01 abril 2015

Evocando o programa "Em Órbita"


Elenco do "Em Órbita" em 1968 (da esquerda para a direita):
Pedro Albergaria, Cândido Mota, Jorge Gil e João Manuel Alexandre

No dia 1 de Abril de 1965, às 19:14, começava, na frequência modulada (FM) do Rádio Clube Português, aquele que viria a tornar-se um dos programas de maior culto nos anais da rádio em Portugal: o "Em Órbita". Nessa emissão inaugural, os primeiros sons são os do instrumental "Revenge" ["Vingança"], dos britânicos Kinks, tomado como indicativo, surgindo depois a voz de Pedro Castelo, que se manterá na locução durante um ano, cedendo então o lugar a Cândido Mota. O âmbito editorial do programa é bem definido desde o início:

 - Divulgação, em exclusivo, das realizações mais representativas da música popular anglo-americana.
 - Destaque muito particular ao LP em detrimento do "single". O primeiro enquanto prova múltipla de capacidade contra o carácter eventual do segundo.
 - Destaque muito particular aos autores-intérpretes em detrimento dos intérpretes que não criam.

Bob Dylan, Joan Baez, The Byrds, Crosby, Stills & Nash, Neil Young, Simon & Garfunkel, Peter, Paul and Mary, Procol Harum, The Doors, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Nina Simone, Creedence Clearwater Revival, Jefferson Airplane, The Mamas & the Papas, Donovan, Cat Stevens, Fairport Convention, The Beatles, The Rolling Stones, Kinks, Bee Gees, Spencer Davis Group, Traffic, The Animals, Small Faces, Cream, Led Zeppelin, Deep Purple, Mandred Mann, The Who, Jethro Tull, Pink Floyd e Moody Blues contam-se no extenso rol de artistas divulgados, muitos dos quais em primeira mão no éter nacional.
Em Agosto de 1967, é aberta uma excepção para um tema português, "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", pelo Quarteto 1111. Tal opção, pelo ineditismo de que se reveste, requer uma explicação ao auditório. Jorge Gil redige, para o efeito, um texto que Cândido Mota lê ao microfone e que, por permanecer perfeitamente actual, aqui se transcreve na íntegra (para que sirva de lição aos directores de rádios e fazedores de 'playlists' que veneram a escória vinda de fora, bem como os subprodutos internos dela macaqueados, e ostracizam a criação de matriz portuguesa, feita com cuidado e bom gosto):

"Em Órbita" vai proceder hoje à transmissão de um trecho de música popular portuguesa. Porque se trata de uma medida sem precedentes neste programa, e por termos o maior respeito pela nossa própria coerência e por todos quantos nos acompanham com a sua adesão consciente e construtiva, têm pleno cabimento algumas palavras introdutórias ao trecho que vamos apresentar. Desde sempre que alguns dos mais conhecidos intérpretes e conjuntos portugueses de música ligeira nos têm procurado, seguindo modalidades várias de aproximação no sentido de "Em Órbita" divulgar as suas respectivas realizações, em amostra, em disco ou em registo magnético. Em face dessas sucessivas tentativas, sempre nos recusámos a elas aludir, por considerarmos que a totalidade dessas realizações não justificava o nosso interesse em abrir excepções, quer por entendermos que a sua transmissão iria ocupar tempo que poderia ser preenchido com larga vantagem pela nossa música habitual, quer por considerarmos que nenhuma delas reunia as condições mínimas para poder representar qualquer coisa de semelhante a uma tentativa honesta e inédita do lançamento das bases da música popular portuguesa que todos nós, em boa consciência, queremos renovada por inteiro, de alto a baixo.
Por várias vezes e sob diversos pretextos, temos aqui exprimido alto e bom som que somente transmitiríamos qualquer modalidade de música popular portuguesa que tivesse um mínimo daqueles requisitos que poderemos condensar assim:
  1. Autenticidade aferida em função do ambiente e da sociedade portuguesa e da tradição folclórica do nosso país.
  2. Afastamento radical da utilização puramente oportunista de padrões internacionais e pseudo-internacionais, impossíveis de transpor com verdadeira honestidade para o nosso meio.
  3. Rompimento frontal com as formas de música popular comercial mais divulgadas em Portugal e que se caracterizam pela teimosa insistência em seguir os figurinos caducos e provincianos de Aranda do Douro, San Remo ou Benidorm.
  4. Demonstração de um poder criador e interpretativo que ultrapassasse, de forma a não deixar dúvidas, o apelo a uma imitação grotesca do que se faz no estrangeiro, quer na forma de cópia pura e simples, quer na de adaptações apressadas, quer na utilização de uma língua, de um estilo ou de um som de importação, tudo defeituosamente assimilado.
Estes, portanto, os requisitos mínimos que sempre exigimos a nós próprios e aos que nos procuraram com pedidos de transmissão. Nunca nos limitámos, porém, a uma recusa seca e peremptória. Os nossos pontos de vista sempre os exprimimos desenvolvidamente, em particular e em público.
Os que nos ouvem com regularidade devem recordar-se do que aqui foi dito sobre este mesmo tema no ano passado. As nossas sugestões sobre os caminhos a seguir na nossa opinião ficaram então bem claras. Recordemos algumas delas:
  • Recurso ao folclore português nas suas múltiplas variedades e manifestações.
  • A ligação íntima à realidade portuguesa nos seus mil e um aspectos e facetas.
  • Recurso à poesia portuguesa popular ou erudita, medieval, clássica ou contemporânea.
  • O aproveitamento das formas melódicas e rítmicas da música popular portuguesa, ainda não adulterada.
  • A revisão total dos temas e respectiva forma de expressão com base na construção lírica dos poetas da literatura portuguesa, do "Cancioneiro Geral", de Garcia de Resende, aos poetas da actual geração de Coimbra.
Sem preocupações de síntese, estas são algumas das formas possíveis, no nosso entender, de encarreirar a música popular portuguesa para alguma coisa de novo, de verdadeiro e de autêntico. Há anos que vimos proclamando isto. Nunca ninguém demonstrou ou procurou demonstrar que no plano dos princípios, e em concreto, estávamos errados. Posto isto, temos, para nós, que o trecho que vamos hoje apresentar, preenche os requisitos mínimos para a sua divulgação por este programa com todas as implicações que a sua transmissão através de "Em Órbita" acarretam.
Tendo por título "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", é escrito por um português, é tocado e cantado por portugueses. Não vamos fazer uma apreciação exaustiva desta gravação, das suas qualidades que são muitas, e dos seus defeitos que terá alguns.
Vamos apenas apontar o que nela se nos afigura existir de importante e de novo. Assim é desde logo um apontamento especial sobre os aspectos puramente interpretativos, instrumentais e vocais, e num período em que neste programa se dá cada vez mais importância aos criadores e cada vez menos aos intérpretes, a gravação que vamos apresentar tem qualidade interpretativa mais do que suficiente – é uma nota que sobressai com rara evidência.
O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos precisos, directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é, trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país.
Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata. É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação. A Lenda de El-Rei D. Sebastião – escreveu José Cid – é o Quarteto 1111. (texto de Jorge Gil lido por Cândido Mota, na edição em que foi transmitida "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", em Agosto de 1967).

Nesse ano, o "Em Órbita" foi distinguido com dois prestigiosos galardões: o Prémio da Casa da Imprensa (para melhor programa de rádio) e o Prémio Internacional Ondas (numa das poucas vezes em que foi atribuído a Portugal). Em 1969, nasceram as "Novas Aventuras do 'Em Órbita'", com a introdução de música erudita, a qual passou a exclusivo a partir de Janeiro de 1974. «Foi uma opção consciente. A música anglo-saxónica já nada me dizia. A minha transformação operou-se enquanto estudante de Arquitectura, em Belas-Artes, com as lições de "Conjugação das Três Artes", de Manuel Rio de Carvalho», confessará Jorge Gil, mais tarde, a Luís Pinheiro de Almeida (in "Público", 01-Abr-2000)
No PREC, que se seguiu ao 25 de Abril de 1974, o Rádio Clube Português foi nacionalizado, passando, em 1979, a denominar-se Rádio Comercial. João David Nunes, o director de programas da estação, apesar da incompreensão de alguns que consideravam o programa demasiadamente elitista, teve a clarividência de mantê-lo na grelha e, paulatinamente, o auditório foi aumentando, a tal ponto que, nos anos 80, o "Em Órbita" não era apenas um dos programas mais relevantes da rádio portuguesa – era uma verdadeira instituição cultural do país, circunstância que motivou ao musicólogo Rui Veira Nery a redacção do seguinte testemunho, por ocasião do 25.º aniversário (1990):

