13 novembro 2022

"Viagem a Portugal": Fernando Alves nos passos de Saramago


José Saramago, escritor (1981) | Fernando Alves, repórter (2022)


Mal vai à obra se lhe requerem prefácio que a explique, mal vai ao prefácio se presume de tanto. Acordemos, então, que não é prefácio isto, mas aviso simples ou prevenção, como aquele recado derradeiro que o viajante, já no limiar da porta, já postos os olhos no horizonte próximo, ainda deixa a quem lhe ficou a cuidar das flores. Diferença, se a há, é não ser o aviso último, mas primeiro. E não haverá outro.
Resigne-se pois o leitor a não dispor deste livro como de um guia às ordens, ou roteiro que leva pela mão, ou catálogo geral. Às páginas adiante não se há-de recorrer como a agência de viagens ou balcão de turismo: o autor não veio dar conselhos, embora sobreabunde em opiniões. É verdade que se acharão os lugares selectos da paisagem e da arte, a face natural ou transformada da terra portuguesa: porém, não será forçadamente imposto um itinerário, ou orientado habilmente, apenas porque as conveniências e os hábitos acabaram por torná-lo obrigatório a quem de sua casa sai para conhecer o que está fora. Sem dúvida, o autor foi aonde se vai sempre, mas foi também aonde se vai quase nunca.
Que é, afinal, o livro que um prefácio possa anunciar com alguma utilidade, mesmo não imediata em primeiro atendimento? Esta Viagem a Portugal é uma história. História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajante reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa. O viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi, durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma placa sensível que registou, em trânsito e processo, as impressões, as vozes, o murmúrio infindável de um povo.
Eis o que este livro quis ser. Eis o que supõe ter conseguido um pouco. Tome o leitor as páginas seguintes como desafio e convite. Viaje segundo um seu projecto próprio, dê mínimos ouvidos à facilidade dos itinerários cómodos e de rasto pisado, aceite enganar-se na estrada e voltar atrás, ou, pelo contrário, persevere até inventar saídas desacostumadas para o mundo. Não terá melhor viagem. E, se lho pedir a sensibilidade, registe por sua vez o que viu e sentiu, o que disse e ouviu dizer. Enfim, tome este livro como exemplo, nunca como modelo. A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, provavelmente, um deles. Entregue as suas flores a quem saiba cuidar delas, e comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.

JOSÉ SARAMAGO (in "Viagem a Portugal", 1.ª edição, Lisboa: Círculo de Leitores, Março de 1981 – p. 5)


Passaram exactamente vinte anos. No Outono de 1979 saí de Portugal pela fronteira de Valença do Minho e entrei em terras de Galiza. Queria que o título que já havia escolhido para o meu livro – Viagem a Portugal – tivesse, desde o primeiro passo e desde a primeira palavra, o mais pleno sentido: na verdade, para viajar a um país sempre será preciso começar por estar fora desse país. Ora, se a viagem que ia começar, devendo ser, obviamente, em Portugal e por Portugal, também pretendia ser a Portugal, era evidente para mim que essa intenção de princípio deveria ser perceptível ao leitor logo no limiar do livro, isto é, no seu título. Durante quatro dias distraí-me a passear pelas províncias espanholas de Galiza e de León, demorando-me em cidades e aldeias como se o objectivo real da viagem fosse esse, e nenhum outro. Foi só no quinto dia que me decidi a atravessar, vindo de Zamora, o rio Douro. Fiz um sermão aos peixes, à imitação de Santo António e do padre António Vieira, como no primeiro capítulo detidamente se explica, e entrei, enfim, em Portugal.
Fazer questão de distinguir, tratando-se de uma viagem, entre um em, um por e um a é muito mais do que um mero jogo de palavras ou um simples exercício vocabular, ao querer viajar a Portugal, o que eu estava a propor a mim mesmo era que descesse ao fundo das coisas vistas e das pessoas encontradas, que descuidasse das aparências, que recusasse os olhares superficiais, que abandonasse a rotina dos guias turísticos e dos mapas comuns, que tivesse como único roteiro a história e a cultura do meu país. Vinte anos depois, não estou seguro de o ter conseguido, ao menos tanto como o sonhei. Ainda assim, talvez o leitor perspicaz possa reconhecer, aqui e além, em algum momento feliz do relato, um ou outro ténue indício do que, na altura, foi o mais ambicioso dos projectos a que poderia atrever-me: escrever, sobre Portugal, um livro que não pudesse ser confundido com nenhum outro, um livro capaz de inaugurar um novo modo de olhar e um novo modo de sentir. (Sejamos tolerantes, perdoemos ao autor esta imprudência do espírito, este desvario da vontade e da imaginação...)
Durante a longa viagem, em que consumi quase seis meses, foi nascendo em mim a convicção de que, em cada lugar por onde passava, havia uma parcela de Portugal velho que se despedia do viajante que eu era, um Portugal antigo que principiava, finalmente, embora ainda duvidoso do seu próprio querer, a mover-se em direcção ao século XX. Era como se as lentas centúrias lusitanas, atrasadas, desde há muito, em relação ao calendário europeu (um século XVIII que entrara pelo século XIX dentro, um século XX que só agora começava a aperceber-se de que não teria cem anos para viver...), estivessem a ser empurradas para a frente por um Tempo que se tinha cansado de esperar. Algumas vezes, depois, enquanto procurava reconstituir, palavra a palavra, a memória do que havia visto, ouvido e sentido durante a viagem, pensei que, de certo modo, o que eu ali estava a escrever era uma espécie de crónica testamental, uma acta de inventário, uma lista de salvados, um longo adeus.
O mero guia turístico que eu não quis que fosse esta Viagem a Portugal, igualmente o não quer o tempo que passou. Algumas coisas que aqui se descrevem, ou deixaram de existir, ou não são já, à primeira vista, reconhecíveis. Transformaram-se as paisagens, os urbanismos e as arquitecturas, alteraram-se os gostos e os modos de vida. Mas este livro não deve ser lido como uma melancólica viagem ao passado. Bastará, para isso, que o leitor tenha presente, em cada uma das páginas que se seguem, aquele roteiro que em todos os momentos guiou o viajante, isto é, a cultura e a história portuguesas. Levado por essa mão, não se perderá no caminho.

JOSÉ SARAMAGO, Outono de 1999


A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.

JOSÉ SARAMAGO (in "Viagem a Portugal", 1.ª edição, Lisboa: Círculo de Leitores, Março de 1981 – p. 233)




Em 1981 o clube do livro Círculo de Leitores, filial da multinacional alemã Bertelsmann, completava dez anos de implantação em Portugal e para comemorar esse primeiro decénio de actividade em terras lusas entendeu a administração que seria de bom-tom publicar um livro que não se limitasse a ser um banal guia turístico do país – antes testemunhasse a visão de um escritor sobre as terras, as gentes e o património natural e cultural. Para levar a cabo tal 'empreitada' foi convidado José Saramago, que desde Outubro de 1979 até Julho de 1980, deambulou por este rectângulo ocidental da Península Ibérica, tendo como bíblia o livro "Portugal", de Miguel Torga. Desse périplo, que começou no Planalto Mirandês e terminou nas ruínas da cidade romana de Miróbriga, perto de Santiago do Cacém, resultou um avultado acervo de apontamentos e fotografias que seriam a base de trabalho para a escrita do texto que compõe o volume ilustrado "Viagem a Portugal", que viria a lume na Primavera de 1981.
José Saramago, cumprindo o lema «o fim duma viagem é apenas o começo doutra», voltará a vários dos lugares já visitados (por exemplo, à casa de Camilo Castelo Branco, em São Miguel de Seide, e à aldeia histórica de Castelo Novo, na Serra da Gardunha) e irá a outros ainda não vistos pelos seus olhos in situ, porque «É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre.». O insigne autor/viajante deixou de poder viajar a partir de 18 de Junho de 2010, data em que foi subtraído ao número dos vivos, mas as suas palavras ficaram para inspirar e incentivar os leitores da posteridade a (re)descobrirem Portugal, ainda que os itinerários e os pontos de paragem não sejam (exactamente) os mesmos. Aliás, um dos grandes fascínios do acto de viajar é depararmo-nos e maravilharmo-nos com recantos e encantos fora dos circuitos turísticos mais batidos...
Neste ano do centenário do nascimento do autor de "Memorial do Convento", o repórter Fernando Alves resolveu (e bem!) pôr-se a caminho, de microfone em punho, para realizar uma "Viagem a Portugal" radiofónica, tomando como guia – não estrito mas essencial – o marcante livro de José Saramago. Em vinte e duas etapas, de 6 de Março de 2022 a 31 de Julho de 2022, os ouvintes da TSF-Rádio Notícias puderam acompanhar o repórter em demanda dos lugares da viagem saramaguiana e das pessoas com quem, nos dias de hoje, é possível entabular uma conversa cativante feita com alma e autenticidade. Algumas delas, como a ocorrida em Serpa, no Museu do Cante, com a Sra. Mariana Cristina, tiveram o bendito condão de nos fazer evocar outro grande andarilho da rádio, Rafael Correia, e o seu maravilhoso "Lugar ao Sul". E tratando-se de um trabalho notável, digno de ser apreciado (com prazer e proveito cultural) por quem gosta de ouvir boa rádio, especialmente aquela que capta e divulga genuínos retratos sonoros da terra portuguesa, não é o facto de ter sido produzido por/para uma estação privada que nos coíbe de dar-lhe o merecido destaque.
Aqui deixamos, pois, os links de cada uma das 22 etapas da "Viagem a Portugal" realizada pelo categorizado repórter Fernando Alves e os respectivos roteiros. Boa audição!


VIAGEM A PORTUGAL:
Ep. 1 | 06 Mar. 2022 [>> TSF / MP3]
Miranda do Douro — Mogadouro — Palaçoulo — Paradela — Porto (conversa com Carlos Tê sobre Miranda do Douro e o Menino Jesus da Cartolinha).

