04 junho 2018

Frei Fado d'El Rei: "Ramo Verde" (Jorge de Sena)


Iluminura do Codex Manesse, fol. 271r, Biblioteca da Universidade de Heidelberga, Alemanha.
O "Codex Manesse", assim baptizado pelo estudioso suíço Johann Jakob Bodmer (embora também denominado "Grosse Heidelberger Liederhandschrift" e "Pariser Handschrift"), é o mais abrangente e importante manuscrito alemão da Idade Média. Foi produzido em Zurique, entre 1305 e 1340, possivelmente por Johannes Hadlaub, a pedido da família Manesse. Encontra-se desde 1888 na Biblioteca da Universidade de Heidelberga (Codex Manesse, UB Heidelberg, Cod. Pal. germ. 848).


Por determinação legalmente estabelecida (e bem), estão os vários canais da rádio pública obrigados a promover a língua portuguesa e os seus mais lídimos cultores: na escrita, na recitação e no canto.
No caso da Antena 1, e sem prejuízo de haver na grelha (que não há – incompreensivelmente – desde 2003) uma rubrica diária de poesia recitada, bem podia a direcção de programas ter o cuidado de aproveitar as efemérides do nascimento e da morte de reputados autores que escreveram no idioma de Camões para transmitir, ao longo do dia, uma mão-cheia de pequenos textos, designadamente poemas – quer ditos, quer cantados – fazendo uso, para o efeito, do arquivo histórico e de edições discográficas. De Jorge de Sena, cuja morte ocorreu há precisamente 40 anos, nada logrei ouvir até ao momento e duvido muito que até à meia-noite algum poema ainda surja em antena. A poesia seniana publicada em disco está maioritariamente na forma dita mas também existe alguma em canção. Um bom (magnífico) exemplo é o tema "Ramo Verde", baseado no poema "Variações sobre Cantares de D. Dinis", interpretado pelo grupo Frei Fado d'El Rei, com música de Carla Lopes. O original, que contou com a participação de Vitorino, saiu no CD "Encanto da Lua", editado em 1998 e que no ano seguinte foi um dos álbuns nomeados para o (então) prestigiado Prémio José Afonso. Para esta singela homenagem ao autor de "Arte de Música", escolhemos a versão ao vivo do concerto dado na igreja do Mosteiro de Leça do Balio, em Junho de 2003, no âmbito das comemorações do milénio da inauguração do monumento.
A Jorge de Sena havemos de voltar para uma celebração mais ampla e digna do seu valioso legado poético.



Ramo Verde



Poema: Jorge de Sena (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: Carla Lopes
Intérprete: Frei Fado d'El Rei* (in CD "Em Concerto", Açor/Emiliano Toste, 2003)




[instrumental]

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,  | bis
onde está o meu amor?      |

Diz-me onde ele está,
onde está o meu amor,
p'ra que eu buscá-lo vá   | bis
florido de bela flor.         |

[instrumental]

Ramo verde tão querido,
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,  | bis
florido de bela flor...     |

Diz-me onde ele está,
florido de bela flor,
p'ra que eu buscá-lo vá          | bis
aonde ele está, o meu amor.  |

[instrumental]

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,  | bis
tão querido do meu amor.  |

[instrumental]

Diz-me onde ele está,
onde está o meu amor.


* [Créditos gerais do disco:]
Frei Fado d'El Rei:
Carla Lopes – voz principal e percussões
Cristina Bacelar – guitarra clássica, voz e percussões
Ricardo V. Costa – guitarra clássica, baixo electro-acústico, voz e percussões
José Flávio Martins – baixo electro-acústico, bandoloncelo, bandola, percussões e voz
Rui Tinoco – teclados, samplers, programações e percussões
Zagalo – percussão e voz
Produção – Frei Fado d'El Rei e Frederico Pereira
Gravado ao vivo por Fortes & Rangel, na igreja do Mosteiro de Leça do Balio, a 26 e 27 de Junho de 2003



VARIAÇÕES SOBRE CANTARES DE D. DINIS

(Jorge de Sena, in "40 Anos de Servidão", Lisboa: Moraes Editores, 1979; 2.ª edição, Lisboa: Edições 70, 1989 – p. 21)


Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
onde está o meu amor?

Diz-me aonde ele está,
aonde está o meu amor,
p'ra que eu buscá-lo vá
florido de bela flor.

Ramo verde tão querido,
tão querido do meu amor,
de belas flores florido,
florido de bela flor...

...Diz-me aonde ele está,
florido de bela flor,
p'ra que eu buscá-lo vá
aonde ele está, o meu amor.

Ramo verde florido,
florido de bela flor,
do meu amor tão querido,
tão querido do meu amor.


17/5/1938



Capa do CD "Em Concerto", do grupo Frei Fado d'El Rei (Açor/Emiliano Toste, 2003).

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Outros artigos neste blogue com poesia de Jorge de Sena:
Arte e poesia
Jorge de Sena: "Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya", por Mário Viegas

01 junho 2018

Diabo a Sete: "Cantiga de Vir ao Mundo"


Gustav Klimt, "Die Hoffnung I" ("A Esperança I"), 1903, óleo sobre tela, 189 x 67 cm, National Gallery of Canada, Otava


Neste Dia Mundial da Criança, trazemos uma canção dedicada àquelas que ainda não nasceram mas que estão prestes a sair do ventre materno: "Cantiga de Vir ao Mundo", pelo grupo conimbricense Diabo a Sete.
Não seria bom que este belíssimo espécime da música portuguesa fizesse parte das 'playlists' das Antenas 1 e 3?