Tudo começou com um grupo de jovens profissionais da rádio que em meados da década de 60, em pleno reino do nacional-cançonetismo, de Rafael e de Gianni Morandi, tocava regularmente o que de melhor e mais avançado se fazia na música popular anglo-americana, constituindo um espaço radiofónico alternativo que serviu de referência de qualidade a toda uma geração marcada pelo movimento associativo universitário, pela resistência antifascista, pelo trauma da guerra colonial, pela ruptura com os códigos morais pequeno-burgueses dos filmes cor-de-rosa de Doris Day e Marisol. Depois veio o 25 de Abril, a geração que se formara ao som do "Em Órbita" entrou de uma vez por todas na esfera do poder e o próprio grupo dos responsáveis pelo programa se dissolveu enquanto tal para gradualmente se ir convertendo – com diferentes graus de felicidade conforme os casos no novo núcleo dirigente da rádio portuguesa.
Mas a vocação alternativa do "Em Órbita" não se tinha esgotado, quando a consagração institucional do seu primeiro figurino ameaçava transferi-lo das convulsões do desafio para a rotina fácil do sucesso, o programa reconverteu-se radicalmente em termos que muitos consideram quase suicidas e dedicou-se exclusivamente à música erudita, com destaque para o repertório barroco. Os seus níveis de audiência desceram vertiginosamente e tudo indicava que a sua própria sobrevivência estaria em breve seriamente ameaçada.
A nova aposta do "Em Órbita" assenta sobretudo não só na promoção de um repertório pré-romântico quase desconhecido entre nós como na insistência na sua execução com instrumentos e práticas interpretativas originais, um movimento que em toda a Europa lutava ainda arduamente pela conquista de uma credibilidade que lhe era negada pelos herdeiros da tradição interpretativa oitocentista.
O combate de Jorge Gil, que ficara sozinho à frente do programa, começou pouco a pouco a surtir efeito. Os níveis de audiência começaram de novo a subir (no início da década de 80 eram já dos mais altos da rádio portuguesa) e a consequência mais evidente deste fenómeno que se foi verificando foi uma procura crescente de gravações de música antiga no mercado discográfico nacional.
A partir de 1985, o "Em Órbita" passou a promover concertos de música antiga. Começou com a Orquestra Barroca de Amsterdão, dirigida por Ton Koopman, para celebrar os tricentenários de Bach e Händel, e prosseguiu com produções tão importantes como a primeira audição moderna de "La Guerra de los Gigantes" de Sebastian Duron, pelo Hesperion XX, o "Tristão e Isolda" medieval pela Boston Camerata, os concertos de música de câmara de Jordi Savall, Ton Koopman e do Musica Antiqua de Colónia ou a apresentação monumental das "Vésperas" de Monteverdi dirigidas por Savall, poucos dias antes da sua gravação num dos álbuns mais unanimemente aclamados da discografia europeia dos últimos anos.
O "Em Órbita", que soube sempre ir à frente e desbravar caminhos novos na vida musical portuguesa, deveria ser hoje, após vinte e cinco anos de provas excelentes, uma realidade sólida, acreditada e disputada pelos grupos económicos deste país como interlocutor privilegiado para as suas iniciativas de mecenato cultural. (Rui Vieira Nery, in jornal "Expresso", 1990; livro "Telefonia", de Matos Maia, Lisboa: Círculo de Leitores, 1994 – retirado do blogue "Rádio Crítica")

As palavras de Rui Viera Nery seriam ouvidas, ainda que algo tardiamente, pois a Portugal Telecom viria a patrocinar algumas temporadas de concertos (de 1997 a 2003). Na Rádio Comercial, o "Em Órbita" terminou em 1993, pois na sequência da privatização, os novos donos entenderam (tacanhamente, diga-se de passagem) que já não havia lugar para ele. Recomeçou, em 1994, no ressurgido Rádio Clube Português (na frequência que fora da Rádiogeste), com locução de Cândido Mota, mas apenas se manteve no ar durante seis meses. A 3 de Abril de 1998, sexta-feira, às 23:00, o programa voltaria às ondas hertzianas, desta vez na Antena 2, para duas horas de emissão semanais, preenchidas com a fascinante música antiga, devidamente enquadrada com textos lidos por Paulo Rato. Ter encontrado, finalmente, uma nova guarida para o "Em Órbita", quando o panorama radiofónico em Portugal já se revelava assaz deprimente, foi motivo de regozijo para Jorge Gil. Para ele – acrescente-se – e para todos aqueles (que não eram poucos) que se sentiam órfãos com a sua ausência.

Há dias festivos que merecem aplauso da praça pública numa cerimónia qualquer. A passagem de 33 anos sobre a primeira emissão do "Em Órbita" podia ser um deles, mas não interessa celebrar com serpentina cinzenta, guloseima e rugido de foguete em fogo-de-artifício precário, as vicissitudes dum projecto cultural acidentado que, sabe Deus como, sobreviveu até hoje. Em Portugal, o "Em Órbita" foi pioneiro na divulgação do trabalho dos intérpretes que melhor têm protagonizado o movimento de redescoberta e reavaliação do património musical europeu anterior ao advento do Romantismo, que permaneceu em jazida desleixada até meados do século XX. Com transferência marcada para 3 de Abril, o "Em Órbita" passa a ser transmitido na Antena 2 da RDP. Num tempo em que o nivelamento canalha ganhou estatuto triunfante, é um remédio saber da existência de lugares onde não há morada para os difusores de um vírus sem nome próprio, no qual germina a vaga e perigosa luxúria da distracção. (Jorge Gil, in boletim de programação da Antena 2, Abril de 1998)

Infelizmente, volvidos três anos, Jorge Gil daria por finda a realização do "Órbita", indo para o ar, a 30 de Março de 2001, a última edição original. Por decisão de João Pereira Bastos, director de programas da Antena 2, o programa passaria a regime de reposição, o que aconteceu até 29 de Junho do mesmo ano. Desapareceu então do éter mas não sem deixar muitas saudades. No meu caso, tomei contacto com ele em finais dos anos 80 e logo me conquistou. Ficava literalmente imobilizado diante do aparelho a sorver, verdadeiramente deliciado, aquela maravilhosa nova música antiga, à qual a Antena 2 ainda permanecia indiferente. Convém lembrar que, por esses tempos, a rádio pública transmitia pouquíssima música anterior ao classicismo. Bach, Haendel e Vivaldi, nas esporádicas vezes em que apareciam, era invariavelmente em gravações "romantizadas", não raras vezes bem pouco aliciantes. A milhas de distância, portanto, das cativantes e sedutoras interpretações segundo os preceitos estético-estilísticos de abordar a música barroca e pré-barroca, que começaram a afirmar-se nos anos 60, com Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Frans Brüggen, Alfred Deller, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken, Jordi Savall, Hopkinson Smith e outros.
São muitas as obras e interpretações cuja descoberta devo a Jorge Gil, e entre elas há duas que sempre que as ouço me fazem evocar de imediato o "Em Órbita". Uma é o concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, de Telemann, pelo agrupamento Musica Antiqua de Colónia, sob a direcção de Reinhard Goebel. A outra é a marcha da "Música para o Funeral da Rainha Mary", de Henry Purcell, na leitura de John Eliot Gardiner à frente da Monteverdi Orchestra e do Equale Brass Ensemble. A melodia da segunda nem era estranha aos meus ouvidos pois havia-a escutado, em versão electrónica, no filme "Laranja Mecânica" [>> YouTube] mas a interpretação, historicamente informada, de John Eliot Gardiner teve o sortilégio de me tocar de modo tão profundo e impressivo que deixou marca indelével no meu espírito. O blogue "A Nossa Rádio" apresenta essas duas magníficas gravações, que, conjuntamente com "Revenge" e a "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", funcionam como tributo (singelo, mas penhorado) ao "Em Órbita" e ao seu autor, Jorge Gil.

Registo com agrado que a rádio pública não tenha ficado alheada da efeméride dos 50 anos: a Antena 1 transmitiu, a partir das 19:14, um programa especial conduzido por António Macedo, no qual falaram Pedro Castelo, Pedro Albergaria, Cândido Mota e o técnico José Ribeiro [>> RTP-Play: 1.ª hora2.ª hora]; e a Antena 2 repôs uma edição do "Em Órbita", consagrada a Johann Sebastian Bach, logo a seguir a um depoimento de João David Nunes, o carismático primeiro director de programas da Rádio Comercial que também fez a locução do programa durante largos anos.
Não obstante, mais haveria a fazer para celebrar o "Em Órbita" e nessa medida prestando bom serviço público. Enuncio duas ideias. A primeira é a criação, na Antena 3, de um espaço musical, que até podia chamar-se "Memória do Primeiro 'Em Órbita'", onde só entrasse o repertório que foi divulgado na primeira fase. Oportunidade para o auditório mais jovem descobrir uma imensa plêiade de artistas de primeira água da música anglo-americana que hoje apenas podem ser ouvidos no canal codificado VH1 Classic (para quem o pode pagar, evidentemente) ou em plataformas da internet, como o YouTube ou o Spotify (mas, neste caso, é preciso saber que a música existe para se ir à procura dela). A segunda ideia diz respeito à reposição na Antena 2, diariamente (o que podia muito bem ser entre as 19:00 e as 21:00), de todo o acervo erudito do "Em Órbita", desde Janeiro de 1974. Eu parto do princípio de que os registos existem em arquivo; caso contrário estamos na presença de "terrorismo cultural" (a expressão não é minha – é de João Maria de Freitas Branco ao pronunciar-se acerca da bárbara destruição de boa parte do acervo do programa "O Gosto pela Música" que o pai realizou, nos anos 60 e 70, para a Lisboa 2 e o Programa 2 – a denominação "Antena 2" passou a vigorar a partir dos anos 80, se estou bem informado).


