A palavra por dentro da guitarra
a guitarra por dentro da palavra.
Ou talvez esta mão que se desgarra
(com garra com garra)
esta mão que nos busca e nos agarra
e nos rasga e nos lavra
com seu fio de mágoa e cimitarra.
Asa e navalha. E campo de Batalha.
E nau charrua e praça e rua.
(E também lua e também lua).
Pode ser fogo pode ser vento
(ou só lamento ou só lamento).
Esta mão de meseta
voltada para o mar
esta garra por dentro da tristeza.
Ei-la a voar, ei-la a subir
ei-la a voltar de Alcácer Quibir.
Ó mão cigarra
mão cigana
guitarra guitarra
lusitana.
(Manuel Alegre – voz de Carmen Dolores)
Carlos Paredes nasceu em Coimbra, a 16 de Fevereiro de 1925. Filho de Artur Paredes, empregado bancário e guitarrista, por sua vez também descendente de exímios guitarristas de Coimbra, e de Alice Candeias Duarte Rosas, professora liceal, Carlos aprende a tocar guitarra portuguesa com o pai, com apenas 4 anos, embora a mãe preferisse que se dedicasse ao piano.
Em 1934, a família muda-se para Lisboa e Carlos conclui a instrução primária no Jardim-Escola João de Deus, começando também a ter aulas de violino e piano, mas não se adapta aos instrumentos. Carlos Paredes recorda: «Em pequeno, a minha mãe arranjou-me duas professoras de violino e piano. Eram senhoras muito cultas a quem devo a cultura musical que tenho. Passávamos horas a conversar e uma delas murmurava: "Não sei o que hei-de dizer aos seus pais". Mas aprendi muito com elas». (Jornal de Letras, 17.3.1992). Então, abandona o violino e o piano para se dedicar por inteiro, sob a orientação do pai, à guitarra. Carlos Paredes fala com saudades desses tempos: «Foi com o meu pai que eu aprendi a tirar da guitarra sons mais violentos, como reacção ao pieguismo langoroso a que geralmente a guitarra portuguesa estava ligada». E acrescenta: «Nesses anos, creio que inventei muita coisa. Criei uma forma de tocar muito própria que é diferente da do meu pai, do meu avô, bisavô e tetravô».
Em 1939, inicia colaboração regular no programa que o pai fazia na Emissora Nacional. Às vezes tinham desentendimentos musicais. Carlos Paredes recorda: «O meu pai chamava-me péssimo acompanhador, porque o fazia andar atrás de mim». Em 1943, termina os estudos secundários num colégio particular, depois de ter frequentado o Liceu Passos Manuel, e faz exame de admissão ao Curso Industrial do Instituto Superior Técnico, que não chega a concluir. Em 1949, torna-se funcionário administrativo do Hospital de S. José, com a categoria profissional de fiel de lavandaria (será promovido a escriturário de 1.ª classe, em 1953). Casa-se e nascem os filhos (terá seis), mas não pára de tocar guitarra, a sua grande paixão.
Se excluirmos as gravações de 1957 em que acompanha o seu pai – mas ainda sem as marcas expressivas que hoje lhe conhecemos – a primeira aparição conhecida em disco de Carlos Paredes acontece em 1958 como acompanhador à guitarra do cantor de Coimbra, Augusto Camacho Vieira, num EP intitulado "Fado de Coimbra", editado pela Valentim de Carvalho. Contando ainda com a participação de António Leão Ferreira à viola, esse EP inclui os seguintes temas: "A Água da Fonte" (Popular / Paulo de Sá), "Adeus a Coimbra" (Edmundo Bettencourt), "Quando os Sinos Dobram" (Eduardo Manuel Tavares de Melo) e "A Luz do Teu Olhar (Súplica)" (Augusto Camacho Vieira).
Em 1958, é preso pela PIDE, acusado de pertencer ao Partido Comunista Português, de que era de facto militante, e expulso da função pública. Durante os 18 meses em que esteve detido, primeiro no Aljube e depois na prisão de Caxias, andava de um lado para o outro na cela fazendo os gestos de quem toca guitarra, o que levou os companheiros de cárcere a pensar que estaria louco. De facto, o que ele estava a fazer, era a compor músicas mentalmente, como lembra Severiano Falcão, que também se encontrava preso na altura. É libertado no final de 1959, e passa a exercer a profissão de delegado de propaganda médica.
Em 1960, música sua é utilizada na curta-metragem de Cândido da Costa Pinto "Rendas de Metais Preciosos". Com algum nome e carreira atrás de si, Carlos Paredes, edita finalmente, em 1962, o seu primeiro disco a solo, um EP intitulado "Carlos Paredes", com chancela da Alvorada. Com acompanhamento à viola de Fernando Alvim, o disco inclui os seguintes temas: "Variações em Si Menor", "Serenata", "Variações em Lá Menor" e "Danças Portuguesas n.º 1". Nesse mesmo ano, é convidado pelo realizador Paulo Rocha (por recomendação do produtor António da Cunha Telles), para compor a banda sonora do filme "Os Verdes Anos" (estreado comercialmente em Novembro de 1963), cujos temas – "Despertar", "Raiz", "Acção" e "Frustração" – serão publicados em EP, pela Alvorada, no início de 1964. Paulo Rocha lembra: «Ele [Carlos Paredes] leu a história e compôs a música antes de eu filmar, uma música impressionante, e quando eu estava a rodar já tinha a música na minha cabeça. Fiquei com suores frios quando a ouvi». Carlos Paredes fala assim desse trabalho: «Muitos jovens vinham de outras terras para tentarem a sorte em Lisboa. Isso tinha para mim um grande interesse humano e serviu de inspiração a muitas das minhas músicas. Eram jovens completamente marginalizados, empregadas domésticas, de lojas. Eram precisamente essas pessoas com quem eu simpatizava profundamente, pela sua simplicidade».
Nos anos seguintes, continuará a sua colaboração musical no cinema, quer cedendo músicas já gravadas quer compondo de raiz as bandas sonoras: "P.X.O." (1962, curta-metragem de Pierre Kast e Jacques Doniol-Valcroze), "Fado Corrido" (1964, filme de Jorge Brun do Canto), "As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965, curta-metragem de Manoel de Oliveira), "Mudar de Vida" (1966, filme de Paulo Rocha), "Crónica do Esforço Perdido" (1966, curta-metragem de António de Macedo), "A Cidade" (1968, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Tráfego e Estiva" (1968, curta-metragem de Manuel Guimarães), "The Columbus Route" (1969, curta-metragem de José Fonseca e Costa), "Na Corrente" (1969, documentário televisivo de Augusto Cabrita), "Hello Jim!" (1970, curta-metragem de Augusto Cabrita). Carlos Paredes, com a sua música visceralmente portuguesa, fica assim indelevelmente ligado ao cinema novo português. Diga-se, a título de curiosidade, que o próprio Pier Paolo Pasolini, depois de assistir a um concerto de Carlos Paredes em Bolonha, em Setembro de 1974, virá a fazer-lhe um convite para compor a música de um filme, projecto que não se viria a concretizar devido à morte do realizador, no ano seguinte.
Em Outubro de 1966, Carlos Paredes grava para a Valentim de Carvalho o seu primeiro LP, intitulado "Guitarra Portuguesa", nos estúdios de Paço d'Arcos, com acompanhamento à viola de Fernando Alvim. O disco marca igualmente a primeira colaboração com Hugo Ribeiro, o engenheiro de som que, anos mais tarde, Carlos Paredes diria ter sido o único a saber captar o som da sua guitarra. Hugo Ribeiro fala assim dessa experiência: «Eu ouvia-o e pensava: mas como é que é possível? Eu não percebia como é que ele tirava da guitarra aquele som todo... era a força com que ele tocava, e nem lhe saía uma nota desafinada. Era extraordinário!». Dos 11 temas do álbum merecem destaque: "Melodia n.º 2", "Dança" e "Canção Verdes Anos", talvez o tema mais emblemático de toda a sua produção. O álbum, lançado em 1967, contém um texto do francês Alain Oulman, célebre compositor de Amália Rodrigues, de que transcrevo as seguintes palavras: «A música de Carlos Paredes exprime, a meu ver, mais do que nenhuma outra, a terra e as gentes de Portugal. É intemporal, como a de Theodorakis quando canta a Grécia, como, aliás, deve ser a verdadeira música. Não se pode catalogar a música de Carlos Paredes, nem determinar as suas origens – uma possível influência de música barroca que não esconde a voz pessoal de um homem que ama o seu país profundamente, que se não envergonha de o confessar e que o faz com delicadeza e força viril. A primeira vez que o ouvi tocar foi em casa de Amália Rodrigues que também nunca o ouvira anteriormente. Ficámos todos desfeitos. Amália chorava e dizia que só lhe apetecia bater-lhe – reacção muito frequente nela quando se sente comovida pelo virtuosismo de alguém; nenhum de nós compreendia porque não era ele mais conhecido, pelo menos em Portugal. (...) Com este primeiro LP, possa a "voz" de Carlos Paredes ir longe, bem longe, pois ele canta Portugal com sinceridade absoluta, sem peias, com amor e compreensão que dele fazem um grande e raro artista onde a mediocridade não encontra abrigo».
Do álbum serão retirados, no ano seguinte, três EP: "Romance n.º 2", "Fantasia" e "Porto Santo". Ainda em 1967, ao lado de João Figueiredo Gomes (viola), acompanha à guitarra o cantor Luiz Goes, em três temas do LP "Coimbra de Ontem e de Hoje": "No Calvário" (Fausto José / José Paes de Almeida e Silva), "Canção da Infância" (Armando Goes) e "Balada do Mar" (Luiz Goes). Em 1969, participa como acompanhador à guitarra e à viola num álbum que em Ary dos Santos diz poemas dele próprio, de D. Dinis, de Camões, entre outros.
Em Outubro de 1970, Carlos Paredes participa como produtor, director musical e acompanhador no LP "Meu País", da cantora Cecília de Melo, sua companheira durante alguns anos, e de quem é o único registo conhecido. O álbum, gravado nos Estúdios de Paço d'Arcos por Hugo Ribeiro e editado pela Decca, é constituído por seis peças tradicionais arranjadas por Paredes e seis melodias originais do guitarrista sobre poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira. Uma delas, "O Render dos Heróis", fora escrita para a encenação da peça homónima de José Cardoso Pires.
Em 1971, compõe a música para a peça de Augustin Cuzzani, "O Avançado Centro Morreu ao Amanhecer", levada à cena pelo Grupo de Teatro de Campolide, e fica igualmente responsável pela escolha da música para as produções do grupo, até 1977.
Em Agosto de 1971, Carlos Paredes grava o seu segundo LP, "Movimento Perpétuo", para a Valentim de Carvalho, com o técnico de som Hugo Ribeiro. Conta com as participações musicais de Fernando Alvim no acompanhamento à viola e de Tiago Velez em flauta (nas duas composições do filme "Mudar de Vida" – tema e música de fundo). Deste magnífico álbum, lançado em Novembro de 1971, fazem ainda parte peças tão sublimes como "Danças Portuguesas n.º 2", "Variações Sob Uma Dança Popular", "António Marinheiro", "Canção" e "Valsa", esta da autoria do seu avô Gonçalo. Diz o próprio Carlos Paredes: «Meu avô, Gonçalo Paredes, é, pode dizer-se, um representante dessa tradição (iniciada por António da Silva Leite, nos fins do século XVIII). A segunda parte da sua valsa, incluída neste disco, foi-lhe acrescentada por meu pai, Artur Paredes, o original renovador da chamada guitarra de Coimbra. São, aliás, influências de ambos, de mistura com propensão pessoal para o virtuosismo e o melodismo de sugestão violinística, que marcam as minhas mais antigas realizações: "Movimento Perpétuo", "Variações em Mi Menor", "Variações em Ré Menor" e "Danças Portuguesas"».
Em Dezembro de 1971, será também editado o single "Balada de Coimbra", com os temas "Balada de Coimbra" (José Eliseu, arr. de Artur Paredes) e "O Fantoche" (Carlos Paredes) gravados nas sessões de "Movimento Perpétuo", mas não incluídos no álbum. Deste, no ano seguinte, são retirados três EP: "Movimento Perpétuo", "Mudar de Vida" e "António Marinheiro".
Em Abril de 1973, Carlos Paredes entra novamente em estúdio para gravar o seu terceiro LP para a Valentim de Carvalho, mas as gravações são interrompidas devido à lendária relutância do músico em estar fechado num estúdio e à sua conhecida auto-exigência de perfeccionista, ficando no entanto terminadas algumas músicas. É o próprio músico que confessa: «A dar espectáculos nunca me tenho recusado, mas gravar... Tenho tendência para pensar que daqui a 3 meses toco melhor do que hoje.» Hugo Ribeiro conta: «Quando entrávamos para estúdio, o Paredes dizia sempre que íamos fazer experiências, nunca era para gravar! "Vamos ver, se calhar, talvez…", dizia ele, e ficávamos sempre em suspenso, com a sessão adiada para o dia seguinte. O Paredes tocava por ali fora, e no outro dia vinha ouvir. E depois dizia-me: "Oh Ribeiro, você tinha razão! Aquilo ficou bem!" Ele entusiasmava-se a tocar. Aquela força anímica era fenomenal».
Após o 25 de Abril de 1974, quando se dá a libertação dos presos políticos, muitos deles são tratados como heróis nacionais. No entanto, Carlos Paredes recusa esse estatuto. Sobre o tempo em que esteve preso nunca gostou muito de falar. Dizia: «há pessoas que sofreram mais do que eu!». É reintegrado no quadro do Hospital de São José (onde permanecerá até à aposentação, em Novembro de 1986), com as funções de arquivista de radiografias, vindo depois a ser promovido a chefe de secção. Uma das colegas de trabalho, Rosa Semião, recorda-se da mágoa que o guitarrista sentia devido à denúncia de que fora alvo: «Para ele foi uma traição, ter sido denunciado por um colega de trabalho do hospital. E contudo, mais tarde, ao cruzar-se com o homem que o denunciou, não deixou de o cumprimentar, revelando uma enorme capacidade de perdoar!». Percorre o país, actuando em sessões culturais, musicais e políticas em simultâneo, mantendo sempre uma postura de grande simplicidade e humildade. Comenta Octávio Fonseca Silva: «Por estranho que pareça, até 1984 não realizou um único concerto em Portugal sob a sua exclusiva responsabilidade. Parece algo anedótico mas, para ser devidamente reconhecido no seu país teve de dar provas do seu talento no Olympia de Paris, na Ópera de Sydney, na Exposição Mundial de Osaka e em tantas outras grandes salas do mundo». Carlos Paredes, mais tarde, dirá: «Para se fazer música com prazer tem muita importância a amizade entre as pessoas. Não se pode fazer música friamente e com cálculo, profissionalmente, no mau sentido da palavra, a receber xis à hora. Não pode ser assim». (Se7e, 16.03.1988). Quando o criticavam, por ir para o emprego de autocarro e de Metro, dizia: «Não percebem que se eu não andasse em contacto com as pessoas não fazia as músicas que faço.» Em 1990, acrescentará: «As pessoas gostam de me ouvir tocar guitarra, a coisa agrada-lhes e elas aderem. Não há mais nada.» E confessa: «Já me tem sucedido fazer as pessoas chorar enquanto eu toco... E eu não compreendia isto, mas depois percebi que é a sonoridade da guitarra, mais do que a música que se toca ou como se toca, que emociona as pessoas.» (Público, 20.3.1990).
Em Julho de 1974, Carlos Paredes participa, como acompanhador (guitarra portuguesa, viola de fabrico popular e citolão - uma guitarra portuguesa modificada para abranger simultaneamente as escalas da guitarra portuguesa e da guitarra clássica), no álbum "É Preciso Um País", onde o poeta Manuel Alegre diz poemas de sua autoria. Em 1975, Carlos Paredes colabora também com Adriano Correia de Oliveira no álbum "Que Nunca Mais": a marca inconfundível da sua guitarra está bem patente nos temas "Tejo Que Levas as Águas" e "Recado a Helena".
No mesmo ano, retoma as sessões de gravação para a Valentim de Carvalho interrompidas dois anos antes, mas durante o pouco tempo que está em estúdio apenas regrava algum do material já terminado. O disco ficará de novo por acabar.
Em 1977, uma compilação de Carlos Paredes, intitulada "Meister der Portugiesischen Gitarre", é publicada na então na Alemanha de Leste, pela editora Amiga.
Em 7 de Maio de 1980, estreia-se no Bobino em Paris, acompanhado por Fernando Alvim, na primeira parte de Paco Ibañez, actuação que se prolongará por três semanas. Nesse ano, Carlos Paredes regrava na RDA, com acompanhamento de Carlos Alberto Moniz à viola, o material já gravado em 1973 para a Valentim de Carvalho num álbum intitulado "O Oiro e o Trigo". A edição é feita sem o conhecimento da Valentim de Carvalho, o que leva à ruptura da editora com o artista.
Em 1982, o bailarino Vasco Wellenkamp coreografa música de Carlos Paredes no bailado "Danças para Uma Guitarra". O guitarrista toca ao vivo no palco do Ballet Gulbenkian e parte com ele em digressões pelo mundo. Apaixona-se pela dança: «Já não vou conseguir pensar na música da mesma maneira; a música não está apenas na pauta e nos nossos dedos», diz Paredes a Alice Vieira. «Os bailarinos respiram a música que se toca. Às vezes penso neles como instrumentos de alta precisão.»
Em 1983, é publicado o álbum "Concerto em Frankfurt", gravado ao vivo na Ópera daquela cidade alemã, constituído por bastante material nunca editado em disco (incluindo os seis temas completos nas gravações de estúdio de 1973, se bem que renomeados e com algumas alterações na estrutura). Trata-se de um dos raros registos em palco da carreira do guitarrista e foi gravado sem o conhecimento do músico. Em entrevistas posteriores, o próprio Paredes confessaria que tal decisão acabou por ser pelo melhor – o nervosismo de saber que estava a ser gravado poderia ter afectado a sua performance. É o primeiro disco de Carlos Paredes para a PolyGram, editora com a qual assinou contrato depois da sua saída da Valentim de Carvalho. A edição de "Concerto em Frankfurt" acaba por inviabilizar a edição projectada, pela EMI-Valentim de Carvalho, de "A Montanha e a Planície", um álbum que deveria disponibilizar alguns dos temas que Carlos Paredes gravara em 1973, mas que surgem entretanto registados ao vivo. Em substituição, são reeditados, em duplo-álbum, "Guitarra Portuguesa" e "Movimento Perpétuo", pouco antes do Natal. Ainda em 1983, Carlos Paredes participa no álbum de Carlos do Carmo, "Um Homem no País", compondo e acompanhando à guitarra o "Fado Moliceiro" (poema de Ary dos Santos).
Em Outubro de 1986, é editado pela Polygram, o LP "Invenções Livres", um álbum de improvisações em duo com o pianista António Victorino d'Almeida, gravado por José Manuel Fortes. O encontro entre a guitarra de Paredes e o piano de Victorino d'Almeida resulta num trabalho brilhante e surpreendente, que obtém a aclamação da crítica. O pianista explica: «Carlos Paredes e eu não nos sujeitámos a qualquer espécie de esquema harmónico, rítmico ou formal previamente estabelecido, mas a ideia condutora das "invenções" que – em total liberdade – produzimos, consubstancia-se no diálogo, na atenção, na busca conjunta de uma verdade musical capaz de sobrepor à mera exploração das vozes dos instrumentos ou à originalidade da sua fusão. Pretendemos fazer música, encarando-a como linguagem transmissora de ideias e não como álibi para malabarismos de viciado individualismo».
Em Fevereiro de 1988, sai, pela PolyGram, o álbum "Espelho de Sons", gravado no ano anterior por José Manuel Fortes, e com produção de Tozé Brito, tendo o acompanhamento sido repartido entre Luísa Maria Amaro (viola de cordas de nylon) e Fernando Alvim (viola de cordas de metal). Agrupando as músicas por séries temáticas (Coimbra e o Mondego / Os Amadores / A Canção / O Teatro / Lisboa e o Tejo / A Dança / A Mãe e o Lar / Contrates), Carlos Paredes reutiliza muito do material gravado no "Concerto de Frankfurt" e mesmo composições mais antigas. É o caso de: "Serenata" surgida no primeiro EP a solo (1962), “Verdes Anos” (1963 e 1966), “O Fantoche” (1971) e "Canção de Alcipe", tema alusivo à Marquesa de Alorna criado por Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues para a banda sonora do filme "Bocage" (1936), de Leitão de Barros, que fora originalmente gravado em 1971 mas só editado em 1996 (no CD “Na Corrente”). O álbum entra directamente para o 3.º lugar do top oficial de vendas e virá a ser premiado com um Se7e de Ouro (atribuído pelo Jornal Se7e), na categoria de música popular/tradicional. Em Setembro, uma nova compilação de material inédito de Carlos Paredes é cancelada pela EMI-Valentim de Carvalho. O álbum deveria chamar-se "Salvados", título sugerido pelo próprio Carlos Paredes para reflectir o facto de as gravações serem 'restos' de sessões de estúdio, e também jogando com a sua condição de 'sobreviventes' do incêndio do Chiado que, em 25 de Agosto, destruíra parte dos arquivos da Valentim de Carvalho na Rua Nova do Almada.
Em 1989, o tema "Dança" (do álbum "Guitarra Portuguesa") é escolhido por Paul McCartney para música ambiente da sua digressão mundial.
Ainda em 1989, sai um novo disco de Carlos Paredes, com o título "Asas Sobre o Mundo", em edição especialmente concebida para a TAP Air Portugal (terá lançamento comercial em 1991). O disco é constituído com o material de "Espelho de Sons" e inclui ainda dois temas inéditos, dedicados pelo autor à transportadora aérea portuguesa – "Asas Sobre o Mundo" e "Nas Asas da Saudade".
Em Janeiro de 1990, retomando o conceito de improvisações em dueto, Carlos Paredes grava com o contrabaixista de jazz Charlie Haden, o álbum "Dialogues", para a Polydor. O disco, gravado em Paris, tem a marca de génio de dois grandes músicos mas o diálogo entre os instrumentos é algo desanimador, sobretudo quando comparado com o resultado alcançado em "Invenções Livres". Em 26 de Maio, os músicos voltam a encontrar-se, em concerto no Coliseu de Lisboa, pretexto que a RTP aproveita para a realização de um documentário.
No mês de Dezembro seguinte, Carlos Paredes assina contrato com a EMI-Valentim de Carvalho, regressando à casa onde gravara os seus momentos mais emblemáticos. Inicia, pouco depois, as gravações de material original para um novo álbum, mas as sessões serão suspensas devido à doença, do foro neurológico, que acometerá o guitarrista. Em 30 de Abril de 1991, Carlos Paredes e Luísa Amaro, sua acompanhadora à viola e companheira na vida (desde 1984), participam como convidados especiais no concerto dos Madredeus no Coliseu de Lisboa, de que resultará o duplo CD "Lisboa", editado em 1992. Para a ocasião, Pedro Ayres Magalhães escreveu uma letra inédita para a música de Paredes "Canto de Embalar". Em palco, Carlos Paredes interpretou "Mudar de Vida" e acompanhou o grupo, primeiro, na sua versão de "Canto de Embalar" e, depois, no original dos Madredeus "O Navio".
Em 20 e 21 de Março de 1992, Carlos Paredes regressa aos palcos, em dois concertos no Teatro de São Luiz filmados pela RTP em alta definição. Nos espectáculos, nos quais são estreados quatro novos temas compostos para o novo álbum, Paredes é acompanhado à viola por Luísa Amaro e Fernando Alvim, e participam como convidados Manuel Paulo, Natália Casanova e Nuno Guerreiro em "Cantiga do Maio" (de José Afonso), Mário Laginha em "Porto Santo", Rui Veloso em "Porto Sentido" e o flautista Paulo Curado em "Mudar de Vida". Os concertos serão repetidos a 25 no Teatro Rivoli, no Porto.
A EMI-Valentim de Carvalho reedita em CD uma compilação temática (originalmente editada em 1973) reunindo temas de Carlos Paredes, José Afonso e Luiz Goes. Os temas de Carlos Paredes foram extraídos do seu primeiro álbum, "Guitarra Portuguesa", e são: "Variações em Ré Maior", "Divertimento", "Canção Verdes Anos", "Melodia nº2" e "Fantasia".
Em Dezembro de 1993, é diagnosticada a Carlos Paredes uma mielopatia (hérnias na medula) que lhe prende os movimentos, impossibilitando-o de manejar a guitarra. Fica internado no Fundação-Lar Nossa Senhora da Saúde, em Campo de Ourique, Lisboa. Tinha agendado encontros com o Kronos Concert, com Ravi Shankar e até com Astor Piazzola. «Acho que adoeceu na altura errada», lamenta Luísa Amaro.
Em 1994, Carlos Paredes é distinguido com o Prémio de Carreira da Sociedade Portuguesa de Autores.
Em Dezembro de 1996, a EMI-VC publica "Na Corrente", compilação que reúne todo o material inédito que Carlos Paredes gravara para a Valentim de Carvalho até 1980, ano em que saiu da editora: os seis temas que haviam ficado completos nas sessões de gravação de 1973 ("A Montanha e a Planície", "Dança dos Montanheses", "Dança dos Camponeses", "Os Senhores da Terra", "Em Memória de Uma Camponesa Assassinada" e "Sede e Morte"), os dois temas do single "Balada de Coimbra / O Fantoche", publicado em 1971 e nunca incluídos em LP, e duas gravações inéditas, "Canção de Alcipe" e "Na Corrente", esta última o único registo em que Carlos Paredes tocou viola a solo. O álbum atinge rapidamente o top-20 oficial de vendas de álbuns, da Associação Fonográfica Portuguesa. Ao ouvir os belos temas que constituem este disco, uma interrogação me interpela: quantas composições geniais se terão perdido (ou que não chegaram a nascer, para ser mais preciso), quando Carlos Paredes, no auge das suas faculdades criativas, ocupava muito do seu tempo a desempenhar banais funções administrativas num hospital e a fazer inúmeras actuações no país e no estrangeiro? É caso para dizer que ganharam aqueles que tiveram o privilégio de o ouvir ao vivo, mas ficou a perder a posteridade que só pode fruir da sua arte graças às gravações.
Em Março de 2000, é editada pela Mundo da Canção, uma biografia intitulada "Carlos Paredes: A Guitarra de um Povo", da autoria do crítico musical Octávio Fonseca Silva, com a colaboração fotográfica de Luís Paulo Moura. O livro inclui ainda textos de vários especialistas, o pensamento musical de Paredes, além de um dossier documental com artigos sobre o músico e partituras manuscritas.
Em Dezembro de 2000, é lançado o seu derradeiro trabalho de inéditos, de título genérico "Canção Para Titi", com nove composições, entre as quais figuram "Uma Canção Para Minha Mãe", "Canção Para Titi", "Mar Goês", "Arcos de Jardim" e "Arco de Almedina". O material fora gravado em 1993, quando o músico já se sentia afectado pela doença. Diz o musicólogo Rui Vieira Nery, consultor da edição: «Da experiência da audição concentrada e seguida de todo o material disponível, dos takes interrompidos às sucessivas versões integrais de cada peça, depressa me ficou, contudo, uma sensação de enorme felicidade. Apesar da luta desesperada evidente que Carlos Paredes travava consigo próprio naquelas sessões de 1993 e das limitações técnicas incontornáveis a que a doença já então o submetia, a sua Música impunha-se com uma força verdadeiramente mágica logo a partir dos primeiros compassos – pujante de inspiração e de rasgo, deslumbrante no seu lirismo inconfundível. Lá estava aquele impulso rítmico único, partindo das anacrusas iniciais suspensas no tempo para depois se despenharem no seu tempo forte de resolução e lançarem a partir daí frases longas e ondulantes, sempre ao sabor de uma dicção musical perfeita. Lá estavam aquelas tonalidades menores carregadas de melancolia, salpicadas aqui e além de traços modais e de passagens cromáticas que tornavam o desenrolar da melodia num mistério sempre imprevisível. Lá estava, mesmo que agora por vezes transformado num grito de pássaro ferido, aquele som intenso, vibrado, plangente, e lá estava até, aqui e além, ainda que dramatizado pelo esforço transparecente, um virtuosismo ocasional ainda surpreendente na sua musicalidade inteligente. (...) É de sublinhar muito em particular a maneira como esta Música, privada de um virtuosismo que pudesse valer por si para lá de qualquer outra lógica de construção musical, se depura de tudo o que não é essencial para assentar apenas numa inspiração concentrada onde nada é acessório. E chama-nos também a atenção o modo como Paredes parece regressar aqui a um universo que é o das suas reminiscências de infância, evocando as figuras tutelares da Mãe e da Tia, os espaços familiares da Coimbra da sua meninice, e mesmo, de alguma forma, os sons tradicionais das baladas de Artur e Gonçalo Paredes, seu Pai e seu Avô, tudo isto com um olhar melancólico mas cheio de serenidade que nem a tensão dolorosa que marca alguns momentos da sua execução consegue perturbar. Por tudo isto seria imperdoável que o que constitui verdadeiramente o testamento musical de Carlos Paredes não saísse a público, como documento artístico e humano de uma força emocional rara, para nos dar esta visão final que fecha o círculo de um meio século de carreira. Uma carreira que nos ajudou como poucas neste século a reencontrarmo-nos connosco próprios e com a nossa identidade de portugueses.»
Em Fevereiro de 2003, assinalando os 10 anos sobre o retiro forçado de Carlos Paredes, a EMI-VC lança a sua obra completa sob o título "O Mundo Segundo Carlos Paredes", numa caixa com 8 CD, acompanhada de uma biografia. Além dos temas a solo e das improvisações em dueto, a edição contém também o repertório de outros intérpretes em que Carlos Paredes participou como instrumentista – Augusto Camacho Vieira, Luiz Goes, Ary dos Santos, Cecília de Melo, Manuel Alegre, Adriano Correia de Oliveira, Carlos do Carmo e Madredeus.
Em Junho de 2003, é lançado pela Universal um disco de homenagem intitulado "Movimentos Perpétuos: Música para Carlos Paredes", projecto que conta com a participação de nomes tão diferentes como António Pinho Vargas, Gabriel Gomes, Rodrigo Leão, Ricardo Rocha, Mísia, Ana Sofia Varela, José Eduardo Rocha, Carlos Bica, Mário Laginha, Maria João, Gaiteiros de Lisboa, Dead Combo, Sam The Kid, entre outros. A guitarra portuguesa chega assim, e de uma só vez, aos universos do jazz, do fado, da música tradicional, da electrónica e do 'hip hop', dando continuidade a uma preocupação que Carlos Paredes sempre teve presente enquanto músico – a transposição de barreiras invisíveis. Ainda em matéria de tributos, merecem referência o músico Pedro Jóia que em Fevereiro de 2001 gravou, para a Farol Música, o CD "Variações Sobre Carlos Paredes" com versões em guitarra clássica de nove temas do compositor de "Verdes Anos", e a fadista Mísia com o álbum "Canto" (Warner Jazz France, 2003) composto por canções expressamente escritas para músicas de Carlos Paredes, quase todas pelo poeta Vasco Graça Moura.
Carlos Paredes vem a falecer em Lisboa, a 23 de Julho de 2004, aos 79 anos de idade. O Governo decreta um dia de luto nacional. «Portugal teve no Carlos Paredes a genialidade, sensibilidade, poder de composição, uma belíssima técnica, e interpretação. Ele cumpriu os pontos que tinha a cumprir nesta passagem pela Terra», disse Luísa Amaro. E acrescentou: «Era um homem muito bom e muito simples, que deu uma contribuição muito grande para a cultura portuguesa». O cantor Luís Cília, que acompanhou Carlos Paredes como amigo e como profissional em vários recitais, faz votos de que «a guitarra do Paredes fique e seja para sempre lembrada». «Conheci o Paredes quando cheguei de Paris e uma das coisas que me chocou foi que um homem com o seu génio não vivesse da sua arte», acrescentou Luís Cília à agência Lusa, lamentado que, em Portugal, artistas como Carlos Paredes «não vivam no paraíso que os merece».
Em 2006, o cineasta Edgar Pêra realiza o documentário "Movimentos Perpétuos: Tributo a Carlos Paredes", editado em DVD.
«A música que faço é um produto das circunstâncias imediatas do tempo em que eu vivo, e passará a ser encarada de outra forma quando essas circunstâncias desaparecerem. É uma coisa que, se perdurar graças aos discos, ficará apenas com o valor de documento, como acontece com toda a pequena música, desde os Beatles ao Manuel Freire. E já ficarei muito orgulhoso se, daqui a muitos anos, puder ser entendido como um compositor que se integrava bem nos acontecimentos desta época...» (Se7e, 5.10.1983). Na verdade, a música de Carlos Paredes, como acontece com toda a grande arte, tem na sua essência a marca da intemporalidade (como disse Alain Oulman) e ficará como um dos mais autênticos testemunhos musicais da portugalidade, a par dos mais sublimes fados de Amália Rodrigues.
Discografia:
- Fado de Coimbra (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1958) (com Augusto Camacho Vieira)
- Carlos Paredes (EP, Alvorada, 1962)
- Guitarradas Sob o Tema do Filme Verdes Anos (EP, Alvorada, 1964)
- Guitarra Portuguesa (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1967, 1983; CD, EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Romance n.º 2 (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Fantasia (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Porto Santo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1968)
- Espiral Op. 70 (LP, Espiral/Decca, 1969) (com Ary dos Santos)
- Meu País (LP, Decca, 1970) (com Cecília de Melo)
- Movimento Perpétuo (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971, 1983; CD, EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- Balada de Coimbra / O Fantoche (single, Columbia/Valentim de Carvalho, 1971)
- Movimento Perpétuo (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Mudar de Vida (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- António Marinheiro (EP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1972)
- Carlos Paredes / Artur Paredes (LP, Alvorada, 1972) (seis temas de Carlos Paredes, na face A + seis temas de Artur Paredes, na face B)
- Carlos Paredes / José Afonso / Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992, "Encontros Em Coimbra", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) (compilação colectiva)
- É Preciso Um País (LP, col. A Voz e o Texto, Decca/Valentim de Carvalho, 1974; CD, EMI-VC, 1994) (com Manuel Alegre)
- Meister der Portugiesischen Gitarre (LP, Amiga/RDA, 1977) (compilação)
- O Oiro e o Trigo (LP, Amiga/RDA, 1980)
- Concerto em Frankfurt (LP, Philips/PolyGram, 1983; CD, Philips/PolyGram, 1990)
- Invenções Livres (LP, Philips/PolyGram, 1986; CD, Philips/PolyGram, 1994) (com António Victorino d'Almeida)
- Espelho de Sons (LP/CD, Philips/PolyGram, 1988)
- Asas Sobre o Mundo (CD, Philips/PolyGram, 1989; LP, Philips/PolyGram, 1990)
- Dialogues (LP/CD, Polydor, 1990) (com Charlie Haden)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. O Melhor dos Melhores, vol. 36 (CD, Movieplay, 1994) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs a solo de Carlos Paredes e de um EP de Artur Paredes, editado em 1957)
- Na Corrente (CD, EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
- O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra (CD, EMI-VC, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) (compilação)
- Carlos Paredes [e] Artur Paredes, col. Clássicos da Renascença, vol. 72 (CD, Movieplay, 2000) (mesmo conteúdo do CD da col. O Melhor dos Melhores)
- Canção Para Titi - Os Inéditos de 1993 (CD, EMI-VC, 2000)
- Uma Guitarra com Gente Dentro: Antologia (CD, Universal, 2002) (compilação)
- Os Verdes Anos de Carlos Paredes: As Primeiras Gravações a Solo 1962-1963 (CD, Movieplay, 2003) (reúne o repertório dos dois primeiros EPs em nome próprio, editados pela Alvorada)
- O Mundo Segundo Carlos Paredes: Integral 1958-1993 (Livro/8CD, EMI-VC, 2003)
1. Despertar
2. Na Corrente
3. Danças
4. As Mãos
5. Improvisos
6. Asas
7. Diálogos
8. Memórias
- Uma Guitarra Portuguesa (DVD, RTP/Immortal, 2006) (gravado no São Luiz, em 1992)
- Antologia 62/89 (2CD, Universal, 2007)
- A Voz da Guitarra (2CD, Universal, 2010) (compilação)
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Montanha e a Planície (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente")
- Acção (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- António Marinheiro (in "Movimento Perpétuo")
- Balada de Coimbra (in "Na Corrente")
- Canção de Alcipe (in "Na Corrente")
- Canção Verdes Anos (in "Guitarra Portuguesa")
- Canto de Embalar (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto de Rua (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Amanhecer (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Canto do Rio (in "Concerto em Frankfurt")
- Dança (in "Guitarra Portuguesa")
- Dança dos Camponeses (in "Concerto em Frankfurt" / "Na Corrente" / "Asas Sobre o Mundo")
- Dança dos Montanheses (in "Na Corrente")
- Dança Palaciana (in "Concerto em Frankfurt")
- Danças Portuguesas n.º 1 (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Danças Portuguesas n.º 2 (in "Movimento Perpétuo")
- Em Memória de Uma Camponesa Assassinada (in "Na Corrente")
- Fado Moliceiro (in "Asas Sobre o Mundo")
- In Memoriam (in "Concerto em Frankfurt")
- Melodia n.º 2 (in "Guitarra Portuguesa")
- Mudar de Vida - tema (in "Movimento Perpétuo")
- Mudar de Vida - música de fundo (in "Movimento Perpétuo")
- Nas Asas da Saudade (in "Asas Sobre o Mundo")
- O Fantoche (in "Na Corrente")
- Os Senhores da Terra (in "Na Corrente")
- Sede (in "Concerto em Frankfurt" / "Asas Sobre o Mundo")
- Sede e Morte (in "Na Corrente")
- Serenata (in "O Melhor de Carlos Paredes: Guitarra")
- Serenata no Tejo (in "Asas Sobre o Mundo")
- Valsa (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sob Uma Dança Popular (in "Movimento Perpétuo")
- Variações Sobre o Mondego (in "Asas Sobre o Mundo")
- Variações sobre o Mondego n.º 1 (in "Asas Sobre o Mundo")
- Verdes Anos (in "Asas Sobre o Mundo")
Canção Verdes Anos
Música e guitarra portuguesa: Carlos Paredes
Viola: Fernando Alvim
Como já tive oportunidade de dizer noutras ocasiões, defendo que a Antena 2 não deve ser um canal exclusivamente musical, qual mera 'playlist' de obras (ou trechos de obras) de música clássica (embora sem os padrões de repetição comuns nas rádios generalistas), mas antes uma rádio com uma forte componente de programas de autor. Neste contexto, o Sr. João Almeida, tem o meu total apoio quando, no programa "Em Nome do Ouvinte" (13-04-2007), diz que a Antena 2 tem de ter programas culturais e de palavra. Caso contrário – acrescento eu –, não haveria poesia, nem teatro, nem sequer espaços dedicados a outras áreas da cultura e do conhecimento que se não fosse a Antena 2 a dar-lhes atenção, ficariam ausentes do panorama radiofónico português. E se os contribuintes são obrigados a contribuir para rádio estatal, então o mínimo que eles exigem é que ela lhes preste um serviço que mais ninguém lhe faculta. Neste contexto, o Sr. João Almeida também tem inteira razão quando defende a música étnica e o jazz (se bem que horários se possam questionar), mas perde-a por completo, quando nos deparamos com a penúria e a ausência de programas dedicados às várias temáticas culturais, para além dos apontamentos da actualidade cultural ou do desfiar, por vezes fastidioso, dos eventos que decorrem extra-muros. Onde está um programa sobre História? Onde está a literatura (além da poesia)? Onde está o teatro radiofónico, feito com profissionalismo e sem experimentalismos entediantes? Será que para o director-adjunto da Antena 2, a função cultural da rádio pública (fora do âmbito musical) fica cumprida com o acto de noticiar o que vai acontecendo no país? Digo mais: o Sr. João Almeida foi arrogante e insultuoso quando rotula de ignorantes os ouvintes da Antena 2 que não gostam de ser massacrados com torrentes incessantes de notícias, como se esses ouvintes fossem uns trogloditas que não tivessem acesso a outros meios para tomarem conhecimento do que se passa no mundo. E como se isso não bastasse, tem ainda a petulância de vir dizer que as notícias (e digo notícias e não informação porque boa parte das notícias não representam verdadeira informação) são um factor de humanização. Humanização? Com que então, os ouvintes da Antena 2 ficam mais humanizados (quer dizer, mais civilizados e mais cultos) por saberem que houve um tiroteio na Cisjordânia ou que explodiu uma bomba no Iraque? Devo dizer que não me sinto nem mais humano nem mais civilizado, bem pelo contrário, quando me enchem a cabeça com as desgraças e os morticínios que vão acontecendo no mundo, sabendo eu, de antemão, que os responsáveis primeiros por tudo isso se encontram comodamente instalados em Washington e em Londres. Portanto, pela parte que me toca, dispenso o tipo humanismo com que o Sr. João Almeida me quer presentear mas já não estou disposto a prescindir de uma rádio genuinamente humanista, ou seja, uma rádio que acarinhe a verdadeira cultura humanística que foi produzida pelo género humano ao longo dos séculos, em vez de me inundarem com a espuma dos dias que se esvai sem deixar rasto e que mais não é do que poluição para os ouvidos. A quem gosta de se nutrir com o trivial quotidiano, não tem já à sua disposição uma miríade de fontes noticiosas, incluindo a própria Antena 1 com os seus blocos de notícias de meia em meia hora? Longe se ser um factor de humanização como o Sr. Almeida nos quer fazer crer, o caudal ininterrupto de notícias de que os media são veículo, e que ultrapassa em muito a capacidade de digestão dos receptores, acaba, afinal de contas, por constituir mais uma componente de entretenimento, para não dizer de alienação. As notícias foram transformadas em produtos de consumo que é preciso descartar porque logo a seguir surgem outras novas e frescas prontas a consumir. Enfim, consomem-se notícias e factos mediáticos do mesmo modo que se consomem telenovelas ou 'reality shows'. E depois, o Sr. João Almeida, enquanto jornalista, deverá certamente saber que uma grande percentagem das notícias postas a circular, longe de apresentarem um inegável interesse público, se prestam antes a outras finalidades – políticas, económicas ou outras. E convém também não esquecer que as empresas jornalísticas precisam de vender jornais e que as televisões e as rádios precisam de ter audiências. Ora como é sobejamente sabido o que, na maioria das vezes, se vende melhor ou garante maiores audiências não são os factos mais relevantes e de indiscutível valor informativo, mas coisas de uma importância muito relativa e que o tempo rapidamente se encarrega de colocar no rol das nulidades históricas. Portanto, a invasão da Antena 2 pela praga das notícias dever-se-á, creio bem, a razões corporativas que talvez o Sr. João Almeida não goste de assumir explicitamente. E já que falei de poluição sonora, aproveito para deixar aqui o meu protesto por outras fontes de ruído que passaram a pulular na rádio pública, surgidas primeiro na Antena 1 e que depois de estenderam à Antena 2. Com efeito, assiste-se a uma panóplia de 'jingles', sons de fundo, indicativos e 'spots' sem uma visível mais-valia auditiva para o ouvinte e que dadas as recorrentes repetições acabam por se tornar um importante factor de saturação (e consequente repulsa) para os ouvintes mais fidelizados. O horror ao vazio, e a necessidade imperiosa de preencher tudo o que represente silêncio, tem vindo a tornar a rádio pública num produto impróprio para consumo. Em vez de tantos ruídos perfeitamente supérfluos e desnecessários, não seria muito mais razoável e de bom gosto preencher os chamados tempos mortos com pequenas peças instrumentais que geralmente não são incluídas nos alinhamentos musicais? Enquanto radiófilo, devo dizer que a proliferação de ruídos das mais variadas espécies, me aflige na rádio em geral, mas no caso da estação pública, a situação atingiu um ponto crítico e, por isso, urge que quem de direito lhe preste a devida atenção. Por exemplo, quando me atiram pela enésima vez com o 'spot' do programa "Fuga da Arte", a reacção imediata que me surge é a de destruir o aparelho, tal é a aversão que já me provoca tal anúncio. Além de se tratar de um 'spot' esteticamente repelente ainda nos prima por achados deste jaez: «Woody Allen acabou de vez com a cultura e a Antena 2 entretém-se agora a brincar com os pedaços». Quem foi o autor de tamanha patacoada? É verdade que Woody Allen escreveu um livro intitulado «Para Acabar de Vez com a Cultura», mas em tom de ironia, pelo que concluir de forma literal que ele próprio acabou com a cultura, parece-me uma extrapolação errada e reveladora de superficialidade intelectual. Porque se Woody Allen tivesse acabado com a cultura, nem ele continuaria a fazer filmes nem tocaria clarinete. Ou será que essas formas de expressão artística, no caso de Woody Allen, não se podem considerar cultura? Enquanto apreciador de Woody Allen, mais do realizador que do músico, devo dizer que me recuso a aceitar tal asserção e estou em crer que ele próprio também não se revê sinceramente nela. Aliás, quando o cineasta Woody Allen vai beber a um Ingmar Bergman ou a um Fellini, não está a fazer outra coisa do que assumir a herança cultural dos grandes mestres da sétima arte em vez de a rejeitar. Refiro também os anúncios à Rádio Mozart e à 'powerbox' da TV Cabo, que de tanto serem repetidos também já me criaram anticorpos de rejeição. Não sei se quem assegura a continuidade da emissão dispara tais 'spots' por puro divertimento sadomasoquista ou se se trata de um tique mecânico e subconsciente resultante da assimilação subliminar e acrítica das técnicas repetitivas da publicidade. Ou será que os 'spots' e 'jingles' já fazem parte de uma 'playlist' que é preciso pôr no ar quando aparece uma qualquer luz a piscar no monitor do computador? Qualquer que seja o caso, gostaria sinceramente que esses ruídos fossem abolidos ou, pelo menos, emitidos com muito mais parcimónia. É que os nossos ouvidos são tolerantes mas só até a um certo ponto. A rádio deve ser uma fonte de prazer, nunca uma tortura e uma fonte de stress e mal-estar. Eu sou um grande amante de rádio, mas infelizmente a própria rádio dá-me cada vez mais motivos para a não ouvir, impelindo-me para outras alternativas de fruição auditiva, tais como a música do meu próprio acervo ou o 'podcasting'. Indo agora à Antena 1, o fenómeno dos ruídos de tão intenso e generalizado já se tornou uma verdadeira epidemia, potencialmente ameaçadora da saúde mental dos ouvintes mais fiéis. São os 'jingles', são as cortinas de péssimo gosto estético, são os 'spots' promocionais repetidos até à exaustão, são as notícias do trânsito perfeitamente redundantes e sem qualquer novidade, e são as temperaturas papagueadas a todo o momento (antes, no meio e depois das notícias). Qual o interesse em se estar constantemente a massacrar os ouvintes com as temperaturas ou a dizer se está a chover ou se faz sol? De manhã, antes das pessoas saírem de casa, é inegável que faz todo o sentido falar do tempo previsto para o dia, para se saber se vale a pena levar o guarda-chuva ou ir mais ou menos agasalhado. Mas depois disso, quando as pessoas já estão na estrada ou já se encontram no emprego, que utilidade tem para elas vir o locutor de serviço, qual papagaio, debitar periódica e recorrentemente as temperaturas e a lembrar que lá fora está a chover, ou que o céu está cinzento ou que está um dia de sol radioso? E qual o interesse para a generalidade dos ouvintes da Antena 1 saber a temperatura que se regista em Helsínquia ou Estocolmo? Será que os eventuais ouvintes que pensam viajar até à Finlândia ou à Suécia estão à espera da preciosa informação meteorológica veiculada pela Antena 1 quando essa informação, ainda por cima muito mais detalhada, está disponível na internet e mesmo nos teletextos? Ainda no tocante à Antena 1, cumpre-me contestar a repetição exagerada e exasperante de alguns 'spots' promocionais, quase sempre dos mesmos programas. Por exemplo, por que motivo os programas "Novos Artistas da Bola" e "Cinemax" são muito mais promovidos do que todos os outros? Será pelo facto do seu autor, Tiago Alves, ser também subdirector de programas da Antena 1? A ser assim, devo dizer que acho a atitude bastante condenável, sobretudo do ponto de vista ético e deontológico. E depois essa atitude egotista tem ainda a agravante de representar uma secundarização implícita do trabalho de outros realizadores da casa, o que é de todo inaceitável. Por outro lado, pôr no ar 'spots' genéricos, de pouco vai adiantar, pois os ouvintes fiéis de determinado programa não precisam do 'spot' para nada. E no caso dos ouvintes não habituais de determinado programa (que presumo sejam os principais alvos dos 'spots'), também não creio que seja um 'spot' genérico que lhes vá despertar o desejo de ouvir um programa que, à partida, não lhes suscita especial interesse. Ao invés, com 'spots' específicos sobre o conteúdo de cada emissão, acredito sinceramente que alguns programas, como o "Viva a Música" ou o "Vozes da Lusofonia", teriam muito a ganhar em termos de captação de ouvintes. Contudo, e apesar desta evidência, constata-se que nem sempre são emitidos 'spots' desses programas mencionando os artistas convidados. E se isto acontece na emissão radiofónica, também não deixa de ser verdade no caso da informação disponibilizada na internet, não raras vezes ausente, mormente no tocante ao programa "Vozes da Lusofonia". Acontecerão estas coisas por desleixo, por falta de profissionalismo ou, pura e simplesmente, por um propósito obscuro de desinvestimento nesses programas? Já alguém dizia: é preciso abater as árvores para que não façam sombra aos arbustos! A ausência de publicidade seria à partida uma vantagem da Antena 1 relativamente às estações congéneres de música e informação. Todavia, e lamentavelmente, quem tem passado pela direcção, nos últimos anos, não só não tem sabido aproveitar esse trunfo como, ao invés, tem criado um conjunto de factores e circunstâncias que tornaram a Antena 1 numa coisa insuportável e indigesta para muita gente que se habituara a tê-la como a sua rádio, por ser diferente e alternativa. Em conclusão: a Antena 1 precisa de uma urgente operação de limpeza e de redefinição do serviço, que lhe devolva a capacidade de sedução de que foi criminosamente espoliada porque só assim muitos dos ouvintes que dela se afastaram (por razões compreensíveis) a ela poderão voltar. E escusado será dizer que os critérios de escolha musical também precisam de ser reformulados, porque muita da música que tem passado (quer portuguesa quer anglo-americana) é autêntico lixo. Isto para já não falar na situação de marginalização e boicote de nomes de referência da música portuguesa que se continua a verificar.
Não era só a voz o som a oitava
que ele queria sempre mais acima
nem sequer a palavra que nos dava
restituída ao tom de cada rima.
Era a tristeza dentro da alegria
era um fundo de festa na amargura
e a quase insuportável nostalgia
que trazia por dentro da ternura.
O corpo grande e a alma de menino
trazia no olhar aquele assombro
de quem queria caber e não cabia.
Os pés fora do berço e do destino
alguém o viu partir de viola ao ombro.
Era Outubro em Avintes. E chovia.
(Manuel Alegre)
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu no Porto, a 9 de Abril de 1942. Filho primogénito de Joaquim Gomes de Oliveira, agricultor, e de Laura Correia, doméstica, Adriano passa a infância na Quinta de Porcas, em Avintes (concelho de Vila Nova de Gaia). Em Avintes faz a instrução primária e, depois, no Porto, o curso dos liceus no Colégio Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano. É ainda em Avintes que se inicia no teatro amador e colabora na fundação da União Académica de Avintes. Inicia-se também na prática do voleibol – beneficiando dos seus dotes atléticos e da sua altura – vindo mais tarde, já em Coimbra, a ser campeão nacional da modalidade. Em Outubro de 1959, aos 17 anos de idade, matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, mas nunca chegará a concluir o curso.
Passa a desenvolver grande actividade nos organismos estudantis da academia: canta e é solista no Orfeão Académico, fez parte do Grupo Universitário de Danças Regionais e integra o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra) onde representa várias peças. A sua primeira ambição musical, ainda caloiro, é tocar viola eléctrica no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, do qual faziam parte José Niza, Daniel Proença de Carvalho, Rui Ressurreição, Joaquim Caixeiro, entre outros. Como José Niza já ocupava o lugar de guitarrista, Adriano abandona a ideia e dedica-se ao canto, iniciando-se naturalmente pelo fado de Coimbra. Nessa altura vivia-se em Coimbra uma das fases mais ricas da canção feita pelos estudantes. Depois da época áurea – anos 30 – protagonizada por nomes como António Menano, Francisco Menano, Edmundo Bettencourt e Artur Paredes, os anos 50 e 60 conduziram a canção coimbrã ao mais alto nível com vozes como Luiz Goes, Fernando Machado Soares e José Afonso e guitarristas como António Brojo, Eduardo Melo, Jorge Tuna, Jorge Godinho e António Portugal.
Adriano, embora não tendo sido contemporâneo, nos estudos, dos cantores referidos, conviveu com eles, sobretudo com José Afonso e Fernando Machado Soares, os quais, embora já fora de Coimbra, continuavam a manter uma ligação muito estreita com a vida académica e a influenciar os cantores estudantes dos anos
60, dos quais Adriano era companheiro: Barros Madeira, Lacerda e Megre, Sousa Pereira, Vítor Nunes, José Mesquita, José Miguel Baptista, António Bernardino e outros.
Sobre a Coimbra desses anos 60, escreve Manuel Alegre: «Vivia-se, então, quando ele [Adriano] chegou a Coimbra, um tempo de grande tensão histórica e de grande tensão interior, um tempo de impulso e de pulsão, de mudança e mutação. Algo mudara no nosso viver colectivo. Algo mudara dentro de cada um de nós. Era um tempo pejado de apelos e sinais, carregado de perigos e angústias, um tempo prenhe de coisas novas, por vezes indistintas e confusas, mas que buscavam o seu rosto e a sua forma. Ruíam tabus e mitos, levantavam-se barreiras, apertava-se a mordaça e reforçava-se a repressão, mas algo estava em marcha, algo que nenhuma censura e nenhuma polícia podiam travar: era uma nova consciência que despontava, uma energia que pulsava naquela geração sobre que se abatia, por um lado o endurecimento da ditadura salazarista, por outro o espectro cada vez mais próximo da guerra de África. Ao mesmo tempo chegavam a Coimbra ecos e notícias da luta libertadora de outros povos e também da tomada do paquete Santa Maria por Henrique Galvão, do ataque ao quartel de Beja, de manifestações e greves em Lisboa e Alentejo. E já por Coimbra tinha passado o vendaval da candidatura presidencial de Humberto Delgado, bem como a revolta da Academia contra o decreto 40.900 que visava a liquidação da tradicional autonomia das associações estudantis e, no caso particular de Coimbra, da Associação Académica. Tal como noutras épocas decisivas (recordo as gerações de Garrett e de Antero), o sopro do tempo, a corrente das ideias, o próprio fluir da História tinham chegado e provocavam um fervilhar de iniciativas, buscas, enfim, uma extrema tensão geradora duma nova mentalidade e duma nova maneira de ser. Foi nessa Coimbra que Adriano desembarcou. Trazia consigo uma grande generosidade e aquela dose de inocência que nunca haveria de perder. Não sei como, talvez por acaso, ou talvez não (não estará o Acaso, afinal, ma origem de tudo?), começou a aparecer por minha casa onde já se juntavam, entre outros, o António Portugal, o José Afonso, o Rui Pato. Descobrimos então o timbre inconfundível da voz de Adriano e também essa sua conhecida pretensão, que nunca perderia e haveria de provocar infindáveis discussões com o António Portugal, de cantar uma oitava acima de Edmundo de Bettencourt».
Com grande sensibilidade para a poesia e para a música popular, dotado de um timbre de voz único e de uma rara expressão em tudo o que interpretava, Adriano, em 1960 – um ano depois de chegar a Coimbra –, grava o seu primeiro disco, um EP com o título "Noite de Coimbra" para a editora Orfeu, de Arnaldo Trindade. O disco inclui quatro temas: "Fado da Mentira" (letra e música de António Menano), "Balada dos Sinos" (letra e música de Eduardo Melo), "Canta Coração" (letra de Eduardo Melo e música do próprio Adriano) e "Chula" (música de António Portugal). Os três primeiros temas tem acompanhamento de António Portugal e Eduardo Melo (guitarras), Durval Moreirinhas e Jorge Moutinho (violas), sendo o último um instrumental de António Portugal. Nos anos de 1961 e 1962 grava mais três EP com fados de Coimbra. Diz Paulo Sucena: «Foram os fados, na verdade, que ensinaram o jovem Adriano a colocar a voz, a respirar nos tempos certos, a atacar, a segurar ou a esvanecer as sílabas musicais, a valorizar fonológica e semanticamente os matizes das palavras, enfim, a dar aos receptores um canto limpo, verbal e musicalmente.»
Participando de corpo inteiro, e de alma e coração, na vida estudantil do início dos anos 60, e na contestação do regime político – que culminou com a greve de 1962 – Adriano cedo se apercebe que a canção era uma forma de intervenção política de grande eficácia. E foi assim que, em plena ditadura, teve a coragem de cantar textos que mais ninguém cantou e que – tal como os de José Afonso – contribuíram para corroer o regime salazarista/marcelista, o mesmo é dizer, para a criação das condições que levariam ao 25 de Abril de 1974. Em 1963, grava o EP "Trova do Vento Que Passa", que além do tema título inclui "Pensamento", "Capa Negra, Rosa Negra" e "Trova do Amor Lusíada" (poemas de Manuel Alegre e composições de António Portugal). António Portugal e Rui Pato são os acompanhantes à guitarra e à viola, respectivamente. A "Trova do Vento Que Passa" (Há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não) torna-se rapidamente um dos maiores hinos de resistência e de contestação ao regime ditatorial, a par de "Os Vampiros" de José Afonso, gravado no mesmo ano. Conta o próprio Manuel Alegre: «Por essa altura, andava eu a descobrir a poesia trovadoresca. Encantara-me precisamente o saber oficinal dos poetas-trovadores e a quase inigualável perfeição de algumas cantigas de amor e de amigo. Encantava-me a tal difícil simplicidade de algumas delas. Eram trovas e cantigas que tinham uma música lá dentro e quase se podiam assobiar. (...) E assim nasceram as Trovas. Nasceram por assim dizer quase naturalmente. Estavam na voz do Adriano, na guitarra do António Portugal, no ar novo que se respirava e vivia em Coimbra. Não mais a capa velhinha, feita mortalha para a sepultura. Havia que cantar a capa transformada em bandeira de luta e liberdade. Eram Trovas que os estudantes cantavam em coro. Trovas que já não eram apenas de Coimbra mas de todo o movimento estudantil português». A seguir, Adriano grava mais três EP: "Lira" (1964), "Menina dos Olhos Tristes" (1964) e "Elegia" (1967), marcados pelas duas vertentes que orientarão a sua obra: a canção popular portuguesa, por um lado, e a poesia criada pelos grandes poetas, por outro. Destes discos merecem destaque duas belas baladas em que se denuncia a guerra colonial: "Menina dos Olhos Tristes" (com poema de Reinaldo Ferreira - O soldadinho não volta / do outro lado do mar / O soldadinho já volta / está mesmo quase a chegar / Vem numa caixa de pinho / do outro lado do mar) e "Barcas Novas" (com poema de Fiama Hasse Pais Brandão - De Lisboa sobre o mar / Barcas novas são mandadas / Barcas novas levam guerra / Sobre o mar com suas armas).
Em 1964, Adriano viaja até Paris onde conhece Luís Cília, que permanecerá outra das suas grandes referências e que para ele compõe a música de três temas incluídos no LP "Margem Sul" (1967): "Canção Terceira" (com poema de Manuel Alegre), "Sou Barco" (com poema de Borges Coelho) e "Exílio" (com poema de Manuel Alegre). Deste belo álbum, que conta com as participações de António Portugal (guitarra) e Rui Pato (viola), merecem ainda destaque os temas "Rosa de Sangue" (com poema de António Ferreira Guedes e música de Adriano), "Margem Sul" (com poema de Urbano Tavares Rodrigues e música de Adriano), "Rosa dos Ventos Perdida", (com poema de António Ferreira Guedes e música de Adriano) e "Pedro Soldado" (com poema de Manuel Alegre e música de Adriano).
Sempre activo na vida académica, não tardará a trocar o desporto (sagrara-se campeão nacional de voleibol pela Académica) pelo crescimento envolvimento na luta política. A crise académica de 1969, porém já não o encontrará na cidade do Mondego. Quando lhe falta apenas uma cadeira para terminar o curso de Direito, em 1966, Adriano, já casado com Maria Matilde Leite (de quem terá dois filhos, Isabel e José Manuel), troca Coimbra por Lisboa, para onde pedira transferência de matrícula. Trabalha no gabinete de imprensa da FIL (Feira Internacional de Lisboa) e é produtor da editora onde sempre gravou, a Orfeu. Em 1967, é mobilizado para o serviço militar, sendo incorporado na Escola Prática de Infantaria de Mafra. Será depois transferido para Escola Prática de Cavalaria de Santarém e, por fim, para o Quartel da Ajuda, em Lisboa, de onde sai em 1970.
Em Julho de 1969, afirma à revista Flama: «O que eu pretendo fazer é, honestamente, tentar um caminho, que não seja o único, de renovar a música portuguesa, dando às pessoas algo mais que as "chachadas" alienatórias que por aí se cantam». E concretizando as suas palavras, nesse ano, Adriano tem a grande ousadia de gravar "O Canto e as Armas", um álbum quase integralmente dedicado à poesia de Manuel Alegre, que se encontrava exilado em Argel e quando o próprio Adriano cumpria o serviço militar. Todos os 13 temas do alinhamento foram compostos pelo próprio Adriano e têm acompanhamento à viola de Rui Pato. Baladas como "Raiz", "E a Carne se Fez Verbo", "Peregrinação", "Trova do Vento Que Passa n.º 2" e "As Mãos" rapidamente se tornam hinos de resistência ao Estado Novo. "O Canto e as Armas" é assim uma premonição do que viria a passar-se cinco anos depois na madrugada de 25 de Abril: o canto de Adriano e as armas de Salgueiro Maia, ambos com raízes na Escola Prática de Cavalaria de Santarém, seriam decisivos para a restauração da democracia e da liberdade em Portugal. Ainda em 1969, Adriano é distinguido com o Prémio Pozal Domingues.
Em 1970, grava o LP "Cantaremos", outro dos álbuns fundamentais da sua discografia, no qual inicia a colaboração com José Niza de resultarão alguns dos mais belos temas do seu repertório. Este disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantar de Emigração" (com poema da galega Rosalía de Castro e música de José Niza), "Fala do Homem Nascido" (com poema de António Gedeão e música de José Niza), "Lágrima de Preta" (com poema de António Gedeão e música de José Niza), "Canção com Lágrimas" (com poema de Manuel Alegre e música de Adriano) e "Como Hei-de Amar Serenamente" (com poema de Fernando Assis Pacheco e música de Adriano). Os instrumentistas foram Rui Pato (viola, viola baixo e viola de 12 cordas) e Tiago Velez (flauta, em "Cantar de Emigração" e "Lágrima de Preta"). Contou ainda com a colaboração de Carlos Alberto Moniz nos arranjos dos temas populares açorianos ("O Sol Perguntou à Lua" e "Sapateia") e de "Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência" (poema de Manuel Alegre e música de Adriano).
Em Outubro de 1971, edita o LP "Gente de Aqui e de Agora", sendo a totalidade das músicas da autoria de José Niza, que as compôs no norte de Angola, durante a Guerra Colonial, onde cumpria o serviço militar como alferes-médico. O álbum, gravado nos Estúdios Polysom, sob a supervisão técnica de Moreno Pinto, inclui um poema de Fernando Assis Pacheco na contracapa e 10 canções no alinhamento, entre as quais "Emigração" (com poema do galego Manuel Curro Enríquez), "E Alegre se Fez Triste" (com poema de Manuel Alegre), "O Senhor Morgado" (com poema de Conde de Monsaraz), "Cana Verde" (com poema de Fernando Miguel Bernardes), "A Vila de Alvito" (com poema de Raul de Carvalho), "Canção Tão Simples" (com poema de Manuel Alegre), "Roseira Brava" (com poema de António Ferreira Guedes) e "História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro" (com poema de António Aleixo). Este álbum representa ainda o início de uma nova fase na obra de Adriano, caracterizada por maiores exigências de natureza estético-musical, por um tratamento mais apurado dos acompanhamentos e arranjos e por uma pesquisa e escolha poética mais exaustiva e diversificada. É o próprio Adriano que, em entrevista a Vieira da Silva (Mundo da Canção, 1971), explicita: «Este disco é um passo enorme em frente. Em todos os aspectos: instrumentação, construção musical (que pertence a José Niza), vocalização (onde houve um trabalho muito mais cuidado do que anteriormente na técnica de cantar). Demorou mais tempo a realizar do que normalmente, porque valia a pena, porque eu sabia que estávamos a trabalhar no caminho certo e com segurança. Com segurança graças exactamente à direcção do José Niza que me podia apontar quando as coisas estavam certas ou não». Neste álbum, Adriano canta pela primeira vez com acompanhamento de orquestras, dirigidas por José Calvário (em "E Alegre se Fez Triste", o primeiro arranjo do maestro, então com vinte anos) e por Thilo Krassman (em "Cantiga de Amigo"), e por pequenos conjuntos instrumentais: viola (José Niza), piano e acordeão (Rui Ressurreição), baixo e harmónica (Thilo Krassman), bateria (José Eduardo L. Cardoso).
Até à queda da ditadura, Adriano não gravará mais discos porque se recusa a enviar os textos à Comissão de Censura. Nesse período saem alguns EP com temas dos álbuns anteriores e um LP intitulado "Fados de Coimbra" (1973) que reúne os fados dos três primeiros EP (editados em 1960 e 1961).
Em 1975, em pleno PREC, Adriano edita o LP "Que Nunca Mais", no qual musica e interpreta nove poemas de Manuel da Fonseca, corolário do trabalho que desenvolvera durante os últimos anos da ditadura. O álbum, gravado nos estúdios da Rádio Triunfo, por José Manuel Fortes, tem a direcção musical e arranjos de Fausto Bordalo Dias e conta com participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, percussão, kazu, coros), Júlio Pereira (guitarra solo, baixo, piano, órgão, bandolim, buzuki, cadeira, coros), Zau e Pantera (percussões), José Luís Simões (trombones de varas), Vitorino Salomé (acordeão) e Carlos Paredes (guitarra portuguesa). O alinhamento começa com "Tejo Que Levas as Águas", cuja letra (vide abaixo), passadas mais de três décadas sobre a Revolução dos Cravos, readquiriu uma surpreendente e preocupante actualidade. O álbum vale a Adriano Correia de Oliveira o Prémio de Melhor Artista do Ano atribuído pela revista britânica "Music Week".
A partir de 1975, Adriano não pára de cantar, quer em Portugal, quer no estrangeiro o que, naturalmente, lhe retira tempo para preparar novas gravações. Quer antes, quer depois do 25 de Abril, pode dizer-se que não existe sítio em Portugal onde Adriano não tenha cantado, a maioria das vezes sem as mínimas condições logísticas e técnicas e sem qualquer compensação monetária. E, por isso, morreu pobre, conta José Niza. Gravará apenas mais dois discos: em 1978, um single intitulado "Notícias d’Abril", com duas composições suas sobre poemas de Alfredo Vieira de Sousa ("Se Vossa Excelência... " e "Em Trás-os-Montes à Tarde"); e em 1980, um álbum de título genérico "Cantigas Portuguesas", em que Adriano retoma e aprofunda a exploração do nosso riquíssimo cancioneiro tradicional que havia iniciado nos anos 60. Os arranjos e a direcção musical são mais uma vez de Fausto Bordalo Dias e entre os instrumentistas contam-se o próprio Fausto e Pedro Caldeira Cabral.
Fiel ao espírito de grupo que sempre o animou, Adriano Correia de Oliveira é, em 1979, um dos fundadores da CantarAbril, cooperativa de músicos ligada ao Partido Comunista Português. Decorridos dois anos, será alvo de um processo pouco digno para a direcção da cooperativa que, pura e simplesmente, decide expulsá-lo. Motivo invocado: uma alegada dívida de 40 contos e a «inadaptação de Adriano à perspectiva mercantilista de mercado». Alguns dos seus colegas de ofício como Luís Cília, Fausto e José Afonso solidarizam-se com ele. A saúde do cantor já está consideravelmente degradada devido ao consumo imoderado de álcool. As suas actuações no último ano de vida, nomeadamente num concerto de apoio aos jornalistas da ANOP, ameaçados de desemprego, são fortemente afectadas por esse problema. A cooperativa ia endossando os convites dirigidos a Adriano para outros cantores da casa. Na altura em que mais precisava de apoio e de ajuda, Adriano vê-se abandonado e atraiçoado por muitos dos seus antigos companheiros de luta. Dois anos mais tarde, numa sessão assinalando o primeiro ano sobre a morte de Adriano Correia de Oliveira, na presença de vários membros da Cantarabril, o jornalista Júlio Pinto, também ex-militante do PCP, acusa de assassinos os que o expulsaram da cooperativa. Adriano seria depois recebido na cooperativa Era Nova, ligada a cantores próximos da extrema-esquerda, como Fausto e José Mário Branco. Mas já de pouco lhe serviu. Morre a 16 de Outubro de 1982, em Avintes, nos braços da mãe, vítima de uma hemorragia no esófago. Tinha 40 anos de idade e deixa vários projectos por realizar, designadamente uma regravação dos seus temas mais antigos.
No ano seguinte, a Orfeu lança um LP duplo contendo 22 temas intitulada "Memória de Adriano" (reeditado em CD pela Movieplay, em 1992). Em 1994, a Movieplay publica a sua "Obra Completa", numa caixa com 7 CDs (organizados tematicamente por José Niza) acompanhados de um livrinho com textos de Manuel Alegre, Paulo Sucena e José Niza. Ainda em 1994, a mesma editora lança uma compilação de 18 temas do cantor, na série "O Melhor dos Melhores". Posteriormente, alguns dos álbuns originais como "O Canto e as armas", "Cantaremos", "Gente de Aqui e de Agora" e "Que Nunca Mais" são também editados em CD.
«A voz do Adriano era uma voz alegre e triste. Solidária e solitária, havia nela ternura e mágoa, esperança e desesperança, amparo e desamparo, festa e luta. E também saudade e fraternidade. Nenhuma outra voz portuguesa, com excepção das de Amália Rodrigues e José Afonso, está tão carregada desse não sei quê antigo que trazemos no sangue, como o apelo do mar e o amor da terra, como a toada e o tom do nosso próprio ser, do seu ritmo secreto, da sua música primordial. Voz de Fado e de destino, herança talvez do mouro e do celta que nos habitam, a voz de Adriano tinha também o masculino apelo do rebate e do combate. Era uma voz que precisava de poesia e de que a poesia precisava», escreve Manuel Alegre. E acrescenta: «Sem a voz de Adriano, muitos dos poemas que os poetas escreveram não teriam chegado onde chegaram. Foi pela sua voz que eles chegaram ao povo e ao país inteiro, a tal ponto que alguns desses poemas deixaram de ter autor para passarem a fazer parte da nossa memória comum e do nosso canto colectivo».
Contudo, os media portuguesas, sobretudo a rádio, muito pouco têm feito em prol da memória de Adriano Correia de Oliveira. Apesar de estar totalmente publicada em CD, a sua riquíssima obra tem sido alvo de um silenciamento, a todos os títulos criminoso, principalmente por estar a ser negada aos mais jovens a oportunidade de tomarem conhecimento do legado de um dos compositores / intérpretes superlativos da música portuguesa de sempre. Em Maio de 2006, lavrei o meu protesto pelo que se estava a passar na rádio pública, designadamente na Antena 1 mas, infelizmente, e apesar de ter enviado uma cópia do texto aos altos responsáveis da estação pública, constato com mágoa e revolta que o grande cantor continua arredado dos alinhamentos de continuidade ("playlists"). Espero que no ano em que se comemoram os 65 anos do seu nascimento e se assinalam os 25 anos da morte, a direcção da RDP encabeçada por Rui Pêgo tenha a lucidez e a sapiência de corrigir a vergonhosa situação, mais própria de um país obscurantista e culturalmente atrasado. Foi também a pensar nisso que tomei a iniciativa de elaborar este texto.
Discografia:
- Noite de Coimbra (EP, Orfeu, 1960)
- Balada do Estudante (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1961)
- Fados de Coimbra (EP, Orfeu, 1962)
- Trova do Vento Que Passa (EP, Orfeu, 1963)
- Lira (EP, Orfeu, 1964)
- Menina dos Olhos Tristes (EP, Orfeu, 1964)
- Elegia (EP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (LP, Orfeu, 1967)
- Margem Sul (LP, Orfeu, 1967)
- Adriano Correia de Oliveira (EP, Orfeu, 1968)
- Rosa de Sangue (EP, Orfeu, 1968)
- O Canto e as Armas (LP, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1997)
- Cantaremos (LP, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1999)
- Trova do Vento Que Passa nº. 2 (EP, Orfeu, 1971)
- Cantar de Emigração (EP, Orfeu, 1971)
- Gente de Aqui e de Agora (LP, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1999)
- Batalha de Alcácer Quibir (EP, Orfeu, 1972)
- Lágrima de Preta (EP, Orfeu, 1972)
- O Senhor Morgado (EP, Orfeu, 1973)
- Fados de Coimbra (LP, Orfeu, 1973)
- A Vila de Alvito (EP, Orfeu, 1974)
- Que Nunca Mais (LP, Orfeu, 1975; CD, Movieplay, 1997)
- Para Rosalía (EP, Orfeu, 1976)
- Notícias d’Abril (Single, Orfeu, 1978)
- Cantigas Portuguesas (LP, Orfeu, 1980)
- Memória de Adriano (2LP, Orfeu, 1983; CD, Movieplay, 1992)
- Adriano Correia de Oliveira: O Melhor dos Melhores, vol. 40 (CD, Movieplay, 1994)
- Obra Completa (7CD, Movieplay, 1994)
1. Fados e Baladas de Coimbra
2. Cantigas Portuguesas
3. Trova do Vento Que Passa: Adriano Canta Manuel Alegre (I)
4. O Canto e as Armas: Adriano Canta Manuel Alegre (II)
5. Gente de Aqui e de Agora e Outras Canções: Adriano Canta José Niza
6. Que Nunca Mais: Adriano Canta Manuel da Fonseca
7. A Noite dos Poetas
- Adriano Correia de Oliveira: Clássicos da Renascença, vol. 28 (CD, Movieplay, 2000)
- Vinte Anos de Canções (CD, Movieplay, 2001)
Fontes:
- Literatura inclusa na discografia de Adriano Correia de Oliveira
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
- Página http://adriano.esenviseu.net/index.asp
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Batalha de Alcácer Quibir
- As Balas
- As Mãos
- Balada do Estudante
- Barcas Novas
- Cana Verde
- Canção da Beira Baixa
- Canção com Lágrimas
- Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência
- Canção Tão Simples
- Canção Terceira
- Cantar de Emigração
- Cantar Para Um Pastor
- Charama
- Deus te Salve, Rosa
- E o Bosque se Fez Barco
- Emigração
- Exílio
- Fala do Homem Nascido
- História do Quadrilheiro Manuel Domingos Louzeiro
- Lágrima de Preta
- Margem Sul
- Menina dos Olhos Tristes
- No Vale Escuro
- Pedro Soldado
- Pensamento - Peregrinação
- Pescador do Rio Triste
- Raiz
- Regresso
- Rosa dos Ventos Perdida
- Roseira Brava
- Rosinha
- Sapateia
- Sou Barco
- Tejo Que Levas as Águas
- Trova do Amor Lusíada
- Trova do Vento Que Passa
- Trova do Vento Que Passa n.º 2
- Tu e Eu Meu Amor
- Vira Velho
(todos os temas in "Obra Completa")
Tejo Que Levas as Águas
Poema: Manuel da Fonseca
Música e voz: Adriano Correia de Oliveira
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava-a de crimes espantos
de roubos, fomes, terrores,
lava a cidade de quantos
do ódio fingem amores
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Lava bancos e empresas
dos comedores de dinheiro
que dos salários de tristeza
arrecadam lucro inteiro
Lava palácios, vivendas
casebres, bairros da lata
leva negócios e rendas
que a uns farta e a outros mata
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
Lava avenidas de vícios
vielas de amores venais
lava albergues e hospícios
cadeias e hospitais
Afoga empenhos favores
vãs glórias, ocas palmas
leva o poder de uns senhores
que compram corpos e almas
Leva nas águas as grades
de aço e silêncio forjadas
deixa soltar-se a verdade
das bocas amordaçadas
Das camas de amor comprado
desata abraços de lodo
rostos, corpos destroçados
lava-os com sal e iodo
Tejo que levas as águas
correndo de par em par
lava a cidade de mágoas
leva as mágoas para o mar
O programa da RTP-1 "Grande Entrevista", da autoria de Judite de Sousa, geralmente emitido às quintas-feiras, logo após o Telejornal, é tido com um espaço sério e de referência na televisão pública. As figuras da política são a presença mais assídua, mas também têm sido contempladas – e muito bem – outras áreas da vida nacional, designadamente da economia, da ciência e da cultura. Manuel Sobrinho Simões, José Saramago e António Lobo Antunes contam-se as personalidades que já passaram pelo programa. Com figuras deste quilate, seria difícil de imaginar que no rol de entrevistados viesse a constar um tal Tony Carreira, um dos representantes da música ‘pimba’. O que é que terá levado a jornalista Judite de Sousa a convidar Tony Carreira? Não acredito que tenha sido por falta de gente digna de ser entrevistada e com interesse para os telespectadores, porque em Portugal (e não apenas em Lisboa e Porto) há muitas pessoas de mérito que teriam todo o cabimento no espaço de Judite de Sousa. Então como se explica a presença de um cantor ‘pimba’ num espaço com a dignidade da "Grande Entrevista"? Terá sido a popularidade do referido cantor junto de uma parte do público português? Se foi efectivamente esse o motivo, cumpre-me contestar a validade do critério e, ainda mais, num canal de serviço público. Isto porque a suposta popularidade ou visibilidade pública de uma determinada figura (e sem mais) jamais poderá ser aceite como um critério jornalístico suficientemente válido. Apesar de popular, será a música de Tony Carreira assim tão significativa para a cultura portuguesa que justifique uma entrevista de grande fôlego no serviço público de televisão, e ainda por cima num espaço da área da informação? Num programa de entretenimento, e embora não seja apreciador do género ‘pimba’, ainda estaria disposto a compreender a presença de Tony Carreira (ou de outros da mesma área musical). Nunca num espaço com o cariz da "Grande Entrevista", em que se que se esperaria que houvesse uma atitude mais rigorosa na ponderação do que possui um real e indiscutível valor informativo. E já agora, por que razão a jornalista Judite de Sousa (ou a direcção de informação) não convida também outros compositores/intérpretes como Luiz Goes, Fausto Bordalo Dias, Amélia Muge, Pedro Barroso ou Janita Salomé? Serão estes nomes menos importantes para o património musical português que o de Tony Carreira? Algo vai mal no serviço público de televisão!
É de murta e de mar a tua voz
Com algas de canção estrangulada.
Aberta a concha da trova malsofrida
Saíste como sai a madrugada
Da noite, virginal e humedecida.
É de vinho e de pinho a tua voz
Com pranto de insofríveis flores banidas.
Mas é pela tua garganta que soltamos
As eriçadas aves proibidas
Que no muro do medo desenhamos.
(Natália Correia – voz de Afonso Dias)
José Afonso, de nome completo José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, nasceu em Aveiro, a 2 de Agosto de 1929, filho de José Nepomuceno Afonso dos Santos, magistrado, e de Maria das Dores Dantas Cerqueira, professora primária. Em 1930 os pais vão para Novo Redondo (actual Sumbe), Angola, onde o pai havia sido colocado como Delegado do Ministério Público. Por razões de saúde, José Afonso permanece em Aveiro, na casa do Largo das Cinco Bicas, confiado à tia Gigé e ao tio Chico, um "republicano anticlerical e anti-sidonista". Por insistência da mãe, em 1932, e já com três anos e meio de idade, segue para Angola, no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado que ia em lua-de-mel, e que o deixa ao abandono vindo a agarrar-se a um sacerdote, a única pessoa que lhe presta atenção. Permanece três anos na antiga colónia portuguesa, e aí inicia a instrução primária. José Afonso diz que esta permanência em África deixou uma marca profunda na sua vida: «a África era uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim, contactos com fenómenos da natureza extremamente prepotentes como eram as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças, etc., etc. (...) A África como entidade física é uma coisa que pesou muito na minha vida e nas minhas recordações». Em 1936 regressa a Aveiro, passando a viver na casa de uma tia materna. No ano seguinte, com 8 anos de idade, vai de novo ao encontro dos pais e dos irmãos, agora em Moçambique, mais concretamente na cidade de Lourenço Marques (actual Maputo). Os irmãos serão uma presença forte na vida de José Afonso: João, mais velho, é uma figura próxima da estrutura do clã, que o apoiará em ocasiões difíceis um pouco ao longo de toda a sua vida; Mariazinha, mais nova, concitará os seus afectos, bem patentes nas cartas que lhe escreve. Regressa a Portugal, passados dois anos, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. É nesta vila da Beira Baixa que Zeca conclui a quarta classe e prepara o exame de admissão ao liceu. O tio, salazarista convicto e comandante da Legião Portuguesa, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa. «Foi o ano mais desgraçado da minha vida», confessaria Zeca mais tarde. Não obstante, é neste período que José Afonso toma contacto com as canções tradicionais que virão a ter uma grande importância na sua obra.Em 1940, com 11 anos de idade, vai para Coimbra para prosseguir os estudos ficando instalado em casa da tia Avrilete. É matriculado no Liceu D. João III (hoje Escola Secundária José Falcão) e aí conhece António Portugal e Luiz Goes, ambos mais novos do que ele. A família deixa Moçambique e parte para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. A irmã Mariazinha vai com os pais, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, no âmbito da Segunda Guerra Mundial, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da guerra, em 1945.Nesse mesmo ano (andava no 6.º ano do liceu) começa a cantar serenatas, o que lhe dá não só estatuto mas também privilégios praxistas. José Afonso, a quem chamavam "bicho-cantor" ("bicho" era a designação praxística para os estudantes liceais), gozava, por exemplo, do privilégio de não ser "rapado" pelas trupes que, depois do pôr-do-sol, saíam para as ruas da cidade à procura de "bichos" e caloiros. Em acumulação, Zeca beneficiava também desse tratamento especial, por jogar futebol nos juniores da Académica. O cantor recorda essa fase da sua vida: «As minhas primeiras veleidades de cantor surgiram quando andava no 6º ano do liceu. As noites passava-as em deambulações secretas pela cidade, acompanhado de meia-dúzia de meliantes da minha idade, amantes inconsequentes da noite. Com uma guitarra e uma viola fazíamos a festa. Estávamos ainda longe do hieratismo triunfal das serenatas na Sé Velha diante de multidões atentas e respeitosas.» (Autobiografia, 1967)
Em 1948, após dois chumbos, completa o curso dos liceus. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais, e para grande escândalo das tias. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Em 1949 inscreve-se no curso de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras. Viaja até Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra. Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e trabalha como revisor no Diário de Coimbra. A condição de estudante e de trabalhador fá-lo tomar consciência dos problemas sociais que o marcariam de forma decisiva: «Havia uma sociedade de indivíduos que viviam na Alta ou na Baixa economicamente depauperados: barbeiros, merceeiros, profissões dependentes do estudante. Recordo-me que as criadas viviam num estado de fome permanente nas férias grandes e começavam a comer quando os estudantes regressavam. (...) Lembro-me do estatuto de estudante que era, apesar de tudo, compatível com uma certa compreensão humana da situação dessa gente. Esta visão sentimental do que eram as desigualdades sociais motivou uma certa transformação em mim. A visão poético-estudantil em que eu me considerava um herói de capa e batina, um cavaleiro andante, desapareceu ou foi desaparecendo com o tempo e à medida que fui vivendo numa situação económica extremamente difícil com os meus dois filhos no Beco da Carqueja». Em 1953 são editados os seus primeiros trabalhos discográficos – dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, com chancela da Alvorada, gravados na delegação regional de Coimbra da Emissora Nacional, no ano anterior. Cada disco inclui dois fados, sendo "Fado das Águias", com letra e música de José Afonso, a sua primeira composição gravada.Também em 1953, é mobilizado para o serviço militar obrigatório sendo colocado em Mafra. E desde logo o jovem José Afonso revela a sua postura antimilitarista, em carta dirigida ao pai: «A espingarda que me foi confiada e que tenho de tratar como se tratam os cavalos de corrida é, para mim, um mistério intrincado, com culatra, cursores, percutores, cavilhas de segurança e o diabo a sete. E isto que tanto repugna à minha natureza pacífica e contemplativa!» Depois da recruta recebe guia de marcha para Macau, mas não chega a ser mobilizado por motivos de saúde, vindo a ser colocado num quartel de Coimbra. Da sua vida militar, recordará: «Eu fui o menos classificado de todo o curso por falta de aprumo militar». No ano lectivo 1955/56, e para assegurar o sustento da família, e embora não tendo ainda concluído o curso, começa a dar aulas num colégio privado em Mangualde. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (formalizado a 1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.Em 1956 é editado, pela Alvorada, o seu primeiro EP intitulado "Fados de Coimbra", em que tem como acompanhadores António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas). José Afonso canta "Incerteza" (Tavares de Melo), "Mar Largo" (Paulo de Sá), "Aquela Moça da Aldeia" (António Menano) e "Balada" (Popular açoriana/José Afonso).
Em 1956/57 é professor em Aljustrel, seguindo-se nos anos subsequentes Lagos, Faro, Alcobaça e de novo Faro. José Afonso fala assim da sua experiência enquanto docente: «A minha acção como professor era mais de carácter existencial, na medida em que queria pôr os alunos a funcionar como pessoas, incutir-lhes um espírito crítico, fazer com que exercitassem a sua imaginação à margem dos programas oficiais». Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos (José Manuel e Helena) para Moçambique, para junto dos avós. Nesse ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Durante um mês integra a digressão da Tuna Académica em Angola, mas não canta apenas fados de Coimbra. «O Zeca era um dos vocalistas do Conjunto Ligeiro da Tuna e cantava canções como "Adeus Mouraria", o seu maior sucesso, acompanhado ao piano, baixo, bateria, acordeão e guitarra eléctrica. Actuávamos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de mambos de Perez Prado, o máximo da altura. Acabada esta cena de 'show-biz', vestíamos rapidamente a capa e batina e íamos para a serenata, mutantes do sol para a lua» conta José Niza. Na viagem de regresso, no Paquete Pátria, convive com a poetisa Natália Correia, que mais tarde lhe dedicará um poema (transcrito em epígrafe). «Sob o luar quente dos trópicos, íamos à noite para a ré do navio, com violas, vinho e poesia: o Zeca cantava; e a Natália – cabelos ao vento, deusa grega, nessa altura e sem exagero, uma das mulheres mais belas do planeta – dizia poemas», recorda José Niza.Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares. Em 1960, e depois de quatro anos sem gravar, lança o EP "Balada do Outono", com chancela da Rapsódia, tendo sido acompanhado pelas guitarras de António Portugal e Eduardo Melo e as violas de Manuel Pepe e Paulo Alão. Além da balada que dá título ao disco, com letra e música de José Afonso, o EP inclui os temas populares "Vira de Coimbra" e "Amor de Estudante" e ainda um instrumental, "Morena".
O disco inaugura o movimento da balada coimbrã e é um marco na História da música portuguesa. A propósito da "Balada do Outono" (Águas das fontes calai / Ó ribeiras chorai / Que eu não volto a cantar) escreve Manuel Alegre: «A canção de Coimbra não voltaria a ser a mesma, a música ligeira portuguesa também não. Aquela balada era nova e ao mesmo tempo muito antiga. Tudo estava nela: a tradição trovadoresca, os cantares de amigo, os romances populares. E também o espírito de um tempo de mudança». Faz nova digressão a Angola, com o Orfeão Académico, durante a qual toma verdadeira consciência da realidade colonial. José Niza recorda: «Fomos encontrar uma Angola diferente. Tinha-se dado a independência do Congo Belga e todo o território estava cheio de retornados belgas. A PIDE tinha-se instalado em Luanda e noutras cidades. E sentiam-se no ar, nas entrelinhas das conversas, nos olhares, os sinais de que alguma coisa iria acontecer». No ano seguinte rebentava a Guerra Colonial.José Afonso segue atentamente a crise estudantil de 1962. Em Faro convive com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Manuel Pité, e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher e com quem terá mais dois filhos, Joana e Pedro. É José Afonso quem nos diz: «O conhecimento da Zélia, num lugar do Algarve, reconciliou-me com a água fresca e com os tons maiores. Passei a fazer canções maiores». Para o álbum colectivo "Coimbra Orfeon of Portugal", editado pela Monitor (dos Estados Unidos), José Afonso grava dois temas – "Minha Mãe" e "Balada Aleixo" – em que rompe definitivamente com o acompanhamento das guitarras. Nestas duas baladas é acompanhado exclusivamente à viola por José Niza e Durval Moreirinhas.
Realiza digressões pela Suíça, Alemanha e Suécia, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo. Em 1963, conclui a licenciatura na Faculdade de Letras de Coimbra com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: "Implicações Substancialistas na Filosofia Sartriana". Em 1962 e 1963 são editados dois EP intitulados "Baladas de Coimbra", com Rui Pato à viola, dos quais fazem parte as belíssimas "Menino d'Oiro", "No Lago do Breu", "Canção do Vai... e Vem" e "Menino do Bairro Negro", esta última inspirada nos meios sociais miseráveis do Bairro do Barredo, no Porto. A balada "Os Vampiros", incluída no EP de 1963, tornar-se-á, juntamente com a "Trova do Vento que Passa" (gravada no mesmo ano por Adriano Correia de Oliveira), um dos símbolos maiores da resistência antifascista até ao advento da liberdade. Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção "Grândola, Vila Morena", que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a segunda senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o arranque da operação militar que derrubaria o regime ditatorial. É editado o EP "Cantares de José Afonso", o único para a Valentim de Carvalho, que inclui "Coro dos Caídos", "Canção do Mar", "Maria" (dedicada a Zélia) e "Ó Vila de Olhão", sempre com Rui Pato à viola. A acutilância da letra de "Ó Vila de Olhão" faz com que o disco seja proibido pela Censura. Na reedição desse EP, a faixa em causa é substituída por uma versão instrumental executada pelo Conjunto de Guitarras de Jorge Fontes. As três primeiras baladas viriam a ser também incluídas numa compilação colectiva com Carlos Paredes e Luiz Goes (editada em 1973 e reeditada em CD pela EMI-VC, em 1992). A Discoteca Santo António, através da etiqueta Ofir, publica o LP "Baladas e Canções", gravado nos Estúdios da RTP em Vila Nova de Gaia (reeditado em CD pela EMI-VC em 1997). É o primeiro álbum a sério de José Afonso, com 12 temas, entre os quais "Canção Longe", "Os Bravos", "Balada Aleixo", "Balada do Outono" (em versão instrumental), "Na Fonte Está Lianor" (com poema de Luís de Camões), "Minha Mãe", "Altos Castelos", "O Pastor de Bensafrim" e "A Ronda dos Paisanos". No final do Verão de 1964, muda-se com Zélia para Lourenço Marques, onde reencontra os seus filhos e os pais. Durante dois anos dá aulas na cidade da Beira. Em Moçambique desenvolve intensa actividade anticolonialista e relaciona-se, entre outros, com os pintores Malangatana e António Quadros (poeta João Pedro Grabato Dias), vindo este a contribuir com algumas letras para o repertório do cantor. Aí compõe a música para a peça de Bertolt Brecht "A Excepção e a Regra", traduzida e encenada por Luiz Francisco Rebello, cujas canções virá posteriormente a gravar. Em 1966, é publicado pela Nova Realidade, de Tomar, o livro "José Afonso: Cantares", organizado por Manuel Simões, reunindo as letras das baladas de José Afonso, com notas do próprio autor sobre a génese de cada uma delas. Em 1967, esgotado pelo sistema colonial, regressa a Lisboa, deixando o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós. José Afonso recorda assim a sua última fase africana: «Se houve alguma coisa em África que me marcou definitivamente foi a realidade colonial. Quando eu parti ia preparado para enfrentá-la: sabia quais os seus contornos e o papel que me cabia como professor, quais os alunos que ia ensinar. Sabia também que ia ser um veículo de transmissão ideológica de uma classe dominante. [...] Fiquei terrivelmente ligado àquela realidade física que é a África, aquilo tem de facto qualquer coisa de estranho, uma força muito grande que nos seduz. O meu baptismo político começa em África. Estava a dois passos do oprimido». É colocado como professor em Setúbal, e a par das funções lectivas começa a aceitar convites para cantar em colectividades da Margem Sul. Fica sob a mira da PIDE que o passa a chamar com relativa assiduidade para prestar declarações no posto de Setúbal. Entretanto, sofre uma grave depressão que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, recebe a notícia de que tinha sido demitido do ensino oficial. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. «Nunca fui um indivíduo com certezas dogmáticas acerca de grupos ou partidos preferenciais. Comecei por me relacionar, sobretudo na Margem Sul, a associações de estudantes fortemente politizadas, por um lado, e a determinadas organizações políticas, como por exemplo os Católicos Progressistas, por outro. Achava que todos aqueles grupos eram necessários para formar um movimento que conduzisse ao derrube do poder. Qual seria depois o partido ou organização que surgiria após o derrube do poder, não sabia.» Mais uma vez confrontado com necessidades de subsistência, é obrigado a dar explicações e a encarar mais seriamente a carreira musical, designadamente através da gravação de discos. Cientes da situação, Rui Pato e António Portugal contactam várias editoras, incluindo aquelas para as quais Zeca já gravara antes, mas todas lhes fecham as portas, com medo da PIDE. Então, em desespero de causa, vão ao Porto falar com Arnaldo Trindade, da etiqueta Orfeu, para a qual Adriano Correia de Oliveira, já gravava há anos. A proposta era nem mais nem menos que a gravação de "Cantares do Andarilho". Arnaldo Trindade aceita a ideia, assume os riscos e propõe um contrato sui generis: José Afonso comprometia-se a gravar um álbum por ano e em troca passaria a receber, mensalmente, 15 mil escudos (uma quantia nada desprezível, na altura). E foi através deste vínculo à Orfeu, para a qual gravou mais de 70 por cento da sua obra, que Zeca alcançou a estabilidade económica que nunca tivera, e de que tanto precisava em face dos seus encargos familiares. No Natal de 1968, é lançado o sugestivamente intitulado "Cantares do Andarilho", com Rui Pato à viola, sem dúvida alguma, um dos melhores álbuns da sua discografia. Deste disco fazem parte, entre outros, temas como "Natal dos Simples", "Balada do Sino", "Canção de Embalar", "Endechas a Bárbara Escrava (com poema de Luís de Camões), "Chamaram-me Cigano" e "Vejam Bem". Em 1969, a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Em 1969, participa no 1.º Encontro da "Chanson Portugaise de Combat", em Paris. Publica o álbum "Contos Velhos, Rumos Novos" e o single "Menina dos Olhos Tristes" que contém a canção popular "Canta Camarada". Em "Contos Velhos, Rumos Novos", e fazendo jus ao título, José Afonso continua e aprofunda a exploração do repertório da tradição popular ("Oh! Que Calma Vai Caindo", "S. Macaio", "Deus Te Salve, Rosa", "Lá Vai Jeremias"), ao mesmo tempo que põe em música uma plêiade de escritores eruditos: Airas Nunes ("Bailia"), Fernando Miguel Bernardes ("Qualquer Dia"), Lope de Vega ("No Vale de Fuenteovejuna"), Luís Andrade Pignatelli ("Era de Noite e Levaram") e Ary dos Santos ("A Cidade"). Além de Rui Pato (viola, marimbas, harmónica), o álbum tem as participações de Sousa Colaço (2.ª viola), José Fortunato (cavaquinho), Adácio Pestana (trompa) e Teresa Paula Brito (voz). Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra. O cantor recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971.Em 1970 é editado o LP "Traz Outro Amigo Também", gravado em Londres, nos estúdios da Pye Records, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar, por causa do seu envolvimento na crise académica de 1969. Será substituído por Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi. No acompanhamento, participa também Filipe Colaço, na 2.ª viola. Além do tema-título, o alinhamento inclui temas como "Maria Faia", "Canto Moço", "Epígrafe para a Arte de Furtar" (com poema de Jorge de Sena), "Moda do Entrudo", "Canção do Desterro" e "Verdes São os Campos" (com poema de Luís de Camões). Num texto apenso ao álbum, o dramaturgo Bernardo Santareno escreve: «A arte de José Afonso é um jorro de água clara, puríssima, portuguesa sem mácula. Realmente é a "pureza" a nota maior desta arte: pureza de voz, pureza de poema, pureza de música. Neste disco, um dos mais ricos quanto a valores poéticos, é ela que domina: trova antiga purificada, folclore limpo de excrescências, balada de combate em que a justiça vai de bandeira. [...] Ele [José Afonso] é hoje o mais autêntico trovador do povo português, nesta hora que todos vivemos. Ninguém melhor que ele transmite os seus desesperos e raivas, as suas aspirações de amor, de paz, de justiça, de verdade.»
Na capital britânica, José Afonso conhece os brasileiros Gilberto Gil e Caetano Veloso, que aí se encontravam exilados por motivos políticos. Em Março de 1970, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso, por unanimidade, o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular. No Natal de 1971, é lançado o LP "Cantigas do Maio", gravado em Herouville (perto de Paris), no Strawberry Studio, um dos mais caros e afamados da Europa. Com arranjos e direcção musical de José Mário Branco, o álbum conta com a participação de Carlos Correia (Bóris) (viola, coros e passos), Michel Delaporte (darbuka, bongo berbere, tumbas, tamborim brasileiro e adufe), Christian Padovan (baixo eléctrico), Tony Branis (trompete), Jacques Granier (flauta), Francisco Fanhais (coros, passos, apitos de fole e guimbarda (tipo de berimbau)) e José Mário Branco (coros, passos, acordeão, órgão Hammond, piano Ferder). Além de "Grândola, Vila Morena", o disco inclui temas tão emblemáticos como "Cantigas do Maio", "Cantar Alentejano" (em homenagem a Catarina Eufémia, assassinada pela GNR), "Maio, Maduro Maio" e "Mulher da Erva". É geralmente considerado o melhor álbum de José Afonso e representa o momento de viragem para formas de acompanhamento instrumental mais enriquecidas e elaboradas. A editora Nova Realidade publica o livro "Cantar de Novo". No final de 1972, sai o LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, sob a direcção musical de José Niza e com a participação de Carlos Alberto Moniz, Maria do Amparo, José Jorge Letria, Teresa Silva Carvalho, Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e do grupo Aguaviva, de Manolo Diaz. Deste álbum fazem parte, entre outros, os temas "A Morte Saiu à Rua" (em homenagem ao escultor e pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE numa rua de Alcântara), "Ó Minha Amora Madura", "No Comboio Descendente" (com poema de Fernando Pessoa) e o belíssimo "Fui à Beira do Mar" (vide letra abaixo). Em 1973, José Afonso continua a sua "peregrinação", cantando um pouco por todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema "Era Um Redondo Vocábulo", um dos temas mais belos do álbum seguinte, "Venham Mais Cinco". Gravado em Paris, no Studio Aquarium, em Outubro de 1973, o disco é constituído integralmente por temas da autoria de José Afonso (letra e música) e conta de novo com arranjos e direcção musical de José Mário Branco e na participação musical figuram o próprio José Mário Branco (fole do João, percussões, piano, voz do alto, coros, pandeireta, órgão Hammond, piano Pipper, efeitos de sopro), Yório Gonçalves (viola) e ainda uma miríade de músicos estrangeiros, sendo de destacar Michel Delaporte nas percussões. O tema-título tem a participação vocal de Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza. Além do conhecido tema que dá nome ao álbum, merecem destaque três outros temas, autênticas pérolas do repertório de José Afonso: o citado "Era Um Redondo Vocábulo", "Adeus ó Serra da Lapa" e "Que Amor Não me Engana".
A 29 de Março de 1974, o Coliseu de Lisboa enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com "Grândola, Vila Morena". Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem "Grândola" para senha do golpe militar que está em congeminação e que se concretizará, daí a menos de um mês, na madrugada de 25 de Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações dos temas "Venham Mais Cinco", "Menina dos Olhos Tristes", "A Morte Saiu à Rua" e "Gastão Era Perfeito". Curiosamente, a "Grândola, Vila Morena" era autorizada.
No final de 1974, é editado o álbum "Coro dos Tribunais", gravado em Londres, novamente na Pye Records, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto Bordalo Dias e com a participação musical do próprio Fausto (guitarra acústica, coros) e ainda de Michel Delaporte (percussões), Vitorino (teclados, 2.ª voz solo, coros), Carlos Alberto Moniz (2.ª viola, coros), Yório Gonçalves (2.ª viola), Adriano Correia de Oliveira (coros) e José Niza (coros). São incluídas no disco duas canções brechtianas (da peça "A Excepção e a Regra") que José Afonso musicou em Moçambique no período entre 1964 e 1967: "Coro dos Tribunais" e "Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)".
Em 1974/75, Zeca Afonso envolve-se directamente nos movimentos populares e no PREC (Processo Revolucionário Em Curso), mas faz questão de não se filiar em qualquer dos sectarismos partidários existentes. Canta no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados e estabelece uma colaboração estreita com a LUAR (Liga de Unidade e Acção Revolucionária), através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single "Viva o Poder Popular", com "Foi na Cidade do Sado" no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum "República", gravado em Roma nos dias 30 de Setembro e 1 de Outubro de 1975, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal "República" ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, este álbum inclui "Para Não Dizer Que Não Falei de Flores" (versão de Francisco Fanhais da célebre canção de Geraldo Vandré), "Se os Teus Olhos se Vendessem", "Foi no Sábado Passado", "Canta Camarada", "Eu Hei-de Ir Colher Macela", "O Pão Que Sobra à Riqueza", "Os Vampiros", "Senhora do Almortão", "Letra para Um Hino" e "Ladainha do Arcebispo". Além de Francisco Fanhais, este disco teve o contributo de diversos músicos italianos. Em 1976, Zeca apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, estratega do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Ainda em 1976, grava o álbum "Com as Minhas Tamanquinhas", sendo as letras e as composições todas da sua autoria. Conta com a colaboração de Cecília Barreira, Fausto Bordalo Dias, Fernando Gonzalez, José Luís Iglésias, José Niza, Júlio Pereira, Luís Duarte, Michel Delaporte, Ramon Galarza, Vitorino e ainda de Quim Barreiros, nos temas de inspiração folclórica. Este álbum é, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 30 anos, isto é, hoje». É a "ressaca" do PREC. O próprio José Afonso dirá mais tarde: «Eu sempre disse que a música é comprometida quando o músico, como cidadão é um homem comprometido. Não é o produto saído desse cantor que define o compromisso mas o conjunto de circunstâncias que o envolve com o momento histórico e político que se vive e as pessoas com quem ele priva e com quem ele canta». E acrescenta: «Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia-a-dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for».
O álbum "Enquanto Há Força", gravado em 1978, com o apoio de Fausto Bordalo Dias nos arranjos e direcção musical, representa mais um exemplo da fase cronista e panfletária do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonialistas e anti-imperialistas, a que não escapa uma crítica mordaz à Igreja Católica (no tema "Arcebispíada"). Participam no disco excelentes músicos e cantores: Michel Delaporte (percussões), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, coros), José Luís Iglésias (guitarra acústica), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa, sistre, viola e alaúde), Rão Kyao (flautas), Luís Duarte (baixo), Dimas Pereira (acordeão), Yório Gonçalves (coros), Adriano Correia de Oliveira (coros) e Sérgio Godinho (coros), entre outros; e ainda o Grupo de Cantigas do Centro Cultural da Anadia.
Em 1979 é lançado o álbum "Fura Fura", gravado em Setembro e Outubro do ano anterior, em que José Afonso contou com a colaboração de Júlio Pereira nos arranjos e direcção musical e dos Trovante nos arranjos de três temas ("As Sete Mulheres do Minho", "O Cabral Fugiu para Espanha" e "De Quem Foi a Traição"). A execução instrumental é de Júlio Pereira (cavaquinho, guitarras acústicas, violas, baixo, reco-reco, chocalho, timbalões) e de elementos do grupo Trovante – Luís Represas (bandolim, cavaquinho, 2.ª voz, coros), João Gil (viola, viola braguesa), Artur Costa (baixo, palheta, adufe, flautas de bisel) e Manuel Faria (acordeão). Nota ainda para a participação de António Chaínho (guitarra portuguesa), José Maria Nóbrega (viola), Naomi Anner e Carlos Zíngaro (violinos), Guilherme Vicente (flauta de amolador), Tomás Pimentel (trompete), Rui Cardoso (flauta transversal), Guilherme Inês (tumbadoras, ferrinhos) e Celso de Carvalho (violoncelo). Dos doze temas do alinhamento, oito são de música para teatro, compostos para as peças "Zé do Telhado" e "Guerras de Alecrim e Manjerona", levadas à cena na Barraca e na Comuna, respectivamente. José Afonso actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão.
Em 1981, e após dois anos sem discos, reconcilia-se com a canção de Coimbra e com a guitarra ao gravar "Fados de Coimbra e Outras Canções", álbum composto maioritariamente por clássicos de Edmundo Bettencourt e no qual reinterpreta também três temas já anteriormente gravados: "Senhora do Almortão", "Balada do Outono" e "Vira de Coimbra". Com acompanhamento de Octávio Sérgio (guitarra) e Durval Moreirinhas (viola) em todos os temas, no "Vira de Coimbra" participam também Júlio Pereira (cavaquinho) e Janita Salomé (viola). Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, dedicatários do álbum. Actua em Paris, no Théatre de la Ville. Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas de esclerose lateral amiotrófica, doença que se caracteriza por uma progressiva atrofia muscular de que resulta geralmente a morte, por asfixia. Actua em Bourges, França, no Festival de Printemps. Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu dos Recreios, com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum "Ao Vivo no Coliseu".No Natal desse ano, sai "Como Se Fora Seu Filho", álbum que constitui o seu testemunho estético-político e revela em definitivo o rosto humano da Utopia ("Cidade sem muros nem ameias / gente igual por dentro / gente igual por fora"). Com arranjos e direcção musical de Júlio Pereira, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e de José Afonso, no trabalho colaboram Júlio Pereira (guitarra eléctrica, guitarra acústica, polymoog, baixo, reco-reco, tamborete, viola braguesa), Fausto (guitarra eléctrica, guitarra acústica, percussões, 2.ª voz), Sérgio Mestre (guitarra acústica, flauta), Carlos Zíngaro (violino), Pedro Caldeira Cabral (guitarra portuguesa), Janita Salomé (polymoog, 2.ª voz, coros), José Mário Branco (flauta vietnamita, pífaro, flautas de bisel, piano, percussões), Rui Cardoso (saxofones, clarinete baixo), Rui Júnior (percussões), Francisco Fanhais (coros), entre outros. Algumas das canções do alinhamento haviam sido escritas para a peça "Fernão Mentes?" do grupo de teatro A Barraca. No mesmo ano, é publicado o livro "Textos e Canções", com a chancela da Assírio e Alvim, que inclui muitos poemas que José Afonso não chegou a musicar. Contra a sua vontade, é publicado pela Foto Sonoro um maxi-single, "Zeca em Coimbra", com material de um espectáculo dado pelo cantor no Parque de Santa Cruz, na Lusa Atenas, a 27 de Maio, em que também participaram António Bernardino ("Tenho Barcos, Tenho Remos"), Luís Marinho ("Traz Outro Amigo Também") e ainda António Portugal e António Brojo (guitarras) e Aurélio Reis, Luís Filipe e Rui Pato (violas). A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Fernando Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso.
O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Mário Soares tentará de novo condecorá-lo, a título póstumo, em 1994, com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusa, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial (fora expulso em 1968), tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Em 1985 é gravado aquele que viria a ser seu último álbum, "Galinhas do Mato", com arranjos, direcção musical e produção de Júlio Pereira e José Mário Branco. Zeca já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas ("Agora"), Helena Vieira ("Tu Gitana"), Janita Salomé ("Moda do Entrudo", "Tarkovsky" e "Alegria da Criação"), José Mário Branco ("Década de Salomé", em dueto com Zeca), Né Ladeiras ("Benditos") e Catarina e Marta Salomé ("Galinhas do Mato"). No elenco instrumental contam-se: Júlio Pereira (violas acústicas e eléctricas, banjo, baixo, adufe, sintetizador, computador de ritmo), José Mário Branco (adufe, guizos almofadados, latas), Janita Salomé (darbuka, adufe), Carlos Zíngaro (violino), Fernando Ribeiro (acordeão), António Emiliano (piano), Sérgio Mestre (flauta transversal), Paulo Curado (flauta transversal), José Pedro Caiado (flautas doces), Adácio Pestana (trompa), Tomás Pimentel (trompete), José Oliveira (trombone), Carlos Martins (saxofone alto), Rui Cardoso (saxofone tenor), Sílvio Pleno (clarinete), David Gausden (baixo), João Nuno Represas (tumbadoras, darbuka, latas) João Seixas (adufe) e Guilherme Inês (bateria). Nos coros, participam ainda Cramol (Coro da Biblioteca Operária Oeirense) e Tóinas. Apesar de ser o derradeiro, "Galinhas do Mato" revela-se um dos discos mais efusivos e extrovertidos de José Afonso, o que para tal muito contribui o protagonismo que é dado às percussões e aos sopros.
Em 1986, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintassilgo, católica progressista. José Afonso vem a falecer no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos de idade. O funeral realiza-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o Cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília e Francisco Fanhais.A 18 de Novembro é criada, por iniciativa de Alípio de Freitas (homenageado no tema homónimo do álbum "Com as Minhas Tamanquinhas"), a Associação José Afonso com o objectivo de ajudar a realizar as ideias do compositor e intérprete no campo das Artes. No ano seguinte a Câmara Municipal da Amadora institui o Prémio José Afonso destinado a galardoar um álbum inédito de música portuguesa, cujos temas tenham como referência a cultura e História portuguesas, tal como a obra do patrono. Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Né ladeiras, Amélia Muge, João Afonso, Vai de Roda, Gaiteiros de Lisboa, Dulce Pontes, Vozes do Sul/Janita Salomé, Jorge Palma, Carlos do Carmo, Filipa Pais, José Medeiros e Brigada Victor Jara, contam-se entre os já contemplados.Duas semanas depois da morte do cantor, a Transmédia edita "Agora e Sempre", o primeiro triplo álbum da história discográfica portuguesa. A edição é constituída pelos álbuns "Como Se Fora Seu Filho" (1983), "Galinhas do Mato" (1985) e "Ao Vivo no Coliseu" (1983), este com um alinhamento diferente. Nesse mesmo ano, a Movieplay lança em CD os 11 álbuns gravados para a Orfeu (até 1981), tendo também sido editado pela Edisco o CD "Os Vampiros", com as baladas dos três EP da Rapsódia (1960-63), tais como "Os Vampiros", "Menino d'Oiro", "Canção do Vai... e Vem", "Senhor Poeta", "Tenho Barcos, Tenho Remos", "Menino do Bairro Negro", "No Largo do Breu" e "Balada do Outono". Em 1996, a Movieplay reúne finalmente em CD sob o título "De Capa e Batina", os fados de Coimbra dos três primeiros discos (1953-56) e ainda os temas "Menina dos Olhos Tristes" e "Canta Camarada", do single editado pela Orfeu em 1969. Em 1997, assinalando os dez anos sobre a morte de José Afonso, a EMI-VC lança em CD o álbum "Baladas e Canções", originalmente editado pela Ofir em 1967.José Afonso, como pioneiro de uma estética musical alternativa ao "nacional cançonetismo" (como lhe chamou João Paulo Guerra) e pelo contributo inovador que deu na redescoberta e valorização da música de raiz tradicional, será sempre recordado como um dos nomes maiores da História da música portuguesa. Testemunham-no as homenagens e tributos de quem sido alvo ao longo dos anos, com novas versões de temas seus, sendo de referir os seguintes álbuns: "Ó Rama, Ó Que Linda Rama" (1977 – Teresa Silva Carvalho), "Ousadias" (1986 – Naná Sousa Dias), "Filhos da Madrugada Cantam José Afonso" (1994 – Madredeus, Frei Fado d’El Rei, Brigada Victor Jara, Opus Ensemble, Diva, Delfins, Sétima Legião, Resistência, UHF, Tubarões, etc.), "Maio Maduro Maio" (1995 – José Mário Branco, Amélia Muge e João Afonso, gravado no S. Luiz em 1994), "Utopia" (2004 – Vitorino e Janita Salomé, gravado no CCB em 1998), "A Jazzar no Zeca" (2004 – Zé Eduardo Unit), "Que Viva o Zeca" (2007 – Erva de Cheiro), "A Terra do Zeca" (2007 – Terra d’Água / Davide Zaccaria, com Maria Anadon, Lúcia Moniz, Filipa Pais, Dulce Pontes e Uxía), "Co’as Tamanquinhas do Zeca" (2007 – Couple Coffee), "Senhor Poeta" (2007 – Frei Fado d’El Rei), "Com Zeca no Coração" (2007 - Banda Futrica), "Convexo" (2007 – Jacinta) e "Abril" (2007 – Cristina Branco).
Discografia:
- Fados de Coimbra - 2 vols. (78 rpm, Alvorada, 1953)
- Fados de Coimbra (EP-45 rpm, Alvorada, 1956)
- Balada do Outono (EP-45 rpm, Rapsódia, 1960)
- Coimbra Orfeon of Portugal (LP-33 rpm, Monitor, 1962) (colectivo)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1962)
- Baladas de Coimbra (EP-45 rpm, Rapsódia, 1963)
- Cantares de José Afonso (EP-45 rpm, Columbia/Valentim de Carvalho, 1964)
- Baladas e Canções (LP-33 rpm, Ofir, 1967; CD, EMI-VC, 1997)
- Cantares de Andarilho (LP-33 rpm, Orfeu, 1968; CD, Movieplay, 1987)
- Contos Velhos, Rumos Novos (LP-33 rpm, Orfeu, 1969; CD, Movieplay, 1987)
- Menina dos Olhos Tristes (Single-45-rpm, Orfeu, 1969)
- Traz Outro Amigo Também (LP-33 rpm, Orfeu, 1970; CD, Movieplay, 1987)
- Cantigas do Maio (LP-33 rpm, Orfeu, 1971; CD, Movieplay, 1987)
- Eu Vou Ser Como a Toupeira (LP-33 rpm, Orfeu, 1972; CD, Movieplay, 1987)
- Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes (LP, Columbia/Valentim de Carvalho, 1973; CD, EMI-VC, 1992 (compilação colectiva)
- Venham Mais Cinco (LP-33 rpm, Orfeu, 1973; CD, Movieplay, 1987)
- Coro dos Tribunais (LP-33 rpm, Orfeu, 1974; CD, Movieplay, 1987)
- Viva o Poder Popular (Single-45 rpm, LUAR, 1975)
- República (LP-33 rpm, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975) (não editado em Portugal)
- Com as Minhas Tamanquinhas (LP-33 rpm, Orfeu, 1976; CD, Movieplay, 1987)
- José Afonso in Hamburg (LP-33 rpm, Portugal Solidaritat (Alemanha), 1976 (gravado ao vivo)
- Enquanto Há Força (LP-33 rpm, Orfeu, 1978; CD, Movieplay, 1987)
- Fura Fura (LP-33 rpm, Orfeu, 1979; CD, Movieplay, 1987)
- Fados de Coimbra e Outras Canções (LP-33 rpm, Orfeu, 1981; CD, Movieplay, 1987)
- Baladas e Fados de Coimbra (LP-33 rpm, Edisco, 1982); Os Vampiros (CD, Edisco, 1987)
- José Afonso (2LP, Orfeu, 1983; 2CD, Movieplay, 2001; Farol, 2007) (colectânea)
- Ao Vivo no Coliseu (2LP-33 rpm, Sasseti, 1983) (gravado a 29 de Janeiro de 1983)
- Como Se Fora Seu Filho (LP-33 rpm, Sasseti, 1983; CD, Strauss, 1994)
- Zeca em Coimbra (EP-45-rpm, Foto Sonoro, 1983)
- Galinhas do Mato (LP-33 rpm, Transmédia, 1985; CD, CNM, 1994)
- Agora e Sempre (3LP-33 rpm, Transmédia, 1985 (inclui os álbuns: Como Se Fora Seu Filho / Galinhas do Mato / Ao Vivo no Coliseu)
- Zeca Afonso no Coliseu (2CD, Strauss, 1993) (concerto quase integral)
- De Capa e Batina (CD, Movieplay, 1996)
Fontes:
- Site da Associação José Afonso (http://www.aja.pt/)
- Literatura inclusa na discografia de José Afonso
- Enciclopédia da Música Ligeira Portuguesa, dir. Luís Pinheiro de Almeida e João Pinheiro de Almeida, Círculo de Leitores, 1998
Propostas para a 'playlist' da RDP-Antena 1 (e Antena 3):
(por ordem alfabética)
- A Cidade (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- A Formiga no Carreiro (in "Venham Mais Cinco")
- Adeus ó Serra da Lapa (in "Venham Mais Cinco")
- Bailia (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Balada do Outono (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Balada do Sino (in "Cantares do Andarilho")
- Canção de Embalar (in "Cantares do Andarilho")
- Canção do Mar (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Canção do Vai... e Vem (in "Os Vampiros")
- Canção Longe (in "Baladas e Canções")
- Cantigas do Maio (in "Cantigas do Maio")
- Canto Moço (in "Traz Outro Amigo Também")
- Chamaram-me Cigano (in "Cantares do Andarilho")
- Endechas a Bárbara Escrava (in "Cantares do Andarilho")
- Era um Redondo Vocábulo (in "Venham Mais Cinco")
- Escandinávia Bar-Fuzeta (in "Galinhas do Mato")
- Fui à Beira do Mar (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- Fura Fura (in "Fura Fura")
- Já o Tempo se Habitua (in "Contos Velhos, Rumos Novos")
- Maio, Maduro Maio (in "Cantigas do Maio")
- Maria (in "Carlos Paredes/José Afonso/Luiz Goes")
- Menino d'Oiro (in "Os Vampiros")
- Menino do Bairro Negro (in "Os Vampiros")
- Mulher da Erva (in "Cantigas do Maio")
- No Comboio Descendente (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- No Largo do Breu (in "Os Vampiros")
- Ó Minha Amora Madura (in "Eu Vou Ser Como a Toupeira")
- O Pastor de Bensafrim (in "Baladas e Canções")
- Os Bravos (in "Baladas e Canções")
- Os Vampiros (in "Os Vampiros")
- Quanto é Doce (in "Fura Fura")
- Que Amor Não me Engana (in "Venham Mais Cinco")
- Saudades de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
- Traz Outro Amigo Também (in "Traz Outro Amigo Também")
- Tu Gitana (in "Galinhas do Mato")
- Vejam Bem (in "Cantares do Andarilho")
- Venham Mais Cinco (in "Venham Mais Cinco")
- Verdes São os Campos (in "Traz Outro Amigo Também")
- Vira de Coimbra (in "Fados de Coimbra e Outras Canções")
Fui à Beira do Mar
Letra, música e voz: José Afonso
Fui à beira do mar
Ver o que lá havia;
Ouvi uma voz cantar
Que ao longe me dizia:
"Ó cantador alegre,
Que é da tua alegria?
Tens tanto para andar
E a noite está tão fria!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"
Sentei-me a descansar
Enquanto amanhecia;
Entre o céu e o mar
Uma proa rompia.
Desde então a bater
No meu peito, em segredo,
Sinto uma voz dizer:
"Teima, teima sem medo!"
Desde então a lavrar
No meu peito a Alegria;
Ouço alguém a bradar:
"Aproveita que é dia!"