Cantiga de Vir ao Mundo



Letra: Miguel Cardina
Música: Pedro Damasceno e Sara Vidal
Arranjo: Diabo a Sete e Julieta Silva
Intérprete: Diabo a Sete* (in CD "Figura de Gente", Sons Vadios, 2016)




[instrumental]

Já sentes em ti o que vais ser
Já dormiste um sono profundo
Chegou a hora d'amanhecer
Deixar p'ra trás a porta do mundo

[instrumental]

Vais repousar na estrela-d'alva
E dançar a dança dormente
Ouro na pele, incenso e salva
Desabraçar o ninho mais quente

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor

[instrumental]

Serás acaso, serás fronteira
Sussurrando temporais
Velhas perguntas, luas inteiras
Vencendo a sina dos mortais

Tens o sol riscado nas asas
Um rei sem roque nem patrão
Um deus a quem dei coração
A sombra incerta do amor
[bis]

[instrumental]


* [Créditos gerais do disco:]
Diabo a Sete:
Celso Bento – flautas, gaita-de-foles, coros
Eduardo Murta – baixo eléctrico
Luísa Correia – guitarra acústica, coros
Miguel Cardina – bateria
Pedro Damasceno – cavaquinho, bandolim, machinho, coros
Sara Vidal – voz, harpa, pandeireta galega
Participação especial:
Julieta Silva – coros, sanfona, pianinho
Produção – Quico Serrano
Gravado por Quico Serrano, nos Estúdios da Aguda, Vila Nova de Gaia, de 2014 a 2016
Mistura e masterização – Quico Serrano



Capa do CD "Figura de Gente", do grupo Diabo a Sete (Sons Vadios, 2016)

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Artigos relacionados:
A infância e a música portuguesa
Júlio Pereira com Sara Tavares: "Os Ponteirinhos"

31 maio 2018

Em memória de Júlio Pomar (1926-2018)



O olhar do pintor não é uma prótese destacável do seu corpo ou do seu cérebro.
                              JÚLIO POMAR


Nascido no bairro de Santos, em Lisboa, perto do Museu Nacional de Arte Antiga, Júlio Pomar frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio (Lisboa) e depois as Escolas Superiores de Belas-Artes de Lisboa e do Porto. Participou em 1942 numa primeira mostra de grupo, em Lisboa, e realizou a primeira exposição individual em 1947, no Porto, onde apresentou desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar acarretou-lhe uma estada de quatro meses na prisão [de Caxias], a apreensão do quadro "Resistência" (1946) pela polícia política e a ocultação dos frescos com mais de 100 m2, realizados para o Cinema Batalha no Porto.
Pioneiro na defesa do neo-realismo pictórico, criou alguns dos seus ícones como "Gadanheiro" (1945) e "O Almoço do Trolha" (1946-50). Daí ao "Ciclo do Arroz" (1952-53), Júlio Pomar desenvolveu não apenas a ideia como as possibilidades imagéticas de uma arte de compromisso político e social, numa época marcada pela luta antifascista. A partir de 1957, pressentindo o esgotamento da estética neo-realista, a obra de Pomar evolui no sentido de uma progressiva indistinção dos contornos em direcção a um novo relacionamento tensional entre as figuras e o plano bidimensional do quadro, mediante o dinamismo de um registo gestual filiado nos informalismos da pintura europeia do pós-guerra. Em 1963, instala-se em Paris, iniciando um projecto plural que se vai desenvolvendo ora em torno de 'assemblages' ora sustentando uma pintura que sugere movimento e tende a assumir a presença de uma caligrafia gestual abstractizante. Num momento seguinte vai fixar-se numa maior depuração formal, na procura, a partir da exploração de campos de cor lisa bem definidos e contrastantes, dos vestígios do corpo erotizado, e na representação fragmentária e dissimulada do sexo. Os anos 80 iniciam uma nova fase, marcada pela explosão e movimento gestual de um jogo entre as figuras e a sua metamorfose biomórfica. A representação do corpo é assumida no plano de uma ficção pictural onde figuras animais por vezes antropomorfizadas encenam o espaço da pintura no confronto de uma herança cultural que vem da tradição das antigas narrativas até aos mitos de uma portugalidade histórica. Desde a década de 90, Júlio Pomar tem vindo a reinventar as possibilidades da sua pintura, numa panóplia de figuras animais que se misturam com o referente do corpo humano, na experiência dos limites formais do seu reconhecimento.
Além da obra de pintura, desenho, escultura, cerâmica, gravura, etc., Júlio Pomar escreveu os ensaios "Catch: Thèmes et Variations" (1984), "Discours sur la Cécité du Peintre" (1985), "...Et la Peinture?" (2000), todos publicados pela editora parisiense Éditions de la Différence, tendo os dois últimos sido traduzidos por Pedro Tamen com os títulos "Da Cegueira dos Pintores" (Imprensa Nacional, 1986) e "Então e a Pintura?" (Publicações Dom Quixote, 2003); e duas colectâneas de poemas "Alguns Eventos" (1992) e "TRATAdoDITOeFEITO" (2003), ambas com chancela das Publicações Dom Quixote. [Fontes: textos biográficos publicados nos sites do Atelier-Museu Júlio Pomar e do Instituto Camões]


Quando morre um vulto da Cultura Portuguesa, é expectável e justo que os vários canais do serviço púbico de radiodifusão lhe rendam a devida homenagem, com a transmissão de programas expressamente realizados para a ocasião e/ou resgatados do arquivo histórico.
No caso de Júlio Pomar, a Antena 2 reemitiu duas entrevistas: uma concedida a Luís Caetano, em 2013, para o programa "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] e outra a João Almeida, em 2014, para o programa "Quinta Essência" [>> RTP-Play]. Sendo de louvar tal resgate, penso que algo mais podia ser feito para facultar aos ouvintes uma mais profunda contextualização histórica e estética do legado do artista, designadamente a 'exumação' de um dos programas do saudoso e sapiente crítico de arte Rui Mário Gonçalves – "As Cores e as Formas" ou "A Dádiva das Formas" – no qual a obra de Júlio Pomar esteve em foco.
Na Antena 1 nada me constou (além da notícia do falecimento, bem entendido), mas como não tive possibilidade de manter o canal debaixo de continuado escrutínio, dou o benefício da dúvida em que, ao menos, tenham posto no ar o documentário radiofónico "Vidas Que Contam", realizado por Ana Aranha e originalmente transmitido em Maio de 2007 [>> RTP-Play]. Dado que Júlio Pomar foi também poeta e havendo canções gravadas sobre poemas seus, seria igualmente da mais elementar justiça que algumas (ou todas) fossem incluídas na 'playlist', idealmente com uma nota apensa, para locutor ler, referindo que o poema foi escrito por Júlio Pomar. Aqui apresentamos cinco espécimes: três na voz de Carlos do Carmo e dois na de Cristina Branco. Em jeito de preâmbulo a esse florilégio poético-musical, cronologicamente ordenado, fica o instrumental "Os Eternos Mascarados" que o músico Júlio Pereira concebeu para o álbum "Janelas Verdes" (1989), inspirado num quadro de Júlio Pomar, pertencente à série "Os Mascarados de Pirenópolis" (1987).