Revenge



Música: Ray Davies e Larry Page
Intérprete: Kinks* (in LP "Kinks", Pye Records, 1964)




(instrumental)


* Ray Davies – guitarra ritmo e harmónica
Dave Davies – guitarra base
Peter Quaife – baixo
Mick Avory – bateria
Produção – Shel Talmy



A Lenda de El-Rei D. Sebastião



Letra e música: José Cid
Intérprete: Quarteto 1111* (in EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião", Columbia/VC, 1967)




[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
El-Rei D. Sebastião
Perdeu-se num labirinto
Com o seu cavalo real

As bruxas e adivinhos
Das altas serras beirãs
Juravam que nas manhãs
De cerrado nevoeiro
Vinha D. Sebastião

Pastoras e trovadores
Das regiões litorais
Afirmaram terem visto
Perdido entre os pinhais
El-Rei D. Sebastião

Ciganos vindos de longe
Falcatos desconhecidos
Tentando iludir o povo
Afirmaram serem eles
El-Rei D. Sebastião
E que voltava de novo

Todos foram desmentidos
Condenados às galés
Pois nas praias dos Algarves
Trazidos pelas marés
Encontraram o cavalo
E farrapos do seu gibão
Pedaços de nevoeiro
A espada e o coração
De El-Rei D. Sebastião

[instrumental]

Depois de Alcácer Quibir
Virá D. Sebastião

E uma lenda nasceu
Entre a bruma do passado
Chamam-lhe o Desejado
Pois que nunca mais voltou
El-Rei D. Sebastião
El-Rei D. Sebastião


* Quarteto 1111:
José Cid – voz e teclas
António Moniz Pereira – guitarra eléctrica
Jorge Moniz Pereira – viola baixo
Miguel Artur da Silveira (Michel) – bateria



Concerto para duas charamelas, cordas e baixo contínuo, em ré menor, TWV 52:d1



Música: Georg Philipp Telemann
Intérpretes: Eric Hoeprich & Lisa Klewitt / Musica Antiqua Köln, dir. Reinhard Goebel (in LP/CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent", Archiv Produktion, 1987)




I. Largo
II. Allegro [a partir de 4':14'']
III. Adagio [a partir de 7':16'']
IV. (Vivace) [a partir de 9':41'']


* Eric Hoeprich & Lisa Klewitt – charamelas
Phoebe Carrai – violoncelo
Thierry Maeder – cravo
Orquestra – Musica Antiqua Köln
Direcção – Reinhard Goebel
Gravado na Deutschlandfunk Sendesaal, Colónia (Alemanha), por Wolfgang Mitlehner, em Junho de 1986



Música para o Funeral da Rainha Mary: Marcha



Música: Henry Purcell (1695)
Intérpretes: Monteverdi Orchestra / Equale Brass Ensemble, dir. John Eliot Gardiner* (in LP "Music for Queen Mary", Erato/Éditions Costallat, 1977, reed. Erato, 1995, Erato/Warner Classics, 2014)




(instrumental)


* Monteverdi Orchestra
Equale Brass Ensemble
Direcção – John Eliot Gardiner
Gravado por Peter Willemoës, na Rosslyn Hill Chapel, Hampstead (Londres), em Fevereiro de 1976
Supervisão de gravação – Michel Garcin



Capa do LP "Kinks" (Pye Records, 1964)





Capa e contracapa do EP "A Lenda de El-Rei D. Sebastião" (Columbia/VC, 1967)
Na contracapa vem reproduzido um excerto do texto de Jorge Gil, que fora lido no "Em Órbita" por Cândido Mota



Capa do LP "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do CD "Telemann: Bläserkonzerte / Wind Concertos / Concertos Pour Instruments à Vent" (Archiv Produktion, 1987)



Capa do LP "Music for Queen Mary" (Erato/Éditions Costallat, 1977)



Capa do CD "Music for Queen Mary" (Erato, 1995)



Capa do CD "Music for the Queen Mary" (Erato/Warner Classics, 2014)

27 março 2015

Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público (II)

Neste Dia Mundial do Teatro, os ouvintes da Antena 1 são convidados a aceder a uma página onde estão disponíveis pequenos fonogramas relacionados com teatro. É de louvar a iniciativa, mas fica a saber a pouco. Porque não se colocaram ainda online todas as peças (integrais) existentes no arquivo da RDP? 
É claro que, sem prejuízo da existência dessa plataforma, importa não esquecer a emissão hertziana, pois a rádio ainda passa (e muito) por aí. Decorrido um ano sobre o texto "Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público", nada foi feito para alterar esse deplorável estado de coisas, o que não pode – obviamente – deixar de suscitar a mais viva contestação de todos os amantes da arte de Talma. De facto, é de todo incompreensível que, havendo um tão vasto e rico acervo de teatro radiofónico (peças e adaptações de obras romanescas, boa parte das quais realizadas pela mão proficiente de Eduardo Street), o mesmo não seja resgatado, para proveito cultural dos ouvintes. 
Fica formalizado o apelo à nova administração da Rádio e Televisão de Portugal, na esperança de que, pelo menos neste capítulo, se diferencie (pela positiva) das antecessoras.


Textos relacionados:
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21 março 2015

Al-Mu'tamid: "Evocação de Silves"



No Dia Mundial da Poesia, e estando a assinalar-se os 920 anos da morte de um dos mais insignes poetas do Al-Andalus, Al-Mu'tamid, apresentamos aquele que é, muito possivelmente, o seu poema mais conhecido, "Evocação de Silves", em três traduções e em quatro registos fonográficos. Todos eles, excepto o mais recente (editado no presente mês de Março), foram dados a descobrir a muitos ouvintes da Antena 1 (neles se incluindo o escrevente destas linhas) pela mão de Rafael Correia, no seu maravilhoso "Lugar ao Sul". A exemplo, aliás, do que aconteceu com bastantes mais gravações discográficas de poesia erudita (recitada ou cantada), que nunca figuraram noutros programas da rádio pública. Nesta conformidade, cumpre-nos chamar a atenção da nova administração da Rádio e Televisão de Portugal para a importância de o fabuloso arquivo do "Lugar ao Sul" ser resgatado ao silêncio e posto ao alcance dos ouvidos do público que o deseje fruir.



Evocação de Silves



Poema de Al-Mu'tamid; trad. António Borges Coelho (in "Portugal na Espanha Árabe": Vol. IV – Secção "Poetas e Prosadores do Garbe Al-Andalus", Col. Paralelos, Lisboa: Seara Nova, 1975 – p. 300-301; "Portugal na Espanha Árabe": Vol. I – "Geografia e Cultura", Lisboa: Editorial Caminho, 1989; "Portugal na Espanha Árabe", 3.ª edição revista, Lisboa: Editorial Caminho, 2008 – p. 510-511), a partir da tradução espanhola de Emilio García Gómez (in "Poemas Arabigoandaluces", Madrid: Editorial Plutarco, 1930)
Recitado por Afonso Dias / Trupe Barlaventina* (in CD "Lendas do País do Sul", Concertante, 1999)
Apoio musical: Klasik Türk Müzigi


Eia, Abú Bacre, saúda os meus lares em Silves e pergunta-lhes
se, como penso, ainda se recordam de mim.

Saúda o Palácio das Varandas da parte de um donzel
que sente perpétua saudade daquele alcácer.

Ali moravam guerreiros como leões e brancas gazelas.
E em que belas selvas e em que belos covis!

Quantas noites passei divertindo-me à sua sombra
com mulheres de cadeiras opulentas e talhe fatigado,

brancas e morenas, que produziam na minha alma
o efeito das espadas refulgentes e das lanças obscuras!

Quantas noites passei, deliciosamente, junto a um recôncavo do rio
com uma donzela cuja pulseira rivalizava com a curva da corrente!

O tempo passava e ela servia-me o vinho do seu olhar
e outras vezes o do seu vaso e outras o da sua boca.

As cordas do seu alaúde, feridas pelo plectro, estremeciam-me
como se ouvisse a melodia das espadas nos tendões do colo inimigo.

Ao retirar o seu manto, descobriu o talhe, florescente ramo de salgueiro,
como se abre o botão para mostrar a flor.


Nota: Abú Bacre Ibn Ammar, também ele um distinto poeta, era amigo dilecto de Al-Mu'tamid, a quem sucedeu como governador de Silves, quando este subiu ao trono da taifa de Sevilha.

* Arranjos e direcção musical – Trupe Barlaventina (Afonso Dias, Carla Moreira, Luís de Abreu e Pedro Glória)
Gravado no Estúdio InforArte, Lagos
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro



Saudação a Silves



Poema de Al-Mu'tamid; trad. Mário Guerra Roque (in "História Luso-Árabe: Episódios e Figuras Meridionais", de Garcia Domingues, Lisboa: Empresa Editora Pro-Domo, 1945 – p. 147-148; 2.ª edição, Silves: Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, 2010 – p. 147-148), a partir da tradução espanhola de Emilio García Gómez (in "Poemas Arabigoandaluces", Madrid: Editorial Plutarco, 1930)
Recitado por António Baeta de Oliveira (in CD "Andalusino", de Eduardo Ramos*, InforArte, 1999)
Música: Eduardo Ramos


Eia, Abu Bacre! Saúda os meus lares, em Silves,
E pergunta-lhes se guardam memória de mim, como penso.
Saúda o Xarajibe da parte de um donzel
Que perpetuamente suspira por esse palácio.
Morada de leões e de brancas gazelas
Que ora parece um covil, ora um gineceu!
Quantas tardes passei deliciado à sua sombra,
Com mulheres de ancas largas, cintura delicada,
Umas brancas, outras morenas que faziam em mim
O efeito de espadas refulgentes ou de lanças escuras!
E a noite deliciosamente passada, junto do açude do rio,
Com a donzela cuja pulseira semelhava a curva da corrente...
E ela continuamente me embriagava, ora com o vinho do seu olhar,
Ora com o da sua taça, ora com o da sua boca.
E as cordas do alaúde, feridas pelo plectro, faziam-me estremecer
Como se sentisse melodias de espadas nos tendões do colo do inimigo.
E ao deixar cair o manto, descobria o seu corpo...
Era um ramo de salgueiro brilhante,
Como quando do botão surge a flor!


* Eduardo Ramos – alaúde árabe
Gravado no Estúdio InforArte, Lagos, de Abril a Junho de 1999
Técnicos de som – Joaquim Guerreiro e Fernando Guerreiro
Misturas – Joaquim Guerreiro, Fernando Guerreiro, Eduardo Ramos e Tiago Ramos



Evocação de Silves



Poema: Al-Mu'tamid; trad. Adalberto Alves (in "O Meu Coração É Árabe: A Poesia Luso-Árabe", Lisboa: Assírio & Alvim, 1987; 3.ª edição revista e aumentada, Lisboa: Assírio & Alvim, 1999 – p. 242-243; "Al-Mu'tamid: Poeta do Destino", Lisboa: Assírio & Alvim, 1996; 2.ª edição revista e aumentada, Lisboa: Assírio & Alvim, 2004)
Música: Eduardo Ramos
Intérprete: Eduardo Ramos* (in CD "Cântico para Al-Mu'tamid", Eduardo Ramos, 2005)


Saúda, por mim, Abû Bakr,
os queridos lugares de Silves
e diz-me se deles a saudade
é tão grande quanto a minha.
Saúda o Palácio dos Balcões,
da parte de quem nunca o esqueceu,
morada de leões e de gazelas
salas e sombras onde eu
doce refúgio encontrava
entre ancas opulentas
e tão estreitas cinturas.
Moças níveas e morenas
atravessavam-me a alma
como brancas espadas,
como lanças escuras.
Ai quantas noites fiquei,
lá no remanso do rio,
preso nos jogos do amor
com a da pulseira curva,
igual aos meandros da água,
enquanto o tempo passava...
ela me servia vinho:
o vinho do seu olhar,
às vezes o do seu copo,
e outras vezes o da boca.
Tangia-me o alaúde
e eis que eu estremecia
como se estivesse ouvindo
tendões de colos cortados.
Mas se retirava as vestes
grácil detalhe mostrando,
era ramo de salgueiro
que me abria o seu botão
para ostentar a flor.


* Eduardo Ramos – alaúde árabe e declamação
Gravado, misturado e masterizado no Estúdio InforArte, Lagos, nos dias 7 e 8 de Maio de 2005
Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro
Misturas – Eduardo Ramos e Fernando Guerreiro



Evocação de Silves



Poema de Al-Mu'tamid; trad. António Borges Coelho (in "Portugal na Espanha Árabe": Vol. IV – Secção "Poetas e Prosadores do Garbe Al-Andalus", Col. Paralelos, Lisboa: Seara Nova, 1975 – p. 300-301; "Portugal na Espanha Árabe": Vol. I – "Geografia e Cultura", Lisboa: Editorial Caminho, 1989; "Portugal na Espanha Árabe", 3.ª edição revista, Lisboa: Editorial Caminho, 2008 – p. 510-511), a partir da tradução espanhola de Emilio García Gómez (in "Poemas Arabigoandaluces", Madrid: Editorial Plutarco, 1930)
Música: Janita Salomé
Arranjo: Filipe Raposo
Intérprete: Janita Salomé* (in CD "Al-Mu'tamid: Poeta Rei do Al-Andalus", AMG Music/Carlos Gomes/Sony Music, 2015)




Eia, Abú Bacre, saúda os meus lares em Silves e pergunta-lhes
se, como penso, ainda se recordam de mim.

Saúda o Palácio das Varandas da parte de um donzel
que sente perpétua saudade daquele alcácer.

Ali moravam guerreiros como leões e brancas gazelas.
E em que belas selvas e em que belos covis!

Quantas noites passei divertindo-me à sua sombra
com mulheres de cadeiras opulentas e talhe fatigado,

brancas e morenas, que produziam na minha alma
o efeito das espadas refulgentes e das lanças obscuras!

Quantas noites passei, deliciosamente, junto a um recôncavo do rio
com uma donzela cuja pulseira rivalizava com a curva da corrente!

O tempo passava e ela servia-me o vinho do seu olhar
e outras vezes o do seu vaso e outras o da sua boca.

As cordas do seu alaúde, feridas pelo plectro, estremeciam-me
como se ouvisse a melodia das espadas nos tendões do colo inimigo.

Ao retirar o seu manto, descobriu o talhe, florescente ramo de salgueiro,
como se abre o botão para mostrar a flor.


* [Créditos gerais do disco:]
Filipe Raposo – piano
Eduardo Paniagua – saltério e flautas
Janita Salomé – voz e percussão
El Arabí Serghini – voz e percussão
Cesar Carazo – voz e fídula
Jamal Ben Allal – violino
Joaquim Teles – percussão
Direcção musical – Filipe Raposo
Concepção e direcção artística – Carlos Gomes
Produção – AMG Music / Carlos Gomes
Captação áudio, mistura e masterização – Helder Nelson



Capa do CD "Lendas do País do Sul" (Concertante, 1999)
Design – Dimensão 6



Capa do CD "Andalusino" (InforArte, 1999)
Porta do castelo de Silves; figuras retiradas do livro "Cantigas de Santa Maria", de Afonso X, o Sábio, e foto de Eduardo Ramos (sentado, tangendo alaúde)
Montagem: Fernando Guerreiro e Eduardo Ramos



Capa do CD "Cântico para Al-Mu'tamid" (Eduardo Ramos, 2005)
Design gráfico – Carlos Rocha



Capa do CD "Al-Mu'tamid: Poeta Rei do Al-Andalus" (AMG Music/Carlos Gomes/Sony Music, 2015)



Capa do livro "Portugal na Espanha Árabe": Vol. IV (Seara Nova, 1975)



Capa do livro "Portugal na Espanha Árabe", 3.ª edição revista (Editorial Caminho, 2008)



Capa do livro "História Luso-Árabe: Episódios e Figuras Meridionais", 2.ª edição (Centro de Estudos Luso-Árabes de Silves, 2010)



Capa do livro "O Meu Coração É Árabe: A Poesia Luso-Árabe" (Assírio & Alvim, 1987)



Capa do livro "O Meu Coração É Árabe", 3.ª edição revista e aumentada (Assírio & Alvim, 1999)



Capa do livro "Al-Mu'tamid: Poeta do Destino", 2.ª edição revista e aumentada (Assírio & Alvim, 2004)

18 março 2015

Em memória de Fernando Alvim (1934-2015)



«O Carlos Paredes ligou-me um dia, por volta de 1959, para me convidar a fazer com ele umas músicas que iriam acompanhar um documentário sobre filigranas ["Rendas de Metais Preciosos", de Cândido da Costa Pinto]. Lembrou-se de mim porque me tinha ouvido tocar na Emissora Nacional. Eu aceitei e entendemo-nos bem logo desde o início. A partir de então começámos a ensaiar o repertório. Criámos a melhor relação de trabalho possível. Trabalhámos juntos durante 24 anos e isso quer dizer muita coisa. Além disso, viajámos por todo o mundo. Éramos uma dupla muito bem ajustada: o Carlos tinha as suas melodias e eu criava a parte harmónica. Era um intérprete muito temperamental, que se entregava completamente à música. Tinha uma notável capacidade de improviso. As suas interpretações eram sempre novas, sempre diferentes, nunca eram iguais. Por isso, era difícil acompanhá-lo. Tinha de estar sempre muito atento.
Sempre me interessei muito pela bossa nova. Isto na época em que apareceram músicos como o João Gilberto, o Tom Jobim, entre outros. Um dos meus discos inclui um tema original de bossa nova, que foi criado em conjunto com o Pedro Caldeira Cabral e se chama "Simplicidade". Eu comecei a trabalhar com o Pedro Caldeira Cabral em 1966. Formávamos um duo de acompanhamento e gravámos um disco com peças originais para duas violas, com temas meus e do Pedro.
A guitarra portuguesa tem uma grande amplitude de sonoridade, com particular incidência na escala dos agudos. Pode ser tocada a solo, mas se a acompanharmos com uma viola, que lhe dá os graves, ficamos com um conjunto mais completo, do qual se podem tirar todos os sons.» (FERNANDO ALVIM, 1999)


