Assinalamos este Dia Mundial da Criança apresentando a belíssima canção "Os Ponteirinhos", por Júlio Pereira com Sara Tavares, retirada do álbum "Faz de Conta" (2003). É apenas um exemplo entre o muito repertório de excelente qualidade (cantigas, músicas instrumentais, poemas ditos e histórias contadas) que até hoje se gravou em Portugal [cf. "A infância e a música portuguesa"], mas que – e infelizmente – perde em visibilidade (ou audibilidade, melhor dizendo) para a abundante ganga que se produz (e propagandeia nas televisões) para consumo do público infantil.
Nesse esforço de divulgação do que de melhor existe, a estação pública podia (e devia) desempenhar um papel fulcral, mas só a 19 de Setembro de 2016 é que surgiu uma rádio online vocacionada para as crianças, chamada ZigZag.
Porém, não chega! É importante que haja no espaço hertziano um programa regular – diário ou semanal – que dê às crianças que não têm internet em casa a oportunidade de ouvirem as histórias, os poemas, as cantigas e as peças instrumentais que artistas de mérito gravaram especialmente para elas. E qual a rádio mais indicada para acolher esse programa? A Antena 3, evidentemente!
Os Ponteirinhos
Letra e música: Júlio Pereira
Intérprete: Júlio Pereira* com Sara Tavares (in CD "Faz de Conta", EMI-VC, 2003)
[instrumental]
Tic-tac, tic-tac,
Martelinhos maneirinhos.
Tic-tac, tic-tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.
Diz "bom dia!" ao tic-tac!
Abre os olhos fechadinhos!
Vai p'rá escola! Tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]
[instrumental / vocalizos]
Boa tarde, tic-tac!
Vai brincar aos adivinhos!
E cansados, cansadinhos,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.
[instrumental / vocalizos]
Boa noite, tic-tac!
Vai sonhar com os moinhos!
Lá no escuro, tic-tac,
Tic-tac, vão girando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos. [bis]
Tic-tac, vão dançando os ponteirinhos,
Vão girando os ponteirinhos.
[instrumental / vocalizos]
* Júlio Pereira – instrumentação e voz
Quico Serrano – programação e sintetizadores
Convidada especial:
Sara Tavares – voz
Participação especial de:
Simão e Julinha – vozes
Conceito original e produção – Júlio Pereira
Assistente de produção – João Luís Oliva
Gravado e misturado em 2002
Mistura e masterização – Quico Serrano
Capa do CD "Faz de Conta", de Júlio Pereira (EMI-VC, 2003).
Defendo a tese de que o jornalismo é uma disciplina superior da literatura e que a reportagem, a crónica e a entrevista são géneros literários.
A primeira reportagem da nossa História é a carta de Pêro Vaz de Caminha, com as novas do achamento do Brasil, que ele escreveu para D. Manuel I.
BAPTISTA-BASTOS
Jornalista, romancista e ensaísta, Armando Baptista Bastos nasceu no bairro da Ajuda, em Lisboa, a 27 de Fevereiro de 1934.
Estudou na Escola Industrial de Arte Aplicada António Arroyo (denominada, a partir de 1948, Escola de Artes Decorativas António Arroio) e aprendeu francês no pólo do Beco do Tijolo (junto ao miradouro de São Pedro de Alcântara) do Liceu Francês Charles Lepierre.
Na pré-adolescência, ao mesmo tempo que ganhava o gosto pela leitura, Baptista-Bastos foi aprendiz de diversos ofícios: tipógrafo, torneiro mecânico, marceneiro, empregado de drogaria, empregado de confeitaria. «O meu pai tinha livros. Havia as coisas do Zola, peças tradicionais numa família de anarquistas, de comunistas, de socialistas. E havia as bibliotecas públicas. Começo a despertar para a leitura por causa do "Mosquito". Não eram os quadradinhos, mas o que lá estava escrito. Havia um homem, Rofer, que anos depois conheci como revisor do "Diário Popular", Roberto Ferreira. As histórias que ele escrevia é que talvez me tivessem despertado. Quando deixámos a Ajuda, fomos para a Rua da Bombarda, junto ao Largo do Intendente. Havia ali a biblioteca da Escola 1 ou 2. Eu atravessava a Almirante Reis, ia para lá e um homem chamado Freitas era o bibliotecário. Deu-me o Emilio Salgari. Foi a grande descoberta. E entretanto trabalhava. Fui aprendiz de droguista, trabalhei uma semana numa confeitaria. Foi importante para o meu conhecimento do mundo do trabalho, onde o trabalho é muito violento. Ia aos sítios pedir emprego – com calções! Trabalhei numa marcenaria que fazia tampos para máquinas de costura, uma coisa pesadíssima. Um dia puseram-me um daqueles carros-de-mão cheio daqueles tampos e demorei muito tempo a chegar à oficina, que era ali na Penha de França. E a minha madrasta [Baptista-Bastos perdeu a mãe aos seis anos de idade], uma mulher extraordinária, andou em Lisboa à minha procura. Apanhou-me, estava eu já esfalfado, já noite, quase a chegar à oficina. Insultou o homem de tudo: "O senhor faz isto a um garoto!" Também fui aprendiz de torneiro mecânico. Queria ter dinheiro para o cinema e para queijo fresco.» [entrevista concedida a Alexandra Lucas Coelho, in "Público: suplemento Ípsilon", 26-Jun-2007]
Influenciado pelo pai, tipógrafo, acaba por abraçar o jornalismo. «O meu pai foi fundador de jornais – pertenceu à equipa inicial do "Diário Popular" e do "Diário Ilustrado" mas antes disso tinha trabalhado no jornal "A Voz" (monárquico e católico) – e terminou a vida no jornal "O Século", como tipógrafo e chefe das tipografias. Eu era órfão de mãe, o meu pai fizera 35 anos, não tinha onde deixar-me e levava-me para o trabalho, onde todos me tratavam com carinho. É a partir daí que germina a vocação de escrever. Com 14 anos, comecei a escrever na página infantil do "Diário Popular", dirigida pelo José de Lemos, que criava histórias para crianças de uma forma admirável e era um desenhador prodigioso, talvez o maior do segundo modernismo. Comecei em miúdo a escrever para miúdos, mas as minhas histórias possuíam uma conexão social, eram histórias de meninos dos bairros pobres, que se me impunham sem eu as procurar. Mais tarde descobri o porquê: terá sido a circunstância de eu ter vivido sempre em bairros populares e de ter uma relação muito sentimental com a pobreza e com a miséria. Ainda hoje, ao ver na televisão miúdos com fome e desempregados de 40 e 50 anos, digo-te, é uma coisa que me comove muito e que se acentuou com a idade... Eu acho que a idade desperta certas cordas sentimentais e uma atenção emocionada para essas coisas, para o sofrimento dos outros. Foi o João Paulo Guerra quem escreveu um dia que eu toda a vida tinha feito reportagens com lágrimas nos olhos. Penso que é verdade. A páginas tantas, tive a presunção de ser a voz daqueles que a não tinham. E tive a sorte de poder escrever isso de várias maneiras... Ainda há tempos – quando me homenagearam pelos meus 50 anos de actividade literária e jornalística – o Adelino Gomes, que tem uma série de recortes de reportagens minhas (nem eu as tenho!) leu uma que me emocionou até às lágrimas. E perante um auditório de 400 pessoas, ele disse uma coisa muito bonita: "A partir de uma certa altura, o Baptista-Bastos já não era o jornalista, era o jornalismo português!"». [entrevista concedida a Avelino Rodrigues, in http://perfildojornalista.eusou.com/].
