04 outubro 2006
"Os Sons Férteis": arquivo 'online' e 'podcasting'
Queria chamar a atenção para o facto dos audiogramas da rubrica "Os Sons Férteis" não estarem a merecer a devida e merecida atenção de quem de direito no que respeita a actualizações no arquivo online. Durante as últimas semanas de Agosto e as primeiras de Setembro nem sequer houve colocações 'online', ao contrário do que acontecia com as rubricas da Antena 1, o que me leva a supor que o sucedido se deve a descoordenação entre a direcção de programas da RDP e o administrador do site ou, pura e simplesmente, negligência ou má vontade do dito responsável para com a rubrica de Paulo Rato. Por exemplo, só hoje, quarta-feira, é que foram colocados os audiogramas da semana passada. Gostava de lembrar que se há espaço na Antena 2 que se pode considerar com toda a propriedade serviço público, "Os Sons Férteis" é, com toda a certeza, um deles. Por isso, não compreendo nem posso aceitar o que se está a passar. O apontamento de Paulo Rato é das melhores coisas que a rádio nos proporciona, e que sabe bem ouvir quando nos apetece saborear um bom naco de poesia temperada com música. Ora acontece que quem não pode ouvir a rubrica em directo, na única vez que passa na rádio (às 11 horas da manhã), ou gostava de a voltar a ouvir, fica impossibilitado de o fazer. Tratando-se de um apontamento de palavra, fazia todo o sentido que os ficheiros áudio fossem facultados em podcasting (além da possibilidade de download avulso).
E também seria de relevante interesse que o arquivo online passasse a contemplar todo o histórico do programa. A poesia não se desactualiza com a passar do tempo, pelo que constitui uma falha no serviço público os audiogramas de "Os Sons Férteis" apenas estarem disponíveis durante uma semana (quando estão!) e serem rapidamente sepultados nesse autêntico cemitério que é o arquivo histórico da RDP, sem que ninguém deles possa tirar proveito. Seria também muito interessante que nesse arquivo online completo de "Os Sons Férteis" houvesse à frente de cada audiograma um link para o respectivo poema sob a forma escrita, de modo a que o ouvinte pudesse acompanhar a audição com a leitura. Aliás, já houve uma experiência desse género, no antigo site da RDP, com a rubrica "Canções" que foi muito apreciada. Porque não reeditá-la com o excelente apontamento de poesia e música de Paulo Rato?
Por último, e a exemplo do que se passa com as rubricas da Antena 1, por que razão a rubrica "Os Sons Férteis" não é repetida à tarde e à noite?
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
29 setembro 2006
Propostas para o serviço público de televisão
Exmo. Sr. Provedor do Telespectador da Televisão Pública,
Tendo ouvido/visto o repto lançado pelo Sr. Provedor Paquete de Oliveira aos telespectadores da RTP para o ajudarem com a apresentação de sugestões com vista à melhoria do serviço público de televisão, eu não me podia escusar e, nessa medida, venho também dar o meu (modesto) contributo, reportando-me sobretudo aos dois canais de cobertura nacional em sinal aberto (RTP-1 e 2).
Passo a apresentar as minhas ideias e propostas, por áreas temáticas que embora não sendo estanques se tornam úteis para organizar a exposição.
1. Programas de debate e espaços de grande reportagem
Este é um ponto a que o serviço público devia dar uma atenção muito particular. No tocante aos espaços de debate existem dois – "Estado da Nação" e "Prós e Contras" - mas que pecam por se centrarem sobretudo na actualidade política. No programa apresentado por Fátima Campos Ferreira raramente se tratam de assuntos que embora não estejam na agenda politico/mediática nem por isso deixam de ter um real interesse para os cidadãos, um pouco no género do que era feito no programa "Hora Extra". Este programa que Conceição Lino apresentava na SIC era um notável exemplo de serviço público cujo modelo eu gostava que fosse adoptado na televisão pública, em sinal aberto. O "Prós e Contras" é um programa que tem os seus méritos mas, em minha opinião, um pouco cinzento e institucional e que também peca por alguns convidados caírem com muita facilidade na conversa fiada e cifrada, frequentemente enfadonha, pouco esclarecedora e pouco apelativa para o cidadão comum. Eu confesso que já me aconteceu chegar ao fim do programa e concluir que pouco ou nada contribuiu para verdadeiramente me elucidar sobre um determinado assunto.
No tocante aos espaços de reportagem (que devem ser autónomos dos noticiários), cumpre-me dizer que têm sido notoriamente descurados. Havia o espaço "Grande Informação", da responsabilidade de Judite de Sousa, que era bem feito e abordava temas sociais, o que lhe conferia um inegável interesse público, mas inexplicavelmente foi descontinuado. Recentemente apareceu um espaço de curtas reportagens intitulado "Reportagem" mas que, apesar do interesse de alguns temas tratados, peca pela exiguidade do tempo de duração. Porquê apenas 15 minutos e não meia hora ou mesmo uma hora? Se há temas que se conseguem tratar num quarto de hora sem problemas de maior, outros há que ficam notoriamente a perder com um tempo tão diminuto. E faz também falta na televisão pública um programa reservado a reportagens e documentários sobre as grandes temáticas do nosso tempo à escala mundial nos diversos domínios (ambiente, terrorismo, fenómenos sociais, etc.) um pouco no figurino do espaço "Toda a Verdade" (SIC Notícias). No canal 2, existia um bom programa nesta área chamado "Sinais do Tempo", mas também foi incompreensivelmente extinto. Veio depois a ressurgir na RTP-N, mas isso não é razão para não figurar também na grelha da RTP-2, a exemplo do que acontece – e muito bem – com os programas "Livro Aberto" e "Viajar é Preciso" e já aconteceu com "Estes Difíceis Amores" e "4 x Ciência". Aliás, penso que seria pertinente que estes e outros programas de cariz cultural/científico da RTP-N e também da RTP-Memória fossem retransmitidos (ainda que com algum desfasamento temporal) na RTP-2, mesmo a horas tardias. Deste modo, quem não pode ou não quer assinar os pacotes do cabo tinha a possibilidade de programar o videogravador para depois ver os programas do seu interesse a uma hora mais conveniente. Alguns exemplos: "1001 Escolhas" (Madalena Balça), "Histórias da Música" (António Vitorino de Almeida), "Se Bem me Lembro" (Vitorino Nemésio), "Viagem ao Maravilhoso" (Carlos Brandão Lucas), "Lendas e Factos da História de Portugal" (Luís Beja), "Histórias Que o Tempo Apagou" (José Hermano Saraiva), "Povo Que Canta" (Michel Giacometti e Alfredo Tropa), "Danças e Cantares", "Fados de Portugal".
2. Séries e mini-séries de ficção
Esta é outra área em que o serviço público pode marcar a diferença pela qualidade em relação às estações comerciais. Neste ponto, tenho de aplaudir algumas opções da RTP e de criticar outras. Para começar tenho de louvar o empenho da televisão pública na produção de séries de época baseadas em figuras/factos da nossa História e em obras literárias ("Ricardina e Marta", "Ballet Rose", "A Raia dos Medos", "O Conde d'Abranhos", "Alves dos Reis", "A Febre do Ouro Negro", "Gente Feliz com Lágrimas", "O Processo dos Távoras", "A Ferreirinha", "João Semana", "Pedro e Inês", "Bocage", "Quando os Lobos Uivam"). Umas foram mais bem conseguidas do que outras mas, em todo o caso, é importante que a RTP continue a apostar na produção de época pois se não for a televisão pública a fazê-lo mais ninguém o vai fazer. Por isso, espero que o vazio que se tem verificado ultimamente seja passageiro e que em breve possamos contar com outras séries de época de produção nacional. Aplaudo também a exibição pela RTP-1 de algumas mini-séries de época estrangeiras, algumas muito boas, mas lamento a não exibição, na RTP-1 ou 2, de séries do mesmo género de maior fôlego como já aconteceu anteriormente ("Norte e Sul", "As Saias da Revolução", "Napoleão", "Eu, Cláudio", "Reviver o Passado em Brideshead", "A Cartuxa de Parma", "Madame Bovary", "Os Miseráveis", "Anna Karenina", "Sensibilidade e Bom Senso", etc.). É verdade que passou recentemente na RTP-2 uma série intitulada "Roma" mas foi um caso isolado. E digo isto porque a direcção da RTP-2 parece só ter olhos para as séries americanas de cariz mais comercial e teima em ignorar a produção europeia que regista uma grande qualidade no capítulo das reconstituições de época e ficção histórica. Não digo que não haja séries americanas de qualidade como a já referida "Roma" ou "Sete Palmos de Terra", mas é inegável que muitas outras são produtos banais e vulgares, e sem qualquer substrato cultural, apenas entretenimento fútil e de baixo nível. Neste aspecto parece-me um flagrante desvio do serviço público e um desperdício do dinheiro dos contribuintes estar-se a ocupar o horário nobre do canal cultural da televisão pública todos os dias com séries infindáveis, as quais foram concebidas propositadamente para as televisões comerciais.
3. Cinema
Registo com agrado a transmissão que a RTP-1 tem vindo a fazer de bons filmes, mas não deixo de lamentar o enfoque exagerado no cinema norte-americano e, por outro lado, a colocação dos filmes de maior qualidade em horários muito tardios. Admito que a RTP-1 talvez não seja o canal mais indicado para o cinema europeu, mas há alguns filmes de linguagem e estilo acessíveis ao grande público que têm todo o cabimento num canal generalista de feição mais popular. Por acaso, a RTP-1 até transmitiu recentemente um desses filmes – "Pinóquio" – realizado e protagonizado por Roberto Benigni, mas cometeu um erro imperdoável e de palmatória: colocou-o às 2 horas da madrugada! Com que critério é que se atira para tal horário um filme que tem como alvo preferencial o público infantil? Era de caras que este filme devia ser colocado numa matiné, nunca num horário tão impróprio para o público a que se destina. Mas as minhas críticas em matéria de cinema vão sobretudo para a RTP-2 pela forma como tem desprezado a sétima arte, depois da abolição do espaço "Cinco Noites, Cinco Filmes". Um dos grandes erros da direcção de Manuel Falcão foi preferir as séries americanas ao cinema de qualidade: séries quase todos os dias e apenas uma filme por semana. Estava à espera que sob a direcção de Jorge Wemans, diminuísse o peso das séries de produção industrial e se apostasse de uma forma mais séria e digna no cinema, mas constato que a situação continua no essencial a mesma. Ora eu penso que o canal 2 da RTP tem uma obrigação acrescida de serviço público, relativamente ao cinema, que não está notoriamente a cumprir. Como já disse atrás, o canal passa apenas um filme por semana, (na rubrica "Sala 2"), e além disso restringe-se ao cinema americano. Penso que o cinema clássico norte-americano se adequa perfeitamente ao canal 2, mas já não acho razoável o ostracismo a que tem sido votado o cinema europeu – clássico e moderno – e igualmente o cinema português. No espaço "Noites da 2" foi recentemente exibido um ciclo de cinema português, mas há largas semanas que não se via um filme nacional na 2, o que acho totalmente inaceitável. O próprio canal 1, presumo que para cumprir calendário, passa mais cinema português e europeu (se bem que a começar às 2 e às 3 da madrugada!), o que dá bem para perceber a situação bizarra a que se vem assistindo no canal cultural da televisão pública portuguesa. Acresce que o espaço "Noites da 2", criado pela nova direcção de programas, supostamente para acolher conteúdos de qualidade na área do documentário, do cinema e das demais artes, tem na prática funcionado como um espaço (mais um!) onde são despejadas mais séries americanas, algumas de qualidade muito duvidosa. Em face disto, há uma pergunta que eu não posso deixar de formular à direcção da 2: as séries televisivas americanas tem mais valor cultural que o cinema, nomeadamente o europeu?
Escusado será dizer que a televisão pública tem um papel insubstituível na divulgação das obras-primas da História do Cinema, com especial incidência na produção europeia devido à sua menor visibilidade. Porque se não for o serviço público a fazê-lo, uma parte muita significativa da população portuguesa que gosta de cinema fica impossibilitada de fruir da obra de nomes tão importantes como Murnau, Fritz Lang, Fassbinder, Victor Sjöstrom, Ingmar Bergman, Dreyer, Jean Renoir, René Clair, Marcel Carné, Jean Cocteau, Truffaut, Claude Chabrol, André Techiné, Rosselini, Antonioni, Fellini, Visconti, Pasolini, Bertolucci, Franco Zefirelli, Luis Buñuel, Carlos Saura, D. W. Griffith, John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh, John Huston, George Cukor, Frank Capra, Joseph L. Mankiewicz, Orson Welles, Elia Kazan, Alfred Hitchcock, Michael Powell, Lawrence Olivier, David Lean, James Ivory, Roman Polanski, Sergei Eisenstein, Satyajit Ray, Kurosawa, Mizoguchi, Zhang Yimou, Chen Kaige, entre outros. Dado que uma grande parte da filmografia destes e de outros nomes de referência da História do Cinema não está disponível no mercado videográfico, e nem todos os cinéfilos têm possibilidade de frequentar a Cinemateca Portuguesa, eu sugiro que a Rádio e Televisão de Portugal celebre um protocolo com a Cinemateca com vista à transmissão televisiva dos melhores filmes dos vários ciclos que vão sendo programados para as salas da Rua Barata Salgueiro. Falei do cinema clássico mas convém não olvidar boa parte da produção actual que passa nos Festivais de Cinema (Cannes, Berlim, Veneza, etc.) e que depois, por não chegar às salas do circuito comercial, fica totalmente inacessível ao público. Cabe ao serviço público de televisão tornar essas obras também acessíveis aos amantes de cinema portugueses. E já que estou a falar de cinema não comercial, aproveito também para sugerir a criação de um espaço semanal dedicado ao cinema português. É um lugar comum dizer-se que o público português não gosta do cinema português de autor e que só acorre às salas para assistir a filmes do género "O Crime do Padre Amaro". Não ponho em questão que haja algum fundamento nessa asserção, mas também é verdade que cabe à televisão uma função pedagógica no modo de ver e apreciar as obras cinematográficas mais exigentes e menos imediatistas. A este propósito, faço referência a divulgadores como João Bénard da Costa ou Lauro António que já tiveram programas próprios na televisão portuguesa e com quem muitas pessoas (eu incluído) aprenderam a ver os filmes com outros olhos mas que por motivos de mera lógica comercial foram afastados. Urge que essas experiências sejam retomadas no serviço público, porque a sensibilidade educa-se e o gosto pelas coisas da cultura cultiva-se. Há quem esteja disposto a fazê-lo, desde que quem dirige a televisão pública lhe abra as portas. Fala-se muito da falta de públicos para a cultura em Portugal, mas também não vejo nada de assinalável a ser feito nos media para resolver o problema.
4. Documentários
Outra área que, tal como a ficção de qualidade, devia constituir uma aposta forte da televisão pública mas que infelizmente também tem sido algo descurada. A RTP-1 passou recentemente uma série documental sobre a emigração portuguesa de grande qualidade e muito aclamada tanto pela crítica como pelo público e, como tal, não se compreende a fraca aposta da televisão pública no documentário de produção própria. A este propósito, não posso deixar de lamentar a extinção dos espaços da RTP-2 "O Lugar da História" e "Artes e Letras". O primeiro era coordenado por Júlia Fernandes que dava uma atenção muito especial à produção nacional, sendo que muitos deles nada ficavam a dever a belíssimos documentários estrangeiros que eram a imagem de marca do programa. Foram muitos e memoráveis os documentários que vi pela mão de Júlia Fernandes e confesso que sinto muitas saudades desse espaço pelo profissionalismo com que era feito e pela qualidade que apresentava. Em Janeiro de 2004, aquando da reestruturação do canal 2, o espaço foi criminosamente extinto tendo surgido os espaços "Mundos" e "Vidas" e "Hora Discovery" que a meu ver ficam muito aquém dos anteriores, quer em termos de conteúdos quer de conceito. E aponto apenas três pontos para fundamentar a minha opinião: o critério de escolha dos conteúdos e das produtoras, a locução em língua portuguesa e a produção nacional. Em tudo isto "O Lugar da História" era um notável exemplo. Agora os documentários são escolhidos de forma aparentemente aleatória sendo que alguns apresentam uma qualidade mediana para não dizer medíocre e sobre assuntos de duvidoso interesse cultural e pedagógico (sobretudo na "Hora Discovery"); quase não há locução em língua portuguesa prevalecendo a legendagem, o que constitui uma falha grave do serviço público para os telespectadores que não sabem ler mas que têm curiosidade intelectual e vontade de se enriquecem culturalmente; a produção nacional tornou-se insignificante e esporádica. Recentemente foi para o ar uma boa série documental em quatro episódios intitulada "Périplo" (em torno do Mediterrâneo), bem demonstrativa do que podíamos fazer com mais regularidade e não nos ficarmos por experiências esporádicas e avulsas. Por que motivo não se fazem documentários monográficos sobre figuras da nossa História e Cultura, que depois até podiam ser cedidos às escolas? Júlia Fernandes e Diana Andringa deram um importante contributo para o enriquecimento do acervo da RTP nesta área mas muito mais havia a fazer. E por que motivo não são repostos de vez em quando esses belos documentários nos canais de sinal aberto em vez ficarem apenas reservados à RTP-Memória?
Ainda em matéria de documentários gostava que houvesse um maior investimento no campo da História e particularmente na História da Arte. Há pouco tempo passou uma série documental intitulada "A Vida Íntima de Uma Obra-Prima" que me fascinou e com a qual muito aprendi. Faço votos para que mais documentários do género sejam exibidos proximamente. Sugestão: uma série documental sobre o Renascimento, outra sobre o Impressionismo e ainda outra sobre a arte oriental.
5. Artes cénicas
Esta é a área por excelência de qualquer serviço público de televisão que se preze. Infelizmente no caso da RTP, em especial do canal 2, quer o teatro, quer a ópera, quer a dança têm andado pelas ruas da amargura. Durante algum tempo, mesmo depois da reestruturação da grelha da RTP-2 ocorrida em Janeiro de 2004, lá aparecia uma ópera ou um bailado de tempos a tempos. Agora, nada! Porquê? E de teatro nem vale a pena falar já que desde 2004 não me lembro de alguma vez ter sido transmitida alguma peça na 2. Ora isto é totalmente inaceitável porque, felizmente, o arquivo da RTP tem um espólio apreciável de peças produzidas propositadamente para a televisão, algumas muito bem feitas. Sem prejuízo de novas produções, haverá alguma razão plausível para que a RTP-Memória tenha o exclusivo da transmissão das peças do arquivo, a ponto de nunca serem exibidas na RTP-2, o canal cultural da televisão que todos os contribuintes suportam?
6. Programas musicais
Esta é outra área claramente deficitária na televisão pública, sobretudo nos canais destinados ao público residente em Portugal. Pessoalmente, para ouvir música prefiro a rádio ou a minha colecção de CDs e de ficheiros áudio mas atendendo à força que a televisão tem, penso que ela devia dar mais atenção à música, especialmente a que tem a ver com as raízes culturais portuguesas e do espaço lusófono. Começando pela RTP-2 encontro o espaço "Músicas" aos sábados depois da "Sala 2", de que sou fiel telespectador, e que me parece excessivamente centrado no pop/rock de origem anglo-americana e, mesmo assim, com escolhas que deixam muito a desejar. A meu ver, é muito discutível o critério segundo o qual se põe na RTP-2 nomes como Christina Aguilera e Anastacia, ou seja, no mesmo canal onde está (ou devia estar) a ópera e o bailado. Acresce ainda que há pouca música portuguesa e lusófona, assim como se nota uma grande escassez de jazz e ainda mais de 'world music'. No tocante à música portuguesa (dos diversos géneros) é flagrante a falta na RTP de um programa de música ao vivo, um pouco ao estilo do "Viva a Música" que Armando Carvalheda faz para a Antena 1 e que merecia maior visibilidade. Já agora, e aproveitando as sinergias rádio/televisão públicas, não seria boa ideia a RTP filmar essas actuações para as transmitir posteriormente num espaço regular semanal? Fica a sugestão! Os programas de imitações do tipo "A Canção da Minha Vida" que, de vez em quando, aparecem na grelha da RTP-1, além de serem caros, não são, de forma alguma, a melhor solução para dar a ouvir música na televisão. Admito que tais programas – aliás um entretenimento algo pobre – possam fazer algum sentido no caso de artistas falecidos ou retirados, mas jamais se pode aceitar que sejam encarados como substitutos da presença em palco de artistas no activo desde os mais velhos aos mais novos. Em Portugal, há bastantes nomes que, por causa do critério de formação das 'playlists', não têm lugar nas rádios de cobertura nacional, o que dificulta imenso a divulgação dos trabalhos que vão produzindo. E se esta é uma situação grave para determinados artistas de nome feito que, apesar de tudo, ainda vão conseguindo ter uma razoável agenda de espectáculos, constitui uma verdadeira asfixia para muitos nomes de talento que não pertencem aos 'lobbies' que controlam ou têm poder de influência nas rádios e televisões. Devido a este estado de coisas, muitos são os músicos/grupos de qualidade que não conseguem vingar ou que vão ficando pelo caminho e que podiam enriquecer o nosso património musical e, ao invés, somos inundados com os produtos mais banais e medíocres só porque é isso que interessa às grandes editoras. Na sociedade do nosso tempo, quem não aparece nos media é como se não existisse e, como tal, cabe à rádio e televisão do Estado, devido à sua responsabilidade acrescida, desempenharem um papel de correcção dessa distorção tornando visível ao grande público a boa música que não aparece nos tops. E já que falei em tops, aproveito para referir o programa "Top+", quanto a mim um claro exemplo do que não deve ser feito na televisão pública. Com efeito, trata-se de um espaço notoriamente ao serviço dos interesses comerciais das 'majors' discográficas e concebido do princípio ao fim com esse propósito. Que serviço público pode prestar um programa de televisão que passa apenas a música comercial insistentemente rodada na generalidade das rádios e no canal MTV?
Mais tinha que dizer mas como a exposição já vai longa fico-me por aqui. Espero o Sr. Provedor do Telespectador tenha em boa conta as considerações e os comentários que achei por bem tecer e que, de algum modo, lhe possam ser úteis para a formalização de propostas concretas aos altos responsáveis da RTP. A bem do serviço público de televisão!
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
15 setembro 2006
"Cantos da Casa": o cantinho da música tradicional
Moçoilas
Com autoria e apresentação de Armando Carvalheda, "Cantos da Casa" é o nome da rubrica dedicada à música tradicional portuguesa que teve início esta semana na Antena 1. A este propósito, cumpre-me saudar a direcção da RDP por esta decisão, tal como fiz em Novembro passado quando surgiu a rubrica "Alma Lusa" dedicada ao fado. Aliás, na carta que então dirigi a Rui Pêgo tive oportunidade de lhe chamar a atenção para a importância da música de raiz tradicional ser também contemplada na rubrica "Alma Lusa" ou noutra a criar, pelo que me congratulo que a minha proposta tenha sido aceite, embora um pouco tardiamente. José Afonso, Brigada Victor Jara, Moçoilas (na foto) e Chuchurumel foram os primeiros nomes a merecer a atenção de Armando Carvalheda e certamente muitos mais se seguirão, fazendo jus ao rico e precioso acervo fonográfico nesta área da música portuguesa. No presente momento, não há dúvida que se regista um maior equilíbrio de géneros musicais abrangidos nas rubricas da Antena 1: música tradicional em "Cantos da Casa" (Armando Carvalheda), fado em "Alma Lusa" (Edgar Canelas), música latina do tempo do vinil em "Júlio Isidro", história do pop/rock em "Outras Histórias da Música" (Luís Filipe Barros), músicas do cinema em "Banda Sonora" (João Lopes), jazz em "Cinco Minutos de Jazz" (José Duarte), e música clássica/erudita em "Grandes Músicas" (António Cartaxo). Não obstante, continuo a pensar que estas rubricas com cinco minutos de duração não dispensam, de forma alguma, os espaços musicais alargados para cada um dos diversos géneros. E aqui constata-se que são as músicas da portugalidade e da latinidade que ficam a perder, o que dá que pensar sendo a Antena 1 uma rádio portuguesa e ainda por cima pública, ou seja, suportada pelos contribuintes. Então vejamos: a música clássica está na Antena 2, o jazz está em "A Menina Dança?" e também na Antena 2 ("Jazz com Brancas" e "Um Toque de Jazz"), o pop/rock está nas "Ondas Luisianas" e na 'playlist'. E em que programas estão o fado, a música tradicional portuguesa e a música latina? O fado estava no programa "Silêncio" (Edgar Canelas) e a música latina n'"O Amigo da Música" (José Nuno Martins), mas deixaram de estar porque esses programas já não existem. A música tradicional portuguesa editada em disco só aparece nos preâmbulos musicais das conversas de Rafael Correia no "Lugar ao Sul" e, uma vez por outra, no "Vozes da Lusofonia" (Edgar Canelas). Posto isto, terá de se concluir que o serviço público de rádio é notoriamente deficitário no tocante às músicas autóctones de Portugal e do mundo latino e, por isso, urge que seja criado, no mínimo, um programa que as contemple. Não será certamente por falta de lugares vagos na grelha da Antena 1 que isso não é feito. Admito que ao fim-de-semana, por causa do futebol, já não haja grande margem de manobra mas podia ser aproveitado o período entre as 19:00 e as 24:00, de segunda a sexta-feira, tal como acontece na Antena 3. A Antena 1 tem a obrigação de não ignorar as pessoas que preferem a rádio à televisão e que, por não se inserirem nos públicos das Antenas 2 e 3, ficam sem outra opção que as rádios de 'playlist'. E, como todos sabemos, essas 'playlists', todas feitas com base nas mesmas músicas/intérpretes que se vão repetindo de dia para dia, estão bem longe de ser um produto radiofónico satisfatório para quem deseja ouvir rádio no recolhimento doméstico. Fico na expectativa de que a direcção da Antena 1 tenha em boa conta a minha proposta. A bem do serviço público de rádio!
"Cantos da Casa": Antena 1, de segunda a sexta-feira, 05:55, 14:55 e no arquivo online.
08 setembro 2006
Cobertura de eventos musicais pela Antena 2
Como já sucedera no ano passado, neste Verão a Antena 2 voltou a fazer a cobertura completa (ou quase completa) dos Concertos Promenade (vulgo Proms), que decorrem maioritariamente no Royal Albert Hall, em Londres. Por princípio, não tenho nada contra a transmissão de concertos ao vivo, bem pelo contrário. Penso até que em salas onde as condições acústicas não são as melhores para os assistentes, a transmissão radiofónica desses concertos pode ser uma mais valia para os melómanos rádio-ouvintes, desde que a captação de som seja feita nas melhores condições técnicas. O motivo que me leva a recorrer ao Sr. Provedor é o facto dessas transmissões, na Antena 2, estarem a ser monopolizadas por um único evento, no caso os Concertos Promenade. Devo dizer que nada tenho contra os Proms, mas parece-me excessiva e desproporcionada esta opção da direcção da Antena 2. O que não falta são festivais e encontros de música que, durante o Verão, acontecem um pouco por toda a Europa, boa parte dos quais de qualidade igual ou superior à dos Proms, quer em termos de intérpretes quer de repertório. A este propósito, tenho de dizer que os Proms são claramente deficitários no tocante à música barroca e pré-barroca, épocas da História da Música que têm, no nosso país, um público considerável que vê assim defraudadas as suas legítimas expectativas com esta opção da direcção da Antena 2. Em vez de largas semanas de Proms, não seria muito mais razoável dedicar uma semana ou uma quinzena a cada um dos melhores eventos musicais da Europa? Bem sei que o Festival de Salzburgo teve alguma cobertura, o que aplaudo. Mas, e o resto não conta? E quando falo de eventos europeus, falo ainda com maior acuidade dos que se realizam dentro de portas e aos quais a Antena 2 devia dar uma atenção muito especial, no âmbito das suas obrigações de serviço público. Nesta perspectiva, penso que as verbas que a Rádio e Televisão de Portugal paga à BBC em direitos de transmissão radiofónica, deviam ser canalizadas preferencialmente para a gravação/transmissão dos melhores eventos nacionais: Encontros de Música Antiga da Casa de Mateus, Festival de Música da Póvoa de Varzim, Festival de Sintra, Festival da Costa do Estoril, etc.. Mesmo na eventualidade da BBC nada cobrar pelos direitos de transmissão dos Proms continuo a achar errado o peso desmesurado que eles têm na emissão da Antena 2, em prejuízo de outros bons eventos nacionais e estrangeiros, como atrás explicitei. Estou em crer que esta obsessão pelos Proms resulta de algum capricho ou vaidade do Sr. João Almeida, adjunto de Rui Pêgo. Eu, enquanto ouvinte, cumpre-me lembrar que a Antena 2 não existe para satisfazer caprichos de quem quer que seja mas tão-somente para prestar serviço público a todos os ouvintes e não apenas aos adeptos dos Proms. Acresce ainda que estes ouvintes podem sempre recorrer à internet para seguirem de fio a pavio todos os concertos e recitais de cada temporada dos Proms. Como tal, espero que no próximo Verão a Antena 2 não nos venha com outra 'overdose' de Proms e arrogando-se em ignorar olimpicamente outros importantes eventos de música erudita que decorrem na época estival.
Apenas uma pequena nota sobre o 'spot' promocional dos Proms para manifestar o meu descontentamento pelo incontável número de vezes em que foi posto no ar. Uma verdadeira tortura para os ouvidos dos ouvintes mais fiéis da rádio clássica! Será que o auditório da Antena 2 tem a memória assim tão fraca que precise de estar a ser constantemente lembrado dos Proms? Em vez da repetição constante e recorrente desse 'spot', ainda por cima piroso e de mau gosto, não seria muito mais acertado e pertinente porem anúncios com o programa (obras e intérpretes) de cada concerto? Ou será que a direcção da Antena 2 quer que os ouvintes comam tudo de olhos fechados e sem livre arbítrio para escolher?
