19 maio 2006

"Sons da Escrita" ou a música das palavras

Já aqui lamentei, mais do que uma vez, a escassez de poesia na nossa rádio (vide 'posts' Poesia na rádio e A poesia é para todos os dias). Defendo – e sei que não sou o único – que a rádio é o meio mais adequado para o culto da palavra, designadamente a palavra poética. E isso pode ser feito de duas maneiras: pela recitação e pelo canto. Muitos foram os actores que resgataram ao silêncio dos livros as palavras dos nossos poetas maiores e cuja arte ficou perpetuada em registo sonoro. Cito alguns dos mais conhecidos: João Villaret, Mário Viegas, Eunice Muñoz, Carmen Dolores, Luís Miguel Cintra, Diogo Dória, Luís Lima Barreto, Luís Lucas, Carlos Daniel, João Grosso, Manuela de Freitas, Vítor de Sousa, Santos Manuel. Isto claro está sem esquecer os próprios poetas que entenderam dizer (uns bem, outros menos mal) os seus próprios poemas: Almada Negreiros, José Régio, Miguel Torga, Natália Correia, Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade.
E seria imperdoável não fazer uma referência a eméritos locutores, como Maria Clara, António Cardoso Pinto, Vítor Nobre, Graça Vasconcelos e Paulo Rato (apenas para citar os mais recentes), que aos microfones da rádio pública fizeram chegar a poesia a um público mais vasto. E digo "fizeram" porque o único que ainda o faz (e muito bem) é Paulo Rato no apontamento de poesia
Os Sons Férteis, e que merecia outro destaque na grelha. Um ponto que reclama urgente correcção! E de poesia gravada (editada em disco ou guardada no arquivo histórico da RDP) nem vale pena falar tal é a míngua. Se não fosse dois ou três profissionais como Luís Caetano (Um Certo Olhar) e Rafael Correia (Lugar ao Sul) terem uma particular sensibilidade nesta área a miséria seria ainda maior.
Felizmente que a internet trouxe uma nova possibilidade, ao facultar muita e boa poesia quer sob a forma escrita quer sob a forma oral. A este propósito faço uma referência muito especial a José António Moreira que através do blogue
Sons da Escrita faz autênticos programas de rádio tendo como matéria-prima a poesia portuguesa e alguma da melhor música anglo-americana (Pink Floyd, King Crimson, Steve Winwood, Moody Blues, Crosby Stills & Nash, Bob Dylan, Leonard Cohen, Paul Simon, Enya, Clannad, Eric Clapton, Kinks, Mark Knopfler, etc.). Ora aqui está um trabalho que faço questão de louvar e que atendendo à situação que se assiste na rádio constitui um relevante serviço público cultural e que merece ser apoiado.

"O Ouvido de Maxwell" em podcast

O programa "O Ouvido de Maxwell", da Antena 2, um dos melhores actualmente disponíveis na nossa rádio, já foi objecto do merecido destaque aqui neste blogue em 21 de Fevereiro. Aos ouvintes do programa e eventuais interessados fica a notícia de que já está disponível para 'podcasting' na página http://www.ouvidodemaxwell.com.

09 maio 2006

"Agora… Acontece!"



Depois desse acto bárbaro que foi a extinção do programa "Acontece!" e do afastamento de Carlos Pinto Coelho da RTP, passámos a contar com ele na TSF, no programa "Directo ao Assunto", espaço de debate nas manhãs de domingo. Mas a sua actividade radiofónica não começou aí. A par do programa televisivo, Carlos Pinto Coelho já vinha realizando o programa "Agora… Acontece!" que passa em várias dezenas de rádios locais e regionais. O programa é patrocinado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior – o que é de louvar – mas ao contrário do que seria de supor, os temas abordados não se confinam à ciência pois são contempladas todas as áreas da actividade cultural e artística. Nesta medida, o "Agora… Acontece!" é um notável exemplo de serviço público e por essa razão assume ainda maior relevância atendendo ao estado calamitoso a que chegou a maioria das rádios locais (vide texto no blogue A Rádio em Portugal). Mas, estranhamente, e apesar dos direitos de transmissão serem cedidos gratuitamente a todas as emissoras que o desejem, constata-se que a maioria delas não o transmite. Porque é que isto acontece? Falta de divulgação do programa junto das rádios ou falta de sensibilidade dos directores das mesmas? A primeira hipótese é de imediato descartada porque, segundo sei, todas foram contactadas pela produção do programa. Então resta a segunda hipótese, o que configura uma a situação muito grave porque as rádios locais têm uma obrigação de serviço público de que não podem abdicar e que assumiram quando se candidataram à concessão de alvará de radiodifusão. Uma rádio local não existe para ocupar praticamente todo o tempo de emissão com conteúdos musicais decalcados das rádios nacionais as quais, como é sabido, estão ao serviço dos interesses comerciais das 'majors' multinacionais. E quando um determinado programa é cedido a custo zero torna-se completamente absurdo que seja rejeitado, ainda para mais quando ele constituiria o único espaço cultural de muitas dessas estações. Como tal, terá forçosamente de se concluir que a direcção de boa parte das rádios locais não é ocupada pelas pessoas mais competentes e preparadas para o exercício da função. Em face disto, tem de se pedir responsabilidades ao Governo por estar a pecar por omissão ao não assumir o seu papel de regulação como lhe competiria.
As pessoas que não têm a sorte de terem no seu concelho uma rádio que transmite o programa ou que não tenham internet (ou que tendo não querem recorrer a esta opção por ser mais dispendiosa) ficam impossibilitadas de o ouvir. Sendo o "Agora… Acontece!" um programa de relevante serviço público e estando envolvidos dinheiros públicos, urge que situação tão anómala seja corrigida de modo a que todos os portugueses a ele tenham acesso, por via hertziana.
Fica aqui o meu apelo a quem de direito.


Nota: Comentários e opiniões sobre o programa devem ser enviados para a produção:
agora.acontece@clix.pt.
Quem desejar receber a lista das rádios emissoras do "Agora… Acontece!", basta solicitá-lo escrevendo para
ajferreira74@gmail.com.

02 maio 2006

Adriano Correia de Oliveira: um grande cantor silenciado na rádio pública



Muita gente – eu incluído – se lamenta da baixa qualidade da música que passa na rádio portuguesa e do facto de tanta e boa música que se faz (ou se fez) não chegar à luz do éter. São muitos os artistas de talento atingidos, mas no caso de Adriano Correia de Oliveira o silêncio dói ainda mais, justamente por se tratar de um dos nomes maiores da música portuguesa de sempre. Pessoalmente, não é pelo facto de a rádio não o passar que deixo de o ouvir sempre que me apetece porque felizmente tenho na minha discoteca uma caixa com a sua obra completa. Devo confessar que foi a rádio – mais concretamente a Antena 1 – que mo deu a ouvir pela primeira vez quando passou a "Trova do Vento que Passa" (salvo erro, no programa "Retratos", de Ana Aranha). Nesses anos 90, já o grande cantor não pertencia ao número dos vivos, mas foi tal o fascínio que aquela voz cristalina e de uma beleza ímpar me causou que fui logo à procura de outras músicas suas. A primeira aquisição foi uma antologia a que se seguiu a referida caixa, editada pela Movieplay, com 7 CDs organizados tematicamente por José Niza (autor da música de alguns dos mais belos temas de Adriano e também da letra de "E Depois do Adeus" imortalizada por Paulo de Carvalho). Escusado será dizer que Adriano Correia de Oliveira se tornou um dos meus cantores de culto e, tal como eu que o descobri pela rádio há uma dúzia de anos, não duvido que aconteceria o mesmo com muitos jovens de agora se a rádio o passasse. A este propósito, gostei que Paulo de Carvalho, na última edição do "Viva a Música", tivesse lamentado o ostracismo a que a rádio portuguesa tem votado o grande Adriano Correia de Oliveira dizendo muito propositadamente que, apesar de ele já não se encontrar entre nós, existe a obra – uma obra sublime, acrescento eu. Por tudo isto, solidarizo-me com a indignação manifestada por Paulo de Carvalho e apreciei a homenagem que fez a Adriano ao recuperar "Cantar de Emigração", um dos seus temas emblemáticos.
A este propósito, impõe-se a pergunta: por que razão é que Adriano Correia de Oliveira não passa actualmente na Antena 1 e na Antena 3, ao contrário que acontece com António Variações que morreu, mais ou menos, na mesma altura? Não queria ser indelicado mas, quando se decide silenciar Adriano Correia de Oliveira na rádio pública, a razão de fundo só pode ser a ignorância e ou a falta de sensibilidade musical.
Em agradecimento a Adriano Correia de Oliveira por tantas e belas canções que nos deixou, fica aqui a letra da minha preferida.



Fala do Homem Nascido



Poema: António Gedeão
Música: José Niza
Voz: Adriano Correia de Oliveira
Viola: Rui Pato


Venho da terra assombrada,
Do ventre de minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.

Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.

Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver,
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.

Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.

Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.

Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.


