23 abril 2015

Em memória de Herberto Helder (1930-2015)



A obscura luminosidade

"Do tamanho das mãos faço-lhes o poema da minha vida, agudo e espesso [...] / o movimento que imita a terra com seus elementos, sem / ministérios do tempo, a aguarrás, o sal grosso, a tinta das rosas / – e é tudo quanto se pode aprender até que a noite venha
e desfaça / a noite amarga" (Herberto Helder)
Se a poesia pode ser o estiramento, a ampliação ou a procura de uma plasticidade semântica das palavras em movimento; se a poesia, como diz Blanchot, lendo Mallarmé, pode, no movimento que instaura, ser a procura de um espaço que há entre as palavras e o lugar onde elas se projectam, então a poesia de Herberto Helder, no contexto da evolução das formas poéticas em Portugal na segunda metade do século XX e ainda início deste século, é a que mais longe terá levado as possibilidades de manipulação semântica da palavra.
O lugar onde a palavra de poesia herbertiana se projecta é, para além da página em branco (esse cosmos sempre a reconfigurar-se), um lugar outro, transformado e transformante, onde o verbo parece inexistir, ou estar a um passo de explodir numa rede de significados tão radical quanto mortal. Dir-se-ia que o estiramento do sentido parece levar a poesia herbertiana a um rasgão, de tal modo a capacidade metafórica surpreende sentidos inauditos. O espaço poético do poeta é, por isso, o espaço reservado àquilo que já em Rimbaud era a epifania, a iluminação de um mundo dito nos interstícios de uma palavra sacral.
Por isso também o poema joga-se no próprio limite da sua linguagem: modificando-a, convertendo-a naquilo que ela, em princípio, não poderia significar: "[...] a laranja faz rodar os dedos, torna / leve, pelos dedos, / aquele que a levanta, e tão exacto gosto na língua / tão transbordante, / dói no fino frio do açúcar, / e a laranja levanta tudo: luz e dedos, e a pessoa / com a ferida na boca, o gosto / magoado até à pronúncia das expressões mais simples do idioma, / golpe a golpe, / como um estrangeiro brutal, / ou inexpugnável, / que faz ela? talha trémula, oh Deus! lavrada a pau de virgem e folha de ouro, / mete-lhe os polegares pelos umbigos, devora-a, celebra, embebeda-se, / que escola de laranja terrestre não pode mais que esta leveza".
Se os poemas de Herberto vêm dizer o que têm a dizer através de uma forma que só pode ser aquela – turbilhonante, labiríntica, desejante – o que eles dizem é o modo como a palavra pode ser, quando levada ao extremo da sua capacidade de sentido, não o signo verbal, acústico, mas uma espécie de som criador de imagens. Esclareça-se: imagens carnívoras, palpáveis, palavras-matéria-orgânica, de tão fulgurantes que são as cenas (quase as podemos tocar assim que a imaginação é convidada a associar o impossível) postas em andamento nesse universo em expansão que é a sua poesia toda. É essa a ruptura que Herberto Helder estabelece de forma definitiva ao publicar, em 1958, o seu primeiro livro, O Amor em Visita. O que neste livro acontece é o que não mais deixará de acontecer em todos os livros que irá publicar posteriormente: a imersão da experiência poética numa imersão, mais funda e vasta, no mundo em combustão da linguagem humana.
Ao sentenciar: "Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira / e a eternidade das mãos. / Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas / lâmpadas, todas as coisas. / As coisas que são só uma no plural dos nomes. / – E nós estamos dentro, subtis, e tensos / na música." (in As Musas Cegas), Herberto resolve um dos problemas que o surrealismo tinha colocado à poesia portuguesa, o da relação entre palavra nomeadora e a dimensão mágica da visão surrealista do real. Como nomear o denominável humano e o inominável divino de forma radical? Como superar, no regime da imagem, a mera evocação dos sonhos e das profecias, a simples retoricidade da alusão e do metafórico? Herberto, as magias de um verbo que dinamitasse o real do mundo humano, concretiza, na dicção, no ritmo e na esfera do significante esse problema: o poema, operação xamânica, e o poeta, visionário, podem nutrir esse real daquilo mesmo que, algures no tempo, esse real perdeu: a pureza de uma gramática incorruptível. Essa incorruptibilidade levá-lo-á a libertar-se de um substrato surrealista, para conquistar territórios inexplorados da poesia em língua portuguesa.
Com efeito, um desses territórios ou lugares tinha sido deixado em aberto por Caeiro e por Rilke, poetas para quem o poema é uma vidência que torna evidente, desvelando, a aura dos objectos e dos seres. Que essa aura está longe, em Herberto Helder, do mais puro angelismo, isso fica comprovado quando o autor de Cobra nos vem falar da cegueira que causa a "carnagem sonora" do poema. É de carne que os textos de Herberto se pretendem tecer. Por isso também, ao longo do seu percurso, o texto é o poemacto que abre o dizer a uma gramática excessiva. Gramática, isto é, estilo, tessitura ou trama textual que articula as "circulações imprevistas" presentes na vida da linguagem, com aquilo que literalmente se pode referir (a laranja, por exemplo).
Daí que, numa obra que, eventualmente se poderia dividir em três fases, haja, em todo o caso, uma coerência para com esse impulso inicial que levou à escrita da poesia: cumprir, numa vida "subtil, unida e invisível", o fogo das imagens. Uma vida que, em termos práticos, se traduziu no afastamento de Herberto em relação à festa literária, rechaçando, repudiando, sem hipocrisia e encenação, prémios e consagrações. No limite, a vida de Herberto Helder foi, poeticamente, como quis Rimbaud, a procura de uma outra vida, devotada à limpidez gramatical de um dia-a-dia ferozmente tenso, esperando a loucura lúcida que a poesia promete.
Assim, podendo ser hermético, mas fiel à obscuridade iluminante, que é uma forma outra de compreensão do Aberto rilkeano e da lição de ver que Caeiro nos legou, há nos seus livros finais – A Faca Não Corta o Fogo (2008), Servidões (2013) e A Morte sem Mestre (2014) – uma absoluta urgência da poesia como "pensamento da linguagem", como bem viu Manuel Gusmão. Ao mesmo tempo procura-se, pensando o poema, fazer deflagrar, num combate titânico com as imagens, o mundo humano, pejado de servidões várias. Partindo de uma "ironia mansa" e de um pessoalíssimo surrealismo inicial, feito de anarquismo, a primeira fase da sua obra (de O Amor em Visita, de 58, a Vocação Animal, de 1971) caracteriza-se por essa inquietação poética em face do terrível mistério da criação, a mais alta: a materna criação dessas mães que levitam nos sonhos dos filhos. O poeta contempla num deslumbramento inominável "o sorriso louco das mães", tange a sua "harpa de sombra" e persegue o canto, como Orpheu, que possa encantar a noite, a morte, o inferno.
Uma segunda fase, que pode corresponder ao momento em que reúne, em 1973, Poesia Toda (inicialmente em dois volumes), traduz-se na procura de novas combinações entre linguagem encantatória e as fórmulas mágicas que reenviam a William Blake ou a Whitman e o fazem mudar para português – isto é, no português dele, Herberto – tradições poéticas diversas, ameríndias e outras, num sistema de vasos comunicantes que, de algum modo, acabam por nos levar aos próprios poemas desse oficiante da palavra que é o "poeta obscuro". Essa fase, quanto a nós, encontra em O Corpo o Luxo a Obra a sua mais alta expressão ("Também as mulheres se alumiam / pela abundância, / pela boca até ao fundo, o pêlo que salta / omoplatas, / mãos redondas, os borbotões / da seda / escoada. / / Estas / têm caras ascensionais, magnéticas. Inspira-as / o movimento dos quartos, a matriz / secreta / do ouro afundada entre / a vulva e o coração / a órbita / das laranjas em torno / da estaca / viva."), já pela poderosa fulguração imaginística, já pela montagem que melhor revela "o espírito enfático da magia" que coloca a sua obra nos antípodas de todos os "ismos" da segunda metade do século XX.
A terceira fase, que se pode iniciar com Última Ciência, de 1988, prolongando-se até ao volume de 2008, livro de ruptura aparente, A Faca Não Corta o Fogo, pauta-se por um erotismo ousado, mas temperado de forte carga mística, concentrando-se o poema numa espécie de compulsão da escrita centrada na pergunta que a anima e lhe dá sentido: "Será que Deus não consegue compreender a linguagem dos artesãos?" Trata-se, aqui, de questionar como quem destrói: antropofagicamente, o poeta alimenta-se do que mata e, matando, renova-se. Uma outra pergunta, feita por essa caneta/escrita "dolorosa" convoca o demoníaco, considerando que uma realidade concebida demoniacamente teria de nos levar a perguntar ao Demónio se Deus existe.
Entre carnalidade, ritualismo místico, xamanismo e energia endemoninhada (a morte como mistério da vida), a fase final da poética de Herberto Helder, feita de um léxico ora quotidiano, concreto, ora abstracto, religioso, conglomera os volumes de 2008, 2013 e 2014. É a secreta verdade dos seres o que se procura apreender através de palavras que rompem com a obscuridade, literalizando, numa "língua plena", o que não pode mais adiar-se. Reveladora dos "selos"/sinais da sua íntima verdade de homem perante a morte, declara o poeta: "a morte tem uma doce habilidade doméstica / abre e fecha as torneiras prepara a roupa limpa os espelhos". Nesses três livros à beira do fim, Herberto vê na morte o magistério da vida humana e a poesia, se tem lugar no tempo da redundância (o nosso tempo, o que vem depois da indigência que Hölderlin invectivou) acaba por ser um constante procurar "pôr a vida na sua oculta loucura". Podem esses três livros chocar por nos parecer Herberto um outro Herberto Helder... Nada mais errado: fazendo da obra, do Livro, o espelho dessa outra obra, a do Ser, os livros continuaram sendo o lugar da alquímica transmutação da palavra em acto.
Herberto Helder foi o poeta que teve da poesia a compreensão cosmogónica da sua natureza. Foi-lhe, por isso, possível escrever, como quem olhasse para si vendo-se já de longe, versos lapidares: "Este que chegou ao seu poema pelo / mais alto que os poemas têm / chegou ao sítio de acabar com o / mundo: não quero / para o enlevo, o erro, disse, / quero-o para a estrela plenária que / há nalguns sítios de alguns poemas / abruptos, sem autoria". Morrendo exactamente cem anos depois do primeiro número da revista Orpheu (foi a 24 de Março de 1915 que veio a público), com Herberto morre o século passado.

António Carlos Cortez (in "JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias", 01-Abr-2015 – p. 7-8)


E o que fez a rádio de serviço público em homenagem a Herberto Helder [>> biografia/bibliografia no site da DGLAB e dossier no "Público"], na hora em que nos deixou? Começando pela Antena 2, há que enaltecer o cuidado de Luís Caetano ao realizar uma edição especial d' "A Ronda da Noite" [>> RTP-Play] totalmente preenchida com a poesia herbertiana intercalada com alguns dos mais belos trechos da música erudita. Um encanto! Não costumo ouvir o programa do início da manhã, "Império dos Sentidos", porque não suporto o estilo verborreico, mastigado e silabofágico de Paulo Alves Guerra, mas tenho notícia de ter passado alguns poemas de Herberto ditos pelo autor. Não obstante, mais se podia (e devia) fazer na antena cultural da RDP e uma coisa bem simples, mas de belo efeito, seria resgatarem do arquivo histórico os poemas herbertianos (mais de vinte) que Paulo Rato e Eugénia Bettencourt gravaram para o memorável apontamento "Os Sons Férteis" e transmitirem-nos ao longo do dia. Uma muito lamentável omissão da direcção de programas, portanto. Negligência essa que foi extensiva à Antena 1, que praticamente ignorou aquele que foi um dos maiores vultos da poesia portuguesa contemporânea. Não fosse o zelo de David Ferreira que dedicou a Herberto Helder duas edições da sua rubrica [>> RTP-Play: 26-Mar-2015 / 27-Mar-2015] e nem um verso do genial poeta se teria ouvido no canal de maior audiência da rádio do Estado. Como é possível?! Impunha-se, sem prejuízo de uma acção mais abrangente, que a ocasião fosse aproveitada para a inclusão na 'playlist' dos poemas musicados editados em disco – os dois integrantes do CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras" mais os que foram gravados por Vitorino, Luís Portugal, Janita Salomé e Joana Machado. Mas nem essa simplicíssima medida foi tomada! Infelizmente, a incúria e a irresponsabilidade de Rui Pêgo voltaram a reinar, para prejuízo dos ouvintes e da cultura portuguesa. Enfim, mais um deplorável episódio a somar ao já longo historial de incompetência da criatura aos comandos da estação pública.
Não podendo pactuar com a inércia e o obscurantismo cultural, o blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar um belo punhado de poemas de Herberto Helder – uns em voz própria, outros em voz alheia.



O AMOR EM VISITA



Poema de Herberto Helder (in "O Amor em Visita", Sintra: Contraponto, 1958; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 18-25)
Recitado por Luís Gaspar* (2013) (in "Estúdio Raposa")


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas —
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele — imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
— Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
— Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
— Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
— Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra — invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo —
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida — e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira — para que tudo cante
pelo teu poder fechado.

Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
É sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
— Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espirito,
boa será nossa carne presa e morosa.
— Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
— o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
— E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
— No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
— Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
— aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável —
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água — e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


* Produção – Luís Gaspar



O POEMA (I)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1981 – p. 40)
Recitado por Luís Gaspar* (2014) (in "Estúdio Raposa")


                           I

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne.
Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.

E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.

— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


* Produção – Luís Gaspar



O POEMA (VII)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 39-40)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




A manhã começa a bater no meu poema.
As manhãs, os martelos velozes, as grandes flores
líricas.
Muita coisa começa a bater contra os muros do meu poema.
Escuto um pouco a medo o ruído das gárgulas,
o rodopio das rosáceas do meu
poema batido pela revelação das coisas.
Os finos ramos da cabeça cantam mexidos
pelo sangue.
Talvez eu enlouqueça à beira desta treva
rapidamente transfigurada.
Batem nas portas das palavras,
sobem as escadas desta intimidade.
É como uma casa, é como os pés e as mãos
das pessoas invasoras e quentes.

Estou deitado no meu poema. Estou universalmente só,
deitado de costas, com o nariz que aspira,
a boca que emudece,
o sexo negro no seu quieto pensamento.
Batem, sobem, abrem, fecham,
gritam à volta da minha carne que é a complicada carne
do poema.

Uma inspiração fende lírios na minha testa,
fende-os ao meio
como os raios fendem as direitas taças de pedra.
Eu sorrio e levo pela mão essa criança poderosa,
uma visita do sangue cheio de luzes interiores.
Acompanho, como tocando uma espécie de paisagem
levitante,
as palavras pessoas caudas luminosas ascéticas aldeias.

É a madrugada e a noite que rolam sobre os telhados
do poema. É Deus que rola e a morte
e a vida violenta. E o meu coração é um castiçal
à beira
do povo que até mim separa os espinhos das formas
e traz sua pureza aguda e legítima.
— Trazem liras nas mãos, trazem nas mãos brutais
pequenos cravos de ouro ou peixes delicados
de música fria.

— Eu enlouqueço com a doçura dos meses vagarosos.

