "Os Dias da MadreDeus"


© Álvaro Rosendo, 1987
Da esquerda para a direita: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão, Gabriel Gomes, Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro [defronte ao portal da antiga igreja do convento de Xabregas / Teatro Ibérico].


«Há pouco mais de um quarto de século, trabalhava eu na maior editora de música portuguesa [Valentim de Carvalho], participei numa reunião muito acalorada. Tudo, claro, por causa de um disco...»
Assim começa David Ferreira a contar a história do nascimento e primeiros passos dos Madredeus, o nome da música portuguesa que, depois de Amália Rodrigues, maior projecção alcançou além-fronteiras. É uma história repartida por seis capítulos cuja audição se recomenda vivamente, quer aos admiradores do grupo, quer àqueles que, em razão da jovem idade, não conheçam a obra da fase inicial. E com a vantagem de ser contada por alguém que fala com conhecimento de causa.


DAVID FERREIRA A CONTAR | 15 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
I - Nos bastidores do lançamento de um disco estranho

DAVID FERREIRA A CONTAR | 18 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
II - O novo grupo de Pedro Ayres e Rodrigo Leão

DAVID FERREIRA A CONTAR | 19 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
III - Os Dias da MadreDeus

DAVID FERREIRA A CONTAR | 20 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
IV - As primeiras viagens dos Madredeus

DAVID FERREIRA A CONTAR | 21 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
V - Madredeus: "Existir"

DAVID FERREIRA A CONTAR | 22 Fev. 2013 [>> RTP-Play]
VI - Madredeus à conquista do mundo


Esta justíssima evocação do grupo Madredeus teve o bendito condão de levar-me a revisitar esse fabuloso álbum inaugural, "Os Dias da MadreDeus". O mais genuíno, inspirado e arrebatador de toda a discografia do grupo que revelou a bela e portentosa voz de Teresa Salgueiro e que, nas palavras de Jorge Pires (in "Madredeus: Um Futuro Maior", 1995), «além de ser aquele que lançou a semente à terra, é um disco que ainda hoje mantém alguns dos melhores momentos da sua criação. Totalmente descomprometido ante estratégias que não as que levavam directamente à música, encerra pérolas que estabelecem um equilíbrio irrepetível entre fragilidade e rudeza, entre inocência e solenidade, e que na sua beleza são plenamente capazes de provocar arrepios na espinha de quem as ouça». Lamentavelmente, nem sequer uma dessas pérolas figura na 'playlist' da RDP-Antena 1, apesar da obrigação que tem, legalmente estipulada, de divulgar o nosso património musical mais valioso e perene. Aliás, os Madredeus (com Teresa Salgueiro, bem entendido) têm sido muito mal tratados pela rádio estatal nos últimos anos. Nada mais além de "Alfama" (do álbum "Ainda") e da versão electrónica de "Haja o Que Houver"... Razão bastante para que o blogue "A Nossa Rádio" empreenda o serviço público de "trazer para a luz do dia" as pérolas mais esplendorosas d' "Os Dias da MadreDeus", fazendo justiça a esse auspicioso trabalho e aos músicos que, com muito amor e entrega, o realizaram: Maria Teresa Salgueiro (voz), Pedro Ayres Magalhães (guitarra clássica), Rodrigo Leão Muñoz (teclados), Gabriel Gomes (acordeão) e Francisco Ribeiro (violoncelo).



Capa do duplo LP "Os Dias da MadreDeus" (EMI-VC, Dezembro de 1987)
Concepção – Pedro Ayres Magalhães, sobre uma aguarela de José Alexandre Gonefrey
Fotografia – Luís Ramos.



A Sombra (à memória de António Variações)



Letra e música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




[instrumental]

Anda pela noite só
Um capote errante, ai, ai
E uma sombra negra cai, em redor
Do homem no cais

Das ruas antigas vem
Um cantar distante ai, ai
E ninguém das casas sai, por temor
Dos passos no cais

Se eu cair ao mar, quem me salvará?
Lalalala...
Que eu não tenho amigos, quem é que será?
Lalalala...
Ai ó solidão, que não andas só!
Lalalala...
Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...

Lalalala...
Lalalala...

Cantar, sempre cantou
Jamais esteve ausente, ai, ai
E uma vela branca vai, por amor
Largar pela noite

Se eu cair ao mar, quem me salvará?
Lalalala...
Que eu não tenho amigos, quem é que será?
Lalalala...
Ai ó solidão, que não andas só!
Lalalala...
Anda lá à vontade, mas de mim tem dó!...

Lalalala...
Lalalala...

[instrumental]



As Montanhas



Música: Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




(instrumental)



A Vaca de Fogo



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Gabriel Gomes e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




[instrumental]

À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão

Os putos
Já fogem dela
Deita o fogo a rebentar
Os putos
Já fogem dela
Deita o fogo a rebentar
Soltaram
Uma vaca em chamas
Com um homem a guiar
Soltaram
Uma vaca em chamas
Com um homem a guiar

São voltas
Ai amor são voltas
São as voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
São as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha

[instrumental]

À porta
Daquela igreja
Vive o ser tradicional
À porta
Daquela igreja
Vive o ser tradicional
Às voltas
Duma coisa velha
E não muda a condição
Às voltas
Duma coisa velha
E não muda a condição

À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
À porta
Daquela igreja
Vai um grande corrupio
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão
Às voltas
Duma coisa velha
Reina grande confusão

São voltas
Ai amor são voltas
São as voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Ai amor são voltas
São as voltas da canalha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da maralha
Ai são voltas
Sete voltas
São as voltas da canalha

[instrumental]



A Estrada do Monte



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987)




Não digas nada a ninguém
Que eu ando no mundo triste
A minha amada, que eu mais gostava,
Dançou, deixou-me da mão
Eu a dizer-lhe que a queria
Ela a dizer-me que não
E a passarada
Não se calava
Cantando esta canção

Sim, foi na estrada do monte
Perdi o teu grande amor
Sim, ali ao pé da fonte
Perdi o teu grande amor

Ai que tristeza que eu sinto
Fiquei no mundo tão só
E aquela fonte ficou manchada
Com tanto que se chorou
Se alguém aqui nunca teve
Uma razão p'ra chorar
Siga essa estrada
Não custa nada
Que eu fico aqui a cantar

Sim, foi na estrada do monte
Perdi o teu grande amor
Sim, ali ao pé da fonte
Perdi o teu grande amor

[vocalizos / instrumental]



A Península



Música: Rodrigo Leão, Pedro Ayres Magalhães e Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)


(instrumental)



Adeus... e Nem Voltei



Letra e música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




[instrumental]

"Adeus" dissemos
E nada mais de então ficou;
De asas quebradas
Foi a ave branca que voou;
Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar;
Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...

Ai, não sei de mim;
Ai, não sinto nada...
Ai, e nem voltei.

[instrumental]

Voa lá alto, que eu morro, bem sei, sem voltar;
Cantem as aves do monte que eu fui ver o mar...

Ai, não sei de mim;
Ai, não sinto nada...
Ai, e nem voltei.



A Cantiga do Campo



Poema: Gomes Leal (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Rodrigo Leão e Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




[instrumental]

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

[instrumental]

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro, ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde coses,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

[instrumental]

Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

[instrumental]



CANTIGA DO CAMPO

(Gomes Leal, in "Claridades do Sul", Lisboa: Braz Pinheiro, 1875; Lisboa: Assírio & Alvim, col. Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Século XIX, edição de José Carlos Seabra Pereira, 1998)


                  Como eu adoro as tuas "simplicidades"!
                                                HEINE

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!

Quando entre as mais raparigas
Vais cantando entre as searas,
Eu choro, ao ouvir-te as cantigas
Que cantas nas noites claras!

Os que andam na descamisa
Gabam a viola tua,
Que, às vezes, ouço na brisa
Pelos serenos da lua.

E falam com tristes vozes
Do teu amor singular
Àquela casa onde coses,
Com varanda para o mar.

Por isso nada me medra,
Ando curvado e sombrio!
Quem me dera ser a pedra
Em que tu lavas no rio!

E andar contigo, ó meu pomo,
Exposto às chuvas e aos sóis!
E uma noite morrer como
Se morrem os rouxinóis!

Morrer chorando, num choro
Que mais as mágoas consola,
Levando só o tesouro
Da nossa triste viola!

Porque andas tu mal comigo,
Ó minha doce trigueira?
Quem me dera ser o trigo
Que, andando, pisas na eira!



A Marcha da Oriental



Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)


(instrumental)



Fado do Mindelo



Letra: António Jorge Pacheco e Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)


Mindelo, minh'alma chora
e eu estou triste
o amor demora

Mindelo, já não existe
minh'alma chora
e o mar assiste

Mindelo, o amor é isto
não tem demora
porque eu insisto

Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim

[instrumental]

Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim

[instrumental]

Mindelo, mar a bater
e o meu amor
anda a sofrer
Mindelo, conta comigo
que eu vivo e tudo
espera por mim



A Cidade



Letra: Francisco Menezes e Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)


[instrumental]

Esta saudade
Não tem idade
Não tem idade
Esta saudade
Esta saudade

Esta cidade
Não tem idade
Não tem idade
Ai, esta cidade
Ai, esta cidade

[instrumental]

Esta saudade
Não tem idade
Não tem idade
Esta saudade
Esta saudade

Esta cidade
Não tem idade
Não tem idade
Ai, esta cidade
Ai, esta cidade

[instrumental]



A Andorinha



Música: Pedro Ayres Magalhães
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)




(instrumental)



Amanhã



Letra: Pedro Ayres Magalhães
Música: Pedro Ayres Magalhães, Rodrigo Leão e Gabriel Gomes
Intérprete: Madredeus* (in 2LP "Os Dias da MadreDeus": LP 2, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988)


[instrumental]

A vida não me larga
O mundo não me foge
A estrada é grande e larga
E eu levo o albornoz
Caminho à luz do dia
Por campos e montanhas
E bebo a água fria
E a sede não me apanha
E o céu ali é lindo
Azul, e eu não resisto
Ao céu, ao céu profundo
Distante
E eu insisto

[instrumental]

Caminho à lua nova
Caminho à lua cheia
Caminho à lua nova
E a sede não me apanha
Caminho à lua nova
Caminho à lua cheia
Caminho à lua nova
E a sede não me apanha
E o céu ali é lindo
Azul, e eu não resisto
Ao céu, ao céu profundo
Distante
E eu insisto

[instrumental]

Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã
Amanhã

[instrumental]


* Madredeus:
Maria Teresa Salgueiro – voz
Pedro Ayres Magalhães – guitarra clássica
Rodrigo Leão Muñoz – teclados
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo

Concepção de projecto – Pedro Ayres Magalhães e Rodrigo Leão
Produção artística e direcção dos arranjos – Pedro Ayres Magalhães
Assistência de produção na gravação – Pedro Bidarra de Almeida
Gravado na antiga igreja do Convento de Xabregas / Teatro Ibérico, Lisboa, nos dias 28, 29 e 30 de Julho de 1987
Técnicos de gravação – Pedro Vasconcelos e Miguel Gonçalves
URL: http://anos80.no.sapo.pt/madredeus.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Madredeus
http://www.infopedia.pt/$madredeus
http://www.madredeus.pt/
http://www.facebook.com/MadredeusOfficial
http://myspace.com/madredeuspt
http://www.youtube.com/user/MadredeusVEVO
http://rubicat2.paginas.sapo.pt/index.html
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/madredeus
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=1618
http://www.last.fm/pt/music/Madredeus



Capa do livro "Madredeus: Um Futuro Maior", de Jorge Pires (Temas & Debates, 1995)

17 junho 2013

Publicidade comercial na rádio pública (III)



Rui Pêgo, um indivíduo "nado e criado" em rádios comerciais, mal foi posto a mandar na Antena 1 não descansou enquanto a não infestou com essa autêntica praga que são os cartuchos de 'spots' promocionais religiosamente disparados duas vezes em cada hora (aos 20 e aos 40 minutos) ou imediatamente antes de programas de autor. Se já é grande a minha aversão a essa e a outras formas de poluição sonora na rádio pública, fico deveras irritado, e com o sentimento de estarem a gozar com a minha cara de pagante de uma taxa obrigatória, quando sou bombardeado com publicidade a marcas comerciais e/ou a empresas com fins lucrativos. Foi o que aconteceu ontem (ou melhor, hoje, pois já tinham soado as badaladas da meia-noite de domingo), antes de começar mais uma emissão de fim-de-semana do programa "Alma Lusa", com um despudorado anúncio à marca Continente a pretexto de um concurso de imitadores do cantador Tony Carreira a ter lugar no programa "Praça da Alegria", da RTP-1, iniciativa essa patrocinada pela referida cadeia de super/hipermercados. Por princípio, não discordo de que a rádio pública promova programas dos canais televisivos do mesmo grupo empresarial, a Rádio e Televisão de Portugal, desde que tal se faça com sensatez e bom gosto (portanto, na observância de escrupulosos e rigorosos critérios de qualidade) e – muito importante – que haja reciprocidade, isto é, que as antenas de rádio e respectivos programas sejam igualmente promovidos nos canais televisivos. Usar a Antena 1 para promover telelixo da RTP-1 e à boleia publicitar uma marca comercial é um procedimento claramente abusivo e falho de ética – por desrespeito pelos ouvintes/contribuintes e por infringir grosseiramente o estatuto que rege as rádios do serviço público (cláusula 10.ª do Contrato de Concessão do Serviço Público de Radiodifusão Sonora). Presumo que o principal responsável por esta obscena promiscuidade seja o director-geral de conteúdos, António Luís Marinho. Eu pergunto: será que o sujeito anda em roda-livre e quem está acima dele se demite do dever de o controlar e de lhe refrear os desmandos?

_____________________________________

Artigos relacionados:
Publicidade comercial na rádio pública
Publicidade comercial na rádio pública (II)

13 junho 2013

Eugénio de Andrade por Eugénio de Andrade


Eugénio de Andrade por Jorge Ulisses (1980)

Qualquer dia é bom para se comungar da obra de um poeta, sendo que as efemérides (do nascimento ou da morte) se apresentam sempre como excelentes pretextos para o efeito. Assinalando-se hoje oito anos exactos sobre a data em que a "senhora da gadanha" ceifou a vida ao autor de "As Mãos e os Frutos", o blogue "A Nossa Rádio" recomenda vivamente a audição da edição do programa "A Força das Coisas", que Luís Caetano muito oportunamente realizou em celebração do grande poeta por ocasião do 90.º aniversário do nascimento, a 19 de Janeiro de 2013. Além de dez poemas (abaixo referenciados) e do texto "Poética" lidos pelo autor, o programa contém excertos de entrevistas/depoimentos em que Eugénio de Andrade fala si mesmo, que nos ajudam a conhecer melhor o homem e em que medida as afeições e os interesses que teve – mormente pela música – marcaram a sua obra. E a música, como não podia deixar de ser, tem presença relevante no programa, numa selecção primorosa de Luís Caetano: Bach, Debussy, Puccini, Jan Kaczmarek, Rachmaninov, Chopin, Haendel, Wallace Willis (espiritual negro "Swing Low, Sweet Chariot"), Pergolesi, Bach, Chopin e Elgar.
Para ouvir basta aceder a:
http://www.rtp.pt/play/p321/e105600/a-forca-das-coisas

- Green God (in "As Mãos e os Frutos", 1948)
- As Palavras (in "Coração do Dia", 1958)
- O Silêncio (in "Obscuro Domínio", 1971)
- Os Amantes sem Dinheiro (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)
- Poema à Mãe (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)
- É Assim, a Música (in "Os Lugares do Lume", 1998)
- Coral (in "Os Lugares do Lume", 1998)
- O Lugar da Casa (in "O Sal da Língua", 1995)
- Poética (in "Afluentes do Silêncio", 1968)
- Crianças de São Victor (in "Escrita da Terra", 1974)
- Adeus (in "Os Amantes sem Dinheiro", 1950)

Nota: Quem desejar receber a circular com os textos, especialmente preparada para os Amigos do LUGAR AO SUL, basta que a solicite escrevendo para: ajferreira74@gmail.com



Capa da primeira edição de "As Mãos e os Frutos" (Portugália Editora, 1948)
Desenho – Manuel Ribeiro de Pavia.

10 junho 2013

Camões recitado e cantado


Retrato de Luís de Camões, pintado em Goa por artista não identificado, no ano de 1581.


Causa-me muita impressão que o Dia de Camões sirva para tudo menos para a divulgação e o cultivo da obra (poesia e teatro) do maior vulto literário de língua portuguesa. Até há uns anos, era habitual a RTP-1 transmitir o filme "Camões", de Leitão de Barros. Não era muito, mas já era alguma coisa. Agora, nem isso... Nada que vá além das cerimónias oficiais com as paradas militares, os discursos de circunstância e a aposição de medalhas ao peito de um rol (mais ou menos extenso) de notáveis.
A Antena 1, nos últimos anos, tem afinado pelo mesmo diapasão de indigência, fazendo tábua-rasa de uma das obrigações culturais do serviço público que é dar a ouvir (porque é de rádio que falamos) a obra dos nossos valores literários, sem esquecer, como é óbvio, o expoente mais elevado de todos – Luís Vaz de Camões. Não fosse a rubrica "David Ferreira a Contar" em que esteve em foco a polémica gerada pela edição, em 1965, do EP "Amália canta Luís de Camões", com a passagem de excertos dos três espécimes poético-musicais nele incluídos ("Lianor", "Erros Meus" e "Dura Memória") e de "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso, e o nosso poeta maior teria sido completamente negligenciado no principal canal da rádio do Estado, durante o dia em que é suposto ser condignamente celebrado. Era assim tão complicado resgatar do arquivo histórico a adaptação de uma das três peças teatrais de Luís de Camões – "Auto dos Anfitriões", "Auto de Filodemo" ou "Auto de El-Rei Seleuco"? E seria pedir muito que se transmitisse, ao longo do dia, diversos dos seus poemas, ora recitados ora cantados? Uma coisa simples e despretensiosa, mas que seria de muito bom-tom e não deixaria de ter benefício cultural no auditório. O mais difícil seria mesmo escolher entre o muito e bom que foi gravado, seja na forma recitada seja na forma musicada/cantada.
O blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar sete belos espécimes, antecedidos do soneto "A Camões", da autoria do brasileiro Manuel Bandeira, na voz de João Villaret, tal como os demais poemas recitados, homenageando o imortal recitador no ano em que se comemora o centenário do seu nascimento. Dão voz aos poemas cantados: Amália Rodrigues, José Afonso, Amélia Muge e Cristina Branco.



A Camões



Poema (soneto) de Manuel Bandeira (in "A Cinza das Horas", Rio de Janeiro: Edição do autor, 1917)
Recitado por João Villaret* (in LP "João Villaret Falando com Igrejas Caeiro", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Strauss, 1997)




Quando n'alma pesar de tua raça
Um signo de apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
No teu poema de heroísmo e de beleza.

Génio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O grande amor da pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que entre perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.


* João Villaret – voz
Gravado ao vivo no Teatro de São Luiz, Lisboa, em 1960
Remasterizado por Jorge d'Avillez, no Strauss Studio, Lisboa



Lianor



Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)




          MOTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.

          VOLTAS

Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.


Notas:
escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva;
sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa;
chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim;
vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura;
de cote – de uso quotidiano.

* Amália Rodrigues – voz
Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto



Amor é um fogo que arde sem se ver



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é solitário andar por entre a gente;
é um não contentar-se de contente;
é cuidar que se ganha em se perder.

É um estar-se preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode o seu favor
nos mortais corações conformidade,
sendo a si tão contrário o mesmo Amor?



Endechas a Bárbara Escrava



Poema (endechas em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)




          Endechas a ũa cativa
          com quem andava d'amores na Índia,
          chamada Bárbara.


Aquela cativa,
que me tem cativo,
porque nela vivo
já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
em suaves molhos,
que para meus olhos
fosse mais formosa.

Nem no campo flores,
nem no céu estrelas,
me parecem belas
como os meus amores.
Rosto singular,
olhos sossegados,
pretos e cansados,
mas não de matar.

Uma graça viva,
que neles lhe mora,
para ser senhora
de quem é cativa.
Pretos os cabelos,
onde o povo vão
perde opinião
que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
tão doce a figura,
que a neve lhe jura
que trocara a cor.
Leda mansidão,
que o siso acompanha;
bem parece estranha,
mas bárbara não.

Presença serena
que a tormenta amansa;
nela enfim descansa
toda a minha pena.
Esta é a cativa
que me tem cativo;
e, pois nela vivo,
é força que viva.


* José Afonso – voz
Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1968
Técnico de som – Moreno Pinto
Remasterização (edição de 2012) – António Pinheiro da Silva



Sete anos de pastor Jacob servia



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
assim lhe era negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começou a servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.


Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú. Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela sua filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento. De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.



Aos Olhos de Helena



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Amélia Muge
Intérprete: Amélia Muge* (in LP/CD "Múgica", UPAV, 1992)




          MOTE

Se Helena apartar
do campo seus olhos,
nascerão abrolhos.

          VOLTAS

A verdura amena,
gados, que pasceis,
sabei que a deveis
aos olhos de Helena.
Os ventos serena,
faz flores de abrolhos
o ar de seus olhos.

Faz serras floridas,
faz claras as fontes:
se isto faz nos montes,
que fará nas vidas?
Trá-las suspendidas,
como ervas em molhos,
na luz de seus olhos.

Os corações prende
Com graça inumana;
de cada pestana
uma alma lhe pende.
Amor se lhe rende
e, posto em geolhos,
pasma nos seus olhos.


Notas:
abrolhos – plantas herbáceas, de fruto espinhoso, que crescem nos terrenos incultos da região mediterrânica;
pasceis – pastais;
inumana – sobre-humana, divina;
Amor – Eros/Cupido (deus do amor);
geolhos – joelhos.

* Amélia Muge – voz
Alberto Campos – violoncelo
Maria João Correia – acordeão
Paulo Curado – flauta
Carlos Bica – contrabaixo
António José Martins – sintetizadores
Produção, arranjos e direcção musical – António José Martins
Gravado e misturado nos Estúdios Angel I e II, Lisboa, em Outubro de 1991
Gravação – Fernando Rascão e Jorge Barata
Mistura – Jorge Barata e António José Martins



Alma minha gentil, que te partiste



Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz Poesias de Amor", Parlophone, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)


Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não esqueças nunca aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo dos meus olhos te levou.


Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...».



Ninfas



Versos: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)




Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.


Nota:
julgá-lo – imaginá-lo.

* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002



"Vasco da Gama na Ilha dos Amores"
Desenho de Alexandre-Joseph Desenne; gravura de Richomme (in "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817).

07 junho 2013

A vitória do azeite



O AZEITE

Roubaste ao sol a luz que te escorrega
pelo dorso
quando cais em fio
aproximando-te dolente de uma música de sal.

Caminhas paralelamente
às mais vastas extensões azuis.

Vestes a sardinha
com teus líquidos fatos
de fazenda grossa e lenta.
Beijas o tomate.
Casas o teu corpo dócil mas altivo
com a renda de brancura de uma fatia de pão.