(in "Cantaremos", Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999)

21 abril 2006

"Vozes da Lusofonia": a conversa à volta dos discos


Realizado e apresentado por Edgar Canelas,
Vozes da Lusofonia é um programa dedicado à divulgação da música que se vai fazendo em Portugal e no mundo lusófono. Cada emissão conta com um artista (cantor, músico ou grupo) em estúdio para falar do seu trabalho e das músicas que vão passando. É na verdade um programa modelar de serviço público não só por proporcionar aos criadores musicais a divulgação das suas obras mas também por dar aos ouvintes a oportunidade de conhecerem os conteúdos dos discos que vão sendo lançados. E isto é importante que seja feito porque infelizmente as 'playlists' ignoram boa parte dos discos que se editam e dos que promovem apenas passam um ou dois temas. É de louvar que Edgar Canelas tenha a preocupação de contemplar todos os géneros, não esquecendo o fado e a música de raiz tradicional. Como quem define os conteúdos da "playlist" da Antena 1 persiste em ostracizar essas importantes áreas da nossa criação musical, o programa acaba por constituir um dos pouquíssimos espaços da nossa rádio que lhe dá guarida atenuando assim a sua incompreensível e injusta representatividade radiofónica. E digo incompreensível e injusta já que não corresponde à vontade de boa parte do auditório. Não tenho quaisquer dúvidas de que se as músicas de matriz tradicional tivessem outra presença nas rádios, seriam muito mais consumidas porque têm muitos apreciadores e cultores mesmo entre os jovens e jovens adultos porque é nesses segmentos do público que o fenómeno emergente da 'world music' tem mais entusiastas. Como só se ama e deseja o que se conhece, e as rádios continuam a fazer o jogo de poderosos 'lobbies', muitos vão continuando a consumir produtos musicais de efeito efémero e rapidamente descartáveis, mas que dão de comer a artistas medianos e fazem prosperar o negócio dos vários agentes do mercado discográfico – editoras, distribuidores, lojistas. Mas se a música a metro vende e faz render bom dinheiro, nada justifica que a música de maior quilate não possa ser também vendável e sem ser necessário adulterar a sua qualidade. As pessoas não são insensíveis à boa música, desde que lhes seja dada a oportunidade de a conhecer e apreciar. É tudo uma questão de boa promoção do que se produz e lança no mercado. Por alguma razão a pianista Maria João Pires, e sem fazer concessões ao mau gosto, já ocupou por mais de uma vez o primeiro lugar do top de vendas em Portugal. E se isto acontece na área da música clássica, por maioria de razão se pode verificar noutros géneros mais acessíveis ao grande público. Embora marginalizado numa dada altura, o fado conseguiu um novo fulgor graças a algumas boas vozes que, aproveitando os caminhos abertos pela grande Amália, se foram afirmando a ponto de já não puderem ser ignoradas. E tal como no fado há também uma grande vitalidade na música de raiz tradicional mas absurdamente quem dirige as principais rádios portuguesas arroga-se em não lhe dar eco. A propósito desta questão, gostei de ouvir o músico Luís Varatojo (do grupo A Naifa), a lamentar-se a Edgar Canelas do facto da música tradicional ter sido banida das rádios nacionais. Em Espanha, e em particular na Galiza, há uma atitude bem diferente: apesar de lá privilegiarem a produção autóctone, nem por isso deixam de dar atenção à música mais autêntica do lado de cá da fronteira. É vergonhoso, e revela bem o provincianismo e a falta de cultura dos responsáveis da nossa praça, que os portugueses José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Pedro Barroso, Júlio Pereira, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, sem esquecer alguns excelentes grupos da nova geração que recriam a música tradicional, passem mais nas rádios galegas do que nas portuguesas.
Por tudo isto, só tenho que felicitar os radialistas como Edgar Canelas, pela atenção que prestam à melhor música lusófona, designadamente aquela que é criminosamente sonegada pela nossa rádio.

Nota: "Vozes da Lusofonia" passa na Antena 1, domingos às 09 horas e à meia-noite.

11 abril 2006

"O Amigo da Música": o fim de um bom programa da nossa rádio

No domingo passado, foi para o ar a última emissão do programa "O Amigo da Música", que José Nuno Martins vinha apresentando na Antena 1 há 81 semanas. O autor do programa, cuja indigitação para provedor do ouvinte teve parecer favorável do Conselho de Opinião da RDP, entendeu por bem sair de antena. É uma atitude muito digna e que faço questão de louvar, mas não escondo a minha pena por ver chegar ao fim um dos bons programas de autor da rádio portuguesa e de que era assíduo ouvinte. Embora não tenha apreciado uma ou outra opção de José Nuno Martins, isso não me impede de fazer um balanço globalmente muito positivo do seu trabalho. E digo isto por três boas razões: primeira, José Nuno Martins é incontestavelmente uma das figuras de proa da rádio portuguesa e talvez o maior conhecedor, entre nós, de música brasileira e latina em geral; segunda, um programa dedicado às músicas da latinidade, no actual panorama radiofónico monopolizado pela música comercial anglo-americana, é verdadeiro serviço público; terceira, "O Amigo da Música" havia conquistado a fidelidade de muitos ouvintes desiludidos com a rádio actual, facto que deve ser assinalado porque a desumanização trazida pelas 'playlists' levou inevitavelmente à quebra dos elos de identificação e cumplicidade que as pessoas tinham com ela.
Espero que a direcção da Antena 1 saiba preencher convenientemente o vazio deixado pelo fim (preferia chamar-lhe interregno) do programa de José Nuno Martins. Atendendo ao desequilibrado figurino até agora implementado nas 'playlists' da rádio pública, mais premente se torna ainda a existência de espaços em que possamos ouvir as músicas mais genuínas do mundo latino, sem esquecer as desta faixa ocidental da Ibéria.

07 abril 2006

Porque é que mataram o "Magazine"?



O "Magazine", que Anabela Mota Ribeiro vinha apresentando na RTP-2 desde Janeiro de 2004, acaba de ser extinto. Teve a mesma sorte do "Acontece!" só que mais prematuramente. Cumpre-me perguntar: porquê? Pouco me importa o nome do programa: "Magazine", "Acontece!" ou qualquer outro. Agora o que não posso aceitar é que no serviço público de televisão não exista um espaço dedicado à actualidade cultural. Não era o "Magazine" um programa que se enquadrava no conceito de serviço público? Ninguém minimamente sério e responsável se atreve a dizer que não. Admito que houvesse necessidade de ajustar o formato ou redefinir alguns conteúdos (por exemplo, na área da música), mas nunca a extinção pura e simples para passar a reinar o vazio. Com o desaparecimento do "Magazine" o serviço público de televisão ficou em pior situação que as televisões privadas que, embora a horas tardias, ainda apresentam um cartaz cultural semanal.
Estava à espera que com o novo director, Jorge Wemans, a RTP-2 pudesse recuperar alguma da qualidade que perdeu com a reestruturação ocorrida em Janeiro de 2004. Mas agora verifico que estava enganado. E a degradação não se fica pela abolição do "Magazine". Um dos grandes erros da direcção de Manuel Falcão foi preferir as séries americanas ao cinema de qualidade: séries todos os dias e apenas um filme por semana. Agora, em vez de uma, temos duas séries por dia (algumas em reposição) e a penúria de cinema continua a mesma. É pertinente a pergunta: as séries americanas têm mais valor cultural do que o cinema europeu e os grandes clássicos do cinema norte-americano? O que fizeram aos mestres da sétima arte como Bergman, Antonioni, Fellini, Visconti, Buñuel, Jean Renoir, Truffaut, Murnau, Fritz Lang, John Ford, Orson Welles ou Hitchcock? Não digo que não haja uma ou outra série de qualidade como "Roma" ou "Sete Palmos de Terra", mas ocupar o horário nobre do canal cultural da televisão pública todos os dias com infindáveis ruminações de já visto parece-me um flagrante desvio do serviço público e um desperdício do dinheiro dos contribuintes. O que se está a passar é ainda mais bizarro atendendo a que foi o próprio ministro da tutela, Augusto Santos Silva, quando entrevistado por Jorge Rodrigues no programa "Ritornello" da Antena 2, que declarou o seu empenho numa RTP-2 vocacionada para uma programação cultural de excelência.
Quem é que beneficia com tudo isto? O cabo, pois claro! Quem não pode assinar o cabo, fica com as telenovelas, os concursos e os enlatados americanos. E depois venham queixar-se que o povo não tem cultura!

Evocando as grandes figuras da rádio portuguesa

Já aqui aludi várias vezes a essa grande chaga que aflige a rádio actual: a ditadura das 'playlists' e o criminoso afastamento de tantos homens e mulheres que fizeram o imaginário da rádio. Francisco Mateus, no blogue "Rádio Crítica" ('posts' Paradeiros e O Que é Feito Deles? - continuação) teve a luminosa ideia de fazer uma galeria dos nomes que marcaram a rádio portuguesa nas últimas décadas. Foi com nostalgia que recordei alguns desses nomes que acompanharam o meu crescimento e que foram importantes na formação do meu gosto e sensibilidade. Evoco muito especialmente Graça Vasconcelos (afastada da RDP em Outubro de 2005) que com o seu distintíssimo "Imaginário", nas noites da Antena 1, me acompanhou nas horas de estudo sobretudo em vésperas de testes e exames. Evoco também com saudade Pedro Albergaria que me revelou grandes nomes da música popular anglo-americana dos anos 60 e 70 com o seu extraordinário "Viva o Velho" e Jorge Gil que com o clássico "Em Órbita" me conquistou para a música antiga. Dos que estão no activo permito-me acrescentar duas referências da Antena 1: Armando Carvalheda que há dez anos vem apresentado o "Viva a Música" e Rafael Correia autor do "Lugar ao Sul", actualmente o segundo programa de maior longevidade da rádio portuguesa (o primeiro é "Cinco Minutos de Jazz", de José Duarte).

"Questões de Moral"

Escrito e realizado por Joel Costa, "Questões de Moral", na Antena 2, é um dos meus programas de rádio imperdíveis. Fazia tenção de falar sobre ele um destes dias, mas Francisco Mateus tirou-me as palavras da boca. Recomendo pois a leitura do seu eloquente texto no blogue Rádio Crítica.

03 abril 2006

Mário Viegas: 10 anos de saudade



Não parece mas já passaram dez anos desde o 1 de Abril de 1996, dia em que Mário Viegas pregou a suprema partida de nos privar da sua irreverente e proveitosa companhia. Foram muitos – eu incluído – os que descobriram a beleza e o fascínio das palavras ditas pela voz magistral de Mário Viegas. "O Manifesto Anti-Dantas" foi a primeira coisa que ouvi da sua boca e foi tal a impressão que me causou que ainda hoje fico arrepiado sempre que ouço essa peça. E quando tive a oportunidade de a ouvir pelo próprio Almada Negreiros é que fiquei com a noção mais nítida da sublime arte de Mário Viegas já que superara o autor. Por tudo isso é da mais elementar justiça endereçar-lhe daqui um sincero agradecimento lá para o lugar etéreo de onde risonhamente nos observa.
Perdemos o homem, ficou a obra e a grata memória que deixou em todos aqueles que tiveram o privilégio de comungar da sua arte. Para a posteridade fica o seu legado que não é de pouca monta pois além da documentação que doou ao Museu do Teatro, dele faz parte um rico e precioso acervo de poesia recitada. Parte desse espólio de gravações pertence ao arquivo histórico da RDP e, como tal, cumpre-me aplaudir a direcção da Antena 1 por ter assinalado a efeméride com a transmissão de uma série de poemas ditos pelo grande recitador, de hora a hora logo a seguir ao noticiário. No dia das mentiras foi uma barriga cheia de poesia porque além da oportuna evocação de Mário Viegas, Francisco José Viegas teve também a louvável ideia de preencher o seu "Escrita em Dia" com o recital de poesia de vários autores que teve lugar na Casa Fernando Pessoa no Dia Mundial da Poesia. Dada a míngua de poesia de que a rádio pública tem padecido é caso para dizer que a fome deu em fartura. Mas receio bem que esta súbita abundância tenha sido circunstancial e que a penúria volte a ser a ordem do dia. Não vou ao ponto de pedir que doravante haja poesia a cada hora que passa, mas já me contentava com a transmissão de um poema três ou quatro vezes por dia e nos vários canais da RDP, a exemplo do que tem acontecido – e muito bem – com algumas rubricas da Antena 1. Penso que não é pedir muito e não será certamente por falta de material no arquivo histórico que isso não é feito.

Nota: A poesia recitada por Mário Viegas fica agora mais acessível aos interessados graças à colecção de CDs que o jornal “Público” começou a distribuir.


O PORTUGAL FUTURO



O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro


Poema de Ruy Belo (in "Homem de Palavra(s)", col. Cadernos de Poesia, vol. 9, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1969, Lisboa: Editorial Presença, 1997)
Recitado por Mário Viegas (in LP/CD "Poemas de Bibe: grande poesia portuguesa escolhida para os mais pequenos", UPAV, 1990)

24 março 2006

Provedor do ouvinte da rádio pública

De acordo com notícia divulgada esta semana, José Nuno Martins, conhecido realizador de rádio e de televisão, foi a pessoa escolhida para ocupar o cargo de provedor do ouvinte da rádio pública, figura criada pelo actual Governo. Os jornais de referência há muito que têm o provedor do leitor, pelo que a medida de adoptar a figura do ombudsman nos serviços públicos de rádio e de televisão só peca por tardia. A pessoa em causa não me suscita qualquer objecção atendendo ao seu meritório percurso profissional e por se tratar de alguém que tem uma perspectiva humanista da função da rádio. Não obstante, temo que o facto de José Nuno Martins ter um vínculo contratual com a RDP para a qual realiza o programa "O Amigo da Música" e a rubrica "Os Reis da Rádio" possa afectar a sua isenção e de algum modo condicionar a sua acção como defensor dos ouvintes junto da própria entidade patronal. Eu gostava que a circunstância de ser um homem da rádio, longe de ser um óbice, se torne uma vantagem e que o facto de ser um profissional respeitado pelas cúpulas da RDP e pelos seus pares possa facilitar as coisas. Seria muito mau se a solidariedade corporativa e eventuais cumplicidades com pessoas do mesmo ofício propiciassem a condescendência e a contemporização com determinadas condutas e procedimentos inadequados ou menos correctos. Por isso, faço votos para que José Nuno Martins, embora não se abstraindo totalmente do seu métier de radialista, se coloque sobretudo na posição dos destinatários do serviço de rádio. Eu, ouvinte atento e empenhado na melhoria da rádio pública, fico na expectativa de que O AMIGO DA MÚSICA se consiga afirmar como um mediador credível entre os ouvintes e a direcção/administração da RDP. O pior que podia acontecer seria o provedor não passar de mera figura simbólica e burocrática que existe porque está consignada na lei mas sem uma real eficácia na resolução dos problemas apresentados pelos ouvintes. E presumo que José Nuno Martins, ao aceitar o convite para o lugar, tivesse colocado como condição não ficar reduzido a uma figura de cera que fica bem no retrato mas sem qualquer outra utilidade. Nessa medida, só me resta desejar a José Nuno Martins as maiores venturas como provedor do ouvinte e que o cargo possa sair prestigiado com o seu magistério.

22 março 2006

José Ramos: um rei da rádio que nos deixou



Foi com pesar que ontem recebi a notícia da morte de José Ramos, uma das vozes mais carismáticas da nossa rádio e bastante familiar aos telespectadores da SIC. A rádio fica indubitavelmente mais pobre. Mas ao contrário de outras circunstâncias em que se recorre a este lugar-comum apenas porque é de bom tom, no caso de José Ramos (na foto) ele faz todo o sentido porque era um homem na força da vida e que ainda tinha muito para dar. Apreciei a sentida homenagem que Rui Pêgo lhe fez hoje de manhã em "Os Reis da Rádio", rubrica que contava com a sua preciosa colaboração. E também apreciei que Luís Caetano no seu "Um Certo Olhar" tivesse recuperado uma das crónicas em que ele abordou um tema crucial da nossa rádio: a degradação que ela sofreu nos últimos tempos com o afastamento de eméritos profissionais para dar lugar às 'playlists' formatadas por uns rapazes incultos que nada mais fizeram do que afastar milhares e milhares de ouvintes. Enquanto radiófilo e apreciador de belas vozes ainda não perdi a esperança que a rádio venha a recuperar o calor humano de que foi despojada, pois só assim ela se poderá reconciliar com os ouvintes que a abandonaram.

Nota: Recomendo a leitura do texto que Paula Cordeiro escreveu a propósito no blogue "NetFM".

A poesia é para todos os dias

Não podia deixar de felicitar a direcção da Antena 1 por, no Dia Mundial da Poesia, ter tomado a louvável iniciativa de dar oportunidade a poetas novos de dizerem os seus próprios poemas. Congratulo-me que sob a direcção de Rui Pêgo a rádio pública esteja mais atenta ao calendário do que esteve durante o consulado do seu antecessor. Aconteceu agora com a poesia, mas já havia reparado que não foi deixado passar em vão o dia em que passaram 19 anos sobre a morte de José Afonso. Já tive a oportunidade de aqui abordar a situação de penúria de poesia que se verifica nas actuais grelhas da rádio pública, pelo que acolhi com regozijo a iniciativa. Agora só espero é que a direcção da RDP não se restrinja a assinalar uma data e no resto do ano tratar a poesia como um parente pobre no serviço público. Pessoalmente, não levo muito a sério os dias disto e daquilo porque reparo que os mesmos são aproveitados pelos vários poderes para comemorações de circunstância e depois tudo regressa ao mesmo. São datas que as instituições utilizam porque é politicamente correcto e, no fundo, para salvarem a face pelo que não fazem nos restantes 364 dias do ano. A poesia é para qualquer dia, é para quando nos apetecer, sendo que se torna irrelevante que alguém tenha escolhido o 21 de Março para o seu dia. O importante é que haja uma filosofia consistente e continuada no cultivo da poesia (e das outras artes) ao longo do ano. Porque a poesia faz parte da nossa vida e ficamos mais pobres se nos limitarmos a dar-lhe atenção apenas no dia em que começa a Primavera. «Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.», dizia a grande Natália Correia. Presumo que Rui Pêgo não goste de ser chamado de “subalimentado do sonho” e, como tal, espero que tenha o bom senso e o bom gosto de dar à poesia (e ao teatro) uma presença digna na rádio pública. Por exemplo, por que motivo a excelente rubrica "Os Sons Férteis", da Antena 2, não é repetida em vários momentos do dia, em vez de passar unicamente às 11 horas da manhã? Isto, claro está, sem prejuízo de voltar à antena um espaço semanal mais alargado como o que foi feito até meados de 2005 pela jornalista Alexandra Lucas Coelho.

20 março 2006

"Café Plaza": viagem às músicas do passado


Realizado e apresentado pelo jornalista Germano Campos, "Café Plaza" é um espaço que dedicado às músicas do passado, ou melhor, às músicas de sempre mas com a particularidade de terem sido criadas antes dos anos 70. No programa podemos ouvir as canções e os temas instrumentais que fizeram as delícias de quem viveu no período áureo da rádio e do cinema, remontando à época dos discos de 78 rotações que se punham a rodar em grafonolas roufenhas movidas à manivela. Esse tempo passou mas as músicas ficaram, e graças aos avanços da tecnologia as gravações remasterizadas podem hoje ser ouvidas com uma qualidade surpreendente. Os discófilos e os amantes da música sabem que o melhor aferidor da qualidade de uma peça musical é ela resistir à passagem do tempo. E é justamente os temas que apesar de tantos anos volvidos ainda continuam a fascinar não só aqueles que as ouviram na primavera da vida mas também muita gente das gerações posteriores, que Germano Campos recupera no seu programa. É bem verdade que a boa música não tem idade, é como os diamantes que não sofrem a erosão do tempo. Da minha experiência enquanto ouvinte assíduo do "Café Plaza" tenho-o constatado e posso até testemunhar que peças que foram êxitos nos anos 70 são hoje inaudíveis, coisa que não acontece com boa parte das criações dos anos 40 e 50. Alguns poderão dizer que isso resulta da evolução do gosto ao longo das épocas. Não negando existir uma ponta de verdade nesse argumento creio que há algo de mais profundo e essencial que confere carácter intemporal a uma determinada peça musical. Tal como Bach que não duvido irá perdurar até ao fim da Humanidade, também estou em crer que alguma da música popular que se fez no século XX vai continuar a ser apreciada durante muitas décadas e constituir uma referência para muitos vindouros. Nomes como Bing Crosby, Frank Sinatra, Dean Martin, Barry James, Benny Goodman, Glenn Miller, Nat King Cole, Louis Armstrong, Ella Fitzgerald e Doris Day têm acesso privilegiado ao "Café Plaza" mas as portas não estão fechadas à música latina, designadamente a francesa, a hispano-americana e a brasileira. Aliás, as efemérides de figuras importantes da música, do cinema e do teatro, são sempre devidamente assinaladas por Germano Campos com resenhas biográficas dos homenageados e, como não podia deixar de ser, com a transmissão das respectivas interpretações mais emblemáticas.
A quem se queixa – e com razão – da pobreza da programação musical na rádio portuguesa, o "Café PLaza" é um programa vivamente recomendado: aos mais velhos pela oportunidade de reviverem as músicas da sua juventude e aos mais novos pela possibilidade de descobrirem artistas e músicas que a rádio deixou de passar. No meu caso, devo confessar que Germano Campos me tem proporcionado conhecer a obra de cantores e músicos que conhecia só de nome ou de que nunca ouvira falar. Foi o caso de Nelson Riddle, autor de uma orquestração de "Lisboa Antiga", tema que esteve no top norte-americano durante várias semanas consecutivas há precisamente 50 anos, em Março de 1956. Quantas pessoas em Portugal sabem que um fado, embora em versão instrumental, foi um êxito comercial nas terras do Tio Sam? Este é um exemplo que podia servir de lição a muitos provincianos da nossa praça que aceitam acriticamente tudo o que vem de fora e ostracizam a nossa música mais autêntica.
Embora não se trate de um programa de discos pedidos, Germano Campos tomou a louvável iniciativa de pedir aos seus ouvintes que apresentem sugestões de peças e ou artistas que gostariam de ouvir. É uma ideia que se aplaude, porque sem desvirtuar o conceito do programa essa interactividade ajuda a criar uma salutar cumplicidade entre o autor e o auditório e tem o efeito benéfico de fidelizar os ouvintes. Eu tenho o prazer de ser um deles.

Nota: O "Café Plaza" situa-se na Antena 2 e está aberto aos domingos das 7 às 10 horas da manhã. Os amantes de música brasileira estejam atentos porque está prometido para breve um espaço alargado dedicado à bossa nova. A não perder!

17 março 2006

Rádio por cabo

Através da 'powerbox' do serviço digital da TV Cabo é, a partir de agora, possível ouvir várias estações de rádio portuguesas, incluindo quatro canais da RDP – Antena 1, Antena 2, Antena 3 e RDP-África. Pretende-se que a rádio volte à sala depois de ter sido expulsa pela televisão, segundo as palavras de Rui Pêgo, director de programas da RDP. Se bem que alguns televisores já permitiam a sintonia de FM e praticamente todos os receptores A/V e aparelhos de cinema em casa permitam a recepção de rádio, é uma medida que os radiófilos aplaudem porque, em princípio, vai proporcionar uma recepção com melhor qualidade de som. Mas não posso deixar de perguntar à direcção/administração da RDP: por que motivo ficou de fora a RDP-Internacional? O leque de oferta de rádio aumentaria e os consumidores só ficariam a ganhar, principalmente os amantes de música portuguesa, apesar de nem toda a música portuguesa que é seleccionada para o canal ser a melhor.
Saúdo a TV Cabo por passar a oferecer este novo serviço aos seus clientes, porque é uma alternativa à internet, no caso das rádios de cobertura local ou regional. No tocante às rádios de cobertura nacional, em particular da RDP, duvido sinceramente que as audiências registem um aumento digno de nota. O mais provável é que ocorra uma transferência de alguns ouvintes do FM e da internet para o cabo. Para que os telespectadores habituais da TV Cabo prefiram a rádio a alguns bons canais temáticos de televisão, inclusive de música, é preciso que as estações de rádio apresentem uma programação apelativa e de qualidade. E neste ponto, o estado actual das coisas deixa muito a desejar. Por exemplo, não acredito que as pessoas aproveitem esta nova funcionalidade para começar a ouvir no televisor as banais e descartáveis musiquinhas da 'playlist' da Antena 1, quando têm à sua disposição alternativas bem melhores.

15 março 2006

Músicas cortadas



Para compensar a pobreza da 'playlist', a Antena 1 apresenta algumas rubricas musicais de interesse. Uma delas chama-se "Outras Histórias da Música" e nela Luís Filipe Barros (na foto) evoca figuras e músicas da Historia do Rock. Trata-se de uma rubrica que gosto de ouvir e que me tem proporcionado a descoberta de boas músicas dos anos 60 e 70. Costumo ouvi-la cinco minutos antes do noticiário das nove da manhã, mas começo a perder a paciência com o locutor António Macedo quando interrompe sistematicamente as músicas para se pôr a falar de outros assuntos. O senhor António Macedo tem todo o direito de não apreciar as escolhas de Luís Filipe Barros mas está a esquecer-se de uma coisa elementar: o apontamento não existe para satisfazer os gostos de quem faz a locução da Antena 1 mas dos ouvintes que pagam o serviço público. Afinal tudo isto entronca numa questão de profissionalismo: quem assegura a continuidade da emissão não tem outra coisa a fazer do que pôr no ar as rubricas definidas na grelha e respeitando os horários estipulados. Interromper uma rubrica de forma sub-reptícia pondo-se a falar por cima ou colocá-la tardiamente no ar para ter a desculpa de a cortar por causa do sinal horário são manobras sujas e intoleráveis. Eu falo enquanto ouvinte mas presumo que Luís Filipe Barros e os autores das músicas cortadas também não devam apreciar a atitude abusiva do senhor António Macedo. Fica expresso o meu protesto na esperança de que, doravante, eu e outros ouvintes interessados tenhamos a oportunidade de ouvir as músicas até ao fim.

10 março 2006

Sobre a ditadura das 'play-lists' (II)

A situação das 'playlists', e a sua utilização como instrumento de censura, já foram várias vezes aqui abordadas, a propósito do que vem acontecendo na rádio pública, designadamente na Antena 1. O problema continua actual e, neste âmbito, recomenda-se a leitura de um texto intitulado "O autor, a música e a rádio" na página Rádio Zero.

08 março 2006

"Cine 1" fora de prazo


Isabel de Castro contracenando com Ruy de Carvalho, no filme "Domingo à Tarde" (1966), de António de Macedo

A seguir ao "Prós e Contras" desta semana, a RTP-1 transmitiu o documentário "Antes de a Vida Começar", realizado por António Correia, sobre a vida da actriz Isabel de Castro, recentemente desaparecida. É de louvar que a RTP-1, depois dos anos em que andou a copiar o telelixo das privadas, esteja finalmente a fazer serviço público, com a exibição de documentários, de séries de época e de filmes de qualidade (a grande reportagem continua a ser a grande lacuna). Lamenta-se o horário tardio a que esses programas são muitas vezes colocados mas, em todo o caso, é melhor do que nada. Sempre há a possibilidade de se recorrer à gravação programada, para depois se fazer o visionamento a horas decentes.
Na manhã subsequente à transmissão televisiva do citado documentário, ouço na rubrica "Cine 1" uma peça da jornalista Teresa Nicolau justamente dedicada ao documentário em questão sendo dito que o mesmo será exibido na RTP em data não anunciada. Eu não queria acreditar no que estava a ouvir. Quem não esteve atento à programação da RTP-1 e não viu o programa em directo ou não o gravou, não seria com certeza com a informação da Antena 1 que o iria ver. É caso para perguntar: andam a dormir na forma? O que é que falhou? Em primeiro lugar, é notório que a jornalista Teresa Nicolau não fez todo o trabalho de casa, ao não obter junto da direcção de programas da RTP-1 a informação sobre a data estipulada para a respectiva transmissão. Mesmo presumindo que a peça tenha sido gravada com muita antecedência nada justifica que a mesma não tenha sido actualizada (uma trivial operação de montagem) porque a informação estava disponível na internet e mesmo no teletexto. E na qualidade de jornalista da RDP, Teresa Nicolau teria certamente acesso a essa informação junto da RTP (por sinal instalada no mesmo edifício) antes de ter sido tornada pública, o que torna o caso ainda mais incompreensível. Mas o cúmulo do absurdo foi a peça ter sido emitida fora de prazo. E aqui terá de se pedir contas a quem faz a calendarização da rubrica "Cine 1", que desconheço se é a própria Teresa Nicolau se o responsável pela área do cinema, Tiago Alves. Qualquer que seja a circunstância, trata-se de um erro de palmatória próprio de amadores. Muito mal vai o serviço público de rádio quando estas coisas acontecem.

06 março 2006

Os ouvintes da RDP são todos bilingues (anglófonos)?

No rescaldo da cerimónia de entrega dos Óscares, a Antena 1 transmitiu uma peça alusiva ao evento elaborada pela jornalista Lara Marques Pereira. Até aqui nada a censurar, embora tenha achado exagerado o enfoque que a Antena 1 deu, durante as últimas semanas, aos filmes nomeados para os Óscares (cultura não é só cinema e cinema não é só Hollywood). Gostei que nessa peça jornalística fosse mencionado o Óscar honorário de carreira atribuído a Robert Altman, um dos grandes cineastas norte-americanos, realizador de filmes como "M.A.S.H.", "Nashville", "Correntes", "O Jogador" e "Gosford Park" mas até agora injustamente esquecido pela Academia de Hollywood. O reparo que tenho a fazer prende-se com a ausência de tradução das palavras do cineasta que a jornalista pôs no ar. Não falo por mim, porque além do inglês domino o francês e arranho o 'portunhol'. Falo sobretudo pelos muitos milhares de ouvintes da Antena 1 que do inglês não conhecem mais do que duas palavras – Yes e No. Quem faz jornalismo não se pode esquecer de uma coisa elementar: a informação deve ser entendida pelo universo de pessoas a que se destina. Na televisão há as legendas, na rádio tem de haver a tradução simultânea. No caso concreto de Robert Altman, nem sequer daria muito trabalho fazer a tradução do excerto apresentado e a respectiva locução. Mais brio profissional não ficava nada mal. Bem melhor faz a TSF neste capítulo apesar de ser uma rádio privada e com um orçamento mais reduzido. Por outro lado, a RDP enquanto operador de serviço público tem a obrigação expressamente assumida de defender e promover a língua portuguesa, pelo que devia ter um especial cuidado nesta área.

03 março 2006

Evocações e programas culturais

Anteontem, dia 1 de Março, passaram 10 anos sobre da morte de Vergílio Ferreira. A Antena 1 dedicou à efeméride um pequeno apontamento, realizado por Ana Aranha, transmitido no programa da manhã. Pareceu-me muito pouco porque Vergílio Ferreira, indubitavelmente um dos escritores mais importantes do século XX, merecia algo mais do que uma breve e diminuta evocação. Tenho reparado que sob a direcção de Rui Pêgo há um reforço das promoções a determinados espectáculos e eventos culturais – o que se aplaude – mas a rádio, por si mesma, tem também uma função cultural. É muito redutor para o serviço público de rádio limitar-se a fazer referência a actividades extra-muros e menosprezar a componente cultural nas suas emissões. Neste contexto, parece-me muito grave a escassez de programas culturais (não musicais) nas actuais grelhas dos canais da RDP, designadamente na Antena 2. O programa "Um Certo Olhar" dá conta da actividade cultural e aborda algumas temáticas humanísticas e científicas – um pouco ao correr da pena – mas embora não seja avesso à existência de um magazine cultural diário, confesso que preferia continuar a contar com o programa "A Força das Coisas" nas tardes de sábado, pelo momento de calma e reflexão que proporcionava sobre vários aspectos da contemporaneidade. Também se faz sentir a falta de programas específicos em cada uma das várias áreas do saber, que tratem os assuntos com mais profundidade e sem constrangimentos de tempo e num horário adequado. É de lamentar que tenha desaparecido o hábito de fazer ciclos temáticos, mas mais grave ainda é não haver espaços de divulgação cultural, que não se limitem a tratar da actualidade. É importante que haja magazines do tipo "Seara de Sons" e "Escrita em Dia", mas não se pode olvidar programas que dêem ao ouvinte uma perspectiva histórica e abrangente das várias temáticas. Por outro lado, há potencialidades intrínsecas à rádio que ela pode explorar como nenhum outro meio, designadamente no campo da oralidade. Mas por mais absurdo que possa parecer, as artes por excelência da oralidade – poesia e teatro – estão a ser alvo de um vil desprezo pelo serviço público de rádio. A poesia resume-se a uma fugaz rubrica ("Os Sons Férteis") e ainda por cima num horário impróprio. E onde está o teatro radiofónico?
Na área das evocações existiu durante vários anos um programa justamente intitulado "Evocações", de meia hora de duração e que era emitido ao fim-de-semana. Em meados de 2005 foi abruptamente abolido sob o pretexto da entrada em vigor da grelha de Verão e nunca mais voltou à antena. Porquê? Um ano tem 52 semanas e em cada uma delas há sempre um evento (nascimento ou morte de uma personalidade, acontecimento histórico, etc.) digno se ser evocado. Se a actual direcção não quer aproveitar os recursos humanos que tem à disposição para a produção e realização de programas culturais, ao menos que faça uso do rico e extenso arquivo histórico. No caso concreto de Vergílio Ferreira, há certamente material de interesse que seria pertinente pôr no ar. Em alguns países europeus como a França e a Grã-Bretanha, a par de um canal dedicado à música clássica existe um canal cultural. Como isso não acontece em Portugal, cabe à Antena 2 desempenhar esse papel.

Mais uma referência...

Em IRREAL TV:


A voz da Cidadania: a revolução inesperada

A blogosfera está a permitir, pela primeira vez na história, uma participação autónoma e activa dos cidadãos na discussão do sistema e dos conteúdos dos media. É claramente o escrutínio da Cidadania que emerge. E é algo que o sistema de media é (foi) incapaz de fazer desde a revolução industrial. Isto, a propósito de mais um blogue na área: A Nossa Rádio... ouvintes da RÁDIO PÚBLICA com opinião!

01 março 2006

F. Rui Cádima no Blog IRREAL TV

O caso Rui Dias José (RDP)

Formas de Censura em Portugal no Pós-25 de Abril
(cont.)
Um histórico do caso no site do Grupo de Amigos do programa (Feira Franca).

Rui Dias José, estimado colega dos tempos do Liceu Padre António Vieira, e das lutas liceais contra o Fascismo e a Guerra Colonial, está hoje na 'prateleira' da RDP, mas pode ser encontrado, por exemplo, na organização dos "Passeios de Jornalistas": em http://www.cafeportugal.net/ e em http://cafe-portugal.blogspot.com/.

24 fevereiro 2006

"Viva a Música": lugar à música portuguesa



Armando Carvalhêda levou ontem ao seu "Viva a Música" a fadista Maria Ana Bobone, sem dúvida alguma uma das melhores vozes da nova geração. Já tinha ouvido alguns temas do disco "Nome de Mar" pela mão de Edgar Canelas, no programa "Vozes da Lusofonia", mas voltei a sentir o mesmo prazer ao ouvi-la no palco da rádio. Também fiquei algo admirado que Maria Ana Bobone, um dos talentos que João Braga tem trazido para a ribalta, só agora tenha lançado o seu primeiro disco a solo. Ela alegou razões de índole pessoal mas cá para mim parece-me que deve ter havido uma outra razão bem menos prosaica, quero dizer, a crescente insensibilidade dos responsáveis das editoras face à música portuguesa mais autêntica. Bem, o disco está aí para provar que o fado continua vivo e de boa saúde e que não é música de museu, como alguns pretendem e que gostariam de o ver confinado às casas de fado para consumo de turistas e de alguns saudosistas. Felizmente que há também na rádio um espaço que faculta a audição ao vivo não apenas de fado mas também de outros géneros da música portuguesa e lusófona. E isto deve ser louvado e enaltecido, numa altura em que algumas pessoas de responsabilidade não tem o menor pejo em chamar música portuguesa às canções que alguns portugueses cantam em inglês (de música cantada em língua inglesa prefiro mil vezes a que é feita por alguns britânicos e americanos, do mesmo modo que prefiro a Amália a uma qualquer japonesa por melhor que ela cante o fado). Outro aspecto que faço questão de elogiar é a preocupação que Armando Carvalhêda tem em contemplar as músicas mais representativas da portugalidade – fado e música de raiz ou inspiração tradicional. Numa altura em que as 'playlists' não são mais do que instrumentos ao serviço dos interesses mercantilistas das grandes editoras, assume ainda maior importância a existência de espaços que procuram corresponder às expectativas dos segmentos do público que não se contentam com os produtos mais medianos e comerciais. Como tal, esses ouvintes – entre os quais me incluo – têm uma dívida de gratidão para como Armando Carvalhêda pela atenção que tem dado à música que melhor exprime a nossa identidade. Pena é que esse paradigma de serviço público não seja extensivo aos espaços musicais de continuidade da Antena 1.

Nota: O "Viva a Música" vai para o ar, em directo, às quintas-feiras (16h) e repete aos sábados (15h). Quem quiser pode assistir ao vivo no Teatro da Luz, ao Colégio Militar em Lisboa.



Meu Nome É Nome de Mar



Letra: Manuel Alegre
Música: João Braga; arr. Ricardo Rocha
Intérprete: Maria Ana Bobone* (in CD "Nome de Mar", Vachier & Associados/Farol Música, 2006)


[instrumental]

Meu nome é nome de mar
Onde o longe é mais visível
Nome de sonho a embarcar
Para um amor impossível
Meu nome é nome de mar [bis]

Meu nome é nome de vento
Escrito na areia na espuma
E na flor do pensamento
Que é luz por dentro da bruma
Meu nome é nome de vento [bis]

Meu nome é nome de fado
Nome de casa e de rua
Nome de encontro marcado
Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado

[instrumental]

Na outra face da lua
Meu nome é nome de fado


* Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola
Marino de Freitas – baixo
Direcção musical e arranjos – Ricardo Rocha
Produção – Maria Ana Bobone
Gravado ao vivo na Igreja da Graça, Lisboa
Gravação, misturas e masterização – João Magalhães



Capa do CD "Nome de Mar" (Vachier & Associados/Farol Música, 2006)
Fotografia – Francisco Van Zeller
Design – Rui Garrido

21 fevereiro 2006

"O Ouvido de Maxwell": pare, escute, sinta


Sem a música a vida seria um erro.
                       Nietzsche

Quando escrevi sobre
a nova grelha da Antena 2, fiz uma breve referência a este extraordinário programa, da autoria de António Almeida. Na verdade trata-se das melhores coisas que actualmente se podem ouvir na nossa rádio e, como tal, é de toda a justiça lhe seja dado maior realce. "O Ouvido de Maxwell" faz parte daquela categoria de programas cada vez mais raros na rádio portuguesa, capazes de proporcionar uma inusitada fruição auditiva. Como tal, a palavra 'ouvido' não podia ter sido escolhida com mais propriedade. Então e a que propósito aparece o antropónimo Maxwell? O nome não é muito conhecido do grande público, mas na verdade trata-se de uma das grandes figuras da Física do séc. XIX, sobretudo pelo contributo que deu nas áreas da termodinâmica e do electromagnetismo. De facto, foi o escocês James Maxwell (na foto) que definiu a natureza ondulatória da luz através de equações matemáticas e que predisse a existência de ondas electromagnéticas não visíveis (em 1864), cuja confirmação experimental viria a ser feita por Hertz alguns anos mais tarde. Assim, a invocação de Maxwell num programa de rádio é pertinente.
Para mim, ouvir do programa "O Ouvido de Maxwell" constitui uma espécie de ritual litúrgico, uma experiência única só possível com o sentido da audição o que talvez se explique por o ouvido ser, como já alguém disse, "a porta daquilo que não é deste mundo". Por alguma razão, o ouvido na altura do adormecer é o último sentido que capitula perante a passividade inconsciente que chega, antes de se entrar na antecâmara da morte, como Shakespeare chamou ao sono. Durante a vigília os ouvidos são de todos os órgãos sensoriais os que têm um funcionamento mais imediatista e incontrolável: "as orelhas não têm pálpebras", como se dizia no programa inaugural. Por isso, não lhes é possível evitar e ignorar a informação sonora envolvente seja o som ou a ausência dele – o silêncio. «O silêncio é para as orelhas o que a noite é para os olhos. Quando a música soa, uma porta abre-se e nós entramos». Durante muito tempo, dado que a música era rara a sua sedução era vertiginosa e a sua fruição constituía uma experiência de comunhão com o inefável, com o intangível. Mas no mundo moderno em que estamos rodeados de ruídos e de música por todos os lados tornou-se inevitável a banalização, perdeu-se o fascínio primordial, o carácter ritualizado que ela teve até ao advento e proliferação dos meios de reprodução sonora, primeiro o gramofone e depois a rádio, a televisão, os auto-rádios com leitores de cassetes/CDs, os leitores portáteis de áudio digital. A música foi transformada num produto de consumo como qualquer outro.
"O Ouvido de Maxwell" dá-nos justamente o contraponto entre os múltiplos e incessantes ruídos que caracterizam a nossa civilização e a música que se ouvia desde a remota Idade Média até à Revolução Industrial. E como na poesia em que há um mote a que têm de obedecer as estrofes seguintes também cada emissão de "O Ouvido de Maxwell" é subordinada a um tema diferente. O sábio encadeamento entre os textos lidos, a música alusiva criteriosamente escolhida e os sons da actualidade (um ruído captado na rua, um excerto da banda sonora de um filme, etc.) tornam o programa um obra conceptual de rara beleza e sublime contemplação auditiva.
Dos programas até agora emitidos, não posso deixar de fazer uma referência muito especial ao programa "La commedia è finita", dedicado à morte, um tema propositadamente evitado na actual sociedade de consumo. Mas a morte, sobretudo antes da descoberta da penicilina e da democratização dos cuidados de saúde, era uma realidade quotidiana que não era possível iludir. Também nós, por muito que nos custe, seremos um dia confrontados com ela. Neste contexto, permito-me transcrever, e com a devida vénia ao seu autor, alguns excertos do citado programa que me pareceram mais eloquentes. Porque a reflexão sobre a morte pode ajudar-nos a apreciar e a valorizar melhor a vida.


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La commedia è finita
É aqui que as pessoas vêm para viver?
Sou antes tentado a crer que se morre aqui.
Rilke

Hoje mais do que fugir, ignora-se a morte. Tratamo-la como um hóspede indesejado que se arruma num quarto esconso, do qual se deita a chave fora. Vive-se como se se vivesse para sempre. Não estamos cientes que a qualquer instante a comédia pode acabar. Ignora-se o que mais valoriza o único de cada momento. É também pela convivência diária com a morte que se constrói uma vida genuína.

Acabar é o verbo que menos gosto. Morrer já me diz mais. Prefiro-o aos sinónimos: expirar, apagar, passar, trespassar, perecer, desaparecer, sucumbir, falecer. Uns porque asseguram que há qualquer coisa depois, outros porque afirmam que não há nada. Só morrer rende o facto e o enigma, a solidão de se ser tomado em qualquer coisa que não tem sentido.

Porquê a morte? É perguntar-se: porquê as palavras? Pois o que resta a deixar, a perder? Palavras; muitas vezes nada mais que um mero: Rosebud. Conhece-se esse guião que tem a beleza dos desvios e a abertura das coisas simples. Um moribundo pronuncia essas sílabas indecifráveis. Pensa-se num nome de palácio, de livro, de mulher, de empresa. Mais tarde descobre-se que era um nome de nada, um nome gravado sobre um trenó de criança.
Restam também frases como "agora e na hora da nossa morte". Em criança, pronunciava essas palavras sem as compreender. Não vivia senão à hora presente, e acreditava que a outra hora jamais soaria. Não sabia que só as orações diziam a mesma coisa nos dois extremos do tempo, que as palavras envelhecem como as peles, que se carregam de rugas, de vazios, e de gorduras. Mas algumas permanecem intactas, jovens, crianças quase. Parecem vir de uma voz que ignora o tempo. Falaremos nós mais alto, mais certo, quando essa hora chega? Porque é que será assim? As nossas palavras serão elas ainda articuladas, ou meros gemidos e balbuciamentos? Faremos nós a besta quando o anjo desliza sobre nós a sua asa?

E agora? Deixaste de habitar o mundo dos vivos. O mundo dos mortos adiados. A tua hora soou. Deixaram de te conceder o adiamento. Deves servir. E servirás tanto melhor quanto melhor tiveres aproveitado o tempo em que esperavas ordeiramente na fila a tua vez. Servir para quê? Perguntas. Da poeira de estrela vieste e a ela voltarás: "das cinzas às cinzas".
Enquanto estiveste por aqui o que é fizeste? O que é não fizeste? O que é que devias ter feito? O que é querias fazer e não fizeste por cobardia, por preguiça, por ignorância de que esta hora ia chegar.
Era só uma questão de tempo. Tudo é uma questão de tempo. Tu desapareceste. E um dia também o sítio onde exististe desaparecerá, e o planeta girante onde esse sítio existiu, e o sistema onde esse planeta girou, e a galáxia onde esse sistema existiu. Tudo será tragado num vórtice que algures por aí aguarda também a sua vez. Serás átomos, electrões, neutrões, protões, e outras partículas sub-atómicas. Cada um livre de ir onde o vórtice na sua voracidade o projectar.
E nessa sopa de partículas o que resta de ti? Da tua vida?
O que habitará nelas do que tu foste?

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Nota: O programa é emitido às quintas-feiras, pelas 10 horas da manhã ou meia-noite, alternadamente. A próxima emissão será no dia 23 à meia-noite e nela se fala daqueles que não prestam para nada mas que fazem o grande 'sacrifício' de 'servir' na política. Feliz e oportuna a inclusão do romance falado por João César Monteiro ao som de sanfona, peça de antologia do filme "Vai-e-Vem".

17 fevereiro 2006

"Pessoal e Transmissível": 5 anos de entrevistas



Esta página tem como âmbito a rádio pública mas não é indiferente a programas emitidos noutras estações que são exemplos de serviço público. É o caso do programa "Pessoal e Transmissível", agora a comemorar cinco anos de emissões na TSF. O programa tornou-se, por mérito do seu autor, o jornalista Carlos Vaz Marques, uma referência da nossa rádio no campo da entrevista. Sem formalismos e sem peias, Carlos Vaz Marques consegue imprimir às suas entrevistas a espontaneidade que a imprensa e mesmo a televisão não conseguem dar. E tudo isto é feito sem retirar profundidade e seriedade aos assuntos abordados. Um notável exemplo do poder e do fascínio da rádio. Das entrevistas mais recentes destaco a que teve como convidado o neurocirurgião e escritor João Lobo Antunes, a propósito da edição do seu último livro "Sobre a Mão e Outros Ensaios". No momento da nossa civilização em que a morte se tornou o maior dos tabus, gostei de ouvir o Prof. João Lobo Antunes falar sem rodeios e de forma desassombrada sobre o tema.
Está pois de parabéns Carlos Vaz Marques e também a TSF pelo relevante serviço público que presta com este e outros programas.

Nota: "Pessoal e Transmissível" é emitido, de segunda a quinta-feira, depois do noticiário das 19 horas.
Os programas já emitidos podem ser (re)ouvidos online, em qualquer altura, no
arquivo de programas da TSF.
Também já está disponível para
podcasting.
Algumas entrevistas foram passadas a escrito e publicadas em livro.

13 fevereiro 2006

Agostinho da Silva: centenário do nascimento

Me fiz gente se é que sou
em Barca d'Alva do Douro
para cima tudo celta
para baixo tudo mouro

o pior é que Alentejo
e Algarve tendo nas veias
como vou eu libertar-me
de tão apertadas teias

decerto não escapava
se fosse intelectual
como esses que tem havido
mais simples que Portugal

quem não for um mais o outro
mesmo que em contradição
será vencido na vida
lhe desfeito o coração

menos nadar que boiar
é que é a sabedoria
deixe a vida demonstrar
que é a verdadeira guia

e que é só ela quem sabe
o bom rumo da nação
e o porto a que vai chegar
quer ela queira quer não.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho")


Filho de pai algarvio e mãe alentejana, George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto, no dia 13 de Fevereiro de 1906, faz hoje exactamente 100 anos. Passou a infância em Barca de Alva, Alto Douro, posto fronteiriço onde o pai exerceu as funções de inspector alfandegário. Licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras do Porto, onde teve como professor Leonardo Coimbra, paladino do movimento filosófico conhecido como Renascença Portuguesa. Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, com uma tese sobre Montaigne. Demitido do ensino oficial português, em 1935, por se recusar a assinar, por convicções pessoais, uma declaração «jurando não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta», passou a leccionar no ensino particular, tendo-se contado entre os seus alunos Mário Soares e Lagoa Henriques. Colaborou em publicações de referência como a revista "Seara Nova" e, no âmbito da sua actividade pedagógica, redigiu biografias de grandes figuras da História da Humanidade (Moisés, São Francisco de Assis, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Émile Zola, Lincoln, Pasteur, etc.) e os Cadernos de Informação Cultural "Iniciação". Um deles, "O Cristianismo" (1942), pela visão heterodoxa nele expressa, veio a gerar violenta reacção de alguns clérigos e autores católicos, e a consequente perseguição pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que chegou a encarcerá-lo na prisão do Aljube durante algumas semanas. Em 1944, exilou-se no Brasil onde fundou e fomentou a criação de várias universidades (Paraíba, Santa Catarina e Brasília) e o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía, a par de uma intensa actividade académica e científica nos mais diversos campos do saber (Literatura, Filosofia, História, Teatro, Geografia, Sociologia, Antropologia e também em áreas da Biologia como a Botânica, a Entomologia, a Histologia e a Parasitologia). Regressou a Portugal em 1969, vindo a criar um fundo para a atribuição do Prémio D. Dinis. Mesmo sem o estímulo da vida académica, sempre se caracterizou por uma renovada curiosidade científica bem patente na aprendizagem de línguas como o malaio e o esperanto e nas viagens demoradas que fez por diversos países designadamente o Japão.

Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.

ibidem


Na sua vida adoptou um franciscanismo simultaneamente laico e paraclético que, segundo o Prof. Jesué Pinharanda Gomes, constitui «um singular testemunho propedêutico do messianismo português». O seu desapego das coisas materiais e sobretudo as suas ideias heterodoxas, designadamente a sua visão neo-vieiriana sobre o papel de Portugal no mundo, suscitaram o desdém de alguns intelectuais da nossa praça mas transformam-no numa espécie de guru para muitos jovens. Em 1990, a série "Conversas Vadias", que manteve na RTP-1 com treze figuras conhecidas dos media, fazem-no chegar ao grande público. Vem a falecer em Lisboa, a 03 de Abril de 1994, domingo de Páscoa. A sua vasta e heterogénea obra bibliográfica, que se encontrava dispersa por várias editoras (Ulmeiro, Relógio d'Água, Assírio & Alvim, etc.), foi sistematizada numa edição lançada pela Âncora e pelo Círculo de Leitores.
Perguntar-me-ão: a que propósito vem a evocação do Prof. Agostinho da Silva num blogue sobre rádio. A explicação é muito simples: é que foi justamente na rádio que eu o descobri pela mão do radialista Fernando Alves. E de imediato me impressionou a sabedoria com que falava das coisas mais profundas utilizando uma linguagem simples e coloquial, bem diferente do jargão académico muito comum em boa parte dos seus pares. A partir daí procurei conhecer melhor o seu pensamento através dos livros, mas não deixo de ficar sempre deliciado e fascinado quando me é dada a oportunidade de o ouvir na rádio. Foi o que aconteceu na manhã de ontem, quando Germano Campos, no programa "
Café Plaza", recuperou do arquivo histórico da RDP uma conversa havida com Graça Vasconcelos em que o professor falou da dicotomia liberdade versus destino. E teve o condão de me por a reflectir até que ponto muitas das coisas que fazemos supostamente no exercício do nosso livre-arbítrio não são no fundo ditadas pela nossa própria essência bio-psico-fisiológica. Será que somos verdadeiramente livres, ainda que sem grilhetas sociais, quando não nos podemos subtrair da nossa natureza corpórea, do burro albardado como lhe chamou Agostinho? O homem, ser que aspira à liberdade, está condenado a cumprir o seu destino enquanto homem porque lhe não é possível ser outra coisa.
Além de Fernando Alves e de Graça Vasconcelos, outros profissionais da nossa rádio entre os quais José Nuno Martins fizeram entrevistas ao grande pensador. Cumpre-me aproveitar esta ocasião para chamar a atenção para o interesse da inventariação, tratamento e salvaguarda desses registos avulsos e dispersos antes que se deteriorem ou levem sumiço. Longe de serem documentos de valor desprezível, as conversas que Agostinho da Silva fez na rádio não deixam de ter importância no conjunto do seu legado. Por isso, lanço daqui um repto à Associação Agostinho da Silva no sentido desse espólio fonográfico ser coligido, digitalizado e colocado numa página da internet de modo a que todos os interessados – estudiosos e público em geral – a ele tenham acesso. Do mesmo modo que um livro tem de ser lido para existir, também uma voz que não se ouve é como se não existisse. Fazer com que o pensamento de Agostinho continue vivo também passa por aí.

Nota: A
Antena 1 associou-se (e muito bem) às comemorações do centenário com a transmissão de um programa evocativo realizado por António Jorge.
A TSF dedicou um fórum subordinado ao tema "a portugalidade e o papel de Portugal no mundo" e vem transmitindo apontamentos evocativos realizados por Fernando Alves.
O
canal 2 da RTP assinala a efeméride com a reposição durante a semana (logo a seguir ao "Magazine", por volta da 1h da manhã) de quatro das "Conversas Vadias", mais precisamente as que tiveram como interlocutores Adelino Gomes, Miguel Esteves Cardoso, Herman José e Maria Elisa Domingues. A não perder, enquanto não sai a colecção completa em DVD!


Adenda (em 17-Fevereiro-2006):

A RTP-2 transmite, hoje às 22:30, o documentário "Agostinho da Silva: Um Pensamento Vivo", realizado por João Rodrigo Mattos, seu neto.
Aos domingos, já a partir do próximo, dia 19, estará à venda nas bancas, com o jornal "Público", uma colecção de 5 DVDs que inclui a totalidade das "Conversas Vadias" e o documentário atrás citado.

"Cinco Minutos de Jazz" faz 40 anos



O mítico programa de José Duarte está a comemorar o seu 40.º aniversário.
Começou em 1966 na Rádio Renascença, e passa hoje na Antena 1, depois de uma trajectória algo atribulada por várias estações. É portanto um resistente na nossa rádio, mas apenas por mérito do seu autor e em nome do amor incondicional que devota ao jazz, ainda por cima num país onde o género nunca foi devidamente apreciado por quem tem dirigido os canais de rádio portugueses. Por isso, é ainda maior a dívida de gratidão dos amantes de jazz para com José Duarte.
Em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro no programa "
Magazine", da RTP-2, José Duarte não escondeu o seu desalento quanto à divulgação do jazz na rádio dizendo que é uma causa perdida, em virtude dos valores estéticos que actualmente prevalecem. Compreendo perfeitamente o seu desencanto pois o jazz não é o único género a sofrer com o actual estado de coisas. Está a acontecer o mesmo (ou pior) com as músicas de matriz tradicional, apesar de serem bem menos minoritárias e elitistas do que o jazz. O jazz, apesar de tudo, tem actualmente uma presença razoável na rádio pública mas a música portuguesa de raiz ou inspiração tradicional, ao ser banida da 'playlist', tem neste momento uma presença ínfima (confinada aos programas "Lugar ao Sul" e, em parte, "Vozes da Lusofonia" e "Viva a Música"). A resignação será sempre a pior atitude para enfrentar o problema e, por isso, é pena que não existam mais Josés Duartes para pugnarem pelo direito de representatividade mediática das músicas marginalizadas por um sistema que só se preocupa em promover a pop, o 'hip hop' e afins. Gostei de ouvir dizer que o jazz não se ensina, antes se aprende ouvindo. Enquanto ouvinte, eu direi que tem de se sentir e para tal é necessário que a sensibilidade seja apurada, que se torne apta a fruir. E José Duarte é dos que mais têm feito nesse sentido, não só com o "Cinco Minutos de Jazz", mas igualmente com "A Menina Dança?", e agora também com "Jazz com Brancas". Para os ouvintes, talvez a presença de jazz na rádio nunca tenha sido tão boa como hoje. Contabilizando também o contributo de Manuel Jorge Veloso com "Um Toque de Jazz", conclui-se que em cada dia há, pelo menos, uma hora de jazz na rádio portuguesa!
Quanto a cantores e músicos portugueses, também me parece que a situação é bem melhor hoje do que há uma ou duas décadas atrás. Estou mesmo em crer que alguns dos nomes da nova geração fazem hoje jazz muito por culpa de José Duarte. Por isso, não são só os ouvintes que terão de lhe prestar tributo pelo seu mister na rádio e também na academia portuguesa que finalmente abriu as portas a um género ainda encarado de forma preconceituosa por um certa intelectualidade.
Aproveito para endereçar votos de longa vida ao "Cinco Minutos de Jazz" e ao seu autor.

Nota: José Duarte é responsável pelo site
http://www.jazzportugal.net e lecciona História do Jazz no Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro.

10 fevereiro 2006

Discos Antena 1

A antologia de Vitorino com o título "Tudo", agora vinda a lume, é um dos discos Antena 1. Até aqui nada a censurar. Aliás, ficaria mal à estação de serviço público se ignorasse o lançamento discográfico que assinala os 30 anos de carreira de um dos nomes maiores da música portuguesa. No entanto, tenho um reparo a fazer: nem todos os artistas de mérito reconhecido têm sido objecto da mesma atenção por parte da rádio pública, aquando dos respectivos lançamentos discográficos. Desconheço quais são os critérios que presidem à escolha dos discos a promover, mas quaisquer que sejam tais critérios não se pode aceitar que a estação que é suportada pelos contribuintes ignore alguns dos nomes mais representativos da música lusa. Apenas um exemplo: no final de 2005 foi também lançada uma "Antologia", de Pedro Barroso, outro nome grado da música portuguesa, sem que Antena 1 tivesse feito qualquer referência ao acontecimento. A escolha da colectânea de Pedro Barroso seria uma escolha óbvia para disco Antena 1, mas mais grave ainda é o cantor de "Água" e de "Longe Daqui" estar a ser objecto de um intolerável boicote pela rádio pública ao ser-lhe recusado um lugar na 'playlist'. Não estou mandatado, nem me compete falar em nome de Pedro Barroso (ou de qualquer outro artista), mas enquanto ouvinte não posso aceitar que a rádio para a qual eu contribuo com uma taxa obrigatória não me dê a oportunidade de o ouvir.
Também não se compreende que alguns CDs que aparecem nas lojas de discos com o rótulo "Disco Antena 1" não tenham nenhum tema incluído na 'playlist'. Por exemplo, o álbum "
Transparente", o último da fadista Mariza, aparece com o dito autocolante mas, absurdamente, tem estado totalmente ausente dos alinhamentos de continuidade da Antena 1. Porque é que isto acontece? Por descoordenação entre a direcção de programas e o chefe de 'playlist'? Ou será mesmo verdade que este faz o que muito bem lhe apetece e se está a marimbar para as directivas de Rui Pêgo?
Muitos dos nomes que actualmente passam com frequência na Antena 1 não são do meu especial agrado mas, apesar disso, não vou ao ponto de pedir a sua exclusão porque sou defensor do princípio da igualdade de oportunidades, quer dos artistas quer dos ouvintes. Uma estação pública que se preze deve proporcionar a todos os artistas de qualidade reconhecida a possibilidade divulgarem o seu trabalho porque a rádio é um meio privilegiado dos ouvintes poderem tomar conhecimento das respectivas obras, e assim escolherem em liberdade e sem condicionamentos. Quanto maior for o leque dos artistas contemplados e maior a diversidade da oferta musical maior será a liberdade do ouvinte para escolher. Mas não é isto o que se está a passar na rádio que, por acaso, põe no ar o slogan "Antena 1 - a rádio que liga Portugal". Quando a rádio do Estado (é bom não esquecer este pormenor) preza em ignorar ostensivamente determinados artistas, por critérios outros que não a qualidade, não estará o mesmo Estado que se diz democrático a negar-me a liberdade de ser eu a escolher o que é bom para mim e o que satisfaz os meus desejos? Em última análise, o que está em causa é o princípio constitucional do exercício dos direitos, liberdades e garantias, no caso concreto, de quem ouve a rádio pública e também daqueles que legitimamente querem e merecem ser ouvidos.

