
Violência e Paixão
Por: Fernando Pinto do Amaral (poeta, crítico literário e professor de literatura)

Quando se percorre a poesia escrita por mulheres ao longo do século XX português, o nome de Natália Correia continua a surgir como um dos que causaram uma repercussão mais duradoura, quer pela sua personalidade forte e polémica, quer pelo alcance da sua obra literária, na qual sempre se manifestou uma vocação poderosamente dionisíaca e por isso excessiva, capaz de apreender magicamente a realidade e de a transfigurar mediante uma rica imaginação metafórica, sobretudo a partir de Dimensão Encontrada (1957), já que os seus primeiros livros (Rio de Nuvens, de 1947, e Poemas, de 1955) exprimiam ainda uma atitude lírica mais tradicional.
É antiga a questão de saber até que ponto Natália Correia poderá ou não considerar-se uma escritora surrealista, embora nunca tenha pertencido a qualquer movimento com esse nome: definida algures por Claude Roy como «la violence surréaliste faite femme», a própria Autora terá admitido alguma proximidade com a visão surrealista do mundo, essencialmente no que toca a uma «identificação entre a poesia e a magia», na medida em que ambas procuram o acesso a uma alquimia libertadora. Trata-se, no fundo, de uma radical vontade criadora, de um desejo de libertar a linguagem de todos os constrangimentos e de dar livre curso à imaginação, como podemos sentir num texto que nos fala de uma ressurreição apta a transformar a morte em vida e a tristeza em alegria: «A harpa do vento / e os meus dedos de ventania / compuseram uma canção / da mais fantástica alegria. // (...) // É uma onda de magia / onde se enrolam os mortos / erguidos da terra fria / dum rosto que lhes pintou / a nossa melancolia.»
Foi sob o efeito do irresistível impulso dessa «onda de magia» que se construiu o essencial da escrita de Natália, em que um dos traços mais flagrantes consiste numa posição (sempre reafirmada) de rebeldia diante das instituições e dos poderes estabelecidos ou de quaisquer regras impostas pela força. Até certo ponto, é como um sinal dessa rebeldia que se compreendem as incursões da Autora no campo da poesia satírica e humorística, dirigida contra figuras ou acontecimentos da esfera política, como sucede na sequência das «Cantigas de Risadilha» — composta por poemas que ridicularizam episódios da vida parlamentar que Natália acompanhou enquanto foi deputada —, assim como em toda a Epístola aos Iamitas (1976), cujos sonetos constituem reflexões ora entusiásticas, ora sobretudo corrosivas, a respeito do Portugal pós-25 de Abril e disso a que na altura se chamou o P.R.E.C. (Processo Revolucionário Em Curso), perante o qual se manifesta por vezes uma dolorosa desilusão: «E veio Abril: cravos camonianos / aparelharam da liberdade as barcas. / Do verde pinho as flores foram-me enganos, / as tecelãs do sonho eram as parcas. // Da podridão variam os estados: / magicamente os nomes são mudados; / intacto o pasto vil das varejeiras.»
A mesma faceta surge igualmente em certos poemas isolados, como a célebre «Queixa das Almas Jovens Censuradas», fazendo eco de um profundo grito de revolta que preza, acima de tudo, a liberdade do poeta contra todas as formas de sujeição. E é também isso a estar em jogo num outro texto muito conhecido («A Defesa do Poeta»), aliás escrito com a intenção de ser lido no Tribunal Plenário que no tempo da ditadura acusou Natália Correia: «Senhores juízes sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. // (...) // Sou (...) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / (...) // Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever. / Ó subalimentados do sonho! / A poesia é para comer.»
Lido este excerto, convirá atender a dois aspectos: por um lado, mesmo levando em conta o intuito profundamente afirmativo do texto (que desenvolve a vigorosa declaração: «sou um poeta»), o lugar de quem escreve poesia surge relacionado com uma excepcionalidade inquietante ou perturbadora, já que se identifica com um «defeito» ou uma «avaria cantante / na maquineta dos felizes», que corresponderiam à cinzenta maioria; por outro lado (e refiro-me agora aos dois últimos versos), acentua-se a dimensão gustativa, sensorial ou carnal da poesia, inscrevendo-se num entendimento global do mundo em que «o espírito é tão real como uma árvore», pressupondo uma integração harmoniosa na natureza. Ficamos, portanto, dentro de uma unidade fundamental entre todas as coisas humanas e cósmicas, naturais e divinas: «Vem das estrelas o sangue que nos guia / E na amorosa perfeição da carne / Está toda a eternidade resumida.»