Júlio Pomar, "Os Mascarados de Pirenópolis", 1987, acrílico e carvão sobre tela, 100 x 81 cm


«... a irrecusável procura da chave do nosso enigma, na certeza antecipada de que o seu cerne permanecerá oculto só para qualificar a vida dos que se dispuseram a decifrá-lo...»
                              ANTÓNIO ALÇADA BAPTISTA


Os Eternos Mascarados



Música: Júlio Pereira (para a pintura de Júlio Pomar acima apresentada)
Intérprete: Júlio Pereira* (in LP/CD "Janelas Verdes", Anónima/EMI-VC, 1990, reed. CNM, 1994)




(instrumental)


* Júlio Pereira – viola braguesa, adufes, guitarra portuguesa e sintetizadores
Vasco Gil – piano eléctrico
Tomás Pimentel – trompete
Paulo Curado – flautim
Quim Correia – viola baixo
Carlos Guerreiro – gaita-de-foles
Direcção musical e arranjos – Júlio Pereira
Produção – Júlio Pereira
Assistente de produção – Manuela Medeiros
Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, em Agosto e Setembro de 1989
Técnicos de som – José Manuel Fortes e Jorge Barata
Mistura – José Manuel Fortes e Júlio Pereira



Circe (Meu Amor, Corre-me o Corpo)



Poema: Júlio Pomar
Música: Custódio Castelo
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Ulisses", Emarcy/Universal Music S.A.S. France, 2005)




[instrumental]

Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos!
Que as sombras da tua pele
Aprendam os meus segredos.
Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos!

Meu amor, corro-te o corpo
Com beijos soltos dos dedos.
Que as sombras da minha pele
Naveguem nos teus segredos.
Meu amor, corro-te o corpo
Com beijos soltos dos dedos.

Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos pelos dedos!
Que as sombras da minha pele
Se soltem dos teus segredos.
Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos pelos dedos!

[instrumental]

Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos!
Que as sombras da tua pele
Aprendam os meus segredos.
Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos!
Meu amor, corre-me o corpo
Com beijos soltos nos dedos!


* Cristina Branco – voz
Custódio Castelo – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – viola baixo
Ricardo J. Dias – piano
Arranjos – Custódio Castelo e Ricardo J. Dias
Produção – Custódio Castelo
Co-produção e programação – Fernando Nunes
Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music S.A.S. France
Gravado e masterizado por Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, de Junho a Setembro de 2004



Fado do 112



Poema: Júlio Pomar
Música: Armando Augusto Freire, vulgo "Armandinho" (Fado Manganito)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in livro/CD "À Noite", Universal Music Portugal/Tugaland, 2007, reed. Mercury/Universal Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Sem capricho ou presunção,
Nesta torre de papel
Deita sete olhares de mel, | bis
Deita sete olhares de mel  |
Em metade de um limão.  |

Na noite mais traiçoeira
– Ruim, medonha, brutal –,
Descontada a pasmaceira,  | bis
Descontada a pasmaceira   |
Do inferno do normal,        |

Se me vires a cara séria
– Juiz togado ou em fralda –,
A julgar faltas, à balda,     | bis
A julgar faltas, à balda,     |
Num tribunal multimédia   |

E tomado o pensamento,
Por rombo, machado ou moca,
Pega no laser da moda!        | bis
Pega no laser da moda!        |
Dou-te o meu assentimento. |

Se me vires, por fraqueza,
Por perfídia ou aflição,
Mergulhado na tristeza,   | bis
Mergulhado na tristeza    |
Com que se mói a razão  |

E servi-la à sobremesa
Das ceias da frustração,
Assentado na baixeza,  | bis
Assentado na baixeza   |
O programa da nação,  |

Por favor, peço-te só:
Não te demores, vem logo!
Traz gasolina, põe fogo!    | bis
Traz gasolina, põe fogo!    |
Meu amor, não tenhas dó. |


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
José Marino Freitas – baixo acústico
Produção – Carlos do Carmo
Gravação, mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



A Guitarra e o Clarim



Poema: Júlio Pomar
Música: Joaquim Campos (Fado Puxavante)
Intérprete: Carlos do Carmo* (in livro/CD "À Noite", Universal Music Portugal/Tugaland, 2007, reed. Mercury/Universal Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Todo o caso tem um fim,
E se à noite se encontravam
A guitarra e o clarim,         | bis
Na mesma cama ficavam.  |

Mas quando se descruzavam
Por coisas assim-assim,
Era por ela, p'ra mim       | bis
Ser guitarra, não clarim.  |

Como pode uma guitarra
Ler a agenda dum clarim?
Tudo nota e nada conta,      | bis
Fecha o livro e diz que sim!  |

E por contar que contava
O clarim, ao recolher?
Era cinema sem crer            | bis
Que nem à noite enganava.  |

Pode o clarim dar a volta
Às ancas duma guitarra?
E que contava a guitarra    | bis
Das prosápias do clarim?   |


* José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
José Marino Freitas – baixo acústico
Produção – Carlos do Carmo
Gravação, mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Fado do Mal Passado



Letra: Júlio Pomar
Música: António Victorino d'Almeida
Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Kronos", Universal Music Classics France, 2009; 3CD "Idealist": CD 1 – Fado, Universal Music Classics & Jazz France, 2014)




[instrumental]

Ó Fado do já passado,
Se te quadras p'ró futuro
És dado p'ra ser jogado!
O resto fica no escuro.

Fado nosso da saudade
Que nos consolas de tudo,
Tens a mesma utilidade
De, no Verão, um sobretudo.

[instrumental]

Sobretudo não me digas
O mundo feito de vez:
Cada mês é outro mês
E do pão se fazem migas.

Ó tempo que és mudança,
Passa o presente a passado!
Depois do caldo entornado,
Muda o disco e siga a dança!

[instrumental]

E por disco e por mudança,
As mudanças são a esmo:
Nada se mantém o mesmo
E até o povo se cansa.

[instrumental]

Ó tempo atento à mudança,
Passa o presente a passado!
Antes do caldo entornado,
Salta a pulga p'rá balança.