Enquanto acompanhador de Carlos Paredes [cf. Celebrando Carlos Paredes] e de outros guitarristas (designadamente Pedro Caldeira Cabral, António Chainho e Ricardo Parreira), assim como de uma vasta plêiade de cantores (por exemplo, Amália Rodrigues em "Formiga Bossa Nossa", e Manuel Freire nas suas primeiras baladas, entre as quais "Livre", "Eles" e "Pedra Filosofal"), Fernando Alvim [>> resenha biográfica no site do Instituto Camões e artigo de Gonçalo Frota e Vítor Belanciano no "Público"] participou na gravação de dezenas de discos, mas em nome próprio a sua discografia é muito escassa. Resume-se a uns poucos discos de vinil, editados nos inícios da década de 1970, e ao duplo CD "Fados & Canções do Alvim", de 2011:
  1. Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral: Guitarras de Portugal (EP, Tecla TE 1071, 1971)
  2. (Manhã Brilhante / Simplicidade / Andando Só / Estudo a Duas Cores)
  3. Conjunto de Guitarras de Fernando Alvim (EP, Tecla TE 1075, 1971)
  4. (Variações em Si Menor / Rapsódia de Fados / Variações em Ré Menor / Nocturno)
  5. Conjunto de Guitarras de Fernando Alvim (EP, Tecla TE 1078, 1971)
  6. (Canção de Alcipe / Resineiro Engraçado - Natal dos Mendigos / À Roda de uma Valsa / Vira de Frielas)
  7. Manuel Freire, Fernando Alvim, Pedro Caldeira Cabral: Dedicatória (LP, Tecla TES 40 013, 1972)
  8. (Entre os doze temas contam-se quatro instrumentais compostos por Fernando Alvim: Manhã Brilhante / Simplicidade / Andando Só / Improviso Tropical)
  9. Conjunto de Guitarras de Fernando Alvim (EP, Tecla TE 1079, 1973)
  10. (Balada de Saudade / Vira do Minho / Marcha dos Fadistas / Variações em Ré Menor)
  11. Conjunto de Guitarras de Fernando Alvim: Guitarras de Lisboa (LP, Tecla TES 40 019, 1973)
  12. Fados & Canções do Alvim (2CD, Universal, 2011)
  13. Composições de: Fernando Alvim
    Versos de: Mário Rainho, João Monge, Carmo Rebelo de Andrade (Carminho), Manuela de Freitas, Amélia Muge, Hélder Moutinho, Tiago Torres da Silva, Vicente da Câmara, Paulo Abreu de Lima, Rosário Worisch Alvim e Fernando Alvim, Vitorino, Marta Dias e G. Daniel, Miguel Martins e José Fanha
    Cantam: Ana Moura, Camané, Carminho, Ricardo Ribeiro, Cristina Branco, Pedro Moutinho, Ana Sofia Varela, Rodrigo, Hélder Moutinho, Filipa Pais, Gisela João, Vicente da Câmara, Carlos do Carmo, António Zambujo, Vitorino, Marta Dias, Fafá de Belém, Rui Veloso, Marco Rodrigues, Amélia Muge, Manuel Freire, Mafalda Taborda, Micaela Vaz e Vânia Conde
    Tocam: Fernando Alvim (viola), Bernardo Couto (guitarra portuguesa), José Elmiro Nunes (baixo), José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Diogo Clemente (guitarras e baixo), Nelson Canoa (acordeão), Ricardo Parreira (guitarra portuguesa), Paulo Parreira (guitarra portuguesa), João Torre do Valle (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola), Jon Luz (cavaquinho), José Miguel Conde (clarinetes), Ricardo Cruz (contrabaixo), Ricardo Toscano (clarinete, saxofone), Pedro Santos (acordeão), Ruca Rebordão (percussão), Celina da Piedade (acordeão), António Quintino (contrabaixo), Pedro Jóia (guitarras), Yami (baixo), Rui Veloso (guitarra), Rão Kyao (flauta), André Moreira (baixo) e Ricardo Marques (guitarra portuguesa)
Em tributo à memória de Fernando Alvim, o blogue "A Nossa Rádio" evidencia a sua faceta de compositor apresentando uma selecção das mais belas músicas por si concebidas: sete instrumentais e dezoito cantadas.
Na sexta-feira e no sábado subsequentes à data do falecimento de Fernando Alvim, a Antena 1 retransmitiu dois programas realizados em 2011 que contaram com a presença do músico, respectivamente "Viva a Música" e "Alma Lusa (Fim-de-Semana)". Isso é de louvar mas não podemos deixar de apontar o dedo à 'playlist'. Será razoável e normal que a tal lista, que devia ser o mostruário do melhor que se produziu e produz em Portugal em matéria de música popular, não inclua uma única música (cantada ou instrumental) composta por Fernando Alvim?



Manhã Brilhante



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* e Pedro Caldeira Cabral (in EP "Guitarras de Portugal", Tecla, 1971; LP "Dedicatória", Tecla, 1972)


(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – viola
Fernando Alvim – viola



Simplicidade



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* e Pedro Caldeira Cabral (in EP "Guitarras de Portugal", Tecla, 1971; LP "Dedicatória", Tecla, 1972)


(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – viola
Fernando Alvim – viola



Andando Só



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* e Pedro Caldeira Cabral (in EP "Guitarras de Portugal", Tecla, 1971; LP "Dedicatória", Tecla, 1972)


(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – viola e guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola



Improviso Tropical



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* e Pedro Caldeira Cabral (in LP "Dedicatória", Tecla, 1972)


(instrumental)


* Pedro Caldeira Cabral – viola
Fernando Alvim – viola



Pássaro Voz



Letra: Mário Rainho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Ana Moura* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Solto do meu peito
Gaiola fechada
Esta minha voz, que livre voa e ganha altura
Sem perder o jeito
Ave libertada
Em nuvens de versos tem vertigens de ternura.
Esta minha voz, que livre voa e ganha altura
Em nuvens de versos de ternura.

À noite te entrego
Porque o sol te queima
Pássaro que a lua e as estrelas quer beijar
Se nada lhe nego
Porque tanto esta voz teima,
Depois de ser céu, querer ser mar?

Volta p'la manhã
Ao beiral da alma
Ainda traz na boca um gosto a fado e a poesia
Mas sei que amanhã
Perde à noite a calma
E volta a ser céu, luar de prata e maresia.
Ainda traz na boca um gosto a fado e a poesia
E volta a ser céu, luar, maresia.

À noite te entrego
Porque o sol te queima
Pássaro que a lua e as estrelas quer beijar
Se nada lhe nego
Porque tanto esta voz teima,
Depois de ser céu, querer ser mar? [bis]


* Ana Moura – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
José Elmiro Nunes – viola baixo
Produção musical – Bernardo Couto
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz) – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Gravação (instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Tatuagem de Rimas



Letra: Mário Rainho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Ricardo Ribeiro* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Assim que 'stendo a alma sobre esta cama
E o sono não se deita à minha beira
Há um grito de fado que me chama
D'uns versos sobre a mesa-de-cabeceira.

Dou voltas e mais voltas ao meu poema
Que se crava no linho deste meu leito
E a palavra "fado" é sempre o tema
Das rimas tatuadas no meu peito.

É tão perto a alvorada, e pelos sons da rua
Vai a cidade aos poucos despertando
No espaço vem render o sol a lua
E eu 'inda acordado vou sonhando.

[instrumental]

Dou voltas e mais voltas ao meu poema
Que se crava no linho deste meu leito
E a palavra "fado" é sempre o tema
Das rimas tatuadas no meu peito.


* Ricardo Ribeiro – voz
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Cedo



Letra: Manuela de Freitas
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Cristina Branco* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Ruas desertas
Águas paradas
Feridas abertas
Portas fechadas

Cidade antiga
Minha cidade
Que queres que diga
Se já é tarde?

Neste degredo
Triste e sombrio
O teu segredo
Quem o ouviu?

Dizes que é cedo
Mas tenho medo
E sinto frio

Rua das Trinas
Ao longe o rio
Escadas e esquinas
Um assobio

Velhas meninas
Com tristes sinas
Num bar vazio

Lixo no cais
O casario
Coisas banais
Um cão vadio

Desço a calçada
Não penso em nada
E sinto frio

Jornais, revistas
Truques e manhas
Vagos turistas
Chuva e castanhas

Ouve-se um canto
Triste e cansado
Parece um pranto
Dizem que é fado

Rua do Ouro
Chego ao Rossio
Não sei se choro
Não sei se rio

Subo a Avenida
Estou tão perdida
Está tanto frio

Cidade antiga
Dizes que é cedo
Que queres que diga
Se não te entendo?

Mas vou ouvindo
E repetindo
Mesmo não crendo

Até que cedo
Minha cidade
Sem frio nem medo
Que Deus te guarde

Com teu segredo
Contigo aprendo
Que nunca é tarde

[instrumental]

Até que cedo
Minha cidade
Sem frio nem medo
Que Deus te guarde

Com teu segredo
Contigo aprendo
Que nunca é tarde


* Cristina Branco – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Fado do Sol Errado



Letra: Hélder Moutinho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Ana Sofia Varela* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Adeus, ó meu amor, minha aventura
De olhar sereno ao vento e brusco ao mar
Adeus, minha ilusão, que não tem cura
Adeus, amor, que não te posso amar

Adeus, ó rio que nasces à noitinha
E desces de mansinho às madrugadas
Quem dera que essa noite fosse minha
Adeus, ó meu amor, de águas paradas

Mas se algum dia a luz de um sol errado
Brilhar na tua praia adormecida
Eu voltarei ao som deste meu fado
E cantarei "bom dia" à tua vida

Agora vou dormir na calmaria
Desse teu rio sem rumo e sem vontade
Talvez um dia, amor, talvez um dia
Me acordes noutro rio de liberdade

[instrumental]

Agora vou dormir na calmaria
Desse teu rio sem rumo e sem vontade
Talvez um dia, amor, talvez um dia
Me acordes noutro rio de liberdade


* Ana Sofia Varela – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e viola) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Gravação (guitarra portuguesa) – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Há Dias em Que Eu Fico Assim



Letra: João Monge
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Rodrigo* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Há dias em que eu fico comovido
Ao ver a nossa gente ao deus-dará
Em busca de um luar que anda perdido
Nas ruas onde a Lua nunca dá

Há dias em que eu fico assim tão triste
Ao ver aquela janela fechada
Como se algum destino que espreitava, não existe
E a gente não pudesse fazer nada

E fico assim
A cantar para vocês
Sinto-me bem
Só de os ter aqui ao pé
Se não é Fado
Este amparo de mãe
Que vos ampara também
Digam lá o que isto é

Há dias em que eu fico tão feliz
Só de ouvir na rua alguém dizer
Que veio uma cegonha de Paris
E poisou numa janela qualquer

E o verbo volta a ser inicial
E ganha de novo um poder profundo
Vem-me à memória a velha história, que afinal
Uma criança vai mudar o Mundo

E fico assim
A cantar para vocês
Sinto-me bem
Só de os ter aqui ao pé
Se não é Fado
Este amparo de mãe
Que vos ampara também
Digam lá o que isto é

[instrumental]

E o verbo volta a ser inicial
E ganha de novo um poder profundo
Vem-me à memória a velha história, que afinal
Uma criança vai mudar o Mundo


* Rodrigo – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e viola) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Gravação (guitarra portuguesa) – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Tantos Fados, Tanta Vida



Letra: Manuela de Freitas
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Filipa Pais* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Nem sempre fala de penas
De virtudes ou pecados
Pois das coisas mais pequenas
Faz o fado grandes fados

Andorinha, procissão
Um raminho de violetas
Uma ginjinha, um pregão
Rosmaninho, tranças pretas

Vida das coisas pequenas
São rimas, são cenas
De letras de fados

Teia p'lo fado tecida
Com versos tirados
Da vida vivida

Já não são versos apenas
Quando à guitarra cantados
Fazem das coisas pequenas
Tanta vida, tantos fados

Balcão de bar, marinheiro
Varina, colcha com barra
Um altar, um cacilheiro
Uma esquina, uma guitarra

Estendais, uma canoa
Vielas e escadinhas
O cais, a luz de Lisboa
Janelas com tabuinhas

Vida das coisas pequenas
São rimas, são cenas
De letras de fados

Teia p'lo fado tecida
Com versos tirados
Da vida vivida

Já não são versos apenas
Quando à guitarra cantados
Fazem das coisas pequenas
Tanta vida, tantos fados

[instrumental]

Já não são versos apenas
Quando à guitarra cantados
Fazem das coisas pequenas
Tanta vida, tantos fados


* Filipa Pais – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Se Eu Disser Adeus



Letra: Hélder Moutinho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Pedro Moutinho* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Quando eu disser adeus será verdade
Irei mesmo viver perto de mim
Que eu não pertenço às noites da saudade
Nem sou folha caída no jardim

Quando eu disser adeus não é loucura
É forma de viver, é estar no mundo
Desmantelando a noite negra e pura
P'ra me perder no sonho mais profundo

Partir, só quando a terna madrugada
Trouxer palavras de me entristecer
E eu corro numa estrada desnudada
Das formas que me ensinam a viver

Mas se eu disser adeus será verdade
Irei com a tristeza no olhar
Que eu não pertenço às noites da saudade
Mas vou sentir saudades de te amar

[instrumental]

Mas se eu disser adeus será verdade
Irei com a tristeza no olhar
Que eu não pertenço às noites da saudade
Mas vou sentir saudades de te amar


* Pedro Moutinho – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e guitarra portuguesa) – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Gravação (viola) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



No Vão da Minha Janela



Letra: Hélder Moutinho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Hélder Moutinho* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Tenho uma rosa encarnada
No vão da minha janela
Quando a vida não me agrada
Falo da sorte com ela

Às vezes quando o luar
Se avizinha lentamente
Na ria dos meus amores
À janela transparente
Entender constantemente
A razão das minhas dores

Plantei-a como uma jura
Juro por tudo e por nada
À janela da loucura
Tenho uma rosa encarnada

Falei-lhe de ti uma dia
Da esperança que em mim nasceu
E no meu olhar ficou
Num gesto de fantasia
Primeiro empalideceu
E logo a seguir corou

Como se fosse um enredo
Corou de amor e paixão
Aventura de um segredo
Da cor do meu coração

Tenho uma rosa encarnada
À rua dos meus amores
No vão da minha janela
Não foi nada, não foi nada
Já não quero ter mais flores
Mas tenho saudades dela

[instrumental]

Tenho uma rosa encarnada
À rua dos meus amores
No vão da minha janela
Não foi nada, não foi nada
Já não quero ter mais flores
Mas tenho saudades dela


* Hélder Moutinho – voz
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – viola de fado
Produção musical – Ricardo Parreira
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Fado Alvim



Letra: Tiago Torres da Silva (dedicada a Fernando Alvim)
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Carlos do Carmo* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD1 – "Fados do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Depois do mar
Há um olhar
Que ainda é mais azul
Azul de mim
Azul sem fim
Azul da cor dos mares do sul
Uma canção cujo refrão
Ninguém consegue decifrar
Se quem o canta
Traz na garganta
A voz do mar

Depois de ti
Adormeci
No alto mar, talvez
Num mar gentil
Num mar anil
Num mar que em ondas se desfez
Não naufraguei
Nem acordei
Nem te vi
Pus-me a sonhar
Deitei-me ao mar
Pus-me a sonhar
Adormeci

[instrumental]

Depois da voz
Deixei-te a sós
Com a tua canção
Quando a ouvi
O que senti
Fez-me entender a solidão
E o teu olhar
Quase a chorar
Foi-se fechando em timidez:
"– Não tenho nada
Só tenho a estrada
Que a vida fez"

Depois do "bis"
É por um triz
Que tu voltas p'ra nós
Porque a guitarra
Quase te agarra
P'ra te levar na sua voz
E num tremor
Descubro a cor
Que há no sim
A cor do "bis"
Azul-feliz
A cor do "bis"
Azul-Alvim


* Carlos do Carmo – voz
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola de fado
Produção musical – Carlos Manuel Proença e José Manuel Neto
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Joel Conde, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Sabores da Noite



Letra: Paulo Abreu de Lima
Música: Fernando Alvim
Intérprete: António Zambujo* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Portas abertas
Vidas despertas
Sonhos desfeitos na cor
Juras, promessas
Becos, travessas
Falsas premissas d'amor...

Vícios baratos
Em corpos gastos
De tantos copos de gin
Gritos sem voz
Dentro de nós
Nas madrugadas sem fim...

Sou da noite filho predilecto
Condenado à sina do cantor
Trato das palavras com afecto e amor
Como a florista a uma flor...

Chego a casa morto de cansaço
Com saudades muitas de te ter
Mas do teu ciúme que renega o abraço
És mulher que cega ou não quer ver...

Voltei ao bar
Para afogar
Eternas sedes de ti
Na mesa farta
D'outra mulata
Que foi cama onde dormi...

Morde e abusa
Rasga a blusa
E diz-me sempre que sim
Nos desvarios
D'amores vadios
Com princípio, meio e fim...

[instrumental]

Sou da noite filho predilecto
Condenado à sina do cantor
Trato das palavras com afecto e amor
Como a florista a uma flor...

Chego a casa morto de cansaço
Com saudades muitas de te ter
Mas do teu ciúme que renega o abraço
És mulher que cega ou não quer ver...

Voltei ao bar
Para afogar
Eternas sedes de ti
Na mesa farta
D'outra mulata
Que foi cama onde dormi...

Morde e abusa
Rasga a blusa
E diz-me sempre que sim
Nos desvarios
D'amores vadios
Com princípio, meio e fim...


* António Zambujo – voz
Bernardo Couto – guitarra portuguesa
Fernando Alvim – guitarra
Jon Luz – cavaquinho
José Miguel Conde – clarinetes
Ricardo Cruz – contrabaixo
Produção musical – Ricardo Cruz
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Joaquim Monte, no Estúdio Namouche, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Fim de Tarde a Sonhar



Letra: Rosário Worisch Alvim e Fernando Alvim
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Cristina Branco* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental / vocalizos]

O Sol
A brilhar
A sorrir
E a brincar
Para nós
Fim de tarde a sonhar

Um búzio
A contar
Uma lenda
Do mar
Um naufrágio
E um barquinho a passar

Deitados na areia
Desenhamos os sons
Com tons de Verão
Que em ondas se vão
E assim, nosso sonho voou...

A noite
Ao chegar
Trás com ela
Uma estrela
Melodia
Que convida a dançar...

Dá cor
Ao luar
A paixão
Que se sente
Ilusão
De um sonho
Ao poente

[instrumental]

Deitados na areia
Desenhamos canções
Com tons de Verão
Que em ondas se vão
E assim, o Universo cantou...

A cor
Do luar
Ao sentir a paixão
Ilusão
De um sonho
(A) acabar


* Cristina Branco – voz
Fernando Alvim – guitarra
Ricardo Toscano – clarinete
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Impossível Adeus



Letra: Vitorino Salomé
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Vitorino* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Está escrito no olhar
Inda que seja longe
Estou sempre por perto
Não há último adeus
Passageira lembrança
De um doce afecto

Partir é não voltar
Fica a dor do esperar
Ausência eterna
Dos teus passos a chegar
Quando a noite hesitava
Cair sobre a terra

Dos amores desencontrados
Não reza a história
São nuvem que passa
Dos sonhos idolatrados
Fica a memória
O prazer, a graça

Por isso não te vás
– Ó laranjeira em flor
Perfuma a triste ausência
Do meu gentil amor

Fica sempre comigo
Branca flor perfumada
Guarda junto ao teu peito
Paixão nunca esquecida

[instrumental]

Dos amores desencontrados
Não reza a história
São nuvem que passa
Dos sonhos idolatrados
Fica a memória
O prazer, a graça

Por isso não te vás
– Ó laranjeira em flor
Perfuma a triste ausência
Do meu gentil amor

Fica sempre comigo
Branca flor perfumada
Guarda junto ao teu peito
Paixão nunca esquecida


Nota: «Dedicada à doce vivência destes dois amigos, Fernando e Rosarinho, inspiradores de paz interior, à sombra duma linda e florida tangerineira.» (Vitorino Salomé)

* Vitorino – voz
Fernando Alvim – guitarra
Pedro Santos – acordeão
Ruca Rebordão – shakers, udu, bongós
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Um Olhar Lisboa



Letra: Mário Rainho
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Filipa Pais* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Abri nossa janela,
O sol entrou por ela;
E como convidado
Tomou café ao nosso lado

O coração se abrasa
À mesa d'alvorada;
Quem tem o sol em casa
Ai, não precisa de mais nada.

Dou bom dia a Lisboa,
Gaivota que voa,
Alegre e ensonada;
E olho o rio Tejo
Que, à míngua dum beijo,
Quer ver-te acordada.

Oiço o burburinho da cidade
E vejo o céu azul;
Na viola dedilho a saudade
Desta canção do sul.

Quem vê Lisboa assim,
Um poema de mim
Luz, cor e aguarela
Não pode respirar sem ela.

Os sons dos bairros são
Pulsar do coração;
Suas ruas são veias,
Telas de fado cheias.
Dou bom dia a Lisboa,
Gaivota que voa,
Alegre e ensonada;
E olho o rio Tejo
Que, à míngua dum beijo,
Quer ver-te acordada.

Oiço o burburinho da cidade
E vejo o céu azul;
Na viola dedilho a saudade
Desta canção do sul.

[instrumental]

Dou bom dia a Lisboa,
Gaivota que voa,
Alegre e ensonada;
E olho o rio Tejo
Que, à míngua dum beijo,
Quer ver-te acordada.

Oiço o burburinho da cidade
E vejo o céu azul;
Na viola dedilho a saudade
Desta canção do sul.


* Filipa Pais – voz
Celina da Piedade – acordeão
Fernando Alvim – guitarra
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz) – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Gravação (instrumentos) – Joaquim Monte, no Estúdio Namouche, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Marcha dos Fadistas e Canto do Pastor



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* com Rão Kyao (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




(instrumental)


* Fernando Alvim – guitarra
Rão Kyao – flauta
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



O Tempo a Cantar



Letra: Miguel Martins
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Marco Rodrigues* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Abre-se o sol da manhã, sinto-me capaz
De caminhar p'la cidade até ele abalar
A luz invade-me o peito, sou de novo rapaz
Perdido nas suas ruas, como ondas do mar...

Ontem, chegaste mais leve, qual brisa do sul,
A noite foi breve, sob um céu azul,
Tão longa e tão breve – era o tempo a cantar

E sob um manto de estrelas, o sono chegou
E resgatou o teu corpo ao encanto do amor
Adormeci a teu lado, sabendo quem sou
E quem serei, para sempre, vá eu onde for

Ontem, chegaste mais leve, qual brisa do sul,
A noite foi breve, sob um céu azul,
Tão longa e tão breve – era o tempo a cantar

[instrumental]

E, ao sair para a rua, a cidade sorriu
Pois, sendo a mesma era tua uma rosa que abriu
Porque ontem chegaste mais leve, qual brisa do sul,
A noite foi breve, sob um céu azul,
Tão longa e tão breve – era o tempo a cantar

Porque ontem chegaste mais leve, qual brisa do sul,
A noite foi breve, sob um céu azul,
Tão longa e tão breve – era o tempo a cantar


* Marco Rodrigues – voz
André Moreira – baixo
Carlos Manuel Proença – guitarra
Fernando Alvim – guitarra
José Manuel Neto – guitarra portuguesa
Produção musical – Carlos Manuel Proença e José Manuel Neto
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – André Tavares, no Estúdio MDL, Paço d'Arcos
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



De Mim para Mim



Letra: Amélia Muge
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Amélia Muge* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




Bastava-me na noite
Um beijo sobre a testa
Um lençol perfumado
Um sorriso de festa
Um olhar acordado

Bastava-me poder
Colher a alegria
Como um ramo de flores
Quando o tempo é d'amores
Anda a lua de dia

Se saber que me basta
O que deseja o meu querer
Fosse o gesto perfeito
Que se demora
Dentro do peito

Bastava-me sentir
Que a tua mão conhece
O caminho da minha
A tarde amadurece
Como a uva na vinha

Bastava-me que o sonho
Pudesse transformar
Este cravo encarnado
No teu corpo deitado
Quando a noite viesse

[instrumental]

Se saber que me basta
O que deseja o meu querer
Fosse o gesto perfeito
Que se demora
Dentro do peito

Bastava-me sentir
Que a tua mão conhece
O caminho da minha
A tarde amadurece
Como a uva na vinha

Bastava-me que o sonho
Pudesse transformar
Este cravo encarnado
No teu corpo deitado
Quando a noite viesse


* Amélia Muge – voz
Fernando Alvim – guitarra
Pedro Santos – acordeão
Ruca Rebordão – bongós e cajón
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz) – José Martins, no Estúdio de José Martins, Lisboa
Gravação (instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Balada para Inês



Letra: José Fanha
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Manuel Freire* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Rainha imperfeita
De Inês cantarei
A trança desfeita
E a mágoa do rei

A crua vingança
Lavada com sal
Cobrada na dança
De um fio de punhal

À terra descida
Roseira Rosal
Inês é partida
E apenas cristal
Adeus minha vida
Adeus Portugal

Inês castigada
Sem pena nem dó
Amante matada
Rainha ficou

É dela o lamento
Da água que cai
E a fala do vento
Soltando seu ai

À terra descida
Roseira Rosal
Inês é partida
E apenas cristal
Adeus minha vida
Adeus Portugal

Do sangue entornado
Com raiva e furor
Se fez o bordado
Do mais belo amor

Do laço desfeito
De Pedro e de Inês
Nasceu este jeito
De ser português

À terra descida
Roseira Rosal
Inês é partida
E apenas cristal
Adeus minha vida
Ai adeus Portugal


* Manuel Freire – voz
Fernando Alvim – guitarra
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Joaquim Monte, no Estúdio Namouche, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



A Guitarra Portuguesa Encontra o Jazz



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* com Ricardo Marques e Ricardo Toscano (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




(instrumental)


* Fernando Alvim – guitarra
Ricardo Marques – guitarra portuguesa
Ricardo Toscano – saxofone
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Pobre de Quem (não tem uma ilusão)



Letra: João Monge
Música: Fernando Alvim
Intérprete: Filipa Pais* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Meu bem, pobre de quem
Não tem por quem chorar
Nem tem alguém
Por quem pedir, por quem lutar
E perdoar

Meu bem, pobre de quem
Não tem uma ilusão
De alguém que vem
E bate a cem no coração

Olha p'ra mim
Que eu vou mostrar
Essa beleza
Que há na fraqueza
Que a gente tem
De tanto amar.
Pobre de quem...

Meu bem, às vezes dá
Um nó a quem está só
Perdido, sentido
Como se Deus não tenha dó
Tenha saído

Meu bem, pobre de quem
Só tem no coração
O luto por alguém
Que já não tem na sua mão

Olha p'ra mim
Que eu vou mostrar
Essa beleza
Que há na fraqueza
Que a gente tem
De tanto amar.
Pobre de quem...

[instrumental]

Olha p'ra mim
Que eu vou mostrar
Essa beleza
Que há na fraqueza
Que a gente tem
De tanto amar.
Pobre de quem...

Meu bem, pobre de quem
Não tem uma ilusão
De alguém que vem
E bate a cem no coração


* Filipa Pais – voz
Fernando Alvim – guitarra
Rão Kyao – flauta
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Quadrinhas Submarinas



Letra: Amélia Muge
Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Mafalda Taborda, Micaela Vaz e Vânia Conde* (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




[instrumental]

Mas que mal estão as ostras
Por ninguém as querer abrir
Ficam muito esperançadas
Vendo a maré a subir
[bis]

Mas lá nesses baixos fundos
Nada é assim tão mau
Já se safa o peixe-gato
Na terra do carapau
[bis]

Que dizer do mexilhão?
Anda sempre, sempre aos ais
Todos falam que tem culpa
E que se mexe demais
[bis]

Mas lá nesses baixos fundos
Nada é assim tão mau
Já se safa o peixe-gato
Na terra do carapau
[bis]

Ninguém percebe os percebes
Andam todos emproados
Têm cabeça de língua
E nunca têm trocados
[bis]

Mas lá nesses baixos fundos
Nada é assim tão mau
Já se safa o peixe-gato
Na terra do carapau
[bis]

[instrumental]

O caranguejo, porém,
Bate palmas sem parar
Dizem que anda p'ra trás
Mas é só p'ra despistar
[bis]

[instrumental]


* Mafalda Taborda, Micaela Vaz e Vânia Conde – vozes
Fernando Alvim – guitarra
Rão Kyao – flauta
Ricardo Parreira – guitarra portuguesa
Ruca Rebordão – percussão
Yami (Fernando Araújo) – baixo
Produção musical – Ricardo Parreira
Direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação (voz e instrumentos) – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Mistura – Samuel Nascimento, no Estúdio Alvalade, Lisboa
Masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Improviso Tropical



Música: Fernando Alvim
Intérpretes: Fernando Alvim* com Pedro Jóia (in Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim": CD2 – "Canções do Alvim", Universal, 2011)




(instrumental)


