Na sequência meu 'post' "Musica Aeterna": um programa ao serviço do apostolado católico? o autor do programa, João Chambers, fez-me chegar uma carta com o pedido expresso para publicação, invocando o direito de resposta. Para o exercício desse direito é que os blogues facultam uma caixa de comentários. Não sendo possível usar essa via devido a impedimento imprevisto (que espero seja passageiro), aqui fica a missiva tal qual a recebi, seguida de
uma nota da minha lavra.
«Ex.mo Senhor Álvaro José Ferreira,
mão amiga fez-me chegar um texto escrito por V. Ex.a no blogue A NOSSA RÁDIO, onde, a propósito do MUSICA AETERNA do passado sábado que versou o Dia de Pentecostes, discorre, entre outras questões, sobre o facto de se sentir violentado na sua consciência (de livre-pensador) e o pressuposto (totalmente errado) de o respectivo autor professar o catolicismo.
Cabe antes de mais esclarecer que a totalidade dos programas concebidos para a Antena 2 tem sempre uma temática associada, logicamente com repertório alusivo. Assim, seguindo essa premissa, e se forem tidos em consideração alguns dos muitos elaborados ao longo de dez anos de colaborações regulares, ouso questionar se deverá o signatário enquanto autor ser considerado
a) fascista, por difundir o pensamento de Hobbes segundo o qual deveria prevalecer a vida sob um soberano e a necessidade absoluta de se lhe obedecer;
b) monárquico, por abordar o quinto centenário da coroação de Henrique VIII ou a Pietas Austriaca, ou seja, um código religioso e moral que proclamou ao mundo a devoção e a glorificação dos Habsburgo;
c) jesuíta, por dissertar sobre o respectivo papel desempenhado no campo educativo;
d) franciscano, por escrever sobre a Primeira Ordem dos Frades menores e um dos seus principais cultores (Santo António);
e) maçon, por redigir sobre o surgimento e a consequente expansão das sociedades secretas no século XVIII;
f) catastrofista, por referenciar a representação da morte após o Concílio de Trento e a influência dos “Exercícios Espirituais” de Inácio de Loyola;
g) evangelizador, por mencionar o papel fundamental da expansão irlandesa e das produções hibérnico-saxónicas, germânicas, norte-europeias e lombardas;
h) deísta, por falar sobre as respectivas controvérsias na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII;
i) empirista, por divulgar os textos de Locke;
j) bizantino, por aludir à Queda de Constantinopla e ao legado da antiga civilização de Bizâncio;
k) católico (de novo) por relatar o mecenato papal da Roma do século XVII, as “Missas Breves” de Bach, o capítulo dedicado a São Tomé constante da “Legenda Áurea” de Voragine, o “Cântico dos Cânticos”, sobre o qual, desde a Idade Média, foram escritas algumas das mais admiráveis páginas da História da Música Ocidental, a História da Natividade, o conceito de “Paixão”, o legado do Padre Manuel Bernardes, a por V. Ex.a mencionada “Assunção da Virgem”, etc, etc, etc.;
l) ortodoxo, por desenvolver sobre a religião e os ícones legados;
m) ateu, por discorrer sobre festa do Calendimaggio e a “Fábula de Orfeu”, para além de iluminista, absolutista, etc, etc, etc.
Creio que estas temáticas, a par de numerosas outras já abordadas em anteriores emissões, desmistificam, de imediato, a opinião de que “a pretexto desta ou daquela solenidade ou festividade católica (vale o mesmo para qualquer outra confissão) queira fazer do programa uma sessão de catequese” (sic!).
Tenho, ainda, o grato prazer de, com a devida vénia, reencaminhar V. Ex.a para parte de um texto, extraído da “Contemplação Carinhosa da Angústia”, onde, a determinada passagem, Agustina refere o seguinte:
“A crítica é menos eficaz do que o exemplo. É de considerar se a grande sugestão para usar da crítica nos nossos tempos e que põe em causa todos os valores consagrados, não é o resultado duma anemia profunda do acto de vontade de toda uma sociedade. Todos temos consciência de como o exemplo se tornou interdito, como o indivíduo, na sua excepção perturbadora, é causa de mal-estar. Dir-se-ia que a fraqueza, a breve virtude, a mediocridade, de interesses e de condições, têm prioridade sobre o modelo e a utopia. A par desta dimensão rasa do despotismo do demérito, levanta-se uma rajada de violência. É de crer que a violência é hoje a linguagem bastarda da desilusão e o reverso do exemplo; representa a frustração do exemplo.”.
Possuindo a plena consciência de nada ser mais difícil, e, por isso mesmo, tão precioso, do que ser capaz de decidir, julgo, sinceramente, que o MUSICA AETERNA só ficou a ganhar com a opção de nele ter incluído esta (para V. Ex.a) controversa temática.
