28 novembro 2007

Galeria da Música Portuguesa: Pedro Barroso



...destinado a ser professor, tudo começou a tornar-se diferente quando o menino, embora bom aluno, demorava demasiado tempo contemplando o mar. Minucioso e atento, ficava pensativo olhando os casos, as paisagens e as gentes e escrevia tudo isso na memória do sentir, que é a arca onde se guardam as coisas cá de dentro.
Muitos anos depois, nunca se fez gente como deve ser. Diz na cara o que não deve; habita refugiado no campo, fora dos locais recomendados; iconoclasta e truculento, vira-se com facilidade e ferocidade contra as mais palacianas injustiças; aos costumes diz o mínimo; intratável e teimoso; gordo, forte, generoso e intempestivo; gosta de sujar as mãos na terra e no barro; maneja a escrita perigosamente, como arma, como chama; e anda por aí, sem tino. Reformado prematuro, andarilho do sol e da amizade, percorre espaços infinitos e reconta. Reconta tudo, como se fosse a primeira vez.


             PEDRO BARROSO (in "Cantos Falados", 1996)


Pedro Barroso, de seu nome completo António Pedro da Silva Chora Barroso, nasceu em Lisboa, a 28 de Novembro de 1950. Filho de António Chora Barroso, professor do ensino primário e depois do ensino técnico, monografista e poeta, e de Maria Fernanda Mattos Silva, professora do ensino particular, mal sai da Maternidade Alfredo da Costa, é levado para Riachos (no sul do concelho de Torres Novas), terra natal de seu pai que ali era professor (a escola secundária local enverga hoje o seu nome). Pedro Barroso, ribatejano assumido, conta: «A minha mãe tinha muito medo que eu nascesse em Riachos, um aldeia com muito poucas condições. Já tinha perdido um filho e, como menina de Lisboa que era, insistiu com o meu pai e lá nasci na capital. Sou para todos os efeitos ribatejano. Aliás, o único título que faço questão de usar é o de "ribatejano ilustre", que me foi concedido pela Casa do Ribatejo» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Pública", 24.12.2005). E é em Riachos, junto ao rio Almonda, não muito longe da Golegã e do rio Tejo, que Pedro passa a primeira infância. Aos cinco anos de idade, muda-se novamente para Lisboa, onde o pai é colocado como professor (viria a ser Director da Escola Manuel da Maia, em Campo de Ourique, durante 16 anos). No entanto, a ligação do menino Pedro ao Ribatejo não é cortada: «Nessa altura havia uma coisa maravilhosa, importantíssima na formação da personalidade e da nossa própria memória, que eram as chamadas férias grandes. Que eram mesmo grandes: o meu pai tinha três meses de férias e depois havia o Natal e a Páscoa. [...] Eu que era o filho do senhor professor, um pouco mais estimado, tinha sapatos enquanto todos os outros à minha volta andavam descalços, isto há cinquenta anos. Brincávamos a esses jogos simples, que correspondiam a um contacto muito directo com a natureza, quase o "Émile, l'enfant sauvage", do Rousseau. Brincávamos com as cabras, trepávamos às árvores, apanhávamos figos, íamos para o campo apanhar melões, brincávamos no rio Almonda, que ainda era transparente nessa altura. É dessa vivência que eu nasço. Aprendi a guiar carroças porque me emprestavam as rédeas. Mas vim a descobrir anos mais tarde, quando fiz a atrelagem a sério, de desporto, que aquela mula já sabia seguramente de cor o caminho para casa. O homem até podia dormir a sesta e passar-me as rédeas para a mão que ela nunca iria parar a outro lado» (ibidem). Na capital, após concluir a instrução primária entra para o Liceu Passos Manuel que frequenta até ao 5.º ano (equivalente ao actual 9.º ano de escolaridade). Depois é matriculado no Liceu Camões, na alínea e), com a intenção de seguir Direito. No Liceu Camões é integrado numa turma de excelência onde tem professores de excelência como Mário Dionísio e Vergílio Ferreira. «Este último, que me ensinou a pensar e me marcou profundamente, dava aulas de Latim porque estava proibido de ensinar Literatura, onde, pensavam os senhores do regime, seria muito perigoso... Li todas as suas obras, a influência foi tal que até comecei a falar um bocadinho "axim", e continuo a pensar que o Prémio Nobel lhe foi sonegado. Mas isso são outros contos» (entrevista a Ribeiro Cardoso, in revista "Autores" da SPA, Outubro-Dezembro de 2004). Vem a concluir os estudos liceais no Liceu D. João de Castro, após o que passa alguns meses em França e Inglaterra, tendo ponderado em por lá ficar, para escapar à guerra colonial. Mas acaba por regressar, decorridos cinco ou seis meses: «Decidi regressar porque tenho um culto muito grande da pátria. Motivado pelo estudo da História e pela forma apaixonada como me foi dado. Tive professores exemplares, a começar pelo meu pai. Era um pedagogo em "full time" e, mesmo nas férias, estávamos sempre a aprender com ele. Ele olhava para um castelo e contava-nos a batalha que ali tinha ocorrido, como é que tinham resistido. E atrás desse castelo vinha a análise da torre que era cilíndrica... e como é que se determina a superfície de um cilindro? E o alcance das bestas para disparar as setas? Iam até cem metros. Quanto é cem metros? E também derramavam azeite quente sobre os invasores. Porquê? Porque ali havia oliveiras. [...] Era a chamada lição por centros de interesse: íamos visitar Marvão e acabávamos na Matemática, na História, na Geografia, tudo» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Pública", 24.12.2005). Mas Pedro Barroso não virá a estudar História nem outro curso das chamadas Humanidades, mas Educação Física, ingressando, em 1969, no Instituto Nacional de Educação Física (actual Faculdade de Motricidade Humana). «O meu pai queria que eu fosse para Direito mas a minha escolha foi muito condicionada pela guerra colonial. Como não tinha desistido da experiência de Inglaterra e França, achava que uma aptidão em Educação Física era mais fácil de aceitar lá fora. Claro que o meu pai achou lamentável, ficou uns meses sem me falar, disse até que eu estava a tirar um curso de palhaço» (ibidem). Curiosidade: o seu estágio de entrada teve como monitor um aluno do 2.º ano, de nome Jesualdo Ferreira, hoje um conhecido treinador de futebol. Virá a licenciar-se em Novembro de 1973. Entretanto, desde 1970, já vinha desempenhando, funções lectivas no ensino oficial, começando pela Escola Preparatória da Parede a que se seguiu a Escola Manuel da Maia (Lisboa). Posteriormente passará por outras escolas secundárias – Veiga Beirão (Lisboa), Maria Lamas (Torres Novas), S. João do Estoril (Estoril) e Maria Amália Vaz de Carvalho (Lisboa) e também pelo ensino particular: Externato D. Luísa Sigea (Estoril) e St. Julian's School (Carcavelos). No Liceu de S. João do Estoril é, durante alguns anos, colega de Carlos Queiroz, futuro treinador de futebol. Entre 1976 e 79, é professor no Ginásio Clube Português, onde introduz e lecciona a classe de Expressão Corporal. Em 1988 tira uma pós-graduação em Psicoterapia Comportamental, no Hospital Júlio de Matos, após o que é convidado pelo Dr. Luís Gamito para integrar a equipa de Aptidões Sociais por ele liderada, e onde permanecerá durante dois anos. Em seguida, é professor de uma turma experimental de surdos na Escola Secundária da Quinta de Marrocos, em Lisboa. Nesta área do ensino especial, Pedro Barroso foi um pioneiro em Portugal, a exemplo do que já acontecia na Alemanha onde se faziam sessões musicais em órgão para surdos (apesar de não ouvirem, os surdos sentem as vibrações que os instrumentos provocam nos soalhos de madeira e objectos ao redor). Em 1993, após 23 anos de actividade docente, Pedro Barroso abandona o ensino para se dedicar inteiramente à vida artística, tendo como ancoradouro a sua casa de Casal da Raposa, em Riachos. A par do trabalho de criação poético-musical e da agenda de concertos, passou também a dedicar-se à pintura, ao desenho e à escultura, enquanto "artista plástico amador", como ele próprio se define, e «que cultiva como quem levanta a cabeça da pauta e dos teclados e descobre um mundo fascinante que não se descreve, apenas se respira e nos transcende». Segundo Pedro Barroso, tal inclinação para as artes visuais muito se terá devido ao «convívio íntimo, especial e privilegiado com o Mestre Martins Correia, de quem fui amigo, discípulo e confidente durante muitos anos. Esse conviver com tal genialidade marcou-me para toda uma opção estética de vida». Assinando a obra plástica com o nome de Pedro Chora, expôs até hoje na Galeria Fonte Nova em Lisboa (1989); em duas Mostras Colectivas, em Riachos (1993 e 2000), na Galeria Municipal da Chamusca (1993), na Galeria Municipal de Abrantes (2004), no Museu do Trabalho de Riachos (2005) e no Museu do Vinho da Anadia (2007).
Mas voltemos ao seu início da sua carreira como artista de palco. Ainda no liceu, começa a compor algumas canções inserindo-se no movimento estudantil da época e a dar os primeiros passos no teatro. Pedro Barroso lembra: «Tinha aí uns 14-15 anos. Foi engraçadíssimo: um dia ouvi na rádio a Odette de Saint-Maurice a anunciar que aceitava jovens para fazer teatro radiofónico e não estive com meias medidas: apresentei-me nos estúdios de S. Marçal, ofereci-me, a senhora disse-me logo "sim senhor, espera aí que mal acabe a gravação deste senhor vais fazer um teste e depois logo se vê". Aquele senhor era nem mais nem menos o Rui de Carvalho. Espantosamente, passados quinze dias, a minha mãe espantada, chama-me: "Estão ali ao telefone da Emissora Nacional, querem que vás lá"». Foi e ficou até Odette de Saint-Maurice terminar a sua colaboração com a emissora. Ali cruzou-se com futuros actores tão conhecidos como Vítor de Sousa, Carlos Paulo ou João Mota.
A sua estreia pública no mundo da música acaba por acontecer na televisão, em Dezembro de 1969, no lendário programa "Zip Zip", apresentado por Raul Solnado, José Fialho Gouveia e Carlos Cruz. Com acompanhamento de Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa) e Fernando Alvim (viola), canta aí três canções: "Canção de Amiga", "Trova-dor" e "Pedido de Menino". A letra desta última teve de ser alterada à última hora, por causa da Censura. O cantor recorda: «Eu andava no INEF e já fazia canções que falavam de coisas várias, entre as quais contra a guerra colonial. Fui convidado a ir ao programa e nunca mais parei. Aliás nessa primeira aparição pública, que teve grande impacto, aconteceu até uma coisa muito interessante e curiosa... Depois do ensaio, aí uns dez minutos antes do programa começar, o Zé Fialho chamou-me e disse-me com ar zangado ainda que pouco convincente: "Oh pá, vocês são lixados, só inventam destas coisas, só escrevem contra a guerra colonial, não têm cuidado, e depois isto não passa, a censura corta e eu é que me lixo. Temos que ser mais inteligentes". Em três ou quatro minutos mudei uns versos – "na selva a lutar" para "na vida a lutar" e "a mina que o há-de vir queimar" para "a menina que o há-de vir a amar" – a mensagem, pensava eu, continuava lá, ainda que mitigada, mas a verdade é que transformei uma canção de protesto em canção de amor... O Mário Castrim, no dia seguinte, deu-me uma grande porrada e fez a previsão de que eu não iria aguentar muito tempo nestas lides. Enganou-se e isso deu-me muito gozo: fiquei, levei a música a sério e transformei a minha vida a partir daquele momento» (entrevista a Ribeiro Cardoso, in revista "Autores" da SPA, Outubro-Dezembro de 2004). No ano seguinte, Pedro Barroso grava o seu primeiro disco, um EP de título genérico "Trova-dor", onde inclui os três temas estreados no "Zip Zip" e um inédito, "Toada da Vida". A edição do disco coincide com o ingresso no Teatro Experimental de Cascais onde, até 1974, colabora como actor, músico e cantor em várias peças encenadas por Carlos Avilez, contracenando, entre outros, com Augusto Figueiredo, Santos Manuel, Zita Duarte, João Vasco, Mário Viegas e Eunice Muñoz. «O Avilez precisava de actores que cantassem e foi procurá-los à lista dos baladeiros. O contacto com o teatro foi muito importante para mim, e ainda hoje me ajuda a estar em palco» (ibidem). Entre as peças em que participou contam-se "Fuenteovejuna", de Lope de Vega, "Sotoba Komachi", de Yukio Mishima, e "Breve Sumário da História de Deus", de Gil Vicente. Nesta última colaboraram também José Jorge Letria, Lídia Rita e o cantor António Macedo, que decidem editar um EP colectivo com o mesmo título da peça, "Breve Sumário da História de Deus" (Sassetti, 1971). Pedro Barroso contribui para o disco com "Vilancete de Abel", participando também nos coros de outros temas, entre os quais "Hino dos Encarcerados". Numa altura em que as prisões estavam a abarrotar de presos políticos, este tema, da autoria de José Jorge Letria sobre poema de Gil Vicente, seria o principal motivo para a proibição do disco, que se vendia à socapa no próprio TEC. «O disco foi a mais rápida apreensão da PIDE. Deram ordens ao Governo Civil que era, e ainda é, ao lado da Rádio Renascença, onde estava na cabine o saudoso Rui Pedro e foi apreendido em 10 minutos...», lembra Pedro Barroso. Dirige também actividades e lecciona no Orfeão Académico de Lisboa, nos grupos de música e de teatro, onde tem como colega Jorge Matta, futuro maestro, e como instruendo Jorge Coelho, hoje político.
De 1974 a 1976, cumpre o serviço militar na Armada como oficial especialista com a patente de subtenente. Na Escola de Fuzileiros, desempenha as funções de Chefe de Serviços de Educação Física. O artista recorda: «Os melhores alunos das faculdades iam para a Reserva Naval. Fiquei eu, e mais dois, a dar instrução preparatória cá para os contingentes que iam para África. Jogámos o lugar aos dados e perdi: fiquei com o pior, a Escola de Fuzileiros que era longe (eu vivia na Parede), mas pelo menos não fui parar à guerra propriamente dita. Até porque eu entrei em Fevereiro de 1974 e pouco tempo depois dá-se o 25 de Abril» (entrevista a Nuno Pacheco, in "Pública", 24.12.2005). «Impressionaram-me muito os submarinos, pois sou claustrofóbico. Sagres que visitei durante dois dias, é um ex-libris de beleza inesquecível». E o Sacro Promontório, como Camões lhe chamou, será mais tarde evocado por Pedro Barroso em algumas das suas canções.
Edita os singles 1.º de Maio/Medicina Social (Valentim de Carvalho, 1975) e Pastilhas Reacção/Canção Urgente (Valentim de Carvalho, 1975), de vincada intervenção social e política.
Viviam-se então os tempos do PREC, e Pedro Barroso participa nas campanhas de dinamização cultural, organizadas pelo MFA (Movimento das Forças Armadas). Integra também a FAPIR (Frente de Artistas Populares e Intelectuais Revolucionários), com sede no Teatro da Comuna e, desenvolve intensa actividade na Era Nova, uma cooperativa de espectáculos, onde também estavam José Afonso, Sérgio Godinho, Fausto, José Mário Branco, entre outros. Trinta anos depois, Pedro Barroso recorda essa fase de intensa actividade cívica e artística: «Difusa no tempo ainda conservo a memória dessa fúria. Era um tempo bonito de viver e acreditar. Convidavam-me e eu partia. Cheirava-se o campo nas canções. Cooperativas e associações. Gente generosa e calejada, tentando ordenar as vidas. Acreditava-se que a amizade, a solidariedade e generosidade seriam eternas. Lembro vagamente a semente indelével de uma vida estampada nos palcos improvisados. Talento – o que houvesse – seria desbaratado perdidamente por um país sedento de cultura. Um país insólito e esquecido, ainda hoje tão por descobrir. Actuei em sítios onde nunca se vira um microfone. Noutros, graças a geradores, onde não havia luz sequer. É uma história imensa que fica por fazer. Um dia se houver justiça e tempo, se poderá e deverá investigar melhor a forma desarrumada e breve, intensa e imperiosa que mascarava a raiva de lutarmos com armas desiguais». E acrescenta: «Tínhamos talvez um factor positivo – a Rádio e a TV passavam os cantores portugueses. Vá lá... valha-nos isso. Foi um tempo de uma infância musical infinda. Bonita e sã. Provavelmente, hoje sabe-nos a pouco. Mas na época era tanto – era tudo o que pudemos e soubemos construir, face às condições e ao tempo sobressaltado que nos davam para fazer música e poesia. [...] Porque aqueles não foram tempos normais, vividos na acalmia de uma vivência nacional tranquila, em que pudéssemos fazer composição académica. Aprendemos muito essencialmente uns com os outros, quando saíamos, em bando por aí fora. A rua e o mundo chamavam-nos dia sim, dia não. Partíamos muitas vezes em troca de nada. Raramente tivemos apoios institucionais, eram tempos em tudo era instintivo e puro. Genuíno. Convidavam-me para ajudar a ambulância nova dos Bombeiros; para ajudar aquela miúda que tinha leucemia e não havia dinheiro. Tantas coisas assim. E eu fui, amigos. Fui sempre. E cantei e toquei. E fiz sempre o que achei justo, correcto e bom. E voltava para dar aulas, trôpego com sono, na segunda-feira».
Testemunho desse activo empenhamento cívico e político é o LP "Lutas Velhas Canto Novo" (Sassetti, 1976), que apesar disso não se reduz a um disco de simplistas canções panfletárias. Mário Correia, fala assim desse primeiro álbum de Pedro Barroso: «"Lutas Velhas Canto Novo" introduz-nos um autor diferente do que nos era dado ouvir: musicalmente mais complexo, menos directo e circunstancial nas palavras, pesquisando grandes espaços sonoros, por vezes quase epopeicos/sinfónicos, a inserção de um canto que mais tarde, se viria a revelar profundamente ligado à terra» (in "Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida", Centelha/Mundo da Canção, 1984).
O disco é composto por 10 temas, assim alinhados: "Lutas Velhas Canto Novo", "Autobiocantiga", "Canção da Ti, Angelina", "25 de Novembro", "O capital tem mil caras", "As pombinhas da Cat'rina", "Sai um voto puladinho", "Os caciques e o povo trabalhador", "Hino dos explorados" e "Canção Longe". Com poemas, composições e direcção musical de Pedro Barroso, o elenco de instrumentistas é formado pelo próprio Pedro Barroso (viola e percussão), José Luís Iglésias (violas), Guilherme Batum (percussão), Pedro Osório (acordeão e piano) e Carlos Alberto Moniz (viola).
Em 1978, sai o LP "Água Mole em Pedra Dura" (Sassetti), gravado no ano anterior por José Manuel Fortes nos estúdios da Rádio Triunfo. Todos os poemas são assinados por Pedro Barroso, à excepção de dois: "Nasce Afrodite Amor, Nasce o Teu Corpo" (José Saramago) e "Homem Dum Só Parecer" (Sá de Miranda). Com música de Pedro Barroso, e orquestrações partilhadas com Sílvio Pleno, a execução instrumental é do próprio Pedro Barroso (violas), José da Ponte (viola baixo), António Chaínho (guitarra portuguesa), Raul Mendes (harmónica), Rui Cardoso (flautas), Eduardo Falé (bateria), Pedro Caldeira Cabral (cistres, alaúdes, raquetes, orlo, guitarrilha) e o naipe de cordas da Orquestra Gulbenkian dirigido por Sílvio Pleno. Apesar do circunstancialismo de alguns temas, o disco contém outros perfeitamente intemporais e com excelentes arranjos e execuções instrumentais, de tal modo que ainda hoje se ouvem com muito agrado. É o caso de "E Assim Não Há Poema Não", "Nasce Afrodite Amor, Nasce o Teu Corpo", "Cantar É", "Homem Dum Só Parecer" (num belo arranjo de sabor medievo-renascentista, de Pedro Caldeira Cabral) e "Josezito". Em nota apensa à edição em CD, de título "Cartas a Portugal" (Strauss, 2000), Pedro Barroso escreve: «Relevo aqui o trabalho conjunto com o Pedro Caldeira Cabral, o Maestro Sílvio Pleno, a actualidade das palavras de Sá de Miranda e o companheirismo de José Saramago. Ninguém diria então que viria a tornar-me neste disco co-autor de um Prémio Nobel, o que hoje me honra sobremaneira. Trata-se, com efeito de uma parceria que prova – mais de vinte anos antes dessa distinção pela Academia Nobel – que eu já tinha descoberto que ‘o homem' sabia escrever... Guardo dessa tarde de trabalho de que saiu o tema "Afrodite", primeiro a surpresa dele pela escolha, depois a total disponibilidade, colaboração e abertura do José Saramago para todas as pequenas coisas a alterar».
No tocante a discos, grava em 1980 o single "Em Ferrel/Canção ao Rio Almonda". Ambos os temas versam questões ambientais: o primeiro em protesto contra a central nuclear que pretendiam construir em Ferrel, no concelho de Peniche, e o segundo denunciando o tradicional problema de poluição do rio Almonda causado pela indústria de curtumes. No ano seguinte, Pedro Barroso participa com a "Canção ao Rio Almonda" no Festival Menschen und Meer, em Rohrstock (RDA), e arrebata o prestigiado Troféu Karolinka, para a melhor interpretação.
"Quem Canta Seus Males Espanta", o seu terceiro álbum a solo, com chancela da Sassetti, sai em 1980 e assinala um amadurecimento significativo na criação do autor/cantor. Diz Mário Correia: «Nesses cantos da terra, amor, trabalho e homenagem são variadas as coordenadas de reflexão temática de Pedro Barroso. Com efeito, essa multiplicidade de propostas (convergentes num dado projecto global de crítica social), ressalta mesmo da audição menos atenta e constitui um dos principais factores atractivos do álbum – a defesa dos valores culturais populares do passado (presente) como o calão de Mira d'Aire e o minderico ("Ai o Tempo"); a música da rua, produzida por homens dos bairros pobres para garantir a sobrevivência ("O Acordeão"); o pensamento de base ecológica ("Salvar Terra"); glosa do que rodeou, em termos de dor humana a exploração, a guerra colonial ("Maria Mal-Amada"); o canto em jeito de "canção cigana à ralé, à fibra e à garra dos bons marginais do meu país" ("Quem Canta Seus Males Espanta"); incidência sobre o amor fraternal humanizado ("Canção Semente"); a reflexão sobre a Reforma Agrária como uma realidade de luta, terra, amor trabalho e homenagem ("Pão de Pedras"); [o hino ao amor como forma de redenção ("Palavras a Uma Coisa Amor")]; a homenagem a Jacques Brel ("La Foire"). De salientar a recusa em todos os textos, do fácil e do imediato, da frase carregada; Pedro Barroso equaciona situações, observa factos, regista impressões e fixa clamores de luta, desespero, raiva e esperança. Menos imediatista, mais profundo. Do ponto de vista musical, destaca-se uma maior maturidade na definição das melodias e na construção dos ritmos, paralelamente a um inspirado partir das raízes da música popular portuguesa» (in "Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida", Centelha/Mundo da Canção, 1984).
Os poemas e as composições são assinados na totalidade por Pedro Barroso, sendo a direcção musical e os arranjos partilhados entre o autor e Eduardo Paes Mamede. Além de Pedro Barroso (violas, caixa, vozes, percussão e bombo), colaboraram neste disco uma plêiade de reputados músicos: Carlos Augusto (violas), Luísa Vasconcelos (violoncelo), António Oliveira e Silva, creditado como António Oliveira (viola de arco), António Serafim (oboé), Carlos Franco e Eduardo Paes Mamede, creditado como Ed (flautas transversais), Leonardo Barros (contrabaixo), António Ferro (baixo), Manuel Mergulhão (bateria), A. Nelson e R. Gomes (trompetes), C. Coutinho e H. Campos (trombones), Luís Represas, creditado como Luís Paulo (bandolim e cavaquinho), Pedro Osório (piano e acordeão), e ainda Cândida, Bi e Cris do Públia Hortênsia (vocais).
O LP seguinte, "Cantos à Terra-Madre" (Rádio Triunfo, 1982), é, como o título deixa antever, um álbum profundamente telúrico e, por isso mesmo, o que apresenta uma componente etnográfica mais vincada. O que aliás está em perfeita consonância com a actividade que Pedro Barroso desenvolvia ao tempo: pesquisa na área dos estudos etnomusicais, autoria e realização de programas de rádio ("Musicantes", na RDP-2, de 1979 a 81) e de televisão ("Musicarte", na RTP-1, em 1982 e "Tempo de Ensaio", na RTP-1, em 1988), com o nobre intuito de chamar a atenção para a importância do património musical de matriz tradicional, não raramente vítima de desprezo das cátedras e encarado como coisa culturalmente inferior.
A música tradicional e a música erudita sempre se influenciaram mutuamente e Pedro Barroso, partindo das suas pesquisas etnomusicológicas, mas nunca abdicando da sua criatividade pessoal, dá neste disco um contributo muito original na exploração dessas pontes. O elenco de músicos e instrumentos é exemplificativo dessa opção estética: Pedro Barroso (concertina, harmónica bocal, violas, cavaquinhos, adufes e bombo), António Chaínho (guitarra portuguesa), António Veríssimo (sapateado e ferrinhos), Carlos Augusto (violas de 6 e 12 cordas), Carlos Alberto Moniz (violas), Luís Sá Pessoa (violoncelos), Miguel Sá Pessoa (piano), Pedro Osório (piano, acordeão, caixa), Samuel e Henrique Marques (trancanholas "gémeas" - por serem gémeos...) e Zé Calhau (flautas e bombo).
Tal como já fizera com José Saramago, Pedro Barroso volta a musicar um dos nossos poetas maiores – Cesário Verde, no tema "O Ramalhete Rubro das Papoulas", que conta com um belo arranjo de flauta transversal, violoncelo e guitarra portuguesa. "Cantar Brejeiro", um tema de cariz mais imediatista, em ritmo de chula minhota, que abre o alinhamento, tornar-se-á um dos maiores êxitos do cantor. Do disco merecem ainda destaque: "Concerto para Esperança e Orquestra", em que o maestro Pedro Barroso dirige uma naipe de instrumentos solistas e gente; "Cantarei", uma espécie de testemunho de vida e de arte: «fiz-me andarilho a cantar / cantei noite cantei dia / canções do meu inventar»; "Pela Vida, Companheiros" e "Tanta Gente", dois temas de temática ecologista, numa altura em que o futuro do planeta estava longe de estar na ordem do dia, pelo menos em Portugal; e "Avessada", uma belíssima composição para guitarra clássica, violoncelo e flauta, baseada numa antiga melodia de embalar que a trisavó lhe entoava na idade do berço.
Mário Correia escreveu assim sobre o disco: «Síntese do múltiplo na procura do uno na diversidade é o álbum "Cantos à Terra-Madre" através do qual Pedro Barroso agarra na música tradicional para elaborar uma proposta musical digna de toda a atenção. Esta obra corresponde às palavras do seu autor, "reformular-se, revoltar-se, abrir-se, renovar-se e envelhecer. Amadurecer em anos de perseverança difícil e de saudade". Crónicas da terra – os balhos da eira dos avós, o fandango ribatejano, os cantares de acusação e aviso, o dialecto minderico e a amostra de que a "música clássica e a agrária não estão assim tão distantes uma da outra como isso" – que Pedro Barroso interpreta, num diálogo "com o amor que da terra vem e à terra regressa connosco nos olhos e ouvidos, em corpo e fantasia"» (in "Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida", Centelha/Mundo da Canção, 1984).
Em 1983, surge "Do Lado de Cá de Mim" (Rádio Triunfo), um trabalho na linha de "Cantos à Terra-Madre" mas, e fazendo jus ao título, explorando também um tom mais intimista, prenúncio da postura estética que o cantor assumirá de forma exímia em álbuns posteriores. Pedro Barroso explicita: «Se, por um lado, assumo o som português – a chula, o corridinho, os malhões, etc. – também procuro fazer a música que me agrada; tenho a estrada suficiente para emitir opinião do ponto de vista étno-social; o cantor de eira aparece, nos recitais, cruzado com devaneios intimistas que falam de mim». Exemplos desse lado mais intimista, que mais que ser egotista interpela o ouvinte, são: "Balada do Desespero" que termina inesperadamente com Fernando Correia a relatar uma jogada de futebol que termina em golo, em jeito de sublime ironia, como se numa bola a entrar numa baliza residisse a suprema realização espiritual/cultural de tantas e tantas existências banais e sem rasgo; e "Canção para Regressar", uma balada de terna esperança "para ouvir à lareira num dia frio". Destaque ainda para "Anarcristos I e II", duas reflexões sociológicas sobre o Portugal profundo, numa altura em que a visita do papa João Paulo II servia para disfarçar e mitigar a crua realidade sócio-económica de um país onde os sonhos trazidos com o 25 de Abril de 1974 ainda estavam por realizar: a primeira tendo como pano de fundo o interior ignorado e esquecido, e a heroicidade da gente anónima que aí labuta e não desiste, personificada no pastor José Jerónimo Rodrigues, da herdade de Camões, no concelho de Avis (Alto Alentejo); e a segunda sobre o obscurantismo/charlatanismo religioso exemplificado na Santinha da Ladeira (curiosamente, nascida em casa dos avós paternos do artista). Deste álbum, dois temas alcançariam grande sucesso: "Ai Consta", em ritmo de chula, e "Viva Quem Canta", este um eloquente testemunho do cantor-poeta da portugalidade: «Viva quem canta / Que quem canta é quem diz / Quem diz o que vai no peito / No peito vai-me um país / [...] Para quem canta por cantar / Pouco mais se pediria / Mas quem canta p'ra sentir / P'ra explicar-se e p'ra ser / Pensem só quanto haveria ainda por dizer».
Os poemas, as composições e a direcção musical são assinados por Pedro Barroso, e a execução instrumental é do próprio Pedro Barroso (viola de 6 e de 12 cordas, percussão, concertina, bombo, cavaquinho, pandeireta, caixa, adufes), Pedro Fragoso da Silva (piano, viola braguesa), Luís Sá Pessoa (violoncelo), Zé Calhau (flautas), António Chaínho (guitarra portuguesa) e Carlos Augusto (violas). Referência ainda para a participação vocal do Cramol-Coro da Biblioteca Operária Oeirense.
Nas palavras de Mário Correia, o disco «é um dos trabalhos mais expressivamente intimistas de Pedro Barroso, através do qual se confronta com uma realidade que ora o desanima ora o empolga, facto que se reflecte na evolução rítmica dos temas apresentados». E Mário Correia acrescenta: «Pedro Barroso é aliás um dos casos mais inesperadamente interessantes e produtivos da nossa música popular: sempre à procura de uma especificidade caracterizadora em constante construção, revela-se um talento inegável de fazedor de melodias e um animador de ritmos diversos, reflectindo na música uma sede de globalidade criativa. Atento à realidade que se esforça por compreender e "alterar", Pedro Barroso é uma analista crítico e interventivo, por vezes directo e contundente, um dos mais libertos e fogosos criadores da "geração dos cantores de quilometragem generosa que continuam a recusar a efémera moeda de troca de ser vedeta pela traição do esquecimento das coisas fundamentais"» (in "Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida", Centelha/Mundo da Canção, 1984).
Segundo Viriato Teles, "Do Lado de Cá de Mim" é um «disco onde se fala de gente igual à gente, realidades incómodas, interrogações e angústias cada vez mais dolorosas. No fim de contas, são estas as coisas de que vale a pena falar, ainda que doa».
Em 1984, grava o LP "Cantos da Borda d'Água", sob a supervisão do técnico de som Rui Remígio, novamente percorrendo os trilhos de "Cantos à Terra-Madre", agora circunscrito à região ribatejana, mas com um evidente salto qualitativo nas componentes poética e musical. Pedro Barroso assina a totalidade das letras e composições e ainda a produção, direcção musical e orquestração. Com arranjos de Pedro Barroso e de todos os músicos, a execução instrumental esteve a cargo de Pedro Barroso (violas e percussão), Pedro Fragoso da Silva (braguesas, piano, viola e guitarra portuguesa), Ana Mafalda (contrabaixo), Cristina Coelho (violoncelo), Abel Moura (acordeão), Ferreira da Costa (oboé) e Zé Calhau (flauta transversal e percussões).
O alinhamento é composto por nove faixas: "Aurora – Tema / Poema"; "Menina dos Olhos d'Água"; "Eu Hei-de, Meu Bem, Eu Hei-de"; "A Dança da Feira"; "Romance de Almeirim"; "A Ida ao Mercado"; "Fado da Charneca"; "Setembro"; e "Requiem". Nota especial para a bela prestação vocal de Vera Quintanilha (então um dos elementos do grupo Rosa dos Ventos, de José Medeiros) no tema "Romance de Almeirim" e para o rico contributo do Choral Phydellius de Torres Novas em "Aurora" e "Requiem", duas peças instrumentais/corais de rara beleza em que Pedro Barroso nos mostra a sua faceta mais sofisticada e erudita de grande autor/compositor. Um desses temas, "Aurora", termina com a recitação de um belo poema do próprio cantor pelo actor Mário Viegas, curiosamente um natural das terras de Borda d'Água, mais precisamente de Santarém, e que Pedro Barroso conhecera no Teatro Experimental de Cascais. A canção "Menina dos Olhos d'Água", que se tornaria o seu ex-libris, seria distinguida pela revista "Eles e Elas" (dirigida por Luz Bragança), em 1986, com o prémio de melhor canção do ano.
"Cantos da Borda d'Água" é, sem dúvida alguma, um belo disco de música popular portuguesa, resultado do natural aprimoramento artístico do autor e compositor. Pedro Barroso fala assim a propósito do álbum: «Não desejo ser com este trabalho um regionalista. Falta-me a vocação, o hábito e a paciência. A minha pátria é o mundo, até onde eu consiga chegar em corpo ou espírito, tanto faz. E contudo. Compete-me denunciar à minha volta – já aqui trabalho e descanso e vivo e sinto e me emociono – que o Ribatejo não é a tradicional zona híbrida de folclore aparentemente influenciado pelo Norte, Sul e Litoral e onde pontificariam, ao que parece, um exclusivo de homens valentes e mulheres omissas. Eles sempre nos cornos do touro, elas... talvez amarradas ao fumeiro, quem sabe? Recuso, pois, esse Ribatejo pimpão do olé oco e da marialvice balofa, altaneira por não se sabe que condão, autocracia do orgulho pelo orgulho, sem rede nem razão. Há com efeito, julgo prová-lo neste trabalho, um Ribatejo doce que nos evoca cantares da eira, enlevos amorosos de antigamente, romances perdidos nos campos da Golegã, as saudosas águas límpidas do Almonda, as cheias da tragédia na Ribeira e no Reguengo, o aluvião da riqueza nos mouchões da lezíria, as paisagens de encantar desde a História do Almourol aos campos de Coruche, água sempre, mesmo já onde não se esperaria, garridice e doçura que encantam e comovem, e os fandangos da saudade, as danças da feira, os fados da charneca, os ‘chotice', muito provavelmente ‘sôttise', dançados pela soldadesca de Junot com as mais variadas moçoilas de 1808, – e os dialectos perdidos nas Serranias de Aire ou seja, um mundo de coisas para lá do colete e pampilho do prospecto turístico e simplista».
Em meados de 1986, é lançado "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", gravado em Janeiro e Fevereiro do mesmo ano, nos Estúdios Namouche (Lisboa), por João Vaz de Carvalho e Jorge Barata. Como se pode inferir do título, trata-se de um trabalho tematicamente orientado por duas grandes directrizes – a portugalidade e o feminino. O alinhamento é constituído por 9 temas: "Água", "Cidade", "Companheira", "Lua", "Terra", "Noite", "Bonita", "Pátria" e "Esperança" (este último rematado com um excerto em latim da versão original de "Carmina Burana" à poema ao fundo). Curiosa a particularidade de todos eles serem designados por uma única palavra e feminina. «Este trabalho está extremamente ligado ao feminino ou, se se preferir, a elementos femininos como sejam a terra, a água, a companheira... de resto muito do que é fundamental para a nossa vida é feminino» (in "O Diário", 13.06.1986). O disco representa também a afirmação de uma nova fase no ciclo criativo de Pedro Barroso. Com este registo, o autor/compositor/intérprete abandona a postura mais popular e imediatista que caracterizara alguma da sua produção anterior e envereda por uma via de maior profundidade e exigência poético-musical, que jamais abandonará e que o torna uma das raras vozes da nossa terra que falam de coisas importantes, que nos interpelam e que nos fazem pensar. Num meio musical dominado por oportunistas e charlatães que encaram a música como uma forma de ganhar dinheiro como outra qualquer, deve assinalar-se e enaltecer-se a honestidade artística e intelectual de Pedro Barroso e a sua assumpção de consciência moral e crítica num país entorpecido e tolhido, envergonhado de si mesmo e incapaz de aproveitar o melhor legado do passado para enfrentar o futuro. "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher" não é apenas um dos melhores trabalhos discográficos de Pedro Barroso – é uma obra-prima da música portuguesa. E no ano de 1987, Joaquim Letria, então apresentador do programa "Directíssimo" (RTP) soube reconhecer isso mesmo atribuindo-lhe justamente o Prémio Directíssimo para melhor disco do ano. Com poemas, composições, arranjos, direcção musical e produção executiva de Pedro Barroso, participam na execução instrumental o próprio Pedro Barroso (viola beiroa, tímpanos, vibrafone, viola e reco), Abel Moura (acordeão), António Chaínho (guitarra portuguesa), Catarina Latino (flautas barrocas), Guilherme Inês (caixa de ritmos e pandeireta), João Nuno Represas (percussões), José Carlos Gonçalves (violoncelos), Pedro Fragoso da Silva (bandolins, piano, viola campaniça e órgão), Rui Luís Pereira "Dudas" (viola e viola de 12 cordas), Sérgio Mestre (flauta transversal) e Zé da Ponte (baixo eléctrico). Os coros têm a assinatura do Coro de Santo Amaro de Oeiras, sob a direcção do próprio Pedro Barroso.
Pedro Barroso apresenta assim a sua proposta discográfica: «...Envoltas nos nevoeiros do conhecimento me surgem, ora claras ora difusas, roupagens de uma Pátria que proclamo e reclamo e não responde. É um eco perdido de Adamastores de glória que soçobra a cada trato menos nobre, a cada trejeito e arremedo estrangeirado. São o colete de Deuladeu, o gibão do Épico, a armadura do Lidador que me contemplam. E eu na praia espero, com uma raiva grande de Futuro, provir da Portugalidade que já tive. Sem malícias nacionais mas com fremência me transtorna e apoquenta esse mar de aventuras de longe e maresia. Ser português hoje terá que ser reviver memórias, acreditar capacidades e bombardear o Futuro. E amar demais, como pertence. Por isso me estendo nas salsas ondas do corpo, Pátria-Mulher. Vivi mil aventuras coloridas no escorregar de veludo ao ver-te, ao amar-te e possuir-te. Tive-te muito, tanto, tantas vezes. Olhei-te como quem olha a tempestade e a cólera, com a suprema sagacidade que o tempo e a História nos conferem. Desdobrei-me em mil amores, furtivas e abertas histórias onde declinei com excesso todos os verbos de gostar tanto, de rasgar tanto, de sofrer tanto pelas dilatadas razões da carne e da grei. Hoje fico sossegado no rimanço deste pouso e, despidas ao espanto e à memória, vos ofereço estas Roupas de Pátria, Roupas de Mulher».
"Pedro Barroso" é o título genérico do LP que, com chancela da Transmédia, é editado em 1988. O autor continua a centrar-se nas temáticas que lhe são caras: o amor e a mulher ("Anúncio Confidencial"; "Música de Mar", com música do basco Imanol; "Tem Dias"), o sonho como lema de vida ("D. Sebastião"; "Estrela d'Alva", com música de Pedro Fragoso), um fresco do quotidiano onde se vende "o lixo do luxo" ("Feira da Ladra"), a amizade e a fraternidade ("Balada a Deuladeu"), a portugalidade ("Diz-me o que é ser português", com letra e música de Luís Maduro). Completam o alinhamento dois temas instrumentais: "Abertura" e "Nocturno", no início e no fecho, respectivamente.
Os poemas e as composições são da autoria de Pedro Barroso, salvo onde indicado em contrário. Com direcção musical e produção também de Pedro Barroso, no elenco de instrumentistas contam-se Pedro Barroso (violas, caixa, bombo, metalofone), José Carlos Gonçalves (violoncelos), António Chaínho (guitarra portuguesa), Pedro Fragoso (piano, viola campaniça, guitarra portuguesa), Ana Paula Tavares (gaita-de-foles), Carlos Carlos (acordeão), Zé Calhau (flauta transversal) e Gonçalo Lacerda (viola).
Pedro Barroso apresenta assim o disco, em tom de fina ironia: «Deuladeu Martins – mulher de outros séculos e outras guerras – amassou e ofereceu, com o coração na garganta, o último pão aos sitiantes [da vila de Monção], os quais, perturbados com esse alarde de súbita fartura de quem era suposto estar mais faminto do que eles, levantaram cerco. Eu, porém, não possuo bens tão concretos como o pão para distribuir. Apenas aqui vos deixo, como sempre, estes bordados de alma, cantos da terra e do mar, esperas sebastiânicas, portugalidades desregradas, cantos da eira, namoros brejeiros, visões da maresia. Pouco alimento, portanto. Donde o cerco continuará. Aliás, falei ontem mesmo com o futuro e diz que o rio Tejo ainda não chegou.»
Infelizmente, o álbum ainda não foi transcrito para CD, pelo que faço questão de lembrar a quem possui a matriz para a importância cultural de ser reeditado.
Em 1990, surge o soberbo "Longe d'Aqui", em edição da Discossete. O disco é orientado por um grande vector – a portugalidade –, pondo em confronto um passado em que fomos grandes e um presente mesquinho e pequeno, afinal uma reflexão crítica sobre o que podíamos ser mas não somos, muito por culpa da prevalência de poderes e interesses que fazem do país uma terra farta para alguns e madrasta para muitos. Pedro Barroso explica-se: «Este trabalho tem um tema geral, o ir e o voltar, a eterna aventura de ser português. Portugalidade que se percorre tanto no dia-a-dia atávico e sem horizontes, como na distância que se sofre num viver de emigrante, às vezes dentro de si mesmo. Depois de tantas histórias que nos deram sempre como heróis e santos, procura também admitir-se – eventualmente tolerar-se... – os erros de uma saga que nem sempre foi pura e desinteressada. Que foi cruel, impiedosa, altaneira, mas, apesar de megalómana, singelamente redutora, numa entronização sebastiânica da espera e das pequenas soluções de compromisso. Estar aqui ou "Longe daqui" é o dilema proposto. Assumindo a História, o Império, a tirania, mas também a prodigalidade, o doce desregramento e a emoção. Acompanhada, é claro, pela eterna sedução do improviso. Gostando muito de ser português, mas muito crítico face à demora de uma saga que houvera de ser colectiva e não apenas de alguns eleitos. E a aventura de viver hoje, bem mais difícil que o cruzar dos mares. [...] Isto é, um ambiente onde o gesto é tudo e a gesta muito pouco. Por tudo isso, se me perguntarem hoje, onde estou, para onde vou e de que me alimento, a resposta surge – longe daqui. E tenho de ir buscar diariamente à nossa História a alma vertical para poder continuar. E ao sonho impossível da doce e laboriosa utopia de São Nunca. Se me perguntarem também onde moro, a resposta continua simples. Moro em demanda permanente do Santo Graal entre os castelos de Deuladeu e as Áfricas de Prestes João, entre o absoluto dos corpos e o dissoluto das almas. Entre os gelos da Antártida e os calores do deserto. No país do espelho, onde habita a Grei. Lá, no sítio onde o último tabu se estabeleceu e decidiu construir família. É aí que moro. Por isso, amar mais e diferente. Viver mais e diferente. Exigir mais e diferente. E lembrar os heróis esquecidos que diariamente arrostam o peso milenar da Cultura Portuguesa, ao sabor de um viver sem subsídios que lhes sai do suor do rosto, das mãos, do sono e do pensamento. E, mau grado tudo isto, o gosto ainda de preservar cá dentro uma diligente e eterna saudade de futuro».
Com direcção musical e produção de Pedro Barroso, no elenco de instrumentistas contam-se o próprio Pedro Barroso (viola beiroa, viola, adufe, caixa, percussões, piano e coros), Pedro Fragoso da Silva (teclados/sintetizadores), António Chaínho (guitarra portuguesa), Sérgio Mestre (violas e flauta), Francisco Raimundo (acordeão), Luís Sá-Pessoa (violoncelos) e Nuno Fernandes (bombardino).
Além dos poemas de sua lavra ("Prefácio", "Praia Portuguesa", "Embaixador do Mar", "Excesso", "Foi por Um Rasgo de Voz", "Longe Daqui", "O Velho Filarmonista" e "Eterno"), Pedro Barroso musica também um belo poema de Sophia de Mello Breyner Andresen, intitulado "Não Sei". Todos os temas deste álbum são de antologia, mas cabe destacar "Praia Portuguesa", "Longe Daqui", "Excesso" e "Eterno", estas últimas duas belíssimas peças poético-musicais de tributo à mulher-amante. E a prova perfeita de que Portugal também tem um Patxi Andion. "Longe d'Aqui" é um álbum excepcional: belíssimos os poemas, sedutora a voz de Pedro Barroso em perfeito estado de graça e magistrais as composições e arranjos instrumentais. Tudo neste disco se conjuga para o tornar numa obra-prima absoluta que se ouve em perfeito encantamento e se volta a ouvir, uma e outra vez, com o mesmo prazer e enlevo. Uma referência obrigatória da música portuguesa de sempre!
Em 1993, Pedro Barroso foi convidado para a Grande Gala da Música e do Bailado, no Teatro Municipal de S. Luiz, em Lisboa, junto com a Orquestra Gulbenkian e os solistas do Ballet de Monte Carlo.
Em 1994, Pedro Barroso regressa aos discos com um álbum temático e conceptual, exclusivamente dedicado à poesia trovadoresca galaico-portuguesa. Tendo contado com o apoio literário da Dra. Ema Tarracha, do Dr. Luís Simões Gomes e da poetisa Natália Correia (uma conhecida apreciadora e cultora das cantigas de amigo e de amor dos nossos cancioneiros medievais), Pedro Barroso musica e canta poemas de Pêro Meogo ("E nas verdes ervas" e "Digades"), Aires Nunes ("Bailemos nós já todas três"), Joan Zorro ("Em Lisboa sobre o mar"), Pêro da Ponte ("Se eu pudesse desamar"), Martin de Grijó ("Louçana, d'amores moir'eu"), D. Dinis ("Ai flores do verde pinho"), Estevam Coelho ("Sedia la fremosa"), Joan Rodriguez de Castello Branco ("Cantiga partindo-se"), Nuno Fernandez Torneol ("Levado amigo"), Pêro Viviãez ("Bailaremos") e Meendinho ("Cercaram-me as ondas"). Em duas das cantigas – "Digades" e "Cercaram-me as ondas" – Pedro Barroso conta também com a colaboração da cantora Anabela Marcos, cuja prestação vocal nos evoca outro disco de referência nesta área poético-musical – "Cantigas d'Amigo", pelo agrupamento La Batalla, de Pedro Caldeira Cabral. As participações instrumentais são assinadas pelo próprio Pedro Barroso (piano, voz, adufe, bombo, viola, percussões várias), Pedro Fragoso (sintetizadores, campaniça e viola), Carlos Dâmaso (guitarra portuguesa, flauta, bandolim, gaita-de-foles), Jorge Nascimento (acordeão) e Luís Sá Pessoa (violoncelo). Embora sem a preocupação de fiel reconstituição musical de acordo com os preceitos da época (porque não foi esse o propósito que esteve na mente do compositor/intérprete), trata-se de um trabalho de grande interesse pedagógico na leccionação da lírica galaico-portuguesa, uma matéria algo árida e esotérica para a generalidade dos alunos, mesmo no tempo de Pedro Barroso. O artista recorda: «Ninguém percebia nada daquilo. Ninguém ligava. E, contudo, sem o saberem, estavam a passar ao lado da pré-história do poetar português. Ali, naqueles livros, homens com seiscentos anos choravam a sua partida, o seu adeus, cantavam a sua alegria e diziam de si, na voz perdida do passado sensível que é, acreditem, o antípoda da chatice. Porque é sensível e belo e eterno». E acrescenta: «Por isso, agarrei nesses velhos e ingénuos portugueses dos cancioneiros, nessas puras e antigas cantigas de amigo, trucidei-lhes respeitosamente, o linguajar e devolvi-as, actuais e ímpias. Que às vezes é preciso destruir para amar melhor. Devolvo-as com o amor com que com elas convivi durante dois anos. Agradeço os apoios técnicos dos especialistas, respeitei-lhes as opiniões e ouvi-lhes, longamente, as elucidações. Tomei nota de tudo. Mas, sobretudo, tentei actualizar e universalizar os pequenos problemas de que me falavam aquelas velhas páginas. E sinto-me mais português na paixão com que assumo, ante os puristas, todos os erros, se forem a saldo, como desejo, da emoção. Para que os herdeiros de um povo nunca mais bocejem ante a excelência da sua velha cultura. E o sol dos tempos trespasse todas as janelas».
Em nota apensa ao álbum, o Dr. Luís Simões Gomes escreve: «A feminilidade destas cantigas galego-portuguesas deixa transparecer uma situação bem curiosa, que é a da mulher se nos dar como confidente de uma vivência própria de amor, revelando as suas mágoas às ‘madres', às amigas ou a uma natureza antropopatizada. Tal qual os poetas galego-portugueses se fizeram intérpretes de uma situação que não lhes dizia respeito, assim também Pedro Barroso se quer cantor da fundura afectiva desses cantares, ultrapassando a tal feminilidade, para lhes emprestar uma nova dimensão, que seria a de um amor humano, no seu vigor e espontaneidade. [...] Por isso, achamos este disco de Pedro Barroso muito inovador, tanto pela ‘dessacralização' que nele se opera desse lirismo, como pelo desejo que nele se manifesta de o fazer reencontrar com melodias e ritmos, populares ou não, mas de sonoridades perfeitamente actuais».
Em 1996, Pedro Barroso oferece-nos "Cantos d'Oxalá" (CD Top), um álbum que é ao mesmo tempo uma realidade e uma esperança, numa altura em que a rádio (e a televisão) já davam sinais de se alhearem da melhor música portuguesa. A realidade é a obra em si, na senda de qualidade que é a marca distintiva de Pedro Barroso; e a esperança, aliás implícita no título do disco (e do tema que abre o alinhamento), está necessariamente ligada ao desejo íntimo de que a boa música portuguesa não soçobrasse à boçalidade e à mediocridade que tomavam conta dos órgãos de difusão sonora.
Dos doze temas que integram o álbum, dez são originais: "Cantos de Oxalá", "Sítio", "Ai mulher", "Longe", "Eternos Sonhadores" (Mestre Martins Correia / Nuno Barroso), "Viriato", "Amor Antigo", "Toronto Blues", "Partido" e "Rugas". Rematam o alinhamento duas regravações de dois dos seus temas mais emblemáticos: "Menina dos Olhos d'Água" e "Viva Quem Canta". O disco é gravado nos Estúdios Quinta da Voz, em Riachos, propriedade do artista, sendo a direcção musical de Pedro Barroso, e os arranjos de Carlos Dâmaso e Pedro Barroso com a colaboração de todos os músicos. O elenco de músicos é formado por Nuno Barroso (piano e teclas), Pedro Barroso (piano, viola, percussões e coros), Luís Cascão (percussões), Carlos Dâmaso (guitarra portuguesa, viola eléctrica e acústica, gaita-de-foles, flauta e teclados), Nuno Fernandes (tuba), Pedro Fragoso (piano, campaniça e guitarra portuguesa), Jorge Nascimento (acordeão) e Luís Sá Pessoa (violoncelo). Nota ainda para a participação especial de Manuel Freire e Janita Salomé no tema "Cantos de Oxalá".
No texto de apresentação ao álbum, Pedro Barroso escreve: «Que dizer-vos destes Cantos de Oxalá? Que tentam resistir à moda daquelas cantiguinhas que nos prometem ao quilo em trocadilhos alarves o mais bovino contentamento? Creio que um dia ainda há-de haver um povo culto e grande, um povo que nos lembre Viriato e Deuladeu. E o Gama, o Luís Vaz, o Eça. E as viagens e o sonho. Um povo que nos lembre tudo isso. Mas de momento por onde andará? Vejo, a espaços, pulando pimbas em festas de louca tresmalhação e pouca consequência e todos nós engolimos sem querer as nossa dose diária daqueles senhores q aparecem em todo o lado e se entrevistam uns aos outros. O país, de resto, é a TV. E, a bem dizer só devem existir cinquenta portugueses importantes – aqueles que vemos todos os dias. Os outros, provavelmente analfabetos, terão de contentar-se com a inevitabilidade do que lhes impinjam. E quem não aparecer, é porque deve ter morrido. Não conta. Assim se tornam os dias divertidamente tristes, imbecis. Nem sequer está na moda saber escutar. Não se educa nem para a criatividade nem para a interioridade, nem para os detalhes que fazem a diferença. Educa-se para o bombardeio puro e simples dos sentidos. Pretende-se que tudo seja exterior e efémero. O plástico ao poder. Por tudo isto, ao afazer estes Cantos de Oxalá estou apenas lutando com a mentira. De caminho deixo o meu abraço muito especial ao Manuel Freire e ao Janita. A nossa geração ainda sabe marcar alto quando toca a companheirismo e amizade. Neste disco passa a constar um breve documento dessa alma conjunta. É para ser consumido devagar, em fogo brando, golo a golo, saboreadamente. Porque afinal, algures, mesmo sem poção magica, uma imensa minoria resiste ainda e sempre ao invasor. Com as armas da sensibilidade. São os eternos renovadores e sonhadores de que fala o meu velho Mestre Martins Correia, que fez, aos oitenta e seis anos, um a meias com o meu filho Nuno de dezanove! Assim se fabrica a resistência. Com muitas gerações de permeio para o alcance difícil do futuro. E nesse dia tudo vai valer a pena».
Em 1999, Pedro Barroso escreve e musica, especialmente para João Chora, o "Fado Ribatejo", que logo se torna o cartão de visita do fadista chamusquense.
No mesmo ano, publica "Criticamente" (ed. Lusogram), um trabalho que como o título indica constitui um olhar frontalmente crítico e mordaz sobre o país, no limiar do terceiro milénio. E nessa apreciação desencantada dos homens e dos seus efémeros poderes e vãs vaidades a ironia é a arma mais contundente e impiedosa: «Acredito no poder da deusa televisão e da Lisboa da noite onde cabem todos os negócios da opinião e da visibilidade; nos oportunistas e medíocres que têm sucesso e em todos os ricos e poderosos em geral, mas tu natureza dos poetas iluminai-me, mãe de todas as coisas perdoai-me e a minha alma, se existir, talvez ainda possa ser salva». O disco é composto por 10 temas: "Barca em Chão de Lama", "Poema do Lavrador de Palavras aos Políticos", "Ventos Siderais" (música de Nuno Barroso), "Jet Set (Garden Party)", "Canto da Memória Esconjurada", "Agora Nunca é Tarde", "Fado Quitério", "Depois da Fúria", "Critica-mente" e "A Festa Foi Bonita". Com produção, coordenação e direcção musical de Pedro Barroso e arranjos partilhados com todos os músicos, a execução instrumental é de Pedro Barroso (piano, viola, adufe, harmónica, teclados), Nuno Fernandes (tuba), Luís Sá Pessoa (violoncelo), Carlos Dâmaso (guitarra portuguesa, flautas, bandolim), Nuno Barroso (piano, teclados, percussão), Jorge Nascimento (piano, acordeão, teclados). Com este disco, Pedro Barroso afirma-se uma das consciências mais lúcidas e independentes da música portuguesa, em suma, uma das raras vozes da sua geração que não se vendeu às circunstâncias e às conveniências: «Prometi-vos a dignidade de ser livre. Prometi-vos o sonho e a maresia a golpes de aventura contra o nevoeiro e deparo com as limitações próprias de uma costa imprópria para grandes navegações. Contudo há que seguir a viagem e não sei doutra grandeza mais deslumbrante que a luta contra um mar demente em tempestade. Não serei dessa barca grande capitão – mais Febo Moniz que Condestável, mais eremita que Arcebispo. Nem sequer me sinto o mais seguro dos timoneiros – procuro apenas manter intacta a honra e o sentido maior das rotas que aprendi com o tempo. Duro e agreste contra esta serra que me olha a cada dia, serei Pedro ou pedra e continuarei crítico de tudo o que pesa e perturba mas simultaneamente me transcende. Peço hoje, por isso mesmo, humilde perdão do ensandecimento galopante que se me torna, a espaços, insuportável. Mas é quando o verbo me embebeda de opinião que mais me desvaneço de vida. E mais consigo dar-vos de mim, para o que quer que sirva. E já que outras dependências se não instalaram descobri, pois, o discreto prazer da ironia como exercício incontornável do existir». Porque «creio na minoria escassa mas intensa que ainda pensa e escuta e sonha com futuros de seriedade e intenção e sofre com a incultura enorme e boçal que a cada dia nos afoga entre temperos de culinária em patético gosto musical de gosto flatulento e propósito duvidoso e portuguesmente suicida, com a conivência sorridente das mais altas instâncias intelectuais».
"Crónicas da Violentíssima Ternura" (Lusogram, 2001) é o trabalho discográfico que se segue. E que grande álbum este, demonstração perfeita da plena maturidade intelectual e artística de um grande criador, aliada ao soberbo desempenho de uma plêiade de músicos de excepção! Com arranjos e direcção musical de Carlos Dâmaso, e coordenação, supervisão musical e direcção de produção de Pedro Barroso, a execução instrumental é assinada por Carlos Dâmaso (teclados, flauta transversal, viola, banjo e bandolim), Carlos Filipe (acordeão), David Coelho (piano), Luís Petisca (guitarra portuguesa e viola), Luís Sá Pessoa (violoncelo) e Pedro Barroso (viola e percussões). Os 13 temas do alinhamento, todos com letra e música da autoria de Pedro Barroso, são agrupados por áreas temáticas: Das Mulheres ("Jardim de Poetas", "Violentíssima Ternura", "Maria Montanha", "Crónica da luxúria por dizer", "Se esse homem", "Canção de Amante"); Do Mundo ("Sou Português, sou diferente", "O Sentido das Coisas", "Amanhã é demais", "Tântalo poeta, ao fim de tudo"); Da Progressiva Loucura ("Torre do Tombo de mim", "O último Templário enlouquecido"); e Post Scriptum ("Em nome do feitiço acontecido").
Este é um disco que se ouve com um inusitado prazer. Poesia pura de palavras e de música! Ao ouvir este belíssimo álbum, do princípio ao fim, uma interrogação me assalta: como é possível que uma obra deste quilate tenha passado ao lado da rádio e permanecido numa quase clandestinidade? Algo de anormal se passa neste canteiro entre a Espanha e o Atlântico, para que tais crimes de lesa-cultura aconteçam! E neste ponto, são muito pertinentes as palavras do cantor dirigindo-se aos seus ouvintes: «Constrói-se hoje, na cultura, diariamente um Portugal onde, maioritariamente, não me revejo. Creio até que, ultimamente, se tem fomentado mais a surdez que a capacidade de escutar. [...] E quando vos confiro, espantadamente, rogando-me – numerosos, anónimos, comovidos e sensíveis – para que prossiga, assalta-me uma força enorme que "eles não sabem nem sonham". E lá continuo, juntando os amigos, fazendo à "mão", como artesão, o que para outros é produto industrial. Vós sois a minha seara. Uma parcela de gente, não tão pequena como isso, farta da vulgaridade, da pimbalhice e do oportunismo. Resistentes aos actuais vírus do gosto, tão instalados, tão protegidos e tão divulgados. Pessoas jovens ou antigas que ainda escutam e sentem, cultivando o fogo e a saudade. Gente simples e complexa, grande ingestora de vida e outras atribulações do ser».
No Natal de 2002, é editado o CD "De Viva Voz" (Lusogram), que reúne quinze temas registados ao vivo entre 1997 e 2002 e que, embora com a qualidade técnica permitida pelas circunstâncias, constitui um documento de inegável interesse como memória de um estilo muito pessoal e da emotividade vivida nos concertos. Integram este disco os seguintes temas: "Cantarei", "Água", "Cantos de Oxalá", "Barca em Chão de Lama", "Poema do Lavrador aos Políticos", "Viriato", "Excesso", "Companheira", "Jardim de Poetas", "Praia Portuguesa", "Bonita", "Caso Sério" (inédito), "Anúncio Confidencial", "Deuladeu" e "Rapsódia Final". Além de Pedro Barroso (viola e piano), os músicos envolvidos são: Carlos Dâmaso (flauta, viola, bandolim, guitarra portuguesa), Luís Petisca (guitarra portuguesa), Jorge Nascimento e Francisco Raimundo (acordeão), David Coelho (piano e teclados) e Luís Sá Pessoa (violoncelo).
Em 2003, face à calamitosa situação a que havia chegado a divulgação de música portuguesa (de qualidade) nas rádios e televisões nacionais, Pedro Barroso toma a iniciativa de redigir o Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa, que seria o ponto de partida para a elaboração de nova legislação sobre as quotas de música portuguesa na rádio. O texto é subscrito por dezenas de cantores, músicos e autores, entre os quais (por ordem alfabética): Afonso Dias, António Chaínho, António Pinto Basto, António Vitorino de Almeida, Armando Carvalhêda, Carlos Alberto Moniz, Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa), Carlos Zíngaro, Eduardo Paes Mamede, Eduardo Ramos, Francisco Fanhais, Janita Salomé, João Braga, João Nuno Represas, José Barros (Navegante), José Cid, José Duarte, José Mário Branco, José Niza, Luís Cília, Luís Pedro Fonseca, Luís Sá Pessoa, Luiz Francisco Rebello, Manuel Freire, Manuel Rocha (Brigada Victor Jara), Maria João, Mário Laginha, Naná Sousa Dias, Né Ladeiras, Olga Prats, Paulo de Carvalho, Pedro Osório, Rui Júnior, Samuel, Simone de Oliveira e Vitorino.
Desse manifesto, pela preocupante actualidade que ainda mantém, é oportuno transcrever as seguintes palavras: «Música anglo-americana, multinacionais poderosas, lóbis editoriais fortíssimos, "play lists" que nada mais são que formas de censura expressa, radialistas que são simultaneamente promotores discográficos ou escondidamente afectos a interesses de que deviam ser independentes, etc., uniram-se numa cabala ilegal de incumprimento total da referida lei (Lei n.º 12/81, de 21 de Julho). [...] Começa a constatar-se que fazer música e canção em português tornou-se penoso do ponto de vista da circulação discográfica. A uma produção cuidada e de qualidade poética e musical não está necessariamente reservado um espaço em correspondência com o esforço, o investimento, a honestidade e o eventual mérito. Pode ter-se feito a melhor canção do planeta que, se não tiver espaço de audição absolutamente nenhum... morre. Se uma canção não for ouvida, é como se nunca tivesse existido. E a recuperação torna-se impossível. Os editores amedrontam-se; os autores desistem; o círculo vicioso instala-se. E a música dita ligeira, estrangulada e sem quaisquer apoios, definha. Caso curioso é que, não obstante, o público manifesta, por opinião directa e pela sua adesão e comparência maciça aos espectáculos, exactamente o contrário do que defendem aqueles que proclamam a sua indiferença – e até alergia... – ao que é português.» E rematando o manifesto, o autor interpela-nos com algumas questões de grande pertinência: «A canção feita em português não será património e memória para todos nós? Se não ouvirmos cantar em português na nossa rádio não estaremos a comprometer uma parte essencial da nossa identidade? E do nosso futuro cultural? Que perspectivas para a canção em Portugal mantendo-se este estado de coisas?»
No final de 2004, comemorando 35 anos de carreira, Pedro Barroso publica "Navegador do Futuro" (ed. Ocarina), numa muito cuidada edição de livro/CD, com fotografias e desenhos do artista.
Predominantemente intimista, com poemas primorosos e arranjos instrumentais de apurado requinte, o disco é composto por 14 temas: "Aniversário", "Porto Antigo", "À Mesa" (música de Luís Petisca), "Ainda Bem Que Era Amor", "Navegador do Futuro" (música de Nuno Barroso), "Facturas do Futuro", "Gracindo Boavida Portugal", "Amor Tranquilo", "Monte do Que Há-de Haver", "Existe Uma Mulher", "Noite de Afago" (música de Luís Petisca e Pedro Barroso), "O Velho Artista", "Atlantes" e "Agora Não é Tarde". Todos os poemas são assinados por Pedro Barroso, sendo as composições também todas da sua autoria salvo onde indicado. Com direcção musical de Luís Petisca, e supervisão musical e produção de Pedro Barroso, a execução musical é de Pedro Barroso (voz, coros, adufe, caixa, percussões e viola), António Oliveira e Silva (viola de arco), Carlos Dâmaso (bandolim e flauta transversal), Fernando Nunes (percussões), Francisco Raimundo (acordeão), Luís Sá Pessoa (violoncelo), Luís Petisca (guitarra clássica, guitarra portuguesa, metalofone e viola) e Ricardo Cruz (contrabaixo e baixo eléctrico).
Sequência lógica de "Crónicas da Violentíssima Ternura", o precedente álbum de originais, "Navegador do Futuro" é um trabalho notabilíssimo de música portuguesa. Não sei dizer, entre os dois, qual o melhor, mas uma coisa tenho como certa: "Navegador do Futuro" é um dos melhores discos que se editaram em Portugal na primeira década do séc. XXI. E a Rádio Central FM de Leiria, na pessoa da sua directora Emília Pinto, teve a clarividência de reconhecer isso mesmo distinguindo-o com o prémio de Melhor Disco de 2004. No entanto, e a exemplo dos trabalhos anteriores de Pedro Barroso, o disco foi praticamente ignorado pelas rádios nacionais. A propósito desse absurdo e criminoso ostracismo, o músico escreve: «Como é sabido, tecnicamente, eu não existo. Todos os indícios espúrios e avulsos da minha existência são seguramente ilusões de óptica incomodando as consciências estabelecidas. Como se sabe, ouve e publicamente pode comprovar-se, em Portugal apenas há uma dúzia de músicos e cantores. Gente extraordinária, cheia de valor. Mas eu não sou nenhum deles. Por isso, oficialmente, não existo. O que faço atinge, consequentemente – tanto quanto o sinto e me é recorrentemente comunicado – as raias da clandestinidade. [...] Mas tantos ilustres foram desconhecidos, a seu tempo, neste País de interesses e sistemas que, se calhar, este é o modo como acaba por indicar-se, sem querer, o caminho das pedras aos fabricantes da esperança e a glória oculta aos milagres do improviso e da resistência. São trilhos difíceis da diferença, os que, terra a terra, convosco tenho convivido. Por isso, amigos sinceros e imensos, consumam devagar este produto de artesão, como quem quebrou a norma e saiu da clausura. Como quem celebra a festa do encanto arredado e proibido, abrindo um vintage guardado para ocasião especial».
Em 2005, a Movieplay edita finalmente a muito esperada "Antologia", em duplo CD, onde se coligem 31 temas (mais um poema recitado por Mário Viegas) retirados dos álbuns editados entre 1982 e 1990, ou seja, de "Cantos à Terra-Madre" até "Longe d'Aqui", inclusive, com excepção (porquê?) do álbum "Pedro Barroso" (Transmédia, 1988). O repertório foi cuidadosamente organizado por grupos temáticos: Cantos Rurais / Fase Ecologista / Pessoais; Amores / Histórico; Patrióticas / Temas Humanos.
Trata-se de um compilação de grande utilidade a quem desejar (re)descobrir o repertório mais recuado do cantor, correspondendo o primeiro CD ao repertório mais popular e o segundo a um repertório mais intimista e reflexivo que, segundo o autor, não terá alcançado o merecido realce. «A sensação que tenho é que a minha obra passou ao lado de uma escuta atenta provocando uma análise demasiado redutora e convertendo-me numa espécie de construtor industrial de jovialidade. Ouvindo com mais atenção os temas que compus ao longo desses anos, percebe-se que é injusto ser mais conhecido pelas canções de raiz mais popular em detrimento dos temas mais discursivos e intimistas que também nessa altura compus. E este disco tem pelo menos a virtualidade de revelar um pouco esse lado. Há coisas que já revelam uma reflexão sobre a vida, sobre a ecologia, sobre a ternura e o amor que na época passaram ao lado. Talvez agora seja altura certa para que as pessoas as descubram porque elas correspondem também ao percurso que entretanto escolhi de então para cá» (entrevista a Ana Vitória, in "Jornal de Notícias", 28.11.2005). Quanto ao repertório de cariz mais popular, embora não o renegando, Pedro Barroso olha para ele com alguma displicência: «A espaços, ouço-me agora nesta pequena colectânea e sinto que há já uma História possível. Que as canções, em parte, relatam, falando do que falam. Ao fim de 36 anos de Música e Palavras, só posso ouvir com um sorriso distante mas bom tudo o que aqui se encerra. Quem fez isto fui eu, sim. Um outro jovem e distante eu, que hoje resultou num autor dorido e bem mais exigente. Mas guardo a memória de um exaltado e incansável rapaz que perdia noites guiando; que estragou e viveu amores desconcertados; que acreditou muito em coisas demais; que foi sincero até à alma e ao sangue. E que nos intervalos do trabalho, de tanta saga, de tanta e tão espalhada vivência de palcos, viagens e cansaços, foi compondo canções conformes à sua identidade e ao seu acreditar. É esse o espaço que aqui se reviu e agora se apresenta. Foi bom repensá-lo e reemocionar-me. Teria nessa altura trinta e muito poucos anos. Ou se calhar foi ontem. E eu não dei por isso».
Ao longo da sua carreira, cantou em praticamente todo o território nacional e ainda em Espanha, França, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, Alemanha, Suíça, Suécia, Inglaterra, Canadá, Brasil, Hungria, Macau e Estados Unidos, quer em concertos ao vivo quer em actuações para televisão.
Até hoje, recebeu diversos prémios e distinções nacionais e internacionais, tais como o Prémio Eles e Elas para a melhor canção de 1986, com "Menina dos Olhos d'Água", Prémio Directíssimo de Melhor Disco de 1987 atribuído a "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", Troféu Karolinka (Festival Menschen und Meer, RDA, 1981), Diploma de Mérito da Secretaria de Estado do Ambiente pelos serviços prestados à causa do ambiente (Ano Europeu do Ambiente, 1988), Troféu Lusopress para o melhor compositor português (Paris, 1993), Prémio Pedrada no Charco (Rádio Central FM de Leiria, 1993), menção de Mérito Cultural do Município de Newark (2003). Em 1994, a Casa do Ribatejo, de Lisboa, atribuiu-lhe o título de Ribatejano Ilustre, no mesmo dia em que também foram distinguidos o toureiro Vítor Mendes, o ciclista Marco Chagas e o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles.
Publicou os seguintes livros: "Cantos Falados" (Ed. Ulmeiro, 1996), onde reúne muita poesia de canções suas, mas não só; "Das Mulheres e do Mundo" (Ed. Mirante, 2003), livro que reúne poemas escritos entre 1981 e 2003; "A História Maravilhosa do País Bimbo" (Ed. Calidum, 2005), obra de ficção em que aborda com sarcasmo e ironia alguns aspectos incompreensíveis de um país nunca identificado mas vagamente familiar.
Considerado um dos últimos trovadores de uma geração de coragem que ajudou pela canção a conquistar as liberdades democráticas para Portugal, Pedro Barroso – com o seu timbre de voz inconfundível – continua a constituir-se como uma alternativa sempre diferente nos seus concertos, repletos de emoção e coloquialidade, como se de verdadeiros encontros de amigos se tratasse. Porque «cantar é uma maneira de estar vivo». E continua a cantar os seus grandes temas de sempre – a mulher, o amor, o mar, a natureza, a solidariedade, os tipos humanos, a portugalidade, a reflexão sobre a Vida...
Sobre Pedro Barroso e a sua arte, disse Armando Carvalhêda (autor do programa "Viva a Música"): «...pelos seus olhos de água passam matizes de verde que são a um tempo o grito de vida da lezíria ribatejana e a esperança que na sua poesia musical renasce a cada instante. Escrever sobre o Pedro é sempre frustrante porque vida não rima com talento; e sensibilidade não rima com arte; e esperança não rima com honradez. E no entanto, a vida e a obra de Pedro Barroso são compostas de tudo isto e o muito mais que um universo de palavras nunca esgotaria». No mesmo sentido vão as palavras de Júlio Isidro: «Um caso enorme de dignidade e coerência na boa música que se faz em Portugal». E Carlos Pinto Coelho classificou-o assim: «Um dos mais valiosos autores da música portuguesa. Este homem é um cavaleiro!»
Notável compositor e intérprete, Pedro Barroso é ainda um excelente poeta, indiscutivelmente um dos melhores entre os cantautores portugueses, perfeitamente a par de nomes como Fausto Bordalo Dias ou Sérgio Godinho. Pedro Barroso não pertence à categoria dos autores/cantores em que as palavras funcionam como mero adorno da música: os seus poemas valem por si sós e fazem dele um dos grandes autores/cantores contemporâneos. Mas ainda por descobrir ou, pelo menos, por reconhecer! E para essa falta de conhecimento ou reconhecimento muito tem contribuído a rádio pela muito deficiente divulgação que, nos últimos tempos, tem dado à obra poético-musical do autor. No caso concreto da rádio estatal, a situação é verdadeiramente vergonhosa e escandalosa. Depois de alguns anos em que esteve boicotado, a verdade é que depois da série de programas em que o Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins, analisou a situação da música portuguesa nos alinhamentos de continuidade da Antena 1, a presença de Pedro Barroso nos mesmos não registou uma assinalável melhoria. De então para cá, só muito esporadicamente um dos seus temas aparece na Antena 1 e, como tal, essas passagens de tão residuais e discretas em nada abonam para que o público rádio-ouvinte tome cabal conhecimento da sua obra, mormente da mais recente. Quando se elaboram 'playlists' de uma rádio pública generalista e se ignoram álbuns como "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", "Longe d'Aqui", "Crónicas da Violentíssima Ternura" ou "Navegador do Futuro", isso só pode significar incultura e incompetência de quem as faz (e de quem as aprova) ou, então, um propósito deliberado de ocultação da obra do artista. Na actual Antena 1, não sei qual dos factores pesa mais, mas em qualquer dos casos estamos em presença de um procedimento que jamais se poderá aceitar. Por uma questão de elementar justiça para com um grande autor/cantor português e pelo respeito que é devido aos ouvintes/contribuintes que têm o bom gosto de apreciar a sua música.