03 fevereiro 2006

Poesia na rádio

Júlio Isidro, na rubrica da Antena 1 "Os Reis da Rádio", evocou a época em que Mário Viegas começou a recitar poesia na rádio. São muitos os actuais amantes de poesia que a descobriram pela mão do saudoso actor, primeiro na rádio e depois na televisão. Na verdade, Mário Viegas, depois do imortal João Villaret, foi dos que mais fez pela divulgação da obra dos nossos poetas maiores, sem esquecer nomes menos conhecidos e até mal amados como os surrealistas. A poesia foi nos seus primórdios uma arte da oralidade (a "Ilíada" e a "Odisseia" começaram por ser difundidas de boca a ouvidos) e Mário Viegas percebeu isso melhor do que ninguém. Ora a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, mas inexplicavelmente esta potencialidade não tem sido devidamente explorada entre nós. Que poesia há hoje na rádio portuguesa? E mais especificamente na rádio pública? Terá de se concluir que, actualmente, a situação não é muito melhor do que no tempo em que Júlio Isidro levou Mário Viegas para a rádio. Analisando, os três canais nacionais da RDP (que são os que interessam a quem reside em Portugal continental), encontra-se apenas a rubrica "Os Sons Férteis", na Antena 2, apontamento de poesia e música, da autoria de Paulo Rato. E ainda por cima num horário ingrato para muitos ouvintes - 11 horas de segunda a sexta-feira -, o que não deixa de ser algo bizarro sabendo nós que a poesia requer tranquilidade e disponibilidade de espírito que a maior parte das pessoas não pode ter naquele momento do dia. Por que motivo não há um programa de poesia ao fim-de-semana? E esse espaço até podia ser preenchido com gravações do arquivo, o qual tem um razoável mas desaproveitado manancial de poesia dita, quer por actores de renome quer por locutores da casa. Destes últimos destacaria Maria Clara e António Cardoso Pinto ambos responsáveis por memoráveis momentos de beleza, interpelação e meditação no cantinho da rádio. É um crime de lesa-cultura tantas pérolas permanecerem esquecidas sob o pó nalguma cave ou sótão e não serem servidas aos ouvintes. Uma lacuna imperdoável do serviço público.

13 janeiro 2006

Sobre as quotas de música portuguesa na rádio

A TSF, em mais uns dos seus fóruns, pôs a debate a questão das quotas de música portuguesa na rádio, iniciativa louvável e oportuna agora que estão a ser introduzidas alterações à Lei da Rádio.
Pessoalmente, preferiria que não fosse preciso impor quotas, mas reconheço que são um mal necessário. Aliás, a necessidade de consignar em lei tal obrigatoriedade já um sintoma do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Mas não tenhamos ilusões porque as quotas não serão a panaceia miraculosa, porque o problema é bem mais fundo e radica numa questão cultural.
Do texto do DN respiguei a seguinte passagem: «A música portuguesa emitida deve incluir 35% de novidades (com menos de 12 meses) e 60% de "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia"». A expressão "música composta ou interpretada ..." em vez de "música composta e interpretada..." é um alçapão que se está a abrir e que vai dar origem às mais bizarras deturpações do espírito da lei. Eu pergunto: a música composta por cidadãos dos estados-membros da União Europeia também engloba a música dos portugueses que cantam em inglês? E quando o Júlio Iglésias ou o Sting cantam em português, isso é música portuguesa? E os artistas brasileiros e afro-lusófonos com dupla nacionalidade? Atentem bem: é que podemos chegar à situação absurda da quota ser preenchida não por música portuguesa - lusófona ou instrumental - mas maioritariamente por grupos e cantores portugueses que cantam em inglês e por produção de língua portuguesa não lusa. É assim que se defende a nossa identidade cultural?
José Luís Ramos Pinheiro, administrador do grupo Renascença, apresentou no fórum da TSF o argumento de que não existe suficiente produção nacional para cumprir uma quota de 25% de música portuguesa. Acontece que tal argumento é completamente falacioso e sem qualquer fundo de verdade. Parece-me que ele terá dito tal coisa para justificar os conteúdos da RFM, da Mega FM e inclusive a mudança de estratégia do canal 1 da RR, agora mais apostado nos conteúdos pop 'mainstream'. Como muito disse o músico Pedro Osório, em complemento a um texto da sua própria autoria publicado na
Gazeta dos Artistas, há uma parte muita significativa da criação nacional, fora das malhas da pop, que nunca vem à luz do éter nacional. E essa produção designadamente na área da música de raiz ou inspiração tradicional está bem longe de ser escassa havendo muitos e bons exemplos de projectos de reconhecida qualidade. Portanto, é legítimo concluir que o problema da radiodifusão de música portuguesa tem a ver com outras coisas que os responsáveis das rádios não querem assumir publicamente. O grande problema foi as rádios nacionais terem caído nas mãos de grupos empresariais que não têm outro objectivo que o mero negócio, entregando a direcção das mesmas a indivíduos de mentalidade tacanha e suburbana completamente insensíveis e ignorantes da nossa música mais representativa, que se limitam a adoptar formatos exógenos. Por isso, a imposição de quotas, embora necessária, não vai resolver o problema da maior parte dos melhores criadores portugueses. A música que tem sido marginalizada pelas rádios nacionais vai continuar a sê-lo, com quotas ou sem elas, em nome de alegadas linhas editoriais com o recurso às 'playlists' (vide texto no blogue Ex-Sitações). Os que passam agora serão os mesmos que continuarão a passar, só que em dose dupla ou tripla e assim a quota fica cumprida. Quer dizer: tocarão apenas e sempre os que dominam o aparelho, que é como quem diz as multinacionais ou nacionais com algum poder de influência junto dos directores das rádios e chefes de 'playlist'. Assim continuaremos a ter, e em doses reforçadas, o David Fonseca, os Gift, os Hands on Aproach, os Xutos, os GNR, os Clã, os Mesa, os Da Weasel, os D'ZRT, o Abrunhosa, o Gonzo, o Beto, o João Pedro Pais, os Santos e Pecadores, os Pólo Norte, os Delfins, os Filarmónica Gil, etc. ao passo que nomes como Fausto Bordalo Dias, Vitorino, José Mário Branco, Pedro Barroso, Amélia Muge, Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral, Eduardo Ramos, José Peixoto, Pedro Jóia, Joel Xavier, Filipa Pais, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina, entre muitos outros, continuarão a ser ostracizados.
Mas se isto é grave numa RFM ou numa Comercial, ainda o é mais na RDP-Antena 1 que devia desempenhar o papel de regulação e de correcção das distorções do mercado mas que, ao invés, tem vindo a comportar-se como uma vulgar rádio comercial, atirando às urtigas o serviço público.

Nota: Recomendo a leitura do 'post' sobre este tema que Paula Cordeiro escreveu no blogue
NetFM.

"Lugar ao Sul" também na Antena 2

No âmbito do reforço das músicas de raiz tradicional na nova grelha da Antena 2 (notícia no site Attambur), o aclamado e premiado Lugar ao Sul agora também pode ouvir-se no segundo canal da RDP, sábados às 13 horas. É uma medida que faz jus ao valor cultural que é reconhecido ao programa de Rafael Correia, uma referência obrigatória na área da divulgação radiofónica da cultura tradicional portuguesa, mormente da região meridional do país. Agora que o "Lugar ao Sul" está a comemorar o 25.º aniversário, os fiéis ouvintes do programa não podiam deixar de saudar a decisão, mas continuam a contestar o facto da emissão aos sábados de manhã na Antena 1 ter sido amputada em uma hora, a qual foi atirada para depois da meia-noite de segunda-feira. Convenhamos que para um programa deste género tal horário é no mínimo estranho. Não é que me oponha à ideia da direcção da RDP querer facultar cultura tradicional portuguesa aos mais noctívagos, mas já não me parece razoável sacrificar o tempo de emissão no horário que tem um auditório bem mais vasto. Fica feito o reparo em nome dos muitos admiradores do trabalho de Rafael Correia.
Aproveito para fazer alusão a um texto notável sobre o programa, escrito pelo Prof. Manuel Pinto, da Universidade do Minho, que se pode ler na página
Carnet de Route d'Un Voyageur Solitaire en Algarve et Alentejo.

Nota: Existe um espaço através do qual os ouvintes do programa podem confraternizar: o
Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL.