Gravado em finais de Abril de 1971, no Strawberry Studio, de Michel Magne, em Château d'Hérouville (arredores de Paris), o LP "Os Sobreviventes", o primeiro de Sérgio Godinho, só seria publicado no ano seguinte, em Setembro. Assim aconteceu por estratégia comercial da editora, a Sassetti, para não fazer concorrência ao LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", de José Mário Branco, que foi a grande aposta da casa para o último trimestre de 1971, o mesmo em que a Orfeu, de Arnaldo Trindade, também editou os álbuns "Cantigas do Maio", de José Afonso, e "Gente de Aqui e de Agora", de Adriano Correia de Oliveira.
Do que o álbum de Sérgio Godinho não se livrou foi das garras da Censura, ao ser interditado três dias após o lançamento, sendo sucessivamente autorizado e novamente proibido. Adversidade que não impedirá que a Casa da Imprensa o venha a distinguir com o Prémio de Melhor Disco Português do Ano.
A abrir o alinhamento foi colocada, suspeitamos que não por acaso, "Que Força É Essa?", uma canção ao mesmo tempo de consciencialização e de repto dirigidos ao operariado. É de crer que Sérgio Godinho se tenha inspirado na situação concreta de exploração dos emigrantes portugueses em França, a trabalhar na construção civil, mas os principais destinatários da mensagem eram os que viviam cá dentro, sob a vigência da ditadura, ainda mais mal pagos, com piores condições de trabalho e menos direitos laborais. A Revolução dos Cravos, eclodida dois anos mais tarde, permitiu que os operários passassem a ser mais justamente remunerados e vissem estabelecidos na lei direitos que antes lhes eram negados.
Poder-se-ia supor que, decorrido quase meio século, a canção tivesse ficado datada, logo sem sentido no Portugal de hoje. Pura ilusão! A situação dos trabalhadores manuais e menos qualificados, mormente os imigrantes, retrocedeu consideravelmente. Um retrocesso que teve o condão de também atingir estratos sócio-culturais que outrora estavam a salvo. De facto, a globalização e a gradual proletarização da classe média fizeram engrossar o exército dos «humilhados e ofendidos» com uma inusitada chusma de trabalhadores com estudos superiores, na maioria jovens, que nem mesmo munidos de um canudo escapam à desvergonha de serem pagos com o salário mínimo. E, ainda por cima, em inúmeros casos, laborando mais de oito horas por dia e sem vínculo estável, o que se repercute muito negativamente na natalidade, comprometendo-se assim o futuro do país. As gerações mais novas têm inteira razão em se queixarem da impiedosa exploração a que estão a ser sujeitas e, nessa medida, uma canção em que se refere «Vi-te a trabalhar o dia inteiro, / muita força p'ra pouco dinheiro! / Que força é essa, amigo, / que te põe de bem com outros / e de mal contigo?» diz-lhes muito respeito. Apresentando-a aqui, no Dia do Trabalhador, manifestamos-lhes a nossa solidariedade.
A maioria dos trabalhadores, residentes em Portugal (continental e insular), não aufere outro rendimento que não seja o do trabalho. É com esse dinheiro, geralmente escasso, que tem de fazer face a todas as despesas, incluindo as impostas por lei como é o caso da contribuição do audiovisual, a qual se cifra presentemente em 34,20 euros por ano. Ora atendendo a que não se trata de um valor desprezível, seria de toda a justeza que a rádio pública, em particular a Antena 1, reconhecesse esse esforço com a transmissão ao longo deste dia, que aos trabalhadores é dedicado, de um lote de canções de trabalho ou com ele relacionadas. Nos acervos de recolhas fonográficas da tradição oral, as canções de trabalho são mais do que muitas, existindo também em abundância, publicadas em disco, magníficas recriações feitas por artistas e grupos categorizados. Pois demo-nos ao cuidado, apesar do sacrifício, de manter a emissão da Antena 1 debaixo de escrutínio nas últimas horas, mas nada lográmos ouvir de canções de trabalho. Apenas as banais cançonetas do costume, quase todas dificilmente suportáveis de escutar por inteiro (nessas, o truque foi retirar o som durante 3 minutos).
Conclusão simples e triste: a inércia e a preguiça voltaram a sobrepor-se ao dever de bem servir os ouvintes!
Que Força É Essa?
Letra e música: Sérgio Godinho* (in LP "Os Sobreviventes", Guilda da Música/Sassetti, 1972, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001, 2019)
[instrumental]
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades p'ra os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p'ra pouco dinheiro!...
Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
[instrumental]
Não me digas que não me compr'endes!
Quando os dias se tornam azedos,
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes!
Não me digas que não me compr'endes!...
Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
[instrumental]
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
construir as cidades p'ra os outros,
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro!
Vi-te a trabalhar o dia inteiro,
muita força p'ra pouco dinheiro!...
Que força é essa?
Que força é essa
que trazes nos braços,
que só te serve para obedecer,
que só te manda obedecer?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo,
que te põe de bem com outros
e de mal contigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
Que força é essa, amigo?
* Sérgio Godinho – voz, guitarra acústica, piano, gaita 'bagu' (kazoo)
Christian Padovan – baixo eléctrico
Uli Plech – flauta
Gérard Crapoutchik – guitarra eléctrica
Cras – bateria
Isabel Alves Costa – coros
José Mário Branco – guitarra acústica, órgão, xilofone, coros
Sheila Charlesworth – coros
Produção e arranjos – José Mário Branco, com a contribuição de todos os músicos
Gravado no Strawberry Studio, Château d'Hérouville (arredores de Paris), em finais de Abril de 1971
Engenheiro de som – Gilles Sallé
Capa do LP "Os Sobreviventes", de Sérgio Godinho (Guilda da Música/Sassetti, 1972)
Fotografia – Michel Morange
Concepção – Armando Alves
Foi na madrugada de 25 de Abril de 1974, perfez na de hoje 45 anos, que uma bem-sucedida operação militar comandada por oficiais intermédios das Forças Armadas derrubou o já caquéctico Estado Novo e tornou em realidade o sonho de Liberdade que o Povo Português há muito almejava. Povo esse que logo nessa manhã foi para as ruas dar largas à alegria e ao júbilo que sentia pelo fim da repressão e da mordaça. Esse momento histórico de exaltação festiva está descrito, com grande eloquência, na canção "O Madrugar de um Sonho", concebida pelo poeta Frederico de Brito e magistralmente interpretada por Carlos do Carmo. É pois com este belo espécime poético-musical, que tão bem documenta a Revolução dos Cravos, que celebramos o Dia da Liberdade.
Quando se oferece a liberdade a um preso ou amordaçado é de todo improvável e inverosímil que ele a recuse. Porque é contranatura: a liberdade é, para o ser humano, (quase) tão essencial como o ar que respira. Esse é o motivo de estarem condenados a prazo os regimes que a coarctam. Ainda assim, nenhuma democracia tem garantida a vida eterna se perder a capacidade de se auto-regenerar e descurar o combate aos parasitas (leia-se 'os corruptos e certos interesses instalados') que lhe sugam a seiva vital.
