21 fevereiro 2006

"O Ouvido de Maxwell": pare, escute, sinta


Sem a música a vida seria um erro.
                       Nietzsche

Quando escrevi sobre
a nova grelha da Antena 2, fiz uma breve referência a este extraordinário programa, da autoria de António Almeida. Na verdade trata-se das melhores coisas que actualmente se podem ouvir na nossa rádio e, como tal, é de toda a justiça lhe seja dado maior realce. "O Ouvido de Maxwell" faz parte daquela categoria de programas cada vez mais raros na rádio portuguesa, capazes de proporcionar uma inusitada fruição auditiva. Como tal, a palavra 'ouvido' não podia ter sido escolhida com mais propriedade. Então e a que propósito aparece o antropónimo Maxwell? O nome não é muito conhecido do grande público, mas na verdade trata-se de uma das grandes figuras da Física do séc. XIX, sobretudo pelo contributo que deu nas áreas da termodinâmica e do electromagnetismo. De facto, foi o escocês James Maxwell (na foto) que definiu a natureza ondulatória da luz através de equações matemáticas e que predisse a existência de ondas electromagnéticas não visíveis (em 1864), cuja confirmação experimental viria a ser feita por Hertz alguns anos mais tarde. Assim, a invocação de Maxwell num programa de rádio é pertinente.
Para mim, ouvir do programa "O Ouvido de Maxwell" constitui uma espécie de ritual litúrgico, uma experiência única só possível com o sentido da audição o que talvez se explique por o ouvido ser, como já alguém disse, "a porta daquilo que não é deste mundo". Por alguma razão, o ouvido na altura do adormecer é o último sentido que capitula perante a passividade inconsciente que chega, antes de se entrar na antecâmara da morte, como Shakespeare chamou ao sono. Durante a vigília os ouvidos são de todos os órgãos sensoriais os que têm um funcionamento mais imediatista e incontrolável: "as orelhas não têm pálpebras", como se dizia no programa inaugural. Por isso, não lhes é possível evitar e ignorar a informação sonora envolvente seja o som ou a ausência dele – o silêncio. «O silêncio é para as orelhas o que a noite é para os olhos. Quando a música soa, uma porta abre-se e nós entramos». Durante muito tempo, dado que a música era rara a sua sedução era vertiginosa e a sua fruição constituía uma experiência de comunhão com o inefável, com o intangível. Mas no mundo moderno em que estamos rodeados de ruídos e de música por todos os lados tornou-se inevitável a banalização, perdeu-se o fascínio primordial, o carácter ritualizado que ela teve até ao advento e proliferação dos meios de reprodução sonora, primeiro o gramofone e depois a rádio, a televisão, os auto-rádios com leitores de cassetes/CDs, os leitores portáteis de áudio digital. A música foi transformada num produto de consumo como qualquer outro.
"O Ouvido de Maxwell" dá-nos justamente o contraponto entre os múltiplos e incessantes ruídos que caracterizam a nossa civilização e a música que se ouvia desde a remota Idade Média até à Revolução Industrial. E como na poesia em que há um mote a que têm de obedecer as estrofes seguintes também cada emissão de "O Ouvido de Maxwell" é subordinada a um tema diferente. O sábio encadeamento entre os textos lidos, a música alusiva criteriosamente escolhida e os sons da actualidade (um ruído captado na rua, um excerto da banda sonora de um filme, etc.) tornam o programa um obra conceptual de rara beleza e sublime contemplação auditiva.
Dos programas até agora emitidos, não posso deixar de fazer uma referência muito especial ao programa "La commedia è finita", dedicado à morte, um tema propositadamente evitado na actual sociedade de consumo. Mas a morte, sobretudo antes da descoberta da penicilina e da democratização dos cuidados de saúde, era uma realidade quotidiana que não era possível iludir. Também nós, por muito que nos custe, seremos um dia confrontados com ela. Neste contexto, permito-me transcrever, e com a devida vénia ao seu autor, alguns excertos do citado programa que me pareceram mais eloquentes. Porque a reflexão sobre a morte pode ajudar-nos a apreciar e a valorizar melhor a vida.


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La commedia è finita
É aqui que as pessoas vêm para viver?
Sou antes tentado a crer que se morre aqui.
Rilke

Hoje mais do que fugir, ignora-se a morte. Tratamo-la como um hóspede indesejado que se arruma num quarto esconso, do qual se deita a chave fora. Vive-se como se se vivesse para sempre. Não estamos cientes que a qualquer instante a comédia pode acabar. Ignora-se o que mais valoriza o único de cada momento. É também pela convivência diária com a morte que se constrói uma vida genuína.

Acabar é o verbo que menos gosto. Morrer já me diz mais. Prefiro-o aos sinónimos: expirar, apagar, passar, trespassar, perecer, desaparecer, sucumbir, falecer. Uns porque asseguram que há qualquer coisa depois, outros porque afirmam que não há nada. Só morrer rende o facto e o enigma, a solidão de se ser tomado em qualquer coisa que não tem sentido.

Porquê a morte? É perguntar-se: porquê as palavras? Pois o que resta a deixar, a perder? Palavras; muitas vezes nada mais que um mero: Rosebud. Conhece-se esse guião que tem a beleza dos desvios e a abertura das coisas simples. Um moribundo pronuncia essas sílabas indecifráveis. Pensa-se num nome de palácio, de livro, de mulher, de empresa. Mais tarde descobre-se que era um nome de nada, um nome gravado sobre um trenó de criança.
Restam também frases como "agora e na hora da nossa morte". Em criança, pronunciava essas palavras sem as compreender. Não vivia senão à hora presente, e acreditava que a outra hora jamais soaria. Não sabia que só as orações diziam a mesma coisa nos dois extremos do tempo, que as palavras envelhecem como as peles, que se carregam de rugas, de vazios, e de gorduras. Mas algumas permanecem intactas, jovens, crianças quase. Parecem vir de uma voz que ignora o tempo. Falaremos nós mais alto, mais certo, quando essa hora chega? Porque é que será assim? As nossas palavras serão elas ainda articuladas, ou meros gemidos e balbuciamentos? Faremos nós a besta quando o anjo desliza sobre nós a sua asa?

E agora? Deixaste de habitar o mundo dos vivos. O mundo dos mortos adiados. A tua hora soou. Deixaram de te conceder o adiamento. Deves servir. E servirás tanto melhor quanto melhor tiveres aproveitado o tempo em que esperavas ordeiramente na fila a tua vez. Servir para quê? Perguntas. Da poeira de estrela vieste e a ela voltarás: "das cinzas às cinzas".
Enquanto estiveste por aqui o que é fizeste? O que é não fizeste? O que é que devias ter feito? O que é querias fazer e não fizeste por cobardia, por preguiça, por ignorância de que esta hora ia chegar.
Era só uma questão de tempo. Tudo é uma questão de tempo. Tu desapareceste. E um dia também o sítio onde exististe desaparecerá, e o planeta girante onde esse sítio existiu, e o sistema onde esse planeta girou, e a galáxia onde esse sistema existiu. Tudo será tragado num vórtice que algures por aí aguarda também a sua vez. Serás átomos, electrões, neutrões, protões, e outras partículas sub-atómicas. Cada um livre de ir onde o vórtice na sua voracidade o projectar.
E nessa sopa de partículas o que resta de ti? Da tua vida?
O que habitará nelas do que tu foste?

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Nota: O programa é emitido às quintas-feiras, pelas 10 horas da manhã ou meia-noite, alternadamente. A próxima emissão será no dia 23 à meia-noite e nela se fala daqueles que não prestam para nada mas que fazem o grande 'sacrifício' de 'servir' na política. Feliz e oportuna a inclusão do romance falado por João César Monteiro ao som de sanfona, peça de antologia do filme "Vai-e-Vem".

17 fevereiro 2006

"Pessoal e Transmissível": 5 anos de entrevistas



Esta página tem como âmbito a rádio pública mas não é indiferente a programas emitidos noutras estações que são exemplos de serviço público. É o caso do programa "Pessoal e Transmissível", agora a comemorar cinco anos de emissões na TSF. O programa tornou-se, por mérito do seu autor, o jornalista Carlos Vaz Marques, uma referência da nossa rádio no campo da entrevista. Sem formalismos e sem peias, Carlos Vaz Marques consegue imprimir às suas entrevistas a espontaneidade que a imprensa e mesmo a televisão não conseguem dar. E tudo isto é feito sem retirar profundidade e seriedade aos assuntos abordados. Um notável exemplo do poder e do fascínio da rádio. Das entrevistas mais recentes destaco a que teve como convidado o neurocirurgião e escritor João Lobo Antunes, a propósito da edição do seu último livro "Sobre a Mão e Outros Ensaios". No momento da nossa civilização em que a morte se tornou o maior dos tabus, gostei de ouvir o Prof. João Lobo Antunes falar sem rodeios e de forma desassombrada sobre o tema.
Está pois de parabéns Carlos Vaz Marques e também a TSF pelo relevante serviço público que presta com este e outros programas.

Nota: "Pessoal e Transmissível" é emitido, de segunda a quinta-feira, depois do noticiário das 19 horas.
Os programas já emitidos podem ser (re)ouvidos online, em qualquer altura, no
arquivo de programas da TSF.
Também já está disponível para
podcasting.
Algumas entrevistas foram passadas a escrito e publicadas em livro.

13 fevereiro 2006

Agostinho da Silva: centenário do nascimento

Me fiz gente se é que sou
em Barca d'Alva do Douro
para cima tudo celta
para baixo tudo mouro

o pior é que Alentejo
e Algarve tendo nas veias
como vou eu libertar-me
de tão apertadas teias

decerto não escapava
se fosse intelectual
como esses que tem havido
mais simples que Portugal

quem não for um mais o outro
mesmo que em contradição
será vencido na vida
lhe desfeito o coração

menos nadar que boiar
é que é a sabedoria
deixe a vida demonstrar
que é a verdadeira guia

e que é só ela quem sabe
o bom rumo da nação
e o porto a que vai chegar
quer ela queira quer não.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho")


Filho de pai algarvio e mãe alentejana, George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto, no dia 13 de Fevereiro de 1906, faz hoje exactamente 100 anos. Passou a infância em Barca de Alva, Alto Douro, posto fronteiriço onde o pai exerceu as funções de inspector alfandegário. Licenciou-se em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras do Porto, onde teve como professor Leonardo Coimbra, paladino do movimento filosófico conhecido como Renascença Portuguesa. Doutorou-se na Sorbonne, em Paris, com uma tese sobre Montaigne. Demitido do ensino oficial português, em 1935, por se recusar a assinar, por convicções pessoais, uma declaração «jurando não ter pertencido ou vir a pertencer a qualquer associação secreta», passou a leccionar no ensino particular, tendo-se contado entre os seus alunos Mário Soares e Lagoa Henriques. Colaborou em publicações de referência como a revista "Seara Nova" e, no âmbito da sua actividade pedagógica, redigiu biografias de grandes figuras da História da Humanidade (Moisés, São Francisco de Assis, Leonardo da Vinci, Miguel Ângelo, Émile Zola, Lincoln, Pasteur, etc.) e os Cadernos de Informação Cultural "Iniciação". Um deles, "O Cristianismo" (1942), pela visão heterodoxa nele expressa, veio a gerar violenta reacção de alguns clérigos e autores católicos, e a consequente perseguição pela Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que chegou a encarcerá-lo na prisão do Aljube durante algumas semanas. Em 1944, exilou-se no Brasil onde fundou e fomentou a criação de várias universidades (Paraíba, Santa Catarina e Brasília) e o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía, a par de uma intensa actividade académica e científica nos mais diversos campos do saber (Literatura, Filosofia, História, Teatro, Geografia, Sociologia, Antropologia e também em áreas da Biologia como a Botânica, a Entomologia, a Histologia e a Parasitologia). Regressou a Portugal em 1969, vindo a criar um fundo para a atribuição do Prémio D. Dinis. Mesmo sem o estímulo da vida académica, sempre se caracterizou por uma renovada curiosidade científica bem patente na aprendizagem de línguas como o malaio e o esperanto e nas viagens demoradas que fez por diversos países designadamente o Japão.

Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.

ibidem


Na sua vida adoptou um franciscanismo simultaneamente laico e paraclético que, segundo o Prof. Jesué Pinharanda Gomes, constitui «um singular testemunho propedêutico do messianismo português». O seu desapego das coisas materiais e sobretudo as suas ideias heterodoxas, designadamente a sua visão neo-vieiriana sobre o papel de Portugal no mundo, suscitaram o desdém de alguns intelectuais da nossa praça mas transformam-no numa espécie de guru para muitos jovens. Em 1990, a série "Conversas Vadias", que manteve na RTP-1 com treze figuras conhecidas dos media, fazem-no chegar ao grande público. Vem a falecer em Lisboa, a 03 de Abril de 1994, domingo de Páscoa. A sua vasta e heterogénea obra bibliográfica, que se encontrava dispersa por várias editoras (Ulmeiro, Relógio d'Água, Assírio & Alvim, etc.), foi sistematizada numa edição lançada pela Âncora e pelo Círculo de Leitores.
Perguntar-me-ão: a que propósito vem a evocação do Prof. Agostinho da Silva num blogue sobre rádio. A explicação é muito simples: é que foi justamente na rádio que eu o descobri pela mão do radialista Fernando Alves. E de imediato me impressionou a sabedoria com que falava das coisas mais profundas utilizando uma linguagem simples e coloquial, bem diferente do jargão académico muito comum em boa parte dos seus pares. A partir daí procurei conhecer melhor o seu pensamento através dos livros, mas não deixo de ficar sempre deliciado e fascinado quando me é dada a oportunidade de o ouvir na rádio. Foi o que aconteceu na manhã de ontem, quando Germano Campos, no programa "
Café Plaza", recuperou do arquivo histórico da RDP uma conversa havida com Graça Vasconcelos em que o professor falou da dicotomia liberdade versus destino. E teve o condão de me por a reflectir até que ponto muitas das coisas que fazemos supostamente no exercício do nosso livre-arbítrio não são no fundo ditadas pela nossa própria essência bio-psico-fisiológica. Será que somos verdadeiramente livres, ainda que sem grilhetas sociais, quando não nos podemos subtrair da nossa natureza corpórea, do burro albardado como lhe chamou Agostinho? O homem, ser que aspira à liberdade, está condenado a cumprir o seu destino enquanto homem porque lhe não é possível ser outra coisa.
Além de Fernando Alves e de Graça Vasconcelos, outros profissionais da nossa rádio entre os quais José Nuno Martins fizeram entrevistas ao grande pensador. Cumpre-me aproveitar esta ocasião para chamar a atenção para o interesse da inventariação, tratamento e salvaguarda desses registos avulsos e dispersos antes que se deteriorem ou levem sumiço. Longe de serem documentos de valor desprezível, as conversas que Agostinho da Silva fez na rádio não deixam de ter importância no conjunto do seu legado. Por isso, lanço daqui um repto à Associação Agostinho da Silva no sentido desse espólio fonográfico ser coligido, digitalizado e colocado numa página da internet de modo a que todos os interessados – estudiosos e público em geral – a ele tenham acesso. Do mesmo modo que um livro tem de ser lido para existir, também uma voz que não se ouve é como se não existisse. Fazer com que o pensamento de Agostinho continue vivo também passa por aí.

Nota: A
Antena 1 associou-se (e muito bem) às comemorações do centenário com a transmissão de um programa evocativo realizado por António Jorge.
A TSF dedicou um fórum subordinado ao tema "a portugalidade e o papel de Portugal no mundo" e vem transmitindo apontamentos evocativos realizados por Fernando Alves.
O
canal 2 da RTP assinala a efeméride com a reposição durante a semana (logo a seguir ao "Magazine", por volta da 1h da manhã) de quatro das "Conversas Vadias", mais precisamente as que tiveram como interlocutores Adelino Gomes, Miguel Esteves Cardoso, Herman José e Maria Elisa Domingues. A não perder, enquanto não sai a colecção completa em DVD!


Adenda (em 17-Fevereiro-2006):

A RTP-2 transmite, hoje às 22:30, o documentário "Agostinho da Silva: Um Pensamento Vivo", realizado por João Rodrigo Mattos, seu neto.
Aos domingos, já a partir do próximo, dia 19, estará à venda nas bancas, com o jornal "Público", uma colecção de 5 DVDs que inclui a totalidade das "Conversas Vadias" e o documentário atrás citado.

"Cinco Minutos de Jazz" faz 40 anos



O mítico programa de José Duarte está a comemorar o seu 40.º aniversário.
Começou em 1966 na Rádio Renascença, e passa hoje na Antena 1, depois de uma trajectória algo atribulada por várias estações. É portanto um resistente na nossa rádio, mas apenas por mérito do seu autor e em nome do amor incondicional que devota ao jazz, ainda por cima num país onde o género nunca foi devidamente apreciado por quem tem dirigido os canais de rádio portugueses. Por isso, é ainda maior a dívida de gratidão dos amantes de jazz para com José Duarte.
Em entrevista concedida a Anabela Mota Ribeiro no programa "
Magazine", da RTP-2, José Duarte não escondeu o seu desalento quanto à divulgação do jazz na rádio dizendo que é uma causa perdida, em virtude dos valores estéticos que actualmente prevalecem. Compreendo perfeitamente o seu desencanto pois o jazz não é o único género a sofrer com o actual estado de coisas. Está a acontecer o mesmo (ou pior) com as músicas de matriz tradicional, apesar de serem bem menos minoritárias e elitistas do que o jazz. O jazz, apesar de tudo, tem actualmente uma presença razoável na rádio pública mas a música portuguesa de raiz ou inspiração tradicional, ao ser banida da 'playlist', tem neste momento uma presença ínfima (confinada aos programas "Lugar ao Sul" e, em parte, "Vozes da Lusofonia" e "Viva a Música"). A resignação será sempre a pior atitude para enfrentar o problema e, por isso, é pena que não existam mais Josés Duartes para pugnarem pelo direito de representatividade mediática das músicas marginalizadas por um sistema que só se preocupa em promover a pop, o 'hip hop' e afins. Gostei de ouvir dizer que o jazz não se ensina, antes se aprende ouvindo. Enquanto ouvinte, eu direi que tem de se sentir e para tal é necessário que a sensibilidade seja apurada, que se torne apta a fruir. E José Duarte é dos que mais têm feito nesse sentido, não só com o "Cinco Minutos de Jazz", mas igualmente com "A Menina Dança?", e agora também com "Jazz com Brancas". Para os ouvintes, talvez a presença de jazz na rádio nunca tenha sido tão boa como hoje. Contabilizando também o contributo de Manuel Jorge Veloso com "Um Toque de Jazz", conclui-se que em cada dia há, pelo menos, uma hora de jazz na rádio portuguesa!
Quanto a cantores e músicos portugueses, também me parece que a situação é bem melhor hoje do que há uma ou duas décadas atrás. Estou mesmo em crer que alguns dos nomes da nova geração fazem hoje jazz muito por culpa de José Duarte. Por isso, não são só os ouvintes que terão de lhe prestar tributo pelo seu mister na rádio e também na academia portuguesa que finalmente abriu as portas a um género ainda encarado de forma preconceituosa por um certa intelectualidade.
Aproveito para endereçar votos de longa vida ao "Cinco Minutos de Jazz" e ao seu autor.

Nota: José Duarte é responsável pelo site
http://www.jazzportugal.net e lecciona História do Jazz no Departamento de Comunicação e Arte, da Universidade de Aveiro.

10 fevereiro 2006

Discos Antena 1

A antologia de Vitorino com o título "Tudo", agora vinda a lume, é um dos discos Antena 1. Até aqui nada a censurar. Aliás, ficaria mal à estação de serviço público se ignorasse o lançamento discográfico que assinala os 30 anos de carreira de um dos nomes maiores da música portuguesa. No entanto, tenho um reparo a fazer: nem todos os artistas de mérito reconhecido têm sido objecto da mesma atenção por parte da rádio pública, aquando dos respectivos lançamentos discográficos. Desconheço quais são os critérios que presidem à escolha dos discos a promover, mas quaisquer que sejam tais critérios não se pode aceitar que a estação que é suportada pelos contribuintes ignore alguns dos nomes mais representativos da música lusa. Apenas um exemplo: no final de 2005 foi também lançada uma "Antologia", de Pedro Barroso, outro nome grado da música portuguesa, sem que Antena 1 tivesse feito qualquer referência ao acontecimento. A escolha da colectânea de Pedro Barroso seria uma escolha óbvia para disco Antena 1, mas mais grave ainda é o cantor de "Água" e de "Longe Daqui" estar a ser objecto de um intolerável boicote pela rádio pública ao ser-lhe recusado um lugar na 'playlist'. Não estou mandatado, nem me compete falar em nome de Pedro Barroso (ou de qualquer outro artista), mas enquanto ouvinte não posso aceitar que a rádio para a qual eu contribuo com uma taxa obrigatória não me dê a oportunidade de o ouvir.
Também não se compreende que alguns CDs que aparecem nas lojas de discos com o rótulo "Disco Antena 1" não tenham nenhum tema incluído na 'playlist'. Por exemplo, o álbum "
Transparente", o último da fadista Mariza, aparece com o dito autocolante mas, absurdamente, tem estado totalmente ausente dos alinhamentos de continuidade da Antena 1. Porque é que isto acontece? Por descoordenação entre a direcção de programas e o chefe de 'playlist'? Ou será mesmo verdade que este faz o que muito bem lhe apetece e se está a marimbar para as directivas de Rui Pêgo?
Muitos dos nomes que actualmente passam com frequência na Antena 1 não são do meu especial agrado mas, apesar disso, não vou ao ponto de pedir a sua exclusão porque sou defensor do princípio da igualdade de oportunidades, quer dos artistas quer dos ouvintes. Uma estação pública que se preze deve proporcionar a todos os artistas de qualidade reconhecida a possibilidade divulgarem o seu trabalho porque a rádio é um meio privilegiado dos ouvintes poderem tomar conhecimento das respectivas obras, e assim escolherem em liberdade e sem condicionamentos. Quanto maior for o leque dos artistas contemplados e maior a diversidade da oferta musical maior será a liberdade do ouvinte para escolher. Mas não é isto o que se está a passar na rádio que, por acaso, põe no ar o slogan "Antena 1 - a rádio que liga Portugal". Quando a rádio do Estado (é bom não esquecer este pormenor) preza em ignorar ostensivamente determinados artistas, por critérios outros que não a qualidade, não estará o mesmo Estado que se diz democrático a negar-me a liberdade de ser eu a escolher o que é bom para mim e o que satisfaz os meus desejos? Em última análise, o que está em causa é o princípio constitucional do exercício dos direitos, liberdades e garantias, no caso concreto, de quem ouve a rádio pública e também daqueles que legitimamente querem e merecem ser ouvidos.

03 fevereiro 2006

Poesia na rádio

Júlio Isidro, na rubrica da Antena 1 "Os Reis da Rádio", evocou a época em que Mário Viegas começou a recitar poesia na rádio. São muitos os actuais amantes de poesia que a descobriram pela mão do saudoso actor, primeiro na rádio e depois na televisão. Na verdade, Mário Viegas, depois do imortal João Villaret, foi dos que mais fez pela divulgação da obra dos nossos poetas maiores, sem esquecer nomes menos conhecidos e até mal amados como os surrealistas. A poesia foi nos seus primórdios uma arte da oralidade (a "Ilíada" e a "Odisseia" começaram por ser difundidas de boca a ouvidos) e Mário Viegas percebeu isso melhor do que ninguém. Ora a rádio é de todos os media aquele que melhor serve a poesia, mas inexplicavelmente esta potencialidade não tem sido devidamente explorada entre nós. Que poesia há hoje na rádio portuguesa? E mais especificamente na rádio pública? Terá de se concluir que, actualmente, a situação não é muito melhor do que no tempo em que Júlio Isidro levou Mário Viegas para a rádio. Analisando, os três canais nacionais da RDP (que são os que interessam a quem reside em Portugal continental), encontra-se apenas a rubrica "Os Sons Férteis", na Antena 2, apontamento de poesia e música, da autoria de Paulo Rato. E ainda por cima num horário ingrato para muitos ouvintes - 11 horas de segunda a sexta-feira -, o que não deixa de ser algo bizarro sabendo nós que a poesia requer tranquilidade e disponibilidade de espírito que a maior parte das pessoas não pode ter naquele momento do dia. Por que motivo não há um programa de poesia ao fim-de-semana? E esse espaço até podia ser preenchido com gravações do arquivo, o qual tem um razoável mas desaproveitado manancial de poesia dita, quer por actores de renome quer por locutores da casa. Destes últimos destacaria Maria Clara e António Cardoso Pinto ambos responsáveis por memoráveis momentos de beleza, interpelação e meditação no cantinho da rádio. É um crime de lesa-cultura tantas pérolas permanecerem esquecidas sob o pó nalguma cave ou sótão e não serem servidas aos ouvintes. Uma lacuna imperdoável do serviço público.

13 janeiro 2006

Sobre as quotas de música portuguesa na rádio

A TSF, em mais uns dos seus fóruns, pôs a debate a questão das quotas de música portuguesa na rádio, iniciativa louvável e oportuna agora que estão a ser introduzidas alterações à Lei da Rádio.
Pessoalmente, preferiria que não fosse preciso impor quotas, mas reconheço que são um mal necessário. Aliás, a necessidade de consignar em lei tal obrigatoriedade já um sintoma do estado calamitoso a que as coisas chegaram. Mas não tenhamos ilusões porque as quotas não serão a panaceia miraculosa, porque o problema é bem mais fundo e radica numa questão cultural.
Do texto do DN respiguei a seguinte passagem: «A música portuguesa emitida deve incluir 35% de novidades (com menos de 12 meses) e 60% de "música composta ou interpretada em língua portuguesa por cidadãos dos Estados-membros da União Europeia"». A expressão "música composta ou interpretada ..." em vez de "música composta e interpretada..." é um alçapão que se está a abrir e que vai dar origem às mais bizarras deturpações do espírito da lei. Eu pergunto: a música composta por cidadãos dos estados-membros da União Europeia também engloba a música dos portugueses que cantam em inglês? E quando o Júlio Iglésias ou o Sting cantam em português, isso é música portuguesa? E os artistas brasileiros e afro-lusófonos com dupla nacionalidade? Atentem bem: é que podemos chegar à situação absurda da quota ser preenchida não por música portuguesa - lusófona ou instrumental - mas maioritariamente por grupos e cantores portugueses que cantam em inglês e por produção de língua portuguesa não lusa. É assim que se defende a nossa identidade cultural?
José Luís Ramos Pinheiro, administrador do grupo Renascença, apresentou no fórum da TSF o argumento de que não existe suficiente produção nacional para cumprir uma quota de 25% de música portuguesa. Acontece que tal argumento é completamente falacioso e sem qualquer fundo de verdade. Parece-me que ele terá dito tal coisa para justificar os conteúdos da RFM, da Mega FM e inclusive a mudança de estratégia do canal 1 da RR, agora mais apostado nos conteúdos pop 'mainstream'. Como muito disse o músico Pedro Osório, em complemento a um texto da sua própria autoria publicado na
Gazeta dos Artistas, há uma parte muita significativa da criação nacional, fora das malhas da pop, que nunca vem à luz do éter nacional. E essa produção designadamente na área da música de raiz ou inspiração tradicional está bem longe de ser escassa havendo muitos e bons exemplos de projectos de reconhecida qualidade. Portanto, é legítimo concluir que o problema da radiodifusão de música portuguesa tem a ver com outras coisas que os responsáveis das rádios não querem assumir publicamente. O grande problema foi as rádios nacionais terem caído nas mãos de grupos empresariais que não têm outro objectivo que o mero negócio, entregando a direcção das mesmas a indivíduos de mentalidade tacanha e suburbana completamente insensíveis e ignorantes da nossa música mais representativa, que se limitam a adoptar formatos exógenos. Por isso, a imposição de quotas, embora necessária, não vai resolver o problema da maior parte dos melhores criadores portugueses. A música que tem sido marginalizada pelas rádios nacionais vai continuar a sê-lo, com quotas ou sem elas, em nome de alegadas linhas editoriais com o recurso às 'playlists' (vide texto no blogue Ex-Sitações). Os que passam agora serão os mesmos que continuarão a passar, só que em dose dupla ou tripla e assim a quota fica cumprida. Quer dizer: tocarão apenas e sempre os que dominam o aparelho, que é como quem diz as multinacionais ou nacionais com algum poder de influência junto dos directores das rádios e chefes de 'playlist'. Assim continuaremos a ter, e em doses reforçadas, o David Fonseca, os Gift, os Hands on Aproach, os Xutos, os GNR, os Clã, os Mesa, os Da Weasel, os D'ZRT, o Abrunhosa, o Gonzo, o Beto, o João Pedro Pais, os Santos e Pecadores, os Pólo Norte, os Delfins, os Filarmónica Gil, etc. ao passo que nomes como Fausto Bordalo Dias, Vitorino, José Mário Branco, Pedro Barroso, Amélia Muge, Janita Salomé, Pedro Caldeira Cabral, Eduardo Ramos, José Peixoto, Pedro Jóia, Joel Xavier, Filipa Pais, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina, entre muitos outros, continuarão a ser ostracizados.
Mas se isto é grave numa RFM ou numa Comercial, ainda o é mais na RDP-Antena 1 que devia desempenhar o papel de regulação e de correcção das distorções do mercado mas que, ao invés, tem vindo a comportar-se como uma vulgar rádio comercial, atirando às urtigas o serviço público.

Nota: Recomendo a leitura do 'post' sobre este tema que Paula Cordeiro escreveu no blogue
NetFM.

"Lugar ao Sul" também na Antena 2

No âmbito do reforço das músicas de raiz tradicional na nova grelha da Antena 2 (notícia no site Attambur), o aclamado e premiado Lugar ao Sul agora também pode ouvir-se no segundo canal da RDP, sábados às 13 horas. É uma medida que faz jus ao valor cultural que é reconhecido ao programa de Rafael Correia, uma referência obrigatória na área da divulgação radiofónica da cultura tradicional portuguesa, mormente da região meridional do país. Agora que o "Lugar ao Sul" está a comemorar o 25.º aniversário, os fiéis ouvintes do programa não podiam deixar de saudar a decisão, mas continuam a contestar o facto da emissão aos sábados de manhã na Antena 1 ter sido amputada em uma hora, a qual foi atirada para depois da meia-noite de segunda-feira. Convenhamos que para um programa deste género tal horário é no mínimo estranho. Não é que me oponha à ideia da direcção da RDP querer facultar cultura tradicional portuguesa aos mais noctívagos, mas já não me parece razoável sacrificar o tempo de emissão no horário que tem um auditório bem mais vasto. Fica feito o reparo em nome dos muitos admiradores do trabalho de Rafael Correia.
Aproveito para fazer alusão a um texto notável sobre o programa, escrito pelo Prof. Manuel Pinto, da Universidade do Minho, que se pode ler na página
Carnet de Route d'Un Voyageur Solitaire en Algarve et Alentejo.

Nota: Existe um espaço através do qual os ouvintes do programa podem confraternizar: o
Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL.

10 janeiro 2006

A nova grelha da Antena 2

Entrou em vigor no primeiro dia de 2006, a nova grelha da Antena 2. Para começar, lamento o fim do "A Força das Coisas", programa que Luís Caetano vinha realizando nas tardes de sábado desde 2003. Luís Caetano tem na nova grelha, um programa com um conteúdo similar – "Um Certo Olhar" –, o que se aplaude, mas não me parece boa ideia um programa que requer uma audição calma e sem correrias ser emitido de segunda a sexta-feira ao meio-dia. Aplaudo que o programa dedicado à música étnica, "Raízes", agora realizado e apresentado por João Almeida, tenha mais tempo de antena, mas infelizmente foi mudado para um horário que não é praticável por muitos interessados: às 13h de segunda a sexta! Programas deste género fazem mais sentido em horários pós-laborais ou ao fim-de-semana. Fica o reparo!
Dos novos programas tive uma agradável surpresa: "
O Ouvido de Maxwell" (quintas, 10h ou 24h), da autoria António Almeida, um programa que requer um ouvido atento, daqueles que bebem todas as palavras e que foi um raro momento de beleza e de sortilégio pelo sábio encandeamento entre palavras que convidam à meditação e as peças musicais criteriosamente escolhidas. Espero que esta minha impressão se venha a confirmar nas próximas emissões.
Congratulo-me que o programa de Joel Costa, "
Questões de Moral" (segundas, 10h ou 24h), continue porque é um programa de autor de referência da rádio portuguesa e, sem dúvida alguma, uma das mais valias do canal. Mas tenho a lamentar o horário nocturno ser muito adiantado. Uma hora antes já seria aceitável pois possibilitaria a sua audição por muitos interessados que tem de se levantar cedo no dia seguinte e que não o podem ouvir no período da manhã por razões profissionais. Lamento também a ausência de programas não musicais: ciência, informática, história, sociologia, ficção, teatro. Além da rubrica "Os Sons Férteis" (poesia e música) e do magazine de livros "Escrita em Dia" (que passa primeiro na Antena 1), o que há mais? Aliás, terem ido buscar o programa de Francisco José Viegas à Antena 1 evidencia bem a tentativa de disfarçar a penúria de espaços culturais na actual grelha.
O programa do horário de despertar – "
Amanhecer" – que vinha sendo conduzido por João Almeida e Maria Augusta Gonçalves, era uma alternativa muito válida a quem não quer ouvir as estações de notícias ou as rádios de 'playlist'. O programa continua em moldes semelhantes mas foi objecto de um notório desinvestimento ao ser entregue aos colaboradores mais novatos. Aos sábados de manhã continuamos a ter a Judite Lima, mas atendendo a que tanto o formato como o conteúdo do programa continuam a ser os mesmos não compreendo a mudança de nome de "Jardim da Música" para "Sarabanda". Influência do filme de Ingmar Bergman? 'Jardim da Música' parece-me um nome mais rico e poético e não me importava nada de continuar a ouvir o indicativo com o belíssimo adágio do concerto 'Inverno', de Vivaldi, com chilreios de pássaros em fundo. Bem sei que a Judite Lima (tal como eu) é uma grande cultora das suites para violoncelo de Bach, mas interrogo-me se não terá sido forçada a mudar o nome do programa. A ser verdade, é pena que a direcção não entenda que os nomes dos programas são património radiofónico e, por extensão, património cultural. Que interesse há em mudar o nome de um programa se ele continua igual?
Quando ouvi falar numa grelha para atrair novos públicos, confesso que fiquei receoso quanto à música clássica que iria constar na Antena 2. Até me ocorreu que em vez das obras integrais já não digo de Stockhausen, Pierre Boulez ou Emanuel Nunes mas, pelo menos, de Bach, Vivaldi, Haendel, Beethoven, Schubert, Mahler e Debussy passaríamos a ouvir sequências de trechos de fácil agrado do tipo Selecções do Readers Digest. Do que tenho ouvido notei haver uma preponderância de obras curtas e dos excertos mais conhecidos mas, pelo menos, à noite "(
Grande Auditório", 21h) continua a poder ouvir-se, na íntegra, as grandes obras da música erudita. Para os melómanos mais refinados, uma boa alternativa à televisão!
Numa apreciação global ao formato e aos conteúdos da presente grelha nota-se que há um piscar de olho a ouvintes habitualmente arredios da Antena 2. A esse propósito não é alheia a introdução de noticiários de duas em duas horas. Não estou nada de acordo com esta medida, porque para ouvir notícias (ainda por cima repetidas) existe a Antena 1 cuja componente noticiosa foi reforçada para se tornar numa music news, conforme foi dito por Rui Pêgo, na
entrevista ao DN. É caso para perguntar: já nem com a Antena 2 podemos contar para nos refugiarmos da poluição informativa? Mais informação não significa mais cultura, sobretudo se se trata da actualidade mais efémera e de menor relevância cultural. Um ponto negativo! Ainda relativamente ao formato, agrada-me haver mais espaços musicais de autor (modelo que gostaria de ver adoptado na Antena 1) e também uma maior preocupação didáctica. É igualmente louvável que esses espaços tenham horário fixo porque assim os ouvintes interessados num determinado programa já sabem a que hora ele passa o que favorece a criação de hábitos de escuta. Um ponto positivo!
Falando mais especificamente dos conteúdos, constato que há um maior peso das músicas fora da tradição erudita europeia. É de aplaudir que o jazz tenha agora mais destaque, com os programas "
Um Toque de Jazz", de Manuel Jorge Veloso (sábados e domingos, 14h) e "Jazz com Brancas", de José Duarte (segunda a sexta, 20h). Mas as mudanças não ficam por aí: o programa "Café Plaza" (domingos, 07-10h), dedicado à música de pendor mais ligeiro, é disso um bom exemplo. Não é que esteja contra (até gostei de ouvir), mas continuo a achar que as músicas do 'Café Plaza' e também os blues e outras músicas de cariz mais popular fazem mais sentido na Antena 1. Aliás, elas já lá estiveram até há relativamente pouco tempo. Por que razão foram banidas? Presumivelmente, para passar a reinar a 'playlist'.
Admito que a Antena 2 precisasse de alguns ajustamentos de modo a torná-la menos temática e mais ecléctica (a exemplo do canal 3 da BBC Radio), mas parece-me que há uma forma mais adequada e eficaz de conquistar novos públicos para o canal do que fazer cedências à facilidade. Do meu ponto de vista, incluir peças do repertório mais apelativo da música erudita (designadamente música barroca), em avulso ou em espaços específicos, na Antena 1 e Antena 3, animados por quem tenha experiência nesta área (José Atalaia, por exemplo), seria uma via bem mais recomendável. Bem sei que na Antena 1 já existe a rubrica "
Grandes Músicas", de António Cartaxo, mas é muito pouco. E na Antena 3? O que tem sido feito para cativar os jovens e para os ajudar a perceber que nem toda a música clássica é aquela coisa chata e enfadonha?
Talvez com esta grelha a Antena 2 venha a conquistar alguns dos tradicionais ouvintes da Antena 1 que não se revêem na programação musical que vem sendo implementada. É provável que as audiências subam, mas haverá certamente a fuga de alguns melómanos mais exigentes e exclusivistas da música clássica. Talvez os ouvintes que venham a ser conquistados ultrapassem em número os que vão desertar, mas há uma questão que se impõe: não estará a Antena 2 a desempenhar agora uma parte do papel que caberia à Antena 1?


Nota: Estando a RTP e a RDP sob a alçada da mesma administração, e tendo a obsessão com as audiências sido abandonada na televisão, não entendo ela estar a ter a sua máxima expressão na rádio. Tal dever-se-á ao facto da rádio ter menos visibilidade e, como tal, ser descurada pelo poder político? Se alguém tiver uma explicação verosímil, faça o favor de ma dar.

"1001 Escolhas" também na TV



Jorge Guimarães Silva, no blogue "A Rádio em Portugal", já havia noticiado que o "1001 Escolhas", da Antena 1, iria passar a ter uma versão televisiva, mais concretamente na RTP-N. Na altura fiquei na dúvida se o programa continuaria ou não a ter a versão radiofónica, tal como acontece, por exemplo, com os programas de entrevista que Ana Sousa Dias mantém na RTP-2 e na Antena 1. Agora constato que se mantém na rádio, o que registo com agrado porque o "1001 Escolhas" é um daqueles programas (cada vez mais raros) que nos faz prender o ouvido ao rádio. Na verdade, o programa que Madalena Balça, Sónia Silva, Diamantino José e Maria Antonieta vêm fazendo desde 2004 é uma das poucas razões pelas quais ainda vale a pena rodar o botão para a Antena 1. Durante muito tempo passou à hora de almoço e desde Setembro último logo a seguir ao também imperdível "Lugar ao Sul", aos sábados pelas 10 horas.
Os ouvintes indefectíveis têm-no agora também no canal de notícias da
RTP aos domingos, com repetição às segundas e sextas-feiras. Pena é que seja num canal codificado e não na RTP-2, por exemplo. Só espero é que Jorge Wemans, o novo director do segundo canal da televisão pública, tenha o bom senso de transmiti-lo em reposição, tal como tem acontecido com "Livro Aberto", "Estes Difíceis Amores" e "4 x Ciência".
Resta-me desejar à Madalena Balça e à sua equipa as maiores felicidades também no projecto televisivo.


Nota: Faço referência a dois 'posts' sobre o programa no blogue "Rádio Crítica": um sobre o
formato radiofónico e outro sobre o formato televisivo.

09 janeiro 2006

Afogada em transmissões de futebol

Ainda estão na lembrança de todos as críticas provocadas pelo enormes montantes dispendidos pela RTP na compra de direitos de transmissão televisiva dos jogos de futebol. O mesmo futebol usado para escorar as audiência da RTP.
Agora que a RTP perdeu o futebol para a TVI, aquelas transmissões directas deixaram de constituir Serviço Público. Veja-se no Diário de Notícias de hoje:
O futebol deixou de ser uma prioridade para a RTP. Quem o diz é o presidente do Conselho de Administração da empresa. Para Almerindo Marques, o futebol, apesar do seu "óbvio interesse público", não é um conteúdo de serviço público.
A RTP mudou as suas prioridades, explica Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP:
É evidente que os jogos de futebol são de interesse público, mas não se inscrevem no conceito de serviço público que um operador como a RTP tem de respeitar.
E reconhece mesmo:
(...) somando o tempo de emissão com o futebol, é óbvio que havia um exagero na RTP.
Será que Almerindo Marques, Presidente do Conselho de Administração da RTP poderia explicar ao seu colega Presidente do Conselho de Administração da RDP (que por acaso também se chama Almerindo Marques – serão primos?) que o futebol não é um conteúdo de serviço público.
Talvez assim se moderassem os exageros que afogam a Antena 1 com relatos de futebol.

06 janeiro 2006

Fazer o que as privadas não fazem...

Roubado no Blogouve-se (o jpmenezes não se chateia...)

Terça-feira, Janeiro 03, 2006

Sobre o serviço público de rádio
"(...)
G. Richeri (...) sugere uma proposta que me parece pertinente aplicar à situação actual da rádio: o comunicólogo italiano pergunta que sentido tem uma televisão pública que gasta uma grande parte dos seus recursos económicos e das suas capacidades profissionais a fazer o mesmo que os privados e conclui que cresce cada vez mais a ideia de que a televisão pública deve ter uma função correctiva do mercado, fazendo o que não cabe no âmbito das operações e das funções das empresas privadas" (tradução minha)
Josep M. Martí Martí, "Transformaciones radiofónicas a medio plazo.En un entorno cambiante y competitivo", revista Telos, nº42, 1995.

04 janeiro 2006

A desarticulação do aparelho de Produção da RDP

Gostar de alguém é desejar-lhe o melhor, é sentir mágoa quando esse alguém é magoado, é partilhar alegrias mas também procurar estar presente nos momentos difíceis e de tristeza.
E no campo dos sentimentos, os nossos afectos podem abarcar lugares, objectos, instituições… como o nosso clube, a associação que ajudámos a construir, a nossa rádio, etc. etc. etc.

Custa assistir de forma passiva ao modo como todo o aparelho de produção da RDP foi aos poucos sendo desarticulado: não há quase programas… mas apenas um computador que debita uma play list, quase já nem há produção própria e tudo se resume a "outsourcing", comprando fora o que se não quer que seja produzido no seu seio. Nesta altura, descontando a Informação e o Desporto, restarão uns três ou quatro programas a cargo de profissionais da Antena 1.

O que passará então a distinguir o Serviço Público de Rádio quando o respectivo concessionário quase se limita a ir ao mercado comprar produtos que, devidamente testados na área privada, se revelaram capazes de conseguir audiências e shares para a Antena 1?
Na vaga neoliberal onde os números pesam mais que as consciências, comprando fora aquilo que lhe não deixam produzir dentro, restar-lhe-à ser o quê? um entreposto, uma central de compras? um conjunto de emissores? É é também essa a estratégia que agora vai ser seguida pela Antena 2?

As formas e os modos de produção não são inócuos nem bacteriologicamente puros.
Por isso, estas questões revelam-se fundamentais.

03 janeiro 2006

A rádio pública e a música portuguesa

Num texto sobre este assunto, Paula Cordeiro (blogue NetFM) aflora alguns pontos que merecem reflexão. Concordo plenamente com as seguintes passagens: «... convém reconhecer que a música que está actualmente a tocar na Antena 1 é de escuta fácil, pouco dirigida a mentes mais eruditas ou a grandes conhecedores de música» e «...ainda que, no que respeita à selecção musical, possa ser acusada de "esquecer" alguma da mais rica produção nacional que escapa às malhas da pop». Mas já me parece excessiva bondade supor que depois de conquistada uma determinada audiência então a Antena 1 já pode voltar a introduzir a música banida e excluída. Tal argumento pode agradar à direcção de programas e à administração da RDP mas não o posso subscrever porque, a meu ver, os conteúdos nunca poderão divergir muito dos que serviram para seduzir os novos ouvintes, sob pena de eles se sentirem enganados e zarparem para outras paragens. Do mesmo modo que alguém entendeu que era necessário baixar o nível para captar audiências, continuará a vingar a ideia de que, para não afugentar os segmentos do auditório mais viciados nos modelos massificados, o nível nunca poderá ultrapassar uma certa fasquia. É fácil concluir que tal fasquia ficará sempre abaixo do que é expectável num serviço público. Do meu ponto de vista, haverá sempre uma perversão do serviço público quando a conquista de audiências é feita à custa da qualidade e em mimetismo com os formatos comerciais. Só pelo facto de um canal público ser generalista isso não significa que tenha de descer ao nível da lama: pelo contrário, devem ser criadas as condições para os que não se sentem bem na lama possam encontrar um refúgio que não seja obrigatoriamente a música clássica. Penso que não é impossível um canal generalista apresentar produtos de qualidade com audiências razoáveis. E isto passa muito pela forma como os produtos são embrulhados e propostos às pessoas. Quem tem experiência de rádio sabe que há técnicas e truques para prender e conquistar ouvintes sem fatalmente se cair na mediocridade mais rasteira. O problema da rádio de hoje deriva, em grande parte, do facto do meio ter sido assaltado por muita gente sem preparação e sem o 'savoir faire' das figuras que fizeram a história da rádio. No caso concreto da RDP, eméritos profissionais de "saber de experiência feito" que ainda tinham muito para dar e aos quais devemos momentos de beleza e magia foram, sem o menor pejo, postos na prateleira para dar lugar aos serviçais das 'playlists'. Que dignidade pode ter um radialista quando fica reduzido à degradante condição de autómato que não pode fazer mais do que clicar ora no 'play' ora no 'pause', e ler os textos que acompanham as músicas que alguém previamente escolheu e – claro está – dar as notícias do trânsito e falar do tempo? Será razoável que o grosso da música que passa numa rádio pública seja a que é ditada por uma 'playlist', que como podemos constatar obedece ao mesmo formato das rádios privadas, as quais devido à contingência de terem de lutar pelo bolo publicitário não podem fugir à mediania reinante? Quantos profissionais da Antena 1 têm o poder e a liberdade de escolher música fora da ditadura da 'playlist'? Os dedos de uma só mão chegam (e sobram) para contar os programas de autor com música portuguesa e mesmo assim nem todos têm obtido o devido apreço e reconhecimento de quem tem passado pela direcção de programas. "Lugar ao Sul", de Rafael Correia e "Viva a Música", de Armando Carvalheda são dois bons exemplos.
Quando João Paulo Meneses, no
Blogouve-se, fala em blocos presumo que se esteja a referir a espaços em que seria um realizador ou um locutor a seleccionar a música conferindo uma identidade própria à emissão. Essa seria a situação ideal, mas atendendo ao estado a que as coisas chegaram não acredito que alguém a ponha em prática. Defendo que na grelha de uma rádio pública, os programas de autor devam ser a regra e não a excepção (em vez de um devia haver muitos "O Amigo da Música"), mas não sou avesso à ideia de existir, no sistema informático da estação, uma biblioteca de música escolhida pela direcção, acervo esse ao qual os radialistas de menor qualificação recorreriam para formarem os seus alinhamentos (na actual situação nem sequer lhes é permitido alterar a sequência das canções). Também não me repugnaria que pudessem existir, para cada género musical, 'playlists' distintas que preencheriam espaços temáticos definidos na grelha: fado, música tradicional, pop portuguesa, música brasileira, música afro-lusófona, música latina, música anglo-americana. E neste caso cada 'playlist' seria elaborada por uma pessoa diferente, profunda conhecedora de cada área musical que assegurasse não só uma selecção criteriosa mas também – e não menos importante – a renovação periódica dos temas a tocar. Assim as coisas seriam mais claras e os ouvintes já sabiam em que espaço poderiam ouvir a música da sua preferência. Não como acontece actualmente em que há uma 'playlist' pseudo-generalista (na verdade é temática porque se confina praticamente à pop anglo-americana e portuguesa) elaborada por um funcionário todo-poderoso que se pauta pela mais completa prepotência e discricionaridade e cuja conduta denota obscuras cumplicidades com determinados artistas, 'managers' e editoras. Um exemplo concreto: será razoável que nomes como The Corrs, Texas e James Blunt, entre outros, passem todos os dias (e mais do que uma vez) enquanto que tantos e bons nomes da música anglo-americana (passados e actuais) nunca se ouçam. Com que propósito é que os ouvintes mais fiéis (sobretudo os que gostam de rádio mas não suportam a publicidade) são massacrados sempre com os mesmos temas, repetidos ad nauseam? Presume-se que para serem condicionados a comprar os respectivos discos. Mas será admissível que uma rádio que é suportada pelos contribuintes portugueses esteja a fazer fretes às 'majors' discográficas? Será legítimo um serviço público votar ao ostracismo as editoras independentes que apresentam música alternativa? Não será uma das obrigações do serviço público atender aos interesses dos públicos mais exigentes? Os ouvintes que aspiram a algo mais que o 'mainstream' não ficarão sem outra opção que a Antena 2? A música à qual não é reconhecida dignidade para figurar na rádio clássica, mas que não deixa de ter valor cultural, não ficará sem expressão radiofónica, no panorama das estações de cobertura nacional?
Mas se, na Antena 1, a situação é calamitosa na área da música anglo-americana, o estado das coisas é ainda mais grave no caso da música portuguesa, entenda-se feita por portugueses e cantada em português ou instrumental (música cantada em inglês, ainda que feita por portugueses, não pode ser considerada música portuguesa). A Antena 1 até pode cumprir a quota legalmente estipulada para a difusão de música portuguesa, mas isso é feito de uma forma distorcida e enviesada, ou seja, com mais e mais do mesmo. Enquanto que muitos nomes importantes são deliberadamente sonegados, há meia-dúzia (todos da área da pop) que passam em doses industriais. Não me compete falar em nome dos artistas banidos/excluídos, mas direi simplesmente que me parece estar a ser-lhes negado o direito de serem ouvidos na rádio de todos nós e em igualdade de circunstâncias com os que são massivamente promovidos. Afinal de contas, tais artistas também pagam impostos sendo que uma parte desse dinheiro acaba por ir parar ao orçamento da empresa pública de rádio. Quantos artistas de talento haverá que não têm a oportunidade de divulgar o seu trabalho? Não haverá gente a desesperar com falta de audição e consequente invisibilidade e ausência de contratos motivados por isso? Neste particular, recomendo a leitura do
Manifesto sobre o estado da Música Portuguesa, redigido por Pedro Barroso e subscrito por dezenas de artistas, em 2002, altura em que a Antena 1 ainda marcava a diferença pela atenção que dava à nossa música mais representativa. Se agora a rádio pública portuguesa se recusa a divulgar a música que melhor exprime a nossa identidade quem é que o vai fazer? A resposta é óbvia: ninguém, a não ser algumas rádios locais, sobretudo as que resistiram à voragem da música 'pimba'. Então e os ouvintes que têm o azar de viver em zonas não cobertas por essas estações (ou que vivendo, não querem ouvir publicidade) não têm o direito de ouvir, na rádio, música portuguesa para além da pop? Será razoável que uma rádio pública não atenda aos muitos ouvintes apreciadores de fado e de música de raiz tradicional? Para que pagam eles uma taxa obrigatória na factura da electricidade? Alguém mais desatento poderá pensar que nomes como Amália, José Afonso e Carlos Paredes, por exemplo, deixaram de passar na Antena 1 porque pertencem ao passado. Posso testemunhar que a verdadeira razão não é essa pois há grupos já extintos e cantores já falecidos que continuam a passar, ao passo que outros mais recentes e no activo nunca (ou raramente) se ouvem. Por exemplo, assiste-se à situação bizarra dos Heróis do Mar, grupo extinto quando Pedro Ayres Magalhães decidiu – e em boa hora – fundar os Madredeus, terem uma presença muito mais frequente e assídua do que estes últimos. E ninguém me vai convencer que os Heróis do Mar deram um contributo mais válido para a música portuguesa que os Madredeus, justamente os maiores embaixadores da nossa música além-fronteiras, depois da grande Amália. Acontece o mesmo com os Sétima Legião face a Rodrigo Leão, em que este tem uma presença ínfima em comparação com o grupo de que fez parte. E digo isto perfeitamente à vontade pois até gosto dos Sétima Legião, mas é inegável que a produção de Rodrigo Leão a solo se encontra num patamar superior.
Por último, não posso deixar de perguntar: será normal que a imortal Amália, a maior cantora portuguesa de sempre e uma das maiores do mundo, não se possa ouvir na rádio oficial do país que a viu nascer? Acontecerá o mesmo com os maiores cantores estrangeiros nos respectivos países? Por exemplo, Frank Sinatra não passará na National Public Radio? E Jacques Brel também foi banido das rádios públicas francófonas?

Sobre a ditadura das 'play-lists'

Carlos Tê, em Abril de 2005, escreveu no "Expresso", uma crónica intitulada "Os Dias da Rádio", em que denuncia o monopólio das 'playlists' no actual panorama radiofónico. Dado que o assunto não perdeu actualidade (bem pelo contrário), e como a crónica não está disponível online, faço referência ao 'post' que Pedro Leal oportunamente escreveu em JornalismoPortoRádio.

30 dezembro 2005

"Um Toque de Jazz": mais tempo de antena



O jazz por ser considerado um género elitista (ainda mais do que a música clássica) nem sempre tem merecido a devida atenção por parte de quem dirige a rádio em Portugal. Nas rádios de cobertura nacional só encontro três espaços temáticos de autor, todos na RDP: "Cinco Minutos de Jazz" (suponho que é actualmente o programa mais antigo da rádio em Portugal), "A Menina Dança?", de José Duarte e "Um Toque de Jazz", de Manuel Jorge Veloso (na foto). Soube através do blogue "Indústrias Culturais" que na grelha da Antena 2, que vai arrancar no dia 01 de Janeiro, este programa de referência da nossa rádio passará a ter duas horas por semana (ao fim-de-semana). Atendendo à penúria de jazz na rádio portuguesa, registo com regozijo o aumento do tempo de antena de jazz na rádio clássica. Afinal de contas, não será o jazz também música clássica (afro-americana)?
Em breve, direi de minha justiça sobre a nova grelha da Antena 2.

Sobre a Lei da Rádio

Um artigo de opinião dos deputados Agostinho Branquinho e Pedro Duarte, publicado no jornal "Público", no passado dia 26, voltou a trazer à liça a já recorrente questão rádio versus música portuguesa. Recomendo a leitura da reflexão que Rogério Santos fez sobre o assunto no blogue "Indústrias Culturais".

Sobre o Index (III)

Na sequência do post do Prof. Manuel Pinto, o jornalista João Paulo Meneses, no "Blogouve-se", achou por bem alinhavar algumas ideias sobre a situação da música portuguesa nos alinhamentos da Antena 1, num post intitulado "Ainda a play list da Antena 1". Um agradecimento muito especial ao JPM pela atenção que tem dado ao serviço público de rádio.

Sobre o Index (II)

Manuel Pinto, professor no Departamento de Ciências de Comunicação da Universidade do Minho, escreveu, no blogue "Jornalismo e Comunicação", um 'post' intitulado "Música portuguesa na rádio pública: há ou não há "Índex"?", cuja leitura se recomenda. Aproveito para exprimir publicamente os meus sinceros agradecimentos ao Prof. Manuel Pinto pela referência que fez a este blogue e, muito especialmente, pelas palavras amáveis que disse sobre a minha pessoa e sobre o meu modesto mas empenhado contributo em defesa do programa "Lugar ao Sul" e, mais genericamente, em prol de um verdadeiro serviço público de rádio.

22 dezembro 2005

Boas Festas

Não sei qual a visão que têm do Natal... mas desejo-vos, na mesma, um Bom Natal.

Não sei se para vocês o 25 de Dezembro é apenas uma data de calendário... mas desejo-vos, na mesma, que o passem bem.

Não sei se nesta altura celebram o Natal dos Cristãos ou se preferem os ritos ancestrais que celebravam a chegada do Inverno... mas desejo-vos, na mesma, umas Boas Festas.

Não se não celebram coisa nenhuma e até estão fartos deste Pai Natal branco e vermelho (que não tem qualquer peso de tradição, uso ou costume... e é apenas uma invenção de uma campanha de marketing da cocacola), mas desejo-vos, na mesma, que passem os feriados da forma mais agradável possível.

Como vos apetecer, como quiserem, com quem quiserem (e preferirem).

Bom natal, bom equinócio, bons feriados.

Com filhozes, azevias, aletria... Como vos apeteça (e possam!).

20 dezembro 2005

Sobre o Index

A propósito do extenso rol de nomes da música portuguesa banidos/excluídos dos alinhamentos de continuidade ('playlists') da Antena 1, o poeta Eduardo Pitta, no blogue "Da Literatura", escreveu um post sugestivamente intitulado "O INDEX".

Para quando programas da RDP em 'podcasts'?

Embora o âmbito preferencial deste blogue seja a rádio pública, seria injusto não referir programas das rádios privadas que se afigurem de relevante interesse público e, como tal, terem todo o cabimento na RDP. É o caso de "Rádio.com", apontamento da autoria de João Paulo Meneses ("Blogouve-se"), que vai para o ar todos os sábados, depois do noticiário das 13 horas, na frequência da TSF. Como o nome sugere, o objecto da rubrica é tratar de vários aspectos que envolvem a rádio na internet. Um dos pontos mais recorrentes tem sido os 'podcasts', anglicismo que designa os ficheiros de áudio, mormente de programas de rádio, que podem ser descarregados de determinados sites para depois serem ouvidos em leitores portáteis de áudio digital (iPods), e ou no computador, em auto-rádios com leitores de CD-R/RW compatíveis com MP3 e também nos aparelhos domésticos como os vulgares leitores de CD e DVD. Esta é uma modalidade de grande interesse para os radiófilos, uma vez que lhes dá a possibilidade de ouvirem os programas da sua preferência sem terem de ficar escravos dos horários de emissão dos mesmos. E além disso de toda a fiabilidade pois não está sujeita aos percalços que acontecem nas gravações de rádio online, tais como falhas na ligação à rede, alterações súbitas de horários, etc.. Esta nova forma de disponibilizar conteúdos áudio está a ter um grande incremento e sucesso em vários países mas, pelo que tenho ouvido, é ainda muito incipiente por cá. Em Portugal, o principal acervo de conteúdos de rádio é o arquivo da RDP que, além dos programas da própria estação, alberga o que se conseguiu salvar do arquivo do antigo RCP, da Rádio Comercial e de outras emissoras. Jorge Guimarães Silva, autor do blogue "A Rádio em Portugal", a propósito do exemplo da BBC, já chamou à atenção para a importância desses valiosos conteúdos e do interesse em serem disponibilizados ao público. Então de que é que a Rádio e Televisão de Portugal está à espera? Por que motivo não se põe o melhor desse inestimável património fonográfico à disposição dos ouvintes, quer sob a forma de edições discográficas quer nos emergentes 'podcasts'? Da programação actual há alguns excelentes exemplos de conteúdos para 'podcasts' como "Questões de Moral", de Joel Costa, "Os Sons Férteis", de Paulo Rato (Antena 2) e "Lugar ao "Sul", de Rafael Correia (Antena 1). A RDP, quando foi uma empresa autónoma, acompanhou a vanguarda europeia na emissão digital mas agora parece estar indiferente e apática perante um avanço tecnológico que pode voltar a aproximar a rádio do público. Será que agora, por estar acoplada à televisão, a rádio pública passou a ser o parente pobre da irmandade que se chama Rádio e Televisão de Portugal?

18 dezembro 2005

"Onde Custa mais ser Português"


O país, as suas realidades e/ou (ir)realidades políticas, a sua rádio e a sua televisão têm outras cores quando vistos com os olhos da distância.
As palavras que a seguir transcrevemos foram-nos enviadas por Fernando Cruz Gomes, português, jornalista, residindo e trabalhando em Toronto, no Canadá.
Aqui só vão pequenos excertos. O texto, na íntegra, está disponível em
Rádio Nossa, um Blogue associado a este e onde surgirão as colaborações de que, apesar de mais extensas, não vos queremos privar.


Cá longe... onde custa mais ser Português!
(...)
Caçadores de cabeças! Uma necessidade imperiosa para o nosso pobre país de origem, que continua, paulatinamente, a bancar de grande senhor, rico e poderoso.
(...)
Às primeiras palavras, o tal visitante abriu o livro. Queria sardinhas assadas. E como se vivia o “10 de Junho”, no Canadá, ele tinha a certeza que os Portugueses de lá... tinham as tais sardinhas assadas. Só depois é que, com um sotaque do centro de Portugal, nos atirou com a frase: “Homem, falamos em Português...”. Era, então, vice-presidente da toda poderosa CNN.
(...)
A conversa fez-se em Português - em perfeito Português, entenda-se - por que o economista “senior” em causa era Português.
(...)
Na RTPi, na RDPi, na Lusa, nos grandes órgãos de Comunicação Social... hão-de dizer-nos quantas “cabeças” têm a mínima noção do que representa a emigração. Hão-de-nos dizer se é possível, assim, fazer trabalho em prol dos portugueses residentes no estrangeiro.

(...)

Para ler na íntegra em Rádio Nossa.

15 dezembro 2005

Provedores para rádio e TV são escolhidos pela RTP

O título é do Diário de Notícias na sua edição de hoje:


Serviço Público
Provedores para rádio e TV são escolhidos pela RTP
s.C.S.

Os nomes dos provedores do telespectador e do ouvinte para a RTP e RDP, bem como as suas remunerações vão ser definidas pelo Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal, SGPS.

A decisão foi tomada ontem com a aprovação do texto final da proposta de lei que cria a figura dos provedores, na Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias da Assembleia da República.

Esta foi uma questão que ao longo das várias discussões na especialidade da subcomissão para comunicação social suscitou dúvidas da oposição (BE e CDS-PP), que questionava se assim deveria acontecer, uma vez que se pretende uma maior independência entre os provedores e a instituição que vão representar.

Durante a discussão final, Pedro Mota Soares (CDS) insistiu nas questões da existência de um só provedor para os dois meios, nos impedimentos e incompatibilidades que deviam ficar instituídas na lei, tal como os critérios editoriais previstos para o programa semanal dos provedores. Já Fernando Rosas (BE) considerou que o tramite da remuneração devia sofrer ajustes.

De acordo com o documento ontem definido, os nomes escolhidos pela administração da RTP devem merecer um parecer do Conselho de Opinião da empresa.

O diploma é aprovado hoje no Parlamento e terá 15 dias para ser publicado em Diário da República.

Competências
Serviço de reclamações

O DN tentou ao longo do dia de ontem ouvir a administração da RTP sobre a escolha dos provedores, mas tal não foi possível até ao fecho da edição.

Os provedores devem receber e avaliar as queixas dos ouvintes e dos telespectadores.

As queixas e sugestões devem ser dirigidas à administração e aos responsáveis visados.

Devem questionar e formular conclusões sobre os critérios de programação adoptados.

Os seus pareceres sobre os conteúdos devem ser transmitidos aos utentes da RTP

Edição de um programa semanal sobre as matérias da sua competência, com duração mínima de 15 minutos.

Elaborar um relatório anual sobre a sua actividade.

Ouvir os directores de informação e programação sempre que as matérias o justifique.

13 dezembro 2005

As minhas escolhas

Da actual programação dos três canais nacionais da RDP, gostaria de destacar os seguintes programas e rubricas (por ordem cronológica, de segunda-feira a domingo):

Antena 1

Programas:
- Antena Aberta, de Eduarda Maio (segunda a sexta, 09:35-11h);
- Portugal em Directo (informação regional) (segunda a sexta, 13h);
- Memória de Um Lugar ao Sul, de Rafael Correia (segunda, 24h);
- Escrita em Dia, de Francisco José Viegas (quarta, 24h e sábado, 14h);
- Viva a Música, de Armando Carvalheda (quinta, 16h e sábado, 15h);
- Cinemax, de Tiago Alves e João Lopes (quinta, 24h e sábado, 18h);
- Lugar ao Sul, de Rafael Correia (sábado, 09h);
- Mil e Uma Escolhas, de Madalena Balça (sábado, 10h);
- Alma Nostra, de Carlos Amaral Dias e Carlos Magno (sábado, 11h);
- A Menina Dança?, de José Duarte (sábado, 24h);
- Vozes da Lusofonia, de Edgar Canelas (domingo, 09h e 24h);
- O Amor É, de Júlio Machado Vaz (domingo, 10h);
- O Amigo da Música, de José Nuno Martins (domingo, 11h e 23h);
- Entrevista, de Ana Sousa Dias (domingo, 12h);

Rubricas:
- Outras Histórias da Música (Pop/rock), de Luís Filipe Barros (segunda a sexta, 01:40, 06:40, 08:55);
- Cinco Minutos de Jazz, de José Duarte (segunda a sexta, 01:55, 18:55, 22:55);
- O Amor É, de Júlio Machado Vaz (segunda a sexta, 03:20, 09:20, 11:20, 22:20);
- Loja do Cidadão (segunda a sexta, 04:40, 14:20);
- Alma Lusa, de Edgar Canelas (segunda a sexta, 04:55, 06:55, 12:55, 15:55, 20:55);
- Grandes Músicas, de António Cartaxo (segunda a sexta, 05:55, 09:25, 19:55, 23:55);
- Os Reis da Rádio (segunda a sexta, 7:50, 23:20);
- Notícias da Palmilha Dentada (humor) (segunda a sexta, 7:55, 11:55).


Antena 2

Programas:
- Amanhecer, de João Almeida e Maria Augusta Gonçalves (segunda a sexta, 07:00-10:00);
- Questões de Moral, de Joel Costa (segunda, 10h ou 24h);
- Até Bach (música antiga e barroca) (segunda a sexta, 16:10-18h);
- Ritornello, de Jorge Rodrigues (segunda a sexta, 18:10-20h);
- Depois da Uma na Dois (Jazz) (diariamente, 01:00-02:00h);
- Operamania, de Jorge Rodrigues (terça, 10h ou 24h);
- Em Sintonia com António Cartaxo (terça, 22h e domingo, 11h);
- Raízes (músicas do mundo), de João Pedro (terça, 23h);
- A Propósito da Música, de Alexandre Delgado (quarta, 10h ou 24h);
- A Música e as Ideias, de José Atalaia e João Maria de Freitas Branco (quarta, 10h ou 24h);
- Páginas de Português, de João Alferes Gonçalves (quarta, 22h e domingo, 16h);
- Ressonâncias, de Rui Vieira Nery e Vanda de Sá (quarta, 22:30h e domingo, 16:30h);
- Ciber 2, de José Vítor Malheiros (quinta, 10h ou quinta, 24h);
- Marcas da História, de António Costa Pinto (quinta, 10:30h ou sexta, 00:30);
- Discos de Cabeceira, de José Pedro Borges (quinta, 10h ou 24h);
- Um Toque de Jazz, de Manuel Jorge Veloso (quinta, 22h e domingo 12h);
- Delta Blues, de André Pinto (quinta, 23h);
- Os Dias da Arte, de Ana Paula Ferreira (sábado, 11h);
- Escalas de Sábado, de Andrea Lupi (sábado, 12h);
- A Força das Coisas, de Luís Caetano (sábado, 16h);
- Musica Aeterna, de João Chambers (sábado, 23h).

Rubricas:
- Os Sons Férteis, de Paulo Rato (segunda a sexta, 11h);
- Última Edição, de Luís Caetano (segunda a sexta, 16h e 24h);
- Cinco Minutos de Jazz, de José Duarte (segunda a sexta, 20h).


Antena 3


Programas:
- Prova Oral, de Raquel Bulha e Fernando Alvim (segunda a sexta, 19h);
- Coiote, de Pedro Costa (segunda a sexta, 22h);
- Planeta 3, de Raquel Bulha (domingo, 22h).

Rubricas:
- Bolas com Creme (humor), de Bubu (segunda a sexta, 08:50 e 09:50).


Nota: Para obter mais informações queira clicar, conforme o caso, em
Antena 1, Antena 2 ou Antena 3.
Se desejar apresentar reparos, críticas e sugestões sobre um programa em particular ou sobre a programação em geral, clique em
Participe!

09 dezembro 2005

A intervenção crítica dos ouvintes da rádio pública

É de aplaudir algumas melhorias que Rui Pêgo introduziu na grelha da Antena 1, no passado mês de Novembro, mas continua a subsistir a questão da(s) 'playlist'(s) que é neste momento o ponto mais negativo da programação. Não está tanto em causa a 'playlist' em si mesma, enquanto ferramenta tecnológica, mas sim o formato que vem sendo implementado e que consiste em repetições exageradas, no afunilamento em apenas um género (a música pop) e, como consequência, a exclusão imperdoável de um extenso rol de músicos, cantores e grupos de reconhecida qualidade designadamente nas áreas da música de raiz ou inspiração tradicional e do fado. E isto acontece não só com os nomes já falecidos ou retirados mas também com os que estão no activo desde os consagrados aos mais novos e em início de carreira. Alguns (poucos) nomes da nova geração do fado ainda passam por altura dos respectivos lançamentos discográficos, mas já nem isso acontece com os agrupamentos emergentes da música folk e tradicional portuguesa. Porquê? Será aceitável que a rádio que todos financiamos continue a votar ao ostracismo grupos que têm obtido a aclamação da crítica e o aplauso do público como, por exemplo, Frei Fado d'El Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel e Galandum Galundaina?
A rádio estatal tem obrigações de serviço público de que não pode abdicar e uma delas é divulgar a música que melhor exprime a identidade portuguesa. Como a 'playlist' não faz jus a este princípio, cabe aos cidadãos e contribuintes exercerem o seu direito de intervenção cívica para exigir à direcção de programas a urgente correcção de situação tão anómala. O ministro Augusto Santos Silva, que tutela a comunicação social, tem declarado que defende a intervenção crítica dos cidadãos relativamente ao serviço público de rádio e de televisão e, como tal, cumpre à direcção da rádio pública ter em conta as opiniões expressas pelos destinatários do serviço porque, afinal de contas, servir os ouvintes é a razão que justifica a existência da rádio que eles pagam.
Os resultados das audiometrias além de pouco transparentes e distorcidos acabam por ser informações meramente quantitativas, pelo que a nossa opinião pode ser uma importante achega para a informação qualitativa de que os responsáveis da rádio pública precisam para a tomada de decisões acertadas.
Junto abaixo cópia de carta que enviei à direcção de programas da Antena 1 em que opinei sobre alguns pontos da programação actual.


Carta à direcção de programas da Antena 1:
<
rui.pego@rdp.pt, antena1.direccao@rdp.pt, antena1@rdp.pt>

Exmo. Senhor Rui Pêgo,

Assim como me sinto no dever cívico de intervir quando são tomadas decisões que considero erradas e desajustadas na programação da rádio pública, também sou o primeiro a aplaudir a direcção sempre que são concretizadas iniciativas que façam jus a um verdadeiro serviço público de rádio. É o caso de "Alma Lusa", rubrica através da qual Edgar Canelas nos guia numa viagem pela memória do fado. Aplaudo pois o Sr. Rui Pêgo por tão louvável iniciativa e dou também os parabéns ao realizador Edgar Canelas, um profissional que me habituei a estimar pelo amor e carinho que dedica à boa música portuguesa.
Congratulo-me também por alguns bons programas de autor terem passado a ser repetidos noutros horários. Destaco "Escrita em Dia" e "Viva a Música" nas tardes de sábado e "Vozes da Lusofonia" nas manhãs de domingo. É uma medida que considero muito acertada e pertinente porque os horários em que esses programas vão originalmente para o ar não são praticáveis por uma boa parte dos ouvintes em virtude da sua vida laboral, tendo assim a oportunidade de os ouvir ao fim-de-semana. Aliás, esta é uma questão que eu já havia apresentado em cartas que dirigi à direcção da Antena 1. Numa carta que em Setembro passado remeti ao Sr. Rui Pêgo apontei o exemplo do "Viva a Música", mas já havia referenciado outros programas (incluindo os atrás referidos) num e-mail que em Março passado enderecei ao seu antecessor, Tiago Alves. A propósito, não pude deixar de reparar no facto do programa "Memória de Um Lugar ao Sul" que vai para o ar a partir da meia-noite de segunda-feira não fazer parte do lote dos programas que agora começaram a ser repetidos. Peço ao Sr. Pêgo que se digne passá-lo também noutro quadrante horário por forma a que os ouvintes menos noctívagos tenham possibilidade de o ouvir. Os admiradores do trabalho de Rafael Correia ficariam gratíssimos à direcção da Antena 1 por esse gesto de boa vontade.
Voltando ao apontamento "Alma Lusa", aproveito o ensejo para lhe sugerir que essa rubrica (ou outra a criar) contemple também a música portuguesa de raiz tradicional que além dos nomes mais antigos poderá incluir os grupos emergentes que fazem furor nos festivais e encontros de música folk e tradicional, mas que continuam a ser marginalizados pela rádio. Armando Carvalheda tem a preocupação meritória de convidar alguns deles para os concertos do programa "Viva a Música", mas depois nunca mais se ouvem na 'playlist'. Volto a insistir na questão da 'playlist' porque é o ponto mais negativo na actual programação musical da Antena 1, opinião que não é só minha pois é partilhada por muita gente. Se o Sr. Rui Pêgo se quiser dar ao trabalho de fazer um inquérito aos ouvintes da Antena 1 sobre os artistas que desejariam ouvir, aposto que seriam referidos muitos dos que foram banidos da 'playlist' e até outros que nunca chegaram a entrar (vide anexo). A 'playlist' deve ser tão ecléctica quanto possível de modo a ser uma amostragem abrangente do que de melhor se produz em Portugal nas diversas áreas musicais e – não menos importante – para ir ao encontro dos diferentes gostos do auditório. Por isso, não se compreende que o fado e a música popular portuguesa tenham uma presença tão residual, ainda por cima sendo duas áreas de grande agrado e com muitos entusiastas. Fica-se com a ideia que a música portuguesa que não seja do género pop é propositadamente ostracizada por quem decide os conteúdos da 'playlist'. Em nome de quem e de quê? O que se tem vindo a passar é tanto mais absurdo porque são justamente as músicas que radicam no nossa herança cultural – fado e música de raiz tradicional – as que mais facilmente nos permitem vingar no mercado internacional. O cantor pop David Fonseca já reconheceu isto mesmo (no programa "Vozes da Lusofonia"), mas ainda subsiste em muita boa gente o equívoco de que fazer música pop, de preferência cantada em inglês, ajuda a abrir as portas no mercado global. A fulgurante carreira internacional de Amália, e depois dos Madredeus e de nomes do fado como Mísia e Mariza são as provas irrefutáveis de que não é com a música 'mainstream' que os portugueses se conseguem afirmar no mundo.
Além do afunilamento na pop, a 'playlist' da Antena 1 peca pela repetição desmesurada dos mesmos temas, o que acaba por ser cansativo para o ouvinte provocando inclusive reacções de rejeição. Uma determinada música até pode ter qualidade e dar prazer ouvir, mas se a frequência com que ela passa ultrapassar um certo limite é natural que o ouvinte se sinta saturado e já não a suporte. O que é bom se for de mais também farta. Não seria mais razoável que as músicas mais repetidas passassem menos vezes, de modo a dar lugar a outras músicas que raramente se ouvem ou que nunca passam? Na música como na alimentação, a variedade e a moderação são duas regras que só fazem bem a quem as cumpre. Assim sendo, apelo ao Sr. Rui Pêgo para que tenha o bom senso de prestar atenção a esta problemática. A bem do serviço público de rádio!
Com os melhores cumprimentos,

Álvaro José Ferreira


Index da Música Portuguesa
(RDP-Antena 1)


A lista que se segue, embora não sendo exaustiva, serve para exemplificar a situação da música portuguesa nos alinhamentos de continuidade ('playlist') da rádio pública, a estação que os cidadãos e empresas de Portugal financiam com a contribuição audiovisual (antiga taxa de radiodifusão) cobrada na factura mensal de electricidade (Lei n.º 30/2003).


Banidos/excluídos da 'playlist' da Antena 1
Adriano Correia de Oliveira
José Mário Branco
Afonso Dias
José Medeiros
Aldina Duarte
José Peixoto
Alfredo Marceneiro
Júlio Pereira
Almanaque
Laurent Filipe
Amália Rodrigues
Lua Extravagante
Amélia Muge
Lucília do Carmo
Anabela
Luís Cília
Anamar
Luiz Goes
Ana Moura
Lula Pena
Ana Sofia Varela
Maio Moço
António Chainho
Mandrágora
António Emiliano
Manuel Freire
António Pinho Vargas
Marenostrum
António Pinto Basto
Margarida Bessa
António Zambujo
Maria Ana Bobone
Argentina Santos
Maria Viana
At-Tambur
Mariza
Banda do Casaco
Melodias do Vento
Bela Aurora
Mendes Harmónica Trio
Bernardo Sassetti
Mísia
Brigada Victor Jara
Moçoilas
Canto da Terra
Mu
Canto Nono
Naná Sousa Dias
Carla Pires
Navegante
Carlos Alberto Moniz
Negros de Luz
Carlos Barretto
Nem Truz Nem Muz
Carlos do Carmo
Nuno da Câmara Pereira
Carlos Martins
Nuno Guerreiro
Carlos Mendes
Ódagaita
Carlos Paredes
Orchestra Nova Harmonia
Carlos Zíngaro
Paco Bandeira
Célia Barroca
Paula Oliveira e Bernardo Moreira
Chuchurumel
Paulo Bragança
Ciganos D'Ouro
Paulo de Carvalho
Corvos
Pedra d'Hera
Danças Ocultas
Pedro Barroso
Dar de Vaia
Pedro Caldeira Cabral
Dazkarieh
Pedro Jóia
D'Corda
Pedro Moutinho
Duo Ouro Negro
Pilar Homem de Mello
Eduardo Ramos
Quadrilha
Fernando Farinha
Quarteto 1111
Fernando Girão
Quinteto Amália
Fernando Machado Soares
Quinteto Jazz de Lisboa
Fernando Maurício
Quinteto Lusitânia
Fernando Tordo
Raízes
Filarmónica Fraude
Rão Kyao
Frei Fado d'El Rei
Real Companhia
Francisco Naia
Realejo
Gaiteiros de Lisboa
Rodrigo
Galandum Galundaina
Roldana Folk
Isabel Silvestre
Ronda dos Quatro Caminhos
Janita Salomé
Rosa dos Ventos
Joana Amendoeira
Samuel
João Braga
Segue-me à Capela
João Chora
Teresa Silva Carvalho
João Lóio
Terrakota
Joel Xavier
Tetvocal
Jorge Rivotti
Vai de Roda
José Afonso
Vá-de-Viró
José Carvalho
Vicente da Câmara
TODA A MÚSICA DE COIMBRA


Passagens esporádicas e quase sempre o mesmo tema
Ala dos Namorados
Maria João e Mário Laginha
António Variações
Marta Dias
Belle Chase Hotel
Marta Plantier
Camaleão Azul
Naifa, A
Camané
Né Ladeiras
Cristina Branco
Quinta do Bill
Eugénia Melo e Castro
Rio Grande
Fausto Bordalo Dias
Rodrigo Leão
Filipa Pais
Sara Tavares
Jáfumega
Sérgio Godinho
João Afonso
Sétima Legião
Katia Guerreiro
Sheiks
Luís Portugal
Trovante
Madredeus
UHF
Mafalda Arnauth
Vitorino
Mafalda Veiga
Vozes da Rádio

Última actualização: 09-12-2005

05 dezembro 2005

Sejam todos bem-vindos!

E foi assim...

Nasceu um Blog apostado em provocar a discussão (das formas mais vastas e abrangentes) em torno do produto comunicacional que é distribuído pela Radiodifusão Portuguesa através dos seus diversos canais, para escalões etários diferenciados, tanto dentro das fronteiras de Portugal como para os cidadãos que a Diáspora espalhou pelo mundo.

Sem laivos xenófobos ou de nacionalismo ultramontano - até porque acreditamos que a amizade entre os povos só se pode basear no respeito pela diversidade cultural - assumimos a defesa da língua, e da cultura portuguesa como motivação essencial deste novo Blog que, deliberadamente, escolhe como designação:

A NOSSA RÁDIO... ouvintes da RÁDIO PÚBLICA com opinião!

E lançamos desde já alguma deixas para estes nossos diálogos.

  • Para que serve a Radiodifusão Portuguesa? Terá alguma lógica a sua existência e o seu funcionamento financiado pelos nossos impostos.?

  • Que faz ela... que as rádios "privadas" não possam fazer? Como se distingue delas no dia a dia das suas emissões?

  • Que papel devia desempenhar na defesa da cultura e identidade nacionais e na afirmação dos nossos direitos e deveres de cidadania?

  • Qual poderia ser a sua actuação em defesa da música e dos artistas de Portugal?

  • De que forma deveria corresponder aos interesses e solicitações dos seus públicos consumidores/pagadores?

  • Que intervenção teria de assumir na construção/consolidação/afirmação de um cada vez mais forte espaço lusófono?

  • Que acção poderá desenvolver na Diáspora Luso, propiciando a afirmação das Comunidades Portuguesas nos países de acolhimento e o seu conhecimento mútuo, mas também, intervindo no reforços dos laços que nos unem (ou deviam unir)?

(se é importante que aos cidadão da Diáspora seja facultada informação independente e actualizada sobre o que em Portugal acontece, é imprescindível que em Portugal se conheçam os aspectos relevante da vida e da intervenção das nossas comunidades nos países para onde rumaram à procura de um melhor futuro.)

Estas são apenas algumas ideias porque, na realidade, o que todos queremos saber é aquilo que outros pensam e acreditam. Por isso, este Blog surge associado ao Grupo com o mesmo nome sediado em http://www.grupos.com.br/group/nossaradio/.

Todos os contributos são bem vindos. O Grupo de redacção do Blog está em constante alargamento e aberto a todas as formas de adesão e de intervenção.