Perante versos como estes, pode dizer-se sem grande exagero que Natália Correia nos deu, do princípio ao fim da sua obra, uma visão religiosa da existência, alicerçada não em qualquer adoração de um Deus ou num rito eclesiástico específico, mas numa espécie de comunhão pagã entre o eu e tudo o que o rodeia, religando-se a um universo do qual pretende auscultar os sinais, como se estivesse diante de um segredo que só a alguns é permitido desvendar e que a poesia aguarda, como se esperasse «o romper da manhã na noite mística». De facto, na escrita de Natália o conhecimento quase nunca se produz pela via intelectual e corresponde, acima de tudo, ao amor: fiel à tradição lírica portuguesa e à sua predilecção por temas amorosos, a Autora convoca sentimentos simultaneamente carnais e espirituais, porque neste caso é a partir dos sentidos que se intui a hipótese (ou a certeza?) de um sentido que os excede — veja-se o início do poema «Pórtico»: «Corpo, alma, razão, já os cantei, / estreme, sem me isentar em pseudónimos. / Antífrases de mim as assinei. / Contrários indaguei: eram sinónimos. // O Espírito agora cantarei. / Corpo, alma, razão lhe são compósitos.»
Também enquadrado no mesmo propósito de união e ampla comunhão universais está um politeísmo estrutural que leva a poesia desta «feiticeira cotovia» a celebrar a beleza do mundo, conotando-a com a presença do sagrado que o povoa e assim reflecte os poderes de uma pluralidade de deuses e deusas cujo culto, em vez de exigir submissão — «Os deuses não nos querem de joelhos» —, nos convida, pelo contrário, a um esfusiante cântico da vida e do amor, do qual podem ser emblemas os Jardins de Adónis, onde se recusam os labirintos da racionalidade e se declara a superioridade das sensações, tornadas elas mesmas divinas: «Sentir nos baste. Ideias são reveses. / Da vida, as naturais disposições, / Sigamos, Flávio. Até que sejam deuses / As nossas sensações.»
Perto das sensações mais vibrantes se encontram, aliás, todos os elementos de uma natureza cujo incognoscível daimon feminino se condensa na famosa imagem da «Mátria», nem sequer demasiadamente erotizada no sentido mais comum que atribuímos à sexualidade humana, mas sobretudo transmissora de paz, de bem-estar e de reconciliação com um estado primitivo, maternal ou genesíaco do universo: «E se o mundo em ti principiava, / No teu mistério entre astros absortos, / Suavemente, ó mãe, tudo termina.» Também o Amor (com maiúscula) ultrapassa, deste modo, as habituais fronteiras que limitam a consciência individual, elevando-se ao mais alto grau de gnose mística e adquirindo o estatuto de uma sabedoria esotérica comparável à de uma verdadeira alquimia: «Indemne atravessei as labaredas / porque o Amor faz a Obra / e o fogo faz o Amor.»
Para concluir, digamos que toda a poesia de Natália Correia configura um «ofício das trevas», mergulhando nas águas de mistérios que não ousa decifrar e assentando numa ideia (surrealista) de libertação total do ser, num processo de comunhão iniciática. Trata-se de um ritual posto em jogo não apenas graças aos já mencionados poderes alquímicos da escrita, mas também por uma abertura à «Saudade» portuguesa que sempre fascinou a Autora — essa «retráctil flor da ausência», cujo místico perfil se recorta sobre o passado e sobre o futuro, parecendo conferir ao conjunto da obra de Natália Correia uma indestrutível crença em qualquer coisa que extravasa os mesquinhos limites da razão humana. Na esteira dos românticos ou dos seus herdeiros surrealistas, é sempre muito para lá de tais limites que esta poesia nos deseja convocar, arrastando-nos para uma dimensão soberanamente libertadora da realidade e da linguagem — como se lê no texto final dos Sonetos Românticos, que funciona como um «credo»:
«Creio nos anjos que andam pelo mundo, / Creio na Deusa com olhos de diamantes, / Creio em amores lunares com piano ao fundo, / Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes, // Creio num engenho que falta mais fecundo / De harmonizar as partes dissonantes, / Creio que tudo é eterno num segundo, / Creio num céu futuro que houve dantes, // Creio nos deuses de um astral mais puro, / Na flor humilde que se encosta ao muro, / Creio na carne que enfeitiça o além, // Creio no incrível, nas coisas assombrosas, / Na ocupação do mundo pelas rosas, / Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen».
(prefácio a "Antologia Poética", org. Fernando Pinto do Amaral, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002 – p. 19-25)
Natália Correia [biografia e bibliografia no site da >> DGLB] é, indubitavelmente, uma das três maiores poetisas (ou mulheres poetas, se se preferir) do século XX português (as outras duas são Florbela Espanca e Sophia). Tal evidência não foi, no entanto, suficiente para a direcção de programas da Antena 1 tomar a iniciativa de a homenagear no 90.º aniversário do seu nascimento que hoje se comemora. Isso podia (e devia) ser feito, sem prejuízo da emissão de um programa evocativo (produzido de propósito ou resgatado do arquivo histórico), com a transmissão ao longo do dia de poemas de Natália, cantados ou recitados. O difícil seria mesmo escolher pois é muito e bom o que existe em ambas as formas, gravado em disco, quer avulsamente quer em edições temáticas (destas referenciei quatro – vide as capas ao fundo – mas é provável que haja mais).
A título demonstrativo, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma mão-cheia desses nutritivos espécimes, pois como afirmava Natália «a poesia é para comer» e, ao contrário de Rui Pêgo, não somos «subalimentados do sonho» e gostamos que os visitantes deste sítio tenham a oportunidade de se alimentarem.
A talhe de foice, uma interrogação: a 'playlist' que tem rodado na Antena 1 inclui alguma canção baseada em poema(s) de Natália Correia? Era capaz de apostar que nem uma...
AUTOGÉNESE
Poema de Natália Correia (de "O Diário de Cynthia", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 319-321; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 241-243)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)
Nascitura estava
sem faca nos dentes
cómoda e impura
de não ter vontade
de bater nas gentes.
Nasce-se em setúbal
nasce-se em pequim
eu sou dos açores
(relativamente
naquilo que tenho
de basalto e flores)
mas não é assim:
a gente só nasce
quando somos nós
que temos as dores;
pragas e castigos
foram-me gerando
por trás dos postigos
e fórceps de raiva
me arrancaram toda
em sangue de mim.
Nascitura estava
sorria e jantava
e um beijo me deste
tu Pedro ou Silvestre
turvo namorado
do verão ou de outono
hibernal afecto
casca azul do sono
sem unhas do feto.
Eu nasci das balas
eu cresci das setas
que em prendas de sala
me foram jogando
os mulheres poetas
eu nasci dos seios
dores que me cresceram
pomos do ciúme
dos que os não morderam;
nasci de me verem
sempre de soslaio
de eu dizer em junho
e eles em maio
de ser como eles
às vezes por fora
mas nunca por dentro
perfil de uma estátua
que não sou de frente.
Nascitura estava
e mais que imperfeita
de ser sorte ou dado
que qualquer mão deita.
Eu nasci de haver
os bairros da lata
do dedo que escapa
dos sapatos rotos
da fome que mata
o que quer nascer
e que o sábio guarda
em frascos de abortos;
eu nasci de ver
cheirar e ouvir
dum odor a mortos
(judeus enlatados
para caberem mais
mas desinfectados)
pelas chaminés
nazis a sair
de te ver passar
de me despedir
de teus olhos tristes
como se existisses.
Nascitura estava
tom de rosa pulcra
eu me declinava
vésper em latim:
impura de todos
gostarem de mim.
* Natália Correia – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização (edição em CD) – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Manhã Cinzenta (À partida de S. Miguel)
Poema: Natália Correia (in "Portugal, Madeira e Açores", Abril de 1946; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 11; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 38)
Música: Carlos Alberto Moniz
Intérprete: Carlos Alberto Moniz* (in CD "Herdeiros da Maresia", Carlos Alberto Moniz, 2003)
Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais...
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais...
O meu veleiro — era de espuma fria —
levava-o o fervor dos vendavais.
À passagem gritavam-me: onde vais?
Mas só o meu veleiro respondia.
Cruzei o mar em direcções diferentes.
Por quantas terras fui, por quantas gentes,
nesta longa viagem que não finda.
Só uma estrada resta — mais nenhuma:
na Ilha que o passado envolve em bruma,
um lenço branco que me acena ainda...
* Carlos Alberto Moniz – voz
Ricardo Dias – acordeão
João Paulo Esteves da Silva – piano
Davide Alfano – violoncelo
Captação de som e direcção técnica – Mário Barreiros
OS NUMES DOS NOMES
Poema de Natália Correia (de "O Espírito É Tão Real Como Uma Árvore", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 156-157; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 459-460)
Recitado por Tânia Silva* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)
Música de fundo: Charlie Haden - Quartet West, "Always Say Goodbye" (in CD "Always Say Goodbye", Gitanes Jazz Productions/Verve/Polydor France, 1994)
Não por acaso Natália me puseram:
minha mãe que era fada lá sabia.
Posta a graça ao afino do mistério
para estar sempre a nascer é que eu nascia.
Da avó que era louca veio o Rego
em conduta dos anjos que ela via.
Desvairanças aladas bom emprego
São, se herdadas em grão de poesia.
Pelo avô, do matagal de nomes,
Sai-me o Raposo. Aqui ninguém me apanha.
Inomeável três vezes é o Esposo,
para fazer de solteira há que ter manha.
Também é fortuita a Oliveira
De folhas de ouro no meu nome oclusa:
a alma é paz de ideias à lareira
que o pudor em mau génio não acusa.
E Medeiros, medeiros quantas medas
de trigo sideral para que em signo
apurada a espiga entre as estrelas
Fecundo seja meu trigal de Virgo.
Vem por fim a justiça na Correia:
perdoar vendilhões só a chicote.
Absolva-os a Virgem que faz meia.
Não eu. Adivinhai-me. Eu dei o mote.
* Tânia Silva – voz
Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn
Cântico do País Emerso
Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Amélia Muge
Arranjo: Michales Loukovikas
Intérpretes: Amélia Muge* e Michales Loukovikas (in livro/CD "Periplus: Deambulações Luso-Gregas", Periplus (AM-ML) / Eter Music, 2012)
[instrumental]
Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.
Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida Sou solta talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos Levai-os para a floresta.
É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...
* Amélia Muge – voz
Filipe Raposo – piano
Harris Lambrakis – ney (flauta oriental)
José Martins – percussão, sintetizador
José Salgueiro – percussão
Kyriakos Gouventas – violino
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Kostas Theodorou – contrabaixo, percussão
Direcção artística – Amélia Muge e Michales Loukovikas
Produção – Amélia Muge, Michales Loukovikas e José Martins
Gravado entre Maio e Dezembro de 2011
Estúdios: Tumbuktu (Lisboa), por André Fernandes e Nuno Costa; Aeolia (Atenas), por Thodorés Manolides; AJM (Sobreda) e Adufe Música (Valejas), por José Martins
Gravações móveis em: Salónica, por Christos Megas; Guimarães, por José Martins
Misturado em AJM (Sobreda), por José Martins e Michales Loukovikas, de Julho a Dezembro de 2011
Masterizado por Tó Pinheiro da Silva, em Dezembro de 2011
CÂNTICO DO PAÍS EMERSO (VIII)
Poema de Natália Correia (in "Cântico do País Emerso", Lisboa: Contraponto, 1961; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 282-283; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 215-217)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)
Não sou daqui. Mamei em peitos oceânicos
Minha mãe era ninfa meu pai chuva de lava
Mestiça de onda e de enxofres vulcânicos
Sou de mim mesma pomba húmida e brava.
De mim mesma e de vós, ó Capitães trigueiros
Barbeados pelo sol penteados pela bruma!
Que extraístes do ar dessa coisa nenhuma
A génese a pluma do meu país natal.
Não sou daqui das praias da tristeza
Do insone jardim dos glaciares
Levai minha nudez minha beleza
E colocai-a à sombra dos palmares.
Não sou daqui. A minha pátria não é esta
Bússola quebrada dos impulsos.
Sou rápida Sou solta talvez nuvem
Nuvens minhas irmãs que me argolais os pulsos!
Tomai os meus cabelos Levai-os para a floresta.
É lá que o meu amigo pastor de estrelas pasce
O marulho das folhas com pássaros nas vozes
O sol adormecido nos braços da giesta
A manhã rarefeita na corrida do alce
O luar orbitado no salto da gazela
Os animais velozes do sítio onde se nasce...
Levai-me, peixes da minha pele itinerante!
Quero ir à pesca colher no espelho da laguna
O lírio da nudez a perdida inocência
O coração do bosque a dar-se sem penumbra
Visto através da minha transparência.
Levai-me, ó minhas mãos branco exílio de ramos!
Meus dedos virtuais folhas de palma!
Sois os órgãos sensíveis da choupana
Onde quero deitar a minha alma.
Levai-me, olhos meus implícitas montanhas
Florescência de cumes para poisarem águias!