Sai um fado mal passado
Co'a salada do futuro!
No cinto faz mais um furo
E não digas "obrigado"!
[bis]

[instrumental]


* Cristina Branco – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Alexandre Silva – viola
Fernando Maia – baixo acústico
Ricardo J. Dias – piano
Arranjos e produção musical – Ricardo J. Dias
Produção – Yann Ollivier / Universal Music Classics France
Produção executiva – Olga Carneiro / ONC Produções
Gravado e masterizado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim do Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro e Dezembro de 2008



Canto Três



Poema: Júlio Pomar
Música: António Victorino d'Almeida
Intérpretes: Maria João Pires & Carlos do Carmo* (in CD "Maria João Pires / Carlos do Carmo", Universal Music Portugal, 2012, reed. Mercury/Universal Music Portugal, 2013)




[instrumental]

Há o amor, é urgente,
Não dêem cabo na gente
Do que temos de melhor,
De que o Paredes dizia
Que era a própria poesia,
Porém, sem menção de autor!

E para mais, quanto ao resto,
Saia o gado sem cabresto
Dispensando-se o preceito
D'evitar o trinta e um:
"Ó meu, tens aí algum?        | 3x
E não digas "bom proveito"!  |

A uma estória esquisita,
Na qual à Maria Rita
Uns dentinhos de pescada
Na boca do corpo dita,
Vieram à dita confita
E a pobre amargurada.

Nas noites desta Lisboa,
As garinas numa boa
Pela Travessa da Palha:
Olhos fechados a mundos
Vindos do fundo dos fundos
Daquela triste batalha

D'Alcácer Quibir (dou fé,
Morremos todos de pé!).
Não digas à minha mãe,
Varina na Madragoa,
Que julga estar em Lisboa  | 3x
Um presidente em Belém!  |

E se o fim ela não vê,
Pede ajuda ao Carlos Tê!
Que não é parto sem dor
O disparate da vida:
Uma história mal par'cida
Com desfecho hardcore.


* Maria João Pires – piano
Carlos do Carmo – voz
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012
Engenheiro de gravação – Joaquim Monte
Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio



Capa do livro/CD "À Noite", de Carlos do Carmo (Universal Music Portugal/Tugaland, 2007)
Reprodução de um retrato do cantor pintado por Júlio Pomar, em 2007 (acrílico e carvão sobre tela).
Fotografia por Joaquim Justo.



Júlio Pomar, "Gadanheiro", 1945, óleo sobre cartão, 122 x 83 cm, Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa (comprado ao galerista Manuel de Brito, em 1995)



Júlio Pomar, "Resistência", 1946, óleo sobre aglomerado, 32,5 x 73 cm, Atelier-Museu Júlio Pomar (acervo do Museu de Lisboa, ex-Museu da Cidade)



Júlio Pomar, "O Almoço do Trolha", 1946-50, óleo sobre aglomerado, 120 x 150 cm, Col. Manuel de Brito



Júlio Pomar, "O Almoço do Trolha" (ou "A Refeição do Menino"), 1951, litografia, 50 x 65 cm (papel), Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Subúrbio I", 1948, óleo sobre tela, 60 x 135 cm, Col. Manuel de Brito



Júlio Pomar, "Mulheres na Praia", 1950, óleo sobre tela, 93,5 x 122,5 cm, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Meninos no Jardim", 1951, óleo sobre tela, 90 x 90 cm, Col. Jorge de Brito



Júlio Pomar, "Vendedeiras de Moinhos" (posteriormente "Vendedeiras de Estrelas"), 1951, óleo sobre tela, 90 x 90 cm, Col. Jorge de Brito



Júlio Pomar, "Mulheres na Lota", 1951, óleo sobre aglomerado, 74 x 121 cm, Atelier-Museu Júlio Pomar, Lisboa



Júlio Pomar, "Mulheres na Lota", 1952, linogravura, 27 x 36 cm (mancha), 40 x 52,5 cm (papel), Museu Dr. Joaquim Manso, Nazaré



Júlio Pomar, "Mulher da Ribeira", 1953, xilogravura, 27,4 x 22,2 cm (mancha), 42,8 x 30,5 cm (papel)



Júlio Pomar, "Ciclo do Arroz II", 1954, xilogravura, 52 x 36 cm (papel)



Júlio Pomar, "Praia", 1953, tapeçaria (tecelagem manual), 117 x 204 cm, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Ruínas do Carmo", 1956, óleo sobre tela, 65 x 50 cm, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Varina Comendo Melancia", 1957, serigrafia, 60,5 x 60,5 cm (mancha), 87,5 x 69,5 cm (total), Museu de Lisboa (ex-Museu da Cidade)



Júlio Pomar, "Maria da Fonte", 1957, óleo sobre aglomerado, 121 x 180 cm



Júlio Pomar, "Cegos de Madrid", 1957-1959, óleo sobre tela, 81,5 x 101,3 cm, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "D. Quixote", 1959, água-tinta a duas cores, impressão mista, 39 x 25 cm, Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "D. Quixote", 1959, água-tinta a duas cores, impressão mista, 33,5 x 24 cm, Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Tauromaquia V", 1960, óleo sobre tela, 100 x 81 cm



Júlio Pomar, "Le Bain Turc, d'aprés Ingres" ("O Banho Turco"), 1971, acrílico sobre tela, 161 x 130 cm, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "La Couleur", 1976, serigrafia, 75 x 109,5 cm (papel)



Júlio Pomar, "Le Signe", 1978, colagem e pintura acrílica sobre tela com objecto de loiça incorporado, 74 x 117 cm, Col. Manuel de Brito



Júlio Pomar, "Le Cadre", 1979, colagem e pintura acrílica sobre tela com moldura incorporada, 73 x 116 cm



Júlio Pomar, "Triplo Retrato de Fernando Pessoa", 1982, acrílico sobre tela, 81 x 116 cm, Col. Manuel de Brito



Júlio Pomar, "Edgar Poe, Fernando Pessoa e o Corvo", 1985, acrílico sobre tela, 195 x 130 cm, Col. Particular



Júlio Pomar, "Retrato de Fernando Pessoa", 1985, acrílico sobre tela, 130 x 81 cm, Casa Fernando Pessoa, Lisboa (acervo do Museu de Lisboa, ex-Museu da Cidade)



Júlio Pomar, "Lusitânia no Bairro Latino (Retratos de Mário de Sá-Carneiro, Santa Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso)", 1985, acrílico sobre tela, 158,5 x 154 cm, Centro de Arte Moderna Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa



Júlio Pomar, "Fernando Pessoa", 1988, serigrafia, 148 x 65,8 cm (papel), Casa Fernando Pessoa, Lisboa (acervo do Museu de Lisboa, ex-Museu da Cidade)