O poema dói-me, faz-me feliz
e trágico. O povo traz coisas para a sua casa
do meu poema.
Eu acordo e grito, bato com os martelos
dos dias da minha morte
a matéria secreta de que é feito o poema.

— A manhã começa a colocar o poema na parte
mais límpida da vida. E o povo canta-o
enquanto se desfaz nos campos que se levantam
aos cumes da seiva.
A manhã começa a dispersar o poema na luz incontida
do mundo.


* Produção – João Martins



FONTE (I)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 41-42)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           I

Ela é a fonte. Eu posso saber que é
a grande fonte
em que todos pensaram. Quando no campo
se procurava o trevo, ou em silêncio
se esperava a noite,
ou se ouvia algures na paz da terra
o urdir do tempo —
cada um pensava na fonte. Era um manar
secreto e pacífico.
Uma coisa milagrosa que acontecia
ocultamente.

Ninguém falava dela, porque
era imensa. Mas todos a sabiam
como a teta. Como o odre.
Algo sorria dentro de nós.

Minhas irmãs faziam-se mulheres
suavemente. Meu pai lia.
Sorria dentro de mim uma aceitação
do trevo, uma descoberta muito casta.
Era a fonte.

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.
A lua formava-se
com uma ponta subtil de ferocidade,
e a maçã tomava um princípio
de esplendor.

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento
perdeu-se e renasceu.
Hoje sei permanentemente que ela
é a fonte.


* Produção – Luís Gaspar



FONTE (II)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 43-44)
Dito pelo autor* ("No sorriso louco das mães...", in CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras", Columbia /Sony Music, 1997, 2013)
Música: Rodrigo Leão e Gabriel Gomes




                           II

No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos são como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.


Nota: A gravação original (sem música) foi editada em 1970, num EP com selo Philips.

* [Créditos gerais do disco:]
Margarida Araújo – viola
Rodrigo Leão – sintetizadores
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo e voz
Concepção do projecto – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)
Produção – Gabriel Gomes e Rodrigo Leão
Recuperação e edição digital dos poemas – Carlos Jorge Vales
Gravações e misturas – António Pinheiro da Silva e Paulo Abelho, nos estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Assistência técnica – José Motor, Vasco, e Carlos Jorge Alves
Pós-produção – António Pinheiro da Silva e João Moura



FONTE (III)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 45-46)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           III

Ó mãe violada pela noite, deposta, disposta
agora entre águas e silêncios.
Nada te acorda — nem as folhas dos ulmos,
nem os rios, nem os girassóis,
nem a paisagem arrebatada.
— Espero do tempo novo todos os milagres,
menos tu.

Corres somente no meu sangue memoriado
e sobes, carne das palavras outra vez
imperecíveis e virgens.
— Do tempo jovem espero o vinho e o pólen,
outras mãos mais puras
e mais sagazes,
e outro sexo, outra voz, outro gosto, outra virtude
inteligente.

— Espero cobrir-te novamente de júbilo, ó corola do canto.
Mas tu estarás mais branca com a boca selada
pelas pedras lisas.
E sei que terei o amor e o pão e a água
e o sangue e as palavras e os frutos.
Mas tu, ó rosa fria,
ó odre das vinhas antigas e limpas?

Do tempo novo espero
o sinal ardente e incorrupto,
mas levo os dedos ao teu nome prolongado,
ó cerrada mãe, levo
os dedos vazios —
e a tua morte cresce por eles totalmente.


* Produção – Luís Gaspar



FONTE (IV)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 47-48)
Recitado por Luís Gaspar* (2009) (in "Estúdio Raposa")


                           IV

Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.

E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apolo.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.

Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.

E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram — surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.

— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.


* Produção – Luís Gaspar



ELEGIA MÚLTIPLA (III)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 57-58)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




                           III

Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.


* Produção – João Martins



Havia um homem



Poema: Herberto Helder (parte III de "Elegia Múltipla", in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 57-58)
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)




Havia um homem que corria pelo orvalho dentro.
O orvalho da muita manhã.
Corria de noite, como no meio da alegria,
pelo orvalho parado da noite.
Luzia no orvalho. Levava uma flecha
pelo orvalho dentro, como se estivesse a ser caçado
loucamente
por um caçador de que nada se sabia.
E era pelo orvalho dentro.
Brilhava.

Não havia animal que no seu pêlo brilhasse
assim na morte,
batendo nas ervas extasiadas por uma morte
tão bela.
Porque as ervas têm pálpebras abertas
sobre estas imagens tremendamente puras.

Pelo orvalho dentro.
De dia. De noite.
A sua cara batia nas candeias.
Batia nas coisas gerais da manhã.
Havia um homem que ia admiravelmente perseguido.
Tomava alegria no pensamento
do orvalho. Corria.

Ouvi dizer que os mortos respiram com luzes transformadas.
Que têm os olhos cegos como sangue.
Este corria assombrado.
Os mortos devem ser puros.
Ouvi dizer que respiram.
Correm pelo orvalho dentro, e depois
estendem-se. Ajudam os vivos.
São doces equivalências, luzes, ideias puras.
Vejo que a morte é como romper uma palavra e passar

— a morte é passar, como rompendo uma palavra,
através da porta,
para uma nova palavra. E vejo
o mesmo ritmo geral. Como morte e ressurreição
através das portas de outros corpos.
Como uma qualidade ardente de uma coisa para
outra coisa, como os dedos passam fogo
à criação inteira, e o pensamento
pára e escurece

— como no meio do orvalho o amor é total.
Havia um homem que ficou deitado
com uma flecha na fantasia.
A sua água era antiga. Estava
tão morto que vivia unicamente.
Dentro dele batiam as portas, e ele corria
pelas portas dentro, de dia, de noite.
Passava para todos os corpos.
Como em alegria, batia nos olhos das ervas
Que fixam estas coisa puras.
Renascia.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



AS MUSAS CEGAS (IV)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 75-76)
Recitado por Luís Gaspar* (2007) (in "Estúdio Raposa")
Música: Johann Sebastian Bach


                           IV

Mulher, casa e gato.
Uma pedra na cabeça da mulher; e na cabeça
da casa, uma luz violenta.
Anda um peixe comprido pela cabeça do gato.
A mulher senta-se no tempo e a minha melancolia
pensa-a, enquanto
o gato imagina a elevada casa.
Eternamente a mulher da mão passa a mão
pelo gato abstracto,
e a casa e o homem que eu vou ser
são minuto a minuto mais concretos.

A pedra cai na cabeça do gato e o peixe
gira e pára no sorriso
da mulher da luz. Dentro da casa,
o movimento obscuro destas coisas que não encontram
palavras.
Eu próprio caio na mulher, o gato
adormece na palavra, e a mulher toma
a palavra do gato no regaço.
Eu olho, e a mulher é a palavra.

Palavra abstracta que arrefeceu no gato
e agora aquece na carne
concreta da mulher.
A luz ilumina a pedra que está
na cabeça da casa, e o peixe corre cheio
de originalidade por dentro da palavra.

Se toco a mulher toco o gato, e é apaixonante.
Se toco (e é apaixonante)
a mulher, toco a pedra. Toco o gato e a pedra.
Toco a luz, ou a casa, ou o peixe, ou a palavra.
Toco a palavra apaixonante, se toco a mulher
com seu gato, pedra, peixe, luz e casa.
A mulher da palavra. A Palavra.

Deito-me e amo a mulher. E amo
o amor na mulher. E na palavra, o amor.
Amo, com o amor do amor,
não só a palavra, mas
cada coisa que invade cada coisa
que invade a palavra.
E penso que sou total no minuto
em que a mulher eternamente
passa a mão da mulher no gato
dentro da casa.

No mundo tão concreto.


* Produção – Luís Gaspar



AS MUSAS CEGAS (VII)



Poema de Herberto Helder (in "A Colher na Boca", Lisboa: Edições Ática, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 83-85)
Recitado por Luís Lucas* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)




                           VII

Bate-me à porta, em mim, primeiro devagar.
Sempre devagar, desde o começo, mas ressoando depois,
ressoando violentamente pelos corredores
e paredes e pátios desta própria casa
que eu sou. Que eu serei até não sei quando.
É uma doce pancada à porta, alguma coisa
que desfaz e refaz um homem. Uma pancada
breve, breve —
e eu estremeço como um archote. Eu diria
que cantam, depois de baterem, que a noite
se move um pouco para a frente, para a eternidade.
Eu diria que sangra um ponto secreto
do meu corpo, e a noite estala imperceptivelmente
ou se queima como uma face. Escuta:
que a noite vagarosamente se queima
como a minha face.

Essa criança tem boca, há tantas finas raízes
que sobem do meu sangue. Um novo instrumento,
uma taça situou-se na terra, e há tantas
finas raízes que sobem do meu sangue. E uma candeia,
uma flor, uma pequena lira,
podem erguer-se de um rio de sangue, sobre o mundo —
um novo instrumento rodeado pelas campânulas
inclinadas, por ligeiras pedras húmidas,
pelos animais que movem no seu calmo halo de fogo
as grandes cabeças sonhadoras.

Essa criança dorme sobre os meus lagos de treva.
Pensei algumas palavras para oferecer-lhe. Esqueço-me
tantas vezes dos mistérios dessa porta.
Porque então é muito estreita com os seus espelhos
detrás, com o vestíbulo frio.
Mas é tão belo uma criança ainda enevoada,
uma criança que ascende com uma
grande música
desta rede de ossos, deste espinho de sexo,
da confusa pungência, escuta: da pungente
confusão
de um homem restrito com a sua vida tão lenta.

Essa criança é uma coisa que está nos meus dedos.
Às vezes debruço-me sobre as cisternas, e as vertigens,
e as virilhas em chama.
É a minha vida. Mas essa criança
é tão brusca, tão brusca, ela destrói e aumenta
o meu coração.
No outono eu olhava as águas lentas,
ou as pistas deixadas na neve
de fevereiro, ou a cor feroz,
ou a arcada do céu com um silêncio completo.
Misturava-se o vinho dentro de mim, misturava-se
a ciência da minha carne
atónita. Escuta: cada vez a minha vida
é mais hermética.
Essa criança tem os pés na minha boca
dolorosa.

Se ela um dia adormecer com cerejas junto ao pequeno
respirar, e sonhar
estes imensos arcos que os séculos vão colocando
sob os astros — e se de tudo
a sua cabeça estremecer como numa loucura,
com altos picos em volta, com enormes faróis
acendendo e apagando — escuta: se essa criança
imaginar, e todas as cordas se juntarem tensamente
para que ela invente o seu próprio rio
sem nome —
será ainda que do meu sangue se erguem finas
raízes, e o tenebroso tumulto
das minhas sombras
está no fundo, no fundo da sua ingénua vida,
da sua terrível vida sem remédio.
Se ela morrer, escuta, será que a minha boca
diz lá em baixo
essas majestosas e violentas palavras
dos poemas.

Essa criança que aperta as veias que iluminam
a minha garganta. Ela dorme. Escuta:
a sua vida estala como uma brasa, a sua vida
deslumbrante estala e aumenta.
Se um dia os archotes incendiarem essa boca,
e as faúlhas cercarem
o silêncio tremendo dessa pequena boca, escuta:

a minha boca, lá em baixo, está coberta de fogo.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



POEMACTO (II)



Poema de Herberto Helder* (in "Poemacto", Lisboa: Contraponto, 1961; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 98-101)
Dito pelo autor* ("Minha cabeça estremece...", in CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras", Columbia /Sony Music, 1997, 2013)
Música: Rodrigo Leão e Gabriel Gomes




                           II

Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes canta e sangra.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa — como direi? — absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam no cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

— Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


Nota: A gravação original (sem música) foi editada em 1970, num EP com selo Philips.

* [Créditos gerais do disco:]
Margarida Araújo – viola
Rodrigo Leão – sintetizadores
Gabriel Gomes – acordeão
Francisco Ribeiro – violoncelo e voz
Concepção do projecto – Rodrigo Leão, Gabriel Gomes e Manuel Hermínio Monteiro (Assírio & Alvim)
Produção – Gabriel Gomes e Rodrigo Leão
Recuperação e edição digital dos poemas – Carlos Jorge Vales
Gravações e misturas – António Pinheiro da Silva e Paulo Abelho, nos estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Assistência técnica – José Motor, Vasco, e Carlos Jorge Alves
Pós-produção – António Pinheiro da Silva e João Moura



Minha cabeça estremece



Poema: Herberto Helder (excerto inicial da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.
Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa, uma
só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca
com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino
do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

— Era uma casa — como direi? — absoluta.



Eu jogo, eu juro



Poema: Herberto Helder (excerto intermédio da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)


Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança
total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento
rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia
desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
— Porque o amor das coisas no seu
tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.

Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto
da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente
completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta — como
direi? — um
sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.
Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

— Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.
Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem
para amar e ruminar.
O leite cantante.



Eu agora mergulho



Poema: Herberto Helder (excerto final da parte II de "Poemacto") [texto integral >> acima]
Música e arranjo: Abe Rábade
Intérprete: Joana Machado* (in CD "Travessia dos Poetas, Rosapeixe", Nuba Records/Karonte, 2010)




Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
— Caneta do poema dissolvida no sentido
primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.
Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda
melancolia,
com furibunda concepção. Com
alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.
Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete. Sou
alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.
Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.


* [Créditos gerais do disco:]
Joana Machado – voz
Abe Rábade – piano
Pablo Martín Camiñero – contrabaixo
Bruno Pedroso – bateria
Tiago Schwaebl – flauta
Hugo Queirós – clarinete
Elsa Roch – oboé, corne inglês
Pablo Pascual – clarinete baixo
Ana Cláudia Serrão – violoncelo
João Moreira – trompete, flügelhorn (fliscorne)
Jesús Santandreu – saxofone tenor
Carlos Ariel – direcção
Gravado nos Boom Studios, Canelas - Vila Nova de Gaia, por João Bessa
Misturado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, por Nelson Carvalho Masterizado nos Impact Mastering Labs, Barcelona, por Álvaro Balañá



Aos Amigos



Poema: Herberto Helder (in "Lugar", Lisboa: Guimarães Editores, 1962; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 113)
Música: Vitorino Salomé
Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.


* Vitorino – voz
João Lucas – piano
Pedro Caldeira Cabral – viola de gamba
Tó Pinheiro da Silva – flauta
Pedro Wallenstein – baixo acústico
Direcção musical e arranjos – Vitorino, Pedro Caldeira Cabral e Janita Salomé
Produção – Vitorino, Manuel Salomé e Francisco Vasconcelos
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnicos de som – António Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos



MULHERES CORRENDO, CORRENDO PELA NOITE



Poema de Herberto Helder (in "Electrònicolírica", col. Poesia e Verdade, Lisboa: Guimarães Editores, 1964; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 260-261)
Dito pelo autor* (EP, Philips, 1970)


Mulheres correndo, correndo pela noite.
O som de mulheres correndo, lembradas, correndo
como éguas abertas, como sonoras
corredoras magnólias.
Mulheres pela noite dentro levando nas patas
grandiosos lenços brancos.
Correndo com lenços muito vivos nas patas
pela noite dentro.
Lenços vivos com suas patas abertas
como magnólias
correndo, lembradas, patas pela noite
viva. Levando, lembrando, correndo.

É o som delas batendo como estrelas
nas portas. O céu por cima, as crinas negras
batendo: é o som delas. Lembradas,
correndo. Estrelas. Eu ouço: passam, lembrando.
As grandiosas patas brancas abertas no som,
à porta, com o céu lembrando.
Crinas correndo pela noite, lenços vivos
batendo como magnólias levadas pela noite,
abertas, correndo, lembrando.

De repente, as letras. O rosto sufocado como
se fosse abril num canto da noite.
O rosto no meio das letras, sufocado a um canto,
de repente.
Mulheres correndo, de porta em porta, com lenços
sufocados, lembrando letras, levando
lenços, letras — nas patas
negras, grandiosamente abertas.
Como se fosse abril, sufocadas no meio.
Era o som delas, como se fosse abril a um canto
da noite, lembrando.

Ouço: são elas que partem. E levam
o sangue cheio de letras, as patas floridas
sobre a cabeça, correndo, pensando.
Atiram-se para a noite com o sonho terrível
de um lenço vivo.
E vão batendo com as estrelas nas portas. E sobre
a cabeça branca, as patas lembrando
pela noite dentro.
O rosto sufocado, o som abrindo, muito
lembrado. E a cabeça correndo, e eu ouço:
são elas que partem, pensando.

Então acordo de dentro e, lembrando, fico
de lado. E ouço correr, levando
grandiosos lenços contra a noite com estrelas
batendo nas patas
como magnólias pensando, abertas, correndo.
Ouço de lado: é o som. São elas, lembrando
de lado, com as patas
no meio das letras, o rosto sufocado
correndo pelas portas grandiosas, as crinas
brancas batendo. E eu ouço: é o som delas
com as patas negras, com as magnólias negras
contra a noite.

Correndo, lembrando, batendo.


* Produção – João Martins



Este lugar não existe...



Poema de Herberto Helder (in "Apresentação do Rosto", Lisboa: Editora Ulisseia, 1968)
Dito pelo autor* (in EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa", Philips 431 999 PE, 1970)




Este lugar não existe, fica na Arábia Saudita, no deserto.
Gosto do deserto.
Levei tábuas e pregos.
Ferramentas, as belas ferramentas dos homens.
Levei água, víveres, sementes.
Não eram sementes de trigo ou aveia, nem de cravos — também não eram sementes de máquinas.
As belas máquinas dos homens.
Não me lembro se fui pelo ar.
Não me lembro da lenta e progressiva despedida, quando se anda pelas terras, o labirinto doloroso, a alegria, quando se vai pelas terras, e nos despedimos, primeiro de um corpo, depois de um sítio, depois de um odor, uma luz, uma voz, os arrabaldes, os sinais, as palavras, as temperaturas.
Não me lembro de quando se vai deixando.
Foi portanto pelo ar.
Levei tudo para experimentar o deserto.
Comprei tábuas, água, sementes, ferramentas — as belas ferramentas.
Tenho uma pequena ciência.
Aprendi.
Vamos lá ver esse lugar que não existe, na Arábia Saudita, no deserto.
Ficava no meio.
No meio é bom — há uma coisa que se chama à volta.
Serve para estar bem só.
Comprei tábuas, sementes e águas.
Não era trigo, nem cravos, nem sementes de cores, das cores que amamos com uma dor no corpo.
Eram sementes de cabeças de crianças.
Não serão nabos, ou rosas, ou sementes de algodão?, perguntei no ervanário.
Não serão sementes de sono, ou sementes de tabaco, ou daquelas sementes de paisagem verde ocidental?
Eram sementes de cabeças de crianças.
Tenho uma pequena ciência.
Fiz como nos livros.
Dividi-me em sete dias.
Com os meus dez dedos enchi os dias, e depois com os meus ouvidos e o meu coração sôfrego.
Da minha virgindade dos desertos tirei a minha ciência dos desertos.
Espalhei os dez dedos pelos dias e, primeiro, criei os céus e as areias daquele lugar que não havia.
Depois, os dois luzeiros: um para o dia e o outro para a noite do deserto.
No terceiro dia, fiz uma casa com um alpendre e uma cadeira no alpendre.
Foi então que senti o sangue bater na minha noite e soube do sinistro silêncio de toda a minha vida, e era o quarto dia.
No quinto, lancei às areias, a toda a volta da casa, até onde podia, todas aquelas sementes que não eram de cravos, nem de trigo, nem de algodão — as sementes — lancei à minha volta o futuro nascimento, e fiquei no meio do nascimento, cercado pelo futuro nascimento.
Depois pensei, como pode pensar um animal criador extenuado, porque eu tinha-me criado a mim mesmo, e era uma criatura quente e exausta, e estava cheio da dor e da alegria da minha obra — era então o sexto dia.
E no sétimo dia vi que tudo tinha um sentido, e sentei-me na minha casa, no meu alpendre, na minha cadeira.
Pela escrita tinha eu pois chegado ao sétimo dia, ligando tudo, ligando o que não é como que visível mas é como que audível, semelhante às correntes de água subterrânea que o nosso próprio corpo solitário sente deitado sobre a terra.
Estava sentado na cadeira criada no terceiro dia, rodeado pela sementeira do quinto dia.
Era uma sementeira de cabeças de crianças.
Não serão nabos ou rosas?, perguntei no ervanário.
Não eram.
Porque principiaram a sair da areia na tarde do sétimo dia, e floresceram, sombrias e doces cabeças de crianças — era terrível.
Seriam verdes-garrafa?
Cabeças de crianças do tamanho de cabeças de crianças — vivas, oscilantes, latejantes sobre o pedúnculo que irrompia do deserto, à volta da minha casa, do meu alpendre, da minha cadeira, do meu coração que nunca mais dormiria.
Começaram então a sussurrar — e eu pensei: a aragem do fim do sétimo dia passa sobre um campo de corolas verdes, como no mundo, e há o sussurro vegetal, o ondular verde-garrafa, em frente da casa de um proprietário como no mundo.
Mas eram cabeças de crianças.
E as minhas tábuas e pregos e víveres, a minha água e a cadeira, e o meu coração estavam cercados pelo sussurro das cabeças das crianças.
Eu nunca mais dormiria — era de noite, era agora a minha noite.
E então elas começaram a cantar — na minha noite.
Eu estava sentado na cadeira, no alpendre, na casa — e as vozes levantavam-se, eram altas, altas, inocentes e terríveis, cada vez mais belas, mais sufocantes.
No deserto.
O meu coração nunca mais dormiria.
Não serão cravos, ou nabos, ou máquinas?, perguntei no ervanário.
Eram cabeças de crianças.


* Produção – João Martins



Canção da Cabília



Poema: Tradicional argelino; trad. Herberto Helder (adaptado) [texto original da tradução >> abaixo]
Música: Eugénio Barreiros
Intérprete: Luís Portugal* (in CD "Coisas Simples", Pôr do Som, 1993)


[instrumental]

Leve, aparece na dança
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.

Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.
Cintila, vivo, um colar.

Por ela vendi
um pomar de macieiras.
Por ela vendi
o meu olival antigo.
Por ela vendi
o meu campo de figueiras.
Por ela vendi
um milhão de laranjeiras.

[instrumental]

Leve, aparece na dança
e ninguém lhe sabe o nome.
E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.

Ela cai dentro da dança,
abrem-se ao meio os cabelos.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.

Por ela vendi
um pomar de macieiras.
Por ela vendi
o meu olival antigo.
Por ela vendi
o meu campo de figueiras.
Por ela vendi
um milhão de laranjeiras.

[instrumental / coros]

Por ela vendi
um pomar de macieiras.
Por ela vendi
o meu olival antigo.
Por ela vendi
o meu campo de figueiras.
Por ela vendi
um milhão de laranjeiras.

Por ela vendi
um pomar de macieiras.
Por ela vendi
o meu olival antigo.
Por ela vendi
o meu campo de figueiras.
Por ela vendi
um milhão de laranjeiras.


* [Créditos gerais do disco:]
Luís Portugal – voz
Rui Vilhena – guitarras e voz
Telmo Marques e Jorge Filipe – teclados
Paulo Filipe – baixo eléctrico
Luís Filipe – bateria
Músicos convidados:
Manuel Rocha – violino
Ernesto Taipa – harmónica
Quim Né – percussões
"Vozes da Rádio" (Nuno Aragão, Jorge Prendas, Mário Alves, Rui Vilhena, António Miguel e Ricardo Fráguas) – vozes
Pedro Moura – vozes
Sérgio Castro – botões
Participação especial:
Eugénio Barreiros – voz
Produção e arranjos – Jorge Filipe Santos, Telmo Marques e Luís Portugal
Gravado nos Estúdios Pôr do Som, Porto, em Março de 1993, por Jorge Filipe Santos e
Telmo Marques.
Misturado por Jorge Filipe Santos e Sérgio Castro



CANÇÃO DA CABÍLIA

(Poema tradicional argelino; trad. Herberto Helder, in "O Bebedor Nocturno", col. Antologias Universiais, Lisboa: Portugália Editora, 1968; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 227-228)


Leve, aparece na dança —
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.

Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
muitas argolas de prata.

— Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.

Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.

— Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.

Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.

— Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.

E no coração da dança
todo um sorriso a enflora.

— Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras.



RITUAL DA CHUVA



Poema dos peles-vermelhas; trad. Herberto Helder (in "O Bebedor Nocturno", Lisboa: Portugália Editora, 1968; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 237-238)
Recitado por Mário Viegas* (in LP/CD "Poemas de Bibe: Grande Poesia Portuguesa Escolhida para os Mais Pequenos", UPAV, 1990, reed. Público, 2006)




Desde os tempos antigos,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.
Da montanha de Água,
de seus cumes altíssimos,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.

Entre a luz dos relâmpagos,
relâmpagos que brilham,
fulmíneos relâmpagos,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.

Entre as andorinhas,
andorinhas azuis,
que gritam, que gritam,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.

Atravessando o pólen,
o pólen sagrado,
vestida de pólen,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.

Desde os tempos antigos,
       vem a chuva,
       vem a chuva comigo.


* Produção – José Mário Branco e António José Martins
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em 2, 6, 7 e 8 de Outubro de 1990
Engenheiro de som – José Manuel Fortes



Era uma vez um pintor que tinha um aquário



Poema (em prosa) de Herberto Helder (in "Vocação Animal", col. Cadernos de Poesia, vol. 19, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1971 – p. 11-12)
Dito por Mário Viegas* ("Poemas Proibidos", 1972) (in Livro/CD "Inéditos I", Público, 2006)
Música: José Calvário




Era uma vez um pintor que tinha um aquário e, dentro do aquário, um peixe encarnado. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor encarnada, quando a certa altura começou a tornar-se negro a partir — digamos — de dentro. Era um nó negro por detrás da cor vermelha e que, insidioso, se desenvolvia para fora, alastrando-se e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário, o pintor assistia surpreendido à chegada do novo peixe.
O problema do artista era este: obrigado a interromper o quadro que o pintava e onde estava a aparecer o vermelho do seu peixe, não sabia agora o que fazer da cor preta que o peixe lhe ensinava. Assim, os elementos do problema constituíam-se na própria observação dos factos e punham-se por uma ordem, a saber: 1.º — peixe, cor vermelha, pintor, em que a cor vermelha era o nexo estabelecido entre o peixe e o quadro, através do pintor; 2.º — peixe, cor preta, pintor, em que a cor preta formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar acerca das razões por que o peixe mudara de cor precisamente na hora em que o pintor assentava na sua fidelidade, ele pensou que, lá de dentro do aquário, o peixe, realizando o seu número de prestidigitação, pretendia fazer notar que existe apenas uma lei que abrange tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Essa lei seria a metamorfose. Compreendida a nova espécie de fidelidade, o artista pintou na sua tela um peixe amarelo.

(1963)


* José Calvário e José Luís Tinoco – piano
José Niza – viola acústica
Direcção musical e produção – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1972
Técnico de som – Moreno Pinto



A carta da paixão



Poema de Herberto Helder (in "Photomaton & Vox", Lisboa: Assírio & Alvim, 1979; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 406-408)
Recitado por Luís Gaspar* (2015) (in "Estúdio Raposa")


Esta mão que escreve a ardente melancolia da
idade
é a mesma que se move entre as nascentes da cabeça,
que à imagem do mundo aberta de têmpora
a têmpora
ateia a sumptuosidade do coração. A demência lavra
a sua queimadura desde os recessos negros
onde
se formam
as estações até ao cimo,
nas sedas que se escoam com a largura
fluvial
da luz e a espuma, ou da noite e as nebulosas
e o silêncio todo branco.
Os dedos.
A montanha desloca-se sobre o coração que se alumia: a língua
alumia-se. O mel escurece dentro da veia
jugular talhando
a garganta. Nesta mão que escreve afunda-se
a lua, e de alto a baixo, em tuas grutas
obscuras, a lua
tece as ramas de um sangue mais salgado
e profundo. E o marfim amadurece na terra
como uma constelação. O dia leva-o, a noite
traz para junto da cabeça: essa raiz de osso
vivo. A idade que escrevo
escreve-se
num braço fincado em ti, uma veia
dentro
da tua árvore. Ou um filão ardido de ponta a ponta
da figura cavada
no espelho. Ou ainda a fenda
na fronte por onde começa a estrela animal.
Queima-te a espaçosa
desarrumação das imagens. E trabalha em ti
o suspiro do sangue curvo, um alimento
violento cheio
da luz entrançada na terra. As mãos carregam a força
desde a raiz
dos braços, a força
manobra os dedos ao escrever da idade, uma labareda
fechada, a límpida
ferida que me atravessa desde essa tua leveza
sombria como uma dança até
ao poder com que te toco. A mudança. Nenhuma
estação é lenta quando te acrescentas na desordem, nenhum
astro
é tão feroz agarrando toda a cama. Os poros
do teu vestido.
As palavras que escrevo correndo
entre a limalha. A tua boca como um buraco luminoso,
arterial.
E o grande lugar anatómico em que pulsas como um lençol lavrado.
A paixão é voraz, o silêncio
alimenta-se
fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te
toda
no cometa que te envolve as ancas como um beijo.
Os dias côncavos, os quartos alagados, as noites que crescem
nos quartos.
É de ouro a paisagem que nasce: eu torço-a
entre os braços. E há roupas vivas, o imóvel
relâmpago das frutas. O incêndio atrás das noites corta
pelo meio
o abraço da nossa morte. Os fulcros das caras
um pouco loucas
engolfadas, entre as mãos sumptuosas.
A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.
Tu és o nó de sangue que me sufoca.
Dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões
da madeira fria. És uma faca cravada na minha
vida secreta. E como estrelas
duplas
consanguíneas, luzimos de um para o outro
nas trevas.


* Produção – Luís Gaspar



Com uma rosa no fundo da cabeça...



Poema de Herberto Helder (in "Última Ciência", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 517)
Recitado por José Manuel Mendes* (in Livro/2CD "Ao Longe os Barcos de Flores: Poesia Portuguesa do Século XX": CD2, col. Sons, Assírio & Alvim, 2004)


                           1

Com uma rosa no fundo da cabeça, que maneira obscura
de morte. O perfume a sangue à volta da camisa
fria, a boca cheia de ar, a memória
ecoando com as vozes
de agora. Onde está sentada brilha de tantas
moléculas
vivas, tanto hidrogénio, tanta seda escorregadia dos ombros
para baixo. Toca em
de onde rompe a rosa. Uma criança
luciferina. A mãe fechava,
abria em torno a torrente dos átomos
sobre a cara. Aquilo que a estrangula dos pulmões
à garganta
é a rosa infundida. Leva um braço às costas,
suando, raiando
pelo sono fora. Está queimada onde lhe toca. Falaria alto
se o peso a enterrasse à altura das vozes.
Via a matéria radiosa de que é feito o mundo.
A língua doce de leite,
a mão direita na massa agre, o sexo banhado
no manancial secreto.
O dom que transtorna a criança ardente é leve como
a respiração, leve como
a agonia.
Uma rosa no fundo da cabeça.


* Selecção de poemas e direcção de actores – Gastão Cruz
Coordenação editorial – Teresa Belo
Gravado e masterizado por Artur David e João Gomes, no Estúdio Praça das Flores, Lisboa, em Outubro de 2004
Supervisão de gravação – Vasco Pimentel



Ninguém tem mais peso que o seu canto



Poema: Herberto Helder (in "Última Ciência", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988; "Poesia Toda", Lisboa: Assírio & Alvim, 1990 – p. 543)
Música: Janita Salomé
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Raiano", Farol Música, 1994)

Ninguém tem mais peso que o seu canto.
A lua agarra-o pela raiz,
arranca-o.
Deixa um grito que embriaga,
deixa sangue na boca.
Que seja a demonia: — a arte mais forte de morrer
pela música, pela
memória.


* Janita Salomé – voz, coros
Filipa Pais – voz (introdução)
Sandra e Dora – coros
Mário Delgado – guitarra de 12 cordas, guitarra clássica
Paulo Curado – flautas
Filipe Valentim – teclados
Paulo Jorge Ferreira – baixo eléctrico
Alexandre Frazão – bateria
José Salgueiro – percussões
Arranjo – Mário Delgado
Direcção musical – Fernando Júdice e Janita Salomé
Produção – Fernando Júdice
Gravado e misturado no Regiestúdio, Amadora
Técnico de som – Branko Neskov
Masterizado por Mike Brown (Inglaterra)



As manhãs começam logo com a morte das mães



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 23; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




As manhãs começam logo com a morte das mães,
ainda oito dias antes lavavam os cabelos em alfazema cozida,
ainda oito anos depois os cabelos irrepetíveis,
todas as luzes da terra abertas em cima delas,
e então a gente enche a banheira com água fria até ao pescoço,
e tudo brilha na mesma,
brilha cegamente



E eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto...



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 28; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


E eu que sopro e envolvo teu corpo tremulamente intacto com meu corpo de bode coroado
fedendo a testosterona e sangue,
num mundo de aromas e de orvalho,
farejo-te,
mordo-te a nuca, lambo,
e faminto me meto por ti adentro,
rebento os selos,
marco-te a fogo,
levíssima visita à minha sêca luz e arrebatada fome,
e se brotas em tua donzelia e és ao modo de festejo,
e de minha bruteza te encurvas tanto que te sussurro um poema de louvação e embalo,
tão soluto e agudo e soberano,
algures, quando
a água quebre e os verbos soberbos cantem,
e tudo se desfaça,
e refaça,
não como soía,
mas com um assombro novo:
faz-se-me tarde para o poema das frutas que de macias se fendem e fundem nas gengivas,
e no ímpeto da luz rasgada em baixo,
como-te antes que morra:
e eu sei quanto depressa morro



Funda manhã onde fundei o prodígio da minha vida airada



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 30; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


Funda manhã onde fundei o prodígio da minha vida airada,
vou dar que fazer aos pássaros jardineiros,
um botão de prata, uma folhinha de ouro,
a gota alquímica de mercúrio ao meio,
oh trabalhosa delicadeza,
andam por todo o lado como quem pisa espuma ou pólen
— vinde cá, fêmeazinhas que tanto amais o donaire e a invenção, e a arte,
é uma cilada sim,
mas a vossa plumagem, a atenção ao mundo, a cabeça inquieta,
tudo tão de estudo para o fascínio absoluto,
que venha uma e se arrebate e se perca no enigma,
armadilha de guerra,
sabe Deus quanto a beleza me custa e quanto o ganho é imponderável,
pois sou eu mesmo quem se fascina com este jogo:
que se devoro o mundo também o mundo me devora,
oh malícia, oh
perícia voadora!



Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 53; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas
uma que rebenta floralmente branca à direita
outra à esquerda só com ar lá dentro

e o ouro íngreme puxando o começo da noite
e o fim do enorme dia onde todos morreremos
como filhos escorraçados
ou disso a que chamam demónio da analogia

quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro

quem baixa a mão para quebrar um selo
há-de baixá-la para quebrar os outros e há-de fechar os olhos

e de tanto ter visto não poderá nunca mais abri-los

e como pão e bebo água de olhos fechados
como se fosse para sempre

e assim adeus a quem vê
que eu morro inteiro para dentro

e vejo tudo só de entendê-lo



Agora se tivesses alma tinhas de salvá-la...



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 65; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)


Agora se tivesses alma tinhas de salvá-la, agora
se tivesses génio tinhas de resgatar o pacto, agora
que não tiveste senão quotidiano terás de trazer muita da luz sumida
pelo mundo fora à tua roupa: camisa, calças,
sapatos leves com os pés andando
junto às águas salgadas,
não em cima delas,
com tanta luz no teu passeio distraído pelos acessos à memória,
águas salgadas batidas,
a tua altura medida em espuma contra as fráguas,
agora tens de saber que é falsa,
vens pela babugem como um peixe meio dentro meio fora,
guelras aflitas e o ar enorme à volta para arvoar,
não fossem as barbatanas



Um quarto dos poemas é imitação literária



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 72; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Um quarto dos poemas é imitação literária,
outro quarto é ainda imitação mas já irónica e colérica,
outro quarto é das labaredas da inquisição à volta,
outro quarto, o quarto, o que falta, é por causa da
magnificência do mundo
o quinto quarto absurdo é o das quatro patas cortadas,
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
como se fosse tão frio que cortasse até ao osso,
o imo do próprio nome assim metido na pedra,
tanto que ninguém sabia de quem era,
porque ficou todo dentro e não se via de fora:
nem o suor nem o sangue nem o sopro



Levanto à vista



Poema de Herberto Helder (in "Servidões", Lisboa: Assírio & Alvim, 2013 – p. 111; "Poemas Completos", Porto: Porto Editora, 2014)
Dito por Fernando Alves (transmitido na TSF-Rádio Notícias, em Maio de 2013)




Levanto à vista
o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas
E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada
já posso dizer tudo.

Daqui a uma pouca ciência
saberei pensar que algum pouco depois
estarei morto
e só de o pensar
já nem respiro
já quase
em nada toco
Já vejo no fundo das mãos
daquilo que fica escrito
Que escrevi coisa nenhuma do mundo
até ao esquecimento e movendo-me com as unhas
movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci
logo me deram por morto.

E não fui tido nem havido
na razão do episódio de um rosto
ter passado por um espelho e ter desaparecido.
Portanto não me venha ninguém falar de nada
sei bastante do que sabem todos
Vejo a água a mover-se contra si mesma
tão marítima e acho até que é bonito
cada qual morre do quanto alcança e não alcança
e ninguém compreende
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa a água fácil
sem retorno
porque nada tem retorno
e tudo é dificílimo
não só o máximo, mas também o mínimo.



Capa do EP "Herberto Helder: Poesia Portuguesa" (Philips 431 999 PE, 1970)



Capa do CD "Os Poetas: Entre Nós e as Palavras" (Columbia/Sony Music, 1997, 2013)
Ilustração de Ilda David



Capa do livro "Electrònicolírica", col. Poesia e Verdade (Guimarães Editores, 1964)



Capa do livro "Apresentação do Rosto" (Editora Ulisseia, 1968)
Ilustração de Espiga Pinto



Capa do livro "Vocação Animal", col. Cadernos de Poesia, vol. 19 (Publicações Dom Quixote, 1971)



Capa do livro "Poesia Toda", Vol. 1, 1.ª edição (Plátano Editora, 1973)



Capa do livro "Poesia Toda", 2.ª edição (Assírio & Alvim, 1981)



Capa do livro "Poesia Toda", 3.ª edição (Assírio & Alvim, Novembro de 1990)



Capa do livro "Ofício Cantante: Poesia Completa" (Assírio & Alvim, Janeiro de 2009)
Pintura de Ilda David (2008)



Capa do livro "Servidões" (Assírio & Alvim, Maio de 2013)
Xilogravura de Ilda David



Capa do livro "Poemas Completos" (Porto Editora, Outubro de 2014)

16 abril 2015

Em memória de Manoel de Oliveira (1908-2015)



«Manoel de Oliveira era mais novo do que o próprio cinema, mas não muito. Treze anos, para sermos precisos, o que é isso diante de vidas que duraram mais de um século e, em comum, mais do que qualquer outro cineasta em qualquer lugar se pode orgulhar? Mas — e Oliveira não se cansava de o dizer — durar muito não é mérito, antes capricho da Natureza bem ajudada pelos genes de um homem a vários títulos de excepção. Não por acaso ele foi atleta emérito, corredor de automóveis, piloto de aviões num tempo em que todas essas coisas eram de difícil alcance.
Filho-família de uma burguesia nortenha endinheirada, o cinema apareceu-lhe como um hobby caro, uma inclinação moderna nesses finais dos anos 20 em que a trepidação do novo atravessava uma geração com vontade de futuro. A mesma a que pertenciam António Lopes Ribeiro, Jorge Brum do Canto, Cotinelli Telmo ou Leitão de Barros que, na transição do cinema mudo para o cinema sonoro e no momento em que o Estado Novo se cimentava, tomaram o cinema português nas mãos. Oliveira estreou-se ainda no tempo do mudo, com "Douro, Faina Fluvial", um documentário financiado pela família e estreado pela mão de Lopes Ribeiro num dos primeiros eventos culturais internacionais que António Ferro organizava na consolidação do novo regime político — o V Congresso Internacional da Crítica Dramática e Musical. O mesmo Lopes Ribeiro, nesse início dos anos 40 em que sonhou um modelo de produção contínua, lhe produz a primeira longa-metragem, "Aniki-Bóbó", de que António Ferro muito gostava. Mas era longe o Porto onde Oliveira sempre viveu, ele tinha outros interesses e modos de vida, os corredores do poder ou os escritórios da Tóbis não lhe estavam no caminho, "Aniki-Bóbó" não fizera grandes resultados na bilheteira (três semanas, no Éden), os projectos que foi acalentando foram-se gorando.
Mas Manoel de Oliveira nunca desistiu, perseverou na ideia de fazer cinema, mesmo se as poucas coisas que vai conseguindo levar a cabo não definem, ainda, um estilo. O que o definia era uma espécie de hombridade, uma vontade de não ceder às leis da moda, a capacidade (bem ajudada por uma independência económica muito útil em causas nobres) de não se moldar. Sempre fez o seu cinema, mesmo quando não se podia precisar o que isso era. Isso aproximou-o da geração do Cinema Novo que, no princípio dos anos 60, o tomou como referência tutelar, modelo de verticalidade que não estético, pois de Oliveira não se podia então dizer que tivesse um definido modo cinematográfico. É essa geração que lhe oferece a possibilidade de retorno à ficção, no momento em que a Fundação Gulbenkian abre os cordões à bolsa e financia um Centro Português de Cinema onde Oliveira se integra. "O Passado e o Presente" (1972) deixa meio mundo estupefacto — pela ironia, pela escolha do texto, pela teatralidade rugosa dos actores. Ninguém poderia prever que estava ali o cadinho formal de uma obra de que aquele filme, estreado quando Oliveira estava nos seus 63 anos, não era nem o epílogo nem a homenagem, mas tão-só a letra capitular, a abertura.
A fita que o texto teatral de Vicente Sanches propiciara ao cineasta, o afastamento cerce de qualquer realismo, o cinema enquanto artifício, realidade-outra, prossegue na famosa tetralogia dos amores frustrados que tanta polémica gerou e que culmina com "Francisca" (1981). Nesse filme, Oliveira encontra dois factores decisivos para tudo o que aconteceu depois. Um foi o triunfo crítico internacional obtido desde logo na estreia mundial no Festival de Cannes. Doravante, todos os seus filmes terão estreia nos maiores festivais, Oliveira torna-se uma vedeta nos círculos culturais e uma presença regular em Veneza, Cannes, Roterdão ou Locarno. O outro factor essencial que "Francisca" inaugura é o produtor Paulo Branco. A aliança entre os dois, numa interessantíssima fusão de interesses complementares vai durar até 2005. Branco consegue financiamentos constantes para permitir ao realizador uma actividade praticamente contínua que, a partir de 1990, ganha a espantosa rotina de (pelo menos) uma longa-metragem por ano. Oliveira corresponde adequando a sua criatividade às contingências do dinheiro disponível e, até, da sua proveniência.
É assim que vai alternando produções ambiciosas, a exigir grandes meios (como "'Non', ou a Vã Glória de Mandar"), com outras de mais maneira dimensão (caso de "Mon Cas"), que não filmicamente menos ambiciosas. E, sendo o cineasta que mais radicalmente assume o estatuto de autor (fazendo filmes singulares e incomparáveis), acedeu ao mais custoso dos compromissos: cortar quase vinte minutos a "Vale Abraão" (1993) para que pudesse ser estreado no Festival de Cannes... Nesse gesto ele provava, também, ser um homem sintonizado com os mercados cinematográficos e as suas especificidades. Não é acaso que Oliveira se tenha tornado o mais comerciável cineasta da história do cinema português — os seus filmes vendiam-se para todo o lado.
Coroado por múltiplas honrarias, cinematográficas e de Estado, em Portugal como em França, em Itália, no mundo, Oliveira angariou o estatuto de Mestre e soube conservá-lo. Teve grandes vedetas internacionais a querer trabalhar com ele em filmes que tão depressa mergulhavam na História e nos seus labirintos, como na grande literatura, ou em histórias originais, continuamente cuidando do rendilhado dos textos, numa surpreendente e sempre renovada arte em que o fingimento, os espaços, os véus com que a realidade se disfarça, acrescentavam iluminações, fascínio — e nos iam intrigando. Nem sempre obras-primas, é evidente, porque nenhum cineasta o consegue. Há filmes maiores e outros decerto dispensáveis, triagem que o tempo fará com a impiedade que sabemos. Não nos cabe, agora, influenciar a sua mão. Por mim, fora o óbvio pináculo da catedral que "Vale Abraão" é, prefiro os filmes mais pequenos, íntimos: "Benilde ou a Virgem-Mãe" [1975], "Mon Cas" [1986], "O Dia do Desespero" [1992], "O Quinto Império – Ontem como Hoje" [2004]. Ou esse extraordinário exercício de confessionalidade, ironia e dissimulação — "Porto da Minha Infância" [2001]. Mais importante do que tudo, Oliveira foi, nos últimos quarenta anos, um gigante que abria caminho à nossa cinematografia nos espaços internacionais, tarefa que ninguém está em condições de prosseguir. É que, ano após ano, filme após filme, ele ia produzindo os seus frutos temporões com a fasquia sempre dois palmos acima do comum dos mortais. Agora foi-se embora e deixou-nos, a todos, mais sós.» (Jorge Leitão Ramos, in "Expresso", 03-Abr-2015)


Na hora da despedida a Manoel de Oliveira [>> filmografia no IMDB e dossier no "Público"], a rádio pública rendeu-lhe a devida homenagem, com a emissão de alguns programas consagrados ao cineasta, o que é motivo de satisfação. Tratar de cinema num meio sem imagem, como a rádio, não é tarefa fácil, mas há um filão sonoro que ainda não foi explorado e que, enquanto tal não acontecer, deixa a estação pública em dívida para com o realizador. Referimo-nos, obviamente, à música no cinema de Manoel de Oliveira, matéria que daria, sem a menor dúvida, uma boa e interessante série de programas.
Registamos também com agrado que a RTP-1 tenha transmitido, em horário nobre, a entrevista que o cineasta deu a Fátima Campos Ferreira, seguida da curta-metragem "O Velho do Restelo", e que a RTP-2 tenha voltado a exibir, ainda que a horas tardias, o filme "O Estranho Caso de Angélica" e o documentário "Manoel de Oliveira, o Caso Dele".
Por ser um meio audiovisual, as responsabilidades da televisão para com o nosso maior vulto da sétima arte são acrescidas, cabendo-lhe proporcionar ao público português (especialmente àquele que não tem a Cinemateca à mão) a possibilidade de conhecer, tão amplamente quanto possível, a sua obra. Ficamos pois a aguardar por esse almejado ciclo na RTP-2 que abarque, se não a totalidade, a maioria dos filmes que Manoel de Oliveira nos legou. Entretanto, sempre se pode recorrer à internet e aproveitar o que se encontra disponível nas várias plataformas de vídeos, mormente no YouTube, e que apresentamos abaixo. Não é forma ideal de ver cinema, mas é melhor do que nada...
Primeiramente, os links de alguns fonogramas e videogramas sobre Manoel de Oliveira, e o belíssimo 'sketch' da Ilha dos Amores (extraído de "'Non', ou a Vã Glória de Mandar"), juntamente com as estrofes d' "Os Lusíadas" que estão na sua base.


"Ecran: Manoel de Oliveira" (RTP-2), de 1981
https://www.youtube.com/watch?v=Rp99BLrwsfA
Coordenação: Augusto Seabra e José Nascimento
Produção: Miguel Cardoso e J.M. Alves da Silva (Ecran/RTP)

"Manoel de Oliveira, o Arquitecto" (1993)
https://www.youtube.com/watch?v=rf6wuimO0RU
Documentário realizado por Paulo Rocha
Produção: Suma Filmes/RTP

"Vidas Que Contam" (Antena 1), de 24-Fev-2007 [reposição em 02-Abr-2015]
http://www.rtp.pt/play/p328/e190133/vidas-que-contam
Documentário radiofónico sobre Manoel de Oliveira; autoria e realização de Ana Aranha

"Manoel de Oliveira, o Caso Dele" (RTP-2), de 2007 [reposição em 03-Abr-2015]
https://www.youtube.com/watch?v=NnmFVfTulag
Locução: Leonor Silveira
Realização: Sérgio C. Andrade
Produção: Ideias & Conteúdos

"Pessoal e Transmissível" (TSF), de 08-Jan-2008 [reposição em 02-Abr-2015]
http://www.tsf.pt/paginainicial/AudioeVideo.aspx?content_id=915357
Manoel de Oliveira entrevistado por Carlos Vaz Marques, a pretexto da estreia do filme "Cristóvão Colombo - O Enigma"

"Especial Manoel de Oliveira" (Antena 1), de 13-Dez-2008
http://rsspod.rtp.pt/podcasts/at1/1504/3493609_178364-1504021449.mp3
Manoel de Oliveira entrevistado por João Lopes, em 25-Out-2008

"A Ronda da Noite" (Antena 2), de 02-Abr-2015
http://www.rtp.pt/play/p1299/e190431/a-ronda-da-noite
Manoel de Oliveira entrevistado por Luís Caetano, em Outubro de 2010, por ocasião do "Escritaria" (Penafiel), dedicado a Agustina Bessa-Luís

"Especial Informação" (RTP-1), de 11-Dez-2011 [reposição em 02-Abr-2015]
http://www.rtp.pt/play/p79/e66733/especial-informacao
Manoel de Oliveira entrevistado por Fátima Campos Ferreira

"Especial 'O Século de Oliveira'" (Antena 1), de 03-Abr-2015
http://www.rtp.pt/play/p337/e190219/antena-1-programas-especiais
Treze filmes de Manoel de Oliveira passados em revista; textos de Tiago Alves e João Lopes



"Ilha dos Amores"
[Coro dos Deuses / Isto Bem Resolvido / As Fráguas de Cupido / Lágrimas de Amante / Deusa Dione / Insídias do Deus Baco / Camões / Baile dos Deuses]



Poema: Luís de Camões (versos extraídos dos Cantos IX e X, de "Os Lusíadas", Lisboa, 1572)
Música: Alejandro Massó
Intérpretes: Alejandro Massó* com o Coro de Câmara de Lisboa & Teresa Salgueiro (in filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar", 1990; CD "'Non', ou a Vã Glória de Mandar: Banda Sonora Original", Editions Milan Music, 1990)




[Canto IX]
18
Porém a Deusa Cípria, que ordenada
Era, para favor dos Lusitanos,
Do Padre Eterno, e por bom génio dada,
Que sempre os guia já de longos anos,
A glória por trabalhos alcançada,
Satisfação de bem sofridos danos,
Lhes andava já ordenando, e pretendia
Dar-lhes nos mares tristes, alegria.

19
Depois de ter um pouco revolvido
Na mente o largo mar que navegaram,
Os trabalhos que pelo Deus nascido
Nas Anfiónias Tebas se causaram,
Já trazia de longe no sentido,
Para prémio de quanto mal passaram,
Buscar-lhes algum deleite, algum descanso,
No Reino de cristal, líquido e manso;

20
Algum repouso, enfim, com que pudesse
Refocilar a lassa humanidade
Dos navegantes seus, como interesse
Do trabalho que encurta a breve idade.
Parece-lhe razão que conta desse
A seu filho, por cuja potestade
Os Deuses faz descer ao vil terreno
E os humanos subir ao Céu sereno.


21
Isto bem revolvido, [Vénus] determina
De ter-lhes aparelhada, lá no meio
Das águas, alguma ínsula divina,
Ornada d'esmaltado e verde arreio;

Que muitas tem no reino que confina
Da [mãe] primeira co terreno seio,
Afora as que possui soberanas
Para dentro das portas Herculanas.

22
Ali quer que as aquáticas donzelas
Esperem os fortíssimos barões
(Todas as que têm título de belas,
Glória dos olhos, dor dos corações),
Com danças e coreias, porque nelas
Influirá secretas afeições,
Para com mais vontade trabalharem
De contentar a quem se afeiçoarem.

...............................................

30
Muitos destes meninos voadores
Estão em várias obras trabalhando:
Uns amolando ferros passadores,
Outros, hástias de setas delgaçando.
Trabalhando, cantando estão de amores,
Vários casos em verso modulando;
Melodia sonora e concertada,
Suave a letra, angélica a soada.

31
Nas fráguas imortais onde forjavam
Para as setas as pontas penetrantes,
Por lenha corações ardendo estavam,
Vivas entranhas inda palpitantes;
As águas, onde os ferros temperavam,
Lágrimas são de míseros amantes;
A viva flama, o nunca morto lume,
Desejo é só que queima e não consume.


32
Alguns exercitando a mão andavam
Nos duros corações da plebe ruda;
Crebros suspiros pelo ar soavam
Dos que feridos vão da seta aguda.
Fermosas Ninfas são as que curavam
As chagas recebidas, cuja ajuda
Não somente dá vida aos mal feridos,
Mas põe em vida os inda não nascidos.

33
Fermosas são algumas e outras feias,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno espalhado pelas veias
Curam-no às vezes ásperas triagas.
Alguns ficam ligados em cadeias
Por palavras subtis de sábias magas;
Isto acontece às vezes, quando as setas
Acertam de levar ervas secretas.

34
Destes tiros assi desordenados,
Que estes moços mal destros vão tirando,
Nascem amores mil desconcertados
Entre o povo ferido miserando;
E também nos heróis de altos estados
Exemplos mil se vêm de amor nefando,
Qual o das moças Bíbli e Cinireia,
Um mancebo de Assíria, um de Judeia.

35
E vós, ó poderosos, por pastoras
Muitas vezes ferido o peito vedes;
E por baixos e rudos, vós, senhoras,
Também vos tomam nas Vulcâneas redes.
Uns esperando andais nocturnas horas,
Outros subis telhados e paredes;
Mas eu creio que deste amor indigno
É mais culpa a da mãe que a do menino.

36
Mas já no verde prado o carro leve
Punham os brancos cisnes mansamente;
E Dione, que as rosas entre a neve
No rosto traz, descia diligente.
O frecheiro, que contra o Céu se atreve
O recebê-la vem, ledo e contente;
Vêm todos os Cupidos servidores
Beijar a mão à Deusa dos amores.

37
Ela, por que não gaste o tempo em vão,
Nos braços tendo o filho, confiada
Lhe diz: – «Amado filho, em cuja mão
Toda [a] minha potência está fundada;
Filho, em quem minhas forças sempre estão,
Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
A socorrer-me a tua potestade
Me traz especial necessidade.


38
Bem vês as Lusitânicas fadigas,
Que eu já de muito longe favoreço,
Porque das Parcas eu sei, minhas amigas,
Que me hão-de venerar e ter em preço;
E, porque tanto imitam as antigas
Obras de meus Romanos, me ofereço
A lhes dar tanta ajuda, em quanto posso,
A quanto se estender o poder nosso.


39
E, porque das insídias do odioso
Baco foram na Índia molestados,
E das injúrias sós do mar undoso
Puderam mais ser mortos que cansados,
No mesmo mar, que sempre temeroso
Lhes foi, quero que sejam repousados,
Tomando aquele prémio e doce glória
Do trabalho que faz clara a memória.


40
E para isso queria que, feridas
As filhas de Nereu no ponto fundo,
D'amor dos Lusitanos incendidas
Que vêm de descobrir o novo mundo,
Todas numa ilha juntas e subidas,
(Ilha que nas entranhas do profundo
Oceano terei aparelhada,
De dões de Flora e Zéfiro adornada);

41
Ali, com mil refrescos e manjares,
Com vinhos odoríferos e rosas,
Em cristalinos paços singulares,
Fermosos leitos, e elas mais fermosas;
Enfim, com mil deleites não vulgares,
Os esperem as Ninfas amorosas,
D'amor feridas, para lhes entregarem
Quanto delas os olhos cobiçarem.

42
Quero que haja no reino Neptunino,
Onde eu nasci, progénie forte e bela;
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potência se rebela,
Por que entendam que muro Adamantino
Nem triste hipocrisia vale contra ela.
Mal haverá na terra quem se guarde,
Se teu fogo imortal nas águas arde.»

[Canto X]
82
Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.



Notas:
1. Os versos cantados estão assinalados com fundo a água.
2. Na versão áudio, a canção da deusa Dione tem mais uma estrofe (incipit "Bem vês as Lusitânicas fadigas").


* [Créditos gerais do disco:]
Grupo vocal solista sob a direcção de Jose Foronda (tenor), com Teresa Bordoy (soprano), Lola Quijano (contralto), Miguel Sola (barítono), Jesus Rodriguez (baixo) e Ramón Sola (baixo)
Coro de Câmara de Lisboa (Teresita Gutierrez Marques, directora), com a colaboração de Paulo Maria Rodrigues (tenor solo)
Teresa Salgueiro – voz solo ("Deusa Dione")
Christian Mouyen – contínuo
Benjamin Torrijo – teclados, piano e processamento digital
Juan Carlos de Mulder – tiorba
Miguel Iniesta – guitarras e violão
Enrique Rioja – trompetes
Antonio Faus – oboé
Luis Morato – trompa
Antonio Enguídanos – fagote
Kurt Holleen & João Nunes – violoncelos
Jacek Cygan – violino solo
Emilian Sczygiel – viola alto solo
Hamid Gazerany – violoncelo solo
Grupo de percussão sinfónica sob a direcção de Javier Benet, com a colaboração de Teodoro Vinagre, Felix Puertas, Enrique Llopis, Margarita Prieto, Lourdes de Vera
Direcção de solistas, coros e orquestra – Alejandro Massó
Coordenação das gravações – Enrique Máximo
Gravado em Paço d'Arcos (Estúdios Valentim de Carvalho) e em Madrid, de Junho de 1989 a Abril de 1990
Engenheiro de som – Manuel Gama



Capa da edição videográfica (VHS) do filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (Atalanta Filmes, 1992)



Capa da edição videográfica (DVD) do filme "'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (Madragoa Filmes, 2001)



Capa do CD "'Non', ou a Vã Glória de Mandar: Banda Sonora Original" (Editions Milan Music, 1990)




"Douro, Faina Fluvial" (1931) – versão de 1994, com música original de Emmanuel Nunes
[Versão com música original de Luís de Freitas Branco >> aqui]

Sinopse:
A azáfama da zona ribeirinha da cidade do Porto é ilustrada tendo o rio Douro como personagem central, como pano de fundo. Homens, mulheres e crianças, gente humilde, agitam-se no confronto com ele, convergindo num só rosto. O retrato dentro de retrato dá-nos a ver o lugar no tempo e o seu ambiente humano.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"Hulha Branca" (1932)

Sinopse:
Filmado com a mesma câmara e os restos de película de "Douro, Faina Fluvial", retrata a inauguração da Central Hidroeléctrica de Ermal, no Rio Ave. A central foi fundada em Janeiro de 1932, pelo pai de Manoel de Oliveira, Francisco José de Oliveira, um industrial que soube enxergar antecipadamente a importância da energia eléctrica numa época em que ela era ainda considerada um luxo. Foi o primeiro fabricante de lâmpadas eléctricas em Portugal. Após a sua estreia comercial em 1938, "Hulha Branca" foi considerado um filme perdido. Só voltou a circular em 1998, após o seu restauro pela Cinemateca Portuguesa.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"Já se Fabricam Automóveis em Portugal" (1938)

Sinopse:
Reflexo da paixão automobilística do cineasta, que na juventude participou de corridas de automóveis, inclusive no Brasil, o filme retrata a tentativa de fabricação de um novo modelo da fábrica Ford na cidade do Porto. O modelo fora especialmente criado por Eduardo Ferreirinha, o Ed, e chamava-se justamente Edfor em sua homenagem. Ferreirinha, que fora o criador dos três automóveis em que Manoel de Oliveira competiu, criou este novo modelo usando um motor Ford, um chassis modificado e uma carroçaria própria. Foi ao volante de um destes carros que o cineasta venceu uma prova em 1938, a II Rampa do Gradil.



"Famalicão" (1941)

Sinopse:
Origens lendárias de Vila Nova de Famalicão, centro de comunicação rodoviária e ferroviária entre várias localidades do Norte. As alegres e pitorescas ruas. Acontecimentos registados nos jornais da terra. Edifícios: Hospital da Misericórdia, Câmara Municipal, Monumento a Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide. Trabalho nos campos. Igrejas. Os arredores românticos. Indústrias de fiação e tecidos, de botões e de relógios (única na Península). Aspectos típicos: vindimas, malhadas, feiras.



"Aniki-Bóbó" (1942)
Baseado no conto "Meninos Milionários – O Jogo dos Polícias e dos Ladrões" (1935), de João Rodrigues de Freitas.

Sinopse:
A primeira longa-metragem de Manoel de Oliveira, segundo o conto de Rodrigues de Freitas, "Meninos Milionários", em cópia restaurada. O título é a invocação de um jogo infantil para dividir os que serão "polícias" e "ladrões". Uma belíssima incursão no mundo da infância que é, simultaneamente, um documento excepcional sobre a cidade do Porto no começo da década de 40.