Em ti o Livro existe
ó verde irmão.
E a bandeira existe.
E os deuses mais antigos.
E o barro da palavra dignidade.

És o amigo mais puro
dos puros azeitoneiros.
Sangue do seu sangue.
Mágoa dos seus olhos numa fronteira
queimada.

Entras na boca dos pobres
com a tua doçura vegetal
e a tua transparência
tão densa
como um sexo de mulher.

És o meu consolo
ó líquido cristal.
Em ti
há um mar tranquilo
a espreguiçar-se todas as manhãs,
e todas as mães cantam
e os deuses vêm consagrar
a casa daqueles que te oferecem
a luz de um olhar sem mancha
ao nascer de cada dia.

(José Fanha, in http://zefanha.blogspot.com/2006/08/o-azeite.html)


«Nem todas as notícias pressagiam marés de desgraça ou confirmam os temidos ventos adversos sobre o Sul da Europa. É natural que num ano particularmente difícil para os europeus periféricos face ao centro geográfico e económico que é Berlim, podíamos e devíamos estar a ser brindados, ao menos, com as bênçãos do clima. Nem isso! Com uma desgraça nunca vem só, temos que suportar chuvas, ventos e frios fora de época e já começamos a fazer contas ao que estas nuvens negras nos vão trazer de despesa, desde a agricultura ao turismo. Torna-se compreensível neste quadro cinzento-escuro que nos agarremos a tudo o que possa representar uma novidade positiva ou, no limite, uma confirmação simpática. É o caso de uma notícia trazida até nós pelo "Jornal de Notícias" e que nos dá conta de uma conclusão animadora de um estudo, realizado pela Universidade de Navarra, tendo como ponto de foco a alimentação. A sentença dos cientistas é então esta: a dieta mediterrânica, alegadamente praticada em Portugal também, não se limita a ser boa para o coração – é igualmente benéfica para o cérebro ou se quisermos pormenorizar, e passo a citar, "o azeite e os frutos secos melhoram significativamente a capacidade cognitiva dos adultos". Ora vamos lá dissecar a história. O Departamento de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra teve como base de trabalho 522 adultos com idades compreendidas entre os 55 e os 80 anos, com uma particularidade: nenhuma destas pessoas apresentava problemas cardíacos mas todas tinham aquilo que é considerado um perfil de risco derivado de diabetes [do tipo 2], de hipertensão ou de consequências do tabagismo. Parte deste grupo adoptou a dieta mediterrânica e passados seis anos e meio foram realizados testes que visavam apurar eventuais problemas de deterioração cognitiva. Ora segundo o jornal espanhol "El Mundo", que refere declarações do cientista responsável por este estudo, Miguel Ángel Martínez, a incidência de problemas cerebrais era substancialmente mais baixa naqueles que tinham perfilhado a referida dieta. O médico justifica este desfecho com o seguinte: o azeite consegue eliminar do cérebro a proteína beta-amilóide, tida como a responsável pela doença de Alzheimer; além disso, o mesmo azeite reduz inflamações e o risco de diabetes. O estudo, publicado pelo "Journal of Neurology, Neurosurgery and Psychiatry", defende que ainda assim são necessários mais estudos para apurar melhor as propriedades antioxidantes da dieta mediterrânica. Está confirmado então que os cereais, as frutas, as hortaliças, o peixe (mais do que a carne), alguns lacticínios, e as gorduras ligadas ao azeite e às nozes nos deixarão mais próximos de evitar a degradação do nosso próprio cérebro. A pequena ou média contradição vem, claro está, do facto de termos que matar a cabeça para descobrir como, nas actuais circunstâncias, podermos pagar a dieta mediterrânica que nos pode salvar a cabeça. Com tudo isto continua a falhar-me a origem e o alcance da expressão "estar com os azeites". Afinal, é uma coisa boa! E digo mesmo mais: a partir daqui, de hoje, agora e sempre – azeiteiro e com muito orgulho.» [João Gobern, na crónica "A vitória do azeite", da rubrica "Pano para Mangas", 22 Mai. 2013].


E como está, nos dias de hoje, a olivicultura em Portugal? A impressão que tenho é de que se trata de um sector em declínio. Será mesmo? Se sim, seria bom que quem tem poder de decisão na matéria lesse notícias tão boas como esta e agisse em conformidade!
Em jeito de ilustração musical ao presente assunto, aqui se deixam alguns espécimes musicais relacionados com o fruto do qual se extrai o azeite – a oliva ou azeitona – e, bem assim, com a árvore que a produz, a oliveira. Tratando-se de repertório boicotado na actual Antena 1 (perdão, na coutada de Rui Pêgo e António Luís Marinho, sustentada pelo povo) mais uma razão para o blogue "A Nossa Rádio" proporcionar a sua audição/descoberta.