Documentário "Júlio Pomar: Sabedoria do Ver e do Fazer", transmitido pela RTP-1, a 27 de Dezembro de 1983. [>> RTP Arquivos]
Texto: João Rocha de Sousa
Fotografia: Azevedo Ferreira
Locução: Eládio Clímaco
Produção: Fernando Ávila
Realização: José Elyseu


Entrevista de Júlio Pomar concedida a Ana Sousa Dias, para o programa "Por Outro Lado", transmitida pela RTP-2, a 23 de Julho de 2001. [>> RTP-Arquivos]
Produção: Alice Milheiro
Realização: Rui Nunes


Entrevista de Júlio Pomar concedida a Raquel Santos, para o programa "Entre Nós", transmitida pela RTP-Internacional, a 21 e 22 de Fevereiro de 2005. [Parte I >> RTP-Arquivos] [Parte II >> RTP-Arquivos]
Produção: Universidade Aberta
Realização: José Mexia


Documentário "Júlio Pomar - O Risco", transmitido pela RTP-2, a 24 de Fevereiro de 2006. [>> RTP-Arquivos]
Pré-guião: Jorge Nunes
Guião: Anabela Almeida
Vozes-off: Augusto Seabra e Paulo Rocha
Direcção de produção: Alice Milheiro
Produção delegada: Maria João Rolão Preto
Direcção geral (Panavídeo): Telma Teixeira da Silva
Produção: Rita Gaspar, Maria de Jesus Carvalho e Maria José Dias / Panavídeo (2005)
Realização: António José de Almeida

25 abril 2018

Natália Correia: "Rascunho de uma Epístola", por Ilda Feteira


Monumento "A Pomba da Liberdade" (2013), da autoria de Francisco Charneca, situado na localidade de Oriola, concelho de Portel.
Fotografia tirada por Maria Margarida Monteiro (blogue "Kantos da Terra").


Continuando a evocar Natália Correia, tomando como pretexto os 25 anos da morte, trazemos um poema que vem muito a propósito no dia em que se comemora a Revolução dos Cravos: "Rascunho de uma Epístola", recitado por Ilda Feteira, com música de e por Jorge Palma. Trata-se do poema matriz dos sonetos da "Epístola aos Iamitas" (1976) e nele está patente o desalento que a poetisa então sentia por a emergente noite já pisar os trevos da Liberdade. Foi primeiramente publicado em 1993, na edição da poesia reunida (pela própria autora) intitulada "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias".
Nesses inícios da década de 1990, em pleno consulado cavaquista, a rádio pública estava, apesar de tudo, melhor do que antes do 25 de Abril de 1974, mormente no capítulo da música. A oferta tinha qualidade e era diversificada. Em 2018, pode dizer-se, sem exagero, que a Antena 1 transmite – e massivamente – muito pior música do que a que era difundida pela Emissora Nacional. Situação que – acrescente-se – é deveras absurda e vergonhosa num regime (alegadamente) não amordaçado e tendo o nosso património fonográfico aumentado incomensuravelmente em quantidade, qualidade e variedade. Alguém que ande mais distraído que se dê ao cuidado de sintonizar o canal, a qualquer altura do dia ou da noite em que está a rodar a 'playlist', e não necessitará de mais do que uma hora para se dar conta da triste e desoladora realidade.
Vem a talhe de foice lembrar que o retrocesso não se restringe ao campo da música (o que por si só já seria motivo bastante para preocupar quem supervisiona e tutela o serviço público de radiodifusão): afecta também a poesia e o teatro. Ambas estas artes da palavra (que nenhum meio serve melhor do que a rádio, convém não esquecer) tinham lugar efectivo na Emissora Nacional e continuaram a ter na RDP-1 durante muitos anos. Na actual Antena 1 – 44 anos volvidos sobre a reconquista da Liberdade – são objecto da mais completa e obscena censura por parte da direcção de programas!



RASCUNHO DE UMA EPÍSTOLA



Poema de Natália Correia (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias II", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993 – p. 75-76; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999 – p. 406-407)
Recitado por Ilda Feteira* (in CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", Ilda Feteira & Jorge Palma, 2004)
Música: Jorge Palma


Entre sobas solertes e solenes
Aqui estou de poeta e de passagem.
Das 25 pombas deste Abril
As melhores levo em versos na bagagem.

E aqui as solto transidas e alertadas
Pelo hálito do medo que já volta
E cada uma delas é uma concha
Carregando uma pérola de revolta.

Aqui eu as desprendo contra a noite
Que já da liberdade os trevos pisa
E cada uma delas é um rio
Desfiando uma prata insubmissa.

Se o país que na esperança exercitámos
For num desvão de Abril apunhalado
Onde a vida reclama a plenitude
É que o poeta é febre é raiva é dardo.

É canto arterial é um centauro
Com uma flecha de música no flanco,
É toda a luz na boca e a liberdade
É o mais certeiro tiro do seu canto.

Enquanto lira for de luz cantada
O poeta sem repouso no combate,
A luta não termina quando perde
A cor nos cravos que a escuridão abate.


* Ilda Feteira – voz
Jorge Palma – piano
Selecção dos textos – Ilda Feteira
Gravação – Jorge Palma



Capa do CD "Vinte e Cinco Razões de Esperança", de Ilda Feteira & Jorge Palma (2004).
Concepção – António Antunes.
Neste álbum são celebrados autores tão diferentes como Alexandre O'Neill, Alice Vieira, António Gedeão, António Ramos Rosa, Ary dos Santos, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, José Afonso, José Gomes Ferreira, Manuel Alegre, Manuel da Fonseca, Maria Velho da Costa, Miguel Torga, Natália Correia e Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros.

Nota: Não sabemos se ainda existem exemplares disponíveis deste álbum, que não teve distribuição comercial. O melhor será escrever para: geral@jorgepalma.pt.

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Artigos relacionados:
Celebrando Natália Correia
Contrabando: "Verdade ou Mentira?"
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional (II)
Camilo Pessanha: "Singra o navio", por Mário Viegas
É preciso resgatar o teatro radiofónico
Miguel Torga: "Flor da Liberdade"
Ana Moura: "Creio" (Natália Correia)
Sebastião da Gama: "Louvor da Poesia", por José Nobre
"Ecos da Ribalta": homenagem a Carmen Dolores

22 abril 2018

José Vianna da Motta: 150.º aniversário do nascimento


José Vianna da Motta retratado por Columbano Bordalo Pinheiro, 1923, óleo sobre tela, Museu Nacional de Arte Contemporânea/Museu do Chiado, Lisboa


«José Vianna da Motta marcou o curso da História da Música em Portugal em dois aspectos fundamentais. Por um lado, formou várias gerações de pianistas portugueses, fundando uma escola interpretativa que se prolonga até aos nossos dias. Por outro lado, foi um dos primeiros compositores empenhados no "reaportuguesamento" da música erudita, na afortunada expressão de Afonso Lopes Vieira. Utilizou a música tradicional e a poesia culta portuguesas nas suas obras, fazendo parte da geração que transformou Camões em símbolo da nação. A abertura "Inês de Castro", baseada na versão narrada no poema épico "Os Lusíadas", é exemplo desta exaltação camoniana, assim como a Sinfonia "À Pátria", a sua obra mais conhecida, cujos andamentos são precedidos por epígrafes retiradas do mesmo poema. Para Vianna da Motta, a "expressão para o sentimento da nação" era o objectivo mais alto ao qual devia aspirar a composição.» [Teresa Cascudo, introdução da resenha biográfica publicada no site do Instituto Camões]


Poucos são os portugueses de hoje que nunca ouviram os primeiros compassos da Sinfonia em Lá maior, "À Pátria", op. 13 [>> YouTube], mesmo desconhecendo a que obra pertencem, mas já não se pode dizer o mesmo da demais produção de Vianna da Motta. E para essa ignorância muito tem contribuído a muito residual e esparsa transmissão das suas obras pela Antena 2, o canal do serviço público de radiodifusão que está legalmente obrigado a prestar uma particular atenção aos compositores eruditos portugueses. E se a discografia disponível tem sido quase esquecida pelos programadores, o acervo de gravações ao vivo que presumivelmente existe no arquivo histórico tem sido pura e simplesmente negligenciado. Algo que não se compreende nem se pode aceitar, ademais existindo na grelha um espaço denominado "Memória" [>> RTP-Play], justamente consagrado à divulgação do arquivo. Importa, pois, que a direcção da Antena 2 providencie no sentido do necessário resgate desse espólio, em vez de se limitar a repisar, vezes sem conta, o mesmo lote de registos 'requentados'.
Comemorando o 150.º aniversário do nascimento do insigne compositor, pianista e pedagogo, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta a belíssima "Canção Perdida", sobre poema de Guerra Junqueiro, magnificamente interpretada pelo tenor Carlos Guilherme e pelo pianista Armando Vidal. Uma pérola!



Canção Perdida



Poema: Guerra Junqueiro (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: José Vianna da Motta (in "Canções Portuguezas para canto e piano compostas por José Vianna da Motta", Rio de Janeiro: Isidoro Bevilacqua e C.ª, 1895)
Intérpretes: Carlos Guilherme & Armando Vidal* (in CD "A Canção Portuguesa", Numérica, 1998)


Alguém de mim se não lembra
Nas terras d'além do mar...
Ó Morte, dava-te a vida,    | bis
Se tu lha fosses levar!...    |

O meu amor escondi-o
Numa cova ao pé do mar...
Morre o amor, vive a saudade...   | bis
Morre o sol, olha o luar!...           |

Quem dá ais, ó rouxinol,
Lá para as bandas do mar?...
É o meu amor que na cova    | bis
Leva as noites a chorar!...     |

Ó meu amor, dorme, dorme
Na areia fina do mar,
Que em antes da estrela-d'alva    | bis
Contigo me irei deitar!...             |


* Carlos Guilherme – voz (tenor)
Armando Vidal – piano
Gravado no Aurastudio, Paços de Brandão - Santa Maria da Feira, em Janeiro de 1996
Engenheiros de som – Jorge Fidalgo e Fernando Rocha
Mistura – Jorge Fidalgo
Montagem – Fernando Rocha



CANÇÃO PERDIDA

(Guerra Junqueiro, in "Os Simples", Porto: Typographia Occidental, 1892 – p. 73-76; "Os Simples: Poesias Líricas", Porto: Lello & Irmão – Editores, 1978 – p. 73-76)


Hálitos de lilás, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala...

Triste, canta uma voz na síncope do dia:


            Alguém de mim se não lembra
            Nas terras d'além do mar...
            Ó Morte, dava-te a vida,
            Se tu lha fosses levar!...

            Ó Morte, dava-te a vida,
            Se tu lha fosses levar!...


Com o beijo do Sol na face cadavérica,
Beijo que a morte esvai em palidez algente.
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica...

Doce, canta uma voz melancolicamente:


            O meu amor escondi-o
            Numa cova ao pé do mar...
            Morre o amor, vive a saudade...
            Morre o sol, olha o luar!...

            Morre o amor, vive a saudade...
            Morre o sol, olha o luar!...


Latescente a neblina opálica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de lua...

Flébil, chora uma voz no letargo infinito:


            Quem dá ais, ó rouxinol,
            Lá para as bandas do mar?...
            É o meu amor que na cova
            Leva as noites a chorar!...

            É o meu amor que na cova
            Leva as noites a chorar!...


A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma,
Imponderalisou a natureza inteira,
Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste, expira uma voz na canção derradeira:


            Ó meu amor, dorme, dorme
            Na areia fina do mar,
            Que em antes da estrela-d'alva
            Contigo me irei deitar!...

            Que em antes da estrela-d'alva
            Contigo me irei deitar!...


                                                             Maio — 91.



Capa do CD "A Canção Portuguesa", de Carlos Guilherme & Armando Vidal (Numérica, 1998)

09 abril 2018

Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra Mundial


Adriano Sousa Lopes, "Rendição nas Trincheiras", 1923, óleo sobre tela, 296 x 1252 cm, Museu Militar, Lisboa [vide pormenores abaixo].


«21 de Março [1918].

        Os homens e as coisas gastam-se rapidamente. Acelera-se com vertigem o ritmo da morte.
        Uma das duas ou três únicas casas, por enquanto intactas, é aquela onde se abrigou o comandante do batalhão, o capitão Brun [André Brun]. É lá que passo algumas horas da noite. Mas logo de princípio começam a chover sobre toda a planície as granadas de gases. Sopra o vento. Não obstante as portas e as janelas estarem fechadas, o quarto para onde eu e o Frazão nos atirámos está empestado do cheiro nauseabundo. Pomos as máscaras e tentamos dormir com elas postas. Mas aquilo, horas seguidas, somado às nossas infinitas fadigas, cansa de tal maneira que acaba por destruir a noção do perigo, e deitamo-la fora. Ficamos prostrados em tamanha sonolência, que somos insensíveis à ideia da morte.
        As granadas caem às centenas, aos milhares, durante toda a noite. Entram na terra, com um baque surdo, sem estrondo, numa explosão abafada.
Mal clareia a manhã, olho pela janela. É uma madrugada amarela, empanada pela imensa nuvem dos gases, que o vento esgarça.»

JAIME CORTESÃO (in "Memórias da Grande Guerra (1916-1919)", Porto: Renascença Portuguesa, 1919 – p. 184)


O desastre que a Batalha de La Lys, iniciada a 9 de Abril de 1918, foi para o Corpo Expedicionário Português acabou por tornar-se o símbolo, por excelência, do desaire que constituiu, no seu conjunto, a participação de Portugal na Primeira Grande Guerra. Desaire esse que somado à deterioração das condições de vida da população veio a ditar o fim da República e levar à instauração da ditadura militar e subsequente (e longa) autocracia salazarista.
Se para alguma coisa serve a História é para dela serem tiradas as devidas ilações do que não se deve voltar a fazer e o centenário daquele trágico acontecimento pode ser aproveitado pelos portugueses de hoje para a necessária e desejável reflexão acerca dos múltiplos aspectos que rodearam a participação do país na Guerra e das tremendas repercussões económicas e sociais. O programa "Cem Mil Portugueses na Primeira Guerra" [>> RTP-Play], em boa hora realizado por Ana Aranha, dá um óptimo contributo nesse sentido. Aqui ficam, pois, as sinopses e os links dos 14 episódios. Quem desejar saber mais pode deitar mão a bons livros que até à data se publicaram e que ao fundo se referenciam.


CEM MIL PORTUGUESES NA PRIMEIRA GUERRA:
Ep. 1 | 03 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Destaque para o que se passou em Moçambique, entre 1914 e 1918. Conversa com os jornalistas Ricardo Marques e Manuel Carvalho, autores, respectivamente, dos livros "Os Fantasmas do Rovuma" e "A Guerra Que Portugal Quis Esquecer".

Ep. 2 | 10 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
O historiador António José Telo apresenta as principais teses contidas no livro "O CEP: Os Militares Sacrificados pela Má Política", de que é um dos autores.

Ep. 3 | 17 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Nesta edição, falamos dos cerca de 7 mil militares portugueses que foram feitos prisioneiros pelos alemães e do longo período de cativeiro. Com Fátima Mariano, jornalista e investigadora do Instituto de História Contemporânea, da Universidade Nova de Lisboa.

Ep. 4 | 24 Fev. 2017 [>> RTP-Play]
Carlos Silveira, historiador de arte, dá-nos a conhecer dois nomes ligados às imagens da guerra: o pintor Adriano Sousa Lopes e o fotógrafo Arnaldo Garcez. Ambos acompanharam o Corpo Expedicionário Português, em França.

Ep. 5 | 03 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Com Isabel Braz, bisneta do Capitão António Braz, combatente e prisioneiro de guerra. Nesta edição, também ouvimos um som raro: a voz de um prisioneiro de guerra português [João Neves] captada num campo de detenção alemão.

Ep. 6 | 10 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Nesta edição, fazemos uma visita ao Arquivo Histórico-Militar, com o Coronel Américo Carreira Martins e o Capitão Cunha Roberto, e conversamos o Tenente-General Mário de Oliveira Cardoso, presidente da Comissão Coordenadora da Evocação do Centenário da I Guerra Mundial.

Ep. 7 | 17 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
Conversa com Gil Manuel dos Santos, neto do combatente António dos Santos Pereira que escreveu as suas memórias da guerra: a partida para a Flandres, a vida nas trincheiras...

Ep. 8 | 24 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
A Grande Guerra nos Açores, com o historiador Sérgio Alberto Fontes Rezendes.

Ep. 9 | 31 Mar. 2017 [>> RTP-Play]
O Portal da Guerra 1914-18 (http://www.portugal1914.org/) é um dos temas da conversa com a historiadora Maria Fernanda Rollo, actualmente Secretária de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

Ep. 10 | 07 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Noémia Novais e Nuno Mira Vaz falam sobre a imprensa, a censura, a propaganda e as opiniões públicas em Portugal, entre 1914 e 1918.

Ep. 11 | 14 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Com a investigadora Natividade Monteiro que tem estudado a participação das mulheres portuguesas na Grande Guerra, tanto no país como nas trincheiras em França.

Ep. 12 | 21 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Conversa com Isabel Pestana Marques, historiadora e autora do livro "Das Trincheiras com Saudade".

Ep. 13 | 28 Abr. 2017 [>> RTP-Play]
Dois investigadores, Maria Lúcia de Brito Moura e Luís Alves de Fraga falam da assistência religiosa e do apoio médico que foi prestado nos teatros de guerra.

Ep. 14 | 05 Mai. 2017 [>> RTP-Play]
A historiadora Ana Paula Pires, do Instituto de História Contemporânea (Universidade Nova de Lisboa), deixa-nos um retrato do nosso país decorrente da participação no primeiro grande conflito do séc. XX.















Adriano Sousa Lopes, "Rendição nas Trincheiras", 1923, óleo sobre tela, Museu Militar, Lisboa [pormenores].































Fotografias de militares portugueses nas trincheiras da Flandres tiradas por Arnaldo Garcez, fotógrafo oficial do Corpo Expedicionário Português (acervo do Arquivo Histórico-Militar, Lisboa).



Capa da 1.ª edição do livro "A Malta das Trincheiras: Migalhas da Grande Guerra 1917-1918", de André Brun (Lisboa: Guimarães & C.ª - Editores, 1918).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "Nas Trincheiras da Flandres (1917)", de Augusto Casimiro (Porto: Renascença Portuguesa, 1918).



Capa da 1.ª edição do livro "Calvários da Flandres", de Augusto Casimiro (Porto: Renascença Portuguesa, 1920).
Desenho por Adriano Sousa Lopes.
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "Na Flandres: O Episódio Militar de 9 de Abril", de Bazilio Telles (Porto: Eduardo Tavares Martins, 1918).



Capa da 1.ª edição do livro "Memórias da Grande Guerra (1916-1919)", de Jaime Cortesão (Porto: Renascença Portuguesa, 1919).



Capa da 1.ª edição do livro "Na Grande Guerra", de Américo Olavo (Lisboa: Guimarães & C.ª - Editores, 1919).



Capa da 1.ª edição do livro "A Mentira da Flandres e... o Medo", de João Ferreira do Amaral (Lisboa: J. Rodrigues & C.ª, 1922).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa da 1.ª edição do livro "A Batalha do Lys, A Batalha d'Armentières ou o 9 de Abril", de João Ferreira do Amaral (Porto: Tipografia do Comércio, 1923).
[>> informação complementar no site da Hemeroteca Municipal de Lisboa]



Capa do livro "Portugal - Grande Guerra: 1914-1918", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes (Lisboa: Diário de Notícias, 2003).



Capa do livro "Portugal e a Grande Guerra: 1914-1918", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes (Matosinhos: QuidNovi, 2010).
[>> informação complementar no blogue Porta-Livros]



Capa do livro "O CEP: Os Militares Sacrificados pela Má Política", de António José Telo e Pedro Marquês de Sousa (Porto: Fronteira do Caos Editores, 2016).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]



Capa do livro "De Lisboa a La Lys: O Corpo Expedicionário Português na Primeira Guerra Mundial", de Filipe Ribeiro de Meneses (Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2018)
[>> informação complementar no blogue Alma Lusa]



Capa do livro "Os Portugueses nas Trincheiras: Um Quotidiano de Guerra", de Isabel Pestana Marques (Lisboa: Comissão Portuguesa de História Militar, 2002).



Capa do livro "Das Trincheiras, com Saudade: A Vida Quotidiana dos Militares Portugueses na Primeira Guerra Mundial", de Isabel Pestana Marques (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008).
[>> informação complementar no blogue Alma Lusa]



Capa do livro "Na Sombra do Expedicionário: A Vida em Combate de Soldados Portugueses na Primeira Guerra Mundial", de Fernando Rita (Porto: Fronteira do Caos Editores, 2013).
[>> informação complementar no blogue Na Fronteira do Caos Editores]



Capa do livro "Nas Trincheiras da Flandres: Com Deus ou sem Deus, Eis a Questão", de Maria Lúcia de Brito Moura (Lisboa: Edições Colibri, 2010).
[>> informação complementar no site das Edições Colibri]



Capa do livro "Quando Raul Foi à Guerra: Memórias de um Médico Português na I Guerra Mundial", de Raul de Carvalho (Lisboa: Matéria-Prima Edições, 2013).
[>> informação complementar no site http://www.portugal1914.org/]



Capa do livro "Memórias Esquecidas: A Vida do Capitão António Braz", de Isabel Braz (Lisboa: Chiado Editora, 2014).
[>> informação complementar no blogue Almanaque Republicano]



Capa do livro "António Pereira dos Santos: De Chaves a Copenhaga: A Saga de um Combatente", de Gil Manuel Morgado dos Santos e Gil Filipe Calvão Santos (Lisboa: Prefácio, 2008).
[>> informação complementar no blogue da Biblioteca Escolar de Palmeira]



Capa do livro "Prisioneiros Portugueses na Alemanha (Guerra de 1914-1918)", de Manuel H. Lourinho (Porto: Edição do autor, 1980).



Capa do livro "Prisioneiros Portugueses da Primeira Guerra Mundial: Frente Europeia - 1917/1918", de Maria José Oliveira (Porto Salvo - Oeiras: Saída de Emergência, 1917).
[>> informação complementar no site da editora Saída de Emergência]



Capa do livro "Portugal na Grande Guerra: Guerristas e Antiguerristas: Estudos e Documentos", Apresentação de João Medina (Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa / Instituto Nacional de Investigação Científica, 1986).
[>> informação complementar no blogue Livreiro Monasticon]



Capa do livro "Imprensa e I Guerra Mundial: Censura e Propaganda 1914-1918", de Noémia Malva Novais (Casal de Cambra - Sintra: Caleidoscópio, 2016).
[>> informação complementar no Repositório da Universidade Nova]



Capa do livro "Portugal, os Portugueses, as Opiniões Públicas e a Guerra de 1914-1918", de Nuno Mira Vaz (Viseu: Quartzo, 2016).
[>> informação complementar no site da Revista Militar]



Capa do livro "Portugal e a I Guerra Mundial: A República e a Economia de Guerra", de Ana Paula Pires (Casal de Cambra - Sintra: Caleidoscópio, 2009).



Capa do livro "Grande Guerra: Angola, Moçambique e Flandres 1914-1918", de Aniceto Afonso, Col. Batalhas da História de Portugal, vol. 18 (Matosinhos: Quidnovi, 2006).
[>> informação complementar no site http://ultramar.terraweb.biz/]



Capa do livro "A Primeira Grande Guerra na África Portuguesa: Angola e Moçambique (1914-1918)", de Marco Fortunato Arrifes (Lisboa: Edições Cosmos / Instituto de Defesa Nacional, 2004).
[>> informação complementar no site do Instituto de Defesa Nacional]



Capa do livro "Os Fantasmas do Rovuma: A Epopeia dos Soldados Portugueses em África na I Guerra Mundial", de Ricardo Marques (Lisboa: Oficina do Livro, 2012).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]



Capa do livro "A Grande Guerra em Moçambique", de Fernando Abecassis (Lisboa: Sociedade de Geografia de Lisboa / Comissão Portuguesa de História Militar, 2014).
[>> informação complementar no site da Revista Militar]



Capa do livro "A Guerra Que Portugal Quis Esquecer: O Desastre do Exército Português em Moçambique na Primeira Guerra Mundial", de Manuel Carvalho (Porto: Porto Editora, 2015).
[>> informação complementar no site http://www.portugal1914.org/]



Capa do livro "Moçambique na I Guerra Mundial: Diário de um alferes-médico, Joaquim Alves Correia de Araújo: 1917-1918", org. Teresa Araújo (Vila Nova de Famalicão: Edições Húmus, 2015).
[>> informação complementar no blogue Almanaque Republicano]



Capa do livro "A Grande Guerra nos Açores: Memória Histórica e Património Militar", de Sérgio Alberto Fontes Rezendes (Ponta Delgada: Letras Lavadas Edições, 2014).
[>> informação complementar no site http://www.operacional.pt/]