Quero ter pensamentos que me cheirem a lenha
Esfregar o espírito em plantas aromáticas
Uma alma com pétalas guerrilheiras selvagens
Abertas a uma lua de prata verdadeira
Uma alma que seja verde que tenha asas
E dance nua para os deuses da fogueira...
Jogai, jogo do arco laço azul infância coisas
Que o desencanto confisca e abandona na cave!
Como uma criança joga papagaio jogai
Este farrapo de ânsia poeira da cidade
onde ninguém tem pressa de ser ave;
E tu, anjo de pedra do meu grito! Anjo
Esculpindo em pranto seco! Anjo enxuto!
Tu que me afogas o olhar no infinito
e as mãos no lodo dum gesto irresoluto
Tece, ó aranha de luz no esconso da garganta!
Coração de andorinha estrangulada!
O luar o jardim a cigarra que canta
O leito de verdura para eu me dar à esperança,
Rosa que aspiro num esquivo vão de escada.
* Natália Correia – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização (edição em CD) – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Queixa das Almas Jovens Censuradas
Poema: Natália Correia (in "Dimensão Encontrada", Lisboa: Edição da autora, 1957; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 167-168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 121-122)
Música: José Mário Branco
Intérprete: José Mário Branco* (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)
Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma duma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade.
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.
Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens de assombro.
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.
Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino.
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino.
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte.
* José Mário Branco – voz e viola acústica de base
Willy Lockwood – contrabaixo
Gilbert Roussel – acordeão
Arranjos e direcção musical – José Mário Branco
Gravado no Strawberry Studio, Château d’Hérouville (perto de Paris), em Fevereiro de 1971
Técnico de som – Gilles Sallé
Masterização digital – José Fortes
A DEFESA DO POETA
Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Colecção Poesia, vol. 3, Lisboa: Quadrante, 1972 – p. 44-45; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443-444; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – p. 330-331)
Recitado pela autora* (in LP "Amália/Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos
(curtido coiro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas
apanhadas em delito de perdão
a raiz quadrada da flor
que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever.
Ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 443; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 330)
* Natália Correia – voz
Gravado em casa de Amália Rodrigues, à Rua de São Bento, Lisboa, a 19 de Dezembro de 1968
Gravação e mistura – Hugo Ribeiro
Uma Só Voz de Inumeráveis Bocas?
Poema: Natália Correia (de "Inéditos 1985/90", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 555)
Música: António Afonso
Arranjo: José Moz Carrapa
Intérprete: João Afonso* com António Afonso (in CD "Zanzibar", Universal, 2002)
De Eva a mulher astronauta
vivo todas as idades,
um fausto de lua lauta
no brilho das brevidades.
Canta-me um louco na pauta,
demónios e divindades
compartilham essa flauta
das minhas variedades.
Ó universo inventado
de noutros me perceber.
Tanto tempo utilizado
numa manhã por nascer!
Sujeitos a estranhas leis
com a sua loucura a sós
solitários como os reis
os poetas dizem: nós.
E pela mesma magia
que ainda ninguém entendeu,
no côncavo da poesia
um deus que falta diz: eu.
* António Afonso – voz
Rui Alves – percussão de dedos
António Pedro – percussões
João Frazão – baixo
João Afonso – vozes
José Moz Carrapa – guitarras, bicicleta
Pré-produção – José Moz Carrapa e António Afonso
Produção – José Moz Carrapa
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados
Gravado por Jorge Avillez, na Verdizela - Seixal (assistido por Nuno Rebocho) e em Sassoeiros - Cascais, de Junho a Agosto de 2001
Misturado por Jorge Avillez e José Moz Carrapa, em Portalegre
Pós-produção – estúdio MDL, Paço d'Arcos
Masterizado por António Pinheiro da Silva, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
E eu sem amor...
Poemas: Natália Correia ("Já luzem as galas" e excerto de "Mocinhas gráceis, fungíveis") [textos integrais >> abaixo]
Música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias* com Tânia Silva (in CD "13", Bons Ofícios - Associação Cultural, 2010)
Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Vêm as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...
Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
Voam as andorinhas
À volta da flor.
Folgam as meninas.
E eu sem amor...
Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
Vão-se as andorinhas,
Cai do tempo a flor.
Guardam-na as meninas.
E eu sem amor...
Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
Fogem as andorinhas
Do tempo sem flor.
Sonham as meninas.
E eu sem amor...
Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Passais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.
Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Voam as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...