Além disso, cumpre-me também informar que em quase dez anos (perfazem-se no próximo dia 6 de Julho) de colaborações regulares com a Antena 2 – MUSICA AETERNA, DIVINA PROPORÇÃO e A HERANÇA DE ATENA, os dois últimos em parceria com Ana Mântua - é a segunda vez que um programa por mim concebido encontrou um eco de desagrado. Obviamente, tal é uma situação que me preocupa sempre, facto que, apesar das numerosas felicitações recebidas, me levou a fazer um exame de consciência e tentar descortinar onde poderia estar a falha. Devo confessar, e desculpe-me discordar da opinião por si manifestada, que não a consegui encontrar. Onde se vislumbra o seu descontentamento, outros encontraram motivos para felicitações. Na tal primeira crítica recebida, o enfado manifestava-se não pela música, indiscutivelmente sublime (“As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz” na extraordinária versão de Savall), tão-pouco pelos textos de minha autoria, mas sim pelos escritos que então fiz citar de Saramago. Calculei, de antemão, como, aliás, agora também aconteceu, que nela fazer constar a opinião daquela passagem bíblica pelo controverso vencedor do prémio Nobel de, salvo erro, 1998 iria desagradar a alguns ouvintes, principalmente, julgo, devido às posições políticas e, sobretudo, religiosas por ele sempre assumidas. No entanto, tal facto não podia, nem devia, tornar-se num impeditivo para assumir a minha decisão de lhe fazer referência a bem de um serviço público que, creia, presto o melhor que posso e sei. Ao elaborar o texto que acompanhou a transmissão da obra, e numa perspectiva de poder dar mais ênfase (ou força, se assim quiser) à concepção geral do programa, optei, independentemente do que essa atitude pudesse representar para muitos ouvintes, por incluir algumas das palavras ali incluídas. Tendo em conta essa decisão, e reduzindo-me à minha insignificância, ousei questionar quem era eu para poder “discutir” a autoridade teológica de Saramago. Mas, como homem de rádio que também sou, já com alguns anos de experiência de ambos os lados, ou seja, quer como autor/realizador, quer como ouvinte, e numa perspectiva puramente pessoal, devo confessar que, independentemente de gostar bastante do teor dos textos e da leitura que o João Pedro então imprimiu (aqui, felizmente, e para utilizar uma metáfora musical, estamos em perfeita sintonia), fiquei muitíssimo satisfeito com o resultado global. Então como agora! Se a “discussão” (no bom sentido, entenda-se) sobre a crença religiosa de cada um não deve ser para aqui chamada ou ser aqui discutida, tanto mais porque cópias da correspondência são enviadas a várias pessoas ou entidades, já o teor do programa que tanto o incomodou pode e deve sê-lo. Quando afirma, e passo a citá-lo,
“…Em todo o caso, o tratamento e desenvolvimento que lhe merecem os assuntos ligados ao catolicismo, com abundante citação de textos doutrinários produzidos ou avalizados pela Igreja Católica, leva-me a presumir, se não de uma inconfessada empatia, pelo menos de um não questionamento do teor de tal literatura, e nessa medida reconhecendo-lhe crédito intelectual…” [excerto de carta entretanto enviada a João Chambers]
é, certamente, por não ser um ouvinte assíduo. Se o fosse teria escutado num dos programas anteriores, dedicado à efeméride dos 650 anos da morte de Philippe de Vitry, em vários momentos da emissão, o Roman de Fauvel, isto é, uma crítica à corrupção da Igreja e ao sistema político vigente. Além disso, entre muitos outros exemplos, posso referir também as constantes alusões ao Concílio de Trento, que, como certamente saberá, se desenrolou em três sessões e onde, entre outros assuntos, se definiu a eliminação da corrupção dos costumes do clero. Assim, conceber os MUSICA AETERNA em torno de efemérides ou acontecimentos, religiosos ou não, é, julgo, uma forma produtiva de criar na Antena 2 um espaço intercultural, já que aquelas permitem o cruzamento da harmonia com outras artes/conteúdos, circunstância que acaba por proporcionar uma perspectiva multifacetada da arte dos sons. Abordá-las, quer sejam de carácter nacional ou internacional, quer relacionadas, na maioria dos casos, com a cultura judaico-cristã, decorre de uma “pesadíssima” herança que carregamos no Velho Continente e que não podemos, nem devemos, olvidar. Assim, sem surpresa, vejo-me na obrigação de lhe criticar as considerações feitas sobre o tema de um único programa, ignorando, ou não se preocupando em inteirar, de muitas outras temáticas abordadas e que fiz constar no meu anterior mail. A resposta enviada defende que será uma dedução abusiva pautar as opções ideológicas do autor, ou seja, eu próprio, a partir de uma determinada temática abordada, questionando se pelo facto de referir o protestantismo na Alemanha setentrional do século XVII, como, aliás, já o fiz, fará de mim protestante. O ecletismo que se encontra na génese do MUSICA AETERNA está ausente da crítica inicial e, curiosamente, ou talvez não, não obstante a resposta, também do segundo. Além disso, também o Álvaro, e permita-me a dispensa de formalismos, se refere à falta de questionamento do teor de tal literatura utilizada no programa (Bíblia, “esquecendo-se” da também bastas vezes citada protestante, patrística, etc.), já que não cabe ali concebê-lo. E por falar em Bíblia, o que ali diz sobre ela é quase um despropósito, no caso, totalmente a despropósito num texto onde reconhece que a música é sacra e, logo, conhecidamente, nela baseada seja lá qual for o credo concreto de cada compositor, os mais deles pouco católicos, aliás. Com a devida vénia, uma enormidade essa referência. Fazer questionar e reflectir será antes apanágio do QUESTÕES DE MORAL, programa do meu particular amigo Joel Costa e sobre o qual nos encontramos em total consonância. Dar espaço a tal tipo de abordagem secundariza, a meu ver, o papel da harmonia no MUSICA AETERNA. Considerando que numa emissão de duas horas, o texto, ou seja, aquilo que lhe serve de esboço, apenas ocupa, em média, cerca de trinta minutos, nunca a música poderia ser passada para uma posição de subalternidade ou de menor relevância. Considerar isso será, a meu ver, um tremendo equívoco.
Queria, ainda, acrescentar que, após ter feito uma pesquisa ao seu blogue, verifiquei, com uma pontinha de orgulho, devo confessar, em escritos anteriores, apenas elogios da sua parte (e jamais algo de negativo) aos programas por mim realizados nesta década de colaboração com a Antena 2. Tal levou-me, de imediato, a estranhar que, ao mínimo sinal de desagrado, o Álvaro não tenha tido esse facto em consideração, nem tão-pouco se tenha dignado a mencioná-lo. Salvo melhor opinião, julgo que não teria sido... de mau tom.
Sem outro assunto de momento, queira aceitar, Sr. Álvaro de Jesus Ferreira, a expressão dos melhores cumprimentos do
João Chambers
MUSICA AETERNA
Antena 2»
Agora a minha nota:
Para mim, não é especialmente importante saber qual a orientação religiosa do Sr. João Chambers, se é que tem alguma. As suas convicções religiosas pertencem ao seu foro íntimo e merecem, naturalmente, o maior respeito da minha parte, quaisquer que elas sejam. Apenas aludi a essa questão porque o assunto a isso impelia e para melhor explicitação do meu ponto de vista.
Reconheço o eclectismo de temáticas tratadas no "Musica Aeterna" e não me custa nada louvar o autor do programa nesse ponto. E havendo uma indesmentível carga secular de catolicismo na produção musical anterior ao Romantismo, seria muito redutor e falho de razoabilidade que essa dimensão não fosse contemplada num programa que tem como âmbito justamente a música antiga (expressão que comummente se usa à falta de melhor – a música realmente boa extravasa a temporalidade, embora a época de criação possa ser referenciável). Nesta ordem de ideias – como já havia enunciado anteriormente – a atenção que dá à produção musical sacra de qualidade merece o meu incondicional aplauso e só lhe fico grato por me dar a oportunidade de ouvir obras e interpretações de altíssima valia que nunca (ou muito raramente) aparecem noutros programas ou espaços musicais da Antena 2 (falo da Antena 2 porque é a única rádio portuguesa consagrada à música erudita).
No caso do Espírito Santo, e mais concretamente da solenidade do Pentecostes, a minha posição crítica não tem tanto a ver com o tema em si, menos ainda com a música seleccionada, mas mais com o teor confessional/dogmático dos textos que o Sr. João Chambers citou ou redigiu. Ainda estaria disposto a tolerar que citasse a passagem bíblica do episódio do Pentecostes, para contextualização. Foi longe de mais, na minha opinião, quando se socorreu de literatura doutrinária católica. Não havia necessidade! Causar-me-ia menos anticorpos se, em vez desses textos, tivesse seleccionado poemas alusivos ao Espírito, em sentido lato e não apenas na acepção católica ou judaico-cristã.
Por último, uma breve consideração ao texto que citou da grande escritora Agustina Bessa-Luís. Começo por dizer que estou genericamente de acordo com o seu teor. Apenas ponho algumas reservas ao trecho «É de considerar se a grande sugestão para usar da crítica nos nossos tempos e que põe em causa todos os valores consagrados, não é o resultado duma anemia profunda do acto de vontade de toda uma sociedade.». Penso que a problematização e a análise crítica do mundo e da acção humana, longe de resultar «duma anemia profunda do acto de vontade de toda uma sociedade» é antes um factor de vitalidade e de salutar progresso civilizacional. Não tivesse existido um Voltaire e outros grandes iluministas a contestar o dogmatismo/obscurantismo religioso e correlativo poder temporal da Igreja e é muito provável que ainda hoje ardessem seres humanos em autos-de-fé (para gáudio sádico de zelosos seguidores da Lei de Deus). Ao contrário do que afirma Agustina, nem todos os valores consagrados são bons: muitos deles decorrem da prevalência de interesses – políticos, económicos, religiosos – nas sociedades. As revoluções e as grandes rupturas de paradigma político-social acontecem precisamente quando tal 'status quo' deixa de ser mais sustentável.
Subscrevo e friso bem estas palavras de Agustina Bessa-Luís: «Todos temos consciência de como o exemplo se tornou interdito, como o indivíduo, na sua excepção perturbadora, é causa de mal-estar. Dir-se-ia que a fraqueza, a breve virtude, a mediocridade, de interesses e de condições, têm prioridade sobre o modelo e a utopia. A par desta dimensão rasa do despotismo do demérito, levanta-se uma rajada de violência. É de crer que a violência é hoje a linguagem bastarda da desilusão e o reverso do exemplo; representa a frustração do exemplo.»Álvaro José Ferreira é um indivíduo que, na sua excepção perturbadora, causa mal-estar, justamente por questionar a fraqueza, a breve virtude, a mediocridade, de interesses e de condições, que na rádio estatal têm prioridade sobre o modelo e a utopia. Prevalece o despotismo do demérito, e a falta de vontade (e de capacidade) para tornar o serviço num exemplo de excelência. Levanta-se uma rajada de violência verbal (ou de autismo arrogante) sempre que os cidadãos/contribuintes/ouvintes tomam a atitude lúcida de dizer "O rei vai nu". É de crer que a violência e o autismo são hoje, na estação pública, a linguagem bastarda da incompetência e o reverso do exemplo; representam a frustração do exemplo. (com a devida vénia à insigne escritora Agustina Bessa-Luís).
Álvaro José Ferreira
05 julho 2011
27 junho 2011
Publicidade comercial na rádio pública
É através da publicidade comercial que os órgãos de comunicação social do sector privado garantem a sua sustentabilidade económica. Devido a tal contingência a programação de uma estação de rádio privada está naturalmente condicionada pela lógica das audiências. O serviço público de rádio, pela natureza que lhe é intrínseca, não podia estar sujeito a tal constrangimento, pelo que o Estado determinou que o seu financiamento fosse assegurado com dinheiros públicos – os relativos às transferências directas do Orçamento de Estado e os que provêm da taxa de radiodifusão (rebaptizada, há meia-dúzia de anos, de contribuição do audiovisual, por forma a que a televisão passasse comer do bolo – a parte de leão, acrescente-se), que é cobrada na factura da electricidade e cujo montante mensal se cifra actualmente em 2,25 euros (+ IVA).
A Antena 1 podia assim fornecer um serviço de qualidade, quer na vertente da informação quer na vertente da programação, e os ouvintes tinham a garantia de o poder fruir sem que os seus ouvidos fossem massacrados com publicidade. Com um ou outro desvio pontual, foi assim que as coisas se processaram até meados de 2005. Com a colocação na direcção de programas das Antenas 1, 2 e 3, pela mão de Luís Marques, do sr. Rui Pêgo, um indivíduo "nado e criado" em rádios comerciais, a perversão era inevitável. E a publicidade a marcas e produtos não se fez esperar, entrando de rompante na estação pública, convenientemente disfarçada sob a capa de publicidade institucional. Desde filmes comerciais americanos que recebem o rótulo de "um filme Antena 1" a eventos desportivos e musicais associados a marcas e a empresas com fins lucrativos, tudo a rádio pública (sobretudo as Antena 1 e 3 – por vezes, também a Antena 2) tem publicitado sem a menor parcimónia. Refira-se, a título de exemplo, o filme "Toy Story 3", o Vodafone Rally de Portugal e o Festival Delta Tejo ("um festival Antena 1", pois claro). A promoção dada a este último, de tão intensa e desproporcionada que tem sido, é verdadeiramente obscena e atinge as raias do escândalo. Na verdade, o 'spot' com a voz de José Mariño a anunciar, em tom arrebatado, «o cartaz mais multicultural [?!] do Verão com os sons e os ritmos dos países produtores de café» (o Canadá de onde vem a Nelly Furtado é acaso um produtor de café?) tem passado com uma frequência tão elevada, de há duas ou três semanas para cá, que um ouvinte da Antena 1, mesmo que só durante algumas horas (imagine-se o dia inteiro!), não pode deixar de se sentir mentalmente agredido com tão desmesurada repetição. O sr. Rui Pêgo terá sido acometido de uma paixão tão assolapada pelos Cafés Delta, que resolveu contemplá-los com uma campanha promocional graciosa? Na hipótese da marca de café do comendador Rui Nabeiro ser a predilecta do actual director de programas da rádio estatal, não acredito, sinceramente, que a sua benemerência fosse a tal ponto. Não, não é no café que reside a explicação para a massiva promoção ao Festival Delta Tejo 2011, mas numa coisa bem menos prosaica. Como é sabido, o evento é organizado pela empresa de espectáculos Música no Coração, pertencente ao genro de Cavaco Silva, Luís Montez, que por coincidência é também o proprietário do grupo de rádios Luso Canal (Radar, Oxigénio, Marginal, Rádio Nova, Rádio Nova Era, Rádio Festival, Rádio Amália, Rádio SW TMN). Nesta última, o Sr. Luís Montez já deu emprego ao filho de Rui Pêgo, Rui Maria Pêgo. E é claro: favor paga-se com favor. Além disso, uma operação de charme ao amigo Luís Montez (lembre-se que na Associação Portuguesa de Radiodifusão os lugares de presidente e de vice-presidente da Mesa da Assembleia-Geral são ocupados por Rui Pêgo e Luís Montez, respectivamente), nas ondas nacionais da Antena 1, pode revelar-se muito útil ao futuro profissional do próprio Rui Pêgo, pois um lugarzinho numa (ou em várias) das rádios de Luís Montez não é coisa de desperdiçar. Sabendo que a sua permanência na RDP não está garantida até à reforma, o sr. Rui Pêgo trata de acautelar o seu futuro. Que isso seja feito atropelando os mais elementares princípios éticos e gozando com a cara dos ouvintes/contribuintes que lhe pagam o sumptuoso salário, é de somenos importância, com certeza. E assim vai o "serviço público de rádio"...
14 junho 2011
"Musica Aeterna": um programa ao serviço do apostolado católico?
A Constituição da República Portuguesa consagra – e muito bem – o princípio da laicidade do Estado. Quer isto dizer que os órgãos de soberania (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, Tribunais), bem como os organismos sob a sua tutela, não podem tomar partido por qualquer credo religioso professado no país (ou não), nem se envolverem em acções de proselitismo ou doutrinação. Ora foi exactamente o contrário disto o que se passou na estatal Antena 2, com o programa "Musica Aeterna" no qual, a pretexto do Pentecostes, uma solenidade do calendário litúrgico católico, foram lidos vários textos de teor marcadamente confessional e do estrito domínio da fé, uns extraídos da Bíblia católica (digo católica, porque a Bíblia protestante tem algumas diferenças – no menor número de livros e não só) e outros de literatura doutrinária patrística ou pontifícia, quiçá constantes no catecismo romano e/ou em encíclicas papais.
Sou ouvinte regular do "Musica Aeterna", que considero muito bom em termos de selecção musical (muito criteriosa) e também no tocante à locução de João Pedro (primorosa – não direi o mesmo de algumas outras vozes que, por vezes, lá aparecem), mas ao ouvir a emissão de sábado passado confesso que me senti violentado na minha liberdade de consciência (de livre-pensador). O autor do programa, João Chambers, é presumivelmente uma pessoa que professa o catolicismo e quanto a isso não há a mais pequena censura da minha parte. O que não posso aceitar é que utilize um programa musical pelo qual é remunerado com dinheiros públicos para fazer proselitismo da sua religião. Desta vez, o pretexto para a acção apostólica foi o Pentecostes. Qual será o próximo? – A Assunção da Virgem Maria aos céus? A Imaculada Conceição? As aparições de Lourdes ou de Fátima? A canonização de João Paulo II? – Não, isto não se pode tolerar numa estação pública e, como tal, laica e aconfessional. A Antena 2 não é a Rádio Renascença.
Sei muito bem que parte considerável da produção musical anterior ao Romantismo tem feição religiosa: católica nos países do Sul da Europa e protestante nos do Norte. Por acaso, duas das minhas obras predilectas de toda a História da Música têm cunho religioso. São elas: a "Paixão Segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, e o "Requiem", de Mozart. Que se trate de obras religiosas (deste ou daquele credo) é-me completamente indiferente. A genialidade da música é única coisa que me importa. Nesta conformidade, toda a música sacra de qualidade (católica, luterana, anglicana, ortodoxa, etc.) que o Sr. João Chambers nos queira dar a ouvir é bem-vinda. O que jamais se poderá admitir é que, a pretexto desta ou daquela solenidade ou festividade católica (vale o mesmo para qualquer outra confissão), queira fazer do programa uma sessão de catequese.
Sou ouvinte regular do "Musica Aeterna", que considero muito bom em termos de selecção musical (muito criteriosa) e também no tocante à locução de João Pedro (primorosa – não direi o mesmo de algumas outras vozes que, por vezes, lá aparecem), mas ao ouvir a emissão de sábado passado confesso que me senti violentado na minha liberdade de consciência (de livre-pensador). O autor do programa, João Chambers, é presumivelmente uma pessoa que professa o catolicismo e quanto a isso não há a mais pequena censura da minha parte. O que não posso aceitar é que utilize um programa musical pelo qual é remunerado com dinheiros públicos para fazer proselitismo da sua religião. Desta vez, o pretexto para a acção apostólica foi o Pentecostes. Qual será o próximo? – A Assunção da Virgem Maria aos céus? A Imaculada Conceição? As aparições de Lourdes ou de Fátima? A canonização de João Paulo II? – Não, isto não se pode tolerar numa estação pública e, como tal, laica e aconfessional. A Antena 2 não é a Rádio Renascença.
Sei muito bem que parte considerável da produção musical anterior ao Romantismo tem feição religiosa: católica nos países do Sul da Europa e protestante nos do Norte. Por acaso, duas das minhas obras predilectas de toda a História da Música têm cunho religioso. São elas: a "Paixão Segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, e o "Requiem", de Mozart. Que se trate de obras religiosas (deste ou daquele credo) é-me completamente indiferente. A genialidade da música é única coisa que me importa. Nesta conformidade, toda a música sacra de qualidade (católica, luterana, anglicana, ortodoxa, etc.) que o Sr. João Chambers nos queira dar a ouvir é bem-vinda. O que jamais se poderá admitir é que, a pretexto desta ou daquela solenidade ou festividade católica (vale o mesmo para qualquer outra confissão), queira fazer do programa uma sessão de catequese.
09 junho 2011
"Lugar ao Sul" mutilado, não! (III)
Tenho-me esforçado para não voltar a "chover no molhado" relativamente às continuadas mutilações das gravações do "Lugar ao Sul", desde que o programa passou a ser emitido em reposição (finais de Janeiro de 2011). Na edição de sábado passado (dia 04 de Junho) a coisa foi feita de forma tão grosseira e chocante que a minha indignação subiu aos píncaros. Vi-me, por isso, obrigado a retomar o assunto.
Desta vez, não só mutilaram praticamente todos poemas da recolha de campo (noutras ocasiões alguns poemas ainda escapavam incólumes à "tesoura") como não tiveram o menor pejo em amputar as próprias músicas de disco escolhidas por Rafael Correia para o preâmbulo musical, agora não na totalidade nas em secções intermédias, o que causa uma indisfarçável sensação de desconforto a quem ouve. Aconteceu isto na moda "Trovoada" (em que eliminaram a parte correspondente ao verso "Mais tarde deu em chover" que é cantado duas vezes) e na moda "Rego abaixo, rego acima" (em que suprimiram a secção em que o Grupo Coral e Etnográfico "Os Camponeses de Pias" canta "Nem só com armas de guerra / Se defende uma nação").
Através da minha gravação caseira (pré-programada, pois gosto de ouvir o programa às 09:00 de sábado, continuando a cultivar um ritual com quase duas décadas) dei-me logo conta de que nos poemas (ditos pelo Sr. Joaquim Cruz, filho da vila alentejana de Cuba) havia versos em falta e que em certas passagens as rimas não batiam certo. Tudo isto acompanhado de ruídos estranhos e incomodativos... Ao reouvir o programa, aquando da preparação da "circular" com as letras das cantigas e os textos dos poemas que semanalmente expeço para os Amigos do LUGAR AO SUL, vim a confirmar com mais pormenor e acuidade a impressão com que ficara da primeira audição. Uma autêntica barbaridade... Se é grave que as partes de diálogo sejam suprimidas, mais inaceitável ainda se afigura a truncagem (completamente arbitrária) dos poemas.
Não sei se é a sra. Cláudia Almeida que decide quais as partes dos registos originais a suprimir ou se deixa isso ao critério do técnico de montagem (que deve ser uma pessoa bastante inexperiente atendendo ao rasto de ruídos que deixa nos pontos de corte). Qualquer que seja o caso, o que foi feito é absolutamente intolerável e revoltante. Reitero o que escrevi anteriormente: o que está em causa é não apenas a adulteração, a todos os títulos inaceitável, dos registos de Rafael Correia, mas uma tremenda e insustentável desconsideração pelos ouvintes do programa que, com tais procedimentos, são tratados "abaixo de burro". «Para quem é, bacalhau basta!», deve dizer o sr. Rui Pêgo para os seus botões. Esquece-se, com certeza, que os ouvintes do "Lugar ao Sul", que tão pouca consideração lhe merecem, também contribuem para o opíparo salário que leva para casa no final de cada mês.
Os ouvintes do admirável programa de Rafael Correia voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
Textos relacionados:
As Escolhas do Provedor: "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque (II)
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
"Lugar ao Sul": um programa-património
Rafael Correia: o eremita da rádio
É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" regressa à Antena 1
"Lugar ao Sul" mutilado, não!
"Lugar ao Sul" mutilado, não! (II)
Desta vez, não só mutilaram praticamente todos poemas da recolha de campo (noutras ocasiões alguns poemas ainda escapavam incólumes à "tesoura") como não tiveram o menor pejo em amputar as próprias músicas de disco escolhidas por Rafael Correia para o preâmbulo musical, agora não na totalidade nas em secções intermédias, o que causa uma indisfarçável sensação de desconforto a quem ouve. Aconteceu isto na moda "Trovoada" (em que eliminaram a parte correspondente ao verso "Mais tarde deu em chover" que é cantado duas vezes) e na moda "Rego abaixo, rego acima" (em que suprimiram a secção em que o Grupo Coral e Etnográfico "Os Camponeses de Pias" canta "Nem só com armas de guerra / Se defende uma nação").
Através da minha gravação caseira (pré-programada, pois gosto de ouvir o programa às 09:00 de sábado, continuando a cultivar um ritual com quase duas décadas) dei-me logo conta de que nos poemas (ditos pelo Sr. Joaquim Cruz, filho da vila alentejana de Cuba) havia versos em falta e que em certas passagens as rimas não batiam certo. Tudo isto acompanhado de ruídos estranhos e incomodativos... Ao reouvir o programa, aquando da preparação da "circular" com as letras das cantigas e os textos dos poemas que semanalmente expeço para os Amigos do LUGAR AO SUL, vim a confirmar com mais pormenor e acuidade a impressão com que ficara da primeira audição. Uma autêntica barbaridade... Se é grave que as partes de diálogo sejam suprimidas, mais inaceitável ainda se afigura a truncagem (completamente arbitrária) dos poemas.
Não sei se é a sra. Cláudia Almeida que decide quais as partes dos registos originais a suprimir ou se deixa isso ao critério do técnico de montagem (que deve ser uma pessoa bastante inexperiente atendendo ao rasto de ruídos que deixa nos pontos de corte). Qualquer que seja o caso, o que foi feito é absolutamente intolerável e revoltante. Reitero o que escrevi anteriormente: o que está em causa é não apenas a adulteração, a todos os títulos inaceitável, dos registos de Rafael Correia, mas uma tremenda e insustentável desconsideração pelos ouvintes do programa que, com tais procedimentos, são tratados "abaixo de burro". «Para quem é, bacalhau basta!», deve dizer o sr. Rui Pêgo para os seus botões. Esquece-se, com certeza, que os ouvintes do "Lugar ao Sul", que tão pouca consideração lhe merecem, também contribuem para o opíparo salário que leva para casa no final de cada mês.
Os ouvintes do admirável programa de Rafael Correia voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
Textos relacionados:
As Escolhas do Provedor: "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque (II)
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
"Lugar ao Sul": um programa-património
Rafael Correia: o eremita da rádio
É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" regressa à Antena 1
"Lugar ao Sul" mutilado, não!
"Lugar ao Sul" mutilado, não! (II)
01 junho 2011
27 maio 2011
Prémio José Afonso: uma tragicomédia grega
Joaquim Raposo & António Moreira, respectivamente, presidente da C.M. da Amadora e vereador do pelouro da Cultura
Com mais de dois anos de atraso, a Câmara Municipal da Amadora anunciou finalmente qual o disco distinguido com o Premio José Afonso referente à colheita discográfica de 2008. E o escolhido foi... "Chão", da Mafalda Veiga. Confrontada com a notícia, a cantora mostrou-se surpreendida (vide artigo do Hardmúsica). O escrevente destas linhas comunga inteiramente de tal surpresa. Mais que surpresa: estupefacção e perplexidade. E porquê? Porque "Chão" está muito longe de ser um disco «cujos temas tenham como referência a Cultura e a História portuguesas, tal como a obra do autor de "Grândola, Vila Morena"» (nos termos do regulamento instituidor). Na verdade, o mais recente registo de Mafalda Veiga navega em águas muito diferentes – quase antagónicas – do legado estético de José Afonso e, se quisermos, da música popular portuguesa de raiz/inspiração tradicional, de que o autor de "Cantares do Andarilho" foi o grande percursor e impulsionador em Portugal. Mas mesmo que nos abstraíssemos deste requisito (coisa que não me parece razoável por deturpar o espírito e os objectivos de quem instituiu o Prémio), e quiséssemos considerar todos os discos de música portuguesa (fora da área erudita) lançados em 2008, ainda assim o CD "Chão" ficaria a perder para muitos outros álbuns. Tive oportunidade de dar realce a algumas dezenas no artigo "Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008". O registo da Mafalda Veiga não figura nessa galeria de destaques e se tal aconteceu foi porque não encontrei nele suficientes motivos para o considerar um trabalho notável. Digo mais: "Chão" não acrescenta nada ao que Mafalda Veiga fez antes: no respeitante às letras, é mais do mesmo; relativamente à linguagem musical, nada de original, pecando inclusive por ser acentuadamente tributária do pop/rock anglo-americano (de toda a discografia da Mafalda Veiga, ressalvo dois títulos: "Pássaros do Sul", de 1987, com produção de Manuel Faria, e "A Cor da Fogueira", de 1996, com produção de José Sarmento).
Como se explica então que em face de tantas edições de qualidade superior, "Chão" tenha sido o seleccionado para receber os cinco mil euros do Prémio José Afonso? Só encontro uma explicação: a composição do júri. Dos cinco elementos inicialmente indigitados – António Moreira (vereador da Cultura da C.M. da Amadora), Vanda Santos (chefe de divisão da Cultura da mesma entidade), Olga Prats (pianista e professora de música), António Victorino d’Almeida (compositor e pianista) e Carlos Pinto Coelho (jornalista cultural) – apenas os três primeiros votaram. Carlos Pinto Coelho não se encontra entre nós – infelizmente – desde meados de Dezembro de 2010, e o maestro António Victorino d’Almeida tem decerto coisas mais importantes para fazer do que perder tempo com as negligências e incompetências de quem tem conduzido o processo do PJA. Dos três jurados votantes, dois – a maioria, portanto – são da Câmara Municipal da Amadora, o mesmo é dizer da entidade promotora do prémio. Que crédito pode ter um júri com tal composição? Nenhum, escusado será dizê-lo. Não tenho o (des)prazer de conhecer, pessoalmente, o sr. António Moreira nem a sra. Vanda Santos, mas quando, por sua obra e graça, o Prémio José Afonso serve para galardoar um disco como "Chão", tenho forçosamente de deduzir que a sua formação/gosto musical e os conhecimentos de música popular portuguesa não primam pela distinção, situando-se ao nível do vulgar e do corriqueiro. Será que aquelas duas criaturas conhecem e/ou apreciam a obra de José Afonso? Não me parece, sinceramente. É mais que provável que o grosso do repertório do imortal cantautor seja ignorado por tais orelhas. Devem, quanto muito, conhecer a "Grândola, Vila Morena" e mais uma meia-dúzia de temas, mas de os ouvirem na rádio e/ou na televisão...
Quanto a Olga Prats, uma Senhora que tenho na mais elevada estima e admiração, custa-me muito a crer que o seu disco preferido de 2008 (que não de música clássica) seja o "Chão", da Mafalda Veiga (o título é enganador pois o CD nada tem de telúrico, como facilmente poderá ser comprovado por quem o ouviu). A ter Olga Prats votado nele, de facto, foi porque não ouviu, com certeza, nenhum dos discos destacados no artigo "Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008". Se calhar, ouviu apenas uns quantos títulos menores que a C.M. da Amadora lhe forneceu e de entre esses, o da Mafalda Veiga era o menos medíocre. Bem, isto sou eu a conjecturar. Gostaria mais de acreditar que a eminente pianista votou, vencida, noutro álbum, esse sim mais conforme e consentâneo com a obra de José Afonso.
Em qualquer dos casos, pode afirmar-se com toda a legitimidade que o Prémio José Afonso sofreu, com esta recente decisão, um rude e violento golpe no seu prestígio e credibilidade. E os autores do crime chamam-se Joaquim Moreira Raposo (presidente da C.M. da Amadora) e António José da Silva Moreira (vereador do pelouro da Cultura). Não se tratasse de um problema suficientemente grave para a música e cultura portuguesas e não estivéssemos em presença do soez achincalhamento da memória de José Afonso, a coisa até daria para rir, de tão grotesca e caricata que é. Uma tragicomédia grega...
Textos relacionados:
Prémio José Afonso (carta aberta)
Que se passa com o Prémio José Afonso?
21 abril 2011
17 fevereiro 2011
14 fevereiro 2011
"Lugar ao Sul" mutilado, não! (II)
Como não estou disposto a sacrificar o meu merecido descanso na madrugada de sábado por causa dos caprichos do sr. Rui Pêgo, a forma que arranjei de ouvir o "Lugar ao Sul" a horas decentes foi a gravação pré-programada. Assim, fico com o programa imediatamente disponível para audição sem necessidade de estar à espera que seja colocado online. Com tal expediente, posso dar-me ao luxo de começar o meu sábado às 09:00 com o "Lugar ao Sul", continuando a cumprir um ritual salutar (para a mente e para o corpo) de há muitos anos, mau grado os cortes das secções musicais e das conversas que vem sendo praticadas e contra as quais já tive oportunidade de me insurgir. A edição de sábado passado começou com uma interessantíssima conversa com o apicultor António Garrido (nas imediações da Barragem do Roxo, concelho de Aljustrel). Terminada a conversa que durou 27 minutos (quero acreditar que desta vez não mexeram na recolha e apenas suprimiram as secções de música de disco anteriores e posteriores àquela), surge em antena a sra. Cláudia Almeida a introduzir a gravação que se seguiria, dizendo que iríamos rumar até ao Museu de Silves, que se encontra instalado na alcáçova do castelo mouro. Após a observação parola e perfeitamente dispensável proferida pela citada Cláudia Almeida («Não desligue o rádio! É tudo o "Lugar ao Sul", de Rafael Correia...»), começa a ser transmitida uma das tais secções de música de disco com que o emérito realizador obsequiava o seu auditório em jeito de ilustração das conversas de campo. Amélia Muge, Brigada Victor Jara, GNR, Mler Ife Dada, Trovante e Luís Cília foram os artistas que desfilaram interpretando temas em que se alude a castelos velhos, a mouros (mouras) e a cerveja. Não é imediatamente apreensível a que propósito vem a cerveja, no contexto, sabendo-se que aquela bebida, tão apreciada por germânicos e anglo-saxões, não faz parte da tradição gastronómica mediterrânica e – não menos importante – que o Corão proíbe a ingestão de bebidas alcoólicas. A hipótese que me surgiu foi a de que a cerveja terá vindo à baila, na conversa que Rafael Correia manteve com o seu interlocutor, por qualquer outra razão totalmente alheia aos mouros que, há mais de sete séculos, residiram no castelo de Silves: talvez a realização, nