25 maio 2022

José Mário Branco: "Do Que um Homem É Capaz"



Se fosse vivo, José Mário Branco completaria hoje 80 anos de idade. E, mesmo estando retirado dos palcos, continuaria a ser um 'compagnon de route' na tão necessária contestação às políticas amigas do sistema económico rapace, o qual, além de destruir a Natureza (e aproveitamos para evocar o ilustre arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles neste dia do centenário do seu nascimento), usurpa a riqueza das nações concentrando-a em cada vez menos mãos à conta do empobrecimento e da degradação das condições de vida dos povos – contestação essa que deixou magistralmente expressa na belíssima canção "Do Que um Homem É Capaz", incluída no álbum "Resistir É Vencer", de 2004. Um espécime com a marca da sublimidade, mas que é virtualmente impossível de se ouvir hoje em dia no éter nacional, apesar de denunciar uma realidade candente e tremendamente actual. Aliás, a obra discográfica de José Mário Branco, que já era votada ao ostracismo, pelos fazedores de 'playlists', antes da sua inesperada morte em Novembro de 2019, nem por sombras tem sido objecto, nos dois anos e meio entretanto decorridos, da divulgação que merecia nas rádios portuguesas (privadas e pública), situação que ultraja a memória do distinto cantautor e que não pode deixar de suscitar o vivo repúdio de quem não é surdo e sabe reconhecer a qualidade e a perenidade do seu legado. Os ouvintes das Antenas 1 e 3 que ignoravam esta pérola chamada "Do Que um Homem É Capaz" e que aqui dela tomarem conhecimento, maravilhados, têm toda a legitimidade para formular a seguinte pergunta: «Vale mesmo a pena financiarmos canais de rádio que nos sonegam o mais qualificado e valioso património musical português e, em lugar dele, poluem os nossos tímpanos com quantidades industriais de lixo sonoro?».



Do Que um Homem É Capaz



Letra e música: José Mário Branco (para a peça "Gulliver", adaptada por Hélder Costa do romance "As Viagens de Gulliver", de Jonathan Swft, levada à cena pelo grupo de teatro "A Barraca" em 1997)
Intérprete: José Mário Branco* (in CD "Resistir É Vencer", José Mário Branco/EMI-VC, 2004, reed. Parlophone/Warner Music Portugal, 2017)




[instrumental]

Do que um homem é capaz,
As coisas que ele faz
P'ra chegar aonde quer:
É capaz de dar a vida
P'ra levar de vencida
Uma razão de viver.

A vida é como uma estrada
Que vai sendo traçada
Sem nunca arrepiar caminho;
E quem pensa estar parado
Vai no sentido errado
A caminhar sozinho.

Vejo gente cuja vida
Vai sendo consumida
Por miragens de poder.
Agarrados a alguns ossos
No meio dos destroços
Do que nunca vão fazer,

Vão poluindo o percurso
Co' as sobras do discurso
Que lhes serviu pr' abrir caminho;
À custa das nossas utopias
Usurpam regalias
P'ra consumir sozinhos.

Com políticas concretas
Impõem essas metas
Que nos entram casa dentro,
Como a Trilateral
Co' a treta liberal
E as virtudes do centro.

No lugar da consciência
A lei da concorrência
Pisando tudo p'lo caminho;
P'ra castrar a juventude
Mascaram de virtude
O querer vencer sozinho.

Ficam cínicos, brutais
Descendo cada vez mais
P'ra subir cada vez menos:
Quanto mais o mal se expande
Mais acham que ser grande
É lixar os mais pequenos.

Quem escolhe ser assim,
Quando chegar ao fim,
Vai ver que errou o seu caminho:
Quando a vida é hipotecada
No fim não sobra nada
E acaba-se sozinho.

Mesmo sendo os poderosos
Tão fracos e gulosos
Que precisam do poder,
Mesmo havendo tanta gente
P'ra quem é indif'rente
Passar a vida a morrer,

Há princípios e valores,
Há sonhos e há amores
Que sempre irão abrir caminho;
E quem viver abraçado
À vida que há ao lado
Não vai morrer sozinho;
E quem morrer abraçado
À vida que há ao lado
Não vai viver sozinho.


* José Mário Branco – voz
José Peixoto, Francisco Abreu – guitarras acústicas
Carlos Bica – contrabaixo
Lee il-Se – violoncelo
Grupo Coral "Os Escolhidos" (Amélia Muge, Fernando Pinheiro, Filipa Pais, Genoveva Faísca, Guilhermino Monteiro, Jorge Palma, José Manuel David, Luísa Rodrigues, Manuela de Brito, Paulo Santos Silva e Rui Vaz) – coros

Direcção, produção, arranjos e orquestrações – José Mário Branco
Assistência de produção artística – Manuela de Freitas
Assistência de produção musical – António José Martins
Produção executiva – Paulo Salgado / Vachier & Associados, Lda.
Direcção técnica – António Pinheiro da Silva
Assistência de direcção técnica e anotações – Maria João Castanheira
Gravado e masterizado no Estúdio 'O Circo a Vapor' (Lisboa), por António Pinheiro da Silva, Frederico Pereira e Maria João Castanheira, de Janeiro a Março de 2004
Gravação de cordas na Wiener Konzerthaus (Viena) por António Pinheiro da Silva, Maria João Castanheira, Georg Burdicek e Andreas Melcher, em Fevereiro de 2004
Edição e misturas nos Estúdios Pé-de-Meia (Oeiras), por António Pinheiro da Silva, Frederico Pereira, Maria João Castanheira e José Mário Branco, em Fevereiro e Março de 2004
URL: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_M%C3%A1rio_Branco
https://arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt/
https://www.facebook.com/FascismoNuncaMais/posts/725849500857765/
https://expresso.pt/cultura/2019-11-19-O-momento-antes-de-disparar-a-seta-a-entrevista-de-Jose-Mario-Branco
https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/jose-mario-branco-a-eterna-inquietacao
https://www.nit.pt/cultura/musica/morte-lenda-momentos-marcantes-vida-jose-mario-branco
https://www.esquerda.net/topics/dossier-303-jose-mario-branco-voz-da-inquietacao
https://www.publico.pt/jose-mario-branco
https://www.youtube.com/channel/UChQPBSV5W6kL-jw1Tp08g_w
https://www.youtube.com/user/DoTempoDosSonhos/videos?query=jose+mario+branco



Capa do CD "Resistir É Vencer", de José Mário Branco (EMI-VC, 2004)
Reprodução parcial do quadro "Resistência", 1946, de Júlio Pomar [imagem da obra integral e texto explicativo de Ana Anacleto >> aqui]

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Outros artigos com repertório interpretado por José Mário Branco ou da sua autoria:
Celebrando Natália Correia
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Gina Branco: "Cantiga do Leite" (José Mário Branco)
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