Por último, também me parecem perfeitamente dispensáveis e nada relevantes as intervenções dos enviados especiais aos Proms e a outros certames musicais no estrangeiro. Vistas bem as coisas, o que é que os ouvintes da Antena 2 ganham com os lugares comuns e as banalidades que caracterizam tais intervenções? É por de mais evidente que há aqui um escusado desperdício de dinheiros que deviam ser orientados para o que realmente representa serviço público. A este propósito, não posso deixar de perguntar: será aceitável que os programas de autor tenham sido suspensos por alegadas limitações orçamentais, e ao mesmo tempo vejamos a RDP ser utilizada como uma espécie de agência de viagens e turismo?
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
21 agosto 2006
Espaços musicais de Verão na Antena 1: mau serviço público
Na sequência da reclamação que lhe apresentei sobre a vergonhosa situação da música portuguesa na 'playlist' da Antena 1, achei que seria oportuno dar-lhe também conta da minha profunda insatisfação relativamente aos espaços musicais de Verão, actualmente no ar. Aproveitando o período de férias de alguns autores/realizadores, a direcção de programas resolveu preencher esses vazios com alargados espaços musicais destacando para os apresentar determinados locutores – os habituais e outros que não é costume assegurarem a emissão de continuidade. Até aqui tudo normal, embora eu pense que a programação de Verão deva ser algo mais do que apenas música. Mas o que me leva, uma vez mais, a recorrer ao Sr. Provedor, é a falta de eclectismo e a baixa qualidade da generalidade dos conteúdos musicais desses espaços. Eu preferia que houvesse espaços diferenciados para cada estilo ou área musical mas como a direcção optou por espaços generalistas, eu não posso deixar de me insurgir justamente contra o monolitismo medíocre que os caracteriza. Efectivamente, esses espaços supostamente generalistas, na verdade não o são porque deixam de fora várias áreas musicais que deviam ter presença garantida no serviço público, designadamente a música popular portuguesa, o fado e a música latina (fora da estética pop). Até a música anglo-americana (actual e passada) que é escolhida está longe de ser a melhor. Desconheço se a escolha da música desses alinhamentos está a cargo do chefe de 'playlist', Rui Santos (agora também ele apresentador), ou se são os locutores de cada espaço que seleccionam a música que apresentam, em obediência a bitolas e instruções ditadas pela direcção de programas. Em qualquer dos casos, a música que tem sido transmitida não difere muito da que vem sendo debitada pela 'playlist' nos últimos tempos. É verdade que foram introduzidos mais temas, mas constata-se que o critério de escolha continua a ser o mesmo: a música pop de cariz mais comercial e estranhamente (ou talvez não) incidindo nos nomes do costume que são, inclusive, repetidos de espaço para espaço (foi o caso de Madonna ontem de manhã, por exemplo). Se no tocante aos artistas portugueses e lusófonos a situação de favorecimento de uns e marginalização/boicote de outros se mantém, a música anglo-americana que há meses registara uma ligeira melhoria voltou a piorar. Com efeito, a maior parte da música britânica e norte-americana que nos é dado ouvir é da mais banal e medíocre, o que não se compreende por haver tanta e boa música em língua inglesa (e também instrumental). A propósito, abro aqui um parêntesis para manifestar o meu descontentamento pelo facto da rádio pública (no conjunto das três antenas nacionais) estar a descurar a música instrumental que não se enquadra nos registos clássico/erudito, jazz ou étnico. Assinalo o programa "Argonauta", de Jorge Carnaxide, dedicado à música electrónica de ambientes ("música para relaxar a mente"), mas faz falta um espaço que contemplasse outras estéticas de música instrumental. Voltando aos espaços musicais de Verão da Antena 1, não vou ao ponto de dizer que toda a música pop seja de deitar fora, mas é indubitável que a maioria da que prolifera na Antena 1 se conta entre a pior que se podia escolher. Isto pode ser uma opinião pessoal, mas tenho a certeza de que há muita gente a partilhar o meu ponto de vista. Por exemplo, alguém me consegue explicar por que razão a Antena 1 despreza quase por completo a melhor música anglo-americana dos anos 60 e 70? Música que eu não tive oportunidade de ouvir no tempo em que foi feita (por incontornável desfasamento temporal) mas que tenho vindo a descobrir e que considero muito superior a muita que se produziu depois. Não cumpriria ao serviço público divulgar essa música (os 'hits' e também os temas menos conhecidos), não só a pensar nos ouvintes cuja juventude coincidiu com a época em que tal música foi criada mas também para que os ouvintes mais novos tivessem oportunidade de a conhecer, alargando assim os seus horizontes além dos produtos hoje em voga? Por acaso, até existe um programa de autor chamado "Ondas Luisianas", agora também em edição vespertina ao sábado, que podia desempenhar um importante papel nesse propósito. Infelizmente, Luís Filipe Barros teima em passar quase exclusivamente o pop/rock mais comercial dos anos 80 e em dar pouca atenção aos anos 60 e 70, ignorando quase por completo o 'blues rock' e o rock progressivo. Já me dei ao cuidado de lhe escrever sobre o assunto mas, lamentavelmente, fez ouvidos de mercador. Luís Filipe Barros já mostrou que é capaz de fazer muito melhor, pelo que ponho a hipótese de ele estar a cumprir ordens vindas de cima no sentido de privilegiar os anos 80. É pena!
Penso que época estival podia ser uma excelente altura para dar aos ouvintes coisas diferentes do corriqueiro pop mainstream e que lhes refrescassem a cabeça. A rádio não serve apenas para dar às pessoas o que elas já conhecem e de que eventualmente já estão fartas; serve também para abrir caminhos e possibilitar a descoberta, porque insistir sempre no mesmo e no mais batido além de ser empobrecedor representa mau serviço público. E, neste âmbito, volto a chamar a atenção para a total e criminosa ausência da música popular portuguesa nos espaços musicais do presente Verão. Será que quem escolhe a música, acha que essa área musical não é apropriada para se ouvir no tempo do calor? Parece que sim! Mas eu permito-me discordar em absoluto dessa opinião. A propósito, não seria totalmente lógico que os horários dos programas "Lugar ao Sul" e "Passeio Público" fossem preenchidos com música popular portuguesa (tradicional e de autor), de modo a corresponder ao gosto do auditório fiel desses programas? É uma sugestão que deixo para o próximo Verão, isto claro está, sem prejuízo de serem entretanto criados mais programas/espaços dedicados à música popular portuguesa e ao fado, não esquecendo a necessária e urgente correcção da situação de marginalização/boicote destas importantes áreas da nossa música na 'playlist'. Os muitos ouvintes da Antena 1 que apreciam a música mais autêntica de Portugal ficam na expectativa de que as suas justas pretensões sejam atendidas.
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
P.S. : Se a direcção da Antena 1 quiser, eu estou disponível para enviar graciosamente uma lista de intérpretes/músicas, designadamente de música portuguesa e anglo-americana, como propostas para a 'playlist'.
19 agosto 2006
Juntar música com Informação na Antena 2?

Comentando a entrevista de Rui Pego ao Diário de Notícias, sobre a nova Grelha da Antena 2, Rogério Santos deixa duas interrogações:"(...) juntar música com informação, de modo ao estúdio ter agora um terminal de notícias, será bom? Não basta a Antena 1 com notícias repetidas de meia em meia hora, e com informação continuada e redundante de trânsito (...)?"
14 agosto 2006
Audiências de rádio: o debate está lançado!
Positivo foi o esforço de relançar o debate acerca do modo anómalo como são efectuados os estudos de audiência do medium rádio. De diversos blogs vieram desafios e contributos. Clique nos links para perceber o âmbito e o alcance das diversas intervenções:Vale a pena passar por um conjunto de textos acerca da mediação de audiências de rádio. Todos eles críticos face ao modelo ainda adoptado em Portugal e que, de facto, levanta algumas questões. - Rádio e Jornalismo
Mas poderão os indicadores apontados por este sistema
estar longe da realidade? Muitos respondem “sim” a esta pergunta, porque, na era da mobilidade (telemóvel, Internet sem fios, etc.), a Marktest ainda faz os inquéritos através do telefone fixo. - A Rádio em Portugal Mais uma vez insisto na ideia de que é precisa uma nova metodologia
na análise das audiências de rádio, porque esta (a das entrevistas telefónicas feitas para casa dos hipotéticos ouvintes, com base na memória do dia anterior) já deu o que tinha a dar. - Blogouve-seHá um ponto fundamental: as empresas de radiodifusão não têm dinheiro para pagar um modo mais moderno de medir audiências, alargando a amostra e fazendo a medição diária. - Indústrias Culturais
Enquanto as audiências de rádio (e de tudo o resto, diga-se de passagem...) não forem feitas por concurso público,
aberto, para um período que pode ser até três anos, a vergonha continuará. Os monopólios têm destes problemas... - António GranadoQuando (nos finais dos anos 90) a Radiodifusão Portuguesa se desvinculou do estudo da Marktest, agiu de forma acertada e correcta. Seria uma farsa (para não dizer uma burla) pactuar com um arremedo de estudo estatístico que enferma de vício que deturpam totalmente os resultados. - A Nossa Rádio

Será que alguém vai aceitar o repto lançado pelo João Paulo Menezes:
Nas redacções não há ninguém disponível para fazer um trabalho sobre a questão das audiências analógicas feitas pela Marktest?
07 agosto 2006
Estes estudos de audiência têm alguma validade???
Antes de mais, permitam-me dois lugares comuns:* A Rádio de Serviço Público não deve ser refém dos níveis de audiência, mas a sua principal preocupação tem de assentar no efectivo (e cabal) cumprimento das suas obrigações de Serviço Público;
*
Mas, como só existe Serviço Público se existirem destinatários e consumidores desse Serviço, a Rádio de Serviço Público tem de assegurar uma eficaz difusão e níveis de adesão que garantam a validade e a utilidade do Serviço prestado.
Dito isto, passemos à questão dos estudos de audiência do meio rádio e do modo como são efectuados.
Tenho sistematicamente vindo a defender (e a escrever) que o estudo que trimestralmente é divulgado sobre as audiências da Rádio não dispõe de qualquer credibilidade científica ou técnica.