[instrumental]
* [Créditos gerais do disco:]
Adriano St. Aubyn – piano, percussões, calções, coros
Afonso Dias – guitarras, calças de ganga, kazoo, coros e mais umas coisas
Ana Marques – coros
Tânia Silva – voz solista (em "E eu sem amor")
Tó Correia – contrabaixo e coros
Virgolino Zacarias "Ben" – saxofone soprano
Paula St. Aubyn – coros
Arranjos e direcção musical – Adriano St. Aubyn
Gravado em Faro, de Maio a Setembro de 2010
Captação e masterização – Adriano St. Aubyn
Misturas – Adriano St. Aubyn e Afonso Dias
Já luzem as galas
(Natália Correia, poema III de "Cantigas de Amigo", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 403-404; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 621-622)
Já luzem as galas
Do Maio florido.
Iria à bailada
Mas não tenho amigo.
Vêm as andorinhas
No tempo da flor.
Bailam as meninas.
E eu sem amor...
Por galas luzidas
Do florido Maio,
Louçã bailaria
Mas não tenho amado.
Voam as andorinhas
À volta da flor.
Folgam as meninas.
E eu sem amor...
Já murcham as galas
Do Maio florido.
Perdi a bailada
Por não ter amigo.
Vão-se as andorinhas,
Cai do tempo a flor.
Guardam-na as meninas.
E eu sem amor...
Galas já sumidas
Do florido Maio
Porque dás bailias
Se negais amado?
Fogem as andorinhas
Do tempo sem flor.
Sonham as meninas.
E eu sem amor...
Mocinhas gráceis, fungíveis
(Natália Correia, poema V de "Sete Motivos do Corpo", in "Armistício", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 248-250; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 519-521)
Mocinhas gráceis, fungíveis
Mimosas de carne aérea
Que pela erecção dos centauros
Trepais como doida hera!
Por ardentes urdiduras
De Afrodite que abonais
Passais como queimaduras
E tudo em fogo deixais.
Ofegar de onda retida
Na ocupação epidérmica
De serdes a exactidão
Florida da primavera,
Todas de luz invadidas,
Sois, porém, as irreais
Bonecas de sol sumidas
No fulgor com que alumbrais.
Lá do fundo dos desejos
Chegais macias e quentes
Com violas nos cabelos,
Nas ancas, quartos crescentes;
Nas pernas, esguios confeitos,
Na frescura, o vermelhão
De uma alvorada que rompe
Em seios de requeijão.
Enleais, mas se enleadas,
Ó volúveis, ó felinas!
Saltais fazendo tinir
Risadas de turmalinas;
E com as asas do segredo
Que vos faz misteriosas
— Pois sendo divinas, sois
Do breve povo das rosas —,
Adejais de beijo em beijo
Já que para gerar assombros
Vicejam as folhas verdes
Que vos farfalham nos ombros.
Ó doçaria que em línguas
Acres sois torrões de mel,
Quando idoneamente ninfas
Vos vestis da vossa pele!
Se a olhares venéreos furtar-vos
Em roupas não vale a pena,
Pois mesmo vestidas estais
Nuinhas de graça plena,
De esbelta nudez plantai
Róseos calcanhares nos dias
Fugazes, não vá Vulcano
Levar-vos para sombras frias;
Não sequem os anos corpinhos
De aragem que os deuses sopram,
Que os anos são os malignos
Sinos que pela morte dobram.
Mocinhas fúteis que sois
Da vida as espumas altas
Leves de não vos pesar
O peso de terdes almas;
Que essa força de encantar,
Ó belas! cria, não pensa.
Ser perdidamente corpo
É a vossa transcendência.
Poema Destinado a Haver Domingo
Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição da autora, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 205; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 153-154)
Música: Aníbal Raposo
Arranjo: Carlos Frazão
Intérprete: Helena Oliveira* (in CD "Helena Cant'Autores Açorianos", Helena Oliveira, 2007)
Versão original: Aníbal Raposo (in CD "Maré Cheia", MM Music, 1999)
Bastam-me as cinco pontas duma estrela
E a cor dum navio em movimento.
E como ave, ficar parada a vê-la.
E como flor, qualquer odor no vento.
Basta-me a lua ter aqui deixado
Um luminoso fio do cabelo
Para levar o céu todo enrolado
Na discreta ambição do meu novelo.
Só há espigas a crescer comigo
Numa seara para passear a pé
Esta distância achada pelo trigo
Que me dá só o pão daquilo que é.
Deixem ao dia a cama dum domingo
Para deitar um lírio que lhe sobre.
E a tarde cor-de-rosa num flamingo
Seja o tecto da casa que me cobre.
Baste o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o Amor por fim tenha recreio.
* Carlos Frazão – piano
Mike Ross – contrabaixo
Manuel Rocha – violinos
Joaquim Manuel Teles (Quiné) – bateria e percussões
Helena Oliveira – voz
Direcção musical – Carlos Frazão e Helena Oliveira
Concepção artística – Helena Oliveira
Concepção de percussão – Joaquim Manuel Teles (Quiné)
Concepção de violinos – Manuel Rocha
Concepção de contrabaixo – Mike Ross
Produção executiva – Jorge Lavouras e Helena Oliveira
Gravação – Raul Resendes
Misturas – Raul Resendes e Carlos Frazão
Edição de voz e masterização – António Pinheiro da Silva
O Encontro
Poema: Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 303; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 231-232)
Música: Amélia Muge
Arranjo: António José Martins
Intérprete: Amélia Muge* (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
Como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado
um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca
como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso
como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua
como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno
como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor.
* Amélia Muge – voz
António José Martins – piano, percussões
Catarina Anacleto – violoncelo
José Manuel David – acordeão
Produção – António José Martins
Produção executiva – Vachier & Associados
Gravado no Estúdio AJM, Sobreda, em Dezembro de 2000 e Fevereiro de 2002, e no Auditório Fernando Lopes Graça, Almada, em Agosto de 2001
Misturado por João Magalhães, António José Martins e António Pinheiro da Silva
Masterizado por António Pinheiro da Silva
O TESTAMENTO DOS NAMORADOS
Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 308; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 235-236)
Recitado pela autora* (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003)
Escolhamos as coisas mais inúteis
o verde água o rumor das frutas
e partamos como quem sai
ao domingo naturalmente.
Deixemos entretanto o sinal
de ter existido carnalmente:
da tua força um castiçal
da minha fragilidade um pente.
Esse hieróglifo essa lousa
deixemos para que uma criança
a encontre como quem ousa
um novo passo de dança.
* Natália Correia – voz
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Masterização (edição em CD) – Rui Dias, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Projecto de Bodas
Poema: Natália Correia (in "Passaporte", Lisboa: Edição da autora, 1958; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 207-208; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 155-156)
Música: Teresa Gentil
Intérprete: Teresa Gentil* (in CD "Natália Descalça", Descalças - Cooperativa Cultural, 2006)
Hoje apetece que uma rosa seja
O coração exterior do dia;
E a tua adolescência de cereja
No meu bico de Isolda Cotovia.
Hoje apetece a intuição dum cais
Para a lucidez de não chegar a tempo;
E ficarmos violetas nupciais
Com a lua a celebrar o casamento.
Apetece uma casa cor-de-rosa
Com um galo vermelho no telhado
E os degraus duma seda vagarosa
Que nunca chegue à varanda do noivado.
Hoje apetece que o cigarro saiba
A ter fumado uma cidade toda.
Ser o anel onde o teu dedo caiba
E faltarmos os dois à nossa boda.
Hoje apetece um interior de esponja
E como estátua a que moldar o vento.
Deitar as sortes e, se sair monja,
Navegar ao acaso o meu convento.
Hoje apetece o mundo pelo modo
Como vai despenhar-se um trapezista.
Abrir mais uma flor no nosso lodo:
Pedir-lhe um salto e retirar-lhe a pista.
Hoje apetece que a cor dum automóvel
Seja o Egipto de novo em movimento;
E que no espaço duma gota imóvel
Caiba a possível capital do vento.
Hoje apetece ter nascido loiro
Como apetece ter havido Atenas;
E tu nas curvas rápidas de um toiro.
E eu quase inatingível como as renas.
Hoje apetece que venhas no jornal
Como um anúncio. Sem fotografia.
E inventar-te uma lenda de cristal
Para reflectir a minha biografia.
* Teresa Gentil – guitarra e voz
Maria Simões – voz (recitação)
Produção – Descalças - Cooperativa Cultural (S. Vicente Ferreira, ilha de São Miguel, Açores)
Produção executiva – Sara Seabra
Gravação – Cláudia Rangel, Joaquim Azevedo e Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, de 20 a 28 de Outubro de 2006
Mistura – Cláudia Rangel e Teresa Gentil
A EXALTAÇÃO DA PELE
Poema de Natália Correia (de "Biografia", in "Poemas", Porto: Edição da autora, 1955; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 62; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 69)
Recitado por Rita Neves* (in CD "Poesia de Natália Correia", col. Selecta, Música XXI, 2007)
Música de fundo: Charlie Haden - Quartet West, "My Foolish Heart" (in LP/CD "Charlie Haden - Quartet West", Verve/PolyGram Records, 1987)
Hoje quero com a violência da dádiva interdita.
