Em peças de teatro e obras de ficção (que não sejam fábulas ou histórias para crianças), os nomes de animais nos títulos surgem, quase sempre, em sentido figurado ou metafórico, isto é, remetendo para pessoas ou para as qualidades e atitudes dos humanos que são consideradas animalescas. Alguns exemplos: "As Vespas", do grego Aristófanes; "O Leopardo", do italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa; "O Lobo das Estepes", do alemão Hermann Hesse; "As Moscas", do francês Jean-Paul Sartre; "A Cotovia", do também francês Jean Anouilh; e "Quando os Lobos Uivam", do português Aquilino Ribeiro. Neste último caso, os lobos são as autoridades do regime salazarista que teimaram em levar por diante a florestação de pinhal nos baldios da Serra de Leomil (também chamada Serra da Nave, e que o autor designou na narrativa por Serra dos Milhafres), mesmo contra a vontade das populações locais.
Helena Matos, na edição da rubrica "O Mundo ao Ouvido" (Antena 1), em que incluiu uma gravação de uivos de lobos, e teceu algumas considerações sobre aqueles animais, menciona o romance "Quando os Lobos Uivam". A simples citação do título é gratuita, já que as personagens da obra aquiliniana são indivíduos da espécie homo sapiens e não os temidos canídeos selvagens. No entanto, podemos admitir a referência como benévola, e por duas ordens de razões: primeira – porque todos os pretextos são bons para sugerir a leitura da suculenta prosa de Aquilino Ribeiro (um escritor actualmente bastante esquecido, mas que é um dos maiores vultos da Literatura Portuguesa do século XX e de sempre); segunda – porque na região da Beira Alta onde se desenrola a acção do romance havia alcateias, pelo menos até ao momento em que foi escrito e originalmente publicado (1958). Terá sido essa a circunstância que inspirou o título ao escritor e que também deu o mote ao jornalista João Paulo Guerra para incluir uivos de lobos no início da reportagem que, em 1995, no âmbito da série "Viagens com Livros" (TSF-Rádio Jornal), realizou na zona dos baldios que foram alvo da prepotência estatal, e cujo registo áudio aproveitamos para resgatar, com a devida vénia ao autor. Uma boa memória da rádio e um notável exemplo de serviço público cultural!
Os lobos, esses foram sendo dizimados, a ponto de desaparecerem das Terras do Demo (como o próprio Aquilino as designou), e se hoje ainda existem em algumas regiões mais setentrionais do território nacional (designadamente no Parque Natural de Montesinho) muito o devemos ao Grupo Lobo, presidido pelo Prof. Francisco Fonseca, que não se tem poupado a esforços em prol do lobo ibérico. A propósito, porque não aproveitou Helena Matos a soberana oportunidade que teve para fazer alusão àquela honorável entidade e ao meritório trabalho que tem desenvolvido no nosso país? Uma omissão absolutamente imperdoável, ademais tratando-se de uma jornalista e suposta investigadora!
O apontamento também deixou muito a desejar na opção que foi feita para a ilustração musical. Em vez de trazer o massificado Michael Jackson e o seu "Thriller", que toda a gente conhece, Helena Matos podia ter subido a fasquia e dado a ouvir a sinfonia de uivos que surge na parte final do tema "Lobos, Raposas e Coiotes", de Maria João e Mário Laginha, ou, ainda melhor, o tema "A Lua e os Lobos", de Rão Kyao, em que o músico imita na flauta precisamente os uivos dos lobos. Isso, sim, era prestar bom serviço público. Da rádio que os contribuintes financiam espera-se algo mais do que banalidades e futilidades que nada acrescentam ao universo de quem a ouve.
Como os leitores do blogue "A Nossa Radio" merecem o melhor, aqui se faculta a audição integral das duas peças musicais atrás referidas.
"Viagens com Livros": "Quando os Lobos Uivam"
Reportagem de João Paulo Guerra* (in CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias", Strauss, 1996)
(reportagem radiofónica)
* Guião e reportagem – João Paulo Guerra
Sonorização – Alexandrina Guerreiro
Transmissão na TSF-Rádio Jornal, de Abril a Setembro de 1995
Masterização digital – Francisco Leal, no Strauss Studio, Lisboa, em Janeiro de 1996
Lobos, Raposas e Coiotes
Música: Mário Laginha
Intérpretes: Maria João e Mário Laginha* com a NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dir. Arild Remmereit (in CD "Lobos, Raposas e Coiotes", Verve/Universal, 1999)
(instrumental com vocalizos)
* Maria João – voz
Mário Laginha – piano
Orquestração e arranjos – Mário Laginha
NDR Radio Philharmonic Orchestra Hannover, dirigida por Arild Remmereit
Produção – Reinhard Karwatky & Wolf-Dieter Karwatky
Co-produção – Norddeutscher Rundfunk, Hannover
Supervisão de gravação – Reinhard Karwatky
Gravado por Manfred Kietzke e Wolf-Dieter Karwatky, nos NDR Studios, Hannover (Alemanha), em 1997
Mistura, masterização e edição digital – Karwatky Bros. (Karcos) e Universal Recording Service (Emil Berliner Haus), Hannover
A Lua e os Lobos
Música: Rão Kyao
Intérprete: Rão Kyao* (in CD "Porto Alto", Farol Música, 2004)
(instrumental)
* [Créditos gerais do disco:]
Rão Kyao – flautas de bambu
Renato Júnior – acordeão
António Pinto – guitarras acústicas
Ruca Rebordão – tambor africano, caxixi
André Sousa Machado – bateria
Produção musical – Luís Pedro Fonseca
Produção executiva – António Cunha (Uguru) & Luís Pedro Fonseca
Gravado por Pedro Rego e Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa, em Dezembro de 2003 e Janeiro de 2004
Misturado e masterizado por Jorge Barata, nos Estúdios Xangrilá, Lisboa
Capa do CD "Viagens com Livros", Vol. 4 – "Quando os Lobos Uivam / Léah e Outras Histórias" (Strauss, 1996)
Design gráfico – Rogério Taveira
Fotografia – Edite Lourenço
Capa do CD "Lobos, Raposas e Coiotes" (Verve/Universal, 1999)
Capa do CD "Porto Alto" (Farol Música, 2004)
Capa do romance "Quando os Lobos Uivam" (Bertrand Editora, edição de 2011)
Qualquer dia é bom para se reflectir e opinar sobre o serviço público de rádio e o de hoje afigura-se assaz oportuno para trazer de novo à liça a Antena 2, tão confrangedor é o mísero estado a que chegou às mãos da tríade de malfeitores Marinho/Pêgo/Almeida. Não há muito a acrescentar ao que foi explanado em textos anteriores (links ao fundo), mas importa frisar dois ou três pontos de capital importância. Persiste a penúria de programas culturais – nas áreas da História, da Sociologia, da Antropologia, das Artes, do Pensamento – e mesmo em matéria de música são escassíssimos os programas de autor. Prevalecem os espaços – longuíssimos! – preenchidos com trechos musicais em jeito de miscelânea: vai-se buscar à prateleira um lote de discos ao acaso e toca de passar uma ou duas faixas de cada um, de tal sorte que durante uma hora (há que não ultrapassar esse tempo porque os 'jingles' e os 'spots' promocionais têm forçosamente de ser disparados, mesmo que já tenham ido para o ar milhentas vezes) podem ser transmitidas as obras mais díspares em género, estilo e época. «Mete-se tudo no mesmo saco e logo se vê o que sai na rifa». Perguntamos: isto é prestar bom serviço público? É com este método desconexo e destruturado que a Antena 2 cumpre a nobre missão para a qual foi criada e que é, por um lado, a de satisfazer os ouvintes mais eruditos e exigentes e, por outro, a de promover o gosto e o conhecimento nos principiantes? Jamais! Não corresponde cabalmente às expectativas dos primeiros e afugenta os segundos, de tão perdidos e desorientados que se sentem no meio de tal babel musical. Vistas bem as coisas, a Antena 2, durante largas horas do dia, não é muito diferente de uma vulgar rádio de 'playlist', se exceptuarmos a atenuante de as peças musicais não estarem sujeitas a padrões de repetição durante o mesmo dia ou nos seguintes (como acontece na Antena 1, por exemplo). No fundo, o que Rui Pêgo fez foi aplicar à Antena 2 a formatação em vigor nas rádios de música pop por onde passou (a começar pela RFM), revelando assim uma evidente incapacidade para perceber as especificidades de um canal vocacionado para a alta cultura. Incapacidade e desinteresse, pois ao mesmo tempo que deixa a Antena 2 na indigência não faz a menor parcimónia em engordar a clientela de colaboradores externos da Antena 1 (como sucedeu já este ano). No Dia Mundial da Rádio, o escrevente destas linhas e, estou em crer, muitos mais ouvintes insatisfeitos com a actual Antena 2 deixam expresso o desejo de que o novo responsável pelos conteúdos na administração da Rádio e Televisão de Portugal, Nuno Artur Silva, olhe para o canal e lhe restitua a dignidade perdida (depois da saída de João Pereira Bastos foi sempre a descer). E o primeiro passo será, inevitavelmente, voltar a autonomizar a direcção de programas e entregá-la a uma pessoa com a necessária e conveniente sensibilidade cultural. Atrevo-me a sugerir um nome: a pianista e ex-ministra da Cultura Gabriela Canavilhas. Textos relacionados: Evocações
e programas culturais Formas
de poluição sonora na rádio pública Antena
2: quando os 'spots' promocionais se tornam um flagelo Bach
achincalhado na Antena 2 Promoção
à RTP-1 na Antena 2 Antena
0,2: a arte que destoca A 'macdonaldização' da Antena 2 Poesia na rádio (II) Antena 2: zero euros para a aquisição de novos discos Sobre o estado da Antena 2 Porquê
o fim do "Teatro Imaginário"? Um
requiem cortado em pedacinhos Em
defesa do programa "Questões de Moral" Antena
2: uma pobreza de rádio "A
Vida Breve": a poesia na voz dos autores Antena
2: uma miséria de rádio Teatro
radiofónico: criminosamente ausente do serviço público
Fernando Machado Soares nasceu em S. Roque do Pico (distrito da Horta - Açores), em 3 de Setembro de 1930 e licenciou-se nos finais da década de 50, na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.
Este cantor, poeta e compositor, começou a cantar em Coimbra, nos anos 50, integrado num histórico grupo de fados e guitarradas, do qual faziam parte, entre outros, Luiz Goes, José Afonso, Fernando Rolim e Florêncio de Carvalho, e ainda António Brojo, António Portugal (guitarras), Aurélio Reis e Mário de Castro (violas).
Machado Soares colaborou intensamente com os organismos académicos da altura, tendo-se deslocado ao Brasil com o Orfeon em 1954 e feito o périplo de África com a Tuna, em 1956. Em 1961, já licenciado em Direito, acompanhou o Orfeon aos Estados Unidos da América.
Em 1957, com António Portugal e Jorge Godinho (guitarras) e Manuel Pepe e Levy Baptista (violas), Fernando Machado Soares prepara a gravação de um disco que ficará para a História como um dos momentos mais altos do fado de Coimbra e onde toda a sua criatividade renovadora ficou bem patente: o LP do "Coimbra Quintet", gravado para a Philips, em Madrid, num estúdio de excelentes condições técnico-acústicas.
Apesar da sua importante colaboração na concepção dos arranjos e de algumas composições suas figurarem no disco, acabou por ser Luiz Goes, e não Machado Soares, a registar a sua voz no vinil: pura e simplesmente, o cantor decidiu não se deslocar à gravação e, à última hora, foi substituído por Luiz Goes, o qual, rápida e talentosamente, recebeu o testemunho de Machado Soares e realizou uma brilhante performance em estúdio.
Machado Soares é talvez, depois de Menano e Bettencourt, o nome mais importante do fado de Coimbra (mais pela renovação que promoveu e pela qualidade e quantidade das suas composições, do que pela sua forma de interpretar, aliás também excelente).
Na realidade, foi este açoriano quem criou as condições da transição do fado clássico para as baladas e para as trovas, que as vozes de José Afonso e Adriano Correia de Oliveira vieram a imortalizar: sem o contributo de Machado Soares, seguramente que teria sido outra, diferente e menos rica, a trajectória do Zeca e do Adriano (o qual, aliás, gravou muitas composições de Machado Soares).
Durante os seus tempos de Coimbra não era fácil conseguir ouvir cantar Machado Soares: ele só cantava quando lhe apetecia. E não lhe apetecia muitas vezes...
Curiosamente, foi depois de deixar Coimbra e iniciar a sua carreira de magistrado (em comarcas como Guimarães, Santarém, Almada e outras) que Machado Soares, aos fins-de-semana, rumava à Lusa Atenas para cantar e conviver, acolhendo-se à "sua" República Baco, onde vivera durante os seus tempos de estudante e onde, nessa altura, residiam José Niza (que o acompanhava à guitarra e à viola), Fernando Gomes Alves (outro cantor de fados), Manuel Pepe (já médico, mas ainda residente na República e viola do grupo de António Portugal) e ainda Francisco Bandeira Mateus, que fez versos para alguns dos fados de Machado Soares.
Entretanto, com a transferência para o Tribunal de Almada – já como juiz corregedor – a carreira de Machado Soares conhece imprevistos desenvolvimentos.
Nas noites de Lisboa começa a ser frequentador assíduo de casas de fado, acabando por se "fixar" no "Senhor Vinho", da fadista Maria da Fé [e do poeta José Luís Gordo], onde começou a ser acompanhado pelo grande guitarrista Fontes Rocha, pelos violas da casa e, muitas vezes, por Durval Moreirinhas. No "Senhor Vinho", Machado Soares actuava integrado no elenco dos artistas residentes, cantando sempre canções suas ou do repertório de Coimbra, e deliciando os frequentadores com a expressão da sua voz fortíssima e as "nuances" pianíssimas que imprimia às suas interpretações.
Aliás, o facto de ser juiz de dia e cantor à noite, não caiu bem no Ministério da Justiça, que considerava lesivas da dignidade da magistratura as suas actuações públicas. Machado Soares em nada alterou este seu "desdobramento de personalidade", continua a cantar onde lhe apetece e, entretanto, chegou ao topo da sua carreira de magistrado, sendo actualmente Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça.
De toda a sua riquíssima obra destaca-se um tema que será um dos mais conhecidos e cantados da música popular portuguesa: a Balada do 6.º ano médico "Coimbra tem mais encanto / na hora da despedida". Para Machado Soares – e já lá vão mais de 35 anos passados sobre a despedida – Coimbra continua a ter encantos infinitos e a servir de motivação para uma das obras mais importantes da música portuguesa da segunda metade do século.
JOSÉ NIZA (texto publicado no livro apenso ao duplo CD "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1", Movieplay, 1996)
Fernando Machado Soares faleceu em Almada, a 7 de Dezembro de 2014.
A notícia veio a lume no dia 10 (vide artigo de Gonçalo Fragata no "Público") mas a rádio estatal manteve-se completamente alheada do triste acontecimento. Como se explica que a Antena 1, atendendo às especiais obrigações que tem no domínio da música portuguesa, não tenha feito a devida homenagem ao eminente artista? A explicação encontra-se, evidentemente, no já sobejamente conhecido obscurantismo cultural de quem a dirige...
O blogue "A Nossa Rádio" pauta-se por uma atitude bem diferente e faz o serviço público de apresentar um punhado dos mais belos espécimes do repertório de Fernando Machado Soares, pois a melhor forma de render tributo à sua memória é ouvi-lo. E como se afigura muito a propósito na presente quadra, o rol termina com a canção "Oh Meu Menino Jesus", uma das mais maravilhosas peças do cancioneiro natalício que até hoje se criaram em Portugal (e no mundo). Uma pérola perdida no vinil...
Balada do Entardecer
Letra e música: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60109, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD1, Movieplay, 1996)
[instrumental]
Ó Mondego, ó Mondego,
Diz-me se corres p'ró mar!
Ao meu amor, em segredo,
Saudades quero mandar.
Ó Mondego, ó Mondego,
Diz-me se corres p'ró mar!
[instrumental]
Quero saudades mandar
Em troca das minhas dores.
Diz-me se corres p'ró mar,
Espelho das minhas dores!
Diz-me se corres p'ró mar,
Espelho das minhas dores!
* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas
O Que Mais me Prende ao Mundo
Letra: Popular (1.ª quadra) e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60110, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD1, Movieplay, 1996)
[instrumental]
O que mais me prende ao mundo
Não é amor de ninguém;
É que a morte, de esquecida,
Deixa o mal e leva o bem.
[instrumental]
Quando eu um dia morrer,
Não chores, ó minha amada!
Também a morte é viver
Quando a vida não é nada.
* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas
Fado da Noite
Letra: Popular
Música: Jorge de Morais (Xabregas)
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in EP "Fados e Guitarradas de Coimbra", Alvorada MEP 60111, 1958; "Fados e Guitarradas de Coimbra: Vol. 1": CD2, Movieplay, 1996)
[instrumental]
A vida é negra, tão negra,
Como a noite nos pinhais;
Mas é nas noites mais negras
Que as estrelas brilham mais.
[instrumental]
Dá-me os teus olhos profundos
E pode o mundo acabar!
Que importa o mundo se há mundos
Lá dentro do teu olhar!
* António Portugal e Jorge Godinho – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Levy Baptista – violas
Balada da Despedida (Coimbra Tem Mais Encanto)
Letra: Francisco Bandeira Mateus
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida.
[bis]
Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que lhe dá vida.
Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida.
[bis]
Quem me dera estar contente,
Enganar a minha dor,
Mas a saudade não mente
Se é verdadeiro o amor.
Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida.
[bis]
Não me tentes enganar
Com a tua formosura,
Que para além do luar
Há sempre uma noite escura.
Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida.
[bis]
Que as lágrimas do meu pranto
São a luz que lhe dá vida.
Coimbra tem mais encanto Na hora da despedida.
[4x]
Letra: Popular
Música: António Menano
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Passarinho da ribeira,
Se não és meu inimigo,
Empresta-me as tuas asas,
Deixa-me ir voar contigo!
Passarinho da ribeira,
Ai... deixa-me ir voar contigo!
Ao longe, cortando o espaço,
Vai um bando de andorinhas...
Que te leva um abraço
E muitas saudades minhas.
Ao longe, cortando o espaço,
Ai... vai um bando de andorinhas...
Letra e música: Armando Goes
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Lágrimas que a gente chora
E sufocam nossos ais,
Deixai-as lá ir embora,
Que elas vão, nem voltem mais.
[instrumental]
Tanta dor, tanta amargura,
A sulcar faces tão belas;
E tanta água que é pura
A lavar sujas vielas.
Letra: António Menano
Música: António Menano e Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Fiz uma cova na areia
P'ra enterrar minha mágoa;
Entrou por ela o mar todo,
Não encheu a cova d'água.
[instrumental]
Ninguém conhece no rosto
Todo o bem que a alma inspira;
A vida é gosto e desgosto:
Mentira, tudo mentira.
Letra e música: António de Sousa
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!
Para calvário, já basta
A cruz que eu levo da vida.
Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!
[instrumental]
Quando eu morrer, rosas brancas
Para mim ninguém as corte!
Quem as não teve na vida
Também as não quer na morte.
Quando eu morrer, nem sequer
Na campa uma cruz erguida!
Letra e música: Popular (anterior ao século XVIII)
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Coimbra, p'ra ser Coimbra,
Três coisas há-de contar:
Guitarras, tricanas lindas
E um estudante a cantar.
Ó Portugal que mais queres
Que mais podes desejar,
Se tem tão lindas mulheres,
O teu fado, o teu luar?
Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora;
Só o meu é tão velhinho
E inda se não foi embora.
Letra: Popular (1.ª quadra) e Alexandre Resende
Música: Alexandre Resende
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
O meu Menino é d'oiro,
É d'oiro o meu Menino;
Hei-de levá-lo ao céu
Enquanto for pequenino!
[instrumental]
Enquanto for pequenino,
Tão puro como o luar,
Hei-de levá-lo ao céu,
Hei-de ensiná-lo a cantar!
Letra e música: Ângelo de Araújo
Arranjo: Ângelo de Araújo
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Santa Clara, Santa Clara,
A teus pés corre o Mondego,
A namorar-te em segredo,
Minha linda Santa Clara!
[instrumental]
Beija-te os pés, Santa Clara,
O Mondego sonhador;
E nesse beijo de amor
Vão mil preces, Santa Clara!
Letra e música: António Almeida d'Eça
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Porque os meus olhos se apartam
Dos teus, não lhes queiras mal,
Que as andorinhas que partem
Voltam ao mesmo beiral!
[instrumental]
Eu hei-de voltar um dia,
Eu sou como as andorinhas,
Se as tuas saudades forem
Bater à porta das minhas.
Letra: Augusto Hilário (1.ª quadra) e Popular
Música: Popular
Arranjo: António Portugal
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Coimbra Tem Mais Encanto", Philips/Polygram, 1986; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
A minha capa velhinha
É da cor da noite escura;
Nela quero amortalhar-me
Quando for p'ra a sepultura.
[instrumental]
Coimbra, rio Mondego
Dos roussinóis ao luar,
Em tuas margens de sonho
Ficou minha alma a chorar.
[instrumental]
Hei-de perguntar um dia
Ao vento o que diz às flores,
Para ver se é só uma
Esta linguagem de amores.
[instrumental]
* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Produção – José Luís Gordo
Canto de Amor e de Amar
Letra: Ana Costa Nunes, Luís de Camões e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira;
Quem amar segunda vez
Não amou bem da primeira.
Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...
De qualquer modo que existas,
És a minha divindade;
Ventura quando te vejo,
Se te não vejo, saudade.
Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...
[bis]
E quando já for saudade
Sem que nada nos conforte,
É sinal que ainda vive
Mesmo para além da morte.
Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira;
Quem amar segunda vez
Não amou bem da primeira.
Um amor p'ra ser amor
Dura sempre a vida inteira...
[bis]
Letra: Popular
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Abaixa-te, ó Serra d'Arga,
Que eu quero ver São Lourenço!
Quero ver o meu amor,
Acenar-lhe com o lenço.
[instrumental]
Menina do lenço preto,
Diga-me quem lhe morreu:
Se foi pai ou se foi mãe?
Que por ela morro eu!
Letra e música: José Afonso
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Águas passadas do rio,
Meu sono vazio
Não vão acordar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
Rios que vão dar ao mar,
Deixem meus olhos secar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
[instrumental]
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
[instrumental]
Águas do rio correndo,
Poentes morrendo
P'rás bandas do mar...
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
Rios que vão dar ao mar,
Deixem meus olhos secar!
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
[instrumental]
Águas das fontes calai,
Ó ribeiras chorai,
Que eu não volto a cantar!
Letra e música: Ângelo de Araújo
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Maria, se fores ao baile,
Leva o teu xaile,
Pode chover!
De manhã, de madrugada
Cai a geada,
Podes morrer.
[instrumental]
Maria, se ouvires cantar,
Vem ao luar
Ouvir quem canta!
Que a noite, com seu luar,
Lembra o olhar
De quem me encanta.
Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Eu não sei como te chamas,
Ó Maria Faia,
Nem que nome te hei-de eu pôr,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
Cravo não, que tu és rosa,
Ó Maria Faia;
Rosa não, que não tem flor,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
[instrumental]
Não te quero chamar cravo,
Ó Maria Faia,
Que te vou engrandecer,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
Chamo-te antes espelho,
Ó Maria Faia,
Onde espero de me ver,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
[instrumental]
Dizem que a saudade espera,
Ó Maria Faia,
A ausência para chegar,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
Eu tenho saudades tuas,
Ó Maria Faia,
Inda antes de te deixar,
Ó Maria Faia, ó Faia Maria!
Letra e música: Alberto Janes
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Não sei...
Não sabe ninguém
Porque canto o fado
Neste tom magoado
De dor e de pranto;
E neste tormento,
Todo sofrimento,
Eu sinto que a alma
Cá dentro se acalma
Nos versos que canto.
Foi Deus
Que deu voz ao vento,
Luz ao firmamento
E deu o azul às ondas do mar;
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que eu vou desfiando e choro a cantar.
Pôs as estrelas no céu,
Fez o espaço sem fim,
Deu o luto às andorinhas
Ai... e deu-me esta voz a mim.
Se canto...
Não sei o que canto:
Misto de ventura,
Saudade, ternura
E talvez amor;
Mas sei que cantando
Sinto o mesmo quando
Se tem um desgosto
E o pranto no rosto
Nos deixa melhor.
Foi Deus
Que deu luz aos olhos,
Perfumou as rosas,
Deu oiro ao sol e prata ao luar;
Foi Deus
Que me pôs no peito
Um rosário de penas
Que eu vou desfiando e choro a cantar.
Fez poeta o rouxinol,
Pôs no campo o alecrim,
Deu as flores à Primavera
Ai... e deu-me esta voz a mim.
[instrumental]
Deu as flores à Primavera
Ai... e deu-me esta voz a mim.
Letra: Popular (1.ª quadra) e Ângelo de Araújo
Música: João Gonçalves Jardim
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Ó estrelinha do norte,
Espera por mim que eu já vou!
Alumia meu caminho,
Já que o luar me enganou!
[instrumental]
Seguirei sempre a teu lado
No rasto da tua luz;
Não quero mais o luar
Alumiar minha cruz.
Poema: Manuel Laranjeira
Música: Alexandre Resende
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in LP "Serenata", Philips/Polygram, 1988; CD "Fernando Machado Soares", Philips/Polygram, 1988)
[instrumental]
Ao morrer, os olhos dizem:
– «Pára, Morte, e espera aí!
Vida, não vás tão depressa
Que eu inda te não vivi...»
[instrumental]
A Vida foge e a Morte
É quem responde em vez dela:
– «Mas que culpa tem a Vida
De que não saibam vivê-la?»
* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Produção – João Calado
Gravado e misturado no Estúdio Angel 2, Lisboa
A Ilha e o Sonho
Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
No meu sonho de menino
Via-te ao longe a vogar,
Como Bela Adormecida
Entre o céu e o azul do mar.
Em noites de tempestade,
Enfrentando a maresia,
Eras um Barco Encantado
No meu sonho e fantasia.
Tantos anos já passaram,
Foi-se a vida, foi-se a esperança,
Mas ficou sempre em minha alma
Esse sonho de criança.
[instrumental]
Senhora d'Aires
Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
A Senhora d'Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Feito à romana.
Tem o seu altar
Feito à romana
A senhora d'Aires
De ao pé de Viana.
As cobrinhas d'água
São minhas comadres;
Quando lá passares
Dá-lhes saudades.
Dá-lhes saudades,
Saudades minhas,
Quando lá passares
Ao pé das cobrinhas.
As cobrinhas d'água
São minhas comadres;
Quando lá passares
Dá-lhes saudades.
Dá-lhes saudades,
Saudades minhas,
Quando lá passares
Ao pé das cobrinhas.
[instrumental]
A Senhora d'Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Feito à romana.
Tem o seu altar
Feito à romana
A senhora d'Aires
De ao pé de Viana.
[instrumental]
A Senhora d'Aires
De ao pé de Viana
Tem o seu altar
Feito à romana.
[instrumental]
Viana do Alentejo: Santuário de Nossa Senhora de Aires.
O altar em baldaquino faz lembrar o da Basílica de São Pedro, em Roma.
Santa Luzia
Letra: Popular da Beira Baixa (1.ª quadra) e Fernando Machado Soares
Música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
Para que quero eu olhos,
Senhora Santa Luzia,
Se eu não vejo meu amor
Nem de noite, nem de dia?
[instrumental]
Senhora Santa Luzia,
Senhora do meu pesar,
Porque não me dais os olhos
P'ra o meu amor encontrar?
Teu Nome
Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
Teu nome na voz do vento,
Teu nome na voz do mar,
Teu nome encantamento
Da vida só por te amar.
Teu nome na voz do vento,
Teu nome na voz do mar...
[instrumental]
Teu nome traz o luar,
Traz o sonho, traz a esperança
De um dia eu te encontrar
Como um barco, a bonança.
Balada para uma Vida
Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
Meu amor na primavera,
Flor de sol do meu jardim
Que me enlaça como a hera
No corpo que nasce em mim.
Meu amor na primavera,
Flor de sol do meu jardim...
[instrumental]
Pôr-do-sol, morto, sem cor
Nas sombras do meu outono
Onde agoniza uma flor
E a minha noite, sem sono.
Pôr-do-sol, morto, sem cor
Nas sombras do meu outono...
Noites de Festa
Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: José Fontes Rocha
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
Todos gostam de Coimbra,
Todos querem lá passar
Mas ninguém sabe o que custa
Ter um dia que a deixar.
[instrumental]
És tão velha, tão antiga,
Ninguém sabe a tua idade,
Mas ainda és tão bela
Que a todos deixas saudades.
[instrumental]
Minha dor já era grande
Ao cantar nas tuas ruas,
Pois ainda em estudante
Já tinha saudades tuas.
[instrumental]
Trova do Vento Que Passa
Poema: Manuel Alegre
Música: António Portugal
Arranjo: António Portugal
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in CD "Le Fado de Coimbra", Ethnic/Auvidis, 1994)
[instrumental]
Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu país
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz.
[instrumental]
Mas há sempre uma candeia
Dentro da própria desgraça
Há sempre alguém que semeia
Canções no vento que passa.
[instrumental]
Mesmo na noite mais triste
Em tempo de servidão
Há sempre alguém que resiste
Há sempre alguém que diz não.
[instrumental]
* Fernando Machado Soares – voz e viola
José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Ricardo Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Direcção artística – Frédéric Deval
Gravado e misturado em Arles à la Chapelle du Méjan, em Setembro de 1993, por Jean-Claude Chabin, assistido por Gérard Faucilhon
Oh Meu Menino Jesus
Letra e música: Fernando Machado Soares
Arranjo: Fernando Machado Soares
Intérprete: Fernando Machado Soares* (in single "Natal / Oh Meu Menino Jesus", Philips/Polygram, 1986)
[instrumental]
Oh meu Menino Jesus,
Vestido cor de marfim,
Um corpo tão pequenino,
Um coração sem ter fim!
Oh meu Menino Jesus,
Vestido cor de marfim...
[instrumental / vocalizos]
Abrem-se as flores do monte
Para o Menino as pisar;
Rasgam-se as águas da fonte
Para a sede lhe matar.
Abrem-se as flores do monte
Para o Menino as pisar...
[instrumental / vocalizos]
Deixem passar o Menino
Pela mão da Virgem Maria!
Onde põe os seus pezinhos
Há para sempre alegria.
Deixem passar o Menino
Pela mão da Virgem Maria!...
[instrumental / vocalizos]
* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Durval Moreirinhas – viola
Ramon Galarza – teclas
Produção – Ramon Galarza
Gravado no Estúdio Angel 2, Lisboa
Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60109, 1958)
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "Balada do Entardecer"
Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60110, 1958)
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "O Que Mais me Prende ao Mundo"
Capa do EP "Fados e Guitarradas de Coimbra" (Alvorada MEP 60111, 1958)
Disco colectivo; contém um tema por Fernando Machado Soares: "Fado da Noite"
Capa do LP "Coimbra Tem Mais Encanto" (Philips/Polygram, 1986)
Contém dez temas (todos cantados)
Capa do single "Natal / Oh Meu Menino Jesus" (Philips/Polygram, 1986)
Capa do LP "Serenata" (Philips/Polygram, 1988)
Contém oito temas (todos cantados)
Capa do CD "Fernando Machado Soares" (Philips/Polygram, 1988)
Reúne os temas (dezoito) dos LPs "Coimbra Tem Mais Encanto" e "Serenata"
Capa do CD "Le Fado de Coimbra" (Ocora/Radio France, 1988)
Contém catorze temas (doze cantados e dois instrumentais) gravados ao vivo no Grand Auditoire da Radio France, Paris, a 18 de Março de 1987
O canto alentejano, ou simplesmente cante, foi hoje reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. Motivo de regozijo para as pessoas, com o antropólogo Paulo Lima à cabeça, que organizaram o processo de candidatura e o apresentaram àquela agência da ONU, sediada em Paris. Motivo de júbilo e de orgulho também para Portugal ao ver uma das suas expressões musicais mais genuínas receber tão prestigiosa distinção.
E como tem ido a divulgação do canto alentejano na rádio portuguesa? Nas privadas de âmbito nacional nada existe e na estação pública vejo apenas a rubrica "Cantos da Casa", de Armando Carvalhêda, que de vez em quando dá a ouvir cinco modas durante uma semana (uma por dia). É claramente insuficiente e com a agravante de a transmissão ser em horários em que a maioria das pessoas está a dormir (05:55) ou a trabalhar (14:55), logo sem a disponibilidade mental e a atenção que o cante requer (não se devendo esquecer as pessoas que exercem funções não compatíveis com a escuta de rádio, que não são poucas). A culpa do miserabilismo da rádio estatal no que ao cante diz respeito não pode, evidentemente, ser assacada a Armando Carvalhêda, pois o seu exíguo apontamento tem de abranger toda a música tradicional portuguesa e os horários de transmissão não são sua responsabilidade. As contas têm de ser pedidas a Rui Pêgo (director de programas) e a António Luís Marinho (director-geral de conteúdos) pelo desprezo e marginalização a que têm votado a música popular portuguesa (a tradicional e a de autor naquela inspirada). A este propósito, convém lembrar que foram eles mesmos que, de forma prepotente e afrontosa, decidiram suprimir da grelha da Antena 1 o programa que, desde que começou no dealbar dos anos 80, sempre acarinhou o cante. E não só o cante – também as outras modalidades da tradição oral alentejana: as modas acompanhadas à viola campaniça, o canto ao despique conhecido como "baldão" e as saias do Alto Alentejo, sem esquecer a poesia dita. Referimo-nos, como era fácil de intuir, ao maravilhoso "Lugar ao Sul", de Mestre Rafael Correia. Veículo de divulgação da cultura tradicional portuguesa, de todo o território continental e insular, se bem que com maior incidência no Algarve e na grande planície transtagana, o programa tornou-se ele mesmo património – porque de todo insubstituível e porque o seu vasto arquivo é um precioso e inestimável repositório da nossa memória popular. Importa pois resgatá-la às teias de aranha e trazê-la para a luz do éter (cf. É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul").
À laia de ilustração do cante (porque mais importante do que discorrer sobre dele é ouvi-lo), aqui se apresenta a moda "Alentejo, Alentejo", pelo Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa. A letra principia com a célebre quadra da terra («Eu sou devedor à terra, / A terra me está devendo; / A terra paga-me em vida, / Eu pago à terra em morrendo.»), que esteve em destaque em, pelo menos, uma emissão do "Lugar ao Sul". Foi aí, aliás, que o escrevente destas linhas tomou contacto com ela e lhe ficou indelevelmente gravada na mente.
Nesta gravação, a força que emana das vozes em uníssono – um uníssono vibrante e arrebatador – é tal que nos põe em pele de galinha e nos deixa os olhos marejados. Um portento! O cante da margem esquerda no seu máximo esplendor!
Fica, desde já, manifestada a intenção de voltarmos ao canto alentejano para o celebrar mais amplamente e, desse modo, rendermos a devida homenagem a uma boa plêiade de grupos corais (masculinos, femininos e mistos).
Alentejo, Alentejo
Letra e música: Popular
Intérprete: Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa* (in CD "Serpa de Guadalupe", Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa, 2000)
Eu sou devedor à terra,
A terra me está devendo;
A terra paga-me em vida,
Eu pago à terra em morrendo.
Alentejo, Alentejo,
Terra sagrada do pão!
Hei-de ir ao Alentejo,
Mesmo que seja no Verão,
Ver o doirado do trigo
Na imensa solidão.
Alentejo, Alentejo,
Terra sagrada do pão!
* Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa:
Carlos Carrasco, Carlos Paraíba, Domingos Rijo, Francisco Torrão, João Manuel, João Neca, Luís Ferreira, Luís Neves, Mário Apolinário, Vicente Cachopo, José Gonçalves, Manuel Mamede, António Gato, Carlos Fava, José da Graça, João Martins, António Lourenço, António Evaristo, José António, José Filipe, José Maria, Matias Galego, Domingos Camões, Hélder Ferreira, Leonel Patrício
Direcção – Francisco Torrão
Gravado na Casa do Povo de Serpa, a 27 de Fevereiro de 2000
Técnico de som – Rui Guerreiro (MG Estúdio), assistido por Luís Melgueira
Misturado no MG Estúdio, Beja
URL: http://www.cm-serpa.pt/artigos.asp?id=1146 http://www.luardameianoite.pt/bd/cd/info/info28.html http://www.joraga.net/gruposcorais/pags00/097SerpaCasaPovo.htm
Capa do CD "Serpa de Guadalupe", do Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa (2000)
Vinde ouvir vinde ouvir a voz de Edmundo
Bettencourt. Essa voz que fica acima
da nota mais aguda onde então rima
com mar alto ó mar alto sem ter fundo.
Há nela uma Achadinha açoriana
cravos da Beira Baixa e da tristeza
e aquele não quer ser castelhana
de quem não pode ser mais portuguesa.
Vinde ouvir a saudade saudadinha
Senhora do Almortão e a mágoa infinda
dessa voz acabada de nascer.
Vinde ouvir. E quando ela for velhinha
mesmo assim a ouvireis cantar ainda
acabada acabada de morrer.
Manuel Alegre (in "Coimbra Nunca Vista", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1995 – p. 79)
Nascido a 7 de Agosto de 1899 no Funchal, Edmundo Alberto Bettencourt, ou simplesmente Edmundo de Bettencourt (como se assinava), marcou a primeira metade do século XX com a sua arte particular. Uma arte que Herberto Hélder, de forma apaixonada, inscreveu «nas zonas mais puras». José Afonso, por seu lado, considerava Edmundo de Bettencourt o maior cantor de sempre do fado de Coimbra (oito dos dez espécimes que José Afonso gravou para o álbum "Fados de Coimbra e Outras Canções", de 1981, são do repertório de Edmundo de Bettencourt, que aliás é o primeiro dos dois dedicatários do disco – o segundo é o pai do autor da "Balada do Outono"). Descrições arrebatadas que dizem muito sobre o modo como o artista tocou as gerações que com ele conviveram, assim como as que da sua vida apenas receberam os ecos de uma obra rara, mas rica e seminal.
Depois de uma primeira inscrição no curso de Direito em Lisboa, Edmundo de Bettencourt chegou a Coimbra em 1922. Aí, juntamente com o guitarrista Artur Paredes (pai de Carlos Paredes), revolucionou o fado da Lusa Atenas. Lado a lado com outras grandes vozes como António Menano, Edmundo de Bettencourt cristalizou uma nova linha na interpretação da canção coimbrã impregnando-a de «um lirismo mais forte», nas palavras de Manuel Alegre. Rui Pato, músico associado à balada de Coimbra (é dele a viola na maioria do repertório que José Afonso e Adriano Correia de Oliveira gravaram na década de 60), refere-se a Edmundo de Bettencourt como «o primeiro grande inovador». Foi ele que abriu o caminho para que, a partir de 1960, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Luiz Goes pudessem levar mais longe não só a forma como o conteúdo da Canção de Coimbra.
Edmundo de Bettencourt esteve também intimamente ligado a um importante movimento literário surgido em Coimbra em meados dos anos 20, consubstanciado na revista "Presença", da qual foi elemento fundador, afastando-se em 1930 juntamente com Miguel Torga e Branquinho da Fonseca. Apesar da dissensão, Edmundo de Bettencourt nunca se alheou das tertúlias e da discussão, construindo uma reputação de excelente conversador e observador atento das novas correntes, designadamente do movimento surrealista de Lisboa. Em 1963, a sua produção poética, a anteriormente publicada e a inédita, foi reunida no volume "Poemas de Edmundo de Bettencourt". No prefácio, Herberto Hélder afirma que o autor de "O Momento e a Legenda" e "Poemas Surdos" é «um poeta», complementado: «E não há por aí máquinas maternas de produzi-los seriamente.» Nós permitimo-nos acrescentar que foi poeta e cantor.
Neste CD reúne-se a maioria das gravações feitas em finais da década de 20 (Fevereiro de 1928 e Dezembro de 1929). São verdadeiras matrizes de um sentir, de um viver, de uma paixão. Matrizes que perduraram no tempo tornando-se eternas. Espécimes como "Menina e Moça", "Samaritana", "Canção do Alentejo", "Mar Alto", "Canção da Beira Baixa", "Saudades de Coimbra", "Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa" ou "Saudadinha" são obras-primas do canto português, palavras e melodias que o tempo se encarregou de tornar maiores do que a vida. Emblemas de uma alma. Em suma: peças intemporais.
[adaptado do texto, não assinado, inserto no caderno do CD "Edmundo de Bettencourt: O Poeta Cantor", Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999]
O 115.º aniversário do nascimento de Edmundo de Bettencourt é um bom pretexto para celebrarmos o insigne cantor e, por extensão, a canção de Coimbra, que tanto lhe deve, mas que tão maltratada tem sido pela rádio do Estado, mesmo depois da consagração pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, o que aconteceu a 22 de Junho de 2013.
Edmundo de Bettencourt gravou muito pouco e desse escasso conjunto de gravações nem todas saíram em disco. Apenas dezasseis espécimes, originalmente repartidos por oito singles de 78 rpm, com selo Columbia. É esse precioso acervo que agora apresentamos, com recurso a várias compilações em CD, escolhendo as faixas com menos ruídos parasitas e que melhor fazem justiça à belíssima voz de Edmundo de Bettencourt, uma vez que – e lamentavelmente – ainda está por fazer uma edição reunindo a integral do cantor, nela se incluindo os espécimes nunca editados (caso os registos ainda existam), com o devido tratamento do som que a tecnologia de hoje permite.
No respeitante às letras, autorias e discos, a fonte foi o completíssimo artigo de José Anjos de Carvalho, publicado no blogue "Guitarra de Coimbra".
Menina e Moça
Letra: Américo Cortez Pinto (1.ª quadra) e Popular (2.ª quadra)
Música: Fausto de Almeida Frazão (Quintanista de Medicina 1919-20)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Menina e Moça / Fado da Sugestão", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Coimbra, menina e moça,
Roussinol de Bernardim,
Não há terra como a nossa,
Não há no mundo outra assim...
[instrumental]
Coimbra é de Portugal
Como a flor é do jardim,
Como a estrela é do céu,
Como a saudade é de mim.
[instrumental]
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Fado da Sugestão
Letra: (?)
Música: Alexandre de Rezende (1886-1953)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Menina e Moça / Fado da Sugestão", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Não digas "não", dize "sim",
Muito embora amor não sintas,
Que um "não" envenena a gente;
Dize "sim" inda que mintas.
[instrumental]
Não digas "não", dize "sim",
Sê ao menos a primeira;
Falta-me embora à verdade,
Não sejas tão verdadeira.
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Samaritana
Letra e música: Álvaro Cabral (1865-1918)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Samaritana / Canção do Alentejo", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fado de Coimbra: Vol. 1", col. Um Século de Fado, Ediclube, 1999)
[instrumental]
Dos amores do Redentor
Não reza a História Sagrada
Mas diz uma lenda encantada
Que o bom Jesus sofreu de amor.
Sofreu consigo e calou
Sua paixão divinal,
Assim como qualquer mortal
Que um dia de amor palpitou.
Samaritana,
Plebeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacob.
E tu, risonha, acolheste
O beijo que te encantou;
Serena, empalideceste
E Jesus Cristo corou.
Corou por ver quanta luz
Irradiava da tua fronte,
Quando disseste: – Ó Meu Jesus,
Que bem eu fiz, Senhor, em vir à fonte!
Samaritana,
Plebeia de Sicar,
Alguém espreitando
Te viu Jesus beijar
De tarde quando
Foste encontrá-lo só,
Morto de sede
Junto à fonte de Jacob.
Nota: Sicar é, provavelmente, a antiga Siquém (em hebraico, Sichara), ou a actual aldeia de Askar, quase ao pé do Monte Ebal, próximo do Poço de Jacob. (cit. José Anjos de Carvalho)
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Canção do Alentejo
Letra e música: Popular
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Samaritana / Canção do Alentejo", Columbia, 1928; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Lá vai Serpa, lá vai Moura
(Ai) E as Pias ficam no meio;
Quem vier à minha terra
(Ai) Não tem de que ter receio.
[instrumental]
Teus olhos, linda morena,
(Ai) Fazem-m'a alma sombria;
Quero-te mais, ó morena,
(Ai) Do que à luz de cada dia.
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Inquietação
Letra: Edmundo de Bettencourt
Música: Alexandre de Rezende (1886-1953)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Inquietação / Fado de Anto", Columbia, 1928; CD "O Poeta Cantor", Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999)
[instrumental]
Quanto mais foges de mim,
Mais corro e menos te alcanço;
O meu amor não tem fim,
Morrerei mas não me canso.
[instrumental]
Todo o bem que não se alcança
Vive em nós, morto de dor;
Quem ama, de amar não cansa
E se morrer é de amor.
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Fado de Anto
Letra: António Nobre (1867-1900)
Música: Francisco Menano (1888-1970)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Inquietação / Fado de Anto", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fado de Coimbra: Vol. 1", col. Um Século de Fado, Ediclube, 1999)
[instrumental]
A cabra da velha torre,
Meu amor, chama por mim...
Quando um estudante morre
Os sinos tocam assim...
Oh quem me dera abraçar-te
Junto ao peito, assim, assim...
Levar-me a morte e levar-te
Toda abraçadinha a mim!
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Fado de Santa Cruz
Letra: Popular
Música: Fortunato Roma da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Fado de Santa Cruz / Mar Alto", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Igreja de Santa Cruz,
Feita de pedra morena,
Dentro de ti vão rezar
Uns olhos que me dão pena.
[instrumental]
Quando estavas na igreja,
A teus pés ajoelhei:
À Virgem por mim rezavas,
À Virgem por ti rezei.
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Mar Alto
Letra: Edmundo de Bettencourt
Música: Mário Faria da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Fado de Santa Cruz / Mar Alto", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Fosse o meu destino o teu,
Ó mar alto, sem ter fundo:
Viver tão perto do céu,
Andar tão longe do mundo.
[instrumental]
Antes as tuas tormentas
Do que todas as revoltas;
Num sólio azul te adormentas
E a soluçar nunca voltas.
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Canção da Beira Baixa
Letra e música: Popular
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Canção da Beira Baixa / Crucificado", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Era ainda pequenina,
Acabada de nascer,
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver,
Acabada de nascer.
[instrumental]
Quando eu já for velhinha,
Acabada de morrer,
Olha bem para os meus olhos:
Sem vida, inda te hei-de ver,
Acabada de morrer.
[instrumental]
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Crucificado
Letra: Francisco Bastos de Oliveira Matos (1864-1901)
Música: Fortunato Roma da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Canção da Beira Baixa / Crucificado", Columbia, 1928; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)", Heritage, 1992; CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)", Tradisom, 1994)
[instrumental]
Ave-marias são beijos,
(Ai) Padre-nossos são abraços;
Rosário dos meus desejos,
A cruz é abrires-me os braços.
[instrumental]
De rezar beijos e abraços,
(Ai) E desejos estou cansado;
Abre depressa os teus braços,
Quero ser crucificado!
* Artur Paredes e Albano de Noronha – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado no Palácio dos Carrancas (actual Museu Soares dos Reis), Porto, em Fevereiro de 1928
Fado dos Olhos Claros
Letra: Edmundo de Bettencourt
Música: Mário Faria da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Fado dos Olhos Claros / Alegria dos Céus", Columbia, 1930; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fado de Coimbra: Vol. 6", col. Um Século de Fado, Ediclube, 1999)
[instrumental]
A luz dos teus olhos claros
É uma estrela a lucilar
Que eu ora vejo no céu,
(Ai2) Ora nas ondas do mar.
[instrumental]
Ó olhar da claridade,
Ó olhar do luar na água,
Sagrado espelho onde vejo
(Ai2) A sombra da minha mágoa.
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Alegria dos Céus
Letra: José Campos de Figueiredo (1899-1965)
Música: Mário Faria da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Fado dos Olhos Claros / Alegria dos Céus", Columbia, 1930; CD "O Poeta Cantor", Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999)
[instrumental]
Ó alegria dos Céus
Tua luz bendita seja!
Quem vive em graça com Deus
Tem aquilo que deseja.
[instrumental]
Luz divina da alegria,
Venha a nós a tua graça!
Que a gente possa sorrir
Na ventura e na desgraça!
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Balada do Encantamento
Letra e música: José Paes de Almeida e Silva (1929)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Balada do Encantamento / Saudades de Coimbra", Columbia, 1930; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "O Poeta Cantor", Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999)
[instrumental]
Dentro de ti, ó Leiria,
Vive uma moira encantada...
Não sabes, é minha amada
E tem por nome Maria.
[instrumental]
Leiria, foste um ladrão,
Leiria do rio Lis,
Roubaste-me o coração
E, vê lá tu, sou feliz.
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Saudades de Coimbra
Letra: António de Sousa (1898-1981)
Música: Mário Faria da Fonseca
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Balada do Encantamento / Saudades de Coimbra", Columbia, 1930; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fado de Coimbra: Vol. 6", col. Um Século de Fado, Ediclube, 1999)
[instrumental]
Oh Coimbra do Mondego
E dos amores que lá tive,
Quem te não viu, anda cego;
Quem te não ama, não vive.
[instrumental]
Do Choupal até à Lapa
Foi Coimbra os meus amores.
A sombra da minha capa
Deu no chão, abriu em flores.
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa
Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Arranjo: Artur Paredes
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa / Saudadinha", Columbia, 1930; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "Fado de Coimbra: Vol. 1", col. Um Século de Fado, Ediclube, 1999)
[instrumental]
Senhora do Almortão,
Ó minha rosa encarnada,
Ao cimo do Alentejo
Chega a vossa nomeada.
Senhora do Almortão,
Minha tão linda raiana,
Vira as costas a Castela,
Não queiras ser castelhana!
Não queiras ser castelhana
(Ai) Nossa Senhora da Póvoa, [bis]
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa [bis]
Criada no Paraíso. [bis]
[instrumental]
Senhora do Almortão,
A vossa capela cheira...
Cheira a cravos, cheira a rosas,
Cheira à flor da laranjeira.
Cheira à flor da laranjeira
(Ai) Nossa Senhora da Póvoa, [bis]
Minha boquinha de riso,
Minha maçã camoesa [bis]
Criada no Paraíso. [bis]
[instrumental]
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Saudadinha
Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Edmundo de Bettencourt* (in single 78 rpm "Senhora do Almortão e Senhora da Póvoa / Saudadinha", Columbia, 1930; LP "Fados de Coimbra: Edmundo de Bettencourt", EMI-VC, 1984; CD "O Poeta Cantor", Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999)
[instrumental]
Ó tirana saudade, [3x]
Saudade, ó minha saudadinha,
Foste nada no Faial, [3x]
No Faial, baptizada na Achadinha.
[instrumental]
Saudade, onde tu fores [3x]
Saudade, leva-me, podendo ser:
Eu quero ir a acabar, [3x]
Saudade, onde tu fores morrer.
[instrumental]
* Artur Paredes e Afonso de Sousa – guitarras de Coimbra
Mário Faria da Fonseca – viola
Gravado em Lisboa, em Dezembro de 1929
Capa do CD "Fados From Portugal: Volume 2 (1926-1930)" (Heritage, 1992)
Nas fotografias: Artur Paredes (à esquerda) e José Joaquim Cavalheiro Jr.
Contém dez temas de Edmundo de Bettencourt
Capa do CD "Arquivos do Fado: Vol. II – Fado de Coimbra (1926-1930)" (Tradisom, 1994)
Mesmo conteúdo do disco anterior
Capa do CD "Fado de Coimbra: Vol. 1", col. Um Século de Fado (Ediclube, 1999)
Contém quatro temas de Edmundo de Bettencourt
Capa do CD "Fado de Coimbra: Vol. 6", col. Um Século de Fado (Ediclube, 1999)
Contém cinco temas de Edmundo de Bettencourt
Capa do CD "O Poeta Cantor" (Discos Popular/Produções Valentim de Carvalho, 1999)
Contém quinze temas de Edmundo de Bettencourt
Página do caderno do disco anterior com outra fotografia de Edmundo de Bettencourt e uma dedicatória autografada: Ao Arthur Paredes, velho e querido amigo e... compadre, com um grande abraço. Coimbra, 1929 Edmundo Bettencourt