Discografia:

- Trova-dor (EP, Zip-Zip, 1970)
- Música da Peça 'Breve Sumário da História de Deus' de Gil Vicente (EP, Zip-Zip, 1971) (colectivo, com José Jorge Letria, Lídia Rita e António Macedo)
- 1.º de Maio/Medicina Social (single, Decca/Valentim de Carvalho, 1974)
- Pastilhas Reacção/Canção Urgente (single, Decca/Valentim de Carvalho, 1975)
- Lutas Velhas Canto Novo (LP, Diapasão/Sassetti, 1976)
- Água Mole em Pedra Dura (LP, Diapasão/Sassetti, 1978); Cartas a Portugal (CD, Strauss, 2000)
- Nova Canção de Lisboa (2 singles, Diapasão/Sassetti, 1979)
- Em Ferrel/Canção ao Rio Almonda (single, Diapasão/Sassetti, 1980)
- Quem Canta Seus Males Espanta (LP, Diapasão/Sassetti, 1980)
- Cantos à Terra-Madre (LP, Da Nova, 1982; CD, Movieplay, 1997)
- Cantar Brejeiro/Tanta Gente (single, Da Nova, 1982; Rádio Triunfo, 1982)
- Do Lado de Cá de Mim (LP, Rádio Triunfo, 1983; CD, Movieplay, 2003)
- Ai Consta/Viva Quem Canta (single, Rádio Triunfo, 1983)
- Camarnal/Cantarei (single, Orfeu, 1984)
- Cantos da Borda d'Água (LP, Orfeu, 1984; CD, Movieplay, 2004)
- Colectânea (LP, Orfeu, 1986) [com temas extraídos dos três álbuns precedentes]
- Roupas de Pátria, Roupas de Mulher (LP, Orfeu, 1986; CD, Movieplay, 2004)
- Pedro Barroso (LP, Transmédia, 1988)
- Quem Canta Seus Males Espanta (LP, Ovação, 1990) [colectânea com temas extraídos dos álbuns "Água Mole em Pedra Dura" e "Quem Canta Seus Males Espanta"]
- Longe d'Aqui (LP/CD, Discossete, 1990)
- Cantos d'Antiga Idade (CD, Strauss, 1994)
- Cantos d'Oxalá (CD, CD Top, 1996)
- Pedro Barroso: O Melhor dos Melhores, vol. 81 (CD, Movieplay, 1998)
- Criticamente (CD, Lusogram, 1999)
- Pedro Barroso: Clássicos da Renascença, vol. 85 (CD, Movieplay, 2000)
- Crónicas da Violentíssima Ternura (CD, Lusogram, 2001)
- De Viva Voz (CD, Lusogram, 2002) [registos ao vivo entre 1997 e 2002]
- Navegador do Futuro (CD, Ocarina, 2004)
- Antologia 1982-1990 (2CD, Movieplay, 2005)


Fontes:
- Site oficial de Pedro Barroso (http://www.pedrobarroso.com/)
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Música Popular Portuguesa: Um Ponto de Partida, Mário Correia, Centelha/Mundo da Canção, 1984
- Literatura inclusa na discografia de Pedro Barroso


Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)

- A Dança da Feira (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia")
- A Festa Foi Bonita (in "Criticamente")
- Agora Não é Tarde (in "Navegador do Futuro")
- Água (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Ai Consta (in "Do Lado de Cá de Mim"; "Antologia")
- Amanhã é demais (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Amor Antigo (in "Cantos d'Oxalá")
- Amor Tranquilo (in "Navegador do Futuro")
- Anarcristos e Viagens I (in "Do Lado de Cá de Mim")
- Anúncio Confidencial (in "Pedro Barroso"; "De Viva Voz")
- Aurora – Tema / Poema (in "Cantos da Borda d'Água")
- Avessada (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia")
- Bailaremos (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Bailemos nós já todas três (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Balada a Deuladeu (in "Pedro Barroso"; "De Viva Voz")
- Balada do Desespero (in "Do Lado de Cá de Mim")
- Barca em Chão de Lama (in "Criticamente"; "De Viva Voz")
- Bonita (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Canção para a Amizade (in "Cartas a Portugal")
- Canção para Regressar (in "Do Lado de Cá de Mim"; "Antologia")
- Canção Semente (in "Quem Canta Seus Males Espanta")
- Cantar Brejeiro (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia")
- Cantar É (in "Cartas a Portugal")
- Cantarei (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Cantiga partindo-se (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Canto da Memória Esconjurada (in "Criticamente")
- Cantos de Oxalá (in "Cantos d'Oxalá"; "De Viva Voz")
- Cercaram-me as ondas (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Cidade (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher")
- Companheira (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Concerto para Esperança e Orquestra (in "Cantos à Terra-Madre")
- Crónica da luxúria por dizer (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Depois da Fúria (in "Criticamente")
- Digades (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Diz-me o que é ser português (in "Pedro Barroso")
- E Assim Não Há Poema Não (in "Cartas a Portugal")
- E nas verdes ervas (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Embaixador do Mar (in "Longe d'Aqui"; "Antologia")
- Esperança (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia")
- Estrela d'Alva (in "Pedro Barroso")
- Eterno (in "Longe d'Aqui")
- Eternos Sonhadores (in "Cantos d'Oxalá")
- Excesso (in "Longe d'Aqui"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Eu Hei-de, Meu Bem, Eu Hei-de (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia")
- Fado da Charneca (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia")
- Fado Quitério (in "Criticamente")
- Foi por Um Rasgo de Voz (in "Longe d'Aqui")
- Gracindo Boavida Portugal (in "Navegador do Futuro")
- Homem Dum Só Parecer (in "Cartas a Portugal")
- Jardim de Poetas (in "Crónicas da Violentíssima Ternura"; "De Viva Voz")
- Josezito (in "Cartas a Portugal")
- Levado amigo (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Longe Daqui (in "Longe d'Aqui"; "Antologia")
- Lua (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia")
- Maria Montanha (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Menina dos Olhos d'Água (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia"; "Cantos d'Oxalá")
- Música de Mar (in "Pedro Barroso")
- Não Sei (in "Longe d'Aqui"; "Antologia")
- Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo (in "Cartas a Portugal")
- Navegador do Futuro (in "Navegador do Futuro")
- Noite (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher"; "Antologia")
- Noite de Afago (in "Navegador do Futuro")
- O Acordeão (in "Quem Canta Seus Males Espanta")
- O Ramalhete Rubro das Papoulas (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia")
- O último Templário enlouquecido (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- O Velho Artista (in "Navegador do Futuro")
- O Velho Filarmonista (in "Longe d'Aqui")
- Palavras (a uma coisa amor) (in "Quem Canta Seus Males Espanta")
- Pátria (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher")
- Pela Vida, Companheiros (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia")
- Poema do Lavrador de Palavras aos Políticos (in "Criticamente"; "De Viva Voz")
- Porto Antigo (in "Navegador do Futuro")
- Praia Portuguesa (in "Longe d'Aqui"; "Antologia"; "De Viva Voz")
- Requiem (in "Cantos da Borda d'Água")
- Romance de Almeirim (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia")
- Rugas (in "Cantos d'Oxalá")
- Salvar Terra (in "Quem Canta Seus Males Espanta")
- Se eu pudesse desamar (in "Cantos d'Antiga Idade")
- Setembro (in "Cantos da Borda d'Água"; "Antologia")
- Sítio (in "Cantos d'Oxalá")
- Sou Português, sou diferente (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Tanta Gente (in "Cantos à Terra-Madre"; "Antologia")
- Tântalo poeta, ao fim de tudo (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Terra (in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher")
- Ventos Siderais (in "Criticamente")
- Violentíssima Ternura (in "Crónicas da Violentíssima Ternura")
- Viriato (in "Cantos d'Oxalá"; "De Viva Voz")
- Viva Quem Canta (in "Do Lado de Cá de Mim"; "Antologia"; "Cantos d'Oxalá")



Esperança



Letra, música e voz: Pedro Barroso


Se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos
o mais profundo fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas
que há razão
de verdades consumadas me consomem
de falácias bem montadas me alimentam
mas meu filho, mora o reino do futuro
que é mais duro
e não vai ser com palavras
que o contentam

Se a morte lenta te rebenta sob a pele
a cada dia
e se no teu braço apenas sentes a força
de um cansaço organizado
mas manténs na tua fronte a dúvida
e o gosto pelo longe e a maresia
e se sentes no teu peito de criança
a alma de um sonho amordaçado
se quiseres partir amanhã
eu paro o mundo
com facilidade assim
com esta mão
e então descobriremos o mais profundo
fundo que há no mundo
que é no irmos fundo às coisas que há razão

(iste mundus furibundus falsa prestat gaudia
quia fluunt et decurrunt ceu campi lilia
Laus mundana vita vana vera tollit premia
nam impellit et submergit animas in tartara)*

* retirado da versão original de "Carmina Burana" (séc. XIII).


(in "Roupas de Pátria, Roupas de Mulher", 1986)

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Outros artistas desta galeria:
Adriano Correia de Oliveira
Carlos Paredes
Janita Salomé
José Afonso
Luiz Goes

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Textos sobre música portuguesa:
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007

20 novembro 2007

A seca que a Antena 1 deu a Fausto... e aos ouvintes

Do "Programa da Manhã", da Antena 1, a minha audição há meses que se restringe ao período que vai da rubrica 50 Anos de Canções Portuguesas, por volta das 7:40 (a minha hora de despertar), até à leitura dos títulos dos jornais por João Paulo Guerra, cerca das 8:25. Depois disso, o "Programa da Manhã" é para mim uma coisa imprópria para consumo. Portanto, atendendo a que a Antena 2 se tornou, na mesma faixa horária, também em algo de intragável a quem preza a sua sanidade mental, e não estando eu disposto a ser bombardeado com as doses industriais de publicidade das rádios privadas, a solução de recurso é ouvir música escolhida por mim. No entanto, ontem, dia 19 de Novembro, ao dar-me conta que Fausto Bordalo Dias era o convidado especial do referido "Programa da Manhã", a pretexto do lançamento de uma colectânea de canções de amor e dos 25 anos da edição de "Por Este Rio Acima", lá fiquei ligado à Antena 1, convencido de que ia ouvir uma mão-cheia de músicas suas e, claro está, também pelo interesse em ouvi-lo de viva voz a falar sobre a sua obra. Mas tudo não passou de uma esperança vã! Afinal de contas, de Fausto a falar da sua música, em todo o programa, apenas uns escassos minutos dispersos e de temas seus só consegui ouvir um, "Rosalinda". Mas deram-me a ouvir Cool Hipnoise, Patti Smith e Paulo Gonzo. Fiquei perplexo! Então convida-se um cantor para um programa de rádio com o suposto intuito de promover o seu último lançamento discográfico e depois atiram-lhe(nos) para acima com músicas de outros?! Dá para entender? Eu não sou dotado de poderes para perscrutar a mente de Fausto Bordalo Dias, mas imagino a incomodidade e o aborrecimento tremendo que o homem deve ter sentido em tal situação: assistir à transmissão de canções alheias (de baixo quilate) em lugar das suas e ainda por cima ter de gramar com intermitentes ladainhas do trânsito, blocos de desporto, notícias bastas vezes repetidas, 'spots' promocionais de todo o género, 'jingles' pirosos, e todas as outras enxúndias que preenchem aquele espaço de quatro horas de emissão. Ele lá conseguiu aguentar até ao fim, é verdade, mas vontade de dar à sola não lhe deve ter faltado. E se não bateu com a porta, terá sido por delicadeza, e quiçá com receio de que com essa atitude o tornassem um dos proscritos (mais um a somar a tantos outros) da 'playlist' da Antena 1.
Eu fiquei deveras defraudado com a experiência e muito dificilmente me vão apanhar outra vez a ouvir a Antena 1 depois das 8:30. E como ontem, ao contrário do que me fizeram crer, não se falou do álbum "Por Este Rio Acima", o mínimo que se deve exigir à direcção da Antena 1 é que seja ainda realizado, pelo menos, um programa temático a ele especialmente dedicado. Justamente por não se tratar de um disco qualquer e porque a sua repercussão na música portuguesa foi imensa mas ainda não suficientemente avaliada e analisada. Quanto à nova colectânea, e tirando as poucas palavras que Fausto teve oportunidade de proferir sobre ela, confesso que para mim ela de pouco vem adiantar pois possuo praticamente toda a sua discografia. Em todo o caso, e não ignorando o propósito meramente comercial da edição, pode ser que com ela algumas pessoas menos conhecedoras do repertório do artista o venham a descobrir e se sintam motivadas a ir à procura dos álbuns de originais.
E a propósito de álbuns de originais, há muitos outros grandes discos da música portuguesa que neste ano de 2007 fazem anos (em decénios ou múltiplos de quinquénios). Um deles chama-se "Canções de Amor e de Esperança", de Luiz Goes, gravado em Dezembro de 1971 mas lançado já em 1972 (portanto, há 35 anos), e uma das obras-primas absolutas da música portuguesa de todos os tempos. E por coincidência, o cantor também completa 75 anos de idade, já no próximo dia 5 de Janeiro. Portanto, e a exemplo das iniciativas que foram levadas a cabo no âmbito das efemérides das mortes de José Afonso e de Adriano Correia de Oliveira, é de toda a oportunidade que Luiz Goes tenha um tratamento idêntico na rádio pública. Precisamente por ser um dos intérpretes superlativos da música portuguesa de sempre. E contando-se ele ainda no número dos vivos maior a premência em que o reconhecimento que lhe é devido seja dado em vida. Fica a chamada de atenção, para que a rádio pública não deixe passar a ocasião "como cão por vinha vindimada", o que aliás não seria caso inédito desde que António Cardoso Pinto abandonou os comandos da Antena 1.
E já agora, por que razão Luiz Goes ainda não foi incluído na 'playlist' da Antena 1, desde que publiquei um texto sobre a sua vida artística na
Galeria da Música Portuguesa e de que tive o cuidado de remeter cópia à direcção da rádio pública? Será que a 'playlist' é um feudo exclusivo do Ricardo Soares e Rui Pêgo não tem voto na matéria? É a ideia com que se fica!

23 outubro 2007

"Selecção Nacional": a apologia do pechisbeque

Tendo ouvido um 'spot' a anunciar um novo programa musical da Antena 1 chamado "Selecção Nacional", tomei a devida nota e, no domingo, depois do noticiário das 13 horas, lá liguei para o primeiro canal da RDP (para mim, uma opção cada vez menos válida). Com um título destes presumi que se tratasse de um programa que incluísse efectivamente o que de melhor se fez em Portugal em termos musicais e que habitualmente não se consegue ouvir nos alinhamentos de continuidade. Puro engano! Afinal, a "Selecção Nacional", apresentada por Filomena Crespo, é formada pela mesmíssima música que pulula na vergonhosa 'playlist' da Antena 1. Eu pergunto: valerá mesmo a pena fazer um suposto programa de autor que se limita a decalcar os conteúdos da 'playlist'? Conteúdos esses – convém reafirmá-lo – que continuam a evidenciar um confrangedor e redutor afunilamento na música pop, e ainda por cima com uma grande incidência na de pior qualidade. Atente-se nos nomes escolhidos para a "Selecção Nacional": GNR, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Pedro Khina, Toranja, Heróis do Mar, The Gift. Todos eles nomes insistentemente rodados na famigerada 'playlist'. Foram também contemplados Sérgio Godinho e Né Ladeiras mas em ambos os casos com temas que não constituem propriamente o melhor das respectivas obras. De Né Ladeiras a escolha recaiu em "Sonho Azul", tema que convenhamos não se pode comparar ao que ela fez nos álbuns "Traz os Montes" (galardoado com o Prémio José Afonso) e "Todo Este Céu", sobre temas de Fausto Bordalo Dias. Então porquê a opção pelo mediano quando se pode escolher o excelente?
Sendo obrigado a desembolsar 20.52 euros de taxa por ano, não posso deixar de me sentir defraudado e revoltado com a vulgar e medíocre linha musical que, nos últimos anos, passou a imperar na rádio do Estado. Precisamente a estação que por ser pública e paga pelos contribuintes se devia pautar por critérios de maior rigor e exigência na sua programação musical. Com exemplos destes, muito mal vai o serviço público de rádio!

16 outubro 2007

Em memória de Adriano



No dia em que se completam precisamente 25 anos sobre o desaparecimento prematuro de Adriano Correia de Oliveira, presto-lhe a minha singela homenagem deixando aqui aquela que é talvez, do ponto de vista interpretativo, a sua balada mais sublime.
Registo com agrado as iniciativas que a Antena 1 tem levado a cabo para assinalar a efeméride, designadamente o convite feito a Fausto Bordalo Dias, que com ele conviveu, para falar do homem e da obra. Pena foi não ter sido dirigido idêntico convite a Rui Pato, responsável pelo acompanhamento à viola de boa parte do seu repertório. O seu testemunho seria com certeza do maior interesse.
Bem, e porque não basta evocar Adriano para depois o votar novamente ao ostracismo, eu faço uma pergunta muito simples à direcção de programas da rádio do Estado: por que razão esta e outras belíssimas baladas de Adriano não figuram nas 'playlists' das Antenas 1 e 3?



Canção com Lágrimas



Poema: Manuel Alegre (adaptado de "Canção com Lágrimas e Sol", in "Praça da Canção", 1965)
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira
Viola: Rui Pato


Eu canto para ti um mês de giestas
um mês de morte e crescimento ó meu amigo
como um cristal partindo-se plangente
no fundo da memória perturbada.

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
e um coração poisado sobre a tua ausência
eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
em que os mortos amados batem à porta do poema.

Porque tu me disseste: quem me dera em Lisboa
quem me dera em Maio. Depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio.

Porque tu me disseste: quem me dera em Maio
porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol. Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve.

Eu canto para ti Lisboa à tua espera...


(in EP "Menina dos Olhos Tristes", Orfeu, 1968; "Obra Completa": CD "Trova do Vento Que Passa: Adriano Canta Manuel Alegre (I)", Movieplay, 1994)

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Outros textos sobre Adriano Correia de Oliveira neste blogue:
Adriano Correia de Oliveira: um grande cantor silenciado na rádio pública
Galeria da Música Portuguesa: Adriano Correia de Oliveira

09 outubro 2007

"Alma Lusa": mais tempo de antena para o fado

Em Janeiro de 2007, no texto Música na Antena 1: pequenos e grandes formatos, tive o ensejo de chamar a atenção para a situação escandalosa e absurda na rádio pública no tocante a espaços vocacionados para as músicas fora do universo anglo-saxão. Efectivamente, ao passo que a música anglo-americana tinha um programa alargado chamado "Ondas Luisianas", as músicas da portugalidade – tradicional e fado – e a música latina estavam confinadas a mini-formatos de aproximadamente cinco minutos, respectivamente Cantos da Casa, Alma Lusa e Júlio Isidro. Agora reparo que, no caso do fado, a situação foi finalmente corrigida com a criação de uma edição alargada de "Alma Lusa", aos domingos depois da meia-noite. O que não deixa de ser curioso é que esta alteração tenha surgido pouco antes da estreia do tão badalado filme "Fados". O que terá levado Rui Pêgo a tomar a decisão apenas agora, se ela se impunha há demasiado tempo? Medo que, por causa do filme de Carlos Saura, alguém de fora descobrisse que a Antena 1 dedicava apenas três/quatro minutos por dia ao fado?
Bem, o importante é que no principal canal da rádio estatal passa a existir um programa, digno desse nome, dedicado ao fado. Agora, o que não se compreende é que não tenha sido aplicado igual procedimento à música tradicional e à música latina. A abundância de material de qualidade nessas duas áreas musicais justificaria sobremaneira a existência de mais tempo de antena para a respectiva divulgação. No caso da música tradicional/folk portuguesa, isso é particularmente premente pois nos últimos anos têm aparecido excelentes agrupamentos aos quais a Antena 1 devia prestar outra atenção. Afinal de contas, trata-se de uma elementar questão de serviço público.

28 setembro 2007

Antena 2: quando os 'spots' promocionais se tornam um flagelo

Já anteriormente abordei esta questão no texto Formas de poluição sonora na rádio pública, mas como na Antena 2 o problema longe de ser resolvido, se agravou, volto a ele. Na verdade, a repetição de 'spots' promocionais na rádio clássica, quer relativos a programas do canal quer sobre eventos exteriores, atingiu uma tal dimensão que se pode dizer, com toda a propriedade, que estamos em presença de um verdadeiro flagelo. Com que propósito é que se massacra os ouvintes com tantos 'spots', e recorrentemente repetidos? Será que os ouvintes da Antena 2 comem assim tanto queijo, ou têm uma memória tão débil, que necessitem de estar a ser constantemente lembrados que têm de ouvir certo programa ou que não podem perder a "magia da televisão"? E já nem falo da publicidade encapotada e subliminar que em alguns 'spots' é feita a entidades não culturais e com fins lucrativos (Brisa, por exemplo). Por outro lado, tal repetição torna-se ainda mais descabida e desnecessária num canal que tem um dos auditórios mais fiéis e atentos da rádio portuguesa. Os ouvintes da Antena 2, na sua esmagadora maioria, já sabem de antemão o que lhes interessa ouvir, pelo que a promoção massiva a determinados programas (sempre os mesmos), além de redundante, torna-se num factor de desconforto e de saturação auditiva que até pode pôr em risco a saúde mental dos mais atentos. Será que quem dirige a Antena 2 não tem consciência disto? Não bastam já os múltiplos ruídos com que somos bombardeados no dia-a-dia? E qual o interesse em se estar a disparar, às vezes com intervalos de poucos segundos, o 'jingle' «Antena 2»? Será que quem ouve assiduamente a Antena 2, ou mesmo quem lá vai parar por engano, tem dúvidas de que está na sintonia do segundo canal da RDP? Tudo isto são factores que têm vindo a tornar a Antena 2 numa rádio cada vez mais hostil para os meus ouvidos e, creio bem, também para os ouvidos de muitas mais pessoas. Por isso, enquanto radiófilo e contribuinte, lanço daqui um apelo a quem de direito na esperança de que a Antena 2 volte a ser uma rádio acolhedora e agradável de se ouvir.

31 julho 2007

"80x2": música a metro na Antena 1

A exemplo do aconteceu nos anos anteriores, a direcção de programas da Antena 1 voltou a apostar na música anglo-americana dos anos 80, para o final das manhãs de sábado deste Verão. Antes de mais, há uma questão que se impõe: qual a razão da delimitação à década de 80, excluindo tudo o resto? Nas décadas anteriores não se terá feito boa música? Eu respondo: não só se fez boa música como inclusive de qualidade superior, em termos gerais. Lamentavelmente, os responsáveis pela programação musical da Antena 1 parece terem vistas curtas e não conseguir ver, olhando retrospectivamente, além de 1980. Ora atendendo a que a primeira hora do programa "Ondas Luisianas" já era dedicada aos anos 80, a representatividade temporal da música anglo-americana na Antena 1 fica bastante distorcida e empolada nessa década, em prejuízo dos anos 60 e 70. Devo dizer que, em princípio, nada tenho contra a música dos anos 80 desde que seja de qualidade. Infelizmente, pelo que me foi dado ouvir no último sábado, o grosso da música seleccionada para o espaço "80x2", de qualidade tem muito pouco. Diria mais: exceptuando uma ou outra escolha pontual, a quase totalidade do que foi transmitido conta-se entre a produção mais reles e medíocre da década. Enfim, a vulgar música que figurava nos tops da altura mas hoje imprópria para consumo. Não sei se é essa a música que Ricardo Soares, o autor/apresentador do programa, gosta de ouvir ou se haverá outra razão para as opções feitas (possivelmente promoção encapotada a alguma miscelânea dos 80’s entretanto lançada no mercado). Eu, que por acaso até cresci a ouvir essa música, confesso que não senti qualquer prazer (e até algum desconforto) a reouvi-la passados uns bons anos. Talvez a culpa sejam as muitas horas de audição de excelente música dos mais variados géneros que tenho no currículo, mas também convirá dizer que se não se apura o gosto com o tempo e se continua a gostar das musiquetas que nos atiraram à cara na adolescência foi porque não se amadureceu. Nessa medida, não pecará por excessivamente simplista e falha de ambição a atitude de passar apenas o que estava nos 'hit parades', independentemente da sua qualidade? Não seria muito mais ajustado e adequado ao conceito de serviço público adoptar uma atitude mais exigente de divulgar os trabalhos que embora mais na sombra apresentem uma reconhecida valia artística? Nunca é de mais lembrar que o número de discos vendidos ou a posição que determinado tema/intérprete ocupou num qualquer top de vendas jamais foi um critério válido para avaliar a respectiva qualidade. Em todo o caso, se esse critério é bastante questionável para a música dos anos 80 e seguintes, talvez não o seja em igual grau relativamente aos anos 60 e 70. Digo isto porque muita da música mais vendida nessas décadas conseguiu resistir bastante bem ao tempo, talvez porque a criação artística ainda se fazia sem o condicionamento nefasto de ditames mercantilistas. Da era punk em diante é o que se sabe, com algumas honrosas excepções, quase sempre à margem do mercado. Em suma, grande parte da melhor música anglo-americana já estava feita quando no calendário surgiu o ano de 1980. Hoje, em 2007, essa música poderá ser antiga mas nunca será velha. Porque a boa música não tem idade! E se no caso da música clássica/erudita o público prefere Bach ou Vivaldi (falecidos há mais de 250 anos) a outros compositores temporalmente muito mais próximos, isso não deixa de ser também verdade para a música popular, no caso a anglo-americana. Leiam-se os maiores entendidos no assunto e, já agora, também os inquéritos feitos pelas revistas especializadas aos seus leitores. Os nomes que aparecem nos lugares cimeiros são invariavelmente Bob Dylan, Rolling Stones, The Doors, Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd. Ora o que todos estes nomes têm em comum foi terem começado nos anos 60 e a sua nomeação se dever a álbuns produzidos nas décadas de 60 e 70. Curiosamente, os trabalhos que alguns desses nomes posteriormente fizeram, no caso dos que perduraram, não sendo dos melhores, ainda assim continuam a ser superiores a boa parte do que foi produzido por outros nomes entretanto surgidos. Porquê então a preferência pela mediocridade quando se pode optar pela excelência? Numa rádio, usar como critério de escolha musical o que mais se vendeu numa determinada época, e sem outro factor de ponderação, será sempre o pior dos critérios. Pode ser mais fácil e dar menos trabalho mas não é, com toda a certeza, bom serviço público. E quando se trata de música o tempo é quase sempre um bom aferidor para separar o trigo do joio, quer dizer, para destrinçar o ouro do pechisbeque. Isso, claro está, quando se tem bom gosto musical. Talvez o problema da Antena 1 seja exactamente esse!
Acresce ainda que jamais se poderá aceitar que, na rádio que é paga por todos os contribuintes portugueses, os programas musicais de maior fôlego tenham por objecto exclusivo a música anglo-saxónica (nem sempre a melhor, como já foi dito) e não haja sequer um espaço musical alargado dedicado à música popular portuguesa. Na rádio pública portuguesa – friso a palavra 'portuguesa' – era o mínimo que se podia esperar. E é o mínimo que se deve exigir!

25 julho 2007

50 Anos de Canções Portuguesas

50 Anos de Canções Portuguesas é o nome uma nova rubrica musical da Antena 1, que tem a particularidade de as escolhas não serem feitas por uma única pessoa mas por diferentes figuras conhecidas da nossa praça. O conceito não é novo pois a TSF e o Rádio Clube Português, por exemplo, há algum tempo que têm espaços musicais feitos à base das preferências de pessoas exteriores à rádio. Antes, ainda, o próprio José Nuno Martins, actual Provedor do Ouvinte da RDP, no programa "O Amigo da Música", que realizou na Antena 1, já levara a cabo a experiência, para a música latina, não só com figuras públicas mas também com ouvintes anónimos. O que distingue esta rubrica, a meu ver positivamente, é ter como âmbito a música portuguesa e de ter o propósito (louvável) de dar uma panorâmica do que de melhor se fez em Portugal na área da canção (e da música instrumental), no último meio século. Poderá questionar-se a baliza de 50 anos, que deixa de fora o repertório gravado antes de 1957, algum do qual digno de interesse (designadamente na área do fado), mas terá de se reconhecer que esses registos não apresentam, na sua maioria, a qualidade sonora desejável para os ouvidos de hoje.
Não obstante, há outros aspectos que deveriam ser tidos em atenção. Em primeiro lugar, constata-se que os convidados são quase todos residentes na zona de Lisboa, coisa que se compreenderia se a Antena 1 fosse uma rádio local mas já não se pode aceitar numa estação nacional e, ainda por cima, pública. Porto, Braga, Coimbra, Castelo Branco, Santarém, Évora e Faro também são Portugal e nessas (e noutras) localidades há com toda a certeza muitos e bons apreciadores da nossa melhor música que poderiam dar um contributo muito válido no sentido de uma amostragem mais rica e heterogénea da canção portuguesa (não erudita) das últimas cinco décadas. E digo isto porque, analisando as mais de 40 canções já transmitidas, saltam à vista omissões flagrantes de alguns nomes de referência da música portuguesa (Luiz Goes, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, Pedro Barroso, Luís Cília, Janita Salomé, Amélia Muge, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Realejo, etc.). Dando o benefício da dúvida de que entre as escolhas ainda não radiodifundidas haja temas destes intérpretes (e de outros), mesmo assim temo que, quando terminar a rubrica, a lista de canções no seu conjunto venha a evidenciar lacunas imperdoáveis de canções/intérpretes maiores da nossa música. Já deu para perceber que José Afonso, Amália Rodrigues, Carlos do Carmo e Sérgio Godinho vão ser recorrentes nas escolhas das figuras auscultadas, mas sem por em causa a excelência desses cantores, uma lista dominada por quatro ou cinco intérpretes (inclusive com temas repetidos), além de não dar uma amostragem abrangente e equilibrada da música nacional digna de figurar numa antologia do tipo "As 100 Melhores Canções Portuguesas", peca também por não fazer justiça a outros intérpretes de mérito incontestado.
Outro ponto que também merece reparo é a não repetição da rubrica noutros horários, sobretudo à tarde, por forma a chegar a um público mais vasto e diversificado. E claro está que independentemente disso, nada obsta que a Antena 1 passe, uma vez por outra, nos alinhamentos de continuidade, as canções/intérpretes da afeição dos ilustres convidados do apontamento "50 Anos de Canções Portuguesas". Aliás, o facto de praticamente todas essas canções não fazerem parte da playlist é bem demonstrativo do modo negligente como a estação estatal tem tratado o património musical português. Isto para já não falar da notória permeabilidade da rádio pública (especialmente as Antenas 1 e 3) aos interesses comerciais das editoras mais poderosas e da criminosa marginalização de alguma da melhor produção actual, quer de nomes credenciados quer de projectos novos.

03 julho 2007

Notas do Provedor: programa da manhã da Antena 2 ("Império dos Sentidos")

«Alberto Ramos – A "pressão informativa" do "Império dos Sentidos" (como lhe chamou um Ouvinte) não constituirá, portanto, a única razão para os lamentos dos Ouvintes, quanto ao afirmado desequilíbrio entre Voz falada e Música.
José Nuno Martins – O conteúdo e a natureza dos textos e dos improvisos – de acordo com o que o Director-adjunto da Estação considerou aqui, na semana passada, estar "em linha com os parâmetros duma rádio cosmopolita que, pelo facto de ser erudita, não tem que se alhear do mundo", também são contestados por Ouvintes.
Isabel Bernardo – O processo utilizado nas "manhãs" de uma Rádio generalista pode ser precisamente, o de tecer um poliedro temático, que vise abranger todas as matérias, todos os Públicos, todas as idades, todos os estratos e todos os patamares de literacia, todos os padrões de gosto.
José Nuno Martins – Só que, na perspectiva dos Ouvintes queixosos, a ANTENA 2, não deve aproximar-se do modelo proposto pelas Rádios generalistas.
Isabel Bernardo – João Almeida, porventura também falando por Paulo Alves Guerra questionado pelas suas escolhas e processos no Programa, sugeria que os reclamantes não têm direito a refugiar-se numa ANTENA 2 menos permissiva ao registo dominante em toda a Comunicação social.
Alberto Ramos – Serão Ouvintes inapelavelmente classificados pelo Director, como "desiludidos da vida real", que não merecem estar entre os que, agora, segundo o mais recente estudo da Marktest, fortalecem a performance audimétrica da ANTENA 2, no período da manhã.
José Nuno Martins – Mas, deste modo, aproximando-se do modelo dominante, outra coisa não seria de esperar. Aliás, até prova em contrário, essa parece ser a única estratégia definida para os três canais nacionais do Serviço Público – conquistar audiências a todo o custo.
Nem que seja à custa do Serviço Público. Ou nem que seja à custa do respeito pela identidade própria e tradicional de cada Estação, ou da sensibilidade específica e das expectativas de cada uma das faixas de Públicos que, ao longo do dia, escolhem ouvir cada uma delas...
Alberto Ramos – Hoje o Provedor do Ouvinte pediu a opinião de João David Nunes, com 59 anos, depois de muitos de carreira profissional notável, é considerado como autoridade inquestionável no campo da Programação e da Gestão de Comunicação.

[João David Nunes - "Falar ... erro de casting" 02:42]

José Nuno Martins – Segundo a opinião de João David Nunes, o projecto de propor ao Público matinal da ANTENA 2 a actuação de um Jornalista pode, portanto, ter sido uma escolha pouco feliz.
O alinhamento de "Império dos Sentidos" configurava, na altura da análise efectuada, um conjunto de elementos mais adequados a uma Programação generalista, com muita Palavra improvisada, Encontros pessoais, Notícias repetidas e deslocadas do alvo, revistas de Imprensa nacional e internacional, generalista ou desportiva, promoções e autopromoções. E isso sim me parece ser um erro de interpretação, talvez decorrente da formação dos seus autores.
Ainda voltarei a este assunto porque a configuração de "Império dos Sentidos" – pouco alterada desde Abril – não está acordo com a expectativa manifestada pela muito expressiva maioria dos Ouvintes que se me dirigem.
A RDP aliás, parece querer padronizar as suas três ofertas nacionais – ANTENA 1, ANTENA 2 e ANTENA 3 – através de bitolas processuais e estéticas, de naturezas demasiado semelhantes entre si. Globalizando, em vez de acentuar as diferenças de estilos e de Públicos-alvo. E generalizando, ao invés de especializar, destrinçar e distinguir as suas propostas.
Contudo, a ANTENA 2 está definida nos textos legais como uma Rádio (vou citar) "de índole cultural, respeitando padrões exigentes de qualidade em termos de estética, de conteúdo e tecnológicos, vocacionada para a transmissão de programas de música erudita, atenta às suas manifestações (...), interessada em fomentar o conhecimento e o gosto pela música (...)". Além disso, segundo o texto do seu Contrato, a ANTENA 2 tem ainda como pressuposto para a sua actividade, a função de responder "aos interesses minoritários das diferentes categorias do Público".» (José Nuno Martins, in "
Em Nome do Ouvinte", 29-06-2007)


Não podia estar mais de acordo com estas palavras do Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins. Agora espero que quem tem poder de decisão saiba tirar as devidas ilações e aja em conformidade. Por exemplo, urge que seja feita a monitorização do serviço prestado pelos diversos canais da RDP – em especial pelas Antenas 1, 2 e 3 –, e averiguado com objectividade o grau de infracção – quantitativo e qualitativo – das disposições constantes no contrato de concessão de serviço público celebrado entre o Governo e a Rádio e Televisão de Portugal. E para que essa avaliação não passe de uma mera formalidade sem consequências – como é usual entre nós –, é necessário que haja a efectiva responsabilização dos autores pelo incumprimento das obrigações contratualmente assumidas.

29 junho 2007

"Teatro Imaginário": ciclo Eduardo Street na Antena 2

Em 27 de Dezembro de 2006, na triste hora em que Eduardo Street nos deixava, chamei a atenção da direcção da Antena 2 para a importância do riquíssimo acervo de peças por ele realizadas voltar a ser transmitido. Agora que vai começar um ciclo de teatro radiofónico realizado por Eduardo Street, cabe-me saudar a iniciativa levada a cabo pela direcção de programas. Não obstante, parece-me muito limitativo restringir esse ciclo aos meses de Verão, o que dá cerca de uma dúzia de peças. Muito pouco se atendermos às mais de quatrocentas que foram feitas sob a sábia orientação de Eduardo Street. Porque não um ciclo anual ou plurianual? E volto a lembrar que, sem prejuízo da retransmissão hertziana, urge que todo o acervo de teatro radiofónico (de Eduardo Street e de outros realizadores) seja desenterrado do arquivo histórico da RDP e colocado na internet.
Eis as peças escolhidas para o mês de Julho:

1 de Julho – Um Auto para Jerusalém, de Mário Cesariny de Vasconcelos
8 de Julho – A Vida é Sonho, de Calderón de La Barca
15 de Julho – É Urgente o Amor, de Luiz Francisco Rebello
22 de Julho – O Fidalgo Aprendiz, de D. Francisco Manuel de Melo
29 de Julho – Auto dos Anfitriões, de Luís de Camões

Domingos, às 18 horas.

19 junho 2007

Arquivo online da RDP: porquê a retirada do histórico?

Em 02 de Junho de 2006, tive ocasião de saudar o arranque do arquivo online da RDP ao mesmo tempo que sugeria que esse serviço fosse complementado e enriquecido com o histórico dos programas em antena e também de outros programas e conteúdos de inegável interesse cultural guardados no arquivo da RDP. Contudo, não só a minha proposta foi ignorada como, recentemente, foi feito precisamente o contrário ao ser retirado o histórico dos diversos programas até 20 de Maio de 2007. Talvez seja algo despropositado manter online determinadas rubricas e programas fortemente marcados pela actualidade, mas quanto aos conteúdos que não perdem interesse com o passar do tempo faz todo o sentido que continuem disponíveis. É, por exemplo, o caso da rubrica de poesia "Os Sons Férteis" e dos programas "Lugar ao Sul" e "Questões de Moral". Então por que motivo se retira o histórico desses programas da internet quando o desejável era que o mesmo fosse completado? Se o Departamento de Multimédia da Rádio e Televisão de Portugal e ou a administração acham que as contribuições dos ouvintes não chegam para facultar no seu site o historial completo dos melhores programas da rádio pública, ao menos que tenham a iniciativa de criar um site autónomo para o efeito. E já nem falo dos portais que facultam alojamento gratuito de conteúdos áudio.
Volto a lembrar que é um crime contra a cultura e contra a memória que os valiosíssimos conteúdos áudio da RDP não estejam acessíveis a quem os deseje fruir. Tanto mais que esse material não é propriedade dos actuais decisores da Rádio e Televisão de Portugal mas antes um bem público. Bem público que além se ser útil aos ouvintes em geral tem também um indiscutível interesse para o ensino, principalmente nas áreas da poesia, das tradições musicais, da História e reflexão histórica e do teatro. A inexistência de um arquivo online do teatro radiofónico realizado pelo saudoso Eduardo Street, por exemplo, representa uma falha clamorosa e imperdoável do serviço público. Urge que essa lacuna seja colmatada, quanto mais não seja pela importância que um arquivo fonográfico de teatro na internet representa como ferramenta lectiva, no sistema de ensino, quer no estrita área do teatro quer no domínio da língua portuguesa, designadamente ao nível da correcta pronúncia, da sintaxe e do enriquecimento vocabular. E já agora, deixo uma sugestão: em complemento aos fonogramas seria pertinente que fossem disponibilizados os textos, de modo a conferir à página um adicional valor didáctico e pedagógico.

31 maio 2007

Antena 2: uma rádio afónica

Desde que o programa da manhã da Antena 2, agora com o nome (kitsch e aberrante!) de "Império dos Sentidos", foi infestado de palavreado oco e estéril, a minha assiduidade na sua audição passou a ser mais esparsa. Hoje, por acaso, foi um dos dias em que procurei a sintonia da rádio clássica portuguesa, mas julguei que me tinha enganado. A primeira impressão com que fiquei foi a de que estava a ouvir uma rádio pirata feita por curiosos e em tom de brincadeira. Mas não! Para meu espanto tratava-se mesmo a Antena 2! Quem fazia a locução era a pessoa do costume – Paulo Alves de Guerra – só que afónico. Ora, eu julgava que para se estar aos microfones de uma rádio, a condição básica e essencial era a voz estar em perfeitas condições de audição e percepção, isto para além de outras qualidades como a colocação, a dicção e o timbre. Julgava também que tanto os locutores que trabalham na rádio pública como a direcção de programas tivessem conhecimento dessa coisa elementar. Mas considerando o que se passou hoje essa minha suposição é capaz de ser muito optimista. Gostaria de deixar claro que não culpo Paulo Alves Guerra pela afonia: isso acontece a qualquer um. Mas confesso que esperava uma atitude diferente da sua parte, em vez de fazer figuras tristes e deploráveis. Se não estava em condições, a única decisão que devia tomar era comunicar aos seus superiores hierárquicos que não podia fazer a locução e pedir que o substituíssem até que melhorasse. Ao invés, fez de conta que não se passava nada, revelando não só falta de brio profissional como uma tremenda falta de respeito pelos ouvintes que são afinal quem lhe paga o salário. Para cúmulo, a direcção de programas também fez de conta que estava tudo normal. Se Paulo Alves Guerra não conhece os limites da decência e ética profissional, seria expectável que da parte da direcção de programas alguém pusesse cobro à situação, retirando-o de antena e entregando a locução a outrem. Mas não! Porque é que Rui Pêgo e João Almeida ficaram quedos e mudos? Será que ainda estavam a dormir? Ou se estavam já acordados, o que é que andavam a fazer?
Nem nos meus piores pesadelos, alguma vez sonhei que a rádio clássica viesse a chegar a este estado de degradação. Não há ninguém responsável que deite mão à Antena 2?

29 maio 2007

"Lugar ao Sul" sofre novo ataque

Em Setembro de 2005, o Sr. Rui Pêgo, então novel director de programas da Antena 1, ao mesmo tempo que amputava o programa "Lugar ao Sul" para metade do tempo de emissão, na manhã sábado, decidia, em jeito de compensação, criar uma edição nocturna, mais concretamente depois da meia-noite de segunda-feira. Como tive oportunidade de lhe comunicar, na ocasião, tal horário parecia-me algo adiantado pois sabia que muitos dos fiéis ouvintes faziam um grande sacrifício para não perderem o programa. Infelizmente, e como já se tornara hábito com os seus antecessores, o Sr. Rui Pêgo limitou-se a fazer orelhas moucas às reclamações que eu e outros ouvintes lhe fizemos chegar. E assim, o programa lá continuou e, ainda que com sacrifício do seu merecido sono, muitos ouvintes continuaram a ouvi-lo. Até ao dia de ontem, data em que deixa de constar na referida faixa horária sendo recambiando – pasme-se! – para depois da 1 hora da madrugada (de domingo para segunda-feira). A que ouvintes é que a actual direcção de programas quer chegar com tão estrambólico e inusitado horário? Aos condutores dos carros do lixo? Aos padeiros? Aos guardas-nocturnos? Com o devido respeito por aqueles profissionais e por quem exerce outras actividades durante a madrugada, não posso deixar de contestar a alteração agora efectuada por ser flagrantemente inadequada e falha de razoabilidade. Para atender ao público residual que ouve a Antena 1 depois da 1 hora da madrugada faz sentido privar muitos dos ouvintes que costumavam ouvir o "Lugar ao Sul" no horário anterior, já que o novo horário se torna de todo impraticável?
Por outro lado, quando o Sr. Rui Pêgo decide colocar – e muito bem – o programa "Escrita em Dia", às 23 horas, fazia toda a lógica que o "Lugar ao Sul" transitasse também para a mesma faixa horária. Mas não! É atirado para um buraco negro, dando a entender que se trata um programa malquisto e perfeitamente dispensável na grelha. Eu e muitos outros ouvintes que sabem apreciar o valoroso trabalho de Rafael Correia não podemos, de forma alguma, subscrever essa visão. Como tal, faço votos para que a direcção de programas tenha o bom senso de corrigir a infeliz decisão, e trate o programa de forma mais digna, não só em reconhecimento do emérito profissional que é Rafael Correia mas sobretudo pelo respeito que é devido aos ouvintes/contribuintes da rádio pública. Se a direcção de programas teimar em não atender as justas reclamações dos ouvintes, só espero que o Sr. Provedor do Ouvinte, José Nuno Martins, tenha em consideração tais procedimentos quando lhe for pedido um relatório sobre o exercício da actual direcção de programas. A não ser que para ele a palavra ‘independente’ não tenha o significado que vem nos dicionários!

26 maio 2007

"Novidades" na Antena 1

Leio em A Rádio em Portugal e não quero acreditar:
a Antena 1 vai fazer emissões matinais desde cafés emblemáticos Portugueses: Majestic, no Porto; Martinho da Arcada, em Lisboa; Café de Santa Cruz, em Coimbra, etc. Estes são alguns dos locais onde vai ser possível ver e ouvir, ao vivo, a Antena 1. Esta é a principal novidade do principal canal público de rádio. (Sublinhado meu)

Novidade??? Principal???

Mas não foi com as Direcções da Antena 1 nomeadas pela actual administração da RDP que acabaram (eram saloices, por certo!!!) este tipo de emissões a que a Antena 1 dos tempos de José Manuel Nunes sempre atribuiu um grau de prioridade e regularidade? Após quatro anos de play lists e enlatados é que os actuais responsáveis da RDP descobrem que é preciso voltar a colocar
a rádio pública mais próxima dos seus ouvintes?

A novidade consiste na repetição da itinerância do Sena Santos (07h00/10h00) e do Rui Dias José (17h00/19h00) pelas mesmas terras (e pelo mesmíssimos cafés!!!) que agora são anunciados. Bem há uma diferença de peso: na altura as emissões em Lisboa tiveram por cenário o café e a esplanada do "Nicola", agora fecham-se dentro do "Martinho da Arcada". Desta vez, para inovar, em Faro deve ser no "Aliança" ou no "Seu Café", em Évora no "Arcada", e, se fossem à Madeira, lá estariam o "Apolo". Novidades e criatividades de uma rádio que já não tem o Sena Santos, que despediu o Rui Dias José e... deu com ela a descobrir que há país para além dos muros da RTP.

Bem... vale mais tarde do que nunca... e o Director de Programas da RDP não poupa autocríticas em relação ao actual figurino da Rádio Pública:
«Queremos recuperar o contacto com as pessoas. A rádio é uma plataforma de difusão e de troca de ideias e isso tem que ser feito no exterior»,afirmou o director de programas da RDP, Rui Pêgo, num encontro com jornalistas. (citação "Lusa", a partir do site do "Sol").

Vai mais longe Rui Pego no reconhecimento do estado a que as coisas chegaram na Antena 1:
«A rádio tem estado fechada em si, fechada no estúdio. Queremos recuperar a mobilidade da rádio», reforçou o responsável, adiantando que a Antena 1 está a planear outras emissões especiais no exterior. (idem)

novidades... numa rádio que à força de querer copiar as "comerciais" até se esqueceu onde fica o país. E agora, apressadamente, pretende arrepiar caminho e assobiar para o lado como se nada tivesse acontecido.

O que é que estará a pensar disto tudo o anterior presidente do Conselho de Administração da RDP? Triste? Divertido? Ou tem mais que fazer e com que se preocupar?

19 maio 2007

"Ritornello" é mais um sintoma...

Na política de terra queimada em que se transformou a Rádio Pública, não admira a ninguém o que aconteceu a Jorge Rodrigues e ao seu Ritornello.

Gente que nem suspeitava o que era o Serviço Público é colocada à frente da RDP e em nome de números de audiência (sem qualquer validade científica, estatística ou, sequer, instrumental) vai imitar (mal) os modelos das privadas - as tais que têm de sobreviver com os dinheiros da publicidade e hoje (em muitos casos) asseguram tanto de Serviço Público como as da RDP. Só que não recebem nada por isso, nem têm direito a qualquer parcela do Imposto para o Audiovisual!

A Antena 2 está quase reduzida a este triste espectáculo. A Antena 1 nem sabe onde é que fica o país que a sustenta. Silenciados uns, intimidados outros, pressionados a sair mais alguns... Profissionais como Graça Vasconcelos ou Cardoso Pinto (quem não lembra aquela forma de dizer poesia) são empurrados para a antecipação da reforma. Rui Dias José, após dois anos sem trabalho, foi despedido por não cumprir horário de trabalho(!!!) e aguarda agora que o tribunal reconheça a sua razão.

Por isso é que eu digo que os protestos em situações destas não se podem ficar apenas pelas tais peticões electrónicas que embora subscritas por milhares são olímpicamente ignoradas (ver Petição 1 e Petição 2 - estão lá nomes que agora são do Governo e nada fizeram para evitar fosse o que fosse!).

É urgente lançar um debate sério acerca da utilidade, da necessidade e das funções da Rádio Pública e do destino a dar aos montantes que resultam do Imposto para o Audiovisual, cobrado no recibo da electricidade.

18 maio 2007

"Ritornello": um programa barbaramente assassinado

O programa "Ritornello", que Jorge Rodrigues vinha realizando e apresentando na Antena 2, desde há onze anos, acaba de ser barbaramente assassinado pela administração da Rádio e Televisão de Portugal, em conluio com a direcção de programas. Preferia ter-me enganado, mas a verdade é que as inquietações que eu próprio manifestei em 10 de Janeiro de 2007 faziam todo o sentido: o modo como Jorge Rodrigues e o seu programa vinham sendo tratados por Rui Pêgo e pelo seu adjunto João Almeida prenunciava o pior. E o pior acabou mesmo por acontecer: a vil extinção de um programa modelar e a criminosa irradiação do emérito profissional de rádio que dá pelo nome de Jorge Rodrigues. Há vários meses que venho chamando a atenção para a vaga de mediocridade que submergiu a Antena 2, mas parece que ninguém me deu ouvidos. Os resultados estão à vista: a Antena 2 oferece neste momento um dos piores serviços de que há memória.
Como contribuinte do serviço público de rádio, não podia deixar de contestar a infeliz decisão agora tomada e de manifestar o meu veemente protesto por, enquanto ouvinte, me terem retirado a possibilidade de fruir de programas realizados por Jorge Rodrigues, um profissional de alto gabarito – insisto em afirmá-lo. Ao ouvir-se o vulgar e banal programa que ocupa agora o lugar do "Ritornello" torna-se bem evidente a falta que Jorge Rodrigues nos vai fazer. Pela parte que me toca, na faixa horária 18-19 horas, a Antena 2 deixará de ser uma das minhas opções auditivas, tal como já deixara de ser entre as 19 e as 20 horas. Neste caso, não tanto pelo formato do programa mas sobretudo pelo confrangedor serviço de locução dos aprendizes a quem foi confiada a apresentação. Resta-me fazer votos para que não dispensem também os serviços de Joel Costa e de Paulo Rato. Afinal de contas, já não falta muito para que a terra fique totalmente queimada, para gáudio dos Liliputianos que não descansam enquanto não se virem livres de todos os que têm uns bons palmos acima da sua estatura rasteira.

Nota: Está a decorrer uma
petição para que o "Ritornello" seja reposto. Quem apreciava o trabalho de Jorge Rodrigues não pode deixar de assinar!

17 maio 2007

Galeria da Música Portuguesa: Janita Salomé



João Eduardo Salomé Vieira nasceu na vila alentejana de Redondo, a 17 de Maio de 1947. Filho de José Vieira, ourives, relojoeiro e marceneiro, e de Sofia Salomé, doméstica, Janita, como ficará afectuosamente conhecido, é o mais novo de cinco irmãos todos eles herdeiros de uma forte tradição musical familiar. A mãe, excelente cantora, e o pai, que tocava bandolim e cantava o fado de Coimbra, incutiram nos filhos o gosto pela música, a tal ponto que todos eles passariam, amadora ou profissionalmente, por carreiras musicais (Vitorino será o que alcançará maior notoriedade).
Apesar de cantar desde os 9 anos de idade, a veia artística de Janita só é verdadeiramente assumida aos 16 anos ao ingressar, como baterista e vocalista, no conjunto Planície, um grupo de baile constituído pelos seus dois irmãos mais velhos Zezinho e Baíco (Manuel), e ainda Evaristo Carrajeta, Abílio Delca, Magalhães e Manuel Monarca.
Em 1965, aos 18 anos de idade, Janita ruma a Lisboa para trabalhar como funcionário judicial no Tribunal da Boa Hora e, passados dois anos, é recrutado para o serviço militar sendo mobilizado para a guerra colonial em Moçambique. «Na cidade de Tete havia serviços recreativos do exército que promoviam espectáculos e procuravam entre os militares quem mostrasse as suas artes, e eu participei num espectáculo desses. Cantei um poema de Manuel Alegre, "As Mãos", e logo a seguir mandaram-me prender». Mas acabou por não ficar detido: «Quem me safou foi um cabo enfermeiro que conhecia bem o comandante da região operacional...».
No regresso de África, em 1972, fixa-se no Redondo, para trabalhar como ajudante de notário e passa a integrar os Vagabundos do Ritmo, um grupo de baile que se dedica a tocar versões de êxitos românticos da altura e de nomes estrangeiros como Bee Gees e Beatles. Ainda sem um caminho musical definido, será depois do 25 de Abril de 1974 que Janita encontrará o seu rumo ao encontrar-se José Afonso que o inspira a investigar e a trabalhar a tradição musical popular. Durante dois anos participa como acompanhante do autor de "Grândola, Vila Morena" em numerosos espectáculos, comícios e sessões de esclarecimento. Em 1976, participa como cantador e alto em "Semear Salsa ao Reguinho", o primeiro álbum do irmão Vitorino com quem continuará sempre a colaborar quer em discos quer em actuações ao vivo.
Em 1977, funda com Vitorino e os outros irmãos um grupo que se dedica a perpetuar a tradição do cante alentejano, os Cantadores de Redondo, cuja actividade se mantém até aos dias de hoje. Gravam o disco etnográfico "O Cante da Terra", editado em 1978. Em 1980, dá-se nova revolução na vida de Janita: abandona o emprego na função pública e profissionaliza-se como músico. Motivo: um convite de José Afonso para integrar o grupo que o acompanhava em palco, substituindo Henri Tabot nas guitarras (Júlio Pereira e Guilherme Inês são os outros músicos de Zeca). No mesmo ano, grava o seu primeiro disco em nome próprio, "Melro", para a Orfeu, com a supervisão técnica de Moreno Pinto e Jorge Barata. Incluindo um tema da sua autoria ("Alvorada em Abril") e outro de Vitorino ("Homens do Largo"), o disco é composto de duas partes distintas: uma dedicada à música de matriz alentejana e outra, numa inesperada opção, a fados de Coimbra (de António Menano, Francisco Menano e António de Sousa), cujo gosto lhe fora incutido pelo pai na juventude. Realce também para o tema "Poema para Florbela", em que Janita musica e canta um poema de Manuel da Fonseca, também ele um alentejano de gema. Com direcção musical de José Afonso, Vitorino e Janita Salomé, o álbum tem a participação instrumental de Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa, campaniça e viola), Sílvio Pleno (clarinetes), Luís Caldeira Cabral (flautas), Vitorino, Carlos e Janita Salomé (adufes e trancanholas). Nos fados de Coimbra, os acompanhadores foram Octávio Sérgio (guitarra), Durval Moreirinhas e Fernando Alvim (violas). Lançado em plena explosão do rock português, o álbum passa relativamente despercebido: Janita ainda é olhado como «o irmão do Vitorino».
Faz digressões no estrangeiro com José Afonso, Pedro Caldeira Cabral e Vitorino, e participa, em 1981, nos álbuns "Cavaquinho" e "Fados de Coimbra e Outras Canções", respectivamente de Júlio Pereira e José Afonso. E será justamente nesse ano, em Paris, quando acompanhava José Afonso, que tudo se torna claro. Janita assiste, deslumbrado, a um concerto de um grupo de Marrocos e aí nasce a sua paixão pela música árabe. Encontra finalmente a estrela que norteará a sua música: a procura dos laços que unem a tradição popular alentejana com a música tradicional magrebina, numa meritória tentativa de trazer à tona os vestígios deixados na nossa música pelos Árabes durante os séculos em que permaneceram na Península Ibérica, mais concretamente no território que hoje constitui o sul de Portugal. Em Fevereiro de 1982, faz a primeira viagem ao Norte de Africa, a que se seguirão outras. Janita conta: «Em Marrocos descobri o ancestral do Alentejo, de alguma forma, na fisionomia daquela gente, na maneira de estar, na gastronomia e deixei-me envolver e trouxe comigo tudo isso, toda essa experiência – aprendi inclusive a tocar todos aqueles instrumentos, aprendi muitas técnicas com músicos, camponeses magrebinos». E assim nasce o LP "A Cantar ao Sol", gravado por António Pinheiro da Silva para a Valentim de Carvalho, nos Estúdios de Paço d’Arcos. Lançado em Dezembro de 1983, este segundo álbum de Janita tem uma repercussão bem superior à do disco de 1980. Com produção de João Gil (na altura, músico do grupo Trovante) e composições do próprio Janita Salomé, nos temas de autor, o trabalho conta com a participação instrumental de Júlio Pereira (violas acústicas, braguesas, ovation), Pedro Caldeira Cabral (alaúde, ghaita), Sérgio Mestre (flauta), José Manuel Marreiros (piano), Carlos Zíngaro (violino) e Janita Salomé (percussões). Era desejo de Janita associar ao trabalho músicos de Casablanca, que conhecera nas suas viagens, mas devido a questões orçamentais isso acabou por não se concretizar. Além dos temas tradicionais ("Extravagante", "Pavão", "S. João" e "Saias") fazem parte do alinhamento: "Tardes de Casablanca" (poema de Hipólito Clemente), "Cantar ao Sol" (poema de João Manuel Pinheiro), "Não É Fácil o Amor" (poema de Luís Andrade Pignatelli à vide em baixo), "Quando Chegou a Lua Cheia" (poema de Janita Salomé), e "Na Palestina" (instrumental com vocalizos). A apresentação do trabalho dá-se num espectáculo realizado na Aula Magna que esgota a lotação. O álbum é considerado um dos melhores trabalhos da música popular portuguesa do ano e vale a Janita Salomé três prémios: Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e) na categoria de música popular/tradicional e Prémio Revelação das revistas "Música & Som" e "Nova Gente".
Em 1985, e dando continuidade à exploração das raízes árabes, Janita grava o álbum "Lavrar em Teu Peito", para EMI-Valentim de Carvalho, sob a supervisão técnica de António Pinheiro da Silva. Novamente com produção de João Gil e composições de Janita Salomé, o disco conta ainda com as participações de José Peixoto (arranjos, viola, alaúde, caixa de arroz), Júlio Pereira (violas), Paulo Curado (flauta), Pedro Caldeira Cabral (charamela, lira e flauta indiana, viola campaniça), Rui Júnior (maraca e prato), Fernando Júdice (contrabaixo), José Manuel Marreiros (piano), e ainda os irmãos Vitorino e Carlos Salomé. Janita, por seu lado, toca diversos instrumentos árabes de percussão – bendir, taarija e darabuka. Os poemas são de Luís Andrade Pignatelli ("Como se fosses de linho doce...", "O que ficou no ar parado..."), Hipólito Clemente ("Árvores no Deserto"), José Bebiano ("O Poder"), António José Forte ("Poema") e Al-Mu’tamid ("A uma escrava que lhe ocultou o Sol"), insigne poeta do séc. XI, nascido em Beja, e considerado um dos maiores vultos culturais do Al-Andaluz. O poema de Al-Mu’tamid foi retirado do livro "Portugal na Espanha Árabe", do historiador António Borges Coelho, uma importante fonte de inspiração do cantor. O álbum integra também uma versão do tema "Mulher da Erva", de José Afonso, e ainda de "E Alegre se Fez Triste" (com poema de Manuel Alegre), primeiramente cantado por Adriano Correia de oliveira, prematuramente desaparecido em 1982. Do alinhamento fazem ainda parte dois temas populares alentejanos ("Moda da Lavoura" e "Saias") e "Conta-me contos, ama…", um belíssimo tema a capella sobre poema de Fernando Pessoa, composto para a peça "O Esfinge Gorda", de Mário Viegas. Curiosamente, o grande actor também participa no álbum recitando o poema "O Poder", de José Bebiano. Em entrevista a Fernando Sobral (Diário de Notícias, 15.10.1985), Janita chama a atenção para a importância do legado árabe na nossa tradição oral: «Há toda uma cultura de transmissão oral que vai ficando e que chega até nós. Na fúria da reconquista cristã tudo o que pertencesse aos Mouros era destruído e queimado. Eram os Infiéis. Mas alguma coisa ficou. Para além da cultura registada, fabricada, havia uma cultura anónima, popular, que foi ficando. E os árabes legaram-nos uma cultura muito rica que não tem sido reconhecida, mesmo ao nível do ensino. Espero que este meu álbum, "Lavrar em Teu Peito", contribua um pouco para que esta situação se inverta.»
Em 1985, Janita é um dos principais colaboradores, como cantor e instrumentista (darbuka e adufe), na gravação do álbum "Galinhas do Mato", de José Afonso, que devido à doença já não conseguiu cantar todos os temas. "Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação" são os temas a que Janita empresta a sua inconfundível voz.
Em 1987, grava "Olho de Fogo", o seu quarto álbum a solo, editado pela Transmédia. Com produção e direcção musical de José Mário Branco e a colaboração de José Peixoto e João Lucas nos arranjos, Janita canta poemas da sua autoria ("Azul Branco", "Quando a luz fechou os olhos"), de Luís Andrade Pignatelli ("Os Amantes", "Cantata"), José Bebiano ("Poema") e continua a resgatar a poesia do Al-Andaluz: Ibn Sara ("Estrela Cadente", "O Zéfiro e a Chuva") e Al-Mu’tamid ("Ao Passar Junto da Vide"). Integram também o alinhamento duas versões de temas tradicionais ("Senhora do Almortão" e "Saias do Freixo em Gibraltar"). Entre os instrumentistas, além de Janita Salomé (bendir, darbuka, adufe) e José Mário Branco (harpa sequenciada, sintetizador, timbalão) contam-se João Lucas (piano, sintetizadores), José Peixoto (guitarra acústica, baixo, harpa sequenciada, piano-marimba), Irene Lima (violoncelo), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Flores (contrabaixo), António Serafim (oboé), Paulo Curado (flauta, sax soprano e tenor), Tomás Pimentel (trompete, flugelhorn), José Martins (percussões), entre outros. Nas vozes colaboraram os irmãos Vitorino e Carlos Salomé e as filhas de Janita, Marta e Catarina Salomé. De assinalar também o arranjo da compositora Constança Capdeville em "Senhora do Almortão", tema tradicional da Beira Baixa, a região de Portugal que, segundo os etnomusicólogos, melhor conseguiu conservar a influência árabe (adufes, por exemplo). A apresentação pública do disco terá lugar na Aula Magna (Lisboa) e no Teatro Carlos Alberto (Porto). O álbum vale ao cantor o Troféu Nova Gente para o melhor intérprete masculino de música ligeira. No tocante a actuações no estrangeiro, realce para a participação no Printemps de Bourges (França), numa noite ibérica, e ainda quatro concertos em Madrid.
A ruptura com a Valentim de Carvalho, por iniciativa do artista, tem como consequência um interregno de quatro anos na edição de discos. Durante esse período, de 1987 a 91, e embora continue a dar concertos a solo ou ao lado de Vitorino, Janita explorará uma nova modalidade artística, o teatro, quer compondo música para algumas produções, quer surgindo inclusive como actor do grupo A Barraca, desempenhando o papel do cigano Miguel, na peça "Margarida do Monte", de Marcelino Mesquita. Para esta encenação de Hélder da Costa, Janita musica também dois temas, "Cante Cigano" e "Margarida no Convento" (posteriormente incluídos no álbum "Lua Extravagante"). Uma experiência que, em boa verdade, revisitou depois de ter deixado a sua marca na banda sonora do filme "A Moura Encantada" (1985), com realização de Manuel Costa e Silva e argumento de António Borges Coelho, bem como no documentário "O Pão e o Vinho" (1981), realizado por Ricardo Costa, em que participou como actor.
Em 1991, Janita regressa aos estúdios para gravar "A Cantar à Lua", para a Edisom, um álbum exclusivamente dedicado ao fado de Coimbra. Após a exploração das pontes com a cultura árabe, um mergulho na memória pessoal através da canção coimbrã dos anos 20 e 30, que aprendera com o pai. Acompanhado nas guitarras por António Brojo e António Portugal, dois guitarristas históricos de Coimbra, e nas violas por Luís Filipe Ferreira e Humberto Matias, Janita Salomé interpreta clássicos como "Crucificado" (Fortunato Roma da Fonseca / Edmundo de Bettencourt), "Canção do Alentejo" (Popular / Edmundo de Bettencourt), "Fado dos Passarinhos" (Francisco Menano / António Menano), "Fado de Anto" (António Nobre / Francisco Menano), "Samaritana" (Álvaro Leal / Edmundo de Bettencourt) e "Fado das Fogueiras" (Augusto Gil / Francisco Menano).
No mesmo ano, sai o álbum "Lua Extravagante", onde Janita surge ao lado de Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais, num projecto vocacionado para o cruzamento da música tradicional portuguesa com a urbana. Além dos temas "Cante Cigano" e "Margarida no Convento", inicialmente compostos para a peça "Margarida do Monte", Janita contribui para o disco com um inédito, "A Bela do Castelo Sem Portas", escrevendo a letra e a música. O grupo dará um concerto em Lovaina, Bélgica, que será transmitido pela rádio pública daquele país. Sobre este belo disco escreveu Fernando Magalhães (Público, 11.12.1991): «Música lunar. Da noite e das marés da voz, Vitorino, Janita e Carlos Salomé, e Filipa Pais cantam o lado nostálgico do ser português. É um disco de canto sofrido, de doridas harmonias. É também a prova de que é possível, em Portugal, fazer discos que voltam as costas à moda e ao efémero. Em "Lua Extravagante" não há canções que pisquem o olho à salada radiofónica. Há somente, e não é pouco, a dignidade do canto e da música vivida por dentro. A transmissão de experiências que dizem da maneira como costumávamos ser. Cruzam-se vivências da cidade (Lisboa, sempre presente, até nos antigos azulejos da cervejaria Trindade, que a capa, belíssima retrata) e do campo. As palavras do povo encontram-se com as do poeta Pessoa, no fado e na distância. Em frente, o escuro da noite e a ilusão do mar.»
Em 1992, Janita participa num espectáculo na exposição mundial de Sevilha, a convite da comissão portuguesa, mas na sequência de sugestão dos organizadores espanhóis.
Em 1994, com o álbum "Raiano" (Farol Música), agora sob a produção de Fernando Júdice (viola baixo dos Trovante), Janita Salomé retoma o percurso de cruzamento das tradições populares portuguesas e andaluzas, tendo como pano de fundo a marcada influência árabe no sul peninsular. «As nossas raízes passam muito pela presença dos povos na Península Ibérica. Eles deixaram muitas marcas da sua cultura e eu, neste percurso, deixei-me fascinar pela história e tenho continuado a procurar as nossas origens através da cultura árabe». Exceptuando o tema tradicional "Extravagante", todas as músicas foram compostas por Janita Salomé que também assina a letra do tema "Do Outro Lado da Fronteira", nome que faz inteiramente jus ao título do disco. Nos restantes temas do alinhamento, Janita canta a poesia de Natália Correia ("Credo"), Carlos Mota de Oliveira ("Poema oferecido a meus amigos"), Herberto Hélder ("Ninguém tem mais peso que o seu canto"), Manuel Alegre ("Tão Pouco e Tanto", "Ciganos", "Utopia") e Manuel da Fonseca ("Poente"). Com a colaboração de Mário Delgado nos arranjos, no elenco de instrumentistas contam-se o próprio Janita Salomé (bendir, darabuka, taarija), Dudas (guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, alaúde), Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra clássica, guitarra eléctrica), José Peixoto (guitarra clássica), Paulo Jorge Santos (guitarra portuguesa), João Falcato (piano, sintetizador), Luís Branco (violino), Carlos Barreto (contrabaixo), Filipe Valentim (teclados), Paulo Jorge Ferreira (baixo eléctrico), Vasco Gil (acordeão, sintetizador), Filipa Pais (voz), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano), Alexandre Frazão (bateria), José Salgueiro (percussões) e Carlos Guerreiro (ponteiras). Este disco valerá a Janita Salomé o Prémio Blitz 94 para Melhor Voz Masculina.
Em 1996, Janita junta a sua voz às de Pedro Barroso e Manuel Freire no tema "Cantos de Oxalá", incluído no álbum "Cantos d’Oxalá", de Pedro Barroso.
Em 1997, participa no duplo álbum "Voz & Guitarra" (Farol Música), com os temas "Os Homens do Largo" e "Não É Fácil o Amor", acompanhado à guitarra clássica, respectivamente por Pedro Jóia e Mário Delgado. Participa também no álbum de Miguel Medina, "Três Estórias à Lareira" (Farol Música, 1997), cantando dois temas: "Tema do Marinheiro" e "Tema de Fernão de Magalhães".
No ano seguinte, Janita é um dos convidados especiais do grupo Frei Fado d’El Rei, na gravação do álbum "Encanto da Lua": toca bendir e faz os vocalizos do tema "Perdido em Miragem".
Janita Salomé que cumpriu o serviço militar em Moçambique, é um dos participantes no disco "Canções Proibidas: o Cancioneiro do Niassa" (EMI-VC, 1999), com as canções de campo da guerra colonial, projecto idealizado por João Maria Pinto e onde pontificam também Rui Veloso, Carlos do Carmo e Paulo de Carvalho, entre outros. Janita dá voz a dois temas: "O Fado do Miliciano" e "Erva lá na Picada", este último em parceria com João Maria Pinto. Integra também o projecto colectivo "Músicas de Sol e Lua", ao lado de Sérgio Godinho, Vitorino, Filipa Pais e Rão Kyao, cuja apresentado pública tem lugar em Bona, no Festival da Lusofonia, a 11 de Julho de 1999. Também na Alemanha, Janita integra, juntamente com Vitorino, o espectáculo de coros alentejanos que inaugura a Exposição Mundial de Hanôver, em 2000.
No mesmo ano, e ao fim de seis anos sem lançar discos, Janita regressa com o álbum colectivo "Vozes do Sul", um trabalho de celebração do cante alentejano, nas suas diferentes formas, inteiramente composto por modas tradicionais tais como "Ao Romper da Bela Aurora", "Na Rama do Alecrim", "Menina Florentina", "Cavaleiro Real", "Eu Hei-de Amar uma Pedra" e "Meu Alentejo Querido". Concebido e produzido por Janita Salomé, o disco conta com as colaborações de grupos corais e etnográficos como Grupo da Casa do Povo de Serpa, Cantadores de Redondo, Os Camponeses de Pias e As Camponesas de Castro Verde. Participam também o tocador de viola campaniça Manuel Bento, Bárbara Lagido, Catarina e Marta Salomé (filhas de Janita), Patrícia Salomé (sobrinha), Filipa Pais e Vitorino, e ainda Carlos Guerreiro (sanfona), Jens Thomas (piano), Mário Delgado (guitarra acústica, viola), Carlos Bica (contrabaixo) e músicos dos Corvos, entre outros. O disco estava pronto desde 1998 mas só saiu em 2000 porque não foi fácil arranjar editora. A edição foi da Capella, uma etiqueta ligada aos estúdios Audiopro. O álbum é distinguido, no ano seguinte, com o Prémio José Afonso, atribuído ao melhor álbum de música de inspiração popular portuguesa, o que também serve para mostrar que a maioria das editoras em Portugal estão interessadas em tudo, menos em apostar na música de qualidade.
Em 2001, Janita participa no disco "Canções de Embalar" (MVM Records), organizado por Nuno Rodrigues, onde interpreta o tema "Matita" em parceria com Sara Tavares; e faz os vocalizos do tema "Mouro Amor", para o álbum "Feito à Mão", do brasileiro Rodrigo Lessa. Dois anos depois, e a convite de Sebastião Antunes, do grupo Quadrilha, participará também no tema "Mértola", incluído no CD "A Cor da Vontade" (Vachier & Associados, 2003).
Em Maio de 2003, Janita regressa finalmente aos discos em nome próprio, com um álbum soberbo intitulado "Tão Pouco e Tanto", editado pela Capella, onde inclui seis regravações ("Tardes de Casablanca", "A uma escrava que lhe ocultou o Sol", "Senhora do Almortão", "Cante Cigano", "O Zéfiro e a Chuva" e "Não É Fácil o Amor") e cinco temas inéditos. São eles: "Paisagem com Homem" (poema de Manuel Alegre), "União Europeia (Adeus cal)" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Cerejeira das Cerejas Pretas Miúdas" (poema de Carlos Mota de Oliveira), "Fala do Amor Alentejano" (poema de Hélia Correia) e "Sinal de Ti" (poema de Sophia de Mello Breyner Andresen). Todas as composições são da autoria de Janita Salomé e na prestação instrumental contam-se o próprio Janita Salomé (bendir, daadô, taarija), Pedro Jóia (guitarra acústica, alaúde), José Peixoto (guitarra acústica, guitarra clássica portuguesa), Mário Delgado (guitarra acústica), Ricardo Rocha (guitarra portuguesa), Paulo Jorge Ferreira (baixo eléctrico), Paulo Curado (flautas, saxofone soprano), Denys Stetsenko (violino), Lúcio Studer Ferreira (viola d’arco), Nelson Ferreira (violoncelo), João Luís Lobo e Vicky (percussões), entre outros. Nota ainda para a participação especial de José Mário Branco, no arranjo do tema "O Zéfiro e a Chuva", e de Dulce Pontes que faz dueto com Janita no tema "Senhora do Almortão". Das muitas versões que já se fizeram deste conhecido tema tradicional, incluindo as de José Afonso, esta é provavelmente a mais bem conseguida. Aliás, o disco é, no seu conjunto, uma verdadeira obra-prima, uma referência obrigatória da música portuguesa. Efectivamente, trata-se de um trabalho que, com maior depuração e aprimoramento, retoma o cruzamento das linguagens meridionais presentes nos seus discos mais emblemáticos e que estava suspenso desde o álbum "Raiano". «Fascina-me a história e a cultura mediterrânica, o cruzar e o sobrepor de civilizações, a riqueza cultural que se acumulou neste espaço singular, a maneira de ser e de estar dos povos mediterrânicos, que se expressa desde a música à gastronomia e ao vinho. Mantenho uma forte ligação ao cantar cigano, ao cante alentejano, ao flamenco, de certa forma também ao fado. Acredito que há um fio condutor que une todas essas formas de cantar e de sentir a música. É esse universo que me fascina e que julgo estar reproduzido neste trabalho.» (Diário de Notícias, 21.06.2003).
O CD é altamente elogiado pela crítica especializada e entra na lista dos melhores discos do ano. Em Março de 2004, Janita Salomé apresenta-o no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém: uma noite inesquecível com convidados especiais como Jorge Palma, Vitorino e Pedro Jóia.
No âmbito das comemorações dos 30 anos da Revolução dos Cravos, em Abril de 2004, a EMI-VC lança o álbum "Utopia", integrando canções de José Afonso, cantadas por Janita Salomé e Vitorino, em dois concertos no Centro Cultural de Belém, dados seis anos antes, em Fevereiro de 1998. Neste tributo a Zeca Afonso, a par de temas mais conhecidos como "Canção de Embalar", "A Morte saiu à Rua" ou "Canto Moço" foram também incluídos, e propositadamente, temas menos divulgados como "Os Eunucos", "Carta a Miguel Djéjé" ou "Rio Largo de Profundis".
Em 2006, Janita Salomé é um dos convidados especiais da Brigada Victor Jara para participar no álbum "Ceia Louca": canta o "Romance de Dona Mariana", um dos mais belos romances tradicionais do Algarve.
Em Março de 2007, sai o CD "Vinho dos Amantes" (ed. Som Livre), novo trabalho de originais que concretiza uma ideia conceptual: celebrar o néctar dos deuses tendo como ponto de partida a grande poesia portuguesa e mundial. Janita explica esta sua opção temática: «A ode ao vinho tem sentido num país vinícola como Portugal, tendo nós o vinho com uma presença tão forte na nossa cultura. Não sou pioneiro, provavelmente outros músicos e outros compositores já o fizeram. Mas de outra maneira, porque as formas podem ser tão variadas como diversa é a poesia e a literatura sobre o vinho». Mas adverte: «A embriaguez que se exalta é a da amizade, do amor e dos prazeres da vida, mas com conhecimento e inteligência».
O universo musical de "Vinho dos amantes" extravasa os ambientes alentejanos e arábico-andaluzes: «Afastei-me, um pouco, da matriz mediterrânea. Mas resolvi percorrer outros caminhos, outras experimentações. Considero que é uma sonoridade mais explicitamente portuguesa. Por outro lado, procurei fazer melodias mais acessíveis, com uma estrutura de canção. Há algumas sonoridades que até a mim me surpreenderam, como o tema de abertura, "Maçãs de Zagora", com um ambiente de blues [arranjo de Mário Delgado]. Gosto imenso de blues e até considero que é do melhor que a América tem...». E acrescenta: «Experimentei também uma sonoridade pop, mas não rock, que está bem patente na parte final do último tema ["Caminho III"]. Foram muitos anos a ouvir os discos dos Pink Floyd.» (Jornal de Notícias, 13.03.2007).
Além de um poema da sua autoria ("Escadinhas do Alto"), Janita canta a poesia de Carlos Mota de Oliveira ("Maçãs de Zagora"), do chinês Li Bai ("A Estrela do Vinho"), de Charles Baudelaire ("Embriagai-vos", "O Vinho dos Amantes"), Anacreonte ("Fragmentos"), Hélia Correia ("No Banquete", "Ode ao Vinho"), António Aleixo, Francisco Hélder Pimenta e populares anónimos ("Quadras"), José Jorge Letria ("O Mapa Errante") e Camilo Pessanha ("Caminho III"). Todas as composições são da autoria de Janita Salomé que também toca guitarra clássica e percussões. No elenco de instrumentistas contam-se Mário Delgado (guitarra de 12 cordas, guitarra eléctrica, kalimba), Ni Ferreirinhas (guitarra clássica), Ruben Alves (piano, acordeão), João Paulo Esteves da Silva (piano), Ricardo Dias (guitarra portuguesa), Fernando Abreu (guitarra clássica), Amadeu Magalhães (viola braguesa), Luís Cunha (violino), Daniel Salomé (clarinete), Yuri Daniel (contrabaixo, baixo eléctrico), Jacinto Santos (tuba), Vicki (bateria, percussões), Vitorino (acordeão) e músicos da Brigada Victor Jara. Carlos Mota de Oliveira, um dos poetas que Janita mais tem cantado, também colabora activamente no disco recitando o poema de Baudelaire "Embriagai-vos". Referência ainda às participações especiais de Jorge Palma, Rui Veloso e José Carvalho que ao lado de Vitorino e Janita Salomé formam o coro dos amantes do vinho, que canta "No Banquete". Trata-se de um belo trabalho discográfico, mas infelizmente muito pouco divulgado na rádio, a qual sonega a nossa melhor música, aquela que se pode sorver como um bom vinho, e insiste em promover massivamente as zurrapas musicais, seja as vindas de fora seja as produzidas cá dentro. A este propósito diz-nos o próprio Janita: «Ouve-se muito mais a tendência anglo-americana, o pop-rock, ou então músicas cantadas em português, mas com essas mesmas raízes. Esta situação é profundamente injusta porque a música portuguesa tem qualidade e tem diversidade tal que lhe permite ser mais divulgada e dada a conhecer aos jovens.»
Compositor e intérprete de excepção, Janita Salomé é detentor de uma voz ímpar (potente, vibrante, melismática), que muitos consideram a melhor voz masculina portuguesa. Sem cedências à facilidade e a modas efémeras, a sua obra revela uma inegável coerência artística e, embora não sendo vasta, constitui um dos mais ricos e originais contributos para o património discográfico português. Diz o músico: «a minha obra não é extensa mas é intensa». E a somar a isso, a ele se deve igualmente o contributo pioneiro na exploração das raízes árabes da música portuguesa, que abriu caminho a outros, de que Eduardo Ramos talvez seja o melhor exemplo. Estas razões deviam ser mais do que suficientes para que o músico/cantor se encontrasse entre as figuras da nossa música mais estimadas e acarinhadas no seu próprio país. Todavia, e apesar de aclamado pela crítica avalizada, o artista conta-se entre os nomes que mais têm sofrido às mãos dos fazedores de playlists das principais rádios portuguesas, incluindo a estação pública. No caso concreto da Antena 1, a sua deliberada exclusão dos alinhamentos de continuidade e espaços musicais (já só passa no programa "Lugar ao Sul"), além de injusta e inadequada para um artista de mérito reconhecido e inquestionável, constitui acima de tudo um acto de incultura, que assume particular gravidade porque praticado numa entidade que vive de dinheiros públicos.


Discografia:

- O Cante da Terra (LP, Orfeu, 1978) (com o Grupo de Cantadores do Redondo)
- Melro (LP, Orfeu, 1980; CD, Movieplay, 1993)
- A Cantar ao Sol (LP, EMI-VC, 1983; CD, EMI-VC, 1995)
- Lavrar em Teu Peito (LP, EMI-VC, 1985; CD, EMI-VC, 2001)
- Olho de Fogo (LP, Transmédia, 1987)
- A Cantar à Lua (CD, Edisom, 1991)
- Lua Extravagante (CD, EMI-VC, 1991) (com Vitorino, Carlos Salomé e Filipa Pais)
- Raiano (CD, Farol, 1994)
- Vozes do Sul (CD, Capella, 2000)
- Tão Pouco e Tanto (CD, Capella, 2003)
- Utopia (CD, EMI-VC, 2004) (com Vitorino, gravado ao vivo no CCB em Fevereiro de 1998)
- Vinho dos Amantes (CD, Som Livre, 2007)


Fontes:
- Site oficial de Janita Salomé (http://janita.salome.googlepages.com/)
- Blogue de Janita Salomé (http://janitasalome.blogspot.com/)
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Literatura inclusa na discografia de Janita Salomé


Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)

- A Estrela do Vinho (in "Vinho dos Amantes")
- A uma escrava que lhe ocultou o Sol (in "Lavrar em Teu Peito"; Tão Pouco e Tanto)
- Alegria da Criação (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Ao Romper da Bela Aurora (in "Vozes do Sul")
- Árvores no Deserto (in "Lavrar em Teu Peito")
- Caminho III (in "Vinho dos Amantes")
- Cantar ao Sol (in "A Cantar ao Sol")
- Cante Cigano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Cantiga dos camponeses (in "Vozes do Sul")
- Cerejeira das Cerejas Pretas Miúdas (in "Tão Pouco e Tanto")
- Ciganos (in "Raiano")
- Como se fosses de linho doce... (in "Lavrar em Teu Peito")
- Conta-me contos, ama… (in "Lavrar em Teu Peito")
- Credo (in "Raiano")
- E Alegre se Fez Triste (in "Lavrar em Teu Peito")
- Extravagante (in "A Cantar ao Sol"; "Raiano")
- Fala do Amor Alentejano (in "Tão Pouco e Tanto")
- Fragmentos (in "Vinho dos Amantes")
- Homens do Largo (in "Melro"; "Voz & Guitarra")
- Maçãs de Zagora (in "Vinho dos Amantes")
- Moda do Entrudo (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- Mouro Amor (in "Feito à Mão", de Rodrigo Lessa)
- Mulher da Erva (in "Lavrar em Teu Peito")
- Não É Fácil o Amor (in "A Cantar ao Sol"; "Voz & Guitarra"; Tão Pouco e Tanto)
- Ninguém tem mais peso que o seu canto (in "Raiano")
- No Banquete (in "Vinho dos Amantes")
- O Poder (in "Lavrar em Teu Peito")
- O Zéfiro e a Chuva (in "Tão Pouco e Tanto")
- Pavão (in "A Cantar ao Sol")
- Perdido em Miragem (in "Encanto da Lua", de Frei Fado d’El Rei)
- Poema oferecido a meus amigos (in "Raiano")
- Poema para Florbela (in "Melro")
- Poente (in "Raiano")
- Quadras (in "Vinho dos Amantes")
- Saias (Alto Alentejo) (in "Lavrar em Teu Peito")
- Saias (Beira Baixa) (in "A Cantar ao Sol")
- Saias do Freixo (in "Melro")
- Senhora do Almortão (in "Tão Pouco e Tanto")
- Tardes de Casablanca (in "A Cantar ao Sol"; "Tão Pouco e Tanto")
- Tarkovsky (in "Galinhas do Mato", de José Afonso)
- União Europeia (Adeus cal) (in "Tão Pouco e Tanto")
- Utopia (in "Raiano")



Não É Fácil o Amor



Letra: Luís de Andrade (Pignatelli)
Música e voz: Janita Salomé


Não é fácil o amor, melhor seria
Arrancar um braço, fazê-lo voar,
Dar a volta ao mundo, abraçar
Todo o mundo, fazer da alegria

O pão nosso de cada dia, não copiar
Os gestos do amor, matar a melancolia
Que há no amor, querer a vontade fria
Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar

O amor, o destino de cada um não ter
Destino nenhum, ser a própria imagem
Do amor, pôr o coração ao largo, não sofrer

Os males do amor, não vacilar, ter a coragem
De enfrentar a razão de ser da própria dor
Porque o amor é triste, não é fácil o amor


(in "Tão Pouco e Tanto", 2003)

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Outros artistas desta galeria:
Adriano Correia de Oliveira
Carlos Paredes
José Afonso
Luiz Goes
Pedro Barroso

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Textos sobre música portuguesa:
Grandes discos da música portuguesa: efemérides em 2007
Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007