* Fernando Alvim – guitarra
Pedro Jóia – guitarra clássica
Produção musical e direcção artística – Fernando Alvim
Concepção e idealização – Fernando Alvim
Produção executiva – Rosário Worisch Alvim
Gravação – Joaquim Monte, no Estúdio Namouche, Lisboa
Mistura e masterização – Fernando Nunes, no Estúdio Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos



Capa do EP "Guitarras de Portugal", de Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral (Tecla, 1971)



Capa do LP "Dedicatória", de Manuel Freire, Fernando Alvim e Pedro Caldeira Cabral (Tecla, 1972)



Capa do Livro/2CD "Fados & Canções do Alvim" (Universal, 2011)

07 março 2015

"Quando os Lobos Uivam"

Em peças de teatro e obras de ficção (que não sejam fábulas ou histórias para crianças), os nomes de animais nos títulos surgem, quase sempre, em sentido figurado ou metafórico, isto é, remetendo para pessoas ou para as qualidades e atitudes dos humanos que são consideradas animalescas. Alguns exemplos: "As Vespas", do grego Aristófanes; "O Leopardo", do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa; "O Lobo das Estepes", do alemão Hermann Hesse; "As Moscas", do francês Jean-Paul Sartre; "A Cotovia", do também francês Jean Anouilh; e "Quando os Lobos Uivam", do português Aquilino Ribeiro. Neste último caso, os lobos são as autoridades do regime salazarista que teimaram em levar por diante a florestação de pinhal nos baldios da Serra de Leomil (também chamada Serra da Nave, e que o autor designou na narrativa por Serra dos Milhafres), mesmo contra a vontade das populações locais.
Helena Matos, na edição da rubrica "O Mundo ao Ouvido" (Antena 1), em que incluiu uma gravação de uivos de lobos, e teceu algumas considerações sobre aqueles animais, menciona o romance "Quando os Lobos Uivam". A simples citação do título é gratuita, já que as personagens da obra aquiliniana são indivíduos da espécie homo sapiens e não os temidos canídeos selvagens. No entanto, podemos admitir a referência como benévola, e por duas ordens de razões: primeira – porque todos os pretextos são bons para sugerir a leitura da suculenta prosa de Aquilino Ribeiro (um escritor actualmente bastante esquecido, mas que é um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre); segunda – porque na região da Beira Alta onde se desenrola a acção do romance havia alcateias, pelo menos até ao momento em que foi escrito e originalmente publicado (1958). Terá sido essa a circunstância que inspirou o título ao escritor e que também deu o mote ao jornalista João Paulo Guerra para incluir uivos de lobos no início da reportagem que, em 1995, no âmbito da série "Viagens com Livros" (TSF-Rádio Jornal), realizou na zona dos baldios que foram alvo da prepotência estatal, e cujo registo áudio aproveitamos para resgatar, com a devida vénia ao autor. Uma boa memória da rádio e um notável exemplo de serviço público cultural!
Os lobos, esses foram sendo dizimados, a ponto de desaparecerem das Terras do Demo (como o próprio Aquilino as designou), e se hoje ainda existem em algumas regiões mais setentrionais do território nacional (designadamente no Parque Natural de Montesinho) muito o devemos ao Grupo Lobo, presidido pelo Prof. Francisco Fonseca, que não se tem poupado a esforços em prol do lobo ibérico. A propósito, porque não aproveitou Helena Matos a soberana oportunidade que teve para fazer alusão àquela honorável entidade e ao meritório trabalho que tem desenvolvido no nosso país? Uma omissão absolutamente imperdoável, ademais tratando-se de uma jornalista e suposta investigadora!
O apontamento também deixou muito a desejar na opção que foi feita para a ilustração musical. Em vez de trazer o massificado Michael Jackson e o seu "Thriller", que toda a gente conhece, Helena Matos podia ter subido a fasquia e dado a ouvir a sinfonia de uivos que surge na parte final do tema "Lobos, Raposas e Coiotes", de Maria João e Mário Laginha, ou, ainda melhor, o tema "A Lua e os Lobos", de Rão Kyao, em que o músico imita na flauta precisamente os uivos dos lobos. Isso, sim, era prestar bom serviço público. Da rádio que os contribuintes financiam espera-se algo mais do que banalidades e futilidades que nada acrescentam ao universo de quem a ouve.
Como os leitores do blogue "A Nossa Radio" merecem o melhor, aqui se faculta a audição integral das duas peças musicais atrás referidas.



"Viagens com Livros": "Quando os Lobos Uivam"



Reportagem de João Paulo Guerra* (in CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias", Strauss, 1996)


(reportagem radiofónica)


* Guião e reportagem – João Paulo Guerra
Sonorização – Alexandrina Guerreiro
Transmissão na TSF-Rádio Jornal, de Abril a Setembro de 1995
Masterização digital – Francisco Leal, no Strauss Studio, Lisboa, em Janeiro de 1996



Lobos, Raposas e Coiotes



Música: Mário Laginha
Intérpretes: Maria João e Mário Laginha* com a NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dir. Arild Remmereit (in CD "Lobos, Raposas e Coiotes", Verve/Universal, 1999)




(instrumental com vocalizos)


* Maria João – voz
Mário Laginha – piano
Orquestração e arranjos – Mário Laginha
NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dirigida por Arild Remmereit
Produção – Reinhard Karwatky & Wolf-Dieter Karwatky
Co-produção – Norddeutscher Rundfunk, Hannover
Supervisão de gravação – Reinhard Karwatky
Gravado por Manfred Kietzke e Wolf-Dieter Karwatky, nos NDR Studios, Hannover (Alemanha), em 1997
Mistura, masterização e edição digital – Karwatky Bros. (Karcos) e Universal Recording Service (Emil Berliner Haus), Hannover



A Lua e os Lobos



Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)


(instrumental)


* [Créditos gerais do disco:]
Rão Kyao – flautas de bambu
Renato Júnior – acordeão
António Pinto – guitarras acústicas
Ruca Rebordão – tambor africano, caxixi
André Sousa Machado – bateria
Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa



Capa do CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias" (Strauss, 1996)
Design gráfico – Rogério Taveira
Fotografia – Edite Lourenço



Capa do CD "Lobos, Raposas e Coiotes" (Verve/Universal, 1999)



Capa do CD "Porto Alto" (Farol Música, 2004)



Capa do romance "Quando os Lobos Uivam" (Bertrand Editora, edição de 2011)

13 fevereiro 2015

Antena 2: uma miséria de rádio (II)

Qualquer dia é bom para se reflectir e opinar sobre o serviço público de rádio e o de hoje afigura-se assaz oportuno para trazer de novo à liça a Antena 2, tão confrangedor é o mísero estado a que chegou às mãos da tríade de malfeitores Marinho/Pêgo/Almeida. 
Não há muito a acrescentar ao que foi explanado em textos anteriores (links ao fundo), mas importa frisar dois ou três pontos de capital importância. Persiste a penúria de programas culturais – nas áreas da História, da Sociologia, da Antropologia, das Artes, do Pensamento – e mesmo em matéria de música são escassíssimos os programas de autor. Prevalecem os espaços – longuíssimos! – preenchidos com trechos musicais em jeito de miscelânea: vai-se buscar à prateleira um lote de discos ao acaso e toca de passar uma ou duas faixas de cada um, de tal sorte que durante uma hora (há que não ultrapassar esse tempo porque os 'jingles' e os 'spots' promocionais têm forçosamente de ser disparados, mesmo que já tenham ido para o ar milhentas vezes) podem ser transmitidas as obras mais díspares em género, estilo e época. «Mete-se tudo no mesmo saco e logo se vê o que sai na rifa». Perguntamos: isto é prestar bom serviço público? É com este método desconexo e destruturado que a Antena 2 cumpre a nobre missão para a qual foi criada e que é, por um lado, a de satisfazer os ouvintes mais eruditos e exigentes e, por outro, a de promover o gosto e o conhecimento nos principiantes? Jamais! Não corresponde cabalmente às expectativas dos primeiros e afugenta os segundos, de tão perdidos e desorientados que se sentem no meio de tal babel musical. Vistas bem as coisas, a Antena 2, durante largas horas do dia, não é muito diferente de uma vulgar rádio de 'playlist', se exceptuarmos a atenuante de as peças musicais não estarem sujeitas a padrões de repetição durante o mesmo dia ou nos seguintes (como acontece na Antena 1, por exemplo). No fundo, o que Rui Pêgo fez foi aplicar à Antena 2 a formatação em vigor nas rádios de música pop por onde passou (a começar pela RFM), revelando assim uma evidente incapacidade para perceber as especificidades de um canal vocacionado para a alta cultura. Incapacidade e desinteresse, pois ao mesmo tempo que deixa a Antena 2 na indigência não faz a menor parcimónia em engordar a clientela de colaboradores externos da Antena 1 (como sucedeu já este ano).
No Dia Mundial da Rádio, o escrevente destas linhas e, estou em crer, muitos mais ouvintes insatisfeitos com a actual Antena 2 deixam expresso o desejo de que o novo responsável pelos conteúdos na administração da Rádio e Televisão de Portugal, Nuno Artur Silva, olhe para o canal e lhe restitua a dignidade perdida (depois da saída de João Pereira Bastos foi sempre a descer). E o primeiro passo será, inevitavelmente, voltar a autonomizar a direcção de programas e entregá-la a uma pessoa com a necessária e conveniente sensibilidade cultural. Atrevo-me a sugerir um nome: a pianista e ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas.


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[em preparação]