"O Pintor e a Cidade" (1956)

Sinopse:
O pintor deambula pelas ruas do Porto e representa nas suas aguarelas aquilo que vai observando: os prédios, as crianças, as pessoas que se deslocam entre casa e trabalho, o bulício da cidade...


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"O Pão" (1959)

Sinopse:
O pão de cada dia obriga a um esforço constante, de que o homem sai dignificado... O ciclo da semente: fecundação, nascimento, recolha, transporte do grão, moagem industrial, panificação moderna, distribuição e consumo do pão. Regresso da semente à terra. Um novo ciclo se inicia...



"Acto da Primavera" (1963) [excerto]
Representação popular do "Auto da Paixão", de Francisco Vaz de Guimarães (séc. XVI), na aldeia da Curalha (concelho de Chaves).

Sinopse:
Representação da Paixão de Cristo numa aldeia de Trás-os-Montes, também mostra, de modo magistral, a imperceptível passagem do quotidiano à representação do sagrado e o regresso ao quotidiano. Dois filmes em que ritual e teatro, de certa forma, se confundem.



"A Caça" (1964)

Sinopse:
Dois rapazes desocupados deambulam pelo campo. Simulam a caça (mas não têm espingardas), emaranham-se, perdem-se de vista, até que um deles cai no pântano, começando a afundar-se lentamente. O amigo grita por socorro. Vários homens mobilizam-se, e vão acudir. Vão dar com ele coberto de lama preta, enterrado. Só a cabeça de fora, continua a gritar. É preciso fazer um cordão humano para o tirar dali. Mas esta cadeia de solidariedade rompe-se porque os salvadores começam a discutir entre si. Um homem berra para lhe darem a mão e estica o seu braço: é maneta.



"As Pinturas do Meu Irmão Júlio" (1965)
Com versos e comentários de José Régio; música original de Carlos Paredes.

Sinopse:
Obra documental, dedicada ao pintor Júlio Reis, irmão do escritor José Régio, que se torna, a partir daqui, um frequente colaborador de Manoel de Oliveira. O fio condutor está nas memórias de José Régio, reconstituindo a figura do irmão a partir das lembranças de sua convivência na casa em que nasceram e onde estão guardados muitos dos seus quadros.



"O Passado e o Presente" (1972)
Baseado na peça de teatro homónima (1971), de Vicente Sanches.

Sinopse:
Os ridículos, a incoerência, o parasitismo da alta burguesia. Tudo gira em torno do desprezo de Vanda, uma jovem mulher, pelos vários maridos em vida, e a mórbida veneração que lhes dedica, uma vez viúva. O resultado desta perpetuação do luto é, entre outros, que Vanda não tem vida sexual (a ameaça fálica é assim evitada de cada vez).



"Benilde ou a Virgem-Mãe" (1975)
Baseado na peça de teatro homónima (1947), de José Régio.

Sinopse:
No Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. O médico, chamado em segredo pela governanta, Genoveva, confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu homem algum, e que se está à espera de um filho é por vontade de um anjo de Deus. Um vagabundo circunda a casa, com uivos tremendos, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde da intervenção divina, perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, destruído pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"Amor de Perdição" (1979)
Baseado no romance homónimo (1862), de Camilo Castelo Branco.

Sinopse:
No início do século XIX, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, pertencendo a duas famílias rivais, amam-se apaixonadamente. Teresa está prometida a um primo seu, Baltazar Coutinho. A jovem decide entrar num convento. Simão mata Baltazar e é preso. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe perdoar amar a filha do seu pior inimigo. Das respectivas celas, Simão e Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana (uma jovem criada que ama secretamente Simão). Condenado à morte, Simão é indultado e enviado para o exílio. No Porto, embarca para a Índia e despede-se de Teresa que, ao longe, lhe acena um último adeus, pelas grades da janela da sua cela, na torre do convento. Teresa cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem, poucos dias depois. No funeral, a bordo, Mariana, que o seguia para o desterro, atira-se ao mar para se agarrar ao seu cadáver e com ele morrer.



"Francisca" (1981)
Baseado no romance "Fanny Owen" (1979), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
«"Amor de Perdição" deu a Manoel de Oliveira o texto da nossa realidade romântica. O texto de Agustina Bessa-Luís, "Fanny Owen", o pretexto de evocar a ficção dessa realidade. O resultado é o mais belo, sumptuoso e delicado filme do cinema português... História impossível, como são as histórias reais de dois seres de ficção em busca de um pouco de realidade, vítimas coniventes da ficção sem inocência de Camilo... "Francisca" não é apenas a prova de maturidade de um grande cineasta... O seu reino (de Manoel de Oliveira) é outro: a sedução da obscuridade luminosa da paciência.» (Eduardo Lourenço)



"Nice - À Propos de Jean Vigo" (1983)


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"Lisboa Cultural" (1983)

Sinopse:
Um filme sobre a cidade de Lisboa, nas suas múltiplas dimensões culturais, as quais abrangem o cruzamento de raças, de povos, de hábitos, de costumes. Um centro cosmopolita que, para além das pessoas, dá ênfase ao património arquitectónico, assim como a uma série de lugares da capital portuguesa.



"Le Soulier de Satin" ["O Sapato de Cetim"] (1985)
Baseado na peça de teatro homónima (1929), de Paul Claudel.

Sinopse:
Durante o Século de Ouro espanhol, Doña Prouhèze, mulher de um nobre, ama profundamente Don Rodrigo. Este é forçado a deixar Espanha, rumando à América – onde será vice-rei –, e o rei impõe a Doña Prouhèze reger a cidadela de Mogador, em África. Prouhèze manda uma carta a Don Rodrigo, mas este só a lê dez anos depois. Deixando o Novo Continente, Rodrigo chega a Mogador, para reencontrar Prouhèze, que acaba por morrer enclausurada na fortaleza. Passados dez anos, Rodrigo, que ficou mutilado, conhece Sept-Epées, a filha de Prouhèze.



"Mon Cas" ["O Meu Caso"] (1986)
Baseado na peça de teatro "Mário ou Eu-Próprio - O Outro" (1957), de José Régio.

Sinopse:
Pouco antes do início de uma representação teatral, um desconhecido entra em cena para expor o seu próprio caso. Logo é interrompido por um trabalhador do teatro, depois por uma actriz, até ao autor e por fim toda a companhia. Cada qual acaba por falar do seu "próprio caso" e gera-se a discussão. A cena vai finalmente ter lugar, mas tudo recomeça da mesma maneira. Ouve-se então um texto de Beckett. Mais uma vez sobe o pano, desta vez o som está ao contrário, uma verdadeira torre de Babel! Seguidamente, assiste-se ao diálogo de Job com Deus, com os mesmos actores da peça a fazerem de amigos de Job. No final, Job e a mulher são felizes na "Cidade Ideal", de Piero della Francesca.



"Os Canibais" (1988)
Baseado no conto homónimo (1868), de Álvaro Carvalhal; música original de João Paes.

Sinopse:
Filme-ópera, com música de João Paes, um dos mais livres e originais de toda a obra de Oliveira. Versão irónica do tema dos "amores frustrados", que tanto ocupou o cineasta nos anos 70, em que a perversão das relações amorosas e o sacrifício carnal são levados, literalmente, às últimas consequências. Também é um filme atravessado de uma ponta a outra por um dos temas obsessivos do realizador: a representação. Representação que passa de um tom macabro ao de um Carnaval.



"'Non', ou a Vã Glória de Mandar" (1990)
Música original de Alejandro Massó.

Sinopse:
O pano de fundo deste filme é a Guerra Colonial portuguesa, durante a qual um oficial, o alferes Cabrita, relata aos seus companheiros de armas, enquanto fazem a patrulha pela savana africana, a História de Portugal, uma epopeia construída em torno de grandes derrotas. O enredo termina com a eclosão da Revolução de 25 de Abril de 1974, dia em que o oficial morre, depois da sua patrulha ter caído numa emboscada.



"A Divina Comédia" (1991)

Sinopse:
Afinal nós é que compomos a grande comédia humana a que chamo "A Divina Comédia": o prazer pela vida, o sexo como ídolo, o poder como ambição suprema e a morte como limitação de tudo; ou a aceitação do sofrimento e da ressurreição como verdadeira glória!? Eis o dilema! Afinal um filme histórico ou, se preferirem, uma parábola sobre a civilização ocidental.



"O Dia do Desespero" (1992) [1/2]
Baseado em cartas de Camilo Castelo Branco e num trecho do romance "O Amor de Perdição" (1862).

Sinopse:
"O Dia do Desespero" conta a história verídica dos últimos anos do eminente escritor português de século XIX, Camilo Castelo Branco. Esta evocação baseia-se, fundamentalmente, em algumas das suas cartas. Os textos são, poderemos dizê-lo, o fio condutor da evolução dramática de um homem viril, polémico e romântico que contrastava com o espírito funesto, instável e irresignado. Camilo afunda-se, sem remissão, num conflito íntimo, ou melhor, interno, "um drama em gente", como diria Fernando Pessoa. Havia de ser a cegueira o impulsor para o acto final da sua vida. Acto final da sua vida? E o além-túmulo?



"O Dia do Desespero" (1992) [2/2]



"Vale Abraão" (1993)
Baseado no romance homónimo (1991), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
"Vale Abraão" é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá – "acidentalmente? Quem sabe?" – num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile.



"A Caixa" (1994)
Baseado na peça de teatro homónima (1981), de Prista Monteiro.

Sinopse:
Numa inclinada rua do bairro popular de Alfama, um cego perdeu a caixa de madeira onde são depositadas as esmolas e pequenas recordações da venda simbólica de chaveiros de recordação para turistas. O que guarda naquela caixa de madeira preta, pintada com a misteriosa sigla ABLB, pode dizer-se que é todo o seu sustento. A filha do cego, sempre distraída com os trabalhos domésticos, cai estendida sobre a pilha de roupa que lava para os seus clientes. O seu marido, desempregado como o resto dos amigos, vive da caixa de esmolas do velho e do trabalho da mulher. Quando a caixa desaparece, o assunto torna-se motivo de conflito violento, quase uma tragédia. Mas não há mal que venha por bem, e a ironia do destino possibilita que a filha do cego se consiga libertar da carga familiar que suportou durante todo aquele tempo.


[Vídeo em falta – a disponibilizar logo que possível]
"O Convento" (1995)
Baseado no romance "As Terras do Risco" (1994), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
O professor Michael Padovic é um investigador norte-americano que está a trabalhar numa tese que se destina a provar que Shakespeare tinha ascendência espanhola e não britânica. Mas faltam-lhe alguns documentos essenciais, os quais julga estarem nos arquivos do antiquíssimo Convento da Arrábida, em Portugal. Por esta razão, ele e a sua mulher, Hélène, viajam de Paris até à Arrábida, onde se instalam. O seu anfitrião é o guardião do convento, uma estranha personagem que dá pelo nome de Baltar. Há qualquer coisa de misterioso em Hélène que cativa Baltar. Para distrair a atenção do marido dela, sugere-lhe que ele contrate como sua assistente, Piedade, a nova arquivista do convento. Hélène descobre que o marido a rejeita em favor do trabalho e o facto de Piedade ser jovem e bonita aumenta ainda mais a tensão, servindo ao mesmo tempo os propósitos diabólicos de Baltar e a subtil manipulação de Hélène. A situação torna-se extremamente bizarra e culmina de forma inesperada.



"Party" (1996)
Baseado na peça de teatro "Party: Garden-Party dos Açores – Diálogos" (1996), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
Leonor e Rogério fazem dez anos de casados. Por sugestão de Leonor, organizaram um "garden party", em comemoração do acontecimento, nas esplanadas do seu palácio, herança que os antepassados do seu marido lhe deixaram em Ponta Delgada, nos Açores. Leonor, tomada de súbito capricho, pensa em cancelar o "garden party". Rogério contesta: «Impossível, Leonor! Os convites foram enviados e os convidados já estão à porta.» Entre os convidados há dois amigos especiais, Irene e Michel, que, de quando em quando, vêm aos Açores. Irene é uma famosa actriz grega de idade madura, que se faz acompanhar do amante Michel, um "bon vivant" francês, pretenso D. Juan, apesar da idade. Michel sente-se na obrigação de fazer corte à Leonor, jovem, elegante, bela de rosto, alegre e atractiva. Leonor parece aceitar o jogo que não passa despercebido nem ao marido nem à amante de Michel, os quais não intervêm e até parece divertirem-se com isso. No auge da festa levanta-se um fortíssimo vendaval que arrebata os guarda-sóis, derruba as mesas, arrasta as cadeiras e põe os convidados em debandada. Mais tarde, aquele casal de amigos estrangeiros, Irene e Michel, voltam aos Açores, são convidados por Leonor e Rogério para jantar no palácio onde, cinco anos antes, tinham estado no "garden party" que findou desastradamente. Michel não esqueceu Leonor e esta não deixou de guardar uma grande curiosidade por este particular sedutor, o que fez com que o antigo "flirt" renascesse, tanto mais que Leonor se enfastiava com um quotidiano vulgar que ela adorava quebrar, fosse com o que fosse, e a libertasse para aquele espírito de aventura que dentro dela fervilhava. É então que acontece o inesperado.


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"Viagem ao Princípio do Mundo" (1997)

Sinopse:
Um realizador português contrata um actor francês para um filme que vai ser uma co-produção franco-portuguesa. O pai do actor francês, falecido muito jovem, era de origem portuguesa, embora a sua mãe fosse francesa. Durante a rodagem, o actor começa a pensar no seu falecido pai e decide visitar a vila onde ele tinha nascido, na esperança de encontrar a tia ainda viva. O realizador e outros dois actores sugerem acompanhá-lo na viagem, servindo de intérpretes, já que ele não fala português. Durante o caminho, o realizador (Manoel) começa a lembrar-se da sua infância nesta zona de Portugal. É então que menciona uma personagem chamada Pedro Macao, cuja estátua é descoberta junto à berma da estrada e que parece encarnar o destino dos homens na terra: um destino complicado e solitário. Quando chegam à vila, a tia do actor francês parece fria e desconfiada. Está cautelosa quanto a este seu sobrinho há muito desaparecido que nem sequer fala a mesma língua que ela. Também não aceita a presença do realizador nem a dos dois intérpretes que substitui pela sua nora. A tia é tão taciturna que, de forma irritada, o actor francês acaba por puxar as mangas para cima apontando para as veias para lhe explicar que são os dois do mesmo sangue. É nesta altura que Ema – a velha tia – começa a amolecer e os dois tentam lembrar-se o mais possível do pai do actor francês. Discutem também as dificuldades da vida na aldeia e as mudanças avassaladoras que a modernidade tem trazido. Por fim, o sobrinho diz-lhe que gostaria de visitar a campa do seu avô no cemitério local.



"Inquietude" (1998)
Baseado no conto "A Mãe de Um Rio" (1981), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
São homens famosos, cobertos de honrarias, incensados por todos... mas velhos, muito velhos. E então, para que o filho escape à decrepitude e à decadência, que já não tardam, o pai incita-o a suicidar-se. O que não vai ser fácil... Quando o pano cai sobre esta nota trágica, estamos nos anos 30, no Porto, onde Susy, uma cocotte, está à beira da morte numa mesa de operações, e resume assim a sua vida: «Tudo isto não é senão um detalhe». Para consolar o dandy que com ela acabara de viver uma história de amor, um amigo conta-lhe a história de Fisalina, uma camponesa que um dia descobre que tem pontas dos dedos em ouro: durante mil anos ela será a mãe de um rio...


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"A Carta" (1999)
Inspirado no romance "La Princesse de Clèves" (1678), de Madame de La Fayette.

Sinopse:
"A Carta" é uma transposição inspirada no romance do século XVII, "La Princesse de Clèves", de Madame de La Fayette, e recriada nos dias de hoje. Mantendo o mesmo pundonor da personagem principal, que na versão "A Carta" é simplesmente a senhora de Clèves, uma vez que a acção já não é entre príncipes, mas num meio de alta sociedade dos dias de hoje. A história desta princesa evidencia um coração que logo se sente invulgar e que por ser tão verdadeiro se faz ainda mais fascinante e enriquecedor do drama e das personagens.



"Palavra e Utopia" (2000)
Com textos do Padre António Vieira (séc. XVII).

Sinopse:
Em 1663, o Padre António Vieira é chamado a Coimbra para comparecer diante do Tribunal do Santo Ofício, a terrível Inquisição. As intrigas da corte e uma desgraça passageira enfraqueceram a sua posição de célebre pregador jesuíta e amigo íntimo do falecido rei D. João IV. Perante os juízes, o Padre António Vieira revê o seu passado: a juventude no Brasil e os anos de noviciado na Bahia, a sua ligação à causa dos índios e os seus primeiros sucessos no púlpito. Impedido de falar pela Inquisição, o pregador refugia-se em Roma, onde a sua reputação e êxito são tão grandes que o Papa concorda em não o retirar da sua jurisdição. A rainha Cristina da Suécia, que vive em Roma desde a abdicação do trono, prende-o na corte e insiste em torná-lo seu confessor. Mas as saudades do seu país são mais fortes e Vieira regressa a Portugal. Só que a frieza do acolhimento do novo rei, D. Pedro, fazem-no partir de novo para o Brasil onde passa os últimos anos da sua vida.


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"Vou Para Casa" (2001)
Baseado no livro "Je Rentre à la Maison" (2001), de Jacques Parsi.

Sinopse:
Gilbert Valence é um actor de teatro, e o seu talento e a sua carreira deram-lhe os papéis mais importantes que um actor pode desejar. Uma noite, no fim de uma representação, a tragédia irrompe na sua vida: o seu agente e velho amigo, Georges, diz-lhe que a sua mulher, a filha e o genro acabaram de falecer num acidente de viação. O tempo passa, a vida volta à normalidade. Gilbert Valence partilha agora o seu tempo entre o seu neto, que adora, e o teatro. Algum tempo mais tarde, o seu agente propõe-lhe um papel de protagonista num telefilme com os ingredientes em moda: droga, sexo e violência. E ele zanga-se: não teve a carreira que teve para agora aceitar comprometer-se num trabalho que lhe repugna totalmente, sob o pretexto que ganhará muito dinheiro. Mas no dia em que um realizador americano lhe propõe fazer Ulisses, uma adaptação do romance de Joyce, ele aceita com entusiasmo. No estúdio, com a iluminação e o décor instalados, o realizador sugere um ensaio: Gilbert Valence tem algumas hesitações, algumas falhas de memória, mas isso não é muito grave: retomarão no dia seguinte. Mas no dia seguinte, em plena rodagem, o velho actor sente o mundo escapar-se-lhe, e não consegue enfrentar a realidade. O texto foge-lhe. E ele pára e diz muito calmamente: «Vou para casa...»



"Porto da Minha Infância" (2001)

Sinopse:
«Porto da Minha Infância» é um repositório de recordações da infância e juventude do cineasta e, ao mesmo tempo, um retrato do Porto segundo a sua visão singular. O filme, uma encomenda da Sociedade Porto 2001, cumpre-se 70 anos após "Douro, Faina Fluvial" e marca o reencontro do autor com o filme-documentário, contando também com intervenções habituais do realizador: Agustina Bessa-Luís, Leonor Silveira e Duarte de Almeida (João Bénard da Costa).



"O Princípio da Incerteza" (2002)
Baseado no romance "O Princípio da Incerteza: Jóia de Família" (2001), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
Desde a sua infância que António, rapaz rico e de boas famílias, e José, filho de uma criada, partilham tudo, vigiados pelo seu olhar protector. E quando adultos, os pequenos jogos do amor não fazem senão aumentar essa proximidade: António casa-se com Camila, por quem José sempre estivera apaixonado, e tem como amante Vanessa, sócia de José nos seus negócios pouco recomendáveis.



"Um Filme Falado" (2003)
Baseado no livro de baseado no livro de Jacques Parsi.

Sinopse:
Verão de 2001. A pequena Maria Joana viaja com a mãe, Rosa Maria, professora universitária, ao encontro do pai, num cruzeiro que parte de Lisboa e se dirige a Bombaim. Uma viagem de recreio que é também uma viagem pela civilização mediterrânica, a marca mais profunda da cultura ocidental. Da Grécia Antiga aos Romanos, as influências árabes, o Antigo Egipto, Constantinopla, os Descobrimentos Portugueses, a Revolução Francesa. No cruzeiro viajam, para além do comandante do navio, um americano de origem polaca, três mulheres famosas, de diferentes nacionalidades: uma empresária francesa de renome, uma antiga modelo italiana, uma actriz e professora grega. O navio avança no seu percurso. Mas algo terrível está para acontecer.



"O Quinto Império - Ontem Como Hoje" (2004)
Baseado na peça de teatro "El-Rei Sebastião" (1949), de José Régio.

Sinopse:
«O Quinto Império - Ontem Como Hoje», baseia-se na peça teatral "El-Rei Sebastião", de José Régio, na qual se pretendeu analisar o rei, o homem e a mítica personagem. O rei D. Sebastião, depois da estrondosa derrota na Batalha de Alcácer Quibir (1578), mais conhecida pela Batalha dos Três Reis, e por jamais ter sido identificado o seu corpo após a batalha, tornou-se no mito do Encoberto, ele que fora antes o Desejado e o destinatário ao mito. Mito, aliás cantado e exaltado nos sermões do Padre António Vieira (século XVII), pelo filósofo Sampaio Bruno (século XIX), e no século XX pelo poeta Fernando Pessoa e pelo filósofo José Marinho, entre outros escritores e pensadores portugueses, como ainda por estudiosos estrangeiros.



"Do Visível ao Invisível" (2005)


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"Espelho Mágico" (2005)
Baseado no romance "O Princípio da Incerteza: A Alma dos Ricos" (2002), de Agustina Bessa-Luís.

Sinopse:
Alfreda, uma jovem aristocrata, vive fixada na ideia de que assistirá a uma aparição da Virgem Maria. Afectada por uma doença grave, Alfreda procura apoio junto de um padre, de uma freira e de um professor inglês. Entretanto, um plano é armado para satisfazer o desejo de Alfreda, e "aliviá-la" de algum do seu dinheiro...



"Belle Toujours" ["Bela Sempre"] (2006)

Sinopse:
«"Belle Toujous" ocorreu-me à ideia inesperadamente e, como tinha gosto de prestar a minha homenagem a Luis Buñuel e a Jean Claude Carrière, fiquei feliz por ter encontrado o modo de o fazer, talvez o melhor, e meti mãos à obra. De que se trata? De retomar duas das estranhas personagens do filme "Belle de Jour" [1967], e fazê-las reviver, trinta e oito anos depois, na estranheza de um segredo que só ficara na posse da personagem masculina e cujo conhecimento se tornara crucial para a personagem feminina». (Manoel de Oliveira)


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"Cada Um, o Seu Cinema" (2007)

Sinopse:
Um filme absolutamente único, realizado por ocasião dos 60 anos do Festival de Cannes, o festival de cinema mais importante do mundo, reúne o modo como 33 cineastas de 25 países olham o cinema e as salas de cinema, lugar de comunhão dos cinéfilos do mundo inteiro. Objecto cinematográfico imperdível, autêntico compêndio do estado do mundo do cinema e das singularidades de cada cineasta.



"Cristóvão Colombo - O Enigma" (2007)
Inspirado no livro "Columbus Was 100% Portuguese" (1987), de Manuel Luciano da Silva e Sílvia Jorge da Silva – traduzido e publicado em Portugal com o título "Cristovão Colon (Colombo) era Português" (2006).

Sinopse:
Não se trata nem de um filme científico ou histórico, nem de carácter propriamente biográfico, mas sim de uma ficção de teor romanesco, evocativa da grandiosa gesta dos Descobrimentos Marítimos, onde se apresenta a novidade de que Cristóvão Colombo era, afinal, de origem portuguesa, nascido na vila alentejana de Cuba, e ter por isso dado à maior ilha por ele descoberta no mar das Antilhas, o nome da sua terra natal, Cuba.



"Rencontre Unique" ["Encontro Único"] (2007)


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"Singularidades de uma Rapariga Loura" (2009)
Baseado no conto homónimo (1874), de Eça de Queiroz.

Sinopse:
Numa viagem de comboio para o Algarve, Macário conta as atribulações da sua vida amorosa a uma desconhecida senhora: mal entrara para o seu primeiro emprego, um lugar de contabilista no armazém em Lisboa do seu tio Francisco, apaixonara-se perdidamente pela rapariga loira que vivia na casa do outro lado da rua, Luísa Vilaça. Conheceu-a e quis de imediato casar com ela. O tio, discordando, despediu-o e expulsou-o de casa. Macário conseguirá enriquecer em Cabo-Verde e quando já tem a aprovação do tio para finalmente casar com a sua amada, descobre então a "singularidade" do carácter da noiva.



"O Estranho Caso de Angélica" (2010)

Sinopse:
Uma noite, Isaac, jovem fotógrafo e hóspede da pensão de Dona Rosa, na Régua, é chamado com urgência por uma família abastada, para tirar o último retrato da filha, Angélica, uma jovem mulher que morreu logo após o casamento. Na casa, em luto, Isaac descobre Angélica e fica estupefacto com a sua beleza. Quando encosta o olho à lente a jovem parece voltar à vida, só para ele. Isaac apaixona-se instantaneamente por ela. A partir desse instante, Angélica irá assombrá-lo dia e noite, até à exaustão.


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"Painéis de São Vicente de Fora - Visão Poética" (2010)



"O Gebo e a Sombra" (2012)
Baseado na peça de teatro homónima (1923), de Raul Brandão.

Sinopse:
Apesar da idade e do cansaço, Gebo persegue a sua actividade de contabilista para sustentar a família. Vive com a mulher, Doroteia, e a nora, Sofia, mas é a ausência do filho, João, que os preocupa. Gebo parece esconder algo em relação a isso, em particular a Doroteia, que vive na espera ansiosa de rever o seu filho. Sofia, do seu lado, espera também o regresso do marido, ao mesmo tempo que o teme. Subitamente João reaparece e tudo muda.


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"O Velho do Restelo" (2014)

Sinopse:
Um mergulho livre e sem esperança na História, tal qual como a conhecemos, como um sedimento fértil, na memória de Manoel de Oliveira. Oliveira reúne num banco do século XXI Dom Quixote, o poeta Luís Vaz de Camões e os escritores Teixeira de Pascoaes e Camilo Castelo Branco. Juntos, levados pelos movimentos telúricos do pensamento, eles deambulam entre o passado e o presente, derrotas e glórias, vacuidade e alienação, em busca da inacessível estrela.

Nota:
As sinopses foram retiradas do Sapo Cinema.

01 abril 2015

Evocando o programa "Em Órbita"


Elenco do "Em Órbita" em 1968 (da esquerda para a direita):
Pedro Albergaria, Cândido Mota, Jorge Gil e João Manuel Alexandre

No dia 1 de Abril de 1965, às 19:14, começava, na frequência modulada (FM) do Rádio Clube Português, aquele que viria a tornar-se um dos programas de maior culto nos anais da rádio em Portugal: o "Em Órbita". Nessa emissão inaugural, os primeiros sons são os do instrumental "Revenge" ["Vingança"], dos britânicos Kinks, tomado como indicativo, surgindo depois a voz de Pedro Castelo, que se manterá na locução durante um ano, cedendo então o lugar a Cândido Mota. O âmbito editorial do programa é bem definido desde o início:

 - Divulgação, em exclusivo, das realizações mais representativas da música popular anglo-americana.
 - Destaque muito particular ao LP em detrimento do "single". O primeiro enquanto prova múltipla de capacidade contra o carácter eventual do segundo.
 - Destaque muito particular aos autores-intérpretes em detrimento dos intérpretes que não criam.

Bob Dylan, Joan Baez, The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Neil Young, Simon & Garfunkel, Peter, Paul and Mary, Procol Harum, The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Nina Simone, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, The Mamas & the Papas, Donovan, Cat Stevens, Fairport Convention, The Beatles, The Rolling Stones, Kinks, Bee Gees, Spencer Davis Group, Traffic, The Animals, Small Faces, Cream, Led Zeppelin, Deep Purple, Mandred Mann, The Who, Jethro Tull, Pink Floyd e Moody Blues contam-se no extenso rol de artistas divulgados, muitos dos quais em primeira mão no éter nacional.
Em Agosto de 1967, é aberta uma excepção para um tema português, "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", pelo Quarteto 1111. Tal opção, pelo ineditismo de que se reveste, requer uma explicação ao auditório. Jorge Gil redige, para o efeito, um texto que Cândido Mota lê ao microfone e que, por permanecer perfeitamente actual, aqui se transcreve na íntegra (para que sirva de lição aos directores de rádios e fazedores de 'playlists' que veneram a escória vinda de fora, bem como os subprodutos internos dela macaqueados, e ostracizam a criação de matriz portuguesa, feita com cuidado e bom gosto):

"Em Órbita" vai proceder hoje à transmissão de um trecho de música popular portuguesa. Porque se trata de uma medida sem precedentes neste programa, e por termos o maior respeito pela nossa própria coerência e por todos quantos nos acompanham com a sua adesão consciente e construtiva, têm pleno cabimento algumas palavras introdutórias ao trecho que vamos apresentar. Desde sempre que alguns dos mais conhecidos intérpretes e conjuntos portugueses de música ligeira nos têm procurado, seguindo modalidades várias de aproximação no sentido de "Em Órbita" divulgar as suas respectivas realizações, em amostra, em disco ou em registo magnético. Em face dessas sucessivas tentativas, sempre nos recusámos a elas aludir, por considerarmos que a totalidade dessas realizações não justificava o nosso interesse em abrir excepções, quer por entendermos que a sua transmissão iria ocupar tempo que poderia ser preenchido com larga vantagem pela nossa música habitual, quer por considerarmos que nenhuma delas reunia as condições mínimas para poder representar qualquer coisa de semelhante a uma tentativa honesta e inédita do lançamento das bases da música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteiro, de alto a baixo.
Por várias vezes e sob diversos pretextos, temos aqui exprimido alto e bom som que somente transmitiríamos qualquer modalidade de música popular portuguesa que tivesse um mínimo daqueles requisitos que poderemos condensar assim:
  1. Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
  2. Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo-internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
  3. Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Benidorm.
  4. Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse, de forma a não deixar dúvidas, o apelo a uma imitação grotesca do que se faz no estrangeiro, quer na forma de cópia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
Estes, portanto, os requisitos mínimos que sempre exigimos a nós próprios e aos que nos procuraram com pedidos de transmissão. Nunca nos limitámos, porém, a uma recusa seca e peremptória. Os nossos pontos de vista sempre os exprimimos desenvolvidamente, em particular e em público.
Os que nos ouvem com regularidade devem recordar-se do que aqui foi dito sobre este mesmo tema no ano passado. As nossas sugestões sobre os caminhos a seguir na nossa opinião ficaram então bem claras. Recordemos algumas delas:
  • Recurso ao folclore português nas suas múltiplas variedades e manifestações.
  • A ligação íntima à realidade portuguesa nos seus mil e um aspectos e facetas.
  • Recurso à poesia portuguesa popular ou erudita, medieval, clássica ou contemporânea.
  • O aproveitamento das formas melódicas e rítmicas da música popular portuguesa, ainda não adulterada.
  • A revisão total dos temas e respectiva forma de expressão com base na construção lírica dos poetas da literatura portuguesa, do "Cancioneiro Geral", de Garcia de Resende, aos poetas da actual geração de Coimbra.
Sem preocupações de síntese, estas são algumas das formas possíveis, no nosso entender, de encarreirar a música popular portuguesa para alguma coisa de novo, de verdadeiro e de autêntico. Há anos que vimos proclamando isto. Nunca ninguém demonstrou ou procurou demonstrar que no plano dos princípios, e em concreto, estávamos errados. Posto isto, temos, para nós, que o trecho que vamos hoje apresentar, preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.
Tendo por título "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português, é tocado e cantado por portugueses. Não vamos fazer uma apreciação exaustiva desta gravação, das suas qualidades que são muitas, e dos seus defeitos que terá alguns.
Vamos apenas apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo. Assim é desde logo um apontamento especial sobre os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais, e num período em que neste programa se dá cada vez mais importância aos criadores e cada vez menos aos intérpretes, a gravação que vamos apresentar tem qualidade interpretativa mais do que suficiente – é uma nota que sobressai com rara evidência.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos precisos, directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.
Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata. É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação. A Lenda de El-Rei D. Sebastião – escreveu José Cid – é o Quarteto 1111. (texto de Jorge Gil lido por Cândido Mota, na edição em que foi transmitida "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", em Agosto de 1967).

Nesse ano, o "Em Órbita" foi distinguido com dois prestigiosos galardões: o Prémio da Casa da Imprensa (para melhor programa de rádio) e o Prémio Internacional Ondas (numa das poucas vezes em que foi atribuído a Portugal). Em 1969, nasceram as "Novas Aventuras do 'Em Órbita'", com a introdução de música erudita, a qual passou a exclusivo a partir de Janeiro de 1974. «Foi uma opção consciente. A música anglo-saxónica já nada me dizia. A minha transformação operou-se enquanto estudante de Arquitectura, em Belas-Artes, com as lições de "Conjugação das Três Artes", de Manuel Rio de Carvalho», confessará Jorge Gil, mais tarde, a Luís Pinheiro de Almeida (in "Público", 01-Abr-2000)
No PREC, que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português foi nacionalizado, passando, em 1979, a denominar-se Rádio Comercial. João David Nunes, o director de programas da estação, apesar da incompreensão de alguns que consideravam o programa demasiadamente elitista, teve a clarividência de mantê-lo na grelha e, paulatinamente, o auditório foi aumentando, a tal ponto que, nos anos 80, o "Em Órbita" não era apenas um dos programas mais relevantes da rádio portuguesa – era uma verdadeira instituição cultural do país, circunstância que motivou ao musicólogo Rui Veira Nery a redacção do seguinte testemunho, por ocasião do 25.º aniversário (1990):

Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do "Em Órbita" entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa.
Mas a vocação alternativa do "Em Órbita" não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do "Em Órbita" assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.
A partir de 1985, o "Em Órbita" passou a promover concertos de música antiga. Começou com a Orquestra Barroca de Amsterdão, dirigida por Ton Koopman, para celebrar os tricentenários de Bach e Händel, e prosseguiu com produções tão importantes como a primeira audição moderna de "La Guerra de los Gigantes" de Sebastian Duron, pelo Hesperion XX, o "Tristão e Isolda" medieval pela Boston Camerata, os concertos de música de câmara de Jordi Savall, Ton Koopman e do Musica Antiqua de Colónia ou a apresentação monumental das "Vésperas" de Monteverdi dirigidas por Savall, poucos dias antes da sua gravação num dos álbuns mais unanimemente aclamados da discografia europeia dos últimos anos.
O "Em Órbita", que soube sempre ir à frente e desbravar caminhos novos na vida musical portuguesa, deveria ser hoje, após vinte e cinco anos de provas excelentes, uma realidade sólida, acreditada e disputada pelos grupos económicos deste país como interlocutor privilegiado para as suas iniciativas de mecenato cultural. (Rui Vieira Nery, in jornal "Expresso", 1990; livro "Telefonia", de Matos Maia, Lisboa: Círculo de Leitores, 1994 – retirado do blogue "Rádio Crítica")

As palavras de Rui Viera Nery seriam ouvidas, ainda que algo tardiamente, pois a Portugal Telecom viria a patrocinar algumas temporadas de concertos (de 1997 a 2003). Na Rádio Comercial, o "Em Órbita" terminou em 1993, pois na sequência da privatização, os novos donos entenderam (tacanhamente, diga-se de passagem) que já não havia lugar para ele. Recomeçou, em 1994, no ressurgido Rádio Clube Português (na frequência que fora da Rádiogeste), com locução de Cândido Mota, mas apenas se manteve no ar durante seis meses. A 3 de Abril de 1998, sexta-feira, às 23:00, o programa voltaria às ondas hertzianas, desta vez na Antena 2, para duas horas de emissão semanais, preenchidas com a fascinante música antiga, devidamente enquadrada com textos lidos por Paulo Rato. Ter encontrado, finalmente, uma nova guarida para o "Em Órbita", quando o panorama radiofónico em Portugal já se revelava assaz deprimente, foi motivo de regozijo para Jorge Gil. Para ele – acrescente-se – e para todos aqueles (que não eram poucos) que se sentiam órfãos com a sua ausência.

Há dias festivos que merecem aplauso da praça pública numa cerimónia qualquer. A passagem de 33 anos sobre a primeira emissão do "Em Órbita" podia ser um deles, mas não interessa celebrar com serpentina cinzenta, guloseima e rugido de foguete em fogo-de-artifício precário, as vicissitudes dum projecto cultural acidentado que, sabe Deus como, sobreviveu até hoje. Em Portugal, o "Em Órbita" foi pioneiro na divulgação do trabalho dos intérpretes que melhor têm protagonizado o movimento de redescoberta e reavaliação do património musical europeu anterior ao advento do Romantismo, que permaneceu em jazida desleixada até meados do século XX. Com transferência marcada para 3 de Abril, o "Em Órbita" passa a ser transmitido na Antena 2 da RDP. Num tempo em que o nivelamento canalha ganhou estatuto triunfante, é um remédio saber da existência de lugares onde não há morada para os difusores de um vírus sem nome próprio, no qual germina a vaga e perigosa luxúria da distracção. (Jorge Gil, in boletim de programação da Antena 2, Abril de 1998)

Infelizmente, volvidos três anos, Jorge Gil daria por finda a realização do "Órbita", indo para o ar, a 30 de Março de 2001, a última edição original. Por decisão de João Pereira Bastos, director de programas da Antena 2, o programa passaria a regime de reposição, o que aconteceu até 29 de Junho do mesmo ano. Desapareceu então do éter mas não sem deixar muitas saudades. No meu caso, tomei contacto com ele em finais dos anos 80 e logo me conquistou. Ficava literalmente imobilizado diante do aparelho a sorver, verdadeiramente deliciado, aquela maravilhosa nova música antiga, à qual a Antena 2 ainda permanecia indiferente. Convém lembrar que, por esses tempos, a rádio pública transmitia pouquíssima música anterior ao classicismo. Bach, Haendel e Vivaldi, nas esporádicas vezes em que apareciam, era invariavelmente em gravações "romantizadas", não raras vezes bem pouco aliciantes. A milhas de distância, portanto, das cativantes e sedutoras interpretações segundo os preceitos estético-estilísticos de abordar a música barroca e pré-barroca, que começaram a afirmar-se nos anos 60, com Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Frans Brüggen, Alfred Deller, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken, Jordi Savall, Hopkinson Smith e outros.
São muitas as obras e interpretações cuja descoberta devo a Jorge Gil, e entre elas há duas que sempre que as ouço me fazem evocar de imediato o "Em Órbita". Uma é o concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, de Telemann, pelo agrupamento Musica Antiqua de Colónia, sob a direcção de Reinhard Goebel. A outra é a marcha da "Música para o Funeral da Rainha Mary", de Henry Purcell, na leitura de John Eliot Gardiner à frente da Monteverdi Orchestra e do Equale Brass Ensemble. A melodia da segunda nem era estranha aos meus ouvidos pois havia-a escutado, em versão electrónica, no filme "Laranja Mecânica" [>> YouTube] mas a interpretação, historicamente informada, de John Eliot Gardiner teve o sortilégio de me tocar de modo tão profundo e impressivo que deixou marca indelével no meu espírito. O blogue "A Nossa Rádio" apresenta essas duas magníficas gravações, que, conjuntamente com "Revenge" e a "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", funcionam como tributo (singelo, mas penhorado) ao "Em Órbita" e ao seu autor, Jorge Gil.

Registo com agrado que a rádio pública não tenha ficado alheada da efeméride dos 50 anos: a Antena 1 transmitiu, a partir das 19:14, um programa especial conduzido por António Macedo, no qual falaram Pedro Castelo, Pedro Albergaria, Cândido Mota e o técnico José Ribeiro [>> RTP-Play: 1.ª hora2.ª hora]; e a Antena 2 repôs uma edição do "Em Órbita", consagrada a Johann Sebastian Bach, logo a seguir a um depoimento de João David Nunes, o carismático primeiro director de programas da Rádio Comercial que também fez a locução do programa durante largos anos.
Não obstante, mais haveria a fazer para celebrar o "Em Órbita" e nessa medida prestando bom serviço público. Enuncio duas ideias. A primeira é a criação, na Antena 3, de um espaço musical, que até podia chamar-se "Memória do Primeiro 'Em Órbita'", onde só entrasse o repertório que foi divulgado na primeira fase. Oportunidade para o auditório mais jovem descobrir uma imensa plêiade de artistas de primeira água da música anglo-americana que hoje apenas podem ser ouvidos no canal codificado VH1 Classic (para quem o pode pagar, evidentemente) ou em plataformas da internet, como o YouTube ou o Spotify (mas, neste caso, é preciso saber que a música existe para se ir à procura dela). A segunda ideia diz respeito à reposição na Antena 2, diariamente (o que podia muito bem ser entre as 19:00 e as 21:00), de todo o acervo erudito do "Em Órbita", desde Janeiro de 1974. Eu parto do princípio de que os registos existem em arquivo; caso contrário estamos na presença de "terrorismo cultural" (a expressão não é minha – é de João Maria de Freitas Branco ao pronunciar-se acerca da bárbara destruição de boa parte do acervo do programa "O Gosto pela Música" que o pai realizou, nos anos 60 e 70, para a Lisboa 2 e o Programa 2 – a denominação "Antena 2" passou a vigorar a partir dos anos 80, se estou bem informado).


Revenge



Música: Ray Davies e Larry Page
Intérprete: Kinks* (in LP "Kinks", Pye Records, 1964)




(instrumental)


* Ray Davies – guitarra ritmo e harmónica
Dave Davies – guitarra base
Peter Quaife – baixo
Mick Avory – bateria
Produção – Shel Talmy



A Lenda de El-Rei D. Sebastião



Letra e música: José Cid
Intérprete: Quarteto 1111* (in EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", Columbia/VC, 1967)




[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
El-Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com o seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Das altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El-Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El-Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às galés
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
E farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
De El-Rei D. Sebastião

[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
Virá D. Sebastião

E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o Desejado
Pois que nunca mais voltou
El-Rei D. Sebastião
El-Rei D. Sebastião


* Quarteto 1111:
José Cid – voz e teclas
António Moniz Pereira – guitarra eléctrica
Jorge Moniz Pereira – viola baixo
Miguel Artur da Silveira (Michel) – bateria



Concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, TWV 52:d1



Música: Georg Philipp Telemann
Intérpretes: Eric Hoeprich & Lisa Klewitt / Musica Antiqua Köln, dir. Reinhard Goebel (in LP/CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent", Archiv Produktion, 1987)




I. Largo
II. Allegro [a partir de 4':14'']
III. Adagio [a partir de 7':16'']
IV. (Vivace) [a partir de 9':41'']


* Eric Hoeprich & Lisa Klewitt – charamelas
Phoebe Carrai – violoncelo
Thierry Maeder – cravo
Orquestra – Musica Antiqua Köln
Direcção – Reinhard Goebel
Gravado na Deutschlandfunk Sendesaal, Colónia (Alemanha), por Wolfgang Mitlehner, em Junho de 1986



Música para o Funeral da Rainha Mary: Marcha



Música: Henry Purcell (1695)
Intérpretes: Monteverdi Orchestra / Equale Brass Ensemble, dir. John Eliot Gardiner* (in LP "Music for Queen Mary", Erato/Éditions Costallat, 1977, reed. Erato, 1995, Erato/Warner Classics, 2014)




(instrumental)


* Monteverdi Orchestra
Equale Brass Ensemble
Direcção – John Eliot Gardiner
Gravado por Peter Willemoës, na Rosslyn Hill Chapel, Hampstead (Londres), em Fevereiro de 1976
Supervisão de gravação – Michel Garcin



Capa do LP "Kinks" (Pye Records, 1964)





Capa e contracapa do EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" (Columbia/VC, 1967)
Na contracapa vem reproduzido um excerto do texto de Jorge Gil, que fora lido no "Em Órbita" por Cândido Mota



Capa do LP "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do LP "Music for Queen Mary" (Erato/Éditions Costallat, 1977)



Capa do CD "Music for Queen Mary" (Erato, 1995)



Capa do CD "Music for the Queen Mary" (Erato/Warner Classics, 2014)

27 março 2015

Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público (II)

Neste Dia Mundial do Teatro, os ouvintes da Antena 1 são convidados a aceder a uma página onde estão disponíveis pequenos fonogramas relacionados com teatro. É de louvar a iniciativa, mas fica a saber a pouco. Porque não se colocaram ainda online todas as peças (integrais) existentes no arquivo da RDP? 
É claro que, sem prejuízo da existência dessa plataforma, importa não esquecer a emissão hertziana, pois a rádio ainda passa (e muito) por aí. Decorrido um ano sobre o texto "Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público", nada foi feito para alterar esse deplorável estado de coisas, o que não pode – obviamente – deixar de suscitar a mais viva contestação de todos os amantes da arte de Talma. De facto, é de todo incompreensível que, havendo um tão vasto e rico acervo de teatro radiofónico (peças e adaptações de obras romanescas, boa parte das quais realizadas pela mão proficiente de Eduardo Street), o mesmo não seja resgatado, para proveito cultural dos ouvintes. 
Fica formalizado o apelo à nova administração da Rádio e Televisão de Portugal, na esperança de que, pelo menos neste capítulo, se diferencie (pela positiva) das antecessoras.


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