Sem lírios e sem lagos
e sem gesto vago
desprendido da mão que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias.
* Rita Neves – voz
Organização, selecção e apresentação – Afonso Dias
Captação de som, mistura e masterização – Adriano St. Aubyn
REBIS
Poema de Natália Correia (de "Rebis", in "O Vinho e a Lira", Lisboa: Fernando Ribeiro de Mello, 1966; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 301; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 230)
Recitado pela autora* (in LP "Improviso", Guilda da Música/Sassetti, 1973; CD "Natália Correia: Poemas Ditos (e até Cantados) pela Autora", CNM, 2011)
Música: António Victorino d'Almeida
Oh a mulher como é côncava
de teclas ter no abdómen
de sua porção de seda
ser o curso do rio homem
como é mina espadanar de água
na cama abobadada de homem
gargalhada de lustre se sentada
dique de nuvens estar de dólmen!
Oh o homem como é ângulo
aberto de procurar
o sítio onde nasce o oiro
na salmoura da mulher mar
como é cúpula de copular
nadador de braçadas de mirto
como é nado de a nado formar
o quadrado da mulher círculo!
Oh os dois como se fundem
na preia-mar dos lençóis
despidos como fogo e água
deus de dois ventres ferozes
e quatro olhos de fava!
* Natália Correia – voz
António Victorino d'Almeida – teclados, percussão
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Fado
Poema: Natália Correia (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)
Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra
Vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
[instrumental]
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
Meu amor, só de afagar-te...
[instrumental]
* Patrícia Rodrigues – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
José Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Jorge Fernando
Produção – Nuno Rodrigues
FADO
(Natália Correia, de "Inéditos 1947/55", in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias I", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 41-42; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 57-58)
Falam de nós na cidade
Porque dizem que te ofereço
Coisas de que não disponho,
Como se fosse maldade
Dar-te os olhos para berço
E os cabelos para sonho.
Dizem que quando eu me deito
Contigo uma lua negra
vem fazer o casamento.
Como se fosse defeito
Saber que a vida não chega
Para o nosso sentimento.
Lá porque o nosso passeio
É uma fuga das grades
Que em cada gesto partimos,
Dão um nome muito feio
Àquelas intimidades
Em que ficando, fugimos.
Dizem que este desatino
É a maldita lembrança
Do pecado original?
Eu só sei que isto é destino
E mesmo que seja herança
É legado natural.
Porque é virtude tocar-te
Tu és mais puro que um deus
Purificas o que afagas.
Meu amor, só de afagar-te
A minha mão chega aos céus
E sou mais forte que as pragas.
Sol Oculto
Poema: Natália Correia ("De amor nada mais resta que um Outubro", poema II de "O Beijo de Antikonie", in "O Dilúvio e a Pomba", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1979; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 168; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 467)
Música: Nuno Rodrigues
Intérprete: Patrícia Rodrigues* (in CD "Ternura", CNM, 2004)
6 comentários:
Não é todos os dias que recebemos estas preciosidades no mail.
Muito obrigada! :)
Celebrá-la, sempre!
Até que o País a mereça...
Grande post!
da luz& da sombra
Parabéns pela iniciativa. Estive recentemente em Portugal e fiquei surpreso ao observar o total silêncio do meio acadêmico sobre esta figura tutelar do século XX. Na minha opinião o "Auto da feiticeira Cotovia" e "Sonetos românticos" são duas jóias deixadas pela escritora. Bravíssimo pela recordação e homenagem a Natalia Correia.
Belo artigo sobre a Natália Correia. Queria só acrescentar esta outra referência: http://musicadaminhagaveta.wordpress.com/luanegra/
Ficha técnica:
Poema de Natália Correia ("Fado")
Música: Eduardo Pereira
Piano, guitarra e viola-baixo: Eduardo Pereira
"Cordas": soundfonts
imenso, obrigada, já representei Natália Correia, numa Academia Virtual e, todas as quartas feiras tento mostrar um pouco dela ao mundo, e, de cada vez que lhe "toco" apaixono-me mais.
excelente trabalho, muitos parabéns!
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