27 março 2019

Dia Mundial do Teatro: mensagem de João de Freitas Branco (1981)



DIA MUNDIAL DO TEATRO
27 de Março de 1981
Mensagem

Mensagem deste "dia mundial", qualquer ela for, terá que envolver todas as pessoas dramáticas que jamais existiram. Todas as Medeias, Columbinas, Margaridas, Júlias, todos os Orfeus, Arlequins, Telémacos, Woyzecks. E os demais "Cocus", imaginários ou não, de mistura com as Respeitosas adjectivantes de substantivos Pês. E Henriques, Filipes, Ricardos-reis, Césares, Ivans, Carlos-quintos imperadores. E vigários, inquisidores, papas. E até Joana d'Arc. E seis personagens em busca de autor. E o inapagável Tenente Kije, na companhia de dois outros Ninguéns, estes de Portugal, como se Todo-o-Mundo não bastasse.
Mensagem que há-de abranger todas as paixões, desde lutos que tão bem ficam a Electra como a Bernarda "la vieja", até à suprema de quantas flamengas alegrias explodiram em horas de desmoronamento de Albas. Todos os mitos, recalques, complexos, desde logo o de Édipo, mas também o de Bartholo. Todos os tratos com a vida, desde o contínuo estar Volpone cobrando o seu próprio seguro de morte até ao estar perpetuamente à espera de Godot. Todas as guerras que imaginar se possam, muitas mais que as de Montecchi e Capuleti, de Alecrim e Manjerona, de Cabeças Redondas e Cabeças Bicudas. Todas as artes de comunicar pela vista e pelo ouvido, encenando, pintando, esculpindo, arquitectando, iluminando, projectando, cantando, tangendo, mimando, bailando. E falando.
Mensagem que necessariamente saúda os que, filhos de qualquer civilização, mantêm fecunda a linhagem dos Ésquilo, Gil Vicente, Shakespeare, Racine, Claudel, Brecht; dos Monteverdi, Mozart, Schönberg; dos Noverre, Pétipa, Fokine, quer aumentando-a com obras, quer afirmando-se, como Garrick e Talma, como a Todi e a Callas, como a Pavlova e Nijinsky, tanto mais inconfundíveis quanto mais se forem metamorfoseando sob crismas e caracterizações. E todos os que, dos palcos da lusitana revista ao mais além-Taprobana dos retábulos Wayang, dos hiper-sofisticados estúdios radiofónicos e televisivos à mais humilde barraca de feira, de outros modos participam no mágico oscilar entre realidade e ilusão, corrente alterna de tensão sem limites, sequiosa de verdade absoluta genialmente inventada.
Mensagem que oxalá abraçasse todas as mulheres e homens, os jovens e crianças de todas as raças, cores e linguagens, como público efectivo de um espectáculo universal. Público efectivo, porque honestamente estatístico, concretamente verificável. Público não congregado por coacção ou fingimento de cultura, senão que movido pela liberdade de vividamente conhecer para bem amar, e de amar para plenamente viver.
Por hoje, 27 de Março de 1981, contentemo-nos com a certeza de que um dia há-de vir, em que "Everyman" se reconheça, de corpo inteiro e coração ao alto, num espelho de ele mesmo que dará ainda, e sempre, pelo nome de TEATRO.

                JOÃO DE FREITAS BRANCO


Este texto, lido pela actriz Josefina Silva, foi difundido pela RDP-Antena 1, a 27 de Março de 1981, no programa "Tempo de Teatro", antecedendo a peça "O Juiz da Beira", de Gil Vicente, com direcção de actores de Carlos Duarte e realização radiofónica de Eduardo Street.
Estamos em 2019. Perscrutamos os vários canais da rádio pública: e que oferta há da arte de Talma? Temos, na Antena 2, o programa "Ecos da Ribalta" [>> RTP-Play], da autoria de João Pereira Bastos, que, apesar de ter como principal objecto o teatro musical e a música de filmes, não deixa de apresentar, uma vez por outra, no âmbito da evocação de actores portugueses que foram grandes no palco, no cinema e na rádio, algumas peças de teatro falado guardadas no arquivo. E que mais? Apenas, e mesmo assim muito esparsamente, também na Antena 2, um arremedo de teatro denominado "Teatro sem Fios" [>> RTP-Play]. E grafamos 'arremedo' porque aquilo, em boa verdade, não se pode considerar verdadeiro teatro radiofónico: por ser desprovido de sonorização, por os textos serem quase sempre dramaturgicamente sensaborões (não raras vezes a roçar a náusea), e por as vozes não terem carisma radiofónico. Vozes com carisma são aquelas que possuem idiossincrasia tímbrica/interpretativa, isto é, têm uma identidade bem vincada, não se confundindo com quaisquer outras, e encarnam com verosimilhança uma determinada personagem. Eis alguns exemplos (por ordem alfabética dos nomes dos actores): Alberto Villar, Alina Vaz, Antonino Solmer, Assis Pacheco, Branco Alves, Canto e Castro, Carlos Paulo, Carmen Dolores, Eunice Muñoz, Henriqueta Maia, Irene Cruz, Jacinto Ramos, João Villaret, Joaquim Rosa, Luís Pinhão, Manuel Lereno, Manuela Cassola, Mário Pereira, Mário Viegas, Paiva Raposo, Paulo Renato, Raul de Carvalho, Ruy de Carvalho, Ruy Furtado, Santos Manuel, Varela Silva. E aqui somos inevitavelmente remetidos para essa autêntica arca de preciosidades que é o arquivo histórico da rádio pública.
Em face de tal riqueza, era expectável que as direcções de programas das três antenas nacionais e também da RDP-Internacional não a descurassem e atentassem nela com olhos de ver (e ouvidos de ouvir). Tal não tem acontecido ou acontecido de forma muito incipiente. Por exemplo: não compreendemos a não existência na Antena 1 de um espaço reservado a bons conteúdos do arquivo (teatro, contos, poesia, entrevistas a figuras da Cultura e da Ciência, programas de divulgação cultural, etc.), do mesmo modo que não entendemos qual o motivo da não inclusão no espaço "Memória", da Antena 2, de peças de teatro que foram produzidas antes de 2005 (ano em que terminou o "Teatro Imaginário"), bem como de programas de poesia e de ciclos temáticos (sobre compositores, escritores, cientistas, acontecimentos históricos, etc.). Nesse resgate, que urge ser feito pois o tempo é implacável na deterioração dos registos, a prioridade, no caso do teatro, deve ser dada ao grande repertório, porque esse é intemporal: desde o dos autores gregos clássicos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes) até ao teatro do absurdo (Beckett, Ionesco) passando por Shakespeare, Ben Jonson, Lope de Vega, Calderón de la Barca, Corneille, Molière, Racine, Marivaux, Goldoni, Beaumarchais, Schiller, Pushkin, Ibsen, Strindberg, Oscar Wilde, George Bernard Shaw, Tchekov, Pirandello, Federico García Lorca, Bertolt Brecht, Eugene O'Neill, Tennessee Williams, Arthur Miller, Edward Albee, Jean Cocteau, Jean-Paul Sartre, Jean Anouilh, sem esquecer os nossos Gil Vicente, Jorge Ferreira de Vasconcelos, António Ribeiro Chiado, António Ferreira, Luís de Camões, António José da Silva (O Judeu), Almeida Garrett, Raul Brandão, António Patrício, Alfredo Cortez, José Régio, Bernardo Santareno, Luiz Francisco Rebello e Luís de Sttau Monteiro.
O teatro e a sua irmã, a poesia, enquanto artes por excelência da oralidade (é bom ter presente que a "Ilíada" e a "Odisseia", obras primordiais da Civilização Ocidental, começaram por andar de boca a ouvido, antes de alguém se lembrar de passá-las a escrito), têm, além do valor cultural que lhes é intrínseco, a relevante virtude de mostrar a correcta prosódia da língua. Atendendo ao mau português que se vai ouvindo, devido à má influência da televisão e também aos efeitos nefastos que o AO90 já está a ter na pronúncia de algumas palavras, maior a premência de se resgatar o teatro radiofónico e a poesia dita.
Importa não esquecer que para os invisuais, essa é a única forma que lhes permite fruírem aquelas artes in acting (não substituível pela leitura em braille, que no caso de peças de teatro não será um exercício cativante, tal como o não é para os não cegos – o escrevente destas linhas pode testemunhar que a leitura do "Frei Luís de Sousa" nem por sombras teve no seu espírito o mesmo impacto que a memorável adaptação radiofónica que em 1992 ouviu na Antena 2).