Ep. 2 | 13 Mar. 2022 [>> TSF / MP3]
Bragança — Baçal — Sacoias — Varge — Rio de Onor — Bragança — Outeiro Seco (Chaves) — Cambedo da Raia — Carrazedo de Montenegro (Valpaços) — Murça.

Ep. 3 | 20 Mar. 2022 [>> TSF / MP3]
Vilarinho de Samardã (Vila Real) — Vila Real — Miradouro de São Pedro (São João Baptista de Lobrigos, Santa Marta de Penaguião) — Amarante — Tabuado (Marco de Canavezes) — Santa Cruz do Douro (Baião) — Ovil — Chã de Parada (Serra da Aboboreira) — Telões (Amarante) — Pombeiro de Ribavizela (Felgueiras).

Ep. 4 | 27 Mar. 2022 [>> TSF / MP3]
Cabeceiras de Basto — Guimarães — São Miguel de Seide (Vila Nova de Famalicão) — Matosinhos.

Ep. 5 | 03 Abr. 2022 [>> TSF / MP3]
Aguçadoura (Póvoa de Varzim) — Praia do Fragosinho (A-Ver-o-Mar) — São Pedro de Rates — Balugães (Barcelos) — Viana do Castelo — Romarigães (Paredes de Coura).

Ep. 6 | 10 Abr. 2022 [>> TSF / MP3]
Praia do Landre (Bela, Monção) — Melgaço — Serra da Peneda — Soajo (Arcos de Valdevez) — Braga — Padim da Graça — Tibães — Braga.

Ep. 7 | 17 Abr. 2022 [>> TSF / MP3]
Póvoa de Lanhoso — Paço de Sousa (Penafiel) — Porto — Roriz (Santo Tirso).

Ep. 8 | 24 Abr. 2022 [>> TSF / MP3]
Ovar — Praia de Cortegaça — Torreira — Bunheiro (Murtosa) — Trofa do Vouga (Águeda) — Oiã (Oliveira do Bairro) — Praia de Mira.

Ep. 9 | 01 Mai. 2022 [>> TSF / MP3]
Ereira (Montemor-o-Velho) — Montemor-o-Velho — Conímbriga — Tentúgal — Coimbra.

Ep. 10 | 08 Mai. 2022 [>> TSF / MP3]
Castelo de Arouce (Lousã) — Góis — Lorvão — Luso — Mata do Buçaco — Guarda — Cidadelhe (Pinhel).

Ep. 11 | 15 Mai. 2022 [>> TSF / MP3]
Linhares da Beira (Celorico da Beira) — Trancoso — Marialva — Quinta das Senhoras (Marialva) — Castelo Mendo — Almeida.

Ep. 12 | 22 Mai. 2022 [>> TSF / MP3]
Viseu — Melo (Gouveia) — Resende — Lamego — Verdelhos (Covilhã).

Ep. 13 | 29 Mai. 2022 [>> TSF / MP3]
Monsanto — Fundão — Castelo Novo — Castelo Branco — Idanha-a-Nova — Abrantes.

Ep. 14 | 05 Jun. 2022 [>> TSF / MP3]
Constância — Tomar — Ourém — Mulher Morta (Ourém) — Praia da Vieira (Vieira de Leiria) — Marinha Grande — Batalha.

Ep. 15 | 12 Jun. 2022 [>> TSF / MP3]
Torres Novas — Golegã — Azinhaga — Santarém — Torres Vedras — Alenquer.

Ep. 16 | 19 Jun. 2022 [>> TSF / MP3]
Caldas da Rainha — Óbidos — Serra d'El-Rei (Peniche) — Atouguia da Baleia — Ferrel — Peniche — Mafra.

Ep. 17 | 26 Jun. 2022 [>> TSF / MP3]
Sintra — Cascais — Carcavelos — Lisboa.

Ep. 18 | 03 Jul. 2022 [>> TSF / MP3]
Serra da Arrábida — Setúbal — Montemor-o-Novo — Pavia (Mora) — Castelo de Vide — Portalegre.

Ep. 19 | 10 Jul. 2022 [>> TSF / MP3]
Arronches — Elvas — Estremoz — Évora-Monte — Juromenha — Redondo — Évora.

Ep. 20 | 17 Jul. 2022 [>> TSF / MP3]
São Pedro do Corval (Reguengos de Monsaraz) — Serpa — Baleizão — Beja.

Ep. 21 | 24 Jul. 2022 [>> TSF / MP3]
Mértola — Alcoutim — Cachopo (Serra do Caldeirão) — Luz de Tavira — Olhão — Fuseta — Faro.

Ep. 22 | 31 Jul. 2022 [>> TSF / MP3]
Loulé — Silves — Alferce (Monchique) — Vila do Bispo.



Sobrecapa da 1.ª edição do livro "Viagem a Portugal", de José Saramago (Lisboa: Círculo de Leitores, Março de 1981)
Fotografia – Asta e Luís Almeida d'Eça

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