À secção infantil do "Diário Popular", segue-se o semanário "Cartaz" para o qual escreve reportagens sobre casas assombradas e, pouco depois, muda-se para a prestigiada revista "O Século Ilustrado", na qual vem a assinar uma coluna de crítica, "Comentário de Cinema", evidenciando um estilo jornalístico inovador, polémico e polemizante. «O "Cartaz" era um jornalzinho semanal de um grupo de amigos feito na tipografia do "Diário Popular". (Faziam-se jornais com muito pouco dinheiro, naquela altura... e ganhava-se também muito pouco). O chefe de redacção era um jornalista chamado Armindo Blanco, que nos anos 40/50 era um grande talento, um grande crítico cinematográfico. Pois eu comecei a fazer aí umas reportagens sobre casas mal-assombradas – tinha para aí os meus 17 anos, a picar os 18 – e as minhas casas mal-assombradas tiveram uma certa repercussão na época, até que a Censura começou a cortar, vá-se lá saber porquê (vejo hoje que as casas mal-assombradas no fundo podiam ser uma metáfora do Portugal daquele tempo). Aquilo começou a chatear-me. O Armindo Blanco já tinha saído para o grupo "Século" dos Pereira da Rosa, e é nessa altura que recebo um convite para trabalhar, como colaborador, na revista "O Século Ilustrado", de que o Redondo Júnior era chefe de redacção. Estava lá todos os dias mas recebia à peça. Eu aí começo também a fazer um determinado tipo de reportagem social, tanto quanto era possível fazer na época [inícios da década de 50]. Depois, o Armindo Blanco vai para o Brasil e eu substituo-o nos comentários de cinema, enquanto o Redondo Júnior escrevia sobre teatro. Aquilo que eu fazia não era nada uma crítica de cinema, aquilo era uma tribuna política. Estava-se em pleno McCarthismo, a perseguição aos cineastas americanos e isso servia-me de pretexto para discretear sobre a inexistência de democracia nos Estados Unidos.» [ibidem]
A notoriedade que esse trabalho lhe dá abre-lhe as portas do próprio jornal "O Século", que era comummente considerado a grande universidade do jornalismo em Portugal, e aí vem a adquirir elevado traquejo no mister de jornalista. «Em 1952, sou chamado pelo chefe de redacção do jornal "O Século", o Acúrcio Pereira, figura lendária do jornalismo. Eu nunca tinha entrado na redacção do jornal, mesmo trabalhando no mesmo edifício. Aquilo metia respeito, uma catedral do jornalismo (como lhe chamou o Zambujal). Então, o Acúrcio diz-me que o sr. Rosa e o sr. dr. Guilherme – era assim que se falava do velho magnata João Pereira da Rosa e do filho que lhe sucedeu como director – enfim, eles queriam-me na redacção do jornal. E pela primeira vez fui jornalista do quadro, com a categoria de redactor. Os Pereira da Rosa respeitavam o meu trabalho e entendiam-me, mesmo sabendo que eu era contra o regime e eles eram a favor. Aquilo era outra gente, hoje já não há patrões assim. [...] Eu fui muito bem acolhido n' "O Século". Toda a gente gostava de mim, de esquerda, de direita... Aliás, a redacção d' "O Século" era muito curiosa, porque tinha de tudo, era uma autêntica democracia. Tinha fascistas, monárquicos, comunistas, socialistas, anarquistas. A malta convivia admiravelmente. O Acúrcio nem sequer permitia qualquer quezília por motivos de ordem política – e as pessoas respeitavam isso. A gente saía dali às 3 ou 4 da manhã, de maneira que a redacção era inundada, digamos assim, pelas grandes figuras do teatro e do fado. Eu recordo-me de ver lá o Villaret, que era muito amigo do Acúrcio Pereira, chegava e começava a recitar para a redacção; recordo-me, por exemplo de um cantador de fados, o Filipe Pinto, que ia lá com os guitarristas... E depois a gente mandava vir as ceias do "Arroz Doce", um restaurante ali perto. Levavam-nos lá um bacalhau com grelos e um vinho tinto e a gente estava ali até às tantas a conversar... [...] Deixavam-me trabalhar com a liberdade possível. Fui várias vezes ao estrangeiro em reportagem internacional, e fiz reportagem por todo o país. Acabei por ser expulso em 1960, porque me envolvi na "Revolta da Sé".» [ibidem]
Baptista-Bastos conta-nos qual era o seu papel na revolução e os termos em que veio a ser demitido do jornal, volvido mais de um ano: «Tinha 24 anos quando fui inscrever-me na campanha do Delgado em 1958, ali na Avenida da Liberdade. Foi aí que conheci o grande arquitecto Cassiano Branco, estava lá à porta da sede, todo careca, um homem temível. Eu era um miúdo desenvolto e ele gostou de mim e entusiasmou-me. A campanha deu no que deu... e, no começo de 59 sou convidado pelo Urbano Tavares Rodrigues – hoje já se pode dizer – a participar num golpe de Estado em preparação e que tinha todas as condições para triunfar – garantia ele – porque estavam envolvidos largos sectores do Exército, dos católicos e da sociedade civil. Lá vou eu... Qual era a minha função? Abrir as portas d' "O Século" aos revolucionários e preparar um artigo para a vitória, o artigo de fundo do jornal, que tinha por título um cacófato: "O triunfo da Revolução sem sangue". (Ainda tive muitos anos o original, depois perdi-o, deve estar aí, não sei onde...) Estava tudo previsto para 12 de Março desse ano de 1959. A certa altura da noite, devia chegar o Urbano com os seus amigos, para tomar conta do jornal, eu iria falar com os tipógrafos, estava tudo aparentemente preparado... Mas o golpe falhou. Acabei por ser denunciado por uma das três pessoas que tentara aliciar na redacção (não digo o nome, porque já morreu e essas coisas eu perdoei, enfim...). E passado um ano, vejam bem, cai-me em cima o Carmo e a Trindade: no dia 10 de Abril de 1960, estava a substituir n' "O Século Ilustrado" o Redondo Júnior que tinha ido aos Estados Unidos, saí para ir beber um café na Brasileira e, quando volto, estava tudo à minha procura e uma telefonista chamada Madalena disse-me: "Olhe que os patrões estão reunidos e estão à sua espera!". Eu não fazia a mínima ideia do que era... sou chamado, vejo aquela gente toda com cara de caso, os patrões, com excepção do velho João Pereira da Rosa, enfim, os Pereira da Rosa todos, o Guilherme e o Carlos Alberto, os tios e o sobrinho. E depois perguntam-me: "Então você esteve metido numa coisa destas?" E eu: "Sim, quer dizer, eu não concordo com esta política portuguesa, com a Censura, eu tenho viajado pelo estrangeiro, lá fora gosto daquilo... e tal... e quando volto a Portugal sinto uma angústia terrível e então..." Nisto, o Carlos Alberto Pereira da Rosa, que era um homem admirável, cuja memória eu venero e respeito, acho até que era meu amigo, quis dar-me uma 'abébia' diante dos outros, que estavam todos em silêncio: "Bem, isso já se passou praticamente há um ano! Em idênticas circunstâncias o que é que você faria hoje?" E eu: "Faria exactamente o mesmo!". E ele, pesaroso, estendendo-me a mão: "Tenho muita honra em apertar-lhe a mão, você portou-se como um homem, tenho muita pena mas tenho de o despedir, e muito obrigado por ter trabalhado n' "O Século". Assim...» [ibidem]
A justificação dada à polícia política para o despedimento seria, no entanto, outra. «Felizmente não fui preso. Por uma circunstância que só agora conto, pela primeira vez, acho eu: quando a PIDE foi ao "Século" perguntar aos patrões porque é que eu tinha sido corrido (porque eles suspeitavam que havia qualquer coisa), o Carlos Alberto, o Guilherme Pereira da Rosa e o Henrique Pavão disseram: "Foi por uma causa interna, é que ele publicou umas coisas sobre o Fidel Castro". E a verdade é que n' "O Século Ilustrado" tinha saído uma série de fotografias com o Fidel Castro a ler "L'Esprit des Lois" de Montesquieu e... bem, eu tinha mandado aquilo para as máquinas sem ir à Censura. E eles arranjaram esse pretexto. Mas a PIDE andava atrás de mim e eu, que estava habituado à cervejaria "Ribadouro" todas as noites, deixei de frequentar lugares públicos e isolei-me. Até que um dia o Fernando Curado Ribeiro, velho companheiro das noitadas no "Ribadouro", está a conversar comigo na casa dele, "Espera aí um bocadinho!", apaga as luzes todas, chama-me à janela: "Estás a ver aquele carro, lá em baixo? Está todas as noites à tua espera". Durante uns tempos andei a saltar por quartos alugados e depois o Fernando Lopes, este que é realizador de cinema, indicou-me um quarto na Avenida de Roma, num andar que pertencia a uma tia dele. E pronto, foi assim... com alguns anos de desemprego.» [ibidem]
Nesse tempo de semi-clandestinidade, o ganha-pão de Baptista-Bastos é a tradução de livros, e pondera seriamente emigrar, até que recebe um convite de todo inesperado: ser redactor de notícias na RTP. «Vivia a traduzir livros. E um dia o Fernando Lopes disse-me que havia uma pessoa que queria falar comigo. Fomos almoçar ao Parque Mayer e aparece o Manuel Figueira, que eu não conhecia de todo. Era o director de Informação da televisão. E diz-me assim: "Nós sabemos que você se prepara ou se preparou para sair do país. Mas você não quer ficar? Olhe lá, você quer fazer os noticiários da televisão neste período das férias?" Como não podia receber o vencimento em meu nome, arranjou-se um pseudónimo. Na RTP, eu era o Manuel Trindade. E lá fui fazer as notícias internacionais: pegava na "Visnews", eles mandavam os 'dop-sheets' em inglês e eu traduzia aquilo com um cronómetro na mão. E fiz uns testes que correspondiam mais ou menos às características vocais de cada um dos locutores que leriam a minha prosa. Criei com todos uma grande simpatia: com o Fialho [Fialho Gouveia], com o Gomes Ferreira, com o Henrique Mendes, com o Manuel Caetano (que era irmão do Marcelo Caetano). Depois acabou aquilo tudo, o Manuel Figueira foi afastado...» [ibidem]
Nessa fase da sua vida, Baptista-Bastos escreveu também textos para documentários realizados por Fernando Lopes ("Cidade das Sete Colinas", "Os Namorados de Lisboa", "Este Século Em Que Vivemos") e por Baptista Rosa ("O Forcado", 1965, com fotografia de Augusto Cabrita e música de Miles Davis – "Scketchs of Spain").
Em Fevereiro de 1962, vai com Fernando Lopes para a Ericeira, a fim de fazer, durante um mês, a adaptação para cinema do romance "Domingo à Tarde", de Fernando Namora. É nesse retiro que escreve o seu primeiro livro de ficção, o romance "O Secreto Adeus". «Em 1959 e 1962 publiquei dois ensaios: "O Cinema na Polémica do Tempo" e "O Filme e o Realismo". A seguir é que descobri a ficção. Eu estava desempregado, não podia trabalhar nos jornais, por ter sido despedido d' "O Século", como já disse. Estava próximo do Fernando Lopes e o Baptista Rosa convidou-nos para fazer a adaptação cinematográfica de "Domingo à Tarde", do Fernando Namora. Eu já tinha trabalhado no cinema com o Lopes e, mais tarde, haveríamos de fazer o "Belarmino" [1964]. Como eu dizia, o Baptista Rosa contratou-nos aos dois e instalou-nos na Ericeira, por um mês, para escrever o guião. Acabámos por fazer aquilo em dez dias e eu resolvi aproveitar os vinte dias que restavam para escrever um livro. De regresso a Lisboa, mostrei o original ao meu querido amigo Carlos de Oliveira e ele não esteve com meias-medidas: "Você vai publicar isto imediatamente!". Assim nasceu "O Secreto Adeus", livro de denúncia do jornalismo que se praticava na época, com uma trama agressiva, a que não faltava o sexo e a aventura e aquele romantismo do jornalista na noite lisboeta. O nosso "Domingo à Tarde" ficou na gaveta (mais tarde o António de Macedo fez o filme com outro guião) mas "O Secreto Adeus" teve um êxito fulgurante, já fez quase uma dezena de edições e ainda hoje é lido, sobretudo pelas camadas jovens.» [ibidem]
Impedido de continuar a trabalhar na RTP, por ordem expressa do director do Secretariado Nacional de Informação, César Moreira Baptista («Esse senhor é um contumaz adversário do regime.»), Baptista-Bastos fica mais uma vez desempregado, passando sazonalmente pela redacção da agência France Press, em Lisboa.
Em meados de 1963, ingressa no jornal "República". Em finais de Março de 1964, desloca-se ao Brasil, como secretário do actor Raul Solnado, que tinha sido contratado pela TV Rio (antecessora da TV Record). A sua chegada coincide com o golpe militar que depôs o presidente João Goulart, e as notícias que envia para aquele vespertino não passam no crivo da Censura.
Em 1965, é admitido noutro vespertino, o "Diário Popular", ao qual permanecerá ligado até 1988. Neste jornal, vem a publicar, no dizer de Afonso Praça, «algumas das mais originais e fascinantes reportagens, entrevistas e crónicas da Imprensa portuguesa da segunda metade do século». «Quando cheguei ao "Diário Popular", o Brás Medeiros [patrão e estratega do jornal] pôs-me logo à vontade: "Eu sei como que é que o senhor pensa, sei onde é que esteve metido e vou dizer-lhe uma coisa: os patrões nunca lhe vão cortar uma linha – mas se a Censura cortar, isso é um problema seu e da Censura.". E foi assim mesmo. E nesta aventura do "Diário Popular" passei eu 23 anos! Viajei por mais de trinta países, escrevi sobre tudo e em todos os géneros, desde as notícias do dia aos artigos de fundo. Uma vez, em 1968, mandaram-me em serviço à Alemanha Ocidental, eu aproveitei e dei um saltinho à RDA comunista, clandestinamente. De regresso, achei que devia contar-lhes. E o Brás Medeiros: "Já escreveu?". Ele disse isto com uma severidade no olhar que eu sabia interpretar. Nunca tinha pensado falar da RDA, mas fui a correr e escrevi a reportagem, mandei-a para a tipografia e ele enviou o artigo para a Censura. Eles retiveram as provas uma data de tempo, até que um dia entra ele na redacção e pergunta: "As palavras do Bastos? Ainda não vieram? Há quanto tempo estão lá?". Quando lhe disseram que o meu artigo já estava demorado dez dias, ele agarrou no telefone, ligou para o coronel Galvão, que era um dos grandes da Censura, e disse: "Eu mandei o Baptista-Bastos à RDA, mandei-o escrever a reportagem, eu li a reportagem dele, é uma reportagem rigorosa e, se as provas não estiveram cá dentro de duas horas, amanhã mete artigo de fundo, porque eu digo ao Prof. Martinho Nobre de Melo que quem mandou escrever o artigo fui eu, quem manda na minha casa sou eu!". Um quarto de hora depois estavam lá as provas, aprovadas. Hoje em dia já não há histórias destas, já ninguém faz isto por ninguém. E também é o retrato da época em que havia uma relação muito estreita entre o patrão e o jornalista. E isso verificou-se em vários jornais, tem piada, no "Jornal do Comércio" do Fausto Lopes de Carvalho, n' "O Século" dos Pereira da Rosa, no "Diário de Lisboa" dos Ruella Ramos.» [ibidem]
Baptista-Bastos pertenceu, também, aos corpos redactoriais de outros jornais e revistas: "O Diário", "Europeu", "Almanaque", "Seara Nova", "Gazeta Musical e de Todas as Artes", "Época" e "Sábado".
Foi um dos fundadores do semanário "O Ponto", que teve existência efémera (inícios dos anos 80), no qual publicou uma série de oitenta entrevistas que assinalaram uma renovação naquele género jornalístico e marcaram a época, posteriormente coligidas no volume "O Homem em Ponto" (1984).
Em 1999, no âmbito das comemorações do 25.º aniversário da Revolução dos Cravos, a direcção do "Público" convidou-o a realizar dezasseis entrevistas, subordinadas ao tópico "Onde É Que Você Estava no 25 de Abril?", as quais desencadearam alguma polémica e constituíram um assinalável êxito jornalístico. Doze dessas entrevistas (com Álvaro Guerra, Carlos Brito, D. Januário Torgal Ferreira, Emídio Rangel, Fernando de Velasco, Hermínio da Palma Inácio, João Coito, Joshua Ruah, general Kaúlza de Arriaga, Manuel de Mello, padre Mário de Oliveira e Pedro Feytor Pinto) foram inseridas num CD-ROM (que teve uma tiragem de 55 mil exemplares), distribuído juntamente com a edição de 25 de Abril de 1999 daquele matutino.
Na mesma ocasião, a convite da direcção do "Diário de Notícias", Baptista-Bastos teve também a seu cargo o enquadramento do capítulo "O Efémero", da edição especial "O Milénio", iniciativa do mesmo jornal.
Como cronista e crítico, colaborou nos mais diversos órgãos da imprensa diária ou periódica: "Jornal de Notícias", "A Bola", "Tempo Livre", "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", "Expresso", "Jornal do Fundão", "Correio do Minho", "Diário Económico", "Diário de Notícias", "Jornal de Negócios" e "Correio da Manhã".
A crónica radiofónica também não lhe escapou, tendo lido aos microfones da Antena 1 e da Rádio Comercial as suas sempre avisadas reflexões sobre casos e episódios da vida pública portuguesa. Na TSF - Rádio Jornal, foi o primeiro comentador da popular rubrica "Crónicas de Escárnio e Maldizer". Antes, em 1970, a convite de Carlos Cruz, gravara um EP com quatro crónicas, musicalmente ilustradas por António Victorino d'Almeida, que foi apreendido pela PIDE.
Em 1990, Baptista-Bastos foi um dos entrevistadores do Prof. Agostinho da Silva, na memorável série "Conversas Vadias" (RTP-1) e, a partir de Novembro de 1996 até Janeiro de 1998, manteve nas noites da SIC o programa "Conversas Secretas", no qual entrevistou uma vasta galeria de pessoas célebres (e menos célebres) oriundas dos mais variados sectores da sociedade portuguesa. Retomou a realização de entrevistas para o canal SIC-Notícias, no programa "Cara-a-Cara", de Janeiro a Agosto de 2001.
No campo da ficção, após o já referido "O Secreto Adeus", publicou os seguintes romances: "O Passo da Serpente" (1965); "Cão Velho entre Flores" (1974), «obra das mais fortes e belas da literatura portuguesa deste século», nas palavras de Urbano Tavares Rodrigues; "Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura" (1981), que Óscar Lopes considerava «o livro dos livros novelísticos da sua geração, senão de toda a literatura portuguesa de aquém 1950»; "Elegia para um Caixão Vazio" (1984), "A Colina de Cristal" (1987), galardoado com o Prémio Literário Município de Lisboa e com Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa; "Um Homem Parado no Inverno" (1991); "O Cavalo a Tinta-da-China" (1995); "No Interior da Tua Ausência" (2002), agraciado com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários; e "As Bicicletas em Setembro" (2007).
Baptista-Bastos está traduzido em checo, búlgaro, russo, alemão, castelhano e francês.
Muitas das suas crónicas e entrevistas estão publicadas em livro. Um desses títulos, "As Palavras dos Outros" (1969), é considerado «um clássico» e «uma referência obrigatória na profissão», na opinião de dois dos seus pares, Adelino Gomes e Fernando Dacosta, respectivamente, tendo sido recomendado como «leitura indispensável» no I Curso de Jornalismo organizado pelo sindicato da classe.
Entre os numerosos prémios que recebeu, na qualidade de jornalista ou de ficcionista, contam-se: Prémio Feira do Livro (1966), Prémio Artur Portela da Casa da Imprensa (1978), Prémio Nacional de Reportagem/Prémio Gazeta do Clube de Jornalistas (1985), Prémio Casa da Imprensa (1986), Prémio "O Melhor Jornalista do Ano" (1980 e 1983), Prémio Porto de Lisboa (1988), Prémio Gazeta de Mérito do Clube de Jornalistas (2004), Prémio de Crónica João Carreira Bom da Sociedade de Língua Portuguesa (2006) e Prémio Alberto Pimentel do Clube Literário do Porto (2006).
BIBLIOGRAFIA ACTIVA:
Ensaio, crónicas e entrevistas: - O Cinema na Polémica do Tempo (ensaio), Lisboa: Gomes & Rodrigues, Lda., 1959 - O Filme e o Realismo (ensaio), Lisboa: Arcádia, 1962; Porto: Nova Crítica, 1979 - As Palavras dos Outros (crónicas, reportagens e entrevistas), Mem Martins-Sintra: Publicações Europa-América, 1969; Lisboa: Círculo de Leitores, 2000 - O Sinal do Tempo (4 crónicas lidas), música de António Victorino d'Almeida, Lisboa: Zip-Zip, 1970 [EP] - Cidade Diária (crónicas), Editorial Futura, 1972 - Capitão de Médio Curso (crónicas), Lisboa: Editorial Caminho, 1977 - O Homem em Ponto: Entrevistas, Lisboa: Relógio d'Água, 1984 - O Nome das Ruas (monografia), em colaboração com António Borges Coelho, fot. José Antunes, Lisboa: Câmara Municipal / Livros Horizonte, 1993 - José Saramago: Aproximação a um Retrato (biografia), Lisboa: Publicações Dom Quixote / Sociedade Portuguesa de Autores, 1996 - Fado Falado (26 entrevistas), pref. José Saramago, fot. José Santos, Alfragide-Amadora: Ediclube, 1999 - Onde É Que Você Estava no 25 de Abril? (12 entrevistas), Lisboa: Público, 1999 [CD-ROM] - Retratos para Aquilino (monografia), textos de Mário Soares, José Saramago, Vasco Graça Moura, José Manuel Mendes, António de Almeida Santos, Eduardo Lourenço, Luísa Costa Gomes, Urbano Tavares Rodrigues, Baptista-Bastos, Jorge Reis e Luiz Francisco Rebello; desenhos por José Rodrigues, Alberto Péssimo, Fernando Lanhas, Maria Keil, João Abel Manta, Fernando de Azevedo, Armando Alves, Jorge Pinheiro, José Emídio e Rogério Ribeiro. Paredes de Coura / Porto: Câmara Municipal de Paredes de Coura / Cooperativa Árvore, 2000 - Lisboa Contada pelos Dedos (crónicas), Lisboa: Montepio Geral, 2001; Lisboa: Círculo de Leitores, 2006 [Grande Prémio de Crónica da Associação Portuguesa de Escritores, 2003] - A Cara da Gente: Prazeres, Devaneios, Invenções e Passeatas (crónicas), Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008 - Tempo de Combate (crónicas), Lisboa: Edições Parsifal, 2014
Poesia: - Caminho e Outros Poemas (poesia), Lisboa: Edição do autor [Tipografia Gráfica Boa Nova], 1951
Ficção: - O Secreto Adeus (romance), Lisboa: Portugália Editora, 1963; Porto: Edições Asa, 2001 - O Passo da Serpente (romance), Lisboa: Prelo, 1965; Porto: Edições Asa, 2001 - Cão Velho entre Flores (romance), Lisboa: Editorial Futura, 1974; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2011 - Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura (romance), Lisboa: Forja, 1981; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008 - Elegia para um Caixão Vazio (romance), Lisboa: O Jornal, 1984; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2009 - A Colina de Cristal (romance), Lisboa: O Jornal, 1987; Porto: Edições Asa, 2000 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1987, e Prémio P.E.N. Clube Português de Narrativa, 1988] - Um Homem Parado no Inverno (romance), Lisboa: O Jornal, 1991; Porto: Edições Asa, 2001 - O Cavalo a Tinta-da-China (romance), Lisboa: Temas da Actualidade, 1995; Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2008 - No Interior da Tua Ausência (romance), Porto: Edições Asa, 2002; Lisboa: Círculo de Leitores, 2004 [Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, 2003] - As Bicicletas em Setembro (romance), Porto: Edições Asa, 2007; Alfragide-Amadora: Oficina do Livro, 2010 - A Bolsa da Avó Palhaça (novela autobiográfica), ilustr. Mónica Cid, Cruz Quebrada-Oeiras: Oficina do Livro, 2007
BIBLIOGRAFIA PASSIVA:
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Teles, Viriato. Contas à Vida: Histórias do Tempo Que Passa, Lisboa: Sete Caminhos, 2005 (http://www.viriatoteles.com/web/livros/contas-a-vida/239-baptista-bastos)
Qual foi a atitude da rádio pública quando se soube da morte de Baptista-Bastos?