Num país em cuja Constituição a liberdade de expressão está consagrada, era expectável que não houvesse Censura. Mas será que ela não existe mesmo, hoje em dia? Atente-se no caso concreto da música que passa na Antena 1 durante as larguíssimas horas da emissão de continuidade, e que é debita por um computador, a partir de um lote de canções previamente escolhidas e mediante um determinado padrão de repetição – lista de difusão essa vulgarmente denominada de 'playlist'. Pela miríade de artistas portugueses de mérito – desde os mais antigos aos mais recentes – que é deixada de fora, e pela desmesurada presença de produtos medíocres (endógenos e exógenos), salta aos olhos (ou aos ouvidos, melhor dizendo) que há ali uma atitude censória. Não assumida nem declarada, mas bem real. Não nos custa admitir que não exista uma determinação da tutela governamental – Ministério da Cultura – nesse sentido, mas jamais poderemos aceitar que quem tem competência e poderes para debelar o mal continue a 'assobiar para o lado', como se aquela aberrante situação fosse a mais normal de todas num Estado que se autoproclama de democrático e diz garantir a liberdade de expressão do pensamento e da criação artística (no caso, da musical).
O Madrugar de um Sonho
Letra e música: Frederico de Brito
Arranjo: Pedro Osório
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Álbum", Philips/Polygram, 1980, reed. Universal Music, 2003, Universal Music, Série '50 Anos', 2013)
[vozes de populares e Francisco Sousa Tavares / instrumental]
Sonhei... que já alta madrugada,
Viera a Razão armada
P'ra defender a Cidade;
Olhei... e vi que este nosso Povo
Levantara-se de novo
Aos vivas à Liberdade.
Depois..., e já de janela aberta,
Ouvi um bradar – "Alerta!" –
E o eco, p'la rua fora,
Gritou p'ra dizer com Razão pura
Que uma era de tortura
Terminava àquela hora!
Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!
Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!
Saí... e vi uns homens libertos,
Todos de braços abertos...
Todos a pedir justiça!
Alguns já de saúde perdida
E com metade da vida
Em prisões de luz mortiça.
Ouvi... milhões de palmas e brados;
Trabalhadores e soldados
Vivendo a mesma euforia;
Senti... que havia um Portugal novo;
Vi tão alegre o meu povo,
Que até chorei de alegria!
Julguei ser um sonho,
Mas foi realidade;
E às vezes suponho
Que não foi verdade!
Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!
[instrumental]
Mas se alguém disser
"Não há Liberdade!",
Eu posso morrer
Mas não é verdade!
* Direcção de orquestra – Pedro Osório
Gravação – José Manuel Fortes, nos Estúdios RPE, Lisboa
Capa do LP "Álbum", de Carlos do Carmo (Philips/Polygram, 1980)
Fotografia – Inácio Ludgero
Concepção – Joaquim de Brito
Um homem morto. Uma realidade directa, que me tocava de perto. Tinha estropiado cadáveres na morgue; chegara a ver enfermos a agonizar durante as lições nas enfermarias; vivia cercado de doenças, misérias, estertores. Mas tudo isso eram acontecimentos necessários para a lógica dos tratados. Esta morte dizia-me respeito. Conhecera o primo Lucas longe desse ambiente; era um homem, uma coisa viva e misturada nas recordações da minha infância; um ser pronto a sofrer, pronto aos júbilos e às desventuras. Os outros homens da enfermaria ou do necrotério não tinham para mim uma história, serviam para confirmar uma ciência. Alguma coisa estava brutalmente errada. Haviam-me iludido, magoado. Recebia uma lição. Daí em diante sofreria até à angústia o que é ter uma vida nas nossas mãos, uma vida que nos é entregue: um misto de desafio, de responsabilidade e desespero.
Fernando Namora (excerto da narrativa "A Prima Cláudia", in "Retalhos da Vida de um Médico", I Série, Lisboa: Editorial Inquérito, 1949; Lisboa: Círculo de Leitores, 1996 – p. 39-40).
NAMORA, FERNANDO Gonçalves (15/4/1919, Condeixa-a-Nova - 31/1/1989, Lisboa).
Romancista, ensaísta, poeta – e também pintor – devem-se a Fernando Namora páginas nas quais se perfazem estas múltiplas vocações pessoais, pois que a sua ficção guarda em quase toda ela uma reflexão individual mas solidária com o homem no complexo período que viveu e participou. Foi, porém, sempre um sentimento de comunhão humana que sobretudo o motivou sem que, no entanto, em todas as páginas dos seus livros (inclusive na crónica, que no último quartel da vida também cultivou) não deixe de reflectir-se, como nos seus romances, uma visão plástica das paisagens, como que a ilustrarem literariamente imagens e costumes. A obra tão diversificada não são alheias reflexões sobre ideias e comportamentos individuais ou colectivos e por isso ela é, também, um produto de simultâneos olhares que sendo coerentes com uma séria linha vertical, que era a do autor, de certo modo reflectem uma personalidade simultaneamente atenta, porque desperta e sensível, e preocupada com os grandes problemas individuais e colectivos do seu tempo. Esta evidente preocupação do autor esteve na origem da primeira fase da sua obra, ou antes: marcou-a mais do que às restantes, embora, como atrás se disse, desta não estivesse ausente. Tratava-se de vários factores determinantes, em primeiro lugar o do estilo narrativo da época (As Sete Partidas do Mundo, de 1938). Nesse romance de final da adolescência já se podiam detectar, no entanto, grandes linhas que o autor haveria de manter na vida e na obra. Fora publicado, porém, no rescaldo da sua experiência coimbrã, escolar de Medicina que foi, e a prevalência da cidade universitária e do relacionamento estudantil, não alheia aquela a motivações de aprofundamento psicológico próprio da época socioliterária, e a ascensão entre nós do neo-realismo norte-americano e pouco depois, mas ainda na década, do realismo regionalista brasileiro, foram, ao tempo e posteriormente, detectados pela crítica mais atenta que, no entanto, desde logo soube antever o escritor e narrador de pulso que já ali se poderia adivinhar. Caso curioso, esse romance, tão diferente na técnica e nos temas gerais dos muitos que Namora viria a publicar, deixava, desde logo, notar a garra de um narrador virado para a observação atenta dos costumes e, já então, para os principais problemas da relação humana em sociedade, por mais sui generis ela fosse. O seu segundo romance Fogo na Noite Escura, título cuja intencionalidade discreta era evidente, é ainda a atmosfera universitária coimbrã que, por outros ângulos mais vastos do que no primeiro e muito mais «doutrinados», prevalece. A ficção de Namora, se se aproxima mais do neo-realismo de atmosfera e tema, não deixa de afirmar um pulso de narrador que sucessivamente foi sendo reconhecido. À mesma linha pertencerão ainda a novela Casa da Malta e o romance Minas de San Francisco, respectivamente de 1945 e 1946. Há, porém, no conjunto de uma obra vasta, sobretudo se catalogada, digamos assim, à distância, várias matrizes temáticas que não deixam de estar, directa ou indirectamente, presentes no conjunto da sua vasta produção literária. Serão elas, rapidamente enunciadas e sem qualquer preocupação de estudo crítico que o espaço não comporta (e que, aliás, têm sido já várias vezes referidas), a presença dos meios rústicos da sua origem e de vasta vivência pessoal, embora Coimbra primeiro e Lisboa pela vida fora tenham despertado a atenção, muitas vezes dorida, outras magoada e sempre reflexiva, e a sua carreira profissional de médico, da qual nunca esteve totalmente afastado, pelos interesses profissionais, pelo seu trabalho com Francisco Gentil, no Instituto Português de