Nem me vou preocupar sequer com o modo de formulação das questões que dele constam (pensado já para responder às necessidades das centrais de publicidade e favorecendo as rádios que veiculam mensagens publicitárias), mas vou ater-me, tão-somente, ou modo como é efectuada a recolha dos dados.
Quando (nos finais dos anos 90) a Radiodifusão Portuguesa se desvinculou do estudo da Marktest, agiu de forma acertada e correcta. Seria uma farsa (para não dizer uma burla) pactuar com um arremedo de estudo estatístico que enferma de vícios que deturpam totalmente os resultados. Fiquemos pelos mais importantes: 
- A definição da amostra (manifestamente insuficiente) ;
- O modo como é efectuada a recolha dos dados (inquéritos telefónicos para telefones da rede fixa).
Nessa altura, a RDP pagou caro uma atitude que, sendo corajosa, deveria ter sido louvada e acarinhada: Buscava (em cooperação com outras rádios) avançar para a implementação de modos de análise da audiência do meio rádio mais rigorosos e passíveis de validação científica e técnica.
Nesse sentido foram dados passos junto de sectores universitários com trabalho desenvolvido na esfera da investigação dos consumos e do mercado das mensagens. O Resultado imediato saldou-se no seu quase imediato desaparecimento (assassinato???) no que aos números da Marktest dizia respeito.
E a RDP passou a apresentar níveis quase residuais de audiência.
Foi com a chegada da nova administração da RDP
(nomeada por Morais Sarmento), e com a necessidade urgente de apresentar (a qualquer preço) números de subidas de audiências, que o operador público negociou o seu regresso à Marktest – pretendendo credibilizar aquilo que já não tinha crédito nenhum. Porque, se as reservas que a RDP formulara em 1998 tinham toda a razão de ser, em 2002 estavam mais do que comprovadas:
- O número de telemóveis aumentara exponencialmente;
- Os escalões etários abaixo dos 35 anos quase só já utilizavam os serviços de redes móveis.
Mas como Morais Sarmento precisava de números favoráveis...
Assim, chegámos à realidade dos dias de hoje... com o meio rádio a não dispor de indicadores fiáveis e seguros para questionar a sua actividade e a eficácia de opções e estratégias.
E ninguém acredita já naqueles números da Marktest.
- NOTA DE RODAPÉ:
Apesar do que já atrás se afirmou acerca da "pulverização" dos resultados da RDP (a partir do momento em que ela teve a ousadia de abandonar o estudo da Marktest) e apesar de o (então) director de Programas da Antena 1 ter saido da RDP e
aquela estação ter ficado seis meses sem Direcção, na 3ª Vaga de 2002 (Outubro) a Antena 1 surgia em 5º lugar, à frente da TSF. Nos resultados agora divulgados surge em 6º, atrás da TSF.
Outubro de 2002 | Agosto de 2006 |
1º - R. Renascença | 1º - RFM |
26 julho 2006
E Alegre se Fez Triste

A notícia do "Correio da Manhã" sobre a reforma de Manuel Alegre decorrente do seu vínculo à RDP deu azo a dois fóruns de discussão na rádio: Fórum TSF e Antena Aberta. Ficou bem patente o sentimento de indignação e de revolta da generalidade dos ouvintes, subsistindo alguns pontos que urge esclarecer. Se Manuel Alegre só esteve alguns meses na RDP, como é que cumpriu o período de contribuições para a Caixa Geral de Aposentações para ter direito à reforma enquanto trabalhador da rádio pública? Em declarações às rádios e televisões, Manuel Alegre diz que a reforma resulta dos descontos que fez como deputado. Mas na Lista de Aposentados e Reformados - Agosto 2006 ele é dado como coordenador de programas de texto da Radiodifusão Portuguesa, SA e não como deputado (a última actividade), aparecendo integrado no sector Empresas Públicas e Sociedades Anónimas e não no sector Assembleia da República. Não é crível que a CGA não soubesse que Manuel Alegre era deputado. Será que nos mapas de remunerações que a Assembleia da República envia para a CGA, Manuel Alegre é dado como funcionário da RDP com a profissão de coordenador de programas de texto? É no mínimo absurdo! Enquanto isto não for devidamente explicado e fundamentado é totalmente legítima a interrogação: terá Manuel Alegre continuado a receber da RDP o seu vencimento ao longo dos últimos trinta anos mesmo sem lá ter posto os pés, e cumulativamente com a sua remuneração de deputado? O mínimo que se pediria é que a administração da Rádio e Televisão de Portugal viesse esclarecer todos os portugueses, em vez de se remeter a um comprometedor silêncio. É sabido e notório que o serviço público de rádio tem sofrido apertadas limitações orçamentais, pelo que não se admite que a taxa de radiodifusão (rebaptizada de contribuição do audiovisual por Morais Sarmento para dela a televisão passar a comer a parte de leão) possa ser usada para pagar salários a quem, por vontade própria, deixou de exercer funções na rádio que é suportada por todos nós. E caso se confirme que Manuel Alegre esteve a receber da RDP, não haverá outras situações similares?
Parece-me muito sintomático que a juntar-se a outros casos bem conhecidos (Alberto João Jardim, Santana Lopes, etc.) venha agora à baila o nome de um homem que me havia habituado a ver como um inconformista e um não-alinhado com o situacionismo, diria até, uma consciência cívica do regime. Agora não escondo o meu desalento e a minha tristeza ao constatar que afinal esse homem peca dos mesmos pecados venais dos videirinhos da política, que se estão a marimbar para o país e cuja única preocupação é sua vidinha. O cidadão Manuel Alegre de Melo Duarte devia ter vergonha quando vai à televisão falar em ética e em moral. Será ético e moral (ainda que legal) um deputado passar a auferir de uma reforma de aposentação (ainda que reduzida a um terço, o que corresponde a mais de mil euros) e continuar na Assembleia da República para a acumular com o ordenado de deputado? E será também ético e moral (ainda que legal), um deputado depois de abandonar o Parlamento ficar com duas reformas por inteiro pelo exercício do mesmo cargo? Pois é! O Sr. Manuel Alegre pode ter alguma valia como poeta, mas quanto ao resto é como os demais.
Péssimo tributo está Manuel Alegre a dar à memória do grande Adriano Correia de Oliveira que deu voz a alguns dos seus mais belos versos. "E Alegre se fez triste ... Que fez tão triste a clara madrugada" terá exclamado Adriano na tumba em Avintes por esta traição do seu antigo companheiro de luta, afinal um vulgar "comedor do dinheiro que a uns farta e a outros mata" (acrescentaria Adriano, do poema de Manuel da Fonseca).
E Alegre se Fez Triste
Poema: Manuel Alegre
Música: José Niza
Arranjo e direcção de orquestra: José Calvário
Voz: Adriano Correia de Oliveira
Aquela clara madrugada
Que viu lágrimas correrem no teu rosto
E alegre se fez triste como
Chuva que viesse em pleno Agosto.
Ela só viu meus dedos nos teus dedos
Meu nome no teu nome. E demorados
Viu nossos olhos juntos nos segredos
Que em silêncio dissemos separados.
A clara madrugada em que parti
Só ela viu teu rosto olhando a estrada
Por onde um automóvel se afastava.
E viu que a pátria estava toda em ti
E ouviu dizer adeus, essa palavra
Que fez tão triste a clara madrugada.
(in "Gente de Aqui e de Agora", 1971)
15 julho 2006
Entrevista de Rui Dias José à "Epicur"
Assim inicia Eduardo Miragaia um trabalho de 3 páginas que a edição de Julho da Revista EPICUR dedica aquele profissional da Antena 1. Apresentando-o como "um velho companheiro de estrada jornalística", mas também um velho companheiro na mais pura asserção da palavra", ele acentua a "verticalidade e a autenticidade do ser humano com quem apetece partilharexperiências e aventuras".
Questionado sobre os "muitos anos de andarilho por esse país fora..." responde Rui Dias José:
Fui coleccionando rostos e sensações, conhecendo pessoas, fazendo amizades.
(...)
Chegar a uma terra sozinho, significava ter de (muito rapidamente) entabular diálogo, estabelecer pontos de contacto e formas de abordagem. Na mais das vezes, é o acaso e os instintos que comandam.
Ficou-me o deslumbramento pelos conhecimentos de ocasião... como o taxista apalavrado à saída do Aeroporto de Santa Cruz da Graciosa e que acabou meu "Anjo da Guarda" enquanto por lá estive ou aquele guia-menino que me mostrou a ilha de Moçambique ou o estudante de medicina (angolano e negro) que foi meu intérprete na Bósnia (e que eu tinha de conseguir dissimular quando viajávamos do lado sérvio para o lado muçulmano e vice versa).
É claro que se não esquecem paisagens e sabores... mas são os rostos que permanecem.
Entrevista a merecer leitura atenta (clique aqui).
12 julho 2006
Presunção de referências publicitárias leva ouvinte a dirigir-se ao Provedor
Ex.mo Sr. Mas deixemos os preliminares e avancemos para o essencial.Segunda feira (10/07) ouvia eu o Noticiário das 20h00 na Antena 1. A propósito do “caso Casa Pia”, um repórter divulgava palavras de uma testemunha do Processo, Felícia Cabrita, tendo o cuidado de a identificar (por duas vezes) apenas como jornalista de um “orgão da Comunicação Social escrita”. Como sei perfeitamente que a Felícia Cabrita é do Jornal Expresso, estranhei que o órgão de informação a que ela pertence não fosse identificado. E lembrei-me até de (na passada semana) ter ouvido abundante propaganda a uma empresa alemã que terá disponibilizado a sala onde a Antena 1 realizou uma série de emissões do Mundial. Não... não sonhei - devem existir registos disso e pode (re)ouvir - lembro-me perfeitamente de escutar diversas referências do Sr. António Macedo a essa empresa, identificando-a sempre através da sua designação comercial. Conseguiu até tratar, uma organização privada que exerce uma actividade (legítima e respeitável) de captação de investimentos dos emigrantes portugueses para projectos imobiliários, como se de um organismo benemerente e não lucrativo se tratasse - tantas (e de tal tipo) foram as referências à empresa alemã. Um português, representante local dessa firma, foi alvo de entrevistas em dois dias subsequentes e, obviamente, aproveitou para fazer a propaganda da sua actividade e da rendibilidade dos negócios que propunham à comunidade portuguesa na Alemanha... E isto, pasme-se, na Rádio Pública que não pode identificar o jornal Expresso.As referência a essa entidade privada violaram claramente (pelo menos) dois dos princípios legais e éticos que o Serviço Público de Rádio deveria respeitar: um tem a ver com o desrespeito por regras de concorrência, com o Operador Público de Radiodifusão a privilegiar uma empresa em detrimento de todas as outras que prestam idênticos serviços no ramo imobiliário; outro radica no facto de as referências feitas serem claramente de carácter promocional - descrevendo em pormenor o objecto de negócio, os serviços prestados, o grau de satisfação dos cliente, etc. etc. etc. Mais grave ainda: tudo isto envolto numa roupagem discursiva que poderia levar a pressupor não estarmos perante uma situação de acessoria(?) de transação comercial mas sim perante algum mecanismo de apoio e aconselhamento da emigração ...!!! Espero que ninguém tenha a lata de argumentar que aqueles minutos de publicidade (numa rádio onde ela é liminarmente vedada) constituíam a contrapartida pela cedência de instalações onde se sediaram aquelas emissões. Isto, a ser verdade, seria ainda mais grave. Porque, se à Antena 1 está vedada a venda (ou simples comercialização) de publicidade, ela está também impedida de praticar qualquer tipo de permuta publicitária. E mesmo, em casos especiais de apoio institucional a uma qualquer sua realização, esse suporte terá de ser claramente identificado e não camuflado através de enviesadas entrevistas. Aliás, face aos montantes que vieram a público relativamente aos gastos Rádio e Televisão de Portugal com o Mundial de Futebol, é quase ridícula, e amesquinhante, a situação de trocar umas entrevistas pela disponibilização de um espaçozito para albergar a emissão dos programas da RDP... Até porque, na Taxa para o Audiovisual que nos cobram no recibo da electricidade, já devem estar dinheiros que cheguem para estas coisas... Ou então, acabe-se com o financiamento público e a Antena 1 que procure sobreviver à custa do mercado, como as privadas... Em síntese, não consigo perceber porque é que não se pode dizer que a Felícia Cabrita é do Expresso mas se pode divulgar os negócios desenvolvidos pela tal empresa alemã onde a RDP se aboletou para as emissões do campeonato do Mundo. Razão que me dá a ousadia de incomodar Vossa Excelência, buscando, através de si, o esclarecimento destas tão estranhas relações de "peso e medida" Respeitosamente, |
Vou ficar atenta a respostas e desenvolvimentos...
11 julho 2006
Antena 2: porquê a suspensão/extinção dos programas de autor?
04 julho 2006
Espaços musicais no Rádio Clube Português
Como é sabido, a situação da música de qualidade, na generalidade das rádios nacionais, é indiscutivelmente má (para não dizer péssima), o que para tal muito tem contribuído a tacanhez e incultura dos indivíduos a quem têm sido confiadas as 'playlists', os quais se limitam a decalcar o que de pior é feito em terras do Tio Sam. E se isto é verdade para a música de proveniência ou de matriz anglo-saxónica, ainda o é com maior acuidade para as músicas de outras matrizes culturais e linguísticas, designadamente as latinas – francesa, italiana, hispânica e lusófona. No caso concreto da música portuguesa, a situação de marginalização a que ela vinha sendo votada pelas rádios de cobertura nacional era de tal ordem que se tornou imperiosa a aprovação de uma nova lei a determinar quotas mínimas obrigatórias. Como já tive oportunidade de dizer num texto publicado em 13 de Janeiro passado, não são as quotas, por si só, que irão resolver o problema da música portuguesa no seu conjunto porque há um problema cultural nas chefias das rádios que ainda está por resolver. No entanto, não me recuso a admitir que o facto da lei existir (ou melhor a ameaça de pesadas penalizações ao seu incumprimento) possa ter como efeito secundário o surgimento de espaços reservados à música portuguesa e não apenas a subida da frequência com que determinados nomes (os fregueses do costume) aparecem nas 'playlists'. Penso que a existência de espaços musicais temáticos organizados por géneros e estilos é a melhor forma de corresponder às diferentes expectativas e sensibilidades dos vários segmentos do auditório. Uma 'playlist' onde, por exemplo, a seguir aos Creedence Clearwater Revival passam os Santos e Pecadores, ou a seguir a Nara Leão passa a Madonna acaba por se tornar uma coisa incaracterística e indigesta e, que sob o pretexto de agradar a todos os públicos, acaba por não satisfazer verdadeiramente ninguém. O ecletismo deve ser defendido, mas penso que a melhor forma de lhe dar expressão numa rádio generalista é através de espaços diferenciados por géneros e estilos musicais e com uma linha editorial coerente, onde cada ouvinte já sabe de antemão com o que pode contar (o que propicia a fidelização de públicos distintos na mesma estação emissora). Neste contexto, constato com agrado que no Rádio Clube Português esta filosofia tem vindo a ser desenvolvida sob a direcção de Luís Osório (na foto), um homem dos media que tenho em boa conta (do televisivo "Portugalmente" ainda guardo gratas recordações). Ao Clube Disco (sábados, das 19:00 às 2:00h da manhã) dedicado ao 'disco sound' somam-se agora novos espaços temáticos: Clube do Swing (aos domingos, das 22:00 às 24:00h) dedicado ao jazz cantado (um pouco na esteira de "A Menina Dança?", de José Duarte); Tapete Voador (aos sábados e domingos, das 17:00 às 19:00h) onde passam os grandes nomes do rock e da pop dos anos 60, 70 e 80; e Transatlântico (aos sábados e domingos, das 12:00 às 14:00h) reservado à música portuguesa e brasileira. Relativamente a este último, faço questão de saudar a sua criação porque a boa música de língua portuguesa bem precisa de espaços que lhe dêem guarida, atendendo à marginalização a que tem sido votada nas 'playlists' nas rádios de cobertura nacional. Um programa de música portuguesa e brasileira vem mesmo a calhar para colmatar (ou pelo menos, mitigar) o vazio deixado pelo desaparecimento do programa que José Nuno Martins tinha na Antena 1. A propósito, não seria altura deste modelo de programação musical ser também aplicado no primeiro canal da rádio pública? A adopção de espaços musicais temáticos afigura-se ainda mais pertinente e premente na Antena 1, já que a 'playlist' do Rádio Clube é incomparavelmente melhor (boa parte da música anglo-americana que passa no Rádio Clube conta-se entre a melhor de sempre, bem diferente do lixo que pulula nas Antena 1 e 3). Entristece-me e revolta-me o caminho que vem sendo trilhado pela rádio pública, mas congratulo-me que seja uma rádio privada – no caso o Rádio Clube – que esteja a concretizar medidas consentâneas com o conceito de serviço público. E é justamente neste âmbito que aproveito para deixar algumas propostas à consideração de Luís Osório:
1 – um espaço onde se pudessem ouvir os discos sugeridos por Nuno Rogeiro, de preferência com pequenas notas sobre as músicas e os respectivos autores/intérpretes;
2 – no "Tapete Voador", em vez de um alinhamento com rock e pop misturados penso que seria mais inteligente separá-los em blocos diferentes. Quem se deleita a ouvir The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Led Zeppelin ou Deep Purple é muito provável que sinta pouco (ou nenhum) prazer a ouvir The Carpenters, Carly Simon, Diana Ross ou Sheena Easton, e vice-versa. E isto não significa nenhum juízo de valor a respeito dos nomes citados e dos respectivos estilos: trata-se apenas não misturar alhos com bugalhos e de pôr cada macaco no seu galho. E já agora aproveito para manifestar o meu desejo pelo reforço no "Tapete Voador" do 'blues rock' e do rock progressivo, estilos que emergiram na segunda metade da década de 60 e estariam no auge até meados dos anos 70. Alguns exemplos: The Animals, The Paul Butterfield Blues Band, Cream, The Yardbirds, Bluesbreakers, Eric Clapton, Jeff Beck, Ten Years After, The Who, Mothers of Invention/Frank Zappa, Genesis, Yes, Rick Wakeman, King Crimson, Procol Harum, Van Der Graaf Generator, Jethro Tull, Pink Floyd;
3 – um espaço dedicado ao country e também ao folk de ambos os lados do Atlântico;
4 – um espaço reservado à música latina – francesa, italiana, espanhola e hispano-americana;
5 – um espaço dedicado ao fado, desde o antigo ao mais recente e incluindo também a canção coimbrã;
6 – maior atenção no "Transatlântico" (ou noutro espaço a criar) à música popular portuguesa (tradicional e de autor), uma área importantíssima da nossa criação musical mas muito mal tratada nas rádios nacionais. A título exemplificativo, apresento um rol de cantores, músicos e agrupamentos de qualidade que inclui boa parte dos nomes maiores da música portuguesa de sempre: Fausto Bordalo Dias, Vitorino, Janita Salomé, Pedro Barroso, Manuel Freire, Luiz Goes, Paco Bandeira, José Mário Branco, Luís Cília, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Afonso Dias, João Afonso, Amélia Muge, Filipa Pais, Né Ladeiras, Carlos Paredes, Pedro Caldeira Cabral, Júlio Pereira, Rão Kyao, Pedro Jóia, José Peixoto, Joel Xavier, Eduardo Ramos, José Medeiros, Francisco Naia, Isabel Silvestre, Teresa Silva Carvalho, Brigada Victor Jara, Ronda dos Quatro Caminhos, Vai de Roda, Maio Moço, Navegante, Raízes, Pedra d'Hera, Rosa-dos-Ventos, Belaurora, Almanaque, Quadrilha, Contrabando, Real Companhia, Frei Fado d'El-Rei, Realejo, Danças Ocultas, At-Tambur, Roldana Folk, Mandrágora, Mu, Dazkarieh, Chuchurumel, Galandum Galundaina, Popularis, Trovas à Toa, Nem Truz Nem Muz, Dar de Vaia, Roda Pé, Modas ao Luar, Segue-me à Capela, Moçoilas, etc..
02 julho 2006
Provedor do Ouvinte:
disponível na net, mas sem formas de contacto
"(...) o ombudsman da rádio pública portuguesa tem finalmente um espaço no site da RDP. Contém informações sobre José Nuno Martins, o estatuto do provedor, o programa a emitir e os propósitos do provedor. |
Fica o Luís Bonixe e... ficamos nós todos!
24 junho 2006
19 junho 2006
Músicas cortadas (II)
Em 15 de Março passado, manifestei aqui o meu protesto contra o hábito de cortar as músicas escolhidas por Luís Filipe Barros na rubrica "Outras Histórias da Música". Agora sinto-me impelido a intervir novamente porque infelizmente a prática do corte, em vez de ser erradicada, pelo contrário, tornou-se extensiva à rubrica "Os Reis da Rádio" que vai para o ar, na emissão da Antena 1, um pouco antes das 8 horas da manhã. Mas agora o problema é ainda mais grave: se o tema escolhido por Luís Filipe Barros era cortado a meio, as músicas escolhidas pelos Reis da rádio são cortadas logo à nascença, mal soem os primeiros acordes. Foi assim com um tema de Júlio Pereira escolhido por Cândido Mota na semana passada e voltou a acontecer o mesmo hoje de manhã com a música escolhida por Pedro Castelo prontamente substituída por uma qualquer musiquinha descartável. Não posso deixar de perguntar: por que é que isto se está a passar? Será que é o locutor António Macedo (na foto), que assegura a continuidade do programa da manhã, que não gosta das músicas seleccionadas pelos Reis da Rádio ou será que está a agir cumprindo recados de alguém? Qualquer que seja a hipótese, a situação é muito grave e por duas razões muito simples: primeira, trata-se de um intolerável acto de censura musical; segunda, constitui um descarado e desrespeitoso acto de sabotagem ao trabalho dos autores da rubrica "Os Reis da Rádio", todos eles figuras de referência da rádio portuguesa. E, por estranha coincidência, algumas das músicas suprimidas pertencem, nem mais nem menos, a artistas boicotados na 'playlist'. Isto acontecerá por mera casualidade ou haverá por detrás a mãozinha de quem está empenhado em silenciar os nomes do infame Index?
16 junho 2006
Carta ao Provedor do Ouvinte da RDP
(http://www.rtp.pt/wportal/grupo/provedor_ouvinte/contactos.php)
Assunto: Música portuguesa na RDP-Antena 1
Exmo. Sr. Provedor do Ouvinte da Rádio Pública,
Segundo a legislação que enquadra o serviço público de radiodifusão é obrigação da rádio pública a defesa e promoção da língua e cultura portuguesas e dos valores que definem a identidade portuguesa. Ora acontece que a música portuguesa (cantada em português ou instrumental) é justamente uma das artes que melhor exprime os valores da portugalidade e um veículo privilegiado para a promoção e cultivo da língua lusa. A empresa pública de radiodifusão – RDP – tem três canais nacionais: um cultural – a Antena 2, reservado à música clássica, ao jazz e à cultura de pendor mais erudito; e dois canais generalistas – a Antena 3, dedicado aos jovens e que emite música anglo-americana e algum pop/rock de produção nacional; e a Antena 1, reservado à informação, ao futebol e à música não erudita em geral, devendo cumprir por imposição legal uma determinada quota de música portuguesa. Assim sendo, quando sintonizamos a Antena 1 seria expectável que ela nos desse a ouvir a melhor música (não erudita) que se faz (ou fez) em Portugal, abrangendo os vários estilos e contemplando um leque de artistas – cantores, músicos e grupos – tão amplo quanto possível, desde os nomes consagrados e de créditos firmados até aos mais novos e em início de carreira. Como sou um ouvinte atento, posso testemunhar com conhecimento de causa que não é isto o que tem vindo a acontecer na Antena 1, com as honrosas excepções da rubrica "Alma Lusa", de Edgar Canelas e de quatro programas de autor, todos eles de periodicidade semanal: "Lugar ao Sul", de Rafael Correia; "Vozes da Lusofonia" e "Passeio Público", de Edgar Canelas; e "Viva a Música", de Armando Carvalheda. Como o Sr. Provedor saberá certamente melhor do que eu, o grosso da música portuguesa que passa na Antena 1, embora apresentada pelos locutores de continuidade, não é escolhida por eles já que são obrigados a tocar os temas de uma lista pré-definida debitada por um sistema informático, vulgarmente conhecida por 'playlist'. Acontece que a maior parte da música portuguesa escolhida para figurar nessa 'playlist' não prima pela qualidade nem pela diversidade. Admito que a qualidade nem sempre seja fácil de averiguar porque, por um lado lado, depende dos critérios usados e, por outro, há sempre um apreciável grau de subjectividade na sua avaliação. Já mais fácil e objectiva de analisar é a falta de diversidade de estilos musicais representados na 'playlist', o notório desequilíbrio entre os artistas contemplados e a exclusão inconcebível de muitos outros. Embora com algumas dúvidas (que só uma monitorização externa e isenta poderá desfazer), não contesto que a Antena 1 esteja a cumprir a percentagem de música portuguesa legalmente estipulada, mas é inegável que o preenchimento de tal quota é feito de uma forma tendenciosa, enviesada, e com distorções aberrantes e intoleráveis. Senão vejamos: há um lote de artistas (todos da área da pop) que tem uma promoção desmesurada através da repetição massiva de um ou dois temas (todos os dias e mais do que uma vez), outros passam muito raramente enquanto que um extenso rol de nomes de reconhecida qualidade está a ser alvo de um escandaloso boicote (vide o Index da Música Portuguesa, em anexo). É caso para dizer: uns são filhos, alguns outros enteados e a grande maioria nem sequer enteados chegam a ser – foram pura e simplesmente expulsos de casa como se tivessem a peste. Em face disto, há uma pergunta que se impõe: se não é devido à falta qualidade, então como se explica que tantos artistas de mérito não tenham lugar (ou tenham uma presença residual) na 'playlist'? O quadrante ideológico desses cantores e músicos? Neste momento, já nem parece válida a hipótese de alguns estarem a ser ostracizados em virtude da sua ideologia política ou filiação partidária. De facto, terá de se reconhecer que a censura é já transversal a todo o espectro político. Ao dar-se uma vista de olhos pelo Index, verifica-se que ao lado de nomes declaradamente de esquerda constam também nomes do centro, de direita e inclusive figuras sem orientação ideológica bem definida ou publicamente declarada. Será então a discricionaridade do chefe de 'playlist' em razão do seu subjectivo gosto pessoal e da sua afeição ou simpatia por certos nomes? Bem sei que há, em cada um de nós, uma tendência natural para sobrevalorizarmos a música de que gostamos e desdenharmos aquela que não apreciamos. Isso é perfeitamente legítimo quando se trata de escolher a música para o nosso próprio consumo, mas já se torna abusivo fazer uso do lugar que se ocupa numa entidade pública para impingir aos outros as nossas preferências. E quando essas preferências revelam uma mundividência musical bastante limitada e afunilada da parte de quem as tenta impor, ainda mais abusivo e inaceitável se torna. A primeira impressão com que se fica ao ouvir os alinhamentos de continuidade da Antena 1 é que quem escolhe a música deve ser alguém cujas fontes de informação musical se restringem à MTV e ao "Blitz", o que convenhamos é muito pouco para quem tem a seu cargo mais de 90 % da música de um canal de serviço público. E como se isto não bastasse há outro problema ainda mais preocupante. De acordo com informações que me foram facultadas por fontes seguras e credíveis, algumas atitudes e procedimentos do chefe de 'playlist', dentro e fora da RDP, indiciam uma muito obscura ligação a determinados managers e editoras demasiado preponderantes e influentes na passagem dos seus artistas, ao passo que outros não conseguem qualquer tipo de penetração nesse reservado espaço radiofónico. A continuidade deste fenómeno denota uma prepotência e uma impunidade que assustam num país supostamente sem censura, de livre expressão, criação e acesso que, deste modo, vê, sem uma razão plausível, proliferarem manobras demasiado evidentes e atentatórias dos mais elementares princípios éticos e deontológicos para poderem ser ignoradas. O estado a que as coisas chegaram estava mesmo a pedir uma investigação/operação do tipo "playlist dourada"! Apenas um parêntesis para lembrar que nos liberalíssimos Estados Unidos da América já são vários os processos judiciais que as 'majors' discográficas têm às costas por controlo e corrupção activa nas rádios. Por cá, recusamo-nos a ver o que salta à vista e continuamos a fazer de conta que vivemos no melhor dos mundos. Pessoalmente, se quer que lhe diga, até nem me interessa muito saber se os conteúdos e o figurino da 'playlist' da Antena 1 são da inteira e exclusiva responsabilidade do chefe de 'playlist' (em total autonomia e com carta branca da direcção) ou se reflectem os ditames e orientações vindas de cima. Agora, uma coisa que eu não posso aceitar é que a 'playlist' – que não devia ser mais do que uma ferramenta de trabalho – esteja a ser usada como um instrumento de censura e de silenciamento de uma parte muito significativa do melhor da criação musical portuguesa (actual e passada) e, na prática, reduzida a mera extensão dos departamentos comerciais das editoras mais poderosas, em especial das multinacionais. Quem se der ao cuidado de ouvir com alguma atenção os alinhamentos musicais da Antena 1 (fora dos escassos programas de autor) não pode deixar de constatar que o canal de maior audiência da rádio do Estado foi transformado numa fábrica de sucessos por repetição, qual carrossel que não para de girar. Por outro lado, o tratamento desigual que a rádio pública dá aos artistas do nosso meio musical, ostracizando muitos de mérito incontestado e favorecendo outros de qualidade mais que duvidosa, tem ainda outro efeito perverso: como a radiodifusão de obras musicais está sujeita ao pagamento de direitos de autor, a RDP terá de entregar à SPA um determinado valor por cada passagem de uma determinada peça musical ou poético-musical e, como tal, os autores de uma determinada obra receberão tanto mais quanto maior o número de vezes que ela for radiodifundida. Tendencialmente serão vendidos muitos mais discos e mais pessoas afluirão aos concertos, mas mesmo que o auditório não seja muito receptivo às músicas insistentemente rodadas, os respectivos autores têm sempre garantida uma boa maquia relativa a direitos de reprodução radiofónica, dinheiro esse que teve origem na contribuição do audiovisual e nos impostos pagos pelos contribuintes. É muito triste e deveras revoltante constatar que o meu dinheiro e de demais cidadãos e empresas de Portugal vá parar aos bolsos de medíocres e não seja a justa compensação que os melhores artistas deveriam receber como reconhecimento do valor do seu trabalho e como estímulo para continuarem a criar obras que enriqueçam o nosso património musical. A repetição massiva de determinadas músicas de cariz mais comercial pode aceitar-se numa rádio privada (que até pode ter um contrato ou avença de promoção com o respectivo artista, editora ou agência de management) mas é totalmente absurda, descabida e inaceitável numa rádio cujo financiamento é assegurado por dinheiros públicos. Não haverá uma notória distorção do serviço público quando a esmagadora maioria da música que passa na Antena 1 é aquela que é ditada por uma 'playlist' formatada segundo os mesmos modelos das rádios que dependem do mercado publicitário? Isto assume ainda maior gravidade em virtude de quase não existirem espaços musicais de autor, que pudessem dar expressão à música de qualidade sonegada pela 'playlist' ou que nela tem uma presença residual (passagens esporádicas e em horários de menor audiência). Por exemplo, não se compreende que boa parte dos nomes (dos novos aos consagrados), não catalogáveis com o rótulo 'pop', que Armando Carvalheda e Edgar Canelas convidam – e muito bem – para apresentarem os seus trabalhos nos programas "Viva a Música" e "Vozes da Lusofonia", fiquem de fora da 'playlist' ou dela sejam rapidamente banidos ao fim de duas ou três semanas. Devo dizer-lhe, para que fique bem claro, que não tenho nada contra a música pop pois até gosto de alguns nomes. Defendo, inclusive, que a música pop tem o seu lugar na rádio pública, mas já não me parece razoável que lhe seja dado um destaque tão hegemónico que praticamente não deixa lugar para as outras vertentes e sensibilidades musicais autóctones. É completamente inaceitável que tanto o fado como a música popular portuguesa (tradicional e de autor) – os géneros que melhor definem a nossa identidade e no seio dos quais surgiram os valores maiores da nossa música (não erudita) – estejam a ser tratados de forma tão ignominiosa pela estação que, por acaso, até se auto-proclama de ser "a rádio que liga Portugal". E se considerarmos globalmente os três canais nacionais da RDP constatamos que até o jazz, o blues e a música étnica mundial têm mais tempo de antena que o fado e a música popular e tradicional portuguesa. É uma conta fácil de fazer: sete horas e meia por semana para o jazz, mais uma hora para o blues e mais cinco horas para a música étnica perfaz o total de treze horas e meia semanais, ou seja, o triplo do tempo que o fado e a música popular/tradicional/folk portuguesa ocupam em conjunto nas três grelhas. Será isto aceitável? Como cidadão, contribuinte e ouvinte, sinto-me no dever de pugnar para que os direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República Portuguesa me outorga sejam respeitados. Formalmente deixou de haver censura, mas todos sabemos que continuam a existir práticas e atitudes que não sendo assumidas como censura, na verdade não são outra coisa. Utilizar a técnica da repetição de determinados nomes (sempre os mesmos!), sonegando muitos outros, não será uma forma encapotada de censura? Quando o principal canal da rádio pública portuguesa me impinge, com a repetição ad nauseam, as musiquinhas do género pop e se recusa a facultar-me a audição de temas e composições de outras áreas, não me estará a impor ostensivamente uma preconceituosa orientação estética, impedindo-me de ser eu a escolher? Com que legitimidade é que a rádio oficial de um país constitucionalmente democrático e pluralista pode tomar partido a favor uma dada linguagem musical – no caso a música pop – e ao mesmo tempo menosprezar as outras formas da música popular, designadamente as mais idiossincraticamente portuguesas? Não ficará seriamente posta em causa a liberdade de acesso do ouvinte de rádio à pluralidade da expressão musical dos criadores do seu país? Sendo a rádio o veículo entre o artista e o ouvinte, quando o elo é quebrado não se estará a coarctar o direito e a liberdade quer do artista em dar a conhecer a sua obra quer do ouvinte já não digo em frui-la em pleno, mas pelo menos em dela tomar conhecimento? Quantos artistas e trabalhos discográficos de qualidade não ficarão assim na sombra e ignorados ou despercebidos pelos sectores do público, seus potenciais apreciadores e consumidores? Neste âmbito, é pertinente perguntar: para que existe a rádio pública? É para satisfazer interesses privados e corporativos ignorando as suas obrigações de serviço público e fazendo tábua rasa dos direitos dos ouvintes que tem por missão servir? É para isto que os cidadãos e empresas de Portugal pagam uma taxa que lhes é cobrada coercivamente? Convém não esquecer que o pagamento da dita taxa pressupõe como contrapartida a prestação de um serviço específico, no caso concreto, a divulgação da produção musical nacional. Ora é bem evidente que esse serviço não está a corresponder às expectativas dos vastos segmentos do auditório que gostam de música portuguesa mas não se satisfazem (apenas) com a pop. Creio mesmo haver legitimidade – moral e jurídica – em objectar o pagamento da contribuição do audiovisual atendendo à notória infracção do princípio da reciprocidade. Em cumprimento de um dever de cidadania, vim expor ao Sr. Provedor a minha reclamação relativamente a uma situação flagrantemente lesiva dos meus direitos e liberdades de cidadão enquanto ouvinte da rádio pública, mas que extravasa esse âmbito uma vez que tem também graves repercussões culturais e económicas. Por conseguinte, apelo ao Sr. Provedor para que se digne apreciar este assunto e de emitir um parecer que propicie a necessária e urgente correcção do problema. A bem do serviço público de rádio!
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Álvaro José Ferreira
Anexo: Index da Música Portuguesa
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Index da Música Portuguesa
(RDP-Antena 1)
A lista que se segue, embora não sendo exaustiva, serve para exemplificar a situação da música portuguesa nos alinhamentos de continuidade ('playlist') da rádio pública, a estação que os cidadãos e empresas de Portugal financiam com a contribuição áudio-visual (antiga taxa de radiodifusão) cobrada na factura mensal de electricidade (Lei 30/2003).
Banidos/excluídos da play-list da Antena 1
Adriano Correia de Oliveira
José Carvalho
Aldina Duarte
José Medeiros
Alfredo Marceneiro
José Peixoto
Almanaque
Júlio Pereira
Amália Rodrigues
Laurent Filipe
Amélia Muge
Lua Extravagante
Anabela
Lucília do Carmo
Anamar
Luís Cília
Ana Moura
Luiz Goes
Ana Sofia Varela
Lula Pena
António Chaínho
Maio Moço
António Emiliano
Mandrágora
António Pinho Vargas
Manuel Freire
António Pinto Basto
Mare Nostrum
António Zambujo
Margarida Bessa
Aqua d'Iris
Maria Ana Bobone
Argentina Santos
Maria Viana
At-Tambur
Melodias do Vento
Banda do Casaco
Mendes Harmónica Trio
Belaurora
Moçoilas
Bernardo Sassetti
Modas ao Luar
Brigada Victor Jara
Mu
Canto da Terra
Naná Sousa Dias
Canto Nono
Navegante
Carla Pires
Negros de Luz
Carlos Alberto Moniz
Nem Truz Nem Muz
Carlos Barretto
Nuno da Câmara Pereira
Carlos Martins
Nuno Guerreiro
Carlos Paredes
Ódagaita
Carlos Zíngaro
Orchestra Nova Harmonia
Célia Barroca
Paco Bandeira
Chuchurumel
Paulo Bragança
Ciganos D' Ouro
Pedra d'Hera
Contrabando
Pedro Barroso
Corvos
Pedro Caldeira Cabral
Cristina Branco
Pedro Jóia
Danças Ocultas
Pedro Moutinho
Dar de Vaia
Pilar Homem de Mello
Dazkarieh
Popularis
D'Corda
Quadrilha
Dead Combo
Quarteto 1111
Duo Ouro Negro
Quinteto Amália
Eduardo Ramos
Quinteto de Jazz de Lisboa
Fernando Farinha
Quinteto Lusitânia
Fernando Girão
Raízes
Fernando Machado Soares
Rão Kyao
Fernando Maurício
Real Companhia
Filarmónica Fraude
Realejo
Frei Fado d'El-Rei
Rodrigo
Francisco Naia
Roldana Folk
Gaiteiros de Lisboa
Ronda dos Quatro Caminhos
Galandum Galundaina
Rosa dos Ventos
Isabel Silvestre
Samuel
Janita Salomé
Segue-me à Capela
Joana Amendoeira
Teresa Silva Carvalho
João Braga
Terrakota
João Chora
Tet Vocal
João Lóio
Trovas à Toa
Joel Xavier
Vai de Roda
Jorge Rivotti
Vá de Viró
José Barros
Vicente da Câmara
TODA A MÚSICA DE COIMBRA
Passagens esporádicas e quase sempre o mesmo tema
Afonso Dias
Mafalda Veiga
Ala dos Namorados
Maria João e Mário Laginha
Ana Laíns
Mariza
Belle Chase Hotel
Marta Dias
Camaleão Azul
Mísia
Camané
Naifa, A
Carlos do Carmo
Né Ladeiras
Carlos Mendes
Paula Oliveira e Bernardo Moreira
Eugénia Melo e Castro
Quinta do Bill
Fausto Bordalo Dias
Rio Grande
Fernando Tordo
Rodrigo Leão
Filipa Pais
Sara Tavares
Jáfumega
Sétima Legião
João Afonso
Sheiks
José Afonso
Som Ibérico
José Mário Branco
Três Tristes Tigres
Katia Guerreiro
Trovante
Luís Portugal
UHF
Madredeus
Vitorino
Mafalda Arnauth
Vozes da Rádio
Última actualização: 11-07-2006










