Exmo. Senhor Primeiro-Ministro de Portugal,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte,
A programação musical de uma estação de rádio, ainda que com uma forte componente informativa, como é o caso da Antena 1 da RDP, é sempre um factor de primordial importância para a qualidade genérica do serviço que se pretende prestar. Ora quem se der ao trabalho de ligar para o principal canal generalista da rádio pública, rapidamente se apercebe da muito baixa qualidade, em termos gerais, da música que preenche os espaços de continuidade, vulgo 'playlist'. Digo mais: a 'playlist' actualmente em vigor na Antena 1 é tão má e intragável que a expressão popular "abaixo de cão" se lhe pode aplicar com toda a justeza e propriedade. E para não ser acusado de uma apreciação vaga e subjectiva, passo a fundamentar a minha asserção. Em primeiro lugar, começo por abordar o insustentável desequilíbrio que a 'playlist' evidencia no tocante à representatividade de diversos géneros musicais. Senão vejamos: mais e mais pop, a maior parte da qual de baixa extracção, e uma presença muito discreta e bastante rarefeita dos grandes autores/compositores/intérpretes. E absolutamente nada de música tradicional/folk e de fado e também muito pouca coisa de música latina (além de alguns intérpretes brasileiros). De facto, nomes tão importantes da música popular portuguesa como José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Manuel Freire, Carlos Paredes, Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Teresa Silva Carvalho, Pedro Barroso, Paco Bandeira, Madredeus, Amélia Muge, Filipa Pais... não estão representados, ou então passam tão esporadicamente que se torna tão difícil dar por eles como encontrar uma agulha num palheiro. No caso da música de matriz tradicional, grupos tão referenciais como Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Raízes, Maio Moço e Navegante estão de todo ausentes. E a situação não é diferente para os grupos (e intérpretes solistas) da nova e florescente folk portuguesa – Frei Fado d'El Rei, Gaiteiros de Lisboa, Realejo, Danças Ocultas, Diabo a Sete, Chuchurumel, Mandrágora, Dazkarieh, Mu, At-Tambur, Roldana Folk, Lúmen, Roda Pé, Pé na Terra, Origem, Fol&ar, Roncos do Diabo, Ventos da Líria, Monte Lunai, Arco da Velha, Nem Truz Nem Muz, Moçoilas, Segue-me à Capela, Manuel d'Oliveira, etc. (muitos outros exemplos podem ser vistos e ouvidos através da página dos Amigos do LUGAR AO SUL no My Space: http://www.myspace.com/lugaraosul). O fado também não foge à regra: se nomes tão superlativos como Amália Rodrigues, Maria Teresa de Noronha, Lucília do Carmo, António dos Santos ou Luiz Goes estão completamente banidos, pouco melhor tratamento é dado à geração actual, de cujos intérpretes apenas são passados dois ou três temas durante a semana em que se dá o lançamento de discos. Depois disso são rapidamente descartados e atirados para o baú das coisas inúteis. E porquê? Porque destoam da omnipresente e hegemónica pop, a maior parte da qual, como já disse atrás, é absolutamente intragável. E como se isto não bastasse é por demais notório o favorecimento que alguns nomes da pop nacional recebem (porquê?), a ponto de passarem todos os dias, não sendo raro rodarem duas ou mais vezes num período de 24 horas – Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Rui Reininho/GNR, Luís Represas, Xutos & Pontapés, Filarmónica Gil, Santos e Pecadores, Beto, Mesa, Clã, Pólo Norte, Delfins, André Sardet, João Pedro Pais, Pedro Khima, Pedro Miguéis, Adelaide Ferreira, Rita Guerra, Margarida Pinto, Sandra Fidalgo, Susana Félix, Diana Basto, Lúcia Moniz, Ritual Tejo, Pedro e os Apóstolos, Classificados, Perfume, Cool Hipnoise, Blackout, Black Company, Da Weasel, David Fonseca, Silence 4, Rita Redshoes, Ana Free, The Gift, Fingertips, Hands on Aproach, ZZ Special, etc. A estes (todos nacionais, embora alguns, como os nomes deixam adivinhar, não façam música portuguesa) há que juntar "coisas imperdíveis" da pop internacional como Shakira, Anastacia, Mariah Carey, Alicia Keys, Melanie C, Kylie Minogue, Robbie Williams, James Blunt, Seal, Eros Ramazzotti, Alejandro Sanz, Jennifer Lopez, Christina Aguilera, Ricky Martin, Maroon 5, Keane, Brandi Carlile, Colbie Caillat, Leona Lewis, James Morrison (não confundir com o vocalista dos Doors, James Douglas Morrison, mais conhecido por Jim Morrison), e muitos outros nomes do 'mainstream' comercial, de tal modo que eu às vezes fico na dúvida se estou a ouvir a Antena 1 ou se uma rádio subsidiária do canal televisivo MTV. Bem, pelos nomes citados, dá bem para perceber qual a música que predomina na rádio pública e também a que é deliberadamente marginalizada e silenciada. Em face disto, uma pergunta se impõe: será aceitável que os dois géneros musicais mais idiossincraticamente portugueses – a música popular (tradicional e de autor) e o fado – tenham o tratamento indigno e perfeitamente criminoso que estão a receber precisamente na rádio do Estado Português? Quantos ouvintes/contribuintes apreciadores desses géneros (e não são tão poucos quanto alguma gente nos quer fazer crer) estão a ver frustradas as suas legítimas expectativas relativamente ao serviço facultado pela emissora que eles financiam? Já sei que o director de programas, Rui Pêgo, vai dizer que esses géneros estão bem representados nas rubricas "Alma Lusa" e "Cantos da Casa". Mas estarão, em boa verdade? Qual é efectivamente o peso em termos percentuais de tempo de antena que ambos os géneros têm na programação geral? O fado, por acaso, tem desde Setembro de 2007 uma edição alargada (depois da meia-noite de domingo), mas isso não é razão para que o género não figure nos alinhamentos de continuidade. Mas a situação é ainda pior no que respeita à música tradicional (ou de inspiração tradicional), encafuada que está num minúsculo apontamento de 4 a 5 minutos por dia (imediatamente antes das 15:00). Será isto uma maneira digna de tratar essa importante vertente da nossa música? Façamos este exercício: meta-se o fado, a música tradicional e a música latina na 'playlist' e enfie-se a pop numa exígua rubrica ao género das outras. Aí Rui Pêgo também diria que a música pop estava bem representada? Haja seriedade e não se brinque com a inteligência dos ouvintes, por favor!
E quanto à música instrumental, não erudita, quer portuguesa quer estrangeira, como se explica a sua total ausência da famigerada 'playlist'? No caso da música endógena, será razoável e eticamente aceitável que nomes tão importantes como Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, Rão Kyao, António Pinho Vargas, Edgar Nogueira e José Peixoto não se possam ouvir na rádio estatal? E relativamente a instrumentistas e grupos mais recentes como Mário Pacheco, Custódio Castelo, Ricardo Rocha, Ricardo Parreira, Pedro Jóia, Joel Xavier, Realejo, Danças Ocultas e Mandrágora, entre outros, será também admissível que estejam arredados?
Mesmo sem a música tradicional, o fado e a música instrumental, opção que enquanto ouvinte/contribuinte jamais aceitarei, ainda assim julgo que a 'playlist' podia ser muito melhor, pois no domínio do pop/rock há muita e boa música, sobretudo de origem anglo-americana. Mas como não é essa a que é escolhida (tirando um ou outro caso pontual: Katie Melua...), deve inferir-se que a miserável 'playlist' da Antena 1 reflecte as preferências e as predilecções musicais do seu editor, Ricardo Soares (aliás, não muito diferentes das do seu antecessor, Rui Santos). Na verdade, tal indivíduo, além de revelar uma estreita e limitada mundividência musical a ponto de só ter olhos para a pop, mostra ter ainda um estranha e insólita inclinação pelo que de mais reles e medíocre existe dentro do género. Abro aqui um parêntesis: é evidente que se Ricardo Soares não fosse o editor da 'playlist' da estação pública eu estaria a marimbar-me para os seus gostos pessoais (que lhe fizessem bom proveito!), mas estando em causa a qualidade e a diversidade da oferta musical da rádio para a qual me cobram, na factura da electricidade, uma taxa obrigatória (20.52 euros por ano + IVA), a que acrescem ainda outras verbas provenientes dos meus impostos (na dotação anual do Orçamento Geral do Estado), cumpre-me dizer de minha justiça. E como um mal nunca vem só, à apetência de Ricardo Soares pelo lixo musical junta-se ainda outra circunstância de peso e não menos preocupante. Refiro-me à escandalosa e insustentável permeabilidade de Rui Pêgo às estratégias comerciais do 'lobby' da indústria discográfica e à pressão de determinados agentes de 'management', os quais tudo fazem para que os artistas que representam passem com frequência e de preferência nos picos de audiência. Não é certamente por acaso que os temas promocionais dos novos discos (dos nomes mais vendáveis, evidentemente) que se ouvem na Antena 1 são exactamente os mesmos que rodam na RFM e na Rádio Comercial (dois exemplos perfeitos de estações ao serviço das multinacionais do disco) e também nas telenovelas da TVI (canal de televisão que, como se sabe, pertence ao mesmo grupo da editora Farol). Infere-se, portanto, que os responsáveis pela 'playlist' da estatal e pública Antena 1 assinam de cruz, e de olhos fechados, tudo aquilo que os departamentos comerciais das editoras mais preponderantes decidiram de antemão que é para passar nas rádios (e televisões). Mas terá sido para isso que foi criado o serviço público? E já que falei de editoras preponderantes, averigúe-se a que chancelas pertence o grosso da "música" que passa na Antena 1 (e já agora, também na Antena 3) e facilmente se concluirá que mais de 80 % do bolo está nas mãos destas quatro: EMI, Universal, Sony/BMG, Farol. Alguém mais ingénuo poderá pensar que isso é natural porque aquelas editoras são as que representam mais artistas e as que têm os catálogos mais extensos. Admito que isso seja verdade para a música pop/rock anglo-americana, mas não o é de todo para a música portuguesa. De facto, é à Valentim de Carvalho (já separada da EMI) e à Movieplay que pertencem os maiores e melhores acervos de música portuguesa. Mas por estranho que pareça tal realidade não se reflecte na 'playlist' da Antena 1, nos 60 % (serão mesmo?) de música portuguesa que ela está obrigada a passar, por determinação legislativa. Tal dever-se-á ao facto dessas casas não terem o mesmo poder de influência das multinacionais? A resposta não suscita dúvidas. Atente-se na seguinte afirmação: «Precisam de quotas boas para passar a música estrangeira, porque ela faz parte do 'package' que está pago nas avenças de promoção...». O quê? Quer isto dizer que a RDP (ou alguém por ela) recebe dinheiro de editoras para promover determinados artistas? A ser verdade, e não tenho razões para duvidar da fonte que me facultou a informação, isto é gravíssimo e deve ser publicamente denunciado. E gravíssimo porquê? Por três ordens de razões: primeira, a rádio pública não pode jogar em dois tabuleiros: ou se financia com o dinheiro dos contribuintes ou junto do mercado, cujos interesses e objectivos, como é bom de ver, nada têm a ver com o serviço público; segunda, porque ao enredar-se nessa promiscuidade, a rádio estatal está a fazer concorrência desleal às rádios privadas, roubando-lhes uma parte (não desprezível) do seu sustento; terceira, por ferir de morte o princípio da igualdade de oportunidades de acesso dos diversos artistas portugueses ao espaço público hertziano que, como se sabe, é um bem escasso e limitado. Escusado será dizer que às grandes editoras apenas lhes interessa promover os artistas que à partida lhes garantam certos patamares de lucro em face das expectativas dos accionistas (aliás, perfeitamente legítimas, caso contrário não teriam comprado as acções). E é aqui que assume particular importância a existência do serviço público de rádio (e de televisão) justamente para dar voz e visibilidade à música de qualidade que é importante que seja conhecida mas que não vende aos milhões, corrigindo-se ou atenuando-se desse modo as distorções do mercado. Caso contrário, ou seja, se a estação pública se limita a navegar nas ondas do mercado, falha rotundamente a sua missão e aí terá de se questionar o financiamento público. Adquire ainda mais pertinência o que acabo de dizer se atentarmos noutro aspecto importantíssimo: a melhor música portuguesa que vem sendo editada nos últimos anos já não provém das 'majors' mas antes de editoras independentes e de edições de autor. Eu pergunto: na 'playlist' da Antena 1, quantos artistas/discos há de pequenas editoras, as quais, apesar das dificuldades e adversidades, ainda apostam na música portuguesa de qualidade – Vachier & Associados, Ovação, Ocarina, HM Música, Açor/Emiliano Toste, Tradisom, Hepta Trad, etc.? E onde estão as edições de autor, que são cada vez em maior número? Faça-se uma monitorização à 'playlist' e facilmente se comprovará o que acabei de enunciar. Consequência de tudo isto: a música portuguesa mais qualificada e de maior valia é, sem margem para dúvidas, a que está a ser mais seriamente prejudicada com o lastimável estado de coisas a que chegou a Antena 1, circunstância que sai agudizada em virtude de as estações comerciais também não lhe darem grande divulgação, pela contingência de dependerem do mercado publicitário, e das tais avenças com as discográficas. Em todo o caso, é justo que se diga que a 'playlist' da Rádio Renascença, com os seus inevitáveis condicionalismos de natureza comercial, consegue ser, neste momento, bem melhor que a da Antena 1. Isto dá que pensar!
Eu falo enquanto ouvinte, mas é bom não esquecer os muitos artistas portugueses que estão a sofrer na pele o ostracismo a que são votados pela emissora do Estado (para a qual também eles contribuem, convém lembrar). Não é difícil deduzir que a falta de visibilidade mediática acaba por se repercutir numa acentuada diminuição de discos vendidos e, sobretudo, num drástico decréscimo de convites para a realização de concertos. Já lá diz a sabedoria popular: «Quem não aparece, esquece!». Realize-se um inquérito junto dos nomes mais representativos e conceituados do nosso meio musical indagando em que pé estão as suas agendas de concertos, e facilmente se constatará a situação periclitante em que muitos deles se encontram (a alguns já só resta, para sobreviverem, a magra espórtula que, de tempos a tempos, recebem da SPA). E se isso acontece com nomes que créditos firmados mas completamente marginalizados pela rádio e televisão, o que dizer dos intérpretes (cantores, instrumentistas, grupos) em início de carreira, que por honestidade intelectual e coerência artística, não querem pactuar com a mediocridade reinante e se recusam a vogar ao sabor das correntes dominantes em cada momento? O que tem feito a Antena 1, nos últimos anos, em prol de todos esses artistas? Bem, eu falei dos vivos mas não se deverá olvidar os que já não se encontram entre nós. Neste caso, não por questões materiais (obviamente), mas pela importância da preservação da memória cultural que, como se sabe, é, juntamente com a língua, o principal factor da identidade nacional. E, neste aspecto, terá de se dizer que a atitude dos responsáveis pela 'playlist' tem sido absolutamente indigna e criminosa (por ironia do destino, na mesmíssima rádio que tem um 'slogan' que diz «Antena 1: uma rádio com memória!»).
Interpelado com estas questões, calculo que Rui Pêgo vá alegar qualquer coisa do género: «A rádio pública tem de acompanhar as tendências do mercado». Ora eu pergunto-lhe: é o mercado que lhe paga os 8500€ (1.700 contos) mensais de vencimento? Não: esse dinheirinho e ainda o que é gasto noutras mordomias não tributadas (automóvel da empresa, cartões de crédito, saldo de telemóvel, viagens de avião e estadias em hotéis, etc.) provém dos bolsos dos ouvintes/contribuintes, mas pelos vistos não é a esses que o actual director de programas está interessado em servir. Apenas e só ao mercado!... Escusado será dizer que quem assim pensa e age está no sítio errado, e em face disso a administração da Rádio e Televisão de Portugal e o poder político deverão tirar as devidas ilações.
Concluindo: em virtude da escassez e/ou exiguidade de espaços musicais de autor na grelha da Antena 1, dedicados aos géneros de música portuguesa fora do domínio da pop, a questão fulcral da 'playlist' pelo peso avassalador que tem no cômputo geral da emissão, reclama a urgente atenção de quem tem por competência a avaliação e fiscalização do serviço público de rádio.
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
25 novembro 2008
17 novembro 2008
Frei Fado d'El Rei vence Prémio José Afonso

O álbum "Senhor Poeta: Um tributo a José Afonso", do grupo Frei Fado d'El Rei, editado pela Ovação em Abril de 2007, foi o grande vencedor da edição de 2008 do Prémio José Afonso, instituído pela Câmara Municipal da Amadora, e que tem o valor pecuniário de 5 mil euros. O júri foi constituído pelo jornalista Carlos Pinto Coelho, a pianista Olga Prats, a coordenadora do Serviço de Animação Cultural da C.M. Amadora, Natália Cañamero de Matos, e o Vereador da Cultura da edilidade, António Moreira. Instituído em 1988, o Prémio José Afonso tem o objectivo de homenagear o imortal autor/compositor/intérprete, incentivar a criação musical de raiz portuguesa e animar turística e culturalmente a Amadora. O grupo Frei Fado d'El Rei junta-se assim a uma prestigiosa galeria de artistas já distinguidos: Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais, José Medeiros e Brigada Victor Jara.
Em 2007, ano em que se assinalaram os vinte anos da morte de José Afonso, foram sete os álbuns de tributo ao autor de "Cantigas do Maio", pelo que não era fácil ao júri não ter em consideração essa leva de edições, o que não quer dizer que não houvesse outros discos perfeitamente premiáveis, como é o caso de "Parainfernália", do grupo Diabo a Sete (ed. Açor/Emiliano Toste); "Não Sou Daqui", de Amélia Muge (ed. Vachier & Associados); "Vinho dos Amantes", de Janita Salomé (ed. Som Livre); e "À Espera de Armandinho", de Pedro Jóia (ed. HM Música), este último recentemente distinguido com o Prémio Carlos Paredes. Em todo o caso, a escolha de "Senhor Poeta" não deixa de ser justíssima, precisamente por se tratar do melhor de todos os trabalhos de abordagem à obra de José Afonso (como tive o ensejo de referir no texto Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007) e também por vir reconhecer a importância do grupo Frei Fado d'El Rei para a música portuguesa. Embora com uma discografia escassa – além de "Senhor Poeta", apenas dois álbuns de originais ("Danças no Tempo", Sony Music, 1995; e "Encanto da Lua", Sony Music, 1998) e um gravado ao vivo ("Em Concerto", Açor/Emiliano Toste, 2003) – a estética do grupo Frei Fado d'El Rei é indiscutivelmente uma das mais originais, inovadoras e cativantes do nosso panorama musical, mas que ainda não logrou obter o devido reconhecimento. Refira-se a propósito que o grupo foi um dos participantes no álbum colectivo "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (MG Ariola, 1994), com uma belíssima versão do tema "Que Amor Não me Engana" (também presente em "Senhor Poeta"). Estão pois de parabéns José Flávio Martins, Carla Lopes, Cristina Bacelar e restantes elementos dos Frei Fado d'El Rei e, igualmente, os jurados, pela lúcida e justa decisão.
Agora, e tal como fiz a propósito do disco de Pedro Jóia, não posso deixar de lamentar e contestar veementemente a atitude indigna e perfeitamente criminosa da pública Antena 1 face ao álbum "Senhor Poeta", a ponto de ter sido completamente ignorado, quer em programas e rubricas dedicados à música portuguesa e lusófona – "Vozes da Lusofonia", "Cantos da Casa" e "Viva a Música" – quer na vergonhosa 'playlist'. No caso concreto do programa "Vozes da Lusofonia", será razoável e sensato que se ignore um álbum que recebe o Prémio José Afonso e se contemplem discos cantados em inglês e, já agora, se dedique duas emissões a uma colectânea do nacional-cançonetista António Calvário? Atenção: eu não estou a dizer que o António Calvário devesse ficar de fora, mas jamais poderei aceitar o tratamento de privilégio que lhe foi dado (porquê?), ao mesmo tempo que se vota ao ostracismo trabalhos discográficos de reconhecida qualidade e valor artístico. Indo agora à famigerada 'playlist', e tendo em conta o peso desmesurado que ocupa na programação, como se explica que o disco agora premiado não esteja representado? Será isto admissível e eticamente aceitável na rádio para a qual nos cobram (coercivamente) 3.42€ + 5% de IVA a cada bimestre? Algo de muito pútrido se está passar no serviço público de rádio! E o responsável máximo pela podridão, ao contrário do que geralmente acontece em matéria putrefacta, não é nenhuma bactéria ou fungo. O agente patogénico é um hominídeo e chama-se Rui Fernandes Pêgo.
Nota: À falta de divulgação radiofónica, quem quiser ouvir algumas músicas do CD "Senhor Poeta" pode fazê-lo na página dos Frei Fado d'El Rei no My Space: http://www.myspace.com/freifadodelrei
Está também disponível, no blogue Crónicas da Terra, uma entrevista que os músicos José Flávio Martins e Ricardo Costa, concederam ao programa "Terra Pura", precisamente em torno do disco e ilustrada com diversos temas do mesmo.
11 novembro 2008
Promoção à RTP-1 na Antena 2
A par dos já costumeiros e massacrantes 'sopts' autopromocionais e de outro lixo sonoro que Rui Pêgo introduziu na Antena 2, recentemente começaram também a passar 'spots' de promoção à programação da RTP-1. Embora a minha audição da Antena 2, pelas múltiplas razões já anteriormente enunciadas, não seja hoje tão assídua e regular como há uns anos, já lá ouvi três dos tais 'sopts': um ao programa de Catarina Furtado, "A Minha Geração", outro ao "Prós e Contras", de Fátima Campos Ferreira, e um terceiro aos jogos de futebol da I Liga, aquele onde o Jorge Gabriel surge a interpelar, em jeito de desafio, algumas das caras do canal – o José Rodrigues dos Santos, a Judite de Sousa, e também a desinteressante e acéfala Sílvia Alberto e os anafados mas culturalmente indigentes Fernando Mendes e José Malato. Numa primeira e genérica apreciação, e atendendo a que a RTP-1 pertence do mesmo grupo empresarial, a Rádio e Televisão de Portugal, poder-se-ia encarar como razoável a sua promoção nas rádios do grupo (como sucede, por exemplo, com as telenovelas da TVI nas ondas do RCP e da Rádio Comercial). Acontece que tal promoção, no caso concreto da Antena 2 levanta alguns problemas que não devem ser ignorados. Em primeiro lugar, promover na Antena 2 um canal de televisão com uma programação de cariz ligeiro e destinada a um público culturalmente pouco exigente, como é o caso da RTP-1, não pode deixar de soar a bizarro. Será que quem costuma alimentar o seu espírito com Bach, Beethoven, Schubert ou Mahler é o público-alvo para as futeboladas, os programas de música pop e de variedades (como o anunciado "A Minha Geração"), e outras coisas absolutamente rascas como "O Preço Certo", "Os Contemporâneos", o "Tele-Rural" e a "Liga dos Últimos" (isto para já não falar nas touradas e nos concertos do plagiador Tony Carreira)? É óbvio que não, pela clara e notória desadequação existente entre a natureza do que se anuncia e o nível cultural e de gosto do público ao qual se faz chegar a mensagem. Tal desadequação não será tão flagrante na Antena 1 mas ainda assim, e mesmo havendo reciprocidade no tocante à promoção, há outra questão em que importa atentar. A RTP-1 é um canal com publicidade comercial coisa que, por tradição e por determinação legal, não acontece na Antena 1 e nas demais antenas da rádio pública. Será pois correcto e eticamente aceitável que em canais que não têm publicidade se promova um outro que a tem, ainda que integrando a mesma entidade empresarial? Não estaremos em presença de uma forma ardilosa e abusiva de angariar audiências para a publicidade comercial? Para a que passa nos intervalos dos programas e também – convém não esquecer – para a estática dos estádios de futebol, estrategicamente colocada nos pontos mais focados pelas câmaras. Por conseguinte, a existir promoção de canais de televisão na Antena 2 isso teria de ser logicamente da RTP-2, por um lado, pela maior proximidade cultural e de conteúdos, e, por outro, por não ter publicidade comercial mas institucional (por vezes, não é bem assim... mas adiante!). Pessoalmente, até nem apresentaria nenhuma objecção se na Antena 2 se sugerisse programas como o "Câmara Clara" ou o "Biosfera", documentários sobre escritores e artistas, e sobretudo transmissões de ópera, bailado e teatro. Em todo caso, em vez de encaminhar os seus ouvintes para a televisão, o normal e plausível seria a Antena 2 oferecer um serviço tão cativante e aliciante que não suscitasse em quem a ela recorre a vontade de ir à procura da televisão. Enquanto radiófilo, e embora sem qualquer aversão à televisão (apenas à mediocridade nela veiculada), nunca aceitarei atitudes que mais não são que a aceitação tácita de que a rádio é um meio menor e que se alguma função ainda tem é promover (prejudicando-se a si mesma) o elo mais forte. Já agora, alguém me esclarece uma dúvida: de quem partiu a ideia estrambólica de promover a RTP-1 na Antena 2? Do inepto (mas principescamente pago) Rui Pêgo ou do seu comparsa no conselho de administração, António Luís Marinho?
28 outubro 2008
Informação ou publicidade encapotada?
De há longa data que tinha por hábito ouvir o noticiário das 8:00 da Antena 1, mas devido à crescente "tabloidização" da informação da rádio pública e da irritante promiscuidade entre informação e entretenimento (futebol e não só) dentro dos espaços noticiosos, tenho de confessar que essa assiduidade deixou de existir. Com efeito, nos últimos tempos, mal o irreverente e salutar "Portugalex" fecha portas, o meu instinto de autodefesa impele-me a procurar outra sintonia para tomar conhecimento das primeiras novas do dia – ora a RR, ora o RCP –, estações onde, apesar de tudo, existe um maior rigor, ponderação e bom senso na selecção e tratamento dos assuntos da actualidade. Ontem, porém, talvez por alguma inércia própria do pós-fim-de-semana lá continuei na Antena 1, embora ciente de que as probabilidades de que alguma coisa não me iria agradar seriam muito elevadas. E a verdade é que não me enganei. Antes de mais, tenho de dizer que não aprecio mesmo nada o estilo apressado e atabalhoado da papa-sílabas Eduarda Maio, que migrou (porquê?) da "Antena Aberta" para os noticiários. Bem, mas o motivo da minha reclamação é outro e de natureza menos formal e mais substantiva. Refiro-me à colocação, e com honra de destaque de abertura, de uma notícia a dar conta de um disco novo da cantora jamaicana Grace Jones, de título genérico "Hurricane", que alegadamente vem pôr fim a uma pausa de vinte anos sem gravar (o que nem é de todo verdade pois o anterior disco de originais, "Bulletproof Heart", data de 1989, o que dá 19 anos). Pergunta óbvia: terá este evento uma relevância cultural assim tão grande a ponto de merecer o destaque que teve no noticiário de maior audiência do canal generalista da rádio pública? E terá tal notícia revestido um indiscutível interesse para a generalidade dos ouvintes da Antena 1? Não me parece e é facilmente constatável que houve um claro exagero e desproporcionalidade na opção do editor, no caso Eduarda Maio. E digo isto sem o menor acinte contra a cantora (modelo e actriz) Grace Jones pois até aprecio alguns temas do seu repertório, designadamente a versão do clássico de Edith Piaf, "La Vie en Rose", e "I've Seen That Face Before (Libertango)", com música composta por Astor Piazzolla, que faz parte da banda sonora do filme "Frenético" ("Frantic", 1988), de Roman Polanski. Acresce que o novo disco nem é nada de excepcional e muito provavelmente vai decepcionar muitos dos apreciadores/fãs da artista, pelo que a notícia e o realce que lhe foi dado assumem um carácter ainda mais extravagante e descabido numa rádio generalista (a minha opinião seria diferente se estivéssemos a falar do canal MTV, por exemplo).
E o caso até nem é inédito, pelos menos desde que João Barreiros assumiu a direcção de informação da RDP: se bem me lembro, a Madonna e outras figuras da pop internacional também já tiveram honras de abertura nos noticiários da Antena 1. E aqui vamos bater inevitavelmente em vários pontos que deveriam merecer a atenção e reflexão de quem tutela e tem por responsabilidade avaliar o serviço prestado pela estação pública. Primeiro ponto: a inaceitável promiscuidade entre informação e entretenimento (futebol, desportos motorizados, música pop, espectáculos circenses, promoção a filmes comerciais, etc.); segundo ponto: a falta de um critério sério e rigoroso de filtragem do que é informação e do que não passa de marketing (no caso da Grace Jones, a referência ao facto, ainda que inexacto, de já não lançar álbuns de originais há vinte anos, não é certamente inocente); terceiro ponto: o flagrante desequilíbrio no tratamento que é dado nos noticiários (e outros espaços de informação) à música pop anglo-americana em prejuízo da música portuguesa. Quantos e quais os álbuns de produção nacional, editados no ano corrente (para não ir mais longe), que já mereceram, na Antena 1, o mesmo destaque que foi dado ao disco da Grace Jones? A título de exemplo, aproveito para apontar (por ordem alfabética dos intérpretes) alguns trabalhos que mereciam, no mínimo, idêntico tratamento: "Solo", de António Pinho Vargas; "Palavras do Meu Fado", de Cristina Nóbrega; "Voando sobre o Fado", de Deolinda Bernardo; "Meu Bem, Meu Mal", de José Barros e Navegante; "Escarpa", de Mandrágora; "Terra", de Mariza; "Um Sol Maior", de Origem; "Pé na Terra", de Pé na Terra; "Sensual Idade", de Pedro Barroso; e "Pousio", de Roda Pé. Agora cumpre-me fazer uma pergunta muito simples: algum destes bons álbuns de música portuguesa chegou, já não digo a ser destacado nos tópicos de abertura, mas pelo menos a ser referenciado no corpo dos noticiários da Antena 1? E não caberia à rádio do Estado (suportada pelos contribuintes), ao abrigo das obrigações de serviço público a que está vinculada, dar prioridade e primazia à música portuguesa, em especial a mais qualificada?
21 outubro 2008
Haendel em versão Reader's Digest
A existência de programas, ou de ciclos temáticos, dedicados à divulgação mais ampla e aprofundada da obra de determinado compositor, género ou época, é sempre de louvar no serviço público de rádio. E presumo que terá sido esse o propósito que presidiu à encomenda (ou à aceitação da proposta) da série de programas "Haendel de A a T", inserida no espaço Caleidoscópio (domingos, às 9 horas da manhã). Haendel, apesar de ser um dos compositores mais proeminentes do período barroco, e de toda a História da Música, tem uma obra relativamente pouco conhecida, se exceptuarmos as suites orquestrais "Música Aquática" e "Música para os Reais Fogos de Artifício", a oratória "Messias" e umas quantas árias de ópera (sobretudo para contratenor). A restante e prolífica produção haendeliana é praticamente desconhecida do público português, facto que se explica por tais obras muito raramente serem tocadas/representadas em Portugal e também pela sua parca e esporádica divulgação radiofónica. Neste contexto, a aposta num ciclo de programas dedicado ao compositor, alemão de nascimento e inglês por adopção, podia ser uma boa oportunidade para os ouvintes da Antena 2, em especial os amantes da música barroca, descobrirem, ou redescobrirem com maior profundidade e amplitude, o seu vasto repertório, nas suas diferentes categorias – obras religiosas, obras corais profanas, óperas, música de câmara, obras concertantes e orquestrais. Mas quem alimentou tais expectativas – perfeitamente legítimas, aliás – viu-as goradas. Senão vejamos! Quem se deu ao cuidado de acompanhar as três emissões de "Haendel de A a T", que até à data foram para o ar, o que é que ouviu? Sequências aleatórias e perfeitamente desconchavadas (quais miscelâneas das Selecções do Reader's Digest) de árias e duetos de ópera com um ou outro trecho de música orquestral, entremeadas com comentários mal elaborados e de reles recorte, revelando um pedantismo insuportável. Comentários esses, ainda por cima, debitados por uma voz de uma fealdade horripilante (roufenha e a descair para o grunhido, ressalvando a alusão eventualmente abusiva à vocalização porcina) e numa dicção de cano de esgoto. Raul Mesquita é o nome do autor e apresentador desta mistela intragável (não obstante a música de Haendel) que a Antena 2 nos passou a servir nas manhãs de domingo. Não conheço o sr. Raul Mesquita, nem nunca o vi, magro ou gordo, mas pelo que se tem ouvido, fica bem evidente que a pessoa não reúne as condições mínimas para realizar e, ainda menos, para apresentar um programa de rádio. Para fazer um programa não basta ter uma boa colecção de discos e, eventualmente, frequentar salas concertos / teatros de ópera: é preciso dominar em profundidade os assuntos que se pretende tratar e, depois, saber expor o que se sabe, de forma clara e em bom português, e com uma lógica de encadeamento, o que não é notoriamente o caso. Mas mesmo que fosse, nada nos diz que um autor tenha de ser também apresentador, quando Deus (ou a Natureza) não o dotou de uma voz com as características necessárias à locução radiofónica. Se Raul Mesquita não tinha consciência disso era expectável que alguém da rádio pública lho explicasse. E aqui terá de se pedir responsabilidades à direcção de programas da Antena 2. Como é possível que Rui Pêgo e o seu adjunto João Almeida, que até nem eram extraterrestres do meio rádio quando foram colocados à frente da Antena 2, tenham aprovado semelhante voz e, ainda por cima, num canal que pelo seu figurino e sentido de exigência do seu auditório requeria um cuidado redobrado? Não dá mesmo para entender! Mas há uma coisa que fica clara: o presente caso é apenas mais um que serve para demonstrar a total inépcia e incompetência daqueles dois indivíduos para dirigirem o canal clássico/cultural da rádio pública.
14 outubro 2008
O futebol não vale o mesmo que a ciência e a cultura
A abertura de noticiários com futebol e o peso excessivo que o mesmo tem na programação da Antena 1 foi uma das questões que o Provedor do Ouvinte, Adelino Gomes, teve a louvável iniciativa de levar ao seu programa, na edição de 10 de Outubro. A questão é deveras pertinente e a resposta dada pelo director de informação, João Barreiros, não pode deixar de ser motivo de preocupação para quem preza do serviço público de rádio. Para este senhor, o futebol deve ser tratado no mesmo plano, e com a mesma "dignidade" (sic), que os assuntos políticos, sociais, económicos, científicos e culturais. Mas em que país é que estamos? Terá realmente o futebol a mesma importância e relevância que todos os outros assuntos que mexem com a nossa vida? Vamos lá ver se nos entendemos. Quando o Paulo Bento, com o seu estilo peculiaríssimo e risível, se põe a debitar banalidades sobre um jogo que ainda não aconteceu, isso terá o mesmo valor informativo que, por exemplo, o lançamento de um romance de José Saramago, a estreia de um filme de Manoel de Oliveira ou a descoberta de uma vacina? Não, definitivamente não tem. Pelo menos assim pensa quem ainda tem algum senso e não vive em estado de alucinação futebolística. Bem, eu falei do Paulo Bento por ser o caso mais anedótico mas a minha asserção vale para qualquer outro treinador ou jogador de futebol, independentemente do clube. Mas a verdade é que os noticiários da Antena 1 passaram a estar pejados desse género de lixo, e não é raro essa pseudo-informação ter primazia, em destaque e em tempo de antena, relativamente a assuntos de importância realmente superior. E aqui nem há nenhuma particular antipatia face ao futebol: o que se disse é igualmente aplicável a qualquer outra modalidade desportiva e, já agora, também às touradas, às lutas de galos, às corridas de cães, etc. E nem vale a pena vir dizer que o futebol é um desporto com muitos adeptos, logo de grande interesse público. Por essa ordem de ideias, também teria de haver pena de morte em Portugal porque a generalidade da população desejaria que ela existisse. Mas o nosso ordenamento jurídico proíbe-a, e muito bem. Isto para dizer que nem todos os desejos da populaça devem ser atendidos e, muito menos, estimulados. As estações privadas, por razões estritamente comerciais, até podem enveredar por esse caminho (ainda assim não sem a regulação de uma entidade supervisora) mas tal não deverá acontecer com a rádio pública, que por ser financiada pelos contribuintes tem a obrigação de se reger por outros critérios. E que critérios são esses? O equilíbrio, a justa medida, o rigor, a verdade, a imparcialidade, a atenção ao essencial em detrimento do acessório, o bom gosto, e – subjacente e transversal a tudo isso – um apurado sentido de serviço público. E nesse conceito de serviço público caberá inevitavelmente a componente pedagógica e formativa dos auditórios, coisa muito diferente da "informação" de encher chouriços, por muitos saborosos e apetecíveis que os ditos (os verdadeiros) possam ser. A propósito, porque motivo os noticiários da Antena 1, ao virar da hora, hão-de ter sempre quinze minutos de duração?
Em conclusão: atribuir ao futebol (e a outros tipos de entretenimento) o mesmo valor e dignidade das actividades verdadeiramente importantes para a vida humana, só pode decorrer de uma ideia conceptualmente errada e distorcida, em primeiro lugar, relativamente ao que merece ou não ser objecto de notícia e, em segundo, da relevância informativa da matéria em apreço. Entretenimento é uma coisa, informação é outra. E o futebol enquanto entretenimento deve ser tratado como tal. Porque é estúpido, estupidificante e, pior ainda, alienante atribuir-lhe uma importância que por natureza ele não tem. Não terá o futebol, hoje em dia, a mesma função que tinha o circo no tempo dos Romanos?
Em conclusão: atribuir ao futebol (e a outros tipos de entretenimento) o mesmo valor e dignidade das actividades verdadeiramente importantes para a vida humana, só pode decorrer de uma ideia conceptualmente errada e distorcida, em primeiro lugar, relativamente ao que merece ou não ser objecto de notícia e, em segundo, da relevância informativa da matéria em apreço. Entretenimento é uma coisa, informação é outra. E o futebol enquanto entretenimento deve ser tratado como tal. Porque é estúpido, estupidificante e, pior ainda, alienante atribuir-lhe uma importância que por natureza ele não tem. Não terá o futebol, hoje em dia, a mesma função que tinha o circo no tempo dos Romanos?
23 setembro 2008
Música portuguesa na RTP: filhos e enteados (II)
Pela terceira ou quarta vez, num período de dois anos, o primeiro canal da televisão pública volta a dar grande destaque e promoção ao cantor Tony Carreira. Aconteceu no sábado passado, logo depois do programa do provedor do telespectador (em 'prime time', portanto), com a transmissão de um concerto gravado no Pavilhão Atlântico seguido de um documentário panegírico. Pergunta inevitável: como se explica o tratamento de privilégio que a RTP vem dando a este artista? Um artista que, apesar da popularidade que granjeou junto de certo público menos exigente e esclarecido, está bem longe de ser dos mais importantes do panorama musical português. Será que Tony Carreira (ou o seu agente de management) compra tempos de antena à RTP? Ou será que a sua presença reiterada na RTP-1 se deve a uma eventual predilecção musical, mais ou menos inconfessada, do director de programação, José Fragoso? Ou será que este, só pelo facto de Tony Carreira ser muito apreciado por emigrantes e por sopeiras (com o devido respeito por essas pessoas), entende que isso é mais do que suficiente para ser favorecido pelo serviço público? Qualquer que seja o motivo, a mim, enquanto telespectador e contribuinte, compete-me contestar tal opção. E por três razões principais que passo a enunciar. Primeira razão: Tony Carreira não é – como já referi – um artista que tenha qualidade bastante para merecer tal favorecimento (e já nem falo das cantigas plagiadas); segunda razão: a televisão pública, precisamente por ser pública e paga pelos contribuintes, não deve embarcar em estratégias de programação de gosto fácil e rasteiro, só porque à partida lhe pode garantir shares de audiência mais altos; pelo contrário, deve pautar-se por critérios rigorosos de qualidade e bom gosto, não defraudando as expectativas dos espectadores mais sensíveis, e desempenhando cumulativamente uma função pedagógica junto dos demais (os gostos também se educam); terceira razão: a televisão pública deve proporcionar igualdade de tratamento aos diversos artistas do nosso meio musical, desde que acima de um patamar mínimo de qualidade, e nunca votar ao ostracismo os que, independentemente do mérito que possuam, não têm máquinas de promoção e marketing nem andam com claques de apoio (contratadas) atrás deles para os aplaudir nos concertos. Eu até estaria disposto a dar de barato a presença de Tony Carreira na televisão pública, se me fosse dada a oportunidade de lá ver os artistas mais representativos e qualificados da música portuguesa, quer os mais consagrados quer os mais novos. A lista seria imensa, do fado à música popular portuguesa (já tive oportunidade de apontar alguns deles no texto publicado em Janeiro de 2007), pelo que não é por falta de oferta que eles não se vêem na pantalha televisiva. A verdade nua e crua é que não lhes é dada a oportunidade de aparecerem e isso jamais se poderá aceitar no serviço público.
19 setembro 2008
Pedro Jóia distinguido com o Prémio Carlos Paredes
O álbum "À Espera de Armandinho", lançado pela HM Música, em Junho de 2007, foi o escolhido para receber o Prémio Carlos Paredes, na sua edição de 2008. Ao prémio, instituído pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, e com uma dotação pecuniária de 2.500 euros (só ?!), concorreram cinco trabalhos, que foram apreciados por um júri constituído pelo poeta (e ex-cantor) José Jorge Letria, o pianista e maestro Pedro Osório (ambos membros da actual direcção da Sociedade Portuguesa de Autores), o crítico musical Ruben de Carvalho e o compositor e músico Pedro Campos. «Este é um prémio que me satisfaz muito e reconforta», afirmou Pedro Jóia à Lusa. E eu permito-me presumir que a sua satisfação seja redobrada em virtude do patrono do prémio ser Carlos Paredes, a quem devota uma grande admiração e já por si homenageado no álbum "Variações Sobre Carlos Paredes" (BMG, 2001). O autor destas linhas, no texto Grandes discos da música portuguesa: editados em 2007, já havia destacado o álbum de Pedro Jóia, feito em torno de composições de Armandinho, justamente por se revelar um dos registos discográficos mais notáveis e sublimes da colheita de 2007. Está pois de parabéns o júri pela sábia e esclarecida decisão e sobretudo o músico Pedro Jóia por ver reconhecido o seu magistral trabalho. Trabalho esse que, no entanto, ainda não alcançou a visibilidade que merecia e muito por culpa da rádio portuguesa cujos fazedores de 'playlists' e directores de programação têm votado a um ostracismo escandaloso e perfeitamente criminoso a nossa música instrumental (e não só). Seria expectável que na rádio pública, em especial na Antena 1, a atitude fosse diferente mas a verdade é que as "ilustradíssimas" cabeças que lá reinam entendem que o álbum agora premiado não é merecedor de figurar na 'playlist'. Bem, mas sobre este e outros aspectos da vergonhosa 'playlist' do principal canal da rádio do Estado terei oportunidade de me pronunciar muito em breve.
À falta da desejada divulgação radiofónica, quem quiser ouvir algumas músicas de "À Espera de Armandinho" pode fazê-lo na página de Pedro Jóia no My Space: http://www.myspace.com/pedrojoia
22 agosto 2008
Outra 'overdose' de Proms na Antena 2
Tal como acontecera nos dois anos anteriores, neste Verão a Antena 2 voltou a apostar na cobertura completa (ou quase completa) dos Concertos Promenade, vulgo Proms, que decorrem maioritariamente no Royal Albert Hall, em Londres. Por princípio, não tenho qualquer objecção à transmissão de concertos ao vivo, bem pelo contrário. Penso até que em salas onde as condições acústicas não são as melhores para os assistentes, a transmissão radiofónica desses concertos pode ser uma mais-valia para os melómanos rádio-ouvintes, desde que a captação de som seja efectuada nas melhores condições técnicas. O motivo que me leva a reclamar é o facto de essas transmissões estarem a ser monopolizadas por um único evento, no caso os Concertos Promenade. Devo dizer que nada tenho contra os Proms, mas parece-me excessiva e desproporcionada esta opção da direcção da Antena 2. O que não falta são festivais e encontros de música que, durante o Verão, acontecem um pouco por toda a Europa, boa parte dos quais de qualidade igual ou superior à dos Proms, quer em termos de intérpretes quer de repertório. A este propósito, tenho de dizer que os Proms são claramente deficitários no tocante à música barroca e pré-barroca, que têm, no nosso país, um público muito considerável que vê assim defraudadas as suas legítimas expectativas com esta aposta da Antena 2. Em vez de sucessivas semanas de Proms, não seria muito mais acertado e razoável dedicar uma semana ou uma quinzena a cada um dos melhores eventos musicais da Europa? É claro que nesse leque de eventos ou festivais, também haveria lugar para os Proms, mas com uma selecção dos melhores concertos. Assim por atacado é que não, porque há mais mundo para além dos Proms. Mesmo na eventualidade da BBC cobrar uma quantia irrisória (ou nada cobrar) pelos direitos de transmissão do pacote completo dos Proms continuo a pensar que é uma opção errada, porque açambarca todo o tempo disponível e retira espaço a outros bons eventos estrangeiros e também nacionais. Estou em crer que esta fixação obsessiva e reiterada nos britânicos Proms resulta de algum capricho da dupla Rui Pêgo/João Almeida. Ora eu, enquanto ouvinte, cumpre-me lembrar-lhes que a Antena 2 não existe para satisfazer caprichos de quem quer que seja mas única e exclusivamente para prestar serviço público, e a todos os ouvintes e não apenas aos adeptos mais ferrenhos dos Concertos Promenade. Acresce ainda que esses ouvintes podem sempre recorrer à internet para seguirem de fio a pavio todos os concertos e recitais de cada temporada dos ditos Proms.
Por outro lado, e no âmbito das suas obrigações de serviço público, a Antena 2 também não deve esquecer os eventos musicais que se realizam no país. Refiro-me não só a transmissões em directo (e não estou propriamente a falar das corriqueiras e amadorísticas sessões do "Concerto Aberto"), mas também às necessárias gravações para transmissão em diferido, a breve prazo, e também num futuro mais longínquo (tal como hoje acontece com importantes concertos gravados nos anos 50, 60 e 70). É que se não for a Antena 2 a fazer esse trabalho de registo e divulgação mais ninguém o vai fazer e consequentemente é uma parte da nossa memória cultural que irremediavelmente se perde (para a geração actual e para as vindouras). Deixo aqui alguns bons exemplos: Festival de Música Medieval de Carrazeda de Ansiães (organizado por Pedro Caldeira Cabral), Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim, Festival Internacional de Música de Espinho, Festival Internacional de Música de Coimbra, Festival Internacional de Musica de Castelo Branco, Semana Internacional de Piano de Óbidos, Festival de Música de Sintra, Festival de Música da Costa do Estoril, etc.
Portanto, em vez de cansativas e enjoativas 'overdoses' de Proms o que se deseja é uma multiplicidade de doses moderadas e salutares do que de melhor se faz na Europa e em terras lusas. A bem do serviço público de rádio de hoje e da memória futura!
29 julho 2008
Antena 0,2: a arte que destoca
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro de Portugal,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte,
Sempre defendi que a rádio pública deve ter como preocupação primeira a qualidade do serviço e nunca enveredar por estratégias de programação tendo como mira, a qualquer custo, o aumento das audiências. Este é um ponto assente, o que não significa que não haja a preocupação de que o serviço prestado, na observância de rigorosos critérios de qualidade e bom gosto, agrade ao maior número possível de ouvintes. Porque, como alguém dizia, "não há serviço público sem público". Nesta ordem de ideias, o valor de audiências – 0,4 % – que a Antena 2 registou no segundo trimestre de 2008, a mais baixa da sua História, desde que há audiometrias, deve merecer uma atenta reflexão da parte de quem tem por responsabilidade avaliar o serviço público de rádio. Aliás, os resultados obtidos nos trimestres anteriores mostram, sem margem para dúvidas, um contínuo decrescendo das audiências do canal. Ora a estratégia que vem sendo seguida, desde meados de 2005, pela direcção Rui Pêgo/João Almeida, visava justamente o contrário, isto é, alargar os públicos e consequentemente subir o nível de audiências. Convém lembrar que no segundo trimestre de 2005, imediatamente antes da grelha ter sido reformulada de acordo com a nova estratégia, a audiência da Antena 2 era de 0,6 % e com uma programação alegadamente mais elitista. E foi precisamente por a administração de então (na pessoa de Luís Marques) considerar que 0,6 % era um valor muito modesto para a Antena 2 que foi decidida a exoneração de João Pereira Bastos e a nomeação da dupla Rui Pêgo/João Almeida. Como se explica então o rotundo falhanço? Torna-se evidente que a orientação (ou desorientação) que foi dada à antena nos últimos três anos não só provocou a debandada de uma parte muito significativa dos ouvintes que lhe estavam fidelizados como não conseguiu captar e fidelizar novos ouvintes em número suficiente para compensar as perdas. Esta é uma conclusão irrefutável, por mais manigâncias que se tentem fazer. Fica também provado que em Portugal, a exemplo da generalidade dos países europeus, o público da música erudita europeia (ou de tradição europeia) suplanta em muito o conjunto dos públicos dos géneros musicais que passaram a ter grande destaque na Antena 2 – jazz, música étnica, música electrónica de ambientes e outras linguagens afins à pop. Muitas pessoas ficaram sem uma rádio para ouvir e às mais afortunadas não lhes restou outra alternativa que socorrerem-se da sua discoteca particular ou, então, optarem pela audição de rádios clássicas via internet.
Mas há ainda outras razões para o acentuado declínio das audiências da Antena 2 e que passo a esmiuçar. Em primeiro lugar, uma muito perceptível degradação da qualidade da locução – vozes não apropriadas para a rádio (em timbre e em colocação), erros de dicção e pronúncia quer de palavras portuguesas quer de estrangeiras (a colocação de tónica esdrúxula em palavras graves, por influência do inglês, é frequentíssima), erros de sintaxe e frases mal construídas, coloquialidade de trazer por casa em contextos que requeriam alguma formalidade, etc. E tudo isto agravado por um excesso de loquacidade repetindo-se inclusive coisas já anteriormente ditas, enfim, palavreado prolixo e inútil para quem está em sintonia. Não quero com isto dizer que não deva haver lugar na grelha para programas falados ou com uma forte componente de palavra ainda que de conteúdo predominantemente musical. No meu conceito de serviço público cultural, portanto não exclusivamente musical, esse tipo de programas deve existir. Digo mais: devem ter primazia relativamente aos longos alinhamentos do tipo 'jukebox', actualmente dominantes. Agora, o que não pode deixar de se ter em atenção é, logo à partida, a qualidade da oralidade, não devendo cair-se na leviandade de considerar que toda e qualquer voz serve para a rádio e – muito importante – evitar-se o improviso e ter-se como regra a preparação prévia dos textos que são lidos aos microfones, não se devendo descartar ainda assim as indispensáveis lições de dicção e prosódia em quem delas necessite. E por que razão o uso da língua portuguesa na rádio deve merecer uma atenção muito especial? Em primeiro lugar, para não defraudar as legítimas expectativas de quem frui o serviço; em segundo lugar, pela enorme influência que a rádio assim como a televisão exercem sobre a generalidade das pessoas, o que faz com a linguagem defeituosa usada nesses meios acabe por ser assimilada, tanto em maior grau quanto menor for o domínio da língua e o nível cultural do receptor. E sabendo-se da iliteracia que existe em Portugal, com largos estratos da população que não lêem livros (e que já perderam a rica cultura tradicional de transmissão oral) e que têm na rádio e na televisão os únicos meios de informação e de lazer, maior a pertinência da questão. O próprio Ministro da Cultura, Dr. José António Pinto Ribeiro, já se pronunciou várias vezes a respeito da atenção que deverá ser dada, nos média, à língua portuguesa. Foi o que fez, por exemplo, no programa televisivo Câmara Clara (20.07.2008), ao afirmar peremptoriamente que «não há política da língua sem a televisão, sem a rádio e sem os jornais». No caso concreto da emissora do Estado, que é o que nos interessa agora, a política que vem sendo seguida na área da língua portuguesa não podia estar mais em contradição com as palavras do ministro. Fará sentido que, sob a alçada do mesmo Governo, haja duas orientações diametralmente opostas? Em face deste facto, terá de se pedir ao Sr. Primeiro-Ministro que tome uma posição clara: ou manda calar o seu Ministro da Cultura ou então terá de pôr ordem na estação de rádio que está sob a sua tutela. Caso contrário, é a autoridade e a credibilidade do Governo, e por extensão do Estado Português, que ficam em causa.
Outro ponto de primordial importância para a melhoria do serviço prestado pela Antena 2 é o horário de transmissão dos programas de autor, sendo que todos eles devem passar no mínimo duas vezes, e em horários distintos, de modo a que pessoas com disponibilidades de escuta diferentes tenham possibilidade de ouvir (ou mesmo reouvir) os da sua preferência e com proveito para o seu enriquecimento cultural (caso contrário, é dinheiro que se está a deitar à rua). Já disse várias vezes, e lembro uma vez mais, que, sem prejuízo de continuarem a passar ao fim-de-semana, é imperioso que os programas de autor (na sua totalidade, reafirmo) sejam também transmitidos de segunda a sexta-feira, de dia (pensando nas pessoas que ouvem rádio enquanto trabalham) ou à noite (pensando nas pessoas que procuram na rádio uma alternativa à televisão). Os períodos sobrantes seriam então preenchidos com alinhamentos estritamente musicais, mas dedicados, isto é, com uma coerência editorial bem definida: instrumentos solistas, música de câmara, música concertante e orquestral, obras corais-sinfónicas, música vocal não religiosa (lied, ópera), música sacra (canto gregoriano, polifonia, oratória), música de dança, música de cena, perfil de um autor, intérprete da semana, intérpretes portugueses, etc. O público da música erudita não é uma massa amorfa que gosta de tudo: há gostos diferenciados e específicos que importa ter em conta. Foi esta a filosofia que vigorou durante o consulado de João Pereira Bastos e com resultados bem acima dos actuais. E já que falei do anterior director de programas, é justo que refira também a atenção que ele dava (e que deixou de ser dada) a programas culturais não musicais, designadamente nas áreas da História, da Literatura e da Ciência. Já disse, e volto a insistir, que o tratamento da cultura (não musical) numa rádio de serviço público não se pode restringir – como tem acontecido durante o último triénio – a noticiar os eventos culturais que acontecem no país. Escusado será dizer que as rubricas dando conta dos livros que estão nos escaparates, dos filmes em estreia, das peças em cena, das exposições, etc., têm o seu lugar mas é preciso ir mais além: a rádio tem um potencial cultural que deve ser aproveitado. No caso da História e da Literatura, a lacuna agora existente até pode ser colmatada a custo zero. E como? Basta ir ao riquíssimo arquivo histórico e aproveitar o que de melhor lá existe e sem risco de desactualização pois o que há dez ou quinze anos se disse sobre Gil Vicente, o Padre António Vieira, o Marquês de Pombal ou Eça de Queiroz, por exemplo, mantém-se perfeitamente válido. A propósito, uma pergunta pertinente: no ano em que se comemora o quadricentenário do nascimento daquele a quem Fernando Pessoa chamou o "imperador da língua portuguesa", por que razão não foi feita a reposição do ciclo realizado em 1997, aquando do tricentenário da morte? Bem, o ano vieirino ainda está a decorrer e eu assim como muitos outros ouvintes apreciaríamos imenso que nos fosse ainda dada a oportunidade de redescobrir, através do éter, a vida e o pensamento dessa grande figura da Cultura e da História de Portugal. Em Junho de 2006, no blogue A Nossa Rádio, tive ocasião de inventariar um rol programas de inegável valor cultural que seria de todo o interesse resgatar às teias de aranha, mas permito-me agora destacar dois deles. Começando pela História, aponto a série "Na Maquina do Tempo", da autoria de Maria João Martins, um trabalho admirável, a todos os títulos (qualidade dos textos, diversidade de temas tratados, locução, etc.), e com uma assinalável componente informativa e formativa, quer para o vulgar ouvinte quer para docentes e alunos do ensino básico e secundário. No campo da Literatura, cito o programa "Reflexos", de António Cardoso Pinto, sobre a divulgação de escritores e poetas (portugueses e estrangeiros), igualmente um trabalho de qualidade superior. Porque é que tesouros deste quilate não são desenterrados lá do cemitério onde não servem a ninguém?
Outra questão que terá de merecer atenção na Antena 2 é o controlo de qualidade na realização, produção e pós-produção dos programas, área em que se tem registado um notório desleixo. Começando pela parte mais técnica da pós-produção vários tem sido os erros de palmatória que se têm verificado desde que a nova direcção entrou em funções (e que anteriormente eram raríssimos), seja registos totalmente inaudíveis ou em péssimas condições de audição, seja montagens feitas com elementos trocados (partes faladas que não correspondem às obras musicais), como já ocorreu, por exemplo, em edições de "Páginas de Português" e de "Os Sons Férteis". E já nem falo daquele caso vergonhoso ocorrido com a série "Divina Proporção", em que puseram no ar um programa por montar, incluindo todas as passagens em que Ana Mântua se enganava e repetia a leitura de um texto, situação que deve ter sido deveras confrangedora para a autora. Já no que respeita à fase da produção, urge que seja adoptada uma atitude mais profissional e responsável dos assistentes de realização/produtores no apoio logístico aos autores/realizadores, designadamente em coisas tão elementares e prosaicas como a procura das interpretações indicadas para cada programa, evitando-se o facilitismo de as substituir por outras que estejam mais à mão.
Não se deverá também esquecer a reformulação dos espaços do início da manhã e do fim da tarde. No programa da manhã, uma das medidas inevitáveis a tomar é substituir o loquaz e insuportável Paulo Alves Guerra por uma dupla mista de apresentadores, fixa ou variável (ainda melhor), recuperando-se assim a boa experiência que foi o "Acordar a 2" (que saudades dos belíssimos discos que a Gabriela Canavilhas nos dava a ouvir em primeira mão!). A outra medida é a reformulação do programa: apenas dois blocos noticiosos (8:00 e 9:00), com o máximo de sete minutos cada um, sendo o primeiro generalista e o segundo cultural (podendo integrar sugestões de eventos culturais); introdução de uma crónica de autor (8:30 e 9:30), no mesmo modelo das que já foram feitas por Isabel da Nóbrega, Maximiano Gonçalves e Jorge Guimarães (nada a ver, portanto, com os comentários saloios e entediantes do Sr. Pedro Malaquias a notícias da imprensa). O resto do tempo seria ocupado com música, preferencialmente barroca, a meu ver, a mais adequada para começar o dia com boa disposição. De evitar, a todo o custo, a música contemporânea e o repertório operático, sobretudo o mais pesado (Wagner, Richard Strauss, etc.). Para o fim da tarde, a melhor opção seria mesmo o regresso de Jorge Rodrigues com o seu "Ritornello". E sendo Jorge Rodrigues um entendido em ópera e música vocal, aproveitava-se o seu saber para lhe entregar a realização de um programa dedicado ao canto lírico (História da Ópera, vida e obra dos cantores), uma área do agrado de muitos ouvintes mas muito maltratada pela direcção Rui Pêgo/João Almeida.
E para reconquistar a relação de cumplicidade do auditório com a sua rádio, deverá voltar a figurar na grelha um espaço destinado a obras/interpretações pedidas pelos ouvintes. O espaço anterior chamava-se "Que Quer Ouvir?" mas o título é o que menos interessa. O importante é que a Antena 2 consiga reatar os laços de fidelidade com o seu auditório natural e trazer de volta os ouvintes tresmalhados. Ainda nesta linha, a introdução de pequenos passatempos em que através de uma pergunta se dá oportunidade aos ouvintes de se habilitarem a discos e livros, também deverá ser ponderada.
Por último, cumpre-me referir outro aspecto que contribuiu de sobremaneira para o afastamento de muitos ouvintes da audição regular da Antena 2: o uso e abuso de 'jingles' e 'spots'. Sobre esta praga que se tornou endémica, e para não ser redundante, remeto V. Exas. para os três textos que já dediquei ao assunto (todos eles dados a conhecer à direcção de programas mas sem qualquer efeito):
Formas de poluição sonora na rádio pública,
Antena 2: quando os spots promocionais se tornam um flagelo e
Bach achincalhado na Antena 2.
O exercício da crítica não se resume a apontar o dedo ao que está mal; pressupõe também a apresentação de medidas para a erradicação dos problemas existentes e a indicação de caminhos a seguir para inverter o descalabro. Foi o que acabei de fazer, enquanto contribuinte/ouvinte e por dever de cidadania. Para que o segundo canal da rádio pública não corra o risco de cair nos 0,2 % de audiência e aí ser necessário mudar o slogan para "Antena 0,2: a arte que destoca".
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte,
Sempre defendi que a rádio pública deve ter como preocupação primeira a qualidade do serviço e nunca enveredar por estratégias de programação tendo como mira, a qualquer custo, o aumento das audiências. Este é um ponto assente, o que não significa que não haja a preocupação de que o serviço prestado, na observância de rigorosos critérios de qualidade e bom gosto, agrade ao maior número possível de ouvintes. Porque, como alguém dizia, "não há serviço público sem público". Nesta ordem de ideias, o valor de audiências – 0,4 % – que a Antena 2 registou no segundo trimestre de 2008, a mais baixa da sua História, desde que há audiometrias, deve merecer uma atenta reflexão da parte de quem tem por responsabilidade avaliar o serviço público de rádio. Aliás, os resultados obtidos nos trimestres anteriores mostram, sem margem para dúvidas, um contínuo decrescendo das audiências do canal. Ora a estratégia que vem sendo seguida, desde meados de 2005, pela direcção Rui Pêgo/João Almeida, visava justamente o contrário, isto é, alargar os públicos e consequentemente subir o nível de audiências. Convém lembrar que no segundo trimestre de 2005, imediatamente antes da grelha ter sido reformulada de acordo com a nova estratégia, a audiência da Antena 2 era de 0,6 % e com uma programação alegadamente mais elitista. E foi precisamente por a administração de então (na pessoa de Luís Marques) considerar que 0,6 % era um valor muito modesto para a Antena 2 que foi decidida a exoneração de João Pereira Bastos e a nomeação da dupla Rui Pêgo/João Almeida. Como se explica então o rotundo falhanço? Torna-se evidente que a orientação (ou desorientação) que foi dada à antena nos últimos três anos não só provocou a debandada de uma parte muito significativa dos ouvintes que lhe estavam fidelizados como não conseguiu captar e fidelizar novos ouvintes em número suficiente para compensar as perdas. Esta é uma conclusão irrefutável, por mais manigâncias que se tentem fazer. Fica também provado que em Portugal, a exemplo da generalidade dos países europeus, o público da música erudita europeia (ou de tradição europeia) suplanta em muito o conjunto dos públicos dos géneros musicais que passaram a ter grande destaque na Antena 2 – jazz, música étnica, música electrónica de ambientes e outras linguagens afins à pop. Muitas pessoas ficaram sem uma rádio para ouvir e às mais afortunadas não lhes restou outra alternativa que socorrerem-se da sua discoteca particular ou, então, optarem pela audição de rádios clássicas via internet.
Mas há ainda outras razões para o acentuado declínio das audiências da Antena 2 e que passo a esmiuçar. Em primeiro lugar, uma muito perceptível degradação da qualidade da locução – vozes não apropriadas para a rádio (em timbre e em colocação), erros de dicção e pronúncia quer de palavras portuguesas quer de estrangeiras (a colocação de tónica esdrúxula em palavras graves, por influência do inglês, é frequentíssima), erros de sintaxe e frases mal construídas, coloquialidade de trazer por casa em contextos que requeriam alguma formalidade, etc. E tudo isto agravado por um excesso de loquacidade repetindo-se inclusive coisas já anteriormente ditas, enfim, palavreado prolixo e inútil para quem está em sintonia. Não quero com isto dizer que não deva haver lugar na grelha para programas falados ou com uma forte componente de palavra ainda que de conteúdo predominantemente musical. No meu conceito de serviço público cultural, portanto não exclusivamente musical, esse tipo de programas deve existir. Digo mais: devem ter primazia relativamente aos longos alinhamentos do tipo 'jukebox', actualmente dominantes. Agora, o que não pode deixar de se ter em atenção é, logo à partida, a qualidade da oralidade, não devendo cair-se na leviandade de considerar que toda e qualquer voz serve para a rádio e – muito importante – evitar-se o improviso e ter-se como regra a preparação prévia dos textos que são lidos aos microfones, não se devendo descartar ainda assim as indispensáveis lições de dicção e prosódia em quem delas necessite. E por que razão o uso da língua portuguesa na rádio deve merecer uma atenção muito especial? Em primeiro lugar, para não defraudar as legítimas expectativas de quem frui o serviço; em segundo lugar, pela enorme influência que a rádio assim como a televisão exercem sobre a generalidade das pessoas, o que faz com a linguagem defeituosa usada nesses meios acabe por ser assimilada, tanto em maior grau quanto menor for o domínio da língua e o nível cultural do receptor. E sabendo-se da iliteracia que existe em Portugal, com largos estratos da população que não lêem livros (e que já perderam a rica cultura tradicional de transmissão oral) e que têm na rádio e na televisão os únicos meios de informação e de lazer, maior a pertinência da questão. O próprio Ministro da Cultura, Dr. José António Pinto Ribeiro, já se pronunciou várias vezes a respeito da atenção que deverá ser dada, nos média, à língua portuguesa. Foi o que fez, por exemplo, no programa televisivo Câmara Clara (20.07.2008), ao afirmar peremptoriamente que «não há política da língua sem a televisão, sem a rádio e sem os jornais». No caso concreto da emissora do Estado, que é o que nos interessa agora, a política que vem sendo seguida na área da língua portuguesa não podia estar mais em contradição com as palavras do ministro. Fará sentido que, sob a alçada do mesmo Governo, haja duas orientações diametralmente opostas? Em face deste facto, terá de se pedir ao Sr. Primeiro-Ministro que tome uma posição clara: ou manda calar o seu Ministro da Cultura ou então terá de pôr ordem na estação de rádio que está sob a sua tutela. Caso contrário, é a autoridade e a credibilidade do Governo, e por extensão do Estado Português, que ficam em causa.
Outro ponto de primordial importância para a melhoria do serviço prestado pela Antena 2 é o horário de transmissão dos programas de autor, sendo que todos eles devem passar no mínimo duas vezes, e em horários distintos, de modo a que pessoas com disponibilidades de escuta diferentes tenham possibilidade de ouvir (ou mesmo reouvir) os da sua preferência e com proveito para o seu enriquecimento cultural (caso contrário, é dinheiro que se está a deitar à rua). Já disse várias vezes, e lembro uma vez mais, que, sem prejuízo de continuarem a passar ao fim-de-semana, é imperioso que os programas de autor (na sua totalidade, reafirmo) sejam também transmitidos de segunda a sexta-feira, de dia (pensando nas pessoas que ouvem rádio enquanto trabalham) ou à noite (pensando nas pessoas que procuram na rádio uma alternativa à televisão). Os períodos sobrantes seriam então preenchidos com alinhamentos estritamente musicais, mas dedicados, isto é, com uma coerência editorial bem definida: instrumentos solistas, música de câmara, música concertante e orquestral, obras corais-sinfónicas, música vocal não religiosa (lied, ópera), música sacra (canto gregoriano, polifonia, oratória), música de dança, música de cena, perfil de um autor, intérprete da semana, intérpretes portugueses, etc. O público da música erudita não é uma massa amorfa que gosta de tudo: há gostos diferenciados e específicos que importa ter em conta. Foi esta a filosofia que vigorou durante o consulado de João Pereira Bastos e com resultados bem acima dos actuais. E já que falei do anterior director de programas, é justo que refira também a atenção que ele dava (e que deixou de ser dada) a programas culturais não musicais, designadamente nas áreas da História, da Literatura e da Ciência. Já disse, e volto a insistir, que o tratamento da cultura (não musical) numa rádio de serviço público não se pode restringir – como tem acontecido durante o último triénio – a noticiar os eventos culturais que acontecem no país. Escusado será dizer que as rubricas dando conta dos livros que estão nos escaparates, dos filmes em estreia, das peças em cena, das exposições, etc., têm o seu lugar mas é preciso ir mais além: a rádio tem um potencial cultural que deve ser aproveitado. No caso da História e da Literatura, a lacuna agora existente até pode ser colmatada a custo zero. E como? Basta ir ao riquíssimo arquivo histórico e aproveitar o que de melhor lá existe e sem risco de desactualização pois o que há dez ou quinze anos se disse sobre Gil Vicente, o Padre António Vieira, o Marquês de Pombal ou Eça de Queiroz, por exemplo, mantém-se perfeitamente válido. A propósito, uma pergunta pertinente: no ano em que se comemora o quadricentenário do nascimento daquele a quem Fernando Pessoa chamou o "imperador da língua portuguesa", por que razão não foi feita a reposição do ciclo realizado em 1997, aquando do tricentenário da morte? Bem, o ano vieirino ainda está a decorrer e eu assim como muitos outros ouvintes apreciaríamos imenso que nos fosse ainda dada a oportunidade de redescobrir, através do éter, a vida e o pensamento dessa grande figura da Cultura e da História de Portugal. Em Junho de 2006, no blogue A Nossa Rádio, tive ocasião de inventariar um rol programas de inegável valor cultural que seria de todo o interesse resgatar às teias de aranha, mas permito-me agora destacar dois deles. Começando pela História, aponto a série "Na Maquina do Tempo", da autoria de Maria João Martins, um trabalho admirável, a todos os títulos (qualidade dos textos, diversidade de temas tratados, locução, etc.), e com uma assinalável componente informativa e formativa, quer para o vulgar ouvinte quer para docentes e alunos do ensino básico e secundário. No campo da Literatura, cito o programa "Reflexos", de António Cardoso Pinto, sobre a divulgação de escritores e poetas (portugueses e estrangeiros), igualmente um trabalho de qualidade superior. Porque é que tesouros deste quilate não são desenterrados lá do cemitério onde não servem a ninguém?
Outra questão que terá de merecer atenção na Antena 2 é o controlo de qualidade na realização, produção e pós-produção dos programas, área em que se tem registado um notório desleixo. Começando pela parte mais técnica da pós-produção vários tem sido os erros de palmatória que se têm verificado desde que a nova direcção entrou em funções (e que anteriormente eram raríssimos), seja registos totalmente inaudíveis ou em péssimas condições de audição, seja montagens feitas com elementos trocados (partes faladas que não correspondem às obras musicais), como já ocorreu, por exemplo, em edições de "Páginas de Português" e de "Os Sons Férteis". E já nem falo daquele caso vergonhoso ocorrido com a série "Divina Proporção", em que puseram no ar um programa por montar, incluindo todas as passagens em que Ana Mântua se enganava e repetia a leitura de um texto, situação que deve ter sido deveras confrangedora para a autora. Já no que respeita à fase da produção, urge que seja adoptada uma atitude mais profissional e responsável dos assistentes de realização/produtores no apoio logístico aos autores/realizadores, designadamente em coisas tão elementares e prosaicas como a procura das interpretações indicadas para cada programa, evitando-se o facilitismo de as substituir por outras que estejam mais à mão.
Não se deverá também esquecer a reformulação dos espaços do início da manhã e do fim da tarde. No programa da manhã, uma das medidas inevitáveis a tomar é substituir o loquaz e insuportável Paulo Alves Guerra por uma dupla mista de apresentadores, fixa ou variável (ainda melhor), recuperando-se assim a boa experiência que foi o "Acordar a 2" (que saudades dos belíssimos discos que a Gabriela Canavilhas nos dava a ouvir em primeira mão!). A outra medida é a reformulação do programa: apenas dois blocos noticiosos (8:00 e 9:00), com o máximo de sete minutos cada um, sendo o primeiro generalista e o segundo cultural (podendo integrar sugestões de eventos culturais); introdução de uma crónica de autor (8:30 e 9:30), no mesmo modelo das que já foram feitas por Isabel da Nóbrega, Maximiano Gonçalves e Jorge Guimarães (nada a ver, portanto, com os comentários saloios e entediantes do Sr. Pedro Malaquias a notícias da imprensa). O resto do tempo seria ocupado com música, preferencialmente barroca, a meu ver, a mais adequada para começar o dia com boa disposição. De evitar, a todo o custo, a música contemporânea e o repertório operático, sobretudo o mais pesado (Wagner, Richard Strauss, etc.). Para o fim da tarde, a melhor opção seria mesmo o regresso de Jorge Rodrigues com o seu "Ritornello". E sendo Jorge Rodrigues um entendido em ópera e música vocal, aproveitava-se o seu saber para lhe entregar a realização de um programa dedicado ao canto lírico (História da Ópera, vida e obra dos cantores), uma área do agrado de muitos ouvintes mas muito maltratada pela direcção Rui Pêgo/João Almeida.
E para reconquistar a relação de cumplicidade do auditório com a sua rádio, deverá voltar a figurar na grelha um espaço destinado a obras/interpretações pedidas pelos ouvintes. O espaço anterior chamava-se "Que Quer Ouvir?" mas o título é o que menos interessa. O importante é que a Antena 2 consiga reatar os laços de fidelidade com o seu auditório natural e trazer de volta os ouvintes tresmalhados. Ainda nesta linha, a introdução de pequenos passatempos em que através de uma pergunta se dá oportunidade aos ouvintes de se habilitarem a discos e livros, também deverá ser ponderada.
Por último, cumpre-me referir outro aspecto que contribuiu de sobremaneira para o afastamento de muitos ouvintes da audição regular da Antena 2: o uso e abuso de 'jingles' e 'spots'. Sobre esta praga que se tornou endémica, e para não ser redundante, remeto V. Exas. para os três textos que já dediquei ao assunto (todos eles dados a conhecer à direcção de programas mas sem qualquer efeito):
Formas de poluição sonora na rádio pública,
Antena 2: quando os spots promocionais se tornam um flagelo e
Bach achincalhado na Antena 2.
O exercício da crítica não se resume a apontar o dedo ao que está mal; pressupõe também a apresentação de medidas para a erradicação dos problemas existentes e a indicação de caminhos a seguir para inverter o descalabro. Foi o que acabei de fazer, enquanto contribuinte/ouvinte e por dever de cidadania. Para que o segundo canal da rádio pública não corra o risco de cair nos 0,2 % de audiência e aí ser necessário mudar o slogan para "Antena 0,2: a arte que destoca".
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
22 julho 2008
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
A par da comunidade já existente na plataforma Google (http://groups.google.com/group/lugar-ao-sul), o grupo Amigos do LUGAR AO SUL faz-se também representar no My Space (http://www.myspace.com/lugaraosul), justamente para abrir aos seus membros e, bem assim, aos cibernautas em geral mais uma janela para a boa música portuguesa, em especial a mais representativa da nossa matriz cultural: popular (tradicional e de autor) e fado. Nessa conformidade, a lista de amigos será formada preferencialmente por intérpretes (em nome individual ou em grupo) que se inserem naquelas áreas. Atendendo à pouquíssima atenção que as rádios hertzianas nacionais, completamente instrumentalizadas pelo lobby da indústria discográfica, dão à nossa música mais autêntica e qualificada, a nova página tem o nobre propósito de constituir uma montra dos nomes de maior valia e interesse do panorama musical português, representados no My Space. Porque só se ama e se deseja o que se conhece.
Embora a lista de artistas/grupos amigos ainda esteja em fase de constituição, pelos nomes representados até ao momento já é possível aferir-se da muita e boa música de raiz tradicional/folk que se está a fazer em Portugal. A estatal Antena 1, no entanto, continua a fazer de conta que nada disso lhe diz respeito, a ponto de quase não dar espaço a esta importante vertente da nossa música. Sem prejuízo da necessária reformulação da playlist de modo a torná-la mais eclética e menos monolítica, é gritante a falta que se faz sentir na Antena 1 de um programa musical de divulgação da produção nacional de raiz ou inspiração tradicional. E digo programa porque a minúsculo apontamento Cantos da Casa, de Armando Carvalhêda, é manifestamente insuficiente, além de que o horário de emissão (14:55) não é propriamente praticável por muitas pessoas apreciadoras do género, por contingências profissionais (nem todas as profissões são compatíveis com a escuta de rádio). Aliás, existindo espaços alargados, em horários não laborais (fim-de-semana), para o fado ("Alma Lusa"), para o jazz/swing ("A Menina Dança?") e para a música anglo-americana ("Ondas Luisianas" e "Classe 70"), não se compreende por que não acontece o mesmo para a música de raiz tradicional. Trata-se, sem dúvida, de uma falha clamorosa do serviço público, que urge colmatar! Se isso não acontecer em tempo útil, não deixarei de voltar ao assunto proximamente.
Por último, e em nome dos Amigos do LUGAR AO SUL, peço à administração da Rádio e Televisão de Portugal que, a exemplo da oportunidade dada – e muito bem – a António Cartaxo, não impeça Rafael Correia de nos continuar a presentear com as suas saborosas conversas andarilhas, pelos trilhos da memória algarvia e alentejana. Pois, como alguém dizia, «não há sábado sem "Lugar ao Sul"».
21 julho 2008
Arte e poesia (II)
Ainda a respeito da série de programas "Arte de Música", da autoria de Paula Abrunhosa (na foto), de que falei no texto anterior, quero acrescentar mais umas coisas que julgo pertinentes. Em primeiro lugar, para que fique tudo devidamente explicitado, e embora não tivesse posto em causa a competência técnica da autora no tocante à análise/comentário dos poemas de Jorge de Sena e das obras/interpretações musicais correspondentes, cumpre-me dar conta da formação académica de Paula Abrunhosa, segundo informação que entretanto me foi gentilmente prestada: «concluiu o Curso de Órgão no Departamento de Estudos Superiores Gregorianos da Escola Superior de Música, sob a orientação do Prof. Antoine Sibertin Blanc, e é licenciada em Línguas e Literaturas Clássicas». Fica feita a devida nota. Não obstante, a minha crítica quanto à leitura/recitação dos poemas mantém-se e foi aliás confirmada pelos dois programas seguintes já transmitidos.
A talhe de foice, aproveito para dar conta da minha insatisfação relativamente a dois aspectos do segundo e terceiro programas. No segundo, não gostei que das "Variações Goldberg", de Bach, apenas fosse transmitido uma pequena parte, por alegada falta de espaço porque na mesma emissão foram tratadas outras peças musicais. Atendendo à importância das "Variações Goldberg" e ao apreço que suscitam em muitos melómanos (bachianos e não só), julgo que se justificaria plenamente que a obra passasse na íntegra, nem que fosse preciso sacrificar outras peças de menor relevo ou então inserindo-as noutros programas da série. Era pedir muito? Muito aquém das expectativas, portanto.
No terceiro programa, na parte dedicada às sonatas para cravo de Domenico Scarlatti, por Wanda Landowska, fiquei perplexo quando se deu a ouvir uma interpretação não da própria Wanda Landowska mas de outro cravista, no caso de Trevor Pinnock. A razão alegada foi a de que não foi possível encontrar gravações de Wanda Landowska. Como? Não há discos de Wanda Landowska com as sonatas de Domenico Scarlatti disponíveis no mercado discográfico? Eu fiz uma pesquisa rápida e não exaustiva no Google e apareceu-me pelos menos um (aqui, por exemplo). Então, porque é que não foi feita a encomenda do disquinho? Das avultadas verbas da taxa do audiovisual e dos nossos impostos que vão parar à RDP, não era possível arranjar uns míseros 16.99 dólares para comprar o CD de Wanda Landowska? Ou terá sido Paula Abrunhosa que, não tendo o disco na sua discoteca particular, nem sequer se deu ao trabalho, já não digo de encomendar o disco via internet, pelo menos de solicitar à direcção da Antena 2 que diligenciasse no sentido de procurar uma gravação. E quando falo de gravação não me refiro forçosamente a edições discográficas: há também as gravações de arquivo. Admitindo que no arquivo ou na discoteca da RDP não haja registos da lendária cravista polaca (a propósito, o que fizeram aos antigos LPs de vinil?), isso não significa que numa das estações públicas europeias não haja uma gravação. Na Rádio France ou numa das várias rádios estaduais alemãs eu aposto que existe. Então, não seria expectável que a direcção da Antena 2, supondo que teve conhecimento da situação e não querendo comprar o disco, contactasse a UER para indagar da existência da gravação pretendida junto das suas associadas? Não é também para estas acções de cooperação que existe a UER? Os locatários da direcção da Antena 2, pelos vistos, não estiveram para se ralar, o que vem demonstrar uma vez mais a sua flagrante falta de profissionalismo e de sentido de serviço público.
08 julho 2008
Arte e poesia
Começou, no espaço "Caleidoscópio", uma nova série de programas intitulada "Arte de Música", justamente incidindo sobre o livro de poesia homónimo de Jorge de Sena. A autora e apresentadora dá pelo nome de Paula Abrunhosa e, embora não conhecendo a pessoa nem tendo sobre ela a mais pequena referência, tenho de confessar que gostei do que ouvi, excepto numa coisa: a leitura dos poemas muito corrida, como se se tratasse de prosa e sem grande aprumo na dicção. Penso que neste ponto devia ter sido solicitada a colaboração a alguém com outro 'savoir faire' na arte de dizer/recitar poesia. Dado que a poesia de Jorge de Sena, por não respeitar a métrica e a rima tradicionais, apresenta dificuldades acrescidas a quem se abalança em a dizer/recitar maior a pertinência da leitura dos poemas ter sido entregue a um actor ou 'diseur' credenciado. Quando ouço o poema "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", de Jorge de Sena, pela voz de Mário Viegas, sei que estou a ouvir poesia e não prosa. Relativamente ao livro "Arte de Música", em que a perspectiva pessoal do autor e a sua sensibilidade reflexiva de melómano estão bem vincadas, é claríssimo como água que faria todo o sentido que a voz do poeta fosse 'encarnada' por um homem e não por uma mulher. E não é difícil inferir que o 'produto' radiofónico que daí resultaria teria indubitavelmente outro nível de qualidade e requinte auditivo. Terá Paula Abrunhosa prescindido de um 'diseur' por pura ganância, para poder arrecadar o dinheiro todo? E a pessoa responsável pela produção e/ou assistência de realização, a quem cabia defender a honra da casa, limitou-se a fazer vista grossa? Ou terá havido directivas vindas de cima para que as coisas fossem feitas dessa maneira? Qualquer que seja a eventualidade, ela é bem sintomática da degradação a que chegou a rádio pública.
Mas voltando ao livro "Arte de Música", talvez não esteja errado se disser que o mesmo já foi abordado, pelo menos avulsamente, em programas anteriores da Antena 2, se não por Paulo Rato, em edições de "Os Sons Férteis", por realizadores mais antigos (João de Freitas Branco ou Carlos Acheman, por exemplo). Isto sem contar com uma emissão do saudoso "Ritornello" em que Jorge Rodrigues esteve à conversa, via telefone, com D. Mécia de Sena, precisamente em torno do tal livro, tendo lido alguns dos poemas e transmitido as obras musicais respectivas. Em todo o caso, saúda-se a nova série de programas e a sua autora, e também os decisores a quem coube a aprovação da sua realização. Agora, o que não posso deixar de criticar – e com veemência – é o horário único de transmissão: ao início da manhã de domingo (9-10 horas), quando muita gente ainda se encontra no regaço de Morfeu a pôr o sono em dia. Quer dizer: gastam o nosso dinheiro a contratar autores externos à casa (por se considerar que são uma mais-valia para a grelha) e depois atiram os respectivos programas para buracos esconsos! Onde está a lógica e a racionalidade? Não é preciso ser-se muito inteligente para se perceber esta coisa elementaríssima: os programas de autor de indiscutível relevância cultural, como é o caso, e que representam um investimento acrescido em termos orçamentais, devem ter no mínimo duas transmissões, e em quadrantes horários distintos, de modo a ficarem acessíveis ao maior número possível de ouvintes. No momento actual, não é por falta de espaço na grelha que isso não se faz: basta olhar para as manhãs e para as tardes de segunda a sexta-feira, agora preenchidas com longos alinhamentos musicais indiferenciados, de tipo "tudo no mesmo saco". Mesmo à hora de jantar, e não tendo qualquer preconceito contra o jazz, não me importava nada de trocar o diário "Jazz com Brancas" pelos tais programas culturais que passam uma única vez nas matinas de sábados e domingos. Enfim, apostas irracionais e estrambólicas que provam bem a inépcia e a falta de sentido de serviço público da parte dos actuais locatários da direcção da Antena 2. Já sei que Rui Pêgo e João Almeida vão alegar que os programas estão disponíveis na internet, mas esquecem-se de uma coisa muito importante: não podem ser descarregados, a fim de serem ouvidos 'offline', no próprio computador ou, sem limitações de mobilidade, nos já bastante vulgarizados leitores portáteis de áudio digital. Assim, os ouvintes interessados em alguns desses programas e que aos fins-de-semana não estão dispostos a sacrificar o seu merecido descanso, se os quiserem mesmo ouvir, não lhes resta outra alternativa que ter disponibilidade financeira e temporal para estarem ligados 'online' durante o tempo todo. Fica feito o reparo e expresso o desejo de que sejam tomadas as necessárias e urgentes medidas correctivas.
Na mesma linha conceptual de "Arte de Música", aproveito para deixar uma ideia para uma futura série de programas, a incluir ou não no espaço "Caleidoscópio" (isso não é o mais importante). Ocorreu-me tal ideia da audição de uma emissão da série anterior, "Música para Um Pintor", justamente sobre o quadro de Goya que inspirou Jorge de Sena para a escrita do poema atrás referenciado (contido no livro "Metamorfoses", 1963), e que Mário Viegas tão bem recitou. Ideia que agora me saiu reforçada com a estreia da nova série sobre a poesia de Jorge de Sena inspirada em grandes obras da Música Ocidental. Estou a referir-me à relação entre obras de arte, visuais e não animadas (pintura, escultura, arquitectura, fotografia) e a poesia: poemas inspirados em peças de arte e vice-versa. No primeiro caso, caímos inevitavelmente no já citado livro de Jorge de Sena, "Metamorfoses", que só por si dá pano para mangas, mas haverá certamente outros poetas que, se não de forma tão sistemática, pelo menos avulsamente, compuseram poemas inspirados em obras pictóricas ou escultóricas. Assim de repente ocorrem-me três poemas de Miguel Torga: "Ecce Homo" (sobre a pintura de autor anónimo do séc. XV, existente no Museu Nacional de Arte Antiga), "Moisés" (sobre a escultura de Miguel Ângelo) e "Santa Teresa de Bernini" (sobre a escultura de Giovanni Bernini). No segundo caso, ou seja de obras de arte (pintura, gravura e escultura, essencialmente) inspiradas em poemas, ou passagens de poemas, a lista é imensa. Só de episódios e figuras das epopeias clássicas ("Odisseia", "Ilíada", "Eneida") há um sem-número de obras, mormente pictóricas. E da "Divina Comédia" ou dos nossos "Os Lusíadas", apenas para citar duas obras sobejamente conhecidas, existe igualmente um rol considerável de pinturas e gravuras. E já nem falo dos pintores e/ou escultores que também foram poetas como Miguel Ângelo ou Dante Gabriel Rossetti (este último recentemente tratado por Paulo Rato, em "Os Sons Férteis"), não se devendo esquecer, claro está, os artistas portugueses – Almada Negreiros, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Isabel Meyrelles, etc. Como fica demonstrado, o que não falta é matéria-prima para a realização da tal série de programas. É claro que a componente musical também não deixaria de estar presente, com obras ou trechos que contextualizassem o tema tratado. Para a abordagem das obras de arte (com mundividência interdisciplinar entre Arte, História e Literatura), vem-me imediatamente à cabeça o nome do crítico Rui Mário Gonçalves que, aliás, já foi colaborador da Antena 2 (nos anos 90, pelo menos) e que me habituei a ter em grande apreço pelo largo e profundo saber demonstrado. Já a recitação dos poemas e a selecção musical podiam muito bem ficar a cargo de Paulo Rato, caso esteja disponível para tal, aproveitando-se assim a sua longa e reconhecida experiência enquanto autor e realizador de "Os Sons Férteis". Nos últimos tempos, passaram na rádio clássica (o que é de louvar) duas boas séries de programas pondo em paralelo as artes visuais e a música – "Divina Proporção", de Ana Mântua e João Chambers (excelente), e a já citada "Música para Um Pintor", de Dalila Rodrigues e Henrique Silveira (menos bem conseguida) – mas um formato que conjugue a poesia, as artes plásticas e a música julgo que nunca se fez. É verdade que a componente visual fica sempre a perder num programa de rádio, mas a visualização da peça de arte pode ser facultada através da internet (através da qual pode ser impressa), como aconteceu – e muito bem – no caso da série "Música para Um Pintor". Digo isto porque penso que a rádio é o meio que melhor se adequa a este género de programas, tendo como base a música e a palavra dita, em referência ou não a uma imagem fixa. Na televisão tais formatos não funcionariam, só se apresentando a internet como uma alternativa válida mas ainda assim bastante relativa, em virtude das limitações que apresenta, sobretudo no que respeita ao acesso e à mobilidade. Ouvir rádio via internet ainda é uma opção bastante dispendiosa quando comparada com a sintonia hertziana. E depois sempre é mais agradável olhar para um quadro ou fotografia em suporte papel (e já nem falo nas reproduções disponíveis no mercado para serem colocadas na parede), enquanto se ouve um programa de rádio, do que estar com os olhos colados ao ecrã de um computador.
Ficou apresentada uma proposta de inegável interesse cultural para o serviço público de rádio. Se não for concretizada não será obviamente por falta de espírito construtivo do autor destas linhas.

Francisco Goya, "Os Fuzilamentos do 3 de Maio de 1808", 1814, óleo sobre tela, 268 × 347 cm, Museu do Prado, Madrid
CARTA A MEUS FILHOS SOBRE OS FUZILAMENTOS DE GOYA
Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1963; "Poesia II", org. Mécia de Sena, col. Obras de Jorge de Sena, Lisboa: Moraes Editores, 1978; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1988 – p. 121, 123-124; "Antologia Poética", Porto: Edições Asa, 1999 – p. 108-111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978; "Mário Viegas: Discografia Completa": Vol. 5 – "Pretextos Para Dizer", Público, 2006)
Música de Luís Cília
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse com «suma piedade e sem efusão de sangue».
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer
aniquilando mansamente, delicadamente
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê-la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que,
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
Lisboa, 25/06/1959
* Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto
18 junho 2008
Bach achincalhado na Antena 2

Rui Pêgo e João Almeida, habituados à lógica comercial das rádios por onde passaram, logo que foram postos a dirigir a Antena 2, não descansaram enquanto não a contaminaram de uma carga considerável de factores de poluição auditiva. Refiro-me à abundante e oca verborreia, ainda por cima numa deficiente e reles dicção, do inenarrável "Império dos Sentidos" (a propósito, já pagaram direitos de autor ao cineasta Nagisa Oshima?), a outras aberrações da grelha como "Fuga da Arte" e "Vias de Facto", e muito especialmente aos massacrantes jingles e 'spots', disparados a todo o momento. Um dos 'spots' que já deve ter passado milhares de vezes, desde que a grelha foi reformulada em Março último, é aquele em que puseram um trecho de uma composição de Bach, mais concretamente do Allegro inicial do concerto para violino e orquestra de cordas, BWV 1042, em cima do qual se nomeiam pintores, museus e salas de concertos, terminando com a indicação de uma frequência hertziana da Antena 2 e o slogan "Antena 2: a arte que toca". Ora se a utilização de uma obra do divino Bach num 'spot' promocional já revela uma certa leviandade e – porque não dizê-lo – uma sintomática falta de respeito e de deferência pelo superlativo legado do mestre de Köthen (digo Köthen porque foi nessa pequena cidade alemã que, entre 1717 e 1723, o genial Johann Sebastian compôs, para o príncipe calvinista Leopold, o concerto em causa e, bem assim, boa parte do seu acervo de obras instrumentais, de que destaco as suites para violoncelo solo), mais grave ainda é a repetição recorrente e sucessiva do referido 'spot'. E isso é feito quase sempre a intervalos de uma hora (às vezes menos), pelos locutores de continuidade, presumo eu que não por alguma obsessão sadomasoquista que deles se tenha apoderado (embora alguns evidenciem já terem adquirido um tique subliminar e mecânico, com as inevitáveis situações em que metem os pés pelas mãos), mas em obediência a ordens expressas da dupla Rui Pêgo / João Almeida. Dois indivíduos que, imbuídos da euforia de quem descobriu a pólvora, se não têm poupado a esforços na "nobre missão" de "modernizar" a "vetusta" Antena 2, afastando profissionais de incontestada competência e preparação intelectual para dar lugar a imberbes e amigos medíocres e, como se isso não bastasse, introduzindo na antena uma série de "inovações" de que, em boa verdade, ela nunca precisou para prestar um serviço de reconhecida qualidade e que mais não são do que espartilhos que a não deixam respirar e que efectivamente apenas a têm reduzido a uma triste sombra do paradigma de excelência que já foi o seu timbre. E uma das "inovações" introduzidas são precisamente os blocos promocionais, ao virar de cada hora, como que dando-se a entender aos ouvintes que optam pela Antena 2: «Ah! não querem ouvir os noticiários e os anúncios comerciais das outras, pois nem por isso se livram de gramar com umas boas cartuchadas de publicidade institucional e, claro está, os nossos 'spots' autopromocionais. Já os ouviram muitas vezes? Paciência. Os ouvintes das privadas também ouvem milhentas vezes os anúncios do BES e de outras banhas da cobra e não se queixam. O nosso conceito de serviço público é assim, e é para quem quer. Quem não está satisfeito vá dar uma volta ou ponha a tocar CDs!». Agora falo eu: pois, pois, mas para tocar CDs eu não precisava de desembolsar a taxa do audiovisual (20.52 euros anuais + IVA), montante a que acrescem ainda avultadas verbas do Orçamento Geral do Estado (provenientes dos nossos impostos, directos e indirectos), ao abrigo do contrato de concessão de serviço público. Então, em que ficamos? Presumindo que Rui Pêgo e o seu adjunto João Almeida não tenham uma resposta (razoável e convincente) para me dar, eu intercedo junto do Provedor do Ouvinte para que se digne apreciar este assunto. Devo dizer que até possuo uma razoável colecção de CDs (e ficheiros áudio) e é claro que não me faz mal nenhum dar-lhes uso frequente, mas enquanto contribuinte (coercivo) para a estação do Estado não abdico do direito que me assiste de reivindicar uma rádio livre das adiposidades que, além de serem perfeitamente inúteis e supérfluas, têm ainda a agravante de constituírem um insuportável factor de saturação e cansaço para os nossos ouvidos. No caso concreto da sublime música de J.S. Bach, que serviu de mote a esta reclamação, eu jamais aceitaria que, por causa de uns irresponsáveis e ineptos, colocados por engano aos comandos da Antena 2, lhe ganhasse anticorpos de rejeição, por saturação e pela banalização e achincalhamento a que a mesma vem sendo criminosamente submetida. Tivessem escolhido qualquer coisa de Philip Glass que já não me queixaria de achincalhamento mas, em todo o caso, não deixaria de me insurgir contra a poluição sonora.
Em conclusão: que os actuais inquilinos da direcção de programas nos devolvam uma rádio clássica devidamente higienizada e limpa do lixo com que a conspurcaram! Ou então, se estão agarrados ao poleiro que nem lapas e não têm a hombridade de se irem embora pelos seus próprios pés, que a administração da Rádio e Televisão de Portugal e a tutela governamental tenham a clarividência e o bom senso de os apear e de entregar os destinos da rádio clássica a alguém mais capaz e competente.
Textos relacionados:
Formas de poluição sonora na rádio pública
Antena 2: quando os 'spots' promocionais se tornam um flagelo
20 maio 2008
Prémio José Afonso (carta aberta)
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal da Amadora,
Exmo. Sr. Vereador da Cultura,
Como é sabido, desde 2006 o Prémio José Afonso passou a reger-se por regras diferentes das que vinham sendo praticadas, sendo que deixou de haver uma lista de nomeados, elaborada por um colégio de três pessoas (o Sr. Júlio Murraças, funcionário da autarquia, e dois jornalistas especializados em música), entregando-se às editoras a prerrogativa de escolher os discos a sujeitar à consideração do júri. Ora, se com o anterior sistema de selecção havia a possibilidade de ocorrerem exclusões eventualmente injustas (voluntárias ou involuntárias), não é menos verdade que o critério que passou a ser adoptado tem imperfeições ainda mais relevantes, nas quais importa atentar. Uma delas é deixar nas mãos das editoras a indicação dos discos para a candidatura: em primeiro lugar, porque uma fatia considerável da edição de música de qualidade em Portugal já não passa pelas editoras, pelo menos pelas majors (desenvolverei este ponto mais adiante); em segundo lugar, pelo sério risco de os altos responsáveis das editoras não fazerem as escolhas mais justas e acertadas, não sendo também de descartar intuitos não artísticos (comerciais ou outros) que essas escolhas possam revestir. Aliás, isso ficou logo bem à vista em 2006 com aquela pobre lista que foi apresentada ao júri. Os jurados tomaram a decisão mais digna e acertada, ao não atribuirem o prémio a nenhum dos discos propostos, para não apoucar o prestígio do prémio e o nome do seu patrono, e também – atrevo-me a conjecturar – para dar um sinal à C.M. Amadora que aquele modo de candidatura não era o mais adequado. Como é possível que ao Prémio José Afonso sejam propostas coisas como Hands on Approach e Boite Zuleika? Em contrapartida, ficaram de fora – pasme-se! – os Madredeus ("Faluas do Tejo"), a Mariza ("Transparente"), a Cristina Branco ("Ulisses"), a Mafalda Arnauth ("Diário"), a Mísia ("Drama Box"), os Galandum Galundaina ("Modas I Anzonas"), os Roldana Folk ("Gincana"), os Mandrágora ("Mandrágora"), Bernardo Sassetti ("Ascent"), etc., entre ao quais havia com toda a certeza um álbum digno de receber o Prémio José Afonso (como se comprova nesta petição). Uma tremenda injustiça, portanto, que foi cometida ao virtual vencedor e, mais latamente, à música popular portuguesa. Outro problema que pode ocorrer com o novo sistema é a não apreciação pelos jurados (por impossibilidade prática de ouvirem tudo o que é proposto) de discos com qualidade ainda que propostos a concurso, sobretudo primeiras obras, só porque os intérpretes eventualmente não lhes dizem nada. Neste caso, o soberbo "Parainfernália", o disco de estreia do grupo Diabo a Sete, com chancela da Açor/Emiliano Toste, corre o sério risco de nem sequer ser apreciado na edição deste ano de 2008. Isto partindo do princípio que a respectiva editora foi contactada e que o disco foi proposto. A este propósito, cabe perguntar: será que todas as editoras existentes em Portugal, designadamente as menos proeminentes e/ou não pertencentes à Associação Fonográfica Portuguesa, têm a efectiva oportunidade de apresentar as suas candidaturas? Não há editoras independentes, sobretudo as de menor visibilidade ou projecção no mercado, que ficam à margem do processo? E as edições de autor? Ficam todas de fora?
Tendo em conta todos estes aspectos, entendo que o concurso de candidatura ao Prémio José Afonso devia ser mais amplo e aberto (mediante a publicação de um anúncio na imprensa e também no site da C.M. Amadora), precisamente para dar igualdade de oportunidades à edição independente, incluindo a edição de autor, neste caso possibilitando que os intérpretes (a solo ou em grupo) não vinculados a editoras também concorram. Talvez não fosse viável (por manifesta falta de tempo) aos jurados ouvir todos os discos recebidos e aqui a assessoria de um ou dois consultores externos (críticos musicais ou melómanos reconhecidos) seria de grande utilidade para chamar a atenção para os trabalhos de maior relevância, não necessariamente dos nomes mais sonantes e mediáticos. E, se porventura, algum bom disco não tivesse sido candidato, por desatenção do artista ou por discriminação da editora, isso não quer dizer que o júri não o sujeitasse também à sua apreciação. Deste modo, o risco de injustiças seria fortemente minimizado, o que certamente agradaria ao seu patrono José Afonso. Isto enquanto não há em Portugal – falha grave – um regime de depósito legal para as edições discográficas, idêntico ao que existe para os livros. Se existisse, deixaria de ser necessário o processo burocrático de candidatura, bastando pegar na lista dos discos editados em cada ano, facultada pela entidade depositária (organismo equivalente à Biblioteca Nacional), e fazer a respectiva apreciação.
Desenvolvendo agora um ponto anteriormente enunciado, quero frisar a importância que, no actual panorama discográfico, adquiriu a edição independente – de pequenas editoras e de autor – por ser daí que provém a melhor música portuguesa editada nos últimos anos. Aquilo que as majors põem cá fora é, na sua esmagadora maioria, autêntico lixo (e curiosamente é isso o que mais passa na rádio, inclusive na estatal), circunstância agravada em face da pouca atenção que a edição independente merece da parte da imprensa e dos grandes circuitos de distribuição comercial. Da colheita de 2007 (uma das melhores dos últimos anos) há cinco discos que, na minha opinião, mereciam ser distinguidos – "Parainfernália", dos Diabo a Sete (ed. Açor/Emiliano Toste); "Senhor Poeta", dos Frei Fado d’El Rei (ed. Ovação); "À Espera de Armandinho", de Pedro Jóia (ed. HM Música); "Não Sou Daqui", de Amélia Muge (ed. Vachier & Associados); e "Vinho dos Amantes", de Janita Salomé (ed. Som Livre) – e seria uma flagrante injustiça que algum deles ficasse de fora do lote de álbuns a apreciar pelo júri. Se dependesse de mim, atribuía o prémio aos cinco ex-aequo. Tanto mais que o Prémio José Afonso vale mais pelo prestígio do que pelo valor pecuniário (não estamos propriamente a falar do Prémio Nobel e mesmo à nossa dimensão caseira também não é comparável aos mais importantes prémios literários). Isto presumindo que o Prémio José Afonso se mantém na mesma ordem de grandeza (5 mil euros), logo muito aquém dos 100 mil euros do Prémio Camões e do recentemente criado Prémio LeYa.
Com os melhores cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
Exmo. Sr. Vereador da Cultura,
Como é sabido, desde 2006 o Prémio José Afonso passou a reger-se por regras diferentes das que vinham sendo praticadas, sendo que deixou de haver uma lista de nomeados, elaborada por um colégio de três pessoas (o Sr. Júlio Murraças, funcionário da autarquia, e dois jornalistas especializados em música), entregando-se às editoras a prerrogativa de escolher os discos a sujeitar à consideração do júri. Ora, se com o anterior sistema de selecção havia a possibilidade de ocorrerem exclusões eventualmente injustas (voluntárias ou involuntárias), não é menos verdade que o critério que passou a ser adoptado tem imperfeições ainda mais relevantes, nas quais importa atentar. Uma delas é deixar nas mãos das editoras a indicação dos discos para a candidatura: em primeiro lugar, porque uma fatia considerável da edição de música de qualidade em Portugal já não passa pelas editoras, pelo menos pelas majors (desenvolverei este ponto mais adiante); em segundo lugar, pelo sério risco de os altos responsáveis das editoras não fazerem as escolhas mais justas e acertadas, não sendo também de descartar intuitos não artísticos (comerciais ou outros) que essas escolhas possam revestir. Aliás, isso ficou logo bem à vista em 2006 com aquela pobre lista que foi apresentada ao júri. Os jurados tomaram a decisão mais digna e acertada, ao não atribuirem o prémio a nenhum dos discos propostos, para não apoucar o prestígio do prémio e o nome do seu patrono, e também – atrevo-me a conjecturar – para dar um sinal à C.M. Amadora que aquele modo de candidatura não era o mais adequado. Como é possível que ao Prémio José Afonso sejam propostas coisas como Hands on Approach e Boite Zuleika? Em contrapartida, ficaram de fora – pasme-se! – os Madredeus ("Faluas do Tejo"), a Mariza ("Transparente"), a Cristina Branco ("Ulisses"), a Mafalda Arnauth ("Diário"), a Mísia ("Drama Box"), os Galandum Galundaina ("Modas I Anzonas"), os Roldana Folk ("Gincana"), os Mandrágora ("Mandrágora"), Bernardo Sassetti ("Ascent"), etc., entre ao quais havia com toda a certeza um álbum digno de receber o Prémio José Afonso (como se comprova nesta petição). Uma tremenda injustiça, portanto, que foi cometida ao virtual vencedor e, mais latamente, à música popular portuguesa. Outro problema que pode ocorrer com o novo sistema é a não apreciação pelos jurados (por impossibilidade prática de ouvirem tudo o que é proposto) de discos com qualidade ainda que propostos a concurso, sobretudo primeiras obras, só porque os intérpretes eventualmente não lhes dizem nada. Neste caso, o soberbo "Parainfernália", o disco de estreia do grupo Diabo a Sete, com chancela da Açor/Emiliano Toste, corre o sério risco de nem sequer ser apreciado na edição deste ano de 2008. Isto partindo do princípio que a respectiva editora foi contactada e que o disco foi proposto. A este propósito, cabe perguntar: será que todas as editoras existentes em Portugal, designadamente as menos proeminentes e/ou não pertencentes à Associação Fonográfica Portuguesa, têm a efectiva oportunidade de apresentar as suas candidaturas? Não há editoras independentes, sobretudo as de menor visibilidade ou projecção no mercado, que ficam à margem do processo? E as edições de autor? Ficam todas de fora?
Tendo em conta todos estes aspectos, entendo que o concurso de candidatura ao Prémio José Afonso devia ser mais amplo e aberto (mediante a publicação de um anúncio na imprensa e também no site da C.M. Amadora), precisamente para dar igualdade de oportunidades à edição independente, incluindo a edição de autor, neste caso possibilitando que os intérpretes (a solo ou em grupo) não vinculados a editoras também concorram. Talvez não fosse viável (por manifesta falta de tempo) aos jurados ouvir todos os discos recebidos e aqui a assessoria de um ou dois consultores externos (críticos musicais ou melómanos reconhecidos) seria de grande utilidade para chamar a atenção para os trabalhos de maior relevância, não necessariamente dos nomes mais sonantes e mediáticos. E, se porventura, algum bom disco não tivesse sido candidato, por desatenção do artista ou por discriminação da editora, isso não quer dizer que o júri não o sujeitasse também à sua apreciação. Deste modo, o risco de injustiças seria fortemente minimizado, o que certamente agradaria ao seu patrono José Afonso. Isto enquanto não há em Portugal – falha grave – um regime de depósito legal para as edições discográficas, idêntico ao que existe para os livros. Se existisse, deixaria de ser necessário o processo burocrático de candidatura, bastando pegar na lista dos discos editados em cada ano, facultada pela entidade depositária (organismo equivalente à Biblioteca Nacional), e fazer a respectiva apreciação.
Desenvolvendo agora um ponto anteriormente enunciado, quero frisar a importância que, no actual panorama discográfico, adquiriu a edição independente – de pequenas editoras e de autor – por ser daí que provém a melhor música portuguesa editada nos últimos anos. Aquilo que as majors põem cá fora é, na sua esmagadora maioria, autêntico lixo (e curiosamente é isso o que mais passa na rádio, inclusive na estatal), circunstância agravada em face da pouca atenção que a edição independente merece da parte da imprensa e dos grandes circuitos de distribuição comercial. Da colheita de 2007 (uma das melhores dos últimos anos) há cinco discos que, na minha opinião, mereciam ser distinguidos – "Parainfernália", dos Diabo a Sete (ed. Açor/Emiliano Toste); "Senhor Poeta", dos Frei Fado d’El Rei (ed. Ovação); "À Espera de Armandinho", de Pedro Jóia (ed. HM Música); "Não Sou Daqui", de Amélia Muge (ed. Vachier & Associados); e "Vinho dos Amantes", de Janita Salomé (ed. Som Livre) – e seria uma flagrante injustiça que algum deles ficasse de fora do lote de álbuns a apreciar pelo júri. Se dependesse de mim, atribuía o prémio aos cinco ex-aequo. Tanto mais que o Prémio José Afonso vale mais pelo prestígio do que pelo valor pecuniário (não estamos propriamente a falar do Prémio Nobel e mesmo à nossa dimensão caseira também não é comparável aos mais importantes prémios literários). Isto presumindo que o Prémio José Afonso se mantém na mesma ordem de grandeza (5 mil euros), logo muito aquém dos 100 mil euros do Prémio Camões e do recentemente criado Prémio LeYa.
Com os melhores cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
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