Oncologia, e pela colaboração duradoura que prestou a uma fábrica de produtos farmacêuticos. Pode dizer-se que essas experiências pessoais lhe foram indesligáveis e proveitosas para a construção de uma extensa obra na qual o homem, como tal, foi sempre tema de investigação e de análise. O homem-indivíduo e o homem-social. O homem-português, do campo e da cidade, numa época, é bom lembrar, na qual era muito menor a possibilidade de observação directa e muito maiores as diferenças culturais e de educação, do que hoje. O que só acrescenta ao mérito intrínseco dos milhares de páginas que nos legou e que, até por isso, são um painel de uma época e um documento. De tudo isto são exemplo as duas séries de Retalhos da Vida de um Médico e as páginas, já de certo modo memorialísticas, das crónicas reunidas no volume A Nave de Pedra, inspirada pela sua juventude de médico em Monsanto, na Beira Baixa, Monsanto, tão indesligável da vida e da figura humana do escritor. Aberto a todas as experiências e desperto para todas as reflexões, em obras suas de horizontes internacionais, portanto muito diferentes e mais vastos, haveriam de reflectir-se os condicionantes e interesses fundamentais da sua experiência humana e intelectual. Assim o demonstram muitas, senão todas as páginas de impressões de viagens por países europeus, sobretudo à Rússia e a nações escandinavas, países e sobretudo povos, tão diferentes do seu e que soube entender e interpretar com larga capacidade humana de adesão e procura. No volume de entrevistas Encontros arquivam-se duas entrevistas de Fernando Namora com o jornalista Alexandre Manuel, publicadas em 1969 e 1976 no Diário de Notícias, nas quais como, aliás, em todas as que esse volume regista, se encontra como que a auto-radiografia, digamos assim, da sua obra como totalidade que representa. Essas entrevistas guardam, também (sobretudo a segunda), as suas impressões da experiência, infelizmente efémera por vontade própria, que foi a sua missão como presidente do então Instituto de Cultura Portuguesa, posteriormente extinto, e à qual se ficou devendo, no conjunto de realizações muito importantes na área editorial, a criação, para o grande público, da «Biblioteca Breve», que durante anos foi um exemplo de acção pedagógica isenta, vertical, variada e de custo acessível, orientada por Álvaro Salema e que foi, até hoje, uma das séries de intenção didáctica mais aliciantes e úteis. Quanto ao conjunto da obra de Namora, tão variada nos temas, motivos e observações, pode concluir-se que o entardecer da vida, longe de lhe diminuir a produtividade, a ampliou a novas mais variadas perspectivas. Inseriu-a em horizontes mais vastos que lhe foi dado conhecer – e aí se pode citar a série dos Cadernos de um Escritor, balanço também de viagens e experiências. No entanto, o romance O Rio Triste, título significativo, é de certo modo, sobretudo nas páginas de implícita análise de tipos femininos e de situações sentimentalmente aprofundadas, uma síntese final de muitas experiências e observações. O conjunto da obra de Namora, visto à perspectiva do tempo e dos factos que ela, directa ou indirectamente comporta, é um painel de uma época e o produto de várias e ricas contradições interiores, postas em termos simultaneamente confessionais e narrativos.
LUÍS FORJAZ TRIGUEIROS (in "Dicionário de Literatura Portuguesa", Org. e dir. Álvaro Manuel Machado, Lisboa: Editorial Presença, 1996 – p. 331-332)
BIBLIOGRFIA:
Ficção: - Cabeças de Barro (contos), em colaboração com Carlos de Oliveira e Artur Varela, Lousã: Moura Marques & Filho Editores, 1937 - As Sete Partidas do Mundo (romance), Coimbra: Portugália, 1938 [Prémio Almeida Garrett, 1938] - Fogo na Noite Escura (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1943; edição refundida, Lisboa: Guimarães Editores, 1956 - Casa da Malta (novela), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1945 - Minas de San Francisco (romance), Col. Novos Prosadores, Coimbra: Coimbra Editora, 1946 [Prémio Ricardo Malheiros, 1953] - A Noite e a Madrugada (romance), Editorial Inquérito, 1950 - O Trigo e o Joio (romance), Lisboa: Guimarães Editores, 1954 - O Homem Disfarçado (romance), Lisboa: Editora Arcádia, 1957 - Cidade Solitária (contos), Lisboa: Editora Arcádia, 1959 - Domingo à Tarde (romance), Lisboa: Livros do Brasil, 1961 [Prémio José Lins do Rego, 1961] - Os Clandestinos (romance), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1972 - Resposta a Matilde (divertimento), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1980 - O Rio Triste (romance), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1982 [Prémio Fernando Chinaglia, 1982; Prémio D. Dinis, 1982; Prémio Fialho de Almeida, 1983]
Biografia, narrativa memorialística e de viagens, crónica: - Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), Lisboa: Editorial Inquérito, 1949 [Prémio Vértice, 1949] - Deuses e Demónios da Medicina (biografias romanceadas), Lisboa: Livros do Brasil, 1952; edição refundida e ampliada, Lisboa: Editora Arcádia, 1963 - Retalhos da Vida de um Médico (narrativas), II Série, Lisboa: Editora Arcádia, 1963 - Diálogo em Setembro (crónica romanceada), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1966 - Um Sino na Montanha (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1968 - Os Adoradores do Sol (cadernos de um escritor), Mem Martins: Publicações Europa-América, 1971 - Estamos no Vento (narrativa literário-sociológica), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1974 - A Nave de Pedra (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1975 - Cavalgada Cinzenta (narrativas de viagem), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1977 - Encontros (entrevistas), Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1979 - Sentados na Relva (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986 - URSS Mal Amada, Bem Amada (crónicas), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1986 - Autobiografia, Lisboa: Edições 'O Jornal', 1987 - Jornal sem Data (cadernos de um escritor), Venda Nova - Amadora: Bertrand Editora, 1988 - Dispersos, 2 vols., org. José Manuel Mendes, Lisboa: Círculo de Leitores, 1999
Poesia: - Relevos, Coimbra: Portugália, 1937 - Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939 - Terra, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941 - As Frias Madrugadas (poesia reunida), Lisboa: Editora Arcádia, 1959 - Marketing, Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969 - Nome para uma Casa, Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984
Arnaldo Trindade, sob o seu selo Orfeu, editou em 1980, o LP "Fernando Namora Diz Fernando Namora" contendo oito poemas e excertos da narrativa "Piquenique" (do livro "Cidade Solitária"). Um registo que nunca foi editado em CD (que seja do nosso conhecimento).
Já no presente século, saíram mais dois discos preenchidos, parcial ou integralmente, com poesia namoriana: "Sandálias de Vento" (2002), do cantautor Francisco Ceia, e "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso (recitação) e de Luísa Amaro (música e guitarra portuguesa). É pois recorrendo a estas duas edições que, no centenário do nascimento de Fernando Namora, celebramos a sua poética, aliás, muito mal conhecida (e injustamente). Uma série de onze poemas na qual, curiosamente, estão representados todos os livros, se bem que mais enfaticamente o último, "Nome para uma Casa". A sequência é cronológica e no caso de poemas extraídos de um mesmo livro respeita-se a ordem pela qual aí aparecem.