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Artigos relacionados:
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21 março 2019

António Botto: "Homem que vens de humanas desventuras"


Leonardo da Vinci, "Homem Vitruviano", c.1490, desenho a tinta sobre papel, Gallerie dell'Accademia, Veneza


No passado 16 de Março completaram-se 60 anos sobre a morte de António Botto, poeta admirado, entre outros, por Guerra Junqueiro, Manuel Teixeira Gomes, João Gaspar Simões, José Régio, Luigi Pirandello e Fernando Pessoa (autor do encomiástico estudo "António Botto e o Ideal Estético em Portugal").
Naquele mesmo dia, e assinalado a efeméride, o realizador Germano Campos, no seu programa "Café Plaza" [>> RTP-Play], teve a mui louvável iniciativa de resgatar do arquivo da rádio pública um excerto do programa "Páginas de Poesia", de 1968, presenteando os seus ouvintes com quatro poemas bottianos ditos por Raul Feio – "Meus Olhos Que por Alguém", "O Brinco da Tua Orelha", "Meu Amor na Despedida" e "Não me Peças Mais Canções", todos do ciclo "Tristes Cantigas de Amor" – e também com a versão cantada do quarto poema por Carlos Mendes.
No Dia Mundial da Poesia, o blogue "A Nossa Rádio" associa-se à evocação de António Botto apresentando outro belíssimo poema, no caso um soneto, em duas abordagens, uma recitada e outra cantada: a primeira na voz de João Villaret e a segunda na de Carlos do Carmo. Trata-se de um texto impregnado de humanidade, no qual o poeta se irmana aos seres humanos que demandam o sonho de tornar o mundo melhor e esbarram na incompreensão, e também àqueles que estão reduzidos à condição títeres nas mãos de poderes e interesses instalados, sejam de ordem política, económica ou religiosa.
No que respeita à divulgação de poesia na nossa rádio, aproveitamos o ensejo para voltar a enaltecer o bom trabalho que Luís Caetano vem desempenhando na Antena 2, enquanto responsável pelas rubricas "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], preenchidas, respectivamente, com poesia dita pelos autores e com poesia comentada pela professora, poetisa e tradutora Ana Luísa Amaral. Apesar da segunda rubrica abarcar autores de todos os tempos (logo, também os que viveram antes da invenção da gravação sonora) é notório que se revela insuficiente para dar cabal divulgação ao muito material que existe gravado por dizedores credenciados, quer o editado em disco, quer – e sobretudo – o guardado no arquivo histórico da RDP. Sem prejuízo de outras acções, o espaço "Memória" poderia muito bem ser aproveitado para a transmissão, além dos habituais concertos, de programas integrais de poesia, como o supracitado "Páginas de Poesia" e aquele que deu pelo título de "Poesia, Música e Sonho" que fez as delícias de muitos ouvintes e se tornou uma referência obrigatória na História da Rádio Portuguesa.
É evidente que a Antena 1 não pode nem deve ficar alheada desse tão necessário resgate do que de melhor existe no arquivo. Nesse âmbito, duas medidas podem ser tomadas: uma é a criação de um espaço alargado ao fim-de-semana, de uma ou duas horas, consagrado aos conteúdos de cariz menos erudito; a outra é a criação de uma rubrica diária de poesia, na qual, preferencialmente, seja divulgada a produção de um determinado autor ao longo de uma semana – porque a poesia é para todos e os ouvintes da Antena 1 também são gente (não são filhos de um deus menor).



Homem que vens de humanas desventuras



Poema de António Botto (in "Os Sonetos de António Botto", Lisboa: Edição do autor, 1938; "As Canções de António Botto", 6.ª edição, Lisboa: Edição do autor, 1941 – p. 287; 15.ª edição, com um estudo crítico de Fernando Pessoa, Lisboa: Edições Ática, 1975 – p. 305; "Poesia", org. Eduardo Pitta, Lisboa: Assírio & Alvim, 2018 – p. 245)
Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", EMI/Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Homem que vens de humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão.



Soneto XIV



Poema: António Botto (com o primeiro verso modificado) [texto original >> acima]
Música: Fernando Guerra
Arranjo e orquestração: Jorge Costa Pinto
Intérprete: Carlos do Carmo* (in LP "Carlos do Carmo", Tecla, 1972; LP "Canoas do Tejo", Edisom, 1984, reed. Movieplay, 1992, 1998, Universal Music, Série '50 Anos', 2013)




Homem que vês humanas desventuras,
Que te prendes à vida e te enamoras,
Que tudo sabes e que tudo ignoras,
Vencido herói de todas as loucuras;

Que te debruças pálido nas horas
Das tuas infinitas amarguras —
E na ambição das coisas mais impuras
És grande simplesmente quando choras;

Que prometes cumprir e que te esqueces,
Que te dás à virtude e ao pecado,
Que te exaltas e cantas e aborreces,

Arquitecto do sonho e da ilusão,
Ridículo fantoche articulado
— Eu sou teu camarada e teu irmão. [bis]

[vocalizos / instrumental]


* Carlos do Carmo – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto:
Violinos – João Silveira, João Nogueira, Mário Simões, João Oliver, António Dias, Calazans Duarte, Adolfo Chaves, Sá da Bandeira, Ricardo Ventura, Vitorino Gomes, Costa Gomes
Violas de arco – Rogério Gomes, Ana Bela Chaves, Luís Roberto
Violoncelos – Clélia Vital, Conceição Gomes, Lurdes dos Santos
Flautas – Hélder Ribeiro, José Duarte
Oboé / corne inglês – António Serafim, Bernardino Quito
Harpa – Fausto Dias
Trompa – Adácio Pestana
Trombones – António Jubilot, Gilberto Mota, Edmundo Manaças
Piano / órgão – Pedro Osório
Guitarra – Fernando Correia Martins
Guitarra baixo – Thilo Krasmann
Bateria – Vítor Mamede
Guitarra portuguesa – António Chainho
Viola – José Maria Nóbrega

Assistente de produção – Rocha oliveira
Técnicos de som – Hugo Ribeiro e Fernando Cortez
Misturas – José Dgo. Valeiras



Capa do EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá-Carneiro" (Parlophone/VC, 1964).



Capa do LP "Carlos do Carmo" (Tecla, 1972).
Concepção – Victor Reis.

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Outros artigos neste blogue com poesia dita/recitada:
Mário Viegas: 10 anos de saudade
Miguel Torga: "Natal"
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Galeria da Música Portuguesa: Carlos Paredes
Arte e poesia
Poesia na rádio (II)
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas
Sebastião da Gama: "Poesia", por Carmen Dolores
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?
Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)
Celebrando Natália Correia
Em memória de António Ramos Rosa (1924-2013)
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Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret
Celebrando Agostinho da Silva
Camões recitado e cantado (II)
Celebrando Sophia de Mello Breyner Andresen
Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"
Em memória de Herberto Helder (1930-2015)
Celebrando Eugénio de Andrade
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas
Cesário Verde: "De Tarde"
Cesário Verde por Mário Viegas
António Gedeão: "Dia de Natal", por Afonso Dias
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Camões recitado e cantado (III)
Ana Moura: "Creio" (Natália Correia)
Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores
Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira
Frei Fado d'El Rei: "Ramo Verde" (Jorge de Sena)
Camões recitado e cantado (IV)
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto
Miguel Torga: "Natividade"

20 março 2019

Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba": "No Tempo da Primavera"


© António Carvalho (blogue "Lugares, Gentes e Curiosidades")


Damos as boas-vindas à Primavera de 2019 pondo em destaque um espécime do cancioneiro alentejano alusivo à estação do renascimento e das flores: a moda "No Tempo da Primavera" na magnífica e floreada interpretação do Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba", um dos grupos históricos do cante (foi fundado em 1933).
A talhe de foice, impõe-se formular a seguinte pergunta: em que situação está o cante na Antena 1? Não é difícil verificar que sofre de continuada marginalização, como se de música maldita de tratasse. Vejamos: na 'playlist' está completamente ausente e os únicos espaços onde de vez em quando aparece – rubrica "Cantos da Casa" [>> RTP-Play] e programas "Cantos da Casa" [>> RTP-Play], "O Povo Que Volta a Cantar" [>> RTP-Play] e "Alma Lusa (Fim-de-Semana)" [>> RTP-Play] – são somente emitidos a horas de sono da generalidade do auditório.
Urge, portanto, que tão injusto e inaceitável estado de coisas seja alterado, de modo a que a esmagadora maioria dos ouvintes não continue alheada de uma das mais identitárias expressões musicais do país, ademais gozando ela, desde há quase cinco anos, da prerrogativa de Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Escusado será dizer que a transmissão daqueles programas em horários compatíveis com a disponibilidade/possibilidade de escuta do grosso do auditório, não obsta a que se crie uma rubrica diária (ou de segunda a sexta-feira) exclusivamente reservada ao cante, à qual se poderia, muito apropriadamente, dar o nome de "O Canto do Cante".
Fica apresentada a ideia. Se não tiver acolhimento, será mais um sinal evidente de que existe uma arreigada má-vontade da parte da direcção de programas para com o cante e toda a música portuguesa de raiz tradicional. Perante isso, cabe às entidades superiores tirarem as devidas ilações e agirem em conformidade com o cabal cumprimento das obrigações do serviço público de radiodifusão legalmente estabelecidas.



No Tempo da Primavera



Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba"* (in CD "Musical Traditions of Portugal", col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)




No tempo da Primavera
Há lindas flores no prado.
Canta, ó lindo passarinho,
Ao nascer do Sol doirado!

Ao nascer do Sol doirado,
Ó meu amor, quem me dera,
Pisando os mimosos prados
No tempo da Primavera.


* Pontos – Ermelindo Galinha e Inácio Domingos Rendeiro Baptista
Altos – Francisco Cabaça e Manuel Martins
Grupo Coral "Os Ceifeiros de Cuba"
URL: https://www.facebook.com/ceifeiros.cuba/
http://www.joraga.net/gruposcorais/pags00/038CubaCeifeiros.htm



Capa do CD "Musical Traditions of Portugal" (col. Traditional Music of the World, vol. 9, Smithsonian Folkways/International Institute for Traditional Music, 1994)

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Outros artigos com canções alusivas à Primavera:
Cantos d'Aurora: "Primavera"
Roda Pé: "Primavera Alentejana"

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Outros artigos com modas por grupos corais alentejanos:
O canto alentejano é património da Humanidade
Grupo Coral "Os Ganhões de Castro Verde": "Grândola, Vila Morena"

08 março 2019

João Lóio: "Cicatriz de Ser Mulher"




Neste Dia Internacional da Mulher, e estando no topo da agenda mediática, em razão da vergonhosa escalada de uxoricídios em Portugal, a violência exercida por muitos indivíduos do sexo masculino sobre as cônjuges ou ex-cônjuges –, apresentamos uma canção que aborda precisamente esse flagelo: "Cicatriz de Ser Mulher", de João Lóio.
O presente espécime, desconhecido do grande público porque João Jóio tem sido alvo de um atroz e criminoso silenciamento na rádio portuguesa, está longe de ser um caso isolado em termos de repertório autóctone alusivo à mulher maltratada ou encarada como simples serviçal. Listamos alguns exemplos (por ordem cronológica de gravação/edição): "Rosa Enjeitada", de Maria Teresa de Noronha; "Boneca de Trapo", de Luiz Goes; "Vai, Maria, Vai", de José Afonso; "Casa Comigo, Marta", de José Mário Branco; "Maria, Vida Fria", de Paulo de Carvalho; "Calçada de Carriche", de Carlos Mendes; "Esquina de Rua", de Rodrigo; "Balada para uma Mulher" e "Amélia dos Olhos Doces", de Carlos Mendes; "Balada da Rita", de Sérgio Godinho; "Mariana das Sete Saias", de Fausto Bordalo Dias; "Ai, Maria", de Amália Rodrigues; "Mulher-Mágoa", de Maria Armanda; "O Lado Errado da Noite", de Jorge Palma; "Prelúdio (Mãe Negra)", de Paulo de Carvalho; "Branca de Neve 1993", de Três Tristes Tigres"; "Criada para Todo o Serviço", de João Lóio; e "Bela Adormecida", de Jorge Fernando.
Havendo repertório tão bom, era de toda a pertinência que a Antena 1 o passasse, se não na totalidade ao menos em parte, ao longo da semana. Mas não! Nada!
Resta saber se tal omissão se deve a eventual marialvismo de quem tem responsabilidades na 'playlist' – Rui Pêgo e Ricardo Soares – ou se resulta de mera incúria.



Cicatriz de Ser Mulher



Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)


Olha, não chores, maninha,
que eu não sei se vai passar...
essa tristeza tão funda
não sei se passa a chorar!

Olha, que pena, maninha,
essa flor de malmequer,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!

Lembras? Que lindo o teu homem
e que meigo o seu olhar
e como ardia o teu corpo
ao seu mais leve tocar?

Foi de repente, maninha,
como tudo se mudou:
o amante foi senhor,
o senhor tudo esmagou!

Sei que é tão frágil a flor
que brotou do coração
e dói ver um corpo bandido
desfolhá-la pelo chão!

Olha, que os homens, maninha,
andam tontos pelo mundo:
pisam com fúria tamanha
o seu berço mais profundo!

E já não falo da guerra
com soldados frente a frente:
deixam a saia sangrando,
deixam pegadas no ventre!

Dizem "quem cala consente!",
mas custa tanto falar:
o medo dentro da gente
ficou mudo de gritar!

Olha, não chores, maninha,
que eu apago, se puder,
essa tristeza tão funda,
cicatriz de ser mulher!


* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel
URL: https://www.joaoloio.com/



Capa do CD "Canções de Amor e Guerra", de João Lóio.
Fotografia por Renato Roque.

23 fevereiro 2019

José Medeiros: "O Cantador"


© Fernando Negreira


Entre os acontecimentos tristes do dia 23 de Fevereiro de 1987, faz hoje trinta e dois anos, conta-se a morte daquele que pode considerar-se, sem exagero ou favor, o trovador maior da música popular portuguesa: José Afonso. Em reconhecimento do seu grande – enorme – legado artístico e da admirável intervenção cívica em que sempre se empenhou, alguns pares sentiram-se no dever moral de criar canções de tributo, algumas das quais já apresentámos neste blogue [links ao fundo]. No presente ano, continuamos na mesma senda destacando um espécime que é assinado pelo cautautor açoriano José Medeiros. Tem por título "O Cantador" e faz farte do CD "Torna-Viagem", editado em 2004 e que no ano seguinte foi distinguido com o Prémio José Afonso, por decisão de um júri no qual figuraram o compositor e pianista António Victorino d'Almeida, a pianista Olga Prats, o crítico Pedro Pyrrait e os jornalistas Carlos Pinto Coelho e Viriato Teles.
José Medeiros (para os amigos, Zeca Medeiros), além de distinto realizador, na RTP-Açores, de séries e telefilmes memoráveis, como "Xailes Negros" (1986), "Balada do Atlântico" (1987), "O Barco e o Sonho" (1989), "Mau Tempo no Canal" (1992), "O Feiticeiro do Vento" (1996), "7 Cidades ou a Lenda de Genádio, o Arcebispo" (1997), "Gente Feliz com Lágrimas" (2002), "A Ilha de Arlequim" (2007) e "Anthero: O Palácio da Ventura" (2009), é um dos mais originais e categorizados criadores poético-musicais que existem em Portugal. Quem não tiver a sensibilidade embotada e se der ao cuidado de ouvir a sua discografia não terá dificuldade em disso se aperceber. Por conseguinte, a opção (persistente) de não incluir o quer que seja do repertório de José Medeiros na 'playlist' da Antena 1 reveste-se da mais vil injustiça feita ao artista e constitui um crime soez de sonegação cultural aos cidadãos/ouvintes/contribuintes.



O Cantador



Letra e música: José Medeiros
Arranjo: Paulo Borges e José Medeiros
Intérprete: José Medeiros* com Mariana Abrunheiro (in CD "Torna-Viagem", Memórias/Fortes & Rangel, 2004)


[instrumental]

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.

[instrumental]

O cantador
chegou de madrugada,
venceu a noite
pelas praias do mar;
na sua voz
teceu uma balada:
amanhecer
que havemos de cantar.

O cantador
rasgou as nossas penas
num canto moço
que havemos de acender;
na sua voz
ergueu vilas morenas:
Maio maduro
que havemos de colher.

Ergueu cidades
sem muros nem ameias,
lançou sementes
na terra de ninguém;
cantou o sol,
rompeu nossas cadeias,
trouxe consigo
outro amigo também.


* José Medeiros e Mariana Abrunheiro – vozes solo e em coro
João Lóio, Regina Castro, Cláudia Rangel e Helena Lavouras – vozes em coro
Paulo Borges – piano e acordeão
Pedro Lemos – baixo eléctrico
Quiné Teles – percussão
Direcção musical – Paulo Borges
Produção – Fernando Rangel, Pedro Rangel e José Medeiros
Gravado por Fernando Rangel e Pedro Rangel, nos Estúdios RM, Porto, de Março a Novembro de 2003
Mistura e masterização – Pedro Rangel



Capa do CD "Torna-Viagem", de José Medeiros (Memórias/Fortes & Rangel, 2004)

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Outros artigos neste blogue com poemas/canções de homenagem a José Afonso:
Galeria da Música Portuguesa: José Afonso
Filipa Pais: "Zeca"
José Mário Branco: "Zeca (Carta a José Afonso)"
Dulce Pontes: "O Primeiro Canto" (dedicado a José Afonso)

24 dezembro 2018

Miguel Torga: "Natividade"


Madeiro de Natal de 2008 na aldeia de Monsanto, concelho de Idanha-a-Nova, Beira Baixa.
© João Carlos Fonseca


«Todo o tempo é de poesia», assim escreveu António Gedeão, e o tempo da consoada não é excepção. Do poeta-físico apresentámos, em 2016, o poema "Dia de Natal" [link ao fundo], pelo que este ano pensámos em recorrer a Miguel Torga, que nos deixou muitos poemas – escritos e ditos - de temática natalícia. É pois do álbum "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", gravado em 1986, que extraímos o poema "Natividade", que fora escrito a 24 de Dezembro de 1958, faz hoje exactamente 60 anos. Esperamos que seja do vosso agrado.
A Antena 1, no âmbito da 'playlist', vem transmitindo canções de Natal, todas (ou quase todas) anglo-americanas, mas nada de poesia dita/recitada. Além de ser totalmente inaceitável o ostracismo a que estão a votar o repertório musical autóctone, não podemos admitir que a poesia seja posta de parte, atendendo às particulares obrigações que a rádio pública tem no domínio da língua portuguesa.



Natividade



Poema de Miguel Torga (in "Diário VIII", Coimbra: Edição do autor, 1959; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 611)
Recitado pelo autor* (in LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. EMI-VC, 2000)


Arde no coração da noite
A ritual fogueira que anuncia
O eterno milagre
Do nascimento.
Batida pelo vento,
Que da cinza das brasas faz semente,
É um sol sem firmamento,
Directamente
Aceso
E preso
À terra
Por mãos humanas.
De raízes profanas,
Lume de vida a bafejar a vida,
O seu calor aquece
A única certeza que merece
Ser aquecida...


Vila Cova, 24 de Dezembro de 1958


* Miguel Torga – voz
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Produzido e gravado por Pedro Vasconcelos



Capa do LP "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas" (EMI-VC, 1986).
Concepção – Fátima Rolo
Ao centro, retrato do poeta desenhado por Henrique Medina, em 1977.
[para ver em ponto grande, noutra janela, clicar aqui]

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11 novembro 2018

Primeira Grande Guerra: centenário do armistício


Cemitério militar português de Richebourg l'Avoué, no departamento de Pas-de-Calais, França.
Contém 1 831 sepulturas de combatentes portugueses, dos quais 238 estão por identificar, provenientes dos cemitérios de Le Touret, de Ambleteuse e de Brest (França), de Tournai (Bélgica) e também da Alemanha, neste caso de prisioneiros de guerra aí falecidos. A transladação dos restos mortais decorreu entre 1924 e 1938.


Quem tiver um mínimo de sensibilidade não pode deixar de ficar impressionado ante os cemitérios militares, cartesianamente ordenados, existentes no Norte de França e na Bélgica, ao longo da faixa territorial que foi o cenário da frente ocidental da Primeira Grande Guerra. Aos soldados que morreram no teatro de guerra ou em campos de prisioneiros não era possível perguntar, post-mortem, qual o local preferido para a 'última morada', mas é de presumir que quase todos preferissem 'repousar' nas freguesias onde residiam, perto das famílias. Alguém das cúpulas dirigentes teve a clarividência de optar pela solução dos cemitérios de guerra, homogéneos e em larga escala, e o significado subjacente a esta opção não é despiciendo para os vivos que os contemplam. Em boa verdade, é aos vivos que se destina a mensagem que estas gigantescas necrópoles transmitem. Mensagem essa que pode resumir-se nestes termos: «Guerra é destruição e morte. Tenham juízo e tomem a Paz como um valor supremo! Amem a Vida!»
Nesse esforço de promoção da paz e da concórdia entre todos os seres humanos, as canções também desempenham um papel importante e é com um belo espécime de produção endógena que comemoramos o centenário do armistício que pôs fim às hostilidades, na Europa, da hecatombe bélica que causou cerca de oito milhões de mortos e ainda maior número de deficientes e incapacitados. Tem por título "Dois Soldados" e faz parte do álbum "Canções de Amor e Guerra" (2002), de João Lóio, um cantautor que tem sido votado a um criminoso ostracismo por quem administra a lista de difusão musical, vulgo 'playlist', da Antena 1.



Dois Soldados



Letra e música: João Lóio
Intérprete: João Lóio* (in CD "Canções de Amor e Guerra", João Lóio, 2002)


Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Uma é de oiro bordada,
outra é de seda tecida.

Numa pegava um soldado,
noutra um soldado pegava.
Qual deles o mais ousado?
Se um valente, o outro é bravo.

Num campo há dois regimentos:
Qual possui mais munições?
Um é cheio de espingardas,
outro é cheio de canhões.

Num um soldado gritava,
noutro gritava um soldado.
Um ao outro respondiam:
«À morte os do outro lado!»

«Viva a guerra e viva a morte!»,
diz em coro o batalhão,
com os olhos revirados,
com balas no coração.

Alto sobem as bandeiras:
qual delas terá mais sorte?
Mais alto sobe a ceifeira
com a gadanha da morte.

Já se acabou a batalha,
já se acabou a batalha...
qual deles mais derrotado?
Um todo cheio de feridos,
o outro é seu igual:
todo cheio de aleijados.

Num morrera o soldado,
num morrera o soldado
que a bandeira segurava;
no outro caíra a bandeira,
a bandeira em tudo igual
que outro soldado levava.

Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Jaz o oiro do bordado,
de sangue a seda é tingida.

Num campo há duas bandeiras:
qual delas a mais querida?
Uma serve de mortalha,
outra é de morte tecida.

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco]:
Carlos Rocha – guitarras acústica e eléctrica
João Lóio – voz e guitarra acústica
Firmino Neiva – baixo eléctrico
Arnaldo Fonseca – acordeão
Mário Teixeira – caixa de rufo
Regina Castro e Guilhermino Monteiro – coros
Arranjos e direcção musical – Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Gravado por Fernando Rangel, nos Estúdios Fortes & Rangel, Porto, em Abril de 2002
Mistura – Fernando Rangel, Carlos Rocha, Firmino Neiva e João Lóio
Masterização – Fernando Rangel
URL: https://www.joaoloio.com/



Capa do CD "Canções de Amor e Guerra", de João Lóio.
Fotografia por Renato Roque.

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Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra Mundial

13 outubro 2018

António Fragoso: centenário da morte


© AAF, 2009


António Fragoso tinha a envergadura necessária para se tornar o maior compositor português de todos os tempos. […] morrer aos vinte e um anos é quase não ter vivido.
                PEDRO DE FREITAS BRANCO, maestro


Filho de Viriato de Sá Fragoso e de Maria Isabel de Sá Lima Fragoso, António Fragoso nasceu a 17 de Junho de 1897, na freguesia da Pocariça, concelho de Cantanhede, onde viria a falecer a 13 de Outubro de 1918, vitimado pela gripe pneumónica que nessa época se abateu sobre toda a Europa.
A sua vocação para a música foi evidenciada logo aos seis anos de idade, quando começou a aprender a ler pautas e a tocar piano com António dos Santos Tovim, seu tio e médico em Cantanhede, figura com vasta cultura musical que teve uma influência marcante nesses primeiros anos da sua formação musical. Entre 1907 e 1914, concluiu na cidade do Porto o curso geral dos liceus e os dois primeiros anos do Curso Superior de Comércio, sem nunca ter deixado de aprofundar os seus estudos de piano, agora sob a orientação do Prof. Ernesto Maia. Aos 16 anos, publicou e deu a primeira audição da sua primeira composição – "Toadas da Minha Aldeia" – muito aplaudida pela crítica musical. Algumas notas biográficas referem que teve de vencer uma certa resistência dos pais para se matricular no Conservatório Nacional de Música de Lisboa, que viria a frequentar até 1918, ano em que obteve o diploma do Curso Superior de Piano com 20 valores, a classificação máxima.
Ainda como estudante iniciou um percurso artístico amplamente reconhecido nos círculos culturais do país, não apenas como exímio pianista, mas também como compositor, ao ponto de ser considerado pelos críticos da época como «um dos mais poderosos talentos da sua geração». João de Freitas Branco refere mesmo que entre as suas peças «se encontram páginas surpreendentes num compositor com menos de 21 anos».
Geralmente, os musicólogos destacam do conjunto da sua obra os "Prelúdios" e a "Petite Suite" para piano, os lieder para canto e piano, as partituras de música de câmara e os Nocturnos, sendo o "Nocturno em Ré bemol maior" considerada a peça mais emblemática do seu imenso talento como compositor. [Fonte: site da Associação António Fragoso]

No dia em que se completa um século sobre a morte (muito prematura) do compositor António Fragoso, rendemos homenagem à sua memória apresentado uma bela canção saída do seu punho e que não podia vir mais a propósito na presente estação: "Chanson d'Automne", sobre poema do simbolista francês Paul Verlaine, aqui na interpretação do tenor Carlos Guilherme e do pianista Armando Vidal.
Em complemento, pensando naqueles que desejem conhecer o fugaz mas fulgurante percurso artístico de António Fragoso, deixamos ao fundo os links dos treze episódios da série "António Fragoso – Biografia Musical", da autoria de Margarida Prates, que a Antena 2 emitiu durante o primeiro trimestre de 2018 no espaço "Caleidoscópio". Perdoe-se o tom professoral de quem está a dar aulas a crianças da instrução primária!



Chanson d'Automne



Poema: Paul Verlaine (in "Poèmes Saturniens", Paris: Alphonse Lemerre, 1866) [tradução em português >> abaixo]
Música: António Fragoso (in "Poèmes Saturniens", 1917)
Intérpretes: Carlos Guilherme & Armando Vidal* (in CD "A Canção Portuguesa", Numérica, 1998)




[instrumental]

Les sanglots longs
Des violons
     De l'automne
Blessent mon coeur
D'une langueur
     Monotone.

Tout suffocant
Et blême, quand
     Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
     Et je pleure;

Et je m'en vais
Au vent mauvais
     Qui m'emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
     Feuille morte.

[instrumental]


* Carlos Guilherme – voz (tenor)
Armando Vidal – piano
Gravado no Aurastudio, Paços de Brandão - Santa Maria da Feira, em Janeiro de 1996
Engenheiros de som – Jorge Fidalgo e Fernando Rocha
Mistura – Jorge Fidalgo
Montagem – Fernando Rocha



CANÇÃO DE OUTONO

(Paul Verlaine, trad. Paulo Mendes Campos)
[outras propostas de tradução em: http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet312.htm]


Os longos trinos
Dos violinos
     Do outono
Ferem minh'alma
Com uma calma
     Que dá sono.

Ao ressoar
A hora, alvar,
     Sufocado,
Choro os errantes
Dias distantes
     Do passado.

E em remoinho,
O ar daninho
     Me transporta
De cá p'ra lá,
De lá p'ra cá,
     Folha morta.



Capa do CD "A Canção Portuguesa", de Carlos Guilherme & Armando Vidal (Numérica, 1998)


ANTÓNIO FRAGOSO – BIOGRAFIA MUSICAL
Autora: Margarida Prates
Ep. 1 | 06 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
De 1897 a 1913: nascimento de um artista.

Ep. 2 | 13 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
De 1913 a 1914: primeiros rasgos de criação.

Ep. 3 | 20 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
1914: O 1.° semestre no Conservatório de Música de Lisboa.

Ep. 4 | 27 Jan. 2018 [>> RTP-Play]
1915: Construindo uma carreira musical (I).

Ep. 5 | 03 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1915: Construindo uma carreira musical (II).

Ep. 6 | 10 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916: O afirmar de um talento (I).

Ep. 7 | 17 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916: O afirmar de um talento (II).

Ep. 8 | 24 Fev. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (I).

Ep. 9 | 03 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (II).

Ep. 10 | 10 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1916/1917: Consolidação do nome António Fragoso no meio musical (III).

Ep. 11 | 17 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1917: A afirmação de António Fragoso como pianista solista e de música de câmara.

Ep. 12 | 24 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1918: O exame final de piano.

Ep. 13 | 31 Mar. 2018 [>> RTP-Play]
1918: Últimas obras compostas.





Casa e busto de António Fragoso na localidade de Pocariça, concelho de Cantanhede.
O busto, concebido pelo escultor Cabral Antunes, foi inaugurado a 13 de Outubro de 1968, assinalando o cinquentenário da morte do compositor.

01 outubro 2018

Pedro Barroso: "Música de Mar"


John William Waterhouse, "A Mermaid" ("Uma Sereia"), 1900, óleo sobre tela, 96,5 x 66,6 cm, Royal Academy of Arts, Londres


Para celebrar este Dia Mundial da Música trazemos uma belíssima canção do repertório de Pedro Barroso: "Música de Mar", com poema do cantor sobre música do basco Imanol. Faz parte do LP "Pedro Barroso", publicado em 1988, e que – lamentavelmente – ainda não teve edição em CD. Nessa medida é uma pérola perdida no vinil, se bem que em álbuns do cantautor já reeditados ou originalmente editados em disco compacto abundem pérolas 'perdidas'. Neste caso, porque não são tomadas em consideração pelos indivíduos que gerem as 'playlists', seja por não as conhecerem seja por terem um atávico e pacóvio preconceito contra Pedro Barroso e outros categorizados artistas portugueses. Isto é grave nas rádios privadas mas assume especial gravidade na estação pública, a qual os cidadãos são chamados a financiar, através da chamada contribuição do audiovisual, no pressuposto de nela poderem ouvir o que de melhor se produziu e produz no país em matéria de música. O vazadouro de lixo sonoro em que 'playlist' da Antena 1 foi transformada subverte, como é bom de ver, esse contrato tácito. Perante esta insustentável realidade, de que está à espera quem tem por competência escrutinar e avaliar o serviço (ou a falta dele) que a Antena 1 presta no domínio da música?



Música de Mar



Poema: Pedro Barroso
Música: Imanol (Manuel Eusebio Larzábal Goñi, 1947-2004)
Intérprete: Pedro Barroso* (in LP "Pedro Barroso", Schiu!/Transmédia, 1988)




[instrumental]

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Paro p'ra te ver para lá do olhar
e param-me as mãos a pensar.

Tão pura, tão simples, tão meiga de ouvir:
canto de embalar e dormir,
eixo ribaldeixo como a cantilena
que tu soletraste em pequena.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Quando nos invades, quando nos tormentas,
risos, choros, silêncios inventas.

Música e amante mal te conheci,
três vidas num instante vivi;
música de mar que nas ondas vem
toca-me nos dedos também!

[instrumental]

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Como hei-de compor, como hei-de cantar
tanto qu'inda tens p'ra me dar?

Como uma criança canta a tabuada
e junta três sons encantada,
assim te encontramos a ti, melodia,
nós que cinzentamos o dia.

Tão bonita és, tão bonita estás,
tão bonita és, como vais?
Viril, feminina, velhota ou senhora,
riso de menina e doutora.

Nua te despi, nua te deixei
e entre sol e lua cantei.
Como poderemos nós falar de ti
se andamos tão longe e tu aqui?!


* Pedro Barroso – voz, 2.ª voz e viola
Carlos Carlos – acordeão
José Carlos Gonçalves – violoncelos
Pedro Fragoso – viola campaniça
Arranjo – Pedro Barroso, com a colaboração colegial de todos os músicos
Produção e direcção musical – Pedro Barroso
Gravado nos Estúdios Musicorde, Lisboa
Engenheiro de som – Rui Remígio



Capa do LP "Pedro Barroso" (Schiu!/Transmédia, 1988)
Concepção – Mestre Martins Correia

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23 setembro 2018

Max: "Outono na Cidade"



Começou hoje o Outono de 2018. Assinalamos a entrada da estação da nostalgia resgatando a canção "Outono na Cidade", na voz de Max. Trata-se de uma das mais belas que o ilustre cantor madeirense gravou, mas também – e estranhamente – uma das menos conhecidas. Motivo acrescido para aqui a apresentarmos e com ela comemorarmos, ainda que muito singelamente, o centenário do nascimento do criador de "Pomba Branca, Pomba Branca", "Noite" e "A Rosinha dos Limões".
Sem prejuízo da inclusão deste e de outros espécimes do repertório de Max na 'playlist' da Antena 1 (o que teria o efeito – benéfico – de diminuir o insuportável peso da escória com que a atafulharam), a direcção de programas peca por omissão se não aproveitar o tempo que falta para o ano terminar (três meses e uma semana) para render a Max a homenagem que o país lhe deve em razão do relevante contributo que deu para o enriquecimento do nosso património musical/fonográfico. David Ferreira, que o evocou na sua rubrica a 19 de Abril [>> RTP-Play] e que lamentou (com inteira razão) o facto das entidades oficiais do continente se estarem a esquecer do centenário do reputado compositor e intérprete, está em boa posição para levar a cabo essa celebração com a amplitude e o desenvolvimento que se impõem.



Outono na Cidade



Letra: Ferro Rodrigues e Fernando Santos
Música: Carlos Dias
Intérprete: Max* (in EP "Tingo Lingo Lingo", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Max: Vol. 2", EMI-VC, 1993; CD "Max: Essencial", Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)




[instrumental]

Vento que traz nostalgia
D'um amor perdido
Nas ruas da vida,
Sombras e melancolia,
Um adeus sentido
De mulher esquecida.
       Nas folhas da esperança
       Caídas sem dono,
       Há passos de criança:
       É Outono!

Outono na cidade
Tem gosto de saudade:
É terna despedida que não esquece,
É doce melodia
Que vem no fim do dia
Que o Sol – bom e doirado – ainda aquece.

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!

Gente que corre apressada
Na manhã brumosa,
Sonolenta e fria;
Vida que sonha acordada
A canção formosa,
Luz do meio-dia.
       No azul infindo
       O povo bem sente
       O teu adeus, tão lindo,
       Sol poente!

[instrumental]

Cai a folha – folha nua –,
Chuva d'oiro molhando a rua:
Outono na cidade,
Que fria claridade!
Sorriso que desce da Lua!


* Max – voz
Orquestra dirigida por Jorge Costa Pinto



Capa da compilação "Max: Essencial" (Edições Valentim de Carvalho/CNM, 2014)

21 junho 2018

Grupo Banza: "Verão"


António Saiote, "Ceifeiros VII", c.1999, óleo sobre tela


Para assinalar, poética e musicalmente, o solstício de hoje, que dá início ao Estio de 2018 (no hemisfério norte, evidentemente), tivemos a ideia de trazer a belíssima moda da autoria de Manuel Conde Fialho (já falecido e que foi regente da banda filarmónica de São Pedro do Corval, Reguengos de Monsaraz), a qual surge nos discos com o título de "Verão, Alentejo e os Homens" ou "Verão, Brasa Dourada" ou simplesmente "Verão".
Tivemos acesso a nove gravações por outros tantos intérpretes (por ordem alfabética): Alencanto, António Zambujo, Grupo Banza, Grupo Coral Etnográfico "Amigos do Alentejo", Grupo Coral "Vozes de Almodôvar", Mário Moita, Modas ao Luar, Monda, e Raízes do Sul. A do Grupo Banza, publicada no álbum "Açorda Alentejana" (2004) e na compilação "25 Anos" (2006), foi a que mais nos cativou e é essa que aqui apresentamos.
Com a introdução da ceifa mecanizada, desapareceram dos campos do Alentejo os ranchos de ceifeiros que, de corpos curvados e sob um sol abrasador, cortavam e atavam em molhos a bênção loira da vida (parafraseando versos da cantiga). Tal trabalho, de tão árduo e extenuante que era, não terá deixado grandes saudades naqueles que o executavam, mau grado a contingência da procura de outro modo de sustento, mas perdeu-se irremediavelmente o contexto laboral que fez nascer alguns dos mais belos espécimes do cancioneiro popular português, de que o presente é um magnífico exemplo. O progresso cobra sempre um preço. Disso foram boas testemunhas as pessoas (portadoras de saberes ancestrais) a quem Rafael Correia deu voz no maravilhoso programa "Lugar ao Sul" durante três decénios (os dois últimos do século XX e o primeiro do século XXI), para proveito do afortunado e fiel auditório que nas matinas de sábado escutava religiosamente a Antena 1. É oportuno lembrar que, sendo o acervo do "Lugar ao Sul" algo de fabuloso e único (enquanto documento cultural e antropológico), importa que a entidade que o detém, a Rádio e Televisão de Portugal, não demore mais a resgatá-lo todo das perecíveis cassetes DAT e a disponibilizá-lo na plataforma RTP-Arquivos para que os cidadãos que com ele se queiram cultivar o possam fazer.
Às gentes que ao longo de séculos e séculos verteram o seu suor a segar o pão da vida, e desse esforçado labor souberam recolher inspiração para criar as modas e as cantigas que hoje constituem um património precioso, rendemos a nossa penhorada homenagem!



Verão



Letra e música: Manuel Conde Fialho
Intérprete: Grupo Banza* / voz solo de António Jacob (in CD "A Açorda Alentejana", Grupo Banza, 2004; CD "25 Anos", Grupo Banza, 2006)


Verão,
A brasa dourada e celeste
Esvaiu do Sol agreste
Doirando mais as espigas;
Ceifeiros, corpos curvados
Cortando e atando em molhos
A bênção loira da vida.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.

O calor caustica os corpos,
Os ceifeiros vão ceifando
Sem parar no seu labor;
O seu cantar é dolente,
É certo que é boa gente,
É verdade e tem mais sol.

Meu Alentejo,
Enquanto isto se processa,
O sol ferino e sem pressa
Queima mais a tez bronzeada;
O suor rasga as camisas,
Um homem queimado mais fica,
E a vida é feita de brasa.


* [Créditos gerais do disco:]
Grupo Banza:
Victor Godinho (n. Barreiro) – voz e baixo
Joaquim Banza (n. Entradas) – voz e bandolim
Jacinto Gaspar (n. Safara) – voz e guitarra
Zé Rita (n. Safara) – acordeão
João Soares (n. Aljustrel) – voz e guitarras
António Farinha (n. Moura) – voz
António Jacob (n. Panóias) – voz e guitarra
Participação de:
Guilherme Banza – guitarra portuguesa
Diogo Clemente – guitarra clássica
Tio Bejinha – castanholas
Jorge Miguel – acordeão e teclados
Produção – Jorge Miguel / JM Produções
Gravado por Jorge Miguel, nos Estúdios IN/OUT, Vale Figueira, Sobreda da Caparica



Capa do álbum "A Açorda Alentejana", do Grupo Banza (2004).



Capa da compilação "25 Anos", do Grupo Banza (2006).

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Artigos relacionados:
O canto alentejano é património da Humanidade"
Janita Salomé: "Reino de Verão"

13 junho 2018

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Aniversário", por Luís Lima Barreto


Fernando Pessoa em 1928, aos 40 anos de idade.


O blogue "A Nossa Rádio" associa-se às comemorações do 130.º aniversário do nascimento de Fernando Pessoa apresentando o poema "Aniversário", do heterónimo Álvaro de Campos, admiravelmente dito pelo actor Luís Lima Barreto, que faz parte do CD n.º 1 da edição "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX" (2004) [capa do fundo]. O texto está datado de 15 de Outubro de 1929 e foi primeiramente publicado na revista coimbrã "Presença" em meados de 1930. Está, pois, temporalmente muito próximo do retrato do poeta supra.
Quem esteve ligado à Antena 2, entre as 08:00 e as 10:00, teve a oportunidade de se nutrir de uma mão-cheia de poemas pessoanos, ora recitados ora cantados, nas vozes de Luís Lima Barreto, Maria Germana Tânger, Camané, Tom Jobim, Sara Serpa e outros intérpretes. Uma nota de louvor para o autor da iniciativa, Paulo Alves Guerra!
E a Antena 1? Fez alguma coisa em celebração do maior poeta português do século XX? Durante os períodos em estive hoje sintonizado (a intragável 'playlist' impediu-me de ficar em escuta contínua e obrigou-me ao exílio noutras paragens), nada de Fernando Pessoa – poesia ou prosa – chegou aos meus ouvidos. E, tendo em conta a conhecida aversão da actual direcção de programas a tudo o que seja poesia, não é de crer que quando estive fora da sintonia do canal algum poema do ilustre aniversariante tenha sido transmitido ou venha a sê-lo no tempo que falta para o dia terminar. Vergonhoso!



ANIVERSÁRIO



Poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos (15-10-1929, in "Presença", n.º 27, Coimbra: Jun.-Jul. 1930; "Poesias de Álvaro de Campos", col. Obras Completas de Fernando Pessoa, Vol. II, Lisboa: Edições Ática, 1944, 1993 – p. 284-286)
Recitado por Luís Lima Barreto* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD 1, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa.
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


15-10-1929


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Capa do livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX", col. Sons (Assírio & Alvim, 2004).

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João Villaret: centenário do nascimento
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos: "Dois Excertos de Odes", por Mário Viegas

10 junho 2018

Camões recitado e cantado (IV)


Cabeça de Luís de Camões (1944), em pedra-sabão, realizada pelo escultor brasileiro, de ascendência italiana, Bruno Giorgi, para o edifício do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.


Neste Dia de Camões, e dando continuidade à divulgação das Dez Canções, ditas por Luís Miguel Cintra, trazemos as quatro que se seguem à terceira [as três primeiras podem ser ouvidas no artigo "Camões recitado e cantado (III)"].
Relativamente a poemas musicados/cantados, apresentamos cinco espécimes, todos na voz de Cristina Branco, quatro extraídos da Lírica e um d' "Os Lusíadas".
À laia de prólogo, e no âmbito da evocação de Jorge de Sena nos 40 anos da sua morte, deixamos o poema "Camões Dirige-se aos Seus Contemporâneos", dito pelo autor. O texto foi escrito a 11 de Junho de 1961 e publicado, pela primeira vez, no livro "Metamorfoses" (1963), ao lado duma fotografia da escultura executada por Bruno Giorgi (imagem do topo); ganhou nova vida em 1974 quando saiu, em fonograma (LP), na voz do próprio Jorge de Sena. Grande admirador e estudioso do nosso vate maior, Sena coloca-o a dirigir-se aos seus coevos, zurzindo ao mesmo tempo nos ladrões que quatro séculos mais tarde iam hipocritamente pôr-lhe flores no túmulo, mas os versos «E podereis depois não me citar, / suprimir-me, ignorar-me, aclamar até / outros ladrões mais felizes.» bem podem aplicar-se aos viventes de hoje que ocupam lugares de elevada responsabilidade cultural, desde planificadores de currículos escolares até directores de órgãos de comunicação social.
Neste dia em que é expectável que os diversos canais da rádio pública celebrem o Príncipe dos Poetas, nem um pedacinho da sua poesia, por mais minúsculo que fosse, logrei ouvir nas Antenas 1, 2 e 3 (dei-me ao cuidado de andar a fazer 'zapping', mau grado o incómodo). Uma situação assaz vergonhosa e absurda, ademais havendo uma boa quantidade de registos discográficos de poesia camoniana, quer recitada quer cantada!



CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS



Poema de Jorge de Sena (in "Metamorfoses", Lisboa: Livraria Morais Editora, 1963; "Poesia II", org. Mécia de Sena, col. Obras de Jorge de Sena, Lisboa: Moraes Editores, 1978; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1988 – p. 93 e 95; "Poesia 1", org. Jorge Fazenda Lourenço, Lisboa: Guimarães/Babel, 2013 – p. 329 e 331)
Dito pelo autor* (in LP "Jorge de Sena: Poemas Seleccionados e Ditos pelo Autor", Guilda da Música/Sassetti, 1974, reed. CNM, 2011)




Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.


          Assis, 11/6/1961


* Jorge de Sena – voz
Direcção literária – Alberto Ferreira
Produção – Sassetti
Gravado no Estúdio de Departamento da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara
Sonorização – Bernardino Pontes
Assistente musical – Mário Vieira de Carvalho



Saudade



Poema (vilancete em redondilha menor): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Murmúrios", MW Records/Music & Words, 1998)




[instrumental]

Ai, se de saudade
Morrerei ou não,
Meus olhos dirão
De mim a verdade.
Por eles me atrevo
A lançar nas águas
Que mostrem as mágoas
Que nesta alma levo.

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

As águas que em vão
Me fazem chorar,
Se elas são do mar,
Estas de amor são.
Por elas relevo
Todas minhas mágoas;
Que, se força de águas
Me leva, eu as levo.

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

Todas me entristecem,
Todas são salgadas;
Porém as choradas
Doces me parecem.
Correi, doces águas,
Que, se em vós me enlevo,
Não doem as mágoas
Que no peito levo!

Se me levam águas,
Nos olhos as levo.

[instrumental]

Correi, doces águas,
Que, se em vós me enlevo,
Não doem as mágoas  | bis
Que no peito levo!      |


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Jorge Fernando – viola
Marino de Freitas – viola baixo
Arranjos e direcção musical – Custódio Castelo
Produção em estúdio – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Gravado e misturado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Dezembro de 1997 a Março de 1998



Se me levam águas

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 772-773)


          MOTE ALHEIO

Se me levam águas,
nos olhos as levo.

          VOLTAS

Se de saudade
morrerei ou não,
meus olhos dirão
de mim a verdade.
Por eles me atrevo
a lançar as águas
que mostrem as mágoas
que nesta alma levo.

As águas que em vão
me fazem chorar,
se elas são do mar,
estas d'amor são.
Por elas relevo
todas minhas mágoas;
que, se força d'águas
me leva, eu as levo.

todas me entristecem,
todas são salgadas;
porém as choradas
doces me parecem.
Correi, doces águas,
que, se em vós m'enlevo,
não doem as mágoas
que no peito levo.



CANÇÃO IV



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Vão as serenas águas
do Mondego descendo
mansamente que até o mar não param;
por onde minhas mágoas,
pouco a pouco crecendo,
para nunca acabar se começaram.
Ali se ajuntaram
neste lugar ameno,
aonde agora mouro,
testa de neve e ouro,
riso brando, suave, olhar sereno,
um gesto delicado,
que sempre na alma me estará pintado.

Nesta florida terra,
leda, fresca e serena,
ledo e contente para mim vivia;
em paz com minha guerra,
contente com a pena
que de tão belos olhos procedia.
Um dia noutro dia
o esperar me enganava;
longo tempo passei,
co a vida folguei,
só porque em bem tamanho me empregava.
Mas que me presta já,
que tão fermosos olhos não os há?

Oh, quem me ali dissera
que de amor tão profundo
o fim pudesse ver inda algũa hora!
Oh, quem cuidar pudera
que houvesse aí no mundo
apartar-me eu de vós, minha Senhora!
para que desde agora
perdesse a esperança,
e o vão pensamento,
desfeito em um momento,
sem me poder ficar mais que a lembrança,
que sempre estará firme
até o derradeiro despedir-me.

Mas a mor alegria
que daqui levar posso,
co a qual defender-me triste espero,
é que nunca sentia
no tempo que fui vosso
quererdes-me vós quanto vos eu quero;
porque o tormento fero
de vosso apartamento
não vos dará tal pena
como a que me condena:
que mais sentirei vosso sentimento
que o que minha alma sente.
Morra eu, Senhora, e vós ficai contente!

Canção, tu estarás
aqui acompanhando
estes campos e estas claras águas,
e por mim ficarás
chorando e suspirando,
e ao mundo mostrando tantas mágoas
que, de tão larga história,
minhas lágrimas fiquem por memória.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Memória de Meu Bem



Poema (soneto): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Corpo Iluminado", Universal Classics France, 2001)




[instrumental]

Memória de meu bem cortado em flores,
Por ordem de meus tristes e maus fados,
Deixai-me descansar com meus cuidados,
Nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
Dos sucessos que espero afortunados,
Sem que venham, de novo, bens passados
Afrontar meu repouso com suas dores.

[instrumental]

Perdi numa hora, junto, quanto em termos
Tão vagarosos e largos alcancei;
Deixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabar a vida nestes ermos,
Que neles com meu mal acabarei
Mil vidas, não uma só — dura a memória!
Dura a memória!

[instrumental]

Mil vidas, não uma só — dura a memória!
Dura a memória!


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção em estúdio – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, em Janeiro de 2001



Memória de meu bem cortado em flores

(Luís de Camões, soneto recolhido por Luís Franco Correia, amigo do poeta, num manuscrito começado em 1557 e acabado em 1589; in "Rimas", org. João António de Lemos Pereira de Lacerda, 2.º visconde de Juromenha, Lisboa, 1861; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 165)


Memória de meu bem cortado em flores,
por ordem de meus tristes e maus fados,
leixai-me descansar co meus cuidados,
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos que espero infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nũa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre se acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ũa só — dura memória!



CANÇÃO V



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Se este meu pensamento,
como é, doce e suave,
de alma pudesse vir gritando fora,
mostrando seu tormento
cruel, áspero e grave,
diante de vós só, minha Senhora,
pudera ser que agora
o vosso peito duro
tornara manso e brando.
E eu que sempre ando
pássaro solitário, humilde, escuro,
tornado um cisne puro,
brando e sonoro pelo ar voando,
com canto manifesto,
pintara meu tormento e vosso gesto.

Pintara os olhos belos
que trazem nas meninas
o Menino que os seus neles cegou;
e os dourados cabelos
em tranças de ouro finas
a quem o Sol seus raios abaixou;
a testa que ordenou
Natura tão fermosa;
o bem proporcionado
nariz, lindo, afilado,
que a cada parte tem a fresca rosa;
a boca graciosa
— que querê-la louvar é escusado —,
enfim, é um tesouro:
os dentes, perlas; as palavras, ouro.

Vira-se claramente,
ó Dama delicada,
que em vós se esmerou a Natureza;
e eu, de gente em gente,
trouxera trasladada
em meu tormento vossa gentileza.
Somente a aspereza
de vossa condição,
Senhora, não dissera,
por que se não soubera
que em vós podia haver algum senão.
E se alguém, com razão,
«Porque morres?» dissera, respondera:
«Mouro porque é tão bela
que inda não sou pera morrer por ela».

E se pola ventura,
Dama, vos ofendesse,
escrevendo de vós o que não sento,
e vossa fermosura
tão baixo não descesse
que a alcançasse um baixo entendimento,
seria o fundamento
daquilo que cantasse
todo de puro amor,
por que vosso louvor
em figura de mágoas se mostrasse.
E onde se julgasse
a causa pelo efeito, minha dor
diria ali sem medo:
«quem me sentir verá de quem procedo».

Então amostraria
os olhos saudosos,
o suspirar que a alma traz consigo,
a fingida alegria,
os passos vagarosos,
o falar, o esquecer-me do que digo;
um pelejar comigo,
e logo desculpar-me;
um recear, ousando;
andar meu bem buscando,
e de poder achá-lo acovardar-me;
enfim, averiguar-me
que o fim de tudo quanto estou falando
são lágrimas e amores;
são vossas isenções e minhas dores.

Mas quem terá, Senhora,
palavras com que iguale
com vossa fermosura minha pena;
que em doce voz de fora
aquela glória fale
que dentro na minha alma Amor ordena?
Não pode tão pequena
força de engenho humano
com carga tão pesada,
se não for ajudada
dum piadoso olhar, dum doce engano
que, fazendo-me o dano
tão deleitoso e a dor tão moderada,
que enfim se convertesse
nos gostos dos louvores que escrevesse.

Canção, não digas mais;
e se teus versos à pena vêm pequenos,
não queiram de ti mais,
que dirás menos.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Vai o Bem Fugindo



Poema (sentenças em redondilha menor): Luís de Camões (excerto adaptado) [texto integral >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Cristina Branco in Holland", Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, 1997)




[instrumental]

Vai o bem fugindo,
Cresce o mal cos anos,
Vão-se descobrindo
Co tempo os enganos.

Amor e alegria
Menos tempo dura.
Triste de quem fia
Nos bens da ventura!

Ai, ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,  | bis
Porque mo roubaste?   |

Alegre vivia;
Triste vivo agora:
Canta a alma de dia,
E de noite chora.

O campo floresça,
Murmurem as águas;
Tudo me entristeça,
Cresçam minhas mágoas.

Confesso os enganos
Do meu pensamento:
Bem de tantos anos     | bis
Foi-se num momento.  |

[instrumental]

Ai, ventura minha,
Como me negaste!
Um só bem que tinha,  | bis
Porque mo roubaste?   |

[instrumental]

Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

Um só bem que tinha,
Porque mo roubaste?

[instrumental]


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Produção – Círculo de Cultura Portuguesa na Holanda, Amesterdão
Gravado ao vivo na Zaal 100, Amesterdão, nos dias 25, 26 e 27 de Abril de 1997
Engenheiro de som – Frits van der Heijden
Misturado no Klink Sound Studio, Amesterdão, por Michel Schöpping



Vai o bem fugindo

(Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 797-799)


          Sentenças do Autor por fim do livro

Vai o bem fugindo,
crece o mal cos anos,
vão-se descobrindo
co tempo os enganos.

Amor e alegria
menos tempo dura.
Triste de quem fia
nos bens da ventura!

Bem sem fundamento
tem certa a mudança,
certo o sentimento
na dor da lembrança.

Quem vive contente
viva receoso:
mal que se não sente
é mais perigoso.

Quem males sentiu
saiba já temer;
e pelo que viu
julgue o que há-de ser.

Alegre vivia;
triste vivo agora:
chora a alma de dia,
e de noite chora.

Confesso os enganos
de meu pensamento:
bem de tantos anos
foi-se num momento.

Meus olhos, que vistes?
Pois vos atrevestes,
chorai, olhos tristes,
o bem que perdestes.

A luz do Sol pura
só a vós se negue;
seja noite escura,
nunca a manhã chegue.

O campo floreça,
murmurem as águas;
tudo me entristeça,
creçam minhas mágoas.

Quisera mostrar
o mal que padeço;
não lhe dá lugar
quem lhe deu começo.

Em tristes cuidados
passo a triste vida;
cuidados cansados,
vida aborrecida.

Nunca pude crer
o que agora creio;
cegou-me o prazer
do mal que me veio.

Ah, ventura minha,
como me negaste!
Um só bem que tinha,
porque mo roubaste?

Triste fantasia
quanta cousa guarda!
Quem já visse o dia
que tanto lhe tarda!

Nesta vida cega
nada permanece:
o que inda não chega
já desaparece.

Qualquer esperança
foge como o vento:
tudo faz mudança,
salvo meu tormento.

Amor cego e triste,
quem o tem padece:
mal quem lhe resiste!
Mal quem lhe obedece!

No meu mal esquivo,
sei como amor trata;
e pois nele vivo,
nenhum amor mata.



CANÇÃO VI



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Com força desusada
aquenta o fogo eterno
ũa ilha lá nas partes do Oriente,
de estranhos habitada,
aonde o duro Inverno
os campos reverdece alegremente.
A lusitana gente,
por armas sanguinosas,
tem dela o senhorio.
Cercada está dum rio
de marítimas águas saudosas;
das ervas que aqui nascem,
os gados juntamente e os olhos pascem.

Aqui minha ventura
quis que ũa grã parte
da vida, que não tinha, se passasse,
para que a sepultura
nas mãos do fero Marte
de sangue e de lembranças matizasse.
Se Amor determinasse
que, a troco desta vida,
de mim qualquer memória
ficasse, como história
que de uns fermosos olhos fosse lida,
a vida e alegria
por tão doce memória trocaria.

Mas este fingimento,
por minha dura sorte,
com falsas esperanças me convida.
Não cuide o pensamento
que pode achar na morte
o que não pôde achar tão longa vida.
Está já tão perdida
a minha confiança
que, de desesperado
em ver meu triste estado,
também da morte perco a esperança.
Mas oh! que, se algum dia
desesperar pudesse, viveria.

De quanto tenho visto
já agora não me espanto,
que até desesperar se me defende.
Outrem foi causa disto,
que eu nunca pude tanto
que causasse este fogo que me encende.
Se cuidam que me ofende
temor de esquecimento,
oxalá meu perigo
me fora tão amigo
que algum temor deixara ao pensamento!
Quem viu tamanho enleio
que houvesse aí esperança sem receio?

Quem tem que perder possa
se pode recear.
Mas triste quem não pode já perder!
Senhora, a culpa é vossa,
que para me matar
bastara ũa hora só de vos não ver.
Pusestes-me em poder
de falsas esperanças;
e, do que mais me espanto:
que nunca vali tanto
que vivesse também com esquivanças.
Valia tão pequena
não pode merecer tão doce pena.

Houve-se Amor comigo
tão brando e pouco irado,
quanto agora em meus males se conhece;
que não há mor castigo
para quem tem errado
que negar-lhe o castigo que merece.
E bem como acontece
que, assi como ao doente
da cura despedido,
o médico sabido
tudo quanto deseja lhe consente.
assi me consentia
esperança, desejo e ousadia.

E agora venho a dar
conta do bem passado
a esta triste vida e longa ausência.
Quem pode imaginar
que pode haver pecado
que mereça tão grave penitência?
Olhai que é consciência,
por tão pequeno erro,
Senhora, tanta pena!
Não vedes que é onzena?
Mas se tão longo e mísero desterro
vos dá contentamento,
nunca se acabe nele meu tormento.

Rio fermoso e claro,
e vós, ó arvoredos,
que os justos vencedores coroais,
e ao cultor avaro,
continuamente ledos,
dum tronco só diversos frutos dais:
assi nunca sintais
do tempo injúria algũa;
que em vós achem abrigo
as mágoas que aqui digo,
enquanto der o Sol virtude à Lua;
por que de gente em gente
saibam que já não mata a vida ausente.

Canção, neste desterro viverás,
voz nua e descoberta,
até que o tempo em Eco te converta.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Oh! Como se me Alonga de Ano em Ano



Poema (soneto): Luís de Camões (adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Ulisses", Emarcy/Universal Music S.A.S. France, 2005)




[instrumental]

Oh! Como se me alonga de ano em ano
A peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
Este meu breve e vão discurso humano!

Vai-se gastando a idade e cresce o dano;
Perde-se-me um remédio, que inda tinha;
Se por experiência se adivinha,
Qualquer grande esperança é grande engano.

[instrumental]

Corro após este bem que não se alcança;
No meio do caminho me falece;
Mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
Se os olhos ergo, a ver se inda aparece,
Da vista se me perde e da esperança.

[instrumental]


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Ricardo J. Dias – piano
Arranjos – Custódio Castelo e Ricardo J. Dias
Produção – Custódio Castelo
Co-produção e programação – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music S.A.S. France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Junho a Setembro de 2004



Oh! Como se me alonga de ano em ano

Luís de Camões, in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Obras de Luís de Camões", Porto: Lello & Irmão Editores, 1970 – p. 21)


Oh! Como se me alonga de ano em ano
a peregrinação cansada minha!
Como se encurta e como ao fim caminha
este meu breve e vão discurso humano!

Minguando a idade vai, crescendo o dano;
perdeu-se-me um remédio, que inda tinha;
se por experiência se adivinha,
qualquer grande esperança é grande engano.

Corro após este bem que não se alcança;
no meio do caminho me falece;
mil vezes caio e perco a confiança.

Quando ele foge, eu tardo; e na tardança,
se os olhos ergo, a ver se inda aparece,
da vista se me perde e da esperança.



CANÇÃO VII



Poema de Luís de Camões (in "Rimas", org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; "Rimas", texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, Coimbra: Universidade de Coimbra, 1953, Coimbra: Livraria Almedina, 2005)
Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD "Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra", Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995, reed. Livro/CD, Presente, 2011)




Manda-me Amor que cante docemente
o que ele já em minha alma tem impresso
com pressuposto de desabafar-me;
e por que com meu mal seja contente,
diz que ser de tão lindos olhos preso,
contá-lo bastaria a contentar-me.
Este excelente modo de enganar-me
tomara eu só de Amor por interesse,
se não se arrependesse,
co a pena o engenho escurecendo.
Porém, a mais me atrevo,
em virtude do gesto de que escrevo;
e se é mais o que canto que o que entendo,
invoco o lindo aspeito,
que pode mais que Amor em meu defeito.

Sem conhecer Amor viver soía,
seu arco e seus enganos desprezando,
quando vivendo deles me mantinha.
O Amor enganoso, que fingia
mil vontades alheias enganando,
me fazia zombar de quem o tinha.
No Touro entrava Febo, e Progne vinha;
o corno de Aqueloo Flora entornava,
quando o Amor soltava
os fios de ouro, as tranças encrespadas
ao doce vento esquivas,
dos olhos rutilando chamas vivas,
e as rosas antre a neve semeadas,
co riso tão galante
que um peito desfizera de diamante.

Um não sei que suave, respirando,
causava um admirado e novo espanto,
que as cousas insensíveis o sentiam.
E as gárrulas aves levantando
vozes desordenadas em seu canto,
como em meu desejo se encendiam.
As fontes cristalinas não corriam,
inflamadas na linda vista pura;
florescia a verdura
que, andando, cos divinos pés tocava;
os ramos se abaixavam,
tendo enveja das ervas que pisavam
(ou porque tudo ante ela se abaixava).
Não houve cousa, enfim,
que não pasmasse dela, e eu de mim.

Porque quando vi dar entendimento
às cousas que o não tinham, o temor
me fez cuidar que efeito em mim faria.
Conheci-me não ter conhecimento;
e nisto só o tive, porque Amor
mo deixou, por que visse o que podia.
Tanta vingança Amor de mim queria
que mudava a humana natureza:
os montes e a dureza
deles, em mim, por troca, traspassava.
Oh, que gentil partido:
trocar o ser do monte sem sentido
pelo que num juízo humano estava!
Olhai que doce engano:
tirar comum proveito de meu dano!

Assi que, indo perdendo o sentimento
a parte racional, me entristecia
vê-la a um apetite sometida;
mas dentro na alma o fim do pensamento
por tão sublime causa me dezia
que era razão ser a razão vencida.
Assi que, quando a via ser perdida,
a mesma perdição a restaurava;
e em mansa paz estava
cada um com seu contrário num sujeito.
Oh, grão concerto este!
Quem será que não julgue por celeste
a causa donde vem tamanho efeito,
que faz num coração
que venha o apetite a ser razão?

Aqui senti de Amor a mor fineza,
como foi ver sentir o insensível,
e o ver a mim de mim mesmo perder-me.
Enfim, senti negar-se a natureza;
por onde cri que tudo era possível
aos lindos olhos seus, senão querer-me.
Despois que já senti desfalecer-me,
em lugar do sentido que perdia,
não sei que me escrevia
dentro n'alma, co as letras da memória,
o mais deste processo
co claro gesto juntamente impresso
que foi a causa de tão longa história.
Se bem a declarei,
eu não a escrevo, da alma a trasladei.

Canção, se quem te ler
não crer dos olhos lindos o que dizes,
pelo que em si escondem,
os sentidos humanos lhe respondem:
bem podem dos divinos ser juízes.


* Gravado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, Lisboa, por Vasco Pimentel, em 1995
Pós-produzido no Estúdio Grande Som, Lisboa



Ninfas



Poema: Luís de Camões (estrofes 82 e 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003; 3CD "Idealist": CD 2 – Poemas, Emarcy/Universal Music Classics & Jazz France, 2014)




Já não fugia a bela Ninfa, tanto
Por se dar cara ao triste que a seguia,
Como por ir ouvindo o doce canto,
As namoradas mágoas que dizia.
Volvendo o rosto, já sereno e santo,
Toda banhada em riso e alegria,
Cair se deixa aos pés do vencedor,
Que todo se desfaz em puro amor.

Oh! Que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves, que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Melhor é experimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode experimentá-lo.


Nota:
Julgá-lo – imaginá-lo

* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Produção musical e arranjos – Custódio Castelo
Co-produção – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Setembro a Dezembro de 2002









Desenhos de Cícero Dias, publicados no livro "Luiz de Camões: A Ilha dos Amores" (Lisboa: Edições Ática, 1980) [capa abaixo]




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