Fases de produção do azeite (diagrama)
[para ver em ponto grande, noutra janela, clicar aqui]



Oliveira da Serra



Letra e música: Popular
Harmonização: Eurico Carrapatoso
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)


Ó oliveira da serra,
O vento leva a flor; (ó ai, ó linda)
Só a mim ninguém me leva (ó ai, ó linda)
Para ao pé do meu amor.
[2x]


* Coro Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves



Cantiga da Azeitona



Letra: Popular
Música: João Cavadinhas
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)


[instrumental]

Vou p'rá apanha da azeitona
Namorar nos olivais;
Por andar preso por ti
Cada vez padeço mais.

E os amores da azeitona
São como os da cotovia:
Em se apanhando a azeitona,
Adeus amores de um só dia.

Já lá vem o sol raiando
Por cima das oliveiras;
Já se vão ouvindo as vozes
Das moças apanhadeiras.

A azeitona já está preta,
Já passou por tantas cores:
Já foi verde e foi vermelha,
Agora é rainha de amores.

[instrumental]

A oliveira tem pé de oiro
E tem raminhos de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!

A vara vareja o ramo,
A azeitona cai no chão;
Se tu me pedires um beijo
Nunca te direi que não.

[instrumental]

A rama da oliveira
Quando cai no lume estala:
Assim é o meu coração
Quando contigo não fala.

Canta quem já tem amores,
Fica triste quem não tem;
Foi na apanha da azeitona
Que eu encontrei o meu bem.

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violas, violino, bandolim, coros
Carlos Barata – acordeão, adufe, 2.ª voz
Daniel Completo – baixo acústico, coros
João Cavadinhas – viola amarantina, voz solo
Vítor Costa – bateria, percussões

Músicos convidados:
A.C. – violino
Filipe Martins – contrabaixo, baixo acústico
José Barros – viola braguesa
Pedro Fragoso – piano, coros
António Lopes e Alexandre Jerebtzov – coros

Arranjos – António Prata, João Cavadinhas e Carlos Barata
Produção e direcção musical – António Prata
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado no Regiestúdio, Amadora, e misturado no Estúdio Sincronia, Madrid, em Janeiro e Fevereiro de 1996



Azeitona Preta



Música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* (in LP "Cádoi", Schiu!/Transmédia, 1984, reed. CNM, 1994)




(instrumental / vocalizos)


* Arranjos e direcção musical – Júlio Pereira
Direcção de produção – Júlio Pereira
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, de 15 de Outubro a 13 de Novembro de 1984
Técnico de som – José Manuel Fortes
Mistura – José Manuel Fortes e Júlio Pereira



Azeitona Galeguinha



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Arranjo: Carlos Gama
Intérprete: Orquestra Típica de Alcains




A azeitona galeguinha
(Ai) Não a comem os pardais:
Comem uma, comem duas,
(Ai) Comem três, não querem mais.

[instrumental]

A azeitona galeguinha
(Ai) Quando vai para o lagar
É como a moça bonita
(Ai) Que todos lhe vão falar.

[instrumental]



Na Apanha da Azeitona



Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)


(instrumental)


* Rão Kyao – flautas de bambu
António Pinto – viola braguesa
Ruca Rebordão – escova no sofá, shaker
André Sousa Machado – bateria

Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa



Dás Oliveira Frutos



Poema: António Saias
Música: Fernando Lopes-Graça (1978)
Intérprete: Coro Lisboa Cantat* (in CD "Compositores Portugueses XX-XXI: Volume 1", Numérica, 2007)


Dás, oliveira,
frutos redondos;
colhê-los dói
nas mãos, nos ombros.

Dás, oliveira,
frutos pequenos;
sabê-los d'outros
– a quem os colhe –
não lhe dói menos.

Dás, oliveira,
frutos amargos
das feridas fundas
que vais fazendo
nos dedos magros.


* Coro Lisboa Cantat
Direcção – Jorge Carvalho Alves



Balada da Oliveira



Música: Pedro Caldeira Cabral
Intérprete: Pedro Caldeira Cabral* (in CD "Memórias da Guitarra Portuguesa", Tradisom, 2003)




(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola
Duncan Fox – contrabaixo

Produção – José Moças
Gravado na Igreja da Cartuxa, Caxias, em 1999
Engenheiro de som – José Manuel Fortes



Canção da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Quadrazais, Sabugal, Beira Alta)
Recolha: César Prata e Julieta Silva
Intérprete: Chuchurumel* com Maria Augusta Moleira (in CD "No Castelo de Chuchurumel", Chuchurumel/Luzlinar, 2005)


Azeitona miudinha,
Já morreu quem te apanhava;
Agora deixa-te andar
Por esse chão espalhada.

A oliveira tem pé de ouro,
Não tem galhadas de prata;
Menina, dê os seus olhos
A quem por eles se mata!

A azeitona cordovil
Traz o caroço escondido;
Não me percas a amizade,
Eu não te perco o sentido!

Debaixo da oliveira
Aí é que é o falar;
Traz a rama escondida,
Não entra lá o luar.

[instrumental]


* Maria Augusta Moleira – voz
César Prata – viola e voz
Julieta Silva – piano e voz

Gravado no Primogénitos Studios, Soito - Sabugal, entre Fevereiro de 2004 e Abril de 2005
Produção, arranjos e edição – Chuchurumel
Gravação e masterização – Artur Emídio
Misturas – Artur Emídio e Chuchurumel



Debaixo da Oliveira



Letra e música: Popular (Beira Litoral)
Intérprete: Toques do Caramulo* com Bernard Massuir (in CD "Toques do Caramulo É ao Vivo!", d'Orfeu Associação Cultural, 2007)


[vocalizos / instrumental]

Meu benzinho, eu vou-me embora,
Dá carinhos a quem te adora!
Meu benzinho, eu já cá estou,
Dá carinhos a quem te amou!


* [Créditos gerais do disco:]
Toques do Caramulo:
Luís Fernandes – voz, acordeão, viola braguesa
Aníbal Almeida – rabeca
Gonçalo Rodrigues – bandolim
Miguel Cardoso – contrabaixo
Lara Figueiredo – flauta
Ricardo Coutinho – bateria tradicional
Convidado especial:
Bernard Massuir – voz

Gravado ao vivo no Espaço d'Orfeu, Águeda, na noite de 21 de Outubro de 2006
Direcção técnica – Rui Oliveira
Assistência técnica de gravação – Paulo Brites, Ricardo Relvas, Bitocas e Jorge Sousa
Misturas – Rui Oliveira & Luís Fernandes, no Gravad'Or, Águeda, de Novembro de 2006 a Março de 2007
Masterização – João Neves & Rui Oliveira, no Espaço Sons, Aveiro, em Março de 2007



Amores da Azeitona



Letra e música: Tradicional (Beira Baixa)
Intérprete: Musicalbi* (in CD "Mastiço", I Som, 2007)


A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!

A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!

A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?

[instrumental]

A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala;
Assim é meu coração
Ai, quando para ti não fala!

A folha da oliveira
Ai, tem dois bicos como a renda;
Estes rapazes de agora
Ai, já não há quem os entenda!

A oliveira pequena
Ai, que azeitona pode dar?
A filha de um homem pobre
Ai, que amores pode tomar?

Se a oliveira falasse
Ai, ela diria o que viu:
Debaixo da sua sombra
Ai, dois amores encobriu.

Os amores da azeitona
Ai, são como os do milho miúdo:
À acabada da azeitona
Ai, lá vai amor, lá vai tudo!

A folha da oliveira
Ai, deitada no lume estala!


* [Créditos gerais do disco:]
Musicalbi:
Carlos Salvado – voz, bandolim, guitarra, cavaquinho, bouzouki e flautas
Filipa Melo – voz
Horácio Pio – baixo, acordeão e coros
Maria Côrte – violino, harpa celta e gaita-de-foles
António Pedro – piano, percussões e coros
António Lourinho – bateria

Participações especiais:
Catarina Ventura – acordeão e coros
Emília Melo (mãe de Filipa Melo) – voz

Gravado no Estúdio I Som, Alcains
Misturas e masterização – Nuno Gelpi



Ó Rama, Ó Que Linda Rama



Letra e música: Popular (Alentejo)
Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)




[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!

Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!

Eu gosto muito de ouvir
Cantar a quem aprendeu;
Se houvesse quem me ensinara
Quem aprendia era eu.

[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!

Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!

Não me inveja de quem tem
Carros, parelhas e montes;
Só me inveja de quem bebe
A água em todas as fontes.

[instrumental]

Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama da oliveira,
O meu par é o mais lindo
Que anda aqui na roda inteira!

Que anda aqui na roda inteira,
Aqui e em qualquer lugar!
Ó rama, ó que linda rama,
Ó rama do olival!

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Teresa Silva Carvalho – voz
Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca
Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa
Zé Luiz Iglésias – viola clássica
Pintinhas – percussões
Hélder Reis – acordeão
Vitorino – voz masculina
Grupo Coral de Cantadores do Redondo – coro

Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto



À Oliveira da Serra



Música: Popular
Adaptação: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* & Lu Yanan (in CD "Porto Interior", Fundação Jorge Álvares, 2008)


(instrumental)


* Rão Kyao – flauta de bambu
Lu Yanan – pi'pa

Produtor musical – Rão Kyao
Produtor executivo – António Avelar de Pinho
Gravação e mistura – Luís Delgado, no Estúdio Sonic State, Miraflores