E qual o posicionamento da rádio pública face a Fernando Namora neste ano do centenário? De referir, em primeiro lugar, a evocação que Germano Campos fez do autor no seu programa "Café Plaza", de 27 de Janeiro passado, a propósito dos 30 anos da morte [a partir de 34':02'' >> RTP-Play]. Mais recentemente, a 11 de Abril, no programa "Páginas Tantas", Fernando Namora e a sua obra foram o assunto principal da conversa entabulada pelo trio feminino Inês Pedrosa, Patrícia Reis e Rita Ferro, sob a moderação de Fernanda Almeida [>> RTP-Play]. Por último, o poema escolhido por Luís Caetano para a rubrica "A Vida Breve", emitida neste mesmo dia, foi precisamente um da autoria de Fernando Namora dito pelo autor, de título "Um Segredo" [>> RTP-Play].
Registamos com agrado as evocações citadas, mas fica-nos a saber a pouco. A rádio pública (e referimo-nos ao conjunto dos três canais nacionais) peca por omissão se não aproveitar a ocasião do centenário do nascimento do emérito escritor para, cabalmente, aguçar nos ouvintes, especialmente nos mais jovens, o apetite de conhecerem a sua obra. E como? De uma maneira muito simples: transmitindo pontualmente ora poemas recitados (resgatados do arquivo e/ou expressamente gravados para o efeito), ora – e sobretudo – excertos de prosa lidos por quem o sabe fazer bem, evidentemente. O difícil será mesmo escolher de entre a vasta produção namoriana. Tudo isso sem prejuízo, obviamente, da reposição das adaptações de romances e narrativas de Namora que foram feitas para a rádio, nos tempos áureos do teatro radiofónico, como "Minas de San Francisco" e "A Noite e a Madrugada". Ficamos na expectativa!
Adenda (em 17-Abr-2019):
Luís Caetano, na edição de anteontem do seu programa "A Ronda da Noite", teve o mui louvável cuidado de homenagear (amplamente) Fernando Namora. E fê-lo resgatando do arquivo da RDP duas entrevistas do escritor – a primeira dada a Francisco Igrejas Caeiro para o programa "Perfil dum Artista", de 1 de Novembro de 1954; a segunda concedida a Maria Júlia Guerra para o programa "De Mãos Dadas", de 6 de Fevereiro de 1985 – e ainda textos de Namora lidos pelo próprio: o poema "Um Segredo" (inserido na rubrica "A Vida Breve") e excertos do livro "Jornal sem Data" [>> RTP-Play].
Uma vénia de agradecimento a Luís Caetano por nos ter dado a oportunidade de ouvir estas ignoradas gravações!
Poema da Utopia
Poema: Fernando Namora (in "Relevos", Coimbra: Portugália, 1937; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 50)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
A noite caiu sem manchas e sem culpa.
Os homens largaram as máscaras de bons actores.
Findou o espectáculo. Tudo o mais é arrabalde.
No alto, a utópica Lua vela comigo
e sonha coalhar de branco as sombras do mundo.
Um palhaço, a seu lado, sopra no ventre dos búzios.
Noite! se o espectáculo findou
deixa-nos também dormir.
Canção de Embalo para as Virgens dos Portos
Poema: Fernando Namora (in "Mar de Sargaços, Coimbra: Atlântida, 1939; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 132-133)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
O coração de poeta é oiro estilhaçado
que vai semeando no seu caminho.
Oiro caído é oiro perdido
que o poeta não volta para o regar.
Vão acenar-lhe da largada
como se ele partisse para o cabo do mundo,
que o horizonte é largo e o mar é fundo
e ele não tornará.
Ondas vencidas são ondas perdidas
que o poeta só tem saudades do que virá.
Em cada praia chegada
há luzes festivas na areia:
a voz de mel do poeta triste
é canto feiticeiro de sereia.
Canta, canta, que a tua voz magoada
tenha a tristeza do bem perdido
dos sonhos azuis que o embalaram.
Ai! que dos olhos da barca
se vêem estrelas a brilhar.
Canta, canta, para o tesoiro perdido
que a esperança lá irá naufragar.
Nem a noite nem o dia o trarão consigo:
o horizonte é largo e o mar é fundo,
há outras paragens, no cabo do mundo,
para ele descobrir e enfeitiçar.
* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002
Cacilda
Poema de Fernando Namora (in "Terra", poema 8, Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941 – p. 19; "As Frias Madrugadas", Lisboa: Arcádia, 1959, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 174)
Recitado por Maria de Jesus Barroso* (in Livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010)
Música: Luísa Amaro
Vem, Cacilda, olhar a madrugada que rompe.
Vem e sentirás mais vastas a tua dor e a tua esperança.
Vem de manso, cautelosa,
antes que os pastores acordem em suas frautas
e perturbem a manhã.
Talvez sintas no rumorejar das aves madrugadoras
aquelas asas sem limites,
para além do campanário, para além dos montes
que teu olhar nunca soube ultrapassar.
Vem, Cacilda! Serás mais um astro branco
que a manhã serena coroou.
* Maria de Jesus Barroso – voz
Luísa Amaro – guitarra portuguesa
Gonçalo Lopes – clarinete baixo
Gravado no estúdio de André Fernandes e nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Captação de som – Tiago de Sousa
Mistura e masterização – Quico Serrano, no Estúdio da Aguda, Vila Nova de Gaia
Canto Tardio
Poema: Fernando Namora (in "Marketing", Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969, Lisboa: Círculo de Leitores, 1997 – p. 99)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Antes que o Inverno chegue
volto a ser cigarra. Canto.
Da laboriosa agonia me liberto e exalto.
Canto sem cessar o tempo
temendo e saboreando o tempo,
galo da aurora
que não tem tempo de acordar dormindo
De celeiro vazio, canto,
surdo aos lobos e aos ratos
que esgadanham o restolho.
Canto no Outono, que é oiro velho
e um rosto rugoso e macio.
Canto só porque é tarde para o canto
e a cantar adio o que tarde veio.
Cantando abro-me às formigas
e ofereço-lhes o indigesto banquete
para que a morrer cantando
me devorem vivo.
Líricas
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984 – p. 13-14, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 11-12)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Resina
urze
vento:
a infância.
Nas narinas
o suor
dos gados
no tapete
de estrume
das quelhas:
a distância.
Nuvem inconstante
dependurada
do lamento
dos sinos:
a ausência.
Casco e pedras
na marcha
ensonada
dos bois longínquos
colinas brandas
na pura luz
saturada
de moitas
diluvianas
inconstante nuvem
no abandono
de um momento:
oh paisagem
dentro dos olhos
vagabundos
oh paisagem esbatida
na sépia
dos retratos
de antigamente.
Um Segredo
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 16-18)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Meu pai tinha sandálias de vento
só agora o sei.
Tinha sandálias de vento
e isto nem sequer é uma maneira de dizer
andava por longe os olhos fugidos a expressão em nenhures
com as miraculosas instantaneidades que nos fazem estar em todos os sítios.
Andava por longe meu pai sonhando errando vadiando
mas toda a sua ausência era
o malogro de o ser
só agora o sei.