Logo no dia do falecimento (9 de Maio), a Antena 2 recuperou duas entrevistas: uma feita por João Almeida, em 2008, para o programa "Quinta Essência" [>> RTP-Play], e outra realizada por Luís Caetano, em 2014, a propósito do lançamento do livro de crónicas "Tempo de Combate", para o programa "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play]. O meu aplauso!
E a Antena 1? Naquele dia, não acompanhei a emissão e, por isso, não posso testemunhar se o insigne jornalista e escritor foi, ou não, homenageado. E digo "homenageado" porque tal pressupõe algo mais do que dar a notícia do falecimento e anunciar o local onde vai decorrer o velório. Se a Antena 1 transmitiu algum programa em memória de Baptista-Bastos (por exemplo, uma entrevista), procedeu adequadamente; se o não fez, foi negligente e isso tem a reprovação dos ouvintes/contribuintes. Caso tenha havido programa, tal não dispensa, como é bom de ver, que se resgate do arquivo histórico as melhores crónicas que o emérito jornalista leu na mesma Antena 1, a fim de serem transmitidas ao ritmo de uma por dia, durante umas boas semanas. Fica a sugestão, na esperança de que não caia em saco roto!
Pela nossa parte, é com imenso orgulho que apresentamos o registo da interessantíssima entrevista que Baptista-Bastos concedeu a outro grande dos seus pares, Carlos Pinto Coelho, para o programa de rádio "Agora... Acontece!", emitido em Fevereiro de 2001.
Este tributo ficaria incompleto se não se pudesse apreciar a arte de entrevistar do próprio Baptista-Bastos, de viva voz. À falta de gravação radiofónica, deixamos o vídeo da "Conversa Vadia" com o Prof. Agostinho da Silva. Um regalo!
"Agora... Acontece!" N.º 117, de 26-Fev-2001
Baptista-Bastos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 2':52'']
Baptista-Bastos entrevistando o Prof. Agostinho da Silva (Ep. 5 das "Conversas Vadias", RTP-1, 1990)
Capa da primeira edição do livro "As Palavras dos Outros" (Colecção "Prisma", Publicações Europa-América, 1969)
A exemplo do que se passou em Maio de 2010, aquando da visita de Bento XVI, a programação normal da Antena 1 foi totalmente elidida e substituída pela cobertura, ao milímetro e ao segundo, de todos os acontecimentos (e não acontecimentos) respeitantes à viagem que o papa Francisco acabou de fazer a Fátima. Creio que foi o próprio Jorge Bergoglio quem afirmou que vinha a Fátima como peregrino. Portanto, não se tratou de uma visita oficial do chefe de Estado do Vaticano a outro estado, no caso Portugal. Ora, sendo uma viagem de cariz estritamente apostólico, a rádio pública devia ter mais pudor e recato, em obediência ao seu estatuto de entidade laica, na cobertura do evento, cingindo-se ao que tivesse valor informativo real e objectivo para a generalidade dos cidadãos (nos intercalares noticiosos). Ao cobrir de modo intensivo, exaustivo e obsessivo tudo que era de índole meramente religiosa, designadamente as cerimónias litúrgicas na Cova da Iria, a Antena 1 comportou-se como se fosse a Rádio Renascença e isso merece o veemente repúdio de quem preza o livre-pensamento e não quer ser catequizado, como é o caso do escrevente destas linhas. E digo isto perfeitamente à vontade pois, apesar de ser agnóstico, até simpatizo com o homem que o colégio cardinalício elegeu (talvez por engano) para suceder a Joseph Ratzinger no trono pontifício.
A circunstância da maioria da população portuguesa ser (culturalmente) católica não valida a opção de quem manda na Antena 1. O Estado Português e todas as entidades da sua esfera não devem envolver-se nos assuntos da fé, porque se o fizerem, colocando-se ao lado de uma determinada confissão, estão inevitavelmente a dar a entender de que aquela é que é a verdadeira e a autêntica. Concomitantemente, os que professam outros credos e os que não têm credo algum recebem o estigma implícito de ímpios e degenerados mentais. A fé religiosa (ou a não-fé assumida em total liberdade de consciência) é do foro íntimo de cada um e jamais se poderá admitir que o Estado (que representa todos) tome partido por alguma.
Neste aniversário (o quadragésimo terceiro) da eclosão da Revolução dos Cravos, que devolveu a Liberdade a Portugal, apresentamos o poema "Flor da Liberdade", de e por Miguel Torga. O texto veio a lume no ano de 1958, em plena autocracia salazarista, mas a mensagem não perdeu actualidade. Se "recusar", naquele tempo, significava contestar e resistir à opressão, hoje consiste em exercer plenamente a Liberdade. Deixar de exercê-la – por medo, comodismo ou apatia –, é abrir caminho ao despotismo de uns quantos sobre todos.
No caso concreto da rádio pública, quando os ouvintes não se revêem no serviço (ou falta dele) que lhes é apresentado, de que modo podem dar expressão à sua recusa? Duas vias se lhes oferecem: uma é desligar a sintonia e sem mais nada fazer, dando o caso como perdido; a outra é intervir civicamente no sentido da debelação das mazelas e, consequentemente, que o "doente" se torne um ente saudável e útil à sociedade, fazendo assim jus à nobre missão de serviço público que lhe cabe prestar: informar com isenção e pluralismo, cultivar e entreter com enlevo. Optámos pela segunda via e dela não nos iremos desviar, apesar do autismo com que nos temos deparado da parte dos decisores.
Reportando-nos à Antena 1, que é dos três canais de cobertura nacional o que se encontra, presentemente, em estado de maior enfermidade, apontamos três deficiências gritantes (por ordem crescente de importância):
Ausência de uma rubrica diária de poesia tendo como âmbito os autores de língua portuguesa, seja na voz dos próprios, seja na de reputados recitadores;
Ausência de teatro radiofónico, que foi durante muitos anos uma marca de excelência no serviço público de radiodifusão e que constitui um património de valor inestimável que urge resgatar;
Falta de pluralismo estilístico e estético na lista de difusão musical de continuidade, vulgo 'playlist', e inerente exclusão de um extenso rol de artistas portugueses de reconhecida qualidade – que se traduz no obsceno favorecimento da produção pop e hip hop, a maioria da qual de baixíssimo quilate, e na criminosa marginalização de tudo o resto, mormente da música tradicional portuguesa e do valioso repertório dos cantautores.
Podemos considerar razoável que, sob a alçada de um regime que se apregoa de democrático e pluralista, a pop e o hip hop desempenhem hoje na rádio estatal o mesmo papel que tinha o nacional-cançonetismo sob a vigência da ditadura?
FLOR DA LIBERDADE
Poema de Miguel Torga (in "Orfeu Rebelde", Coimbra: Edição do autor, 1958 – p.52-53; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2.ª edição, 2002 – p. 560)
Recitado pelo autor* (in 2LP "Miguel Torga: 80 Poemas": LP 1, EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.
Sepultos insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.
* Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, nos dias 31 de Junho, 1 e 31 de Julho de 1987
Engenheiro de som – Pedro Vasconcelos
Montagem – Miguel Gonçalves
Montagem digital (CD) – Fernando Paulo Boavida, nos Estúdios Valentim de Carvalho
Fernando Campos fotografado por António Pedro Ferreira
Eu sou assim: o que é histórico é histórico, o que a História não pode contar conto eu.
FERNANDO CAMPOS
Ficcionista, cronista e investigador português, Fernando da Silva Campos nasceu em Águas Santas, concelho da Maia, a 23 de Abril de 1924.
Filho do pintor Alberto da Silva Campos, fez os estudos universitários na Faculdade de Letras de Coimbra, onde se licenciou em Filologia Clássica. Tornou-se professor do ensino liceal, tendo sido docente do Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, cidade onde passou a residir definitivamente.
Paralelamente à actividade de docente, escreveu algumas obras didácticas e monografias de investigação etimológica e exegese literária, como "Prosadores Religiosos do Século XVI" (1950), "A Redacção" (1968), "A Vila de São Teotónio: uma Fonte de 'Os Lusíadas'?" (1972) e "O Arinteiro de El-Rei" (1972).
Fernando Campos iniciou já tarde o seu mister de ficcionista, pois só aos 62 anos de idade publicou o seu primeiro romance, "A Casa do Pó" (1986), que recebeu rasgados elogios da crítica e se tornou um êxito editorial, com sucessivas edições. Trata-se dum romance histórico cuja acção decorre em finais do século XVI e conta a saga das peregrinações de Frei Pantaleão de Aveiro, o autor de "Itinerário de Terra Santa" (1593). O enigma da identidade do frade franciscano, servindo de pretexto para, ao longo de todos os itinerários que percorre (Portugal, Espanha e toda a bacia mediterrânica dominada por Venezianos e Turcos, até à Palestina), esboçar um panorama mental sobre a cristandade ocidental e oriental, e sobre o contexto político português no fim de Quinhentos, tende, porém, a adquirir, desde as primeiras páginas, uma dimensão universal: mais do que rigorosa e documentada incursão pelo romance histórico, segundo o autor (cf. Notas a "A Casa do Pó", 5.ª ed., Lisboa: Difel, 1987, p. 436), «o que aí está são velhos problemas da Humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos». Nesta obra magistral, que logo catapultou Fernando Campos para a esfera dos escritores maiores da língua portuguesa, surgem diversas figuras históricas, entre as quais Luís Vaz de Camões. O autor levou cerca de onze anos a preparar o livro, dez dos quais em trabalho de pesquisa histórica.
Nas obras seguintes, o autor recorre mais uma vez à ficção como género privilegiado para uma indagação ontológica, religiosa ou metafísica, enriquecida com uma cultura invulgar, alargada na convivência de autodidacta com leituras clássicas, filosóficas e históricas, fazendo ainda prova de uma versatilidade de registos (lírico, trágico, épico), já manifestada em "A Casa do Pó". Para cada um dos seus romances históricos, Fernando Campos faz uma cuidada e meticulosa pesquisa para poder recriar ao pormenor o enredo e caracterizar as personagens com o máximo rigor. Só recorre à imaginação quando se depara com a falta de dados históricos.
Em 1987, o escritor publicou a novela satírica "O Homem da Máquina de Escrever" e o romance "Psiché", retrato cruel da decadência de um comediante do teatro ligeiro ante a feroz concorrência do cinema, na primeira metade do século XX. Seguiram-se, em 1990, "O Pesadelo de dEus", romance de pendor metafísico protagonizado por um estudante de Filosofia e um casal de fantoches, e, em 1995, o livro que lhe valeu o Prémio Eça de Queiroz desse mesmo ano, "A Esmeralda Partida", admirável reconstituição do período conturbado que se situa entre os reinados de D. João I e de D. João II.
Após dois anos e meio de intenso trabalho de investigação e escrita, o autor deu à estampa o romance "A Sala das Perguntas" (1998), que aborda a vida do humanista português Damião de Góis (1502-1574). Na obra, aparecem distintas personalidades coevas, como Martinho Lutero, Thomas More, Erasmo de Roterdão, João de Barros e Luís de Camões. Em 1999, saiu o livro de contos "Viagens ao Ponto de Fuga" e, no ano seguinte, o romance "A Ponte dos Suspiros", protagonizado por D. Sebastião que surge em Veneza, vinte anos depois da Batalha de Alcácer Quibir, almejando obter do papa, com a ajuda do arcebispo de Espálato, o reconhecimento como o legítimo rei de Portugal.
Já em 2001, o escritor apresentou o livro "...que o meu pé prende...", incursão no género fantástico, a partir do conto popular "A Formiga e a Neve", que alguém considerou uma síntese perfeita de todas as lutas da Humanidade, de todas as verdades e de todas as mentiras. Regressou ao romance histórico, dois anos mais tarde, com "O Prisioneiro da Torre Velha", em que relata os momentos cruciais que antecederam a conjura de 1640, servindo-se das palavras escritas pela figura central da obra, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Fernando Campos já tinha em mente escrever sobre aquele vulto seiscentista desde os tempos de estudante em Coimbra, quando a convite do professor Correia de Oliveira trabalhou num projecto de edição crítica das "Cartas Familiares".
Em 2005, lançou "O Cavaleiro da Águia", romance histórico que tem como protagonista o guerreiro medieval D. Gonçalo Mendes da Maia, cognominado O Lidador. Seguiram-se: "O Lago Azul" (2007), em torno da descendência de D. António Prior do Crato; "A Loja das Duas Esquinas" (2009), revisitação da tragédia de Édipo pelos olhos de um antiquário; "A Rocha Branca" (2011), dando-nos a poetisa grega Safo entregue à paixão sob a égide das artes mágicas da deusa Afrodite; e "Revengar" (2012), o seu último romance, tendo como fonte de inspiração recortes do folhetim homónimo publicado pelo vespertino carioca "A Noite", por sua vez decalcado do filme "The Shielding Shadow" (1917), em 15 episódios, realizado por Louis J. Gasnier.
Fernando Campos está traduzido em francês, italiano e alemão.
Foi também colaborador do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", com a série de crónicas "Os Trabalhos e os Dias".
BIBLIOGRAFIA ACTIVA:
Pedagogia, investigação literária e monografias:
- Prosadores Religiosos do Século XVI (antologia organizada em colaboração com Alcides Soares), Coimbra: Livraria do Castelo, 1950
- A Redacção (orientação e exercícios), Porto: Livraria Avis, 1968, 1970, 1972
- A Vila de São Teotónio: uma fonte de "Os Lusíadas"?, in "Panorama", n.º 44 e separata, Lisboa, 1972
- O Arinteiro de El-Rei (monografia de investigação etimológica), in "Armas e Troféus", III Série-tomo 1, Jul.-Set. 1972, n.º 2, p. 196-202.
- Portugal (monografia), fotografias de Jean-Charles Pinheira, Lisboa: Difel, 1989
Ficção:
- A Casa do Pó (romance), Lisboa: Difel, 1986; Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011 [Prémio Literário Município de Lisboa, 1986]
- O Homem da Máquina de Escrever (novela satírica), Lisboa: Difel, 1987, 1997
- Psiché (romance), Lisboa: Difel, 1987, 1988
- O Pesadelo de dEus (romance), Lisboa: Difel, 1990
- Flor de Estufa (conto), in "Imaginários Portugueses: Antologia de Autores Portugueses Contemporâneos", Lisboa: Fora do Texto, 1992
- A Fonte da Paciência (conto), in "Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian: Memórias da Infância", VIII Série, n.º 1, Lisboa, Dez. 1994
- A Esmeralda Partida (romance), Lisboa: Difel, 1995, 2008 [Prémio Eça de Queiroz, da Câmara Municipal de Lisboa, 1995]
- Ritorni (conto em italiano), in "Europa Come: 15 Racconti per 15 Nazioni", Florença: Giunti, Gruppo Editoriale, 1996
- O Inferno e o Paraíso (conto), in "Contoário Cem", Lisboa: O Escritor, 1996
- A Sala das Perguntas (romance), Lisboa: Difel, 1998, 2000
- Viagem ao Ponto de Fuga (contos), Lisboa: Difel, 1999
- A Ponte dos Suspiros (romance), Lisboa: Difel, 2000
- ...que o meu pé prende... (romance), Lisboa: Difel, 2001, 2009
- O Prisioneiro da Torre Velha (romance), Lisboa: Difel, 2003
- O Cavaleiro da Águia (romance), Lisboa: Difel, 2005; Lisboa: Divina Comédia, 2013
- O Lago Azul (romance), Lisboa: Difel, 2007
- A Loja das Duas Esquinas (romance), Lisboa: Difel, 2009; Lisboa: Divina Comédia, 2014
- A Rocha Branca (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2011
- Ravengar (romance), Lisboa: Objectiva/Alfaguara, 2012
BIBLIOGRAFIA PASSIVA:
- Benedito, Silvério Augusto. Para uma Leitura de "A Casa do Pó" de Fernando Campos: Uma Busca Obsessiva das Origens, Lisboa: Editorial Presença, 1995
- Letria, José Jorge. Conversas com Letras: Entrevistas com Escritores, Lisboa: O Escritor, 1994
- Marinho, Maria de Fátima. O Romance Histórico em Portugal, Porto: Campo das Letras, 1999
- Vieira, Cristina Maria da Costa. O Universo Feminino n' "A Esmeralda Partida" de Fernando Campos, Lisboa: Difel, 2002
O que fez a rádio pública em memória do eminente escritor Fernando Campos?
Na Antena 2, há que louvar o cuidado que Luís Caetano teve em recuperar a entrevista que o escritor lhe concedeu em 2007, a propósito da publicação do romance "O Lago Azul", que inseriu, logo que a notícia da morte foi veiculada, n' "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] e depois também no programa "A Força das Coisas" [>> RTP-Play].
Na Antena 1, e tirando a simples notícia do falecimento, nada me constou. Daria assim tanto trabalho ir ao arquivo buscar uma entrevista e transmiti-la? Eu tenho a ideia de ter ouvido, certa vez na Antena 1, Fernando Campos a ser entrevistado por Graça Vasconcelos, mas se fosse escolhida outra entrevista que porventura exista no arquivo histórico, não haveria a mais pequena objecção da minha parte. O mesmo direi a respeito da leitura intercalar, ao longo de um ou mais dias, de excertos da obra ficcional do autor. Nada ser feito, como se Fernando Campos fosse uma figura insignificante das letras portuguesas, é que jamais se poderá tolerar no canal de maior audiência da rádio do Estado.
Quem também entrevistou Fernando Campos, a pretexto da edição do romance "A Ponte dos Suspiros", foi o saudoso Carlos Pinto Coelho, para o programa radiofónico "Agora... Acontece!". Uma agradabilíssima entrevista que o blogue "A Nossa Rádio" proporciona, com a maior das honras, à audição dos seus leitores/visitantes.
"Agora... Acontece!" N.º 111, de 15-Jan-2001
Fernando Campos entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 9':15'']
Capa da primeira edição do romance "A Casa do Pó" (Difel, 1986)
Concepção gráfica de Rogério Petinga.
Ruy Furtado (1919-1991), dono de uma das vozes mais carismáticas do teatro radiofónico.
Entre as numerosas peças e adaptações de obras romanescas em que entrou, contam-se "Deus lhe Pague", de Joracy Camargo, e "Esteiros", de Soeiro Pereira Gomes.
Participou também em vários filmes, tais como "Os Verdes Anos" (de Paulo Rocha), "Uma Abelha na Chuva" (de Fernando Lopes), "Amor de Perdição" (de Manoel de Oliveira), "Um Adeus Português" (de João Botelho), "Recordações da Casa Amarela" (de João César Monteiro) e "A Divina Comédia" (de Manoel de Oliveira), ao qual pertence a imagem supra.
No Dia Mundial do Teatro, afigura-se oportuno fazer um ponto de situação da arte de Talma na rádio pública. Referimo-nos, obviamente, ao teatro radiofónico e não às notícias e anúncios relativos a peças levadas à cena em Lisboa e noutras localidades do país.
Na Antena 2, há um espaço chamado "Teatro Sem Fios" [>> RTP-Play] onde a intervalos de várias semanas (às vezes meses) surgem umas "coisas". E dizemos "coisas" porque estão a milhas de distância da melhor tradição de teatro radiofónico feito em Portugal. Na verdade, os "produtos" lá apresentados estão longe de ser interessantes e apetecíveis: textos marginais ao grande repertório, não raras vezes dramaturgicamente insípidos e difíceis de tragar (mesmo pelo ouvinte mais tolerante à sensaboria), e ainda com a agravante de serem deficientemente produzidos, quer em termos técnicos quer artísticos – sem sonorização (por exemplo, quando bate uma porta, em vez de se colocar o som da porta a bater põe-se alguém a dizer: "bateu uma porta") e utilizando frequentemente vozes inexperientes, de timbres vulgares e sem qualquer carisma. Em suma: produtos bastante indigestos, mesmo para os ouvintes mais ávidos e famintos de teatro.
Nas Antenas 1 e 3, nada existe. Um lastimável estado coisas que urge alterar. No caso da Antena 1, a situação roça mesmo o absurdo, atendendo ao honroso historial que o canal possui no capítulo do teatro pois, durante décadas a fio, transmitiu muitas peças e sobretudo admiráveis adaptações de romances referenciais de grandes vultos da Literatura Portuguesa e Mundial (Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queiroz, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Lev Tolstoi, etc.).
Ao contrário do que alguns julgam e querem fazer crer, o teatro radiofónico não é uma arte menor. É uma arte maior pois constitui a suprema prova de fogo para os actores – e só os que são dignos desse nome conseguem ultrapassá-la. De facto, é unicamente com a voz, modulando as entoações, os ritmos, as nuances, os timbres – enfim, fazendo uso de todos os recursos expressivos ao alcance da voz humana – que os actores comunicam ao rádio-ouvinte os estados de alma, os pensamentos, as acções e o carácter da personagens que incarnam – permitindo àquele construir o seu próprio imaginário (experiência, aliás, em tudo semelhante à leitura). Não era certamente por capricho ou devaneio que Amélia Rey Colaço, uma das maiores figuras do teatro português do século XX, começava por avaliar o desempenho dos novos actores que chegavam à sua companhia teatral, não sentando-se na plateia a observá-los, mas indo-se posicionar ao fundo do palco, por detrás do ciclorama, para somente os ouvir.
O hábito da leitura deve ser sempre promovido (a quem não é analfabeto, evidentemente), pelo enriquecimento cultural que proporciona (nele se incluindo o domínio da língua portuguesa, nas vertentes morfológica, sintáctica e lexical), mas o teatro radiofónico oferece uma vantagem importante: proporciona a quem o ouve o contacto com a prosódia do português, isto é, a maneira correcta de pronunciar as palavras (aspecto nada despiciendo nos tempos que correm). Ouvir falar bem contribui para uma melhor expressão oral (e até escrita).
Resgatar o teatro radiofónico é também dar aos mais jovens a oportunidade de descobrirem os grandes textos dramáticos na voz de figuras gradas do nosso teatro (e não há melhor forma de as lembrar e homenagear do que ouvi-las e tirar prazer dessa experiência).
Importa também não esquecer os cidadãos que nascerem cegos ou perderam o sentido da visão mais tarde. Que outro teatro podem eles fruir – plenamente – a não ser o radiofónico? Políticos e funcionários de topo da administração pública aparecem amiúde na rádio e na televisão a falar dos direitos dos deficientes, mas depois deparamo-nos com a triste realidade de serem as entidades estatais as primeiras a fazer letra morta dos mesmos direitos.
Se os altos responsáveis da rádio pública não querem aplicar (investir) o dinheiro dos contribuintes na produção de verdadeiro e bom teatro radiofónico, ao menos que tenham a clarividência de trazer para a luz do éter o muito de bom que se fez outrora e está a apodrecer no arquivo histórico da RDP. Escusado será dizer que tal resgate para o espaço hertziano não invalida a disponibilização do acervo completo na nova plataforma https://arquivos.rtp.pt/ (na qual – acrescente-se – os conteúdos radiofónicos têm sido enormemente descurados, a favor dos televisivos).
Deixamos a seguir um rol de textos, ordenados por ordem alfabética dos apelidos dos respectivos autores, que garantidamente foram transmitidos pela rádio pública portuguesa até 2005 (quando terminou o "Teatro Imaginário", na sequência da aposentação do seu realizador, Eduardo Street, que viria a falecer no ano seguinte). Trata-se de um inventário inevitavelmente incompleto mas que não deixa de ser bem demonstrativo da imensa riqueza do acervo de teatro radiofónico (e também de textos lidos).
Peças de teatro (e adaptações de contos e novelas):
Alves, Vasco de Mendonça:
- Meu Amor É Traiçoeiro
Andresen, Sophia de Mello Breyner:
- A Fada Oriana
- Os Três Reis do Oriente
Anouilh, Jean:
- A Cotovia (Joana d'Arc)
- Antígona
Aristófanes:
- A Paz
Assis, Machado de:
- Não Consultes Médico
- Quase Ministro
Ávila, Norberto:
- O Homem Que Caminhava sobre as Ondas
Azevedo, Aluízio:
- O Cortiço
Barbosa, Miguel:
- O Adesivo
- O Discurso (peça adaptada do livro "O Adesivo")
Barca, Calderón de la:
- A Vida É Sonho
Barros, Jorge Figueiredo de:
- A Feiticeira
- O Cárcere Branco
- O Armeiro
Bastos, João:
- O Conde Barão (em co-autoria com Ernesto Rodrigues e Félix Bermudes)
Bermudes, Félix:
- O Conde Barão (em co-autoria com Ernesto Rodrigues e João Bastos)
Bernard, Tristan:
- O Narcótico
- O Triunfo da Ciência
Bessa-Luís, Agustina:
- O Inseparável
Botas, José Loureiro:
- Noite Maldita
Braga, Francisco Costa:
- Um Marquês Feito à Pressa
Brandão, Raul:
- O Doido e a Morte
Büchner, Georg:
- Leôncio e Lena
Cabral, Carlos:
- A Amante do Dr. Simões
- Amores! E o Tempo Incerto? (inspirada em "Viagens na Minha Terra", de Almeida Garrett)
- As Crianças
- As Meninas
- Concerto para Piano em Lá Menor, Opus 54, de Schumann
- Da Minha Janela Vê-se o Rio
- Morre-se de Solidão no Japão
- O Cerco
- O Mestre e o seu Discípulo
- O Sonho
- Pela Segunda Vez
- Recortados na Noite contra o Brilho da Lua
- Um Casal Desinteressado
- Um Lamentável Acidente
- Uma Outra História da Branca de Neve
Cabreira Júnior, Tomás:
- A Amizade
Camargo, Joracy:
- Deus lhe Pague
- Maria Cachucha
Camões, Luís de:
- Auto de El-Rei Seleuco
- Auto de Filodemo
- Auto dos Anfitriões
Caragiale, Ion Luca:
- O Duplo Prémio
Carreira, Bruno Borges:
- Calígula Já Calça 42
- Opus 49
Casona, Alejandro:
- Outra Vez o Diabo
Castelo Branco, Camilo:
- Amor de Salvação
- O Morgado de Fafe em Lisboa
Castro, Augusto de:
- Amor à Antiga
Cesariny, Mário:
- Um Auto para Jerusalém
Cocteau, Jean:
- A Voz Humana
- O Indiferente
Correia, Romeu:
- Casaco de Fogo
- Jangada
Cortesão, Jaime:
- O Infante de Sagres
Couto, Mia:
- Os Anjos Embriagados (junto com "A Menina de Futuro Torcido")
- A Menina de Futuro Torcido (junto com "Os Anjos Embriagados")
Curto, Ramada:
- Madame Solange, Vidente
- O Fala Só
- O Sapo e a Doninha [1962]
- O Sapo e a Doninha [1987]
Dacosta, Fernando:
- A Súplica
Dáguila, Carlos:
- Fui Raptado por um OVNI
Dantas, Júlio:
- A Ceia dos Cardeais
- Frei António das Chagas
- Outono em Flor
Dickens, Charles:
- O Sr. Minns e o Seu Primo
Duarte, Mário:
- Renascer (em co-autoria com Valério de Rajanto)
Dumas (pai), Alexandre:
- O Caçador
- Elói, o Mestre dos Mestres: Vida de Santo Elói
Durão, Américo:
- A Ave de Rapina
Ésquilo:
- As Euménides
Ferreira, António:
- A Castro
Ferro, António:
- Mar Alto
Feuillet, Octave:
- O Cabelo Branco
Figueiredo, Tomás de:
- O Visitador Extraordinário
Fortuno, Claude:
- A Vítima
Fry, Marjory:
- O Fabricante de Orquídeas
Garrett, Almeida:
- Frei Luís de Sousa
- O Conde de Novion
- Tio Simplício
Ghelderode, Michel de:
- Escurial
Giraudoux, Jean:
- Ondina
Goethe, Johann Wolfgang von:
- Fausto (em contraponto com a ópera homónima de Charles Gounod)
- Irmão e Irmã
Goldoni, Carlo:
- A Estalajadeira
- A Serva Amorosa
- O Avarento
- O Café
Gomes, Manuel Teixeira:
- Sabina Freire
Hawthorne, Nathaniel:
- A Fonte da Juventude
Hsing-Tao, Li:
- O Círculo de Giz
Ibsen, Henrik:
- Casa de Bonecas
- Hedda Gabler
Kazantzakis, Nikos:
- Cristo Recrucificado
La Féria, Filipe:
- Os Marinheiros (adaptação do drama estático "O Marinheiro", de Fernando Pessoa)
Labiche, Eugène:
- A Viagem do Sr. Perrichon
Leite, Fausto Correia:
- Algures no Arizona
- Encontro em Siracusa
- Uma História de Amor
- Verão Ardente
Letria, José Jorge:
- A Pistola de Antero
- Os Buracos Negros
Lermontov, Mikhail:
- Um Homem Estranho
Lobato, Gervásio:
- O Comissário de Polícia
Lopes, Álvaro Martins:
- A Arma Absoluta (inspirada na comédia "Lisístrata", de Aristófanes)
- A Mulher Que Matou Maurice Ravel
- Fígaro (baseada nas peças "O Barbeiro de Sevilha" e "O Casamento de Fígaro", de Beaumarchais)
- Inocente ou Culpada
- O Caso do Ourives da Rua da Prata
- O Gato e o Rato ou o Estranho Caso do Último Assinante da Lista Telefónica
- Os Benefícios do Tabaco
- Tutto nel Mondo è Burla! (inspirada na ópera "Falstaff", de Verdi)
- Um Fantasma no São Carlos
- Verdi e Falstaff
Lorca, Federico Garcia:
- A Sapateira Prodigiosa
- Dona Rosinha, a Solteira
- Yerma
Maeterlink, Maurice:
- Pelléas et Mélisande (em contraponto com a ópera homónima de Claude Debussy)
Marcel, Jean:
- Uma Noite em Monte Carlo
Marchi, Emilio de:
- João Pedro e João Paulo
Marques, Raul Malaquias:
- Tinha de Ser Aqui
Marivaux, Pierre de:
- A Colónia
Matos, Maria:
- Escola de Mulheres (A História Começou de Manhã)
Medina, João:
- A Orelha de Van Gogh
Melo, D. Francisco Manuel de:
- O Fidalgo Aprendiz
Melville, Herman:
- Um Homem Invulgar
Mendonça, Henrique Lopes de:
- O Crime de Arronches
Mérimée, Prosper:
- A Carruagem do Santo Sacramento
Mesquita, Marcelino:
- Envelhecer
- Peraltas e Cécias
Miguéis, José Rodrigues:
- A Escola do Paraíso
- A Esquina-do-Vento
- Saudades para Dona Genciana
Mihura, Miguel:
- Sublime Decisão
Miller, Arthur:
- Morte dum Caixeiro Viajante
Molière:
- A Condessa de Escarbagnas
- Don Juan (em contraponto com a ópera "Don Giovanni", de Mozart)
- Escola de Maridos
- O Burguês Fidalgo
Molina, Tirso de:
- O Sedutor de Sevilha e o Convidado de Pedra
Monteiro, Luís de Sttau:
- As Mãos de Abraão Zacut
- Felizmente Há Luar
Navarro, Judite:
- A Filha de Herodes
Neves, Orlando:
- Memórias de um Piano
- O Bilhete (junto com "O Martelo")
- O Círculo
- O Frigorífico
- O Martelo (junto com "O Bilhete")
Neves, Rui:
- Uma Causa e Três Sentenças
Odets, Clifford:
- Na Vida Como no Palco
Ogando, Alice:
- O Príncipe Imperial
Pepetela:
- O Cão e os Caluandas
Philips, Roz:
- Pocahontas
Pinheiro, Pedro:
- Amorosamente
- Roubaram os Nossos Sonhos
- Schumann: a Inquietação Romântica (baseada na biografia de Schumann, escrita pela sua filha Eugenie Schumann)
- Suicídio
Pinho, Teresa Correia de:
- A Última Página
- Um Pedaço de Paraíso
Pushkin, Aleksandr:
- A Dama de Espadas (em contraponto com a ópera homónima de Tchaikovski)
- Mozart e Salieri
Queiroz, Eça de:
- Civilização (junto com "O Defunto" sob o título genérico "Um Pôr-do-Sol Queirosiano")
- No Moinho
- O Conde d'Abranhos
- O Defunto (junto com "Civilização" sob o título genérico "Um Pôr-do-Sol Queirosiano")
- O Mandarim
- O Senhor Diabo
- O Suave Milagre
- Singularidades de uma Rapariga Loira
Rajanto, Valério de:
- Renascer (em co-autoria com Mário Duarte)
Rebello, Luiz Francisco:
- A Desobediência
- É Urgente o Amor
- O Destino Bateu à Porta
Redol, Alves:
- Como se Ganha um Poldro
- Maria Emília
- Noite Esquecida
- Porque Não Hei-de Acreditar na Felicidade?
Régio, José:
- Jacob e o Anjo
- Mário ou Eu-Próprio – O Outro
- O Vestido Cor de Fogo
Ribeiro, Aquilino:
- O Arcanjo Negro
- Volfrâmio
Rio, João do:
- A Bela Madame Vargas
Rodrigues, Ernesto:
- O Conde Barão (em co-autoria com Félix Bermudes e João Bastos)
Rodrigues, Pedroso:
- Bodas de Lia
Roquete, Vitorino Chagas:
- Frei Tomás
Rubio, José López:
- A Ceia de Natal
Salom, Jaime:
- A Casa das Cabras
Santareno, Bernardo:
- O Crime da Aldeia Velha
- O Duelo
- O Lugre
- O Pecado de João Agonia
Schiller, Friedrich:
- A Donzela de Orléans
- Cabala e Amor (em contraponto com a ópera "Luísa Miller", de Verdi)
Scribe, Eugène:
- Os Independentes
Sena, Jorge de:
- A Noite Que Fora de Natal!
- Amparo de Mãe
Shakespeare, William:
- Hamlet
- Muito Barulho por Nada
- Os Dois Cavaleiros de Verona
Silva, António José da:
- Guerras do Alecrim e Manjerona
Sófocles:
- Antígona
Strindberg, August:
- Almas em Conflito
- O Holandês Errante
- O Pai
Synge, John Millington:
- O Valentão do Mundo Ocidental
Tabucchi, Antonio:
- Marconi, se Bem me Lembro
Tchekov, Anton:
- A Gaivota
- A Obra de Arte
- As Três Irmãs
- O Cerejal
- O Diamante
Torga, Miguel:
- O Senhor Nicolau
Torrado, António:
- Alguém (inspirada na peça "Frei Luís de Sousa", de Almeida Garrett)
- As Palavras Difíceis
- Diálogos Imprevistos
- Homem-Mulher... a Cores
- Mulher e Marido
- O Calendário
- O Doce Perfume
- O Fecho Éclair
- O Recepcionista
- O Túnel
- Palavras Há Muitas
- Quatro Histórias Impossíveis
- Uma História Natural
Turgueniev, Ivan:
- Um Mês no Campo
Valle-Inclán, Ramón del:
- A Rosa de Papel
Vega, Lope de:
- O Príncipe Perfeito
Vicente, Gil:
- Amadis de Gaula
- Auto da Barca do Inferno
- Auto da Cananeia
- Auto de Mofina Mendes
- Auto de Sibila Cassandra
- Dom Duardos
- Farsa de Inês Pereira
- Farsa dos Almocreves
- O Juiz da Beira
- O Velho da Horta
- Romagem dos Agravados
Voltaire:
- Zair
Wilde, Oscar:
- O Jovem Rei
- Uma Mulher sem Importância
Wilkinson, Roderick:
- Mistério nas Terras Altas
Zuckmayer, Carl:
- O Exaltamento da Vida e do Amor
- O General do Diabo
Adaptações de romances (por episódios):
Alencar, José de:
- O Guarani
Assis, Machado de:
- Iaiá Garcia
Castelo Branco, Camilo:
- Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado
- Cinco Filhas para Casar (adaptação do romance "Estrelas Propícias") [1962]
- O Retrato de Ricardina
Castro, Ferreira de:
- A Lã e a Neve
- A Selva
- Terra Fria
Cooper, James Fenimore:
- O Último Moicano
Dickens, Charles:
- Grandes Esperanças
- Oliver Twist
Dinis, Júlio:
- A Morgadinha dos Canaviais
- As Pupilas do Senhor Reitor
- Os Fidalgos da Casa Mourisca
- Serões da Província
- Uma Família Inglesa
Douglas, Lloyd C.:
- A Túnica
Dumas (pai), Alexandre:
- O Visconde de Bragelonne
- Os Três Mosqueteiros
- Vinte Anos Depois
Feuillet, Octave:
- A Vida dum Rapaz Pobre
Fonseca, Manuel da:
- Cerromaior
Gaio, António da Silva:
- Mário: Episódios das Lutas Civis Portuguesas
Gomes, Soeiro Pereira:
- Esteiros
Haggard, H. Rider:
- As Minas de Salomão
Herculano, Alexandre:
- O Bobo
- O Monge de Cister
Hugo, Victor:
- Os Miseráveis
Kazantzakis, Nikos:
- Cristo Recrucificado
Korolenko, Vladimir:
- O Músico Cego
Le Mière, M.:
- A Herdade Florida
Lobato, Gervásio:
- Lisboa em Camisa
Lopes, Álvaro Martins:
- O Jogral de Deus (S. Francisco de Assis)
Martins, Oliveira:
- Febo Moniz
Miguéis, José Rodrigues:
- A Escola do Paraíso
- Uma Aventura Inquietante
Namora, Fernando:
- A Noite e a Madrugada
- Minas de San Francisco
Navarro, Judite:
- Os Emigrados
- A Vida de S. Paulo
Pinheiro, Pedro:
- D. João II
Queiroz, Eça de:
- A Cidade e as Serras
- A Ilustre Casa de Ramires
- O Primo Basílio
Redol, Alves:
- Avieiros
- Barranco de Cegos
- O Muro Branco
Régio, José:
- O Príncipe com Orelhas de Burro
Reis, Fernando:
- Roça
Ribeiro, Aquilino:
- Quando os Lobos Uivam
- Terras do Demo
Rodrigues, Urbano Tavares:
- Bastardos do Sol
Saint-Maurice, Odette de:
- Amar os Outros: Vida de S. Vicente de Paula
- O Apóstolo da Juventude: Vida de S. João Bosco
- S. João de Deus: O Herói da Caridade
Salgari, Emilio:
- O Último Elefante Branco
Tolstoi, Lev:
- Anna Karenina
- Guerra e Paz
Trapp, Maria Augusta:
- Música no Coração
Verne, Júlio:
- Mathias Sandorf
Wallace, Lewis:
- Ben-Hur
Leitura de textos literários (prosa):
Almada Negreiros, José de:
- Nome de Guerra (1925), por Rogério Vieira
Almeida, Fialho de:
- A Taça do Rei de Tule (in "O País das Uvas", 1893)
- O Menino Jesus do Paraíso (in "O País das Uvas", 1893)
- O Ninho de Águia (in "Contos", 1881)
Andresen, Sophia de Mello Breyner:
- O Cavaleiro da Dinamarca (1964)
Botelho, Abel:
- O Solar de Longroiva (in "Mulheres da Beira", 1898), por Varela Silva
Brandão, Raul:
- Os Pescadores (1923)
Castelo Branco, Camilo:
- A Sereia (1865)
- O Cego de Landim (1876)
Coelho, Trindade:
- Abyssus Abyssum (in "Os Meus Amores", 1891)
- Vae Victis! (in "Os Meus Amores", 1891)
- Vae Victoribus! (in "Os Meus Amores", 1891)
Dinis, Júlio:
- O Espólio do Senhor Cipriano (1863)
Ficalho, Conde de (Francisco Manuel de Mello Breyner):
- A Caçada do Malhadeiro (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- A Maluca de A-dos-Corvos (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- A Pesca do Sável (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
- Os Cravos (in "Uma Eleição Perdida", 1888)
Garrett, Almeida:
- Viagens na Minha Terra (1846), por Carlos Achemann
Gomes, Manuel Teixeira:
- Profecia Certa (in "Gente Singular", 1909)
- Sêde de Sangue (in "Gente Singular", 1909)
Herculano, Alexandre:
- A Morte do Lidador (in "Lendas e Narrativas", 1851)
- O Bispo Negro (in "Lendas e Narrativas", 1851)
Machado, Júlio César:
- O Casal (in "Contos ao Luar", 1861)
- Pedrinho (in "Contos ao Luar", 1861)
Meynell, Esther:
- A Pequena Crónica de Anna Magdalena Bach (The Little Chronicle of Magdalena Bach, 1925), por Eunice Muñoz
Patrício, António:
- O Homem das Fontes (in "Serão Inquieto", 1920)
- Suze (in "Serão Inquieto", 1920)
Pinto, Fernão Mendes:
- Peregrinação (1614, na adaptação de Maria Alberta Menéres, 1971), por José Mário Branco e André Maia
Queiroz, Eça de:
- Adão e Eva no Paraíso (1896, in "Contos", 1902)
Sá-Carneiro, Mário de:
- O Homem dos Sonhos (1913)
- O Mistério (1914)
Silva, Rebelo da:
- A Última Corrida de Touros em Salvaterra (in "Contos e Lendas", 1873)
No Dia Mundial da Poesia, e estando a comemorar-se o 150.º aniversário do nascimento de Camilo Pessanha, expoente maior do simbolismo português, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta o belíssimo soneto "Singra o navio", magistralmente recitado por Mário Viegas.
Em que situação está actualmente a poesia nos três canais nacionais da rádio pública? Vejamos: na Antena 2, temos "A Vida Breve" [>> RTP-Play] e "O Som Que os Versos Fazem ao Abrir" [>> RTP-Play], ambos realizados por Luís Caetano (e aproveitamos para reconhecer a sua dedicação ao serviço público), mas não vislumbramos o quer que seja nas Antenas 1 e 3. Será normal? Não! É muito anormal, porque a poesia – uma das mais excelsas formas de expressão artística – tem obrigatoriamente de marcar presença em qualquer antena da estação pública, ainda que mais vocacionada para a informação e o entretenimento, pois o enriquecimento cultural do auditório é responsabilidade de todas (não é – e seria muito redutor se fosse – um exclusivo da Antena 2). Acresce que a rádio, sendo puro som, é o meio que por excelência serve a palavra dita no seu máximo potencial!
A Antena 1 teve durante alguns anos (de 1996 a 2003) uma rubrica diária de poesia a cargo de António Cardoso Pinto: primeiro, "À Esquina da Um"; depois, "À Esquina do Século"; e, por último, "À Esquina do Mundo". Após a aposentação daquele emérito profissional da nossa rádio, o programa "Lugar ao Sul" tornou-se o único reduto da Antena 1 onde era possível ouvir poesia, quer popular (dita pelos interlocutores de Rafael Correia), quer erudita (extraída de discos). Com o desaparecimento do "Lugar ao Sul" passou a imperar o vazio total.
Renovamos o pedido: se não se quiser contratar alguém com provas dadas na difícil arte de dizer poesia (por exemplo, Luís Lima Barreto e Luísa Cruz), ao menos que se faça uso do rico acervo existente no arquivo da RDP (registos na voz de Manuel Lereno, Humberto Botto, Carmen Dolores, Maria Germana Tânger, Rui Pedro, Maria Clara, Carlos Acheman, António Cardoso Pinto, Graça Vasconcelos, Paulo Rato, etc.) e, complementarmente, de edições discográficas!
Singra o navio
Poema de Camilo Pessanha (in "Clepsydra", Lisboa: Edições Lusitânia, 1920; "Clepsydra", ed. crítica de Paulo Franchetti, Lisboa: Relógio d'Água, 1995 – p. 111)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos", UPAV, 1990, reed. Público, 2006)
Singra o navio. Sob a água clara
Vê-se o fundo do mar, de areia fina...
— Impecável figura peregrina,
A distância sem fim que nos separa!
Seixinhos da mais alva porcelana,
Conchinhas tenuemente côr-de-rosa,
Na fria transparência luminosa
Repousam, fundos, sob a água plana.
E a vista sonda, reconstrói, compara.
Tantos naufrágios, perdições, destroços!
— Ó fúlgida visão, linda mentira!
Róseas unhinhas que a maré partira...
Dentinhos que o vaivém desengastara...
Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos...
* Produção – José Mário Branco e António José Martins
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em 2, 6, 7 e 8 de Outubro de 1990
Engenheiro de som – José Manuel Fortes
Capa do LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos" (UPAV, 1990), de Mário Viegas e Manuela de Freitas
Claude Monet, "Champs au Printemps", 1887, óleo sobre tela, 93x74 cm, Staatsgalerie, Estugarda, Alemanha
No equinócio de mais uma Primavera, apresentamos um espécime que não podia vir mais a propósito: a canção "Primavera" de assunto amoroso-pastoril (segundo a classificação de Fernando Lopes Graça), oriunda da localidade alto-duriense de Paradela (concelho de Miranda do Douro), na magnífica recriação do grupo eborense Cantos d'Aurora. Uma pérola do nosso cancioneiro tradicional cuja descoberta nos foi proporcionada por Rafael Correia, no seu memorável "Lugar ao Sul".
Não podia a Antena 1, ao abrigo da missão a que está vinculada de divulgar o património musical português, ter esta e outras belíssimas canções populares na sua lista musical computorizada, vulgo 'playlist'? Podia e devia, mas não tem! E para ajudar à desgraça no que à música tradicional diz respeito, os escassíssimos programas a ela consagrados – "Cantos da Casa" e "O Povo Que Ainda Canta" – são unicamente transmitidos em horários esconsos (de madrugada), circunstância que os deixa arredados da maioria dos ouvintes.
Importa, pois, proporcionar a todo o auditório a oportunidade de conhecer e fruir o que de melhor se fez (e faz) no campo da música regional portuguesa. Nada de complicado: basta que aqueles programas sejam também emitidos quando a generalidade das pessoas não está a dormir. Isso, claro está, sem prejuízo de haver música tradicional nos alinhamentos de continuidade preenchidos pela referida 'playlist'. O regresso do programa "Lugar ao Sul", na modalidade de reposição (caso não se consiga convencer Rafael Correia a voltar), será também uma excelente forma de atenuar a aberrante penúria de música tradicional portuguesa na rádio pública de Portugal.
Primavera (Canção amoroso-pastoril)
Letra e música: Popular (Paradela, Miranda do Douro, Trás-os-Montes e Alto Douro)
Recolha: Michel Giacometti (in LP "Oito Cantos Transmontanos por Francisco Domingues", Edições dos Arquivos Sonoros Portugueses, 1961)
Intérprete: Cantos d'Aurora* (in CD "Sabores", Cantos d'Aurora, 1996)
Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[bis]
[instrumental]
A Primavera passada
Foi o meu divertimento:
Tomei amores mui cedo,
Logrei-os mui pouco tempo.
Primavera, Primavera,
Tempo de tomar amores;
Não há tempo mais alegre
Que Maio com suas flores.
Primavera, Primavera,
Primavera dos boieiros;
Coitadinhos dos pastores
Que dormem pelos chiqueiros.
[instrumental]
Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[bis]
[instrumental]
Ai lé lé lai lé lá,
Ai lé lé lai ló:
Foi a primeira cantiga
Que me ensinou minha avó.
[3x]
* Cantos d'Aurora:
Francisco Carvalho – voz, baixo eléctrico
Daniel Monginho – voz, percussão
João Cágado – voz, viola acústica, guitarra portuguesa
Tolentino Manuel Cabo – voz, viola acústica
São Assis – voz, percussão
Biosca – voz, percussão
José de Melo – voz, viola acústica
João Assis – voz, acordeão
Arranjos – Cantos d'Aurora
Produção – João Cágado / Cantos d'Aurora
Gravado no Estúdio Kubículo, Évora, de Março de 1995 a Fevereiro de 1996
Capa do CD "Sabores" (1996), do grupo Cantos d'Aurora