Andava por longe ou sentíamo-lo longe
vem dar no mesmo
e no entanto víamo-lo sempre
ali plantado de imobilidade absorta
no cepo de carvalho raiado de negro
a que o caruncho comera o miolo
como as lagartas esvaziam as maçãs
estranhamente quieto murcho resignado
no seu estranho vadiar
os olhos aguados numa tristeza que hoje me dói
como um apelo perdido uma coragem abortada.
Ausência era tão de mágoa urdida tão de fracasso tingida
ausência era
altiva e desolada altiva e triste sobretudo triste
tristeza sim tristeza solene e irremediada
só agora o sei.
Às vezes parecia-me uma águia que atravessa os ares
sulco azul
que nada distingue do azul onde foi sulcado
e por isso nem é águia nem ao menos
o que do seu voo resta para que
o sonho se faça real.
Meu pai era um homem com as nostalgias
do que nunca acontecera e isso minava-o víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs
e então sei-o agora calçava as ágeis sandálias
miraculosamente leves soltas imaginosas
indo de acaso em acaso de astro em astro
eram de vento as suas sandálias fabulosas
levando-o aonde mais ninguém poderia chegar.
Os outros não o sabiam nem eu o sabia
só o víamos sentado no cepo velho
raiado de negro como uma estrela fossilizada
por isso tudo era para ele mais irremediável e triste
sei-o agora tarde de mais
tarde de mais é uma dor de remorso
que me consome víscera a víscera
como as tais lagartas esfarelam as maçãs.
Mas de qualquer maneira existe um segredo
de que ambos partilhamos
ciosamente avaramente indecifradamente
como os astutos conspiradores
que fazem do seu segredo
um mágico tesouro inviolado.
Um segredo simples:
o que sentiste pai
sinto-o eu agora por ambos
sinto-o por ti
sinto-o por mim.
Ainda que por ele devorados.
Também as Palavras
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 79)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
No amor também as palavras
são necessárias. Os gestos talvez não bastem.
Nem a chuva lá fora enquanto o amor se inflama.
Nem o sussurro nas árvores quando os corpos serenam.
Nem a melopeia das águas quando as bocas se esmagam.
Nem o fulgor dos olhos quando a paixão se amotina.
Penso no amor e logo invento palavras
e logo as palavras se põem ébrias.
Penso no amor e logo as palavras
se soltam como fogosas aves
a que não pergunto o rumo.
Penso no amor e logo preciso
que as palavras digam
que amor é este em que penso e em que grito.
Aparição
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 104-105)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Vens como uma aparição
apenas vestida com a tua beleza
dos teus gestos tombam as pétalas
que acabaram de abrir
e em mim escorrem como orvalho
que o morno hálito fundiu
vens e entras em mim com a subtileza da nuvem que abraçou o sol
e o bebe inteiro para o ter só seu
ou como lança ardente
que rasga de lava a paisagem amortecida
vens e ficas e incorporas-te
até não haver mais do que uma súplica
nem mais do que um fogo
nem mais do que uns braços
nem mais do que uma boca
nem mais do que um olhar de pálpebras cerradas
todo recolhido no que nele é júbilo e dor
dor de ser breve sabendo-se embora infindável
a vertigem transporta-nos como no poema da Ada Negri
e deixa-nos num lugar que nem é presença
nem ausência
apenas o exacto lugar
onde apenas cabe um corpo que instantes antes eram dois.
Uma folha tomba do plátano diz a Ada.
És tu és tu que me levas pelos ares.
Se o Coração Não Cansa
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 106-107)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Se olhas a distância
talvez julgues que é tarde
e que a rosa se deixou abrir
até ser calafrio
e que tudo é o vazio
sem números nas portas
onde pernoitar de tanta viagem.
Olharás a neve que apagou
as horas e os passos
e a palidez dos espelhos
devorando o silêncio
e o crescer da relva na memória
dos longes coados.
A sombra da cinza
é orvalho
e nele os remos não avançam
no vento fatigado.
Resignado te olhas
fundindo os portos e as lendas
onde a infância gela
na remota espera
de ser desatino.
Mas não
de todas as vezes diz não
para que o tempo se desprenda
nas velas magras.
Se o coração não cansa
nada é tarde
nada.
Música na Praia
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 154-155)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Dolente
indolente
no mar indo
no mar vindo
na espuma se abrindo
espreguiçada
dolente
toada brasileira
que dorme
desperta
indo e vindo
vindo e indo
que acorda sonhando
dormindo gemendo
espreguiçada
na areia
melopeia
brasileira
voz quente
na praia ensonada
no mar bocejando
voz quente
quebrando quebrando
cansada
de ir morrendo
mas tão viva sendo
na praia extasiada
Cantilena
Poema: Fernando Namora (in "Nome para uma Casa", Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984, Lisboa: Círculo de Leitores, 1998 – p. 165-166)
Música: Francisco Ceia
Intérprete: Francisco Ceia* (in CD "Sandálias de Vento", Francisco Ceia/Pirilampo, 2002)
Do cardo que carda a gente
nele se vê a roupa pouca
corpo tosco tosca terra
nele se escuta a voz ausente
Da água que fura a pedra
vão lamento gasto tempo
dura água que vai dentro
do mais oculto da serra
Da saliva que o mar bebe
sonho leve ondas tontas
luas ocas que nos seguem
na palidez das lucernas
Do povo que pesa os ares
asas vagas bater de asas
sono ébrio que braveja
no crepitar das miragens
Na mão que enxuga a dor
morre a ira cansa a fera
da semente que diz não
iça a torre seca a hera
Povo povo quem te chama
tem a espora no dizer
cada quimera esvaída
no deserto vai morrer
* Francisco Ceia – voz
José Marinho – orquestrações, piano e acordeão
José Menezes – saxofones (soprano, tenor, barítono)
Jean-François Lézé – marimba
Pedro Neves – violoncelo
Sertório Calado – percussões
Gravado nos Estúdios Dó-Ré-Mar, em Abril de 2002
Capa da 1.ª edição do livro "Relevos" (Coimbra: Portugália, 1937).
Capa da 1.ª edição do livro "Mar de Sargaços" (Coimbra: Atlântida, 1939).
Capa da 1.ª edição do livro "Terra" (Col. Novo Cancioneiro, N.º 1, Coimbra, 1941).
Capa da 1.ª edição do livro "As Frias Madrugadas" (Lisboa: Editora Arcádia, 1959).
Capa da 1.ª edição do livro "Marketing" (Mem Martins: Publicações Europa-América, 1969).
Capa da 1.ª edição do livro "Nome para uma Casa" (Venda Nova - Amadora: Livraria Bertrand, 1984).
Capa do CD "Sandálias de Vento", de Francisco Ceia (Pirilampo, 2002).
Capa do livro/CD "Geração do Novo Cancioneiro", de Maria de Jesus Barroso e Luísa Amaro (Althum/Museu do Neo-Realismo, 2010).
DIA MUNDIAL DO TEATRO
27 de Março de 1981 Mensagem
Mensagem deste "dia mundial", qualquer ela for, terá que envolver todas as pessoas dramáticas que jamais existiram. Todas as Medeias, Columbinas, Margaridas, Júlias, todos os Orfeus, Arlequins, Telémacos, Woyzecks. E os demais "Cocus", imaginários ou não, de mistura com as Respeitosas adjectivantes de substantivos Pês. E Henriques, Filipes, Ricardos-reis, Césares, Ivans, Carlos-quintos imperadores. E vigários, inquisidores, papas. E até Joana d'Arc. E seis personagens em busca de autor. E o inapagável Tenente Kije, na companhia de dois outros Ninguéns, estes de Portugal, como se Todo-o-Mundo não bastasse.
Mensagem que há-de abranger todas as paixões, desde lutos que tão bem ficam a Electra como a Bernarda "la vieja", até à suprema de quantas flamengas alegrias explodiram em horas de desmoronamento de Albas. Todos os mitos, recalques, complexos, desde logo o de Édipo, mas também o de Bartholo. Todos os tratos com a vida, desde o contínuo estar Volpone cobrando o seu próprio seguro de morte até ao estar perpetuamente à espera de Godot. Todas as guerras que imaginar se possam, muitas mais que as de Montecchi e Capuleti, de Alecrim e Manjerona, de Cabeças Redondas e Cabeças Bicudas. Todas as artes de comunicar pela vista e pelo ouvido, encenando, pintando, esculpindo, arquitectando, iluminando, projectando, cantando, tangendo, mimando, bailando. E falando.
Mensagem que necessariamente saúda os que, filhos de qualquer civilização, mantêm fecunda a linhagem dos Ésquilo, Gil Vicente, Shakespeare, Racine, Claudel, Brecht; dos Monteverdi, Mozart, Schönberg; dos Noverre, Pétipa, Fokine, quer aumentando-a com obras, quer afirmando-se, como Garrick e Talma, como a Todi e a Callas, como a Pavlova e Nijinsky, tanto mais inconfundíveis quanto mais se forem metamorfoseando sob crismas e caracterizações. E todos os que, dos palcos da lusitana revista ao mais além-Taprobana dos retábulos Wayang, dos hiper-sofisticados estúdios radiofónicos e televisivos à mais humilde barraca de feira, de outros modos participam no mágico oscilar entre realidade e ilusão, corrente alterna de tensão sem limites, sequiosa de verdade absoluta genialmente inventada.
Mensagem que oxalá abraçasse todas as mulheres e homens, os jovens e crianças de todas as raças, cores e linguagens, como público efectivo de um espectáculo universal. Público efectivo, porque honestamente estatístico, concretamente verificável. Público não congregado por coacção ou fingimento de cultura, senão que movido pela liberdade de vividamente conhecer para bem amar, e de amar para plenamente viver.
Por hoje, 27 de Março de 1981, contentemo-nos com a certeza de que um dia há-de vir, em que "Everyman" se reconheça, de corpo inteiro e coração ao alto, num espelho de ele mesmo que dará ainda, e sempre, pelo nome de TEATRO.
JOÃO DE FREITAS BRANCO
Este texto, lido pela actriz Josefina Silva, foi difundido pela RDP-Antena 1, a 27 de Março de 1981, no programa "Tempo de Teatro", antecedendo a peça "O Juiz da Beira", de Gil Vicente, com direcção de actores de Carlos Duarte e realização radiofónica de Eduardo Street.
Estamos em 2019. Perscrutamos os vários canais da rádio pública: e que oferta há da arte de Talma? Temos, na Antena 2, o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], da autoria de João Pereira Bastos, que, apesar de ter como principal objecto o teatro musical e a música de filmes, não deixa de apresentar, uma vez por outra, no âmbito da evocação de actores portugueses que foram grandes no palco, no cinema e na rádio, algumas peças de teatro falado guardadas no arquivo. E que mais? Apenas, e mesmo assim muito esparsamente, também na Antena 2, um arremedo de teatro denominado "Teatro sem Fios" [>> RTP-Play]. E grafamos 'arremedo' porque aquilo, em boa verdade, não se pode considerar verdadeiro teatro radiofónico: por ser desprovido de sonorização, por os textos serem quase sempre dramaturgicamente sensaborões (não raras vezes a roçar a náusea), e por as vozes não terem carisma radiofónico. Vozes com carisma são aquelas que possuem idiossincrasia tímbrica/interpretativa, isto é, têm uma identidade bem vincada, não se confundindo com quaisquer outras, e encarnam com verosimilhança uma determinada personagem. Eis alguns exemplos (por ordem alfabética dos nomes dos actores): Alberto Villar, Alina Vaz, Antonino Solmer, Assis Pacheco, Branco Alves, Canto e Castro, Carlos Paulo, Carmen Dolores, Eunice Muñoz, Henriqueta Maia, Irene Cruz, Jacinto Ramos, João Villaret, Joaquim Rosa, Luís Pinhão, Manuel Lereno, Manuela Cassola, Mário Pereira, Mário Viegas, Paiva Raposo, Paulo Renato, Raul de Carvalho, Ruy de Carvalho, Ruy Furtado, Santos Manuel, Varela Silva. E aqui somos inevitavelmente remetidos para essa autêntica arca de preciosidades que é o arquivo histórico da rádio pública.
Em face de tal riqueza, era expectável que as direcções de programas das três antenas nacionais e também da RDP-Internacional não a descurassem e atentassem nela com olhos de ver (e ouvidos de ouvir). Tal não tem acontecido ou acontecido de forma muito incipiente. Por exemplo: não compreendemos a não existência na Antena 1 de um espaço reservado a bons conteúdos do arquivo (teatro, contos, poesia, entrevistas a figuras da Cultura e da Ciência, programas de divulgação cultural, etc.), do mesmo modo que não entendemos qual o motivo da não inclusão no espaço "Memória", da Antena 2, de peças de teatro que foram produzidas antes de 2005 (ano em que terminou o "Teatro Imaginário"), bem como de programas de poesia e de ciclos temáticos (sobre compositores, escritores, cientistas, acontecimentos históricos, etc.). Nesse resgate, que urge ser feito pois o tempo é implacável na deterioração dos registos, a prioridade, no caso do teatro, deve ser dada ao grande repertório, porque esse é intemporal: desde o dos autores gregos clássicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Ben Jonson, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Pushkin, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva (O Judeu), Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, José Régio, Bernardo Santareno, Luiz Francisco Rebello e Luís de Sttau Monteiro.
O teatro e a sua irmã, a poesia, enquanto artes por excelência da oralidade (é bom ter presente que a "Ilíada" e a "Odisseia", obras primordiais da Civilização Ocidental, começaram por andar de boca a ouvido, antes de alguém se lembrar de passá-las a escrito), têm, além do valor cultural que lhes é intrínseco, a relevante virtude de mostrar a correcta prosódia da língua. Atendendo ao mau português que se vai ouvindo, devido à má influência da televisão e também aos efeitos nefastos que o AO90 já está a ter na pronúncia de algumas palavras, maior a premência de se resgatar o teatro radiofónico e a poesia dita.
Importa não esquecer que para os invisuais, essa é a única forma que lhes permite fruírem aquelas artes in acting (não substituível pela leitura em braille, que no caso de peças de teatro não será um exercício cativante, tal como o não é para os não cegos – o escrevente destas linhas pode testemunhar que a leitura do "Frei Luís de Sousa" nem por sombras teve no seu espírito o mesmo impacto que a memorável adaptação radiofónica que em 1992 ouviu na Antena 2).
Leonardo da Vinci, "Homem Vitruviano", c.1490, desenho a tinta sobre papel, Gallerie dell'Accademia, Veneza
No passado 16 de Março completaram-se 60 anos sobre a morte de António Botto, poeta admirado, entre outros, por Guerra Junqueiro, Manuel Teixeira Gomes, João Gaspar Simões, José Régio, Luigi Pirandello e Fernando Pessoa (autor do encomiástico estudo "António Botto e o Ideal Estético em Portugal").
Naquele mesmo dia, e assinalado a efeméride, o realizador Germano Campos, no seu programa "Café Plaza" [>> RTP-Play], teve a mui louvável iniciativa de resgatar do arquivo da rádio pública um excerto do programa "Páginas de Poesia", de 1968, presenteando os seus ouvintes com quatro poemas bottianos ditos por Raul Feio – "Meus Olhos Que por Alguém", "O Brinco da Tua Orelha", "Meu Amor na Despedida" e "Não me Peças Mais Canções", todos do ciclo "Tristes Cantigas de Amor" – e também com a versão cantada do quarto poema por Carlos Mendes.
No Dia Mundial da Poesia, o blogue "A Nossa Rádio" associa-se à evocação de António Botto apresentando outro belíssimo poema, no caso um soneto, em duas abordagens, uma recitada e outra cantada: a primeira na voz de João Villaret e a segunda na de Carlos do Carmo. Trata-se de um texto impregnado de humanidade, no qual o poeta se irmana aos seres humanos que demandam o sonho de tornar o mundo melhor e esbarram na incompreensão, e também àqueles que estão reduzidos à condição títeres nas mãos de poderes e interesses instalados, sejam de ordem política, económica ou religiosa.
No que respeita à divulgação de poesia na nossa rádio, aproveitamos o ensejo para voltar a enaltecer o bom trabalho que Luís Caetano vem desempenhando na Antena 2, enquanto responsável pelas rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], preenchidas, respectivamente, com poesia dita pelos autores e com poesia comentada pela professora, poetisa e tradutora Ana Luísa Amaral. Apesar da segunda rubrica abarcar autores de todos os tempos (logo, também os que viveram antes da invenção da gravação sonora) é notório que se revela insuficiente para dar cabal divulgação ao muito material que existe gravado por dizedores credenciados, quer o editado em disco, quer – e sobretudo – o guardado no arquivo histórico da RDP. Sem prejuízo de outras acções, o espaço "Memória" poderia muito bem ser aproveitado para a transmissão, além dos habituais concertos, de programas integrais de poesia, como o supracitado "Páginas de Poesia" e aquele que deu pelo título de "Poesia, Música e Sonho" que fez as delícias de muitos ouvintes e se tornou uma referência obrigatória na História da Rádio Portuguesa.
É evidente que a Antena 1 não pode nem deve ficar alheada desse tão necessário resgate do que de melhor existe no arquivo. Nesse âmbito, duas medidas podem ser tomadas: uma é a criação de um espaço alargado ao fim-de-semana, de uma ou duas horas, consagrado aos conteúdos de cariz menos erudito; a outra é a criação de uma rubrica diária de poesia, na qual, preferencialmente, seja divulgada a produção de um determinado autor ao longo de uma semana – porque a poesia é para todos e os ouvintes da Antena 1 também são gente (não são filhos de um deus menor).
Homem que vens de humanas desventuras
Poema de António Botto (in "Os Sonetos de António Botto", Lisboa: Edição do autor, 1938; "As Canções de António Botto", 6.ª edição, Lisboa: Edição do autor, 1941 – p. 287; 15.ª edição, com um estudo crítico de Fernando Pessoa, Lisboa: Edições Ática, 1975 – p. 305; "Poesia", org. Eduardo Pitta, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018 – p. 245)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", EMI/Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;
Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;
Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,
Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão.
Soneto XIV
Poema: António Botto (com o primeiro verso modificado) [texto original >> acima]
Música: Fernando Guerra
Arranjo e orquestração: Jorge Costa Pinto
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Carlos do Carmo", Tecla, 1972; LP "Canoas do Tejo", Edisom, 1984, reed. Movieplay, 1992, 1998, Universal Music, Série '50 Anos', 2013)
Homem que vês humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;
Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;
Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,
Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão. [bis]
[vocalizos / instrumental]
* Carlos do Carmo – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto:
Violinos – João Silveira, João Nogueira, Mário Simões, João Oliver, António Dias, Calazans Duarte, Adolfo Chaves, Sá da Bandeira, Ricardo Ventura, Vitorino Gomes, Costa Gomes
Violas de arco – Rogério Gomes, Ana Bela Chaves, Luís Roberto
Violoncelos – Clélia Vital, Conceição Gomes, Lurdes dos Santos
Flautas – Hélder Ribeiro, José Duarte
Oboé / corne inglês – António Serafim, Bernardino Quito
Harpa – Fausto Dias
Trompa – Adácio Pestana
Trombones – António Jubilot, Gilberto Mota, Edmundo Manaças
Piano / órgão – Pedro Osório
Guitarra – Fernando Correia Martins
Guitarra baixo – Thilo Krasmann
Bateria – Vítor Mamede
Guitarra portuguesa – António Chainho
Viola – José Maria Nóbrega
Assistente de produção – Rocha oliveira
Técnicos de som – Hugo Ribeiro e Fernando Cortez
Misturas – José Dgo. Valeiras
Capa do EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro" (Parlophone/VC, 1964).
Capa do LP "Carlos do Carmo" (Tecla, 1972).
Concepção – Victor Reis.
Damos as boas-vindas à Primavera de 2019 pondo em destaque um espécime do cancioneiro alentejano alusivo à estação do renascimento e das flores: a moda "No Tempo da Primavera" na magnífica e floreada interpretação do Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba", um dos grupos históricos do cante (foi fundado em 1933).
A talhe de foice, impõe-se formular a seguinte pergunta: em que situação está o cante na Antena 1? Não é difícil verificar que sofre de continuada marginalização, como se de música maldita de tratasse. Vejamos: na 'playlist' está completamente ausente e os únicos espaços onde de vez em quando aparece – rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play] e programas "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], "O Povo Que Volta a Cantar" [>> RTP-Play] e "Alma Lusa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play] – são somente emitidos a horas de sono da generalidade do auditório.
Urge, portanto, que tão injusto e inaceitável estado de coisas seja alterado, de modo a que a esmagadora maioria dos ouvintes não continue alheada de uma das mais identitárias expressões musicais do país, ademais gozando ela, desde há quase cinco anos, da prerrogativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Escusado será dizer que a transmissão daqueles programas em horários compatíveis com a disponibilidade/possibilidade de escuta do grosso do auditório, não obsta a que se crie uma rubrica diária (ou de segunda a sexta-feira) exclusivamente reservada ao cante, à qual se poderia, muito apropriadamente, dar o nome de "O Canto do Cante".
Fica apresentada a ideia. Se não tiver acolhimento, será mais um sinal evidente de que existe uma arreigada má-vontade da parte da direcção de programas para com o cante e toda a música portuguesa de raiz tradicional. Perante isso, cabe às entidades superiores tirarem as devidas ilações e agirem em conformidade com o cabal cumprimento das obrigações do serviço público de radiodifusão legalmente estabelecidas.
No Tempo da Primavera
Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba"* (in CD "Musical Traditions of Portugal", col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)
No tempo da Primavera
Há lindas flores no prado.
Canta, ó lindo passarinho,
Ao nascer do Sol doirado!
Ao nascer do Sol doirado,
Ó meu amor, quem me dera,
Pisando os mimosos prados
No tempo da Primavera.
Capa do CD "Musical Traditions of Portugal" (col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)
Neste Dia Internacional da Mulher, e estando no topo da agenda mediática, em razão da vergonhosa escalada de uxoricídios em Portugal, a violência exercida por muitos indivíduos do sexo masculino sobre as cônjuges ou ex-cônjuges –, apresentamos uma canção que aborda precisamente esse flagelo: "Cicatriz de Ser Mulher", de João Lóio.
O presente espécime, desconhecido do grande público porque João Jóio tem sido alvo de um atroz e criminoso silenciamento na rádio portuguesa, está longe de ser um caso isolado em termos de repertório autóctone alusivo à mulher maltratada ou encarada como simples serviçal. Listamos alguns exemplos (por ordem cronológica de gravação/edição): "Rosa Enjeitada", de Maria Teresa de Noronha; "Boneca de Trapo", de Luiz Goes; "Vai, Maria, Vai", de José Afonso; "Casa Comigo, Marta", de José Mário Branco; "Maria, Vida Fria", de Paulo de Carvalho; "Calçada de Carriche", de Carlos Mendes; "Esquina de Rua", de Rodrigo; "Balada para uma Mulher" e "Amélia dos Olhos Doces", de Carlos Mendes; "Balada da Rita", de Sérgio Godinho; "Mariana das Sete Saias", de Fausto Bordalo Dias; "Ai, Maria", de Amália Rodrigues; "Mulher-Mágoa", de Maria Armanda; "O Lado Errado da Noite", de Jorge Palma; "Prelúdio (Mãe Negra)", de Paulo de Carvalho; "Branca de Neve 1993", de Três Tristes Tigres"; "Criada para Todo o Serviço", de João Lóio; e "Bela Adormecida", de Jorge Fernando.
Havendo repertório tão bom, era de toda a pertinência que a Antena 1 o passasse, se não na totalidade ao menos em parte, ao longo da semana. Mas não! Nada!
Resta saber se tal omissão se deve a eventual marialvismo de quem tem responsabilidades na 'playlist' – Rui Pêgo e Ricardo Soares – ou se resulta de mera incúria.
Cicatriz de Ser Mulher
Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)
Olha, não chores, maninha,
que eu não sei se vai passar...
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!
Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!
Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?
Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!
Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!
Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!
E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!
Dizem "quem cala consente!",
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!
Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!
* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel
URL: https://www.joaoloio.com/
Capa do CD "Canções de Amor e Guerra", de João Lóio.
Fotografia por Renato Roque.
Entre os acontecimentos tristes do dia 23 de Fevereiro de 1987, faz hoje trinta e dois anos, conta-se a morte daquele que pode considerar-se, sem exagero ou favor, o trovador maior da música popular portuguesa: José Afonso. Em reconhecimento do seu grande – enorme – legado artístico e da admirável intervenção cívica em que sempre se empenhou, alguns pares sentiram-se no dever moral de criar canções de tributo, algumas das quais já apresentámos neste blogue [links ao fundo]. No presente ano, continuamos na mesma senda destacando um espécime que é assinado pelo cautautor açoriano José Medeiros. Tem por título "O Cantador" e faz farte do CD "Torna-Viagem", editado em 2004 e que no ano seguinte foi distinguido com o Prémio José Afonso, por decisão de um júri no qual figuraram o compositor e pianista António Victorino d'Almeida, a pianista Olga Prats, o crítico Pedro Pyrrait e os jornalistas Carlos Pinto Coelho e Viriato Teles.
José Medeiros (para os amigos, Zeca Medeiros), além de distinto realizador, na RTP-Açores, de séries e telefilmes memoráveis, como "Xailes Negros" (1986), "Balada do Atlântico" (1987), "O Barco e o Sonho" (1989), "Mau Tempo no Canal" (1992), "O Feiticeiro do Vento" (1996), "7 Cidades ou a Lenda de Genádio, o Arcebispo" (1997), "Gente Feliz com Lágrimas" (2002), "A Ilha de Arlequim" (2007) e "Anthero: O Palácio da Ventura" (2009), é um dos mais originais e categorizados criadores poético-musicais que existem em Portugal. Quem não tiver a sensibilidade embotada e se der ao cuidado de ouvir a sua discografia não terá dificuldade em disso se aperceber. Por conseguinte, a opção (persistente) de não incluir o quer que seja do repertório de José Medeiros na 'playlist' da Antena 1 reveste-se da mais vil injustiça feita ao artista e constitui um crime soez de sonegação cultural aos cidadãos/ouvintes/contribuintes.
O Cantador
Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges e José Medeiros
Intérprete: José Medeiros* com Mariana Abrunheiro (in CD "Torna-Viagem", Memórias/Fortes & Rangel, 2004)
[instrumental]
O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.
O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.
Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.
[instrumental]
O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.
O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.
Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.
* José Medeiros e Mariana Abrunheiro – vozes solo e em coro
João Lóio, Regina Castro, Cláudia Rangel e Helena Lavouras – vozes em coro
Paulo Borges – piano e acordeão
Pedro Lemos – baixo eléctrico
Quiné Teles – percussão
Direcção musical – Paulo Borges
Produção – Fernando Rangel, Pedro Rangel e José Medeiros
Gravado por Fernando Rangel e Pedro Rangel, nos Estúdios RM, Porto, de Março a Novembro de 2003
Mistura e masterização – Pedro Rangel
Capa do CD "Torna-Viagem", de José Medeiros (Memórias/Fortes & Rangel, 2004)
«Todo o tempo é de poesia», assim escreveu António Gedeão, e o tempo da consoada não é excepção. Do poeta-físico apresentámos, em 2016, o poema "Dia de Natal" [link ao fundo], pelo que este ano pensámos em recorrer a Miguel Torga, que nos deixou muitos poemas – escritos e ditos - de temática natalícia. É pois do álbum "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", gravado em 1986, que extraímos o poema "Natividade", que fora escrito a 24 de Dezembro de 1958, faz hoje exactamente 60 anos. Esperamos que seja do vosso agrado.
A Antena 1, no âmbito da 'playlist', vem transmitindo canções de Natal, todas (ou quase todas) anglo-americanas, mas nada de poesia dita/recitada. Além de ser totalmente inaceitável o ostracismo a que estão a votar o repertório musical autóctone, não podemos admitir que a poesia seja posta de parte, atendendo às particulares obrigações que a rádio pública tem no domínio da língua portuguesa.
Natividade
Poema de Miguel Torga (in "Diário VIII", Coimbra: Edição do autor, 1959; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 611)
Recitado pelo autor* (in LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. EMI-VC, 2000)
Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento,
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas,
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida...
Vila Cova, 24 de Dezembro de 1958
* Miguel Torga – voz
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Produzido e gravado por Pedro Vasconcelos
Capa do LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas" (EMI-VC, 1986).
Concepção – Fátima Rolo
Ao centro, retrato do poeta desenhado por Henrique Medina, em 1977.
[para ver em ponto grande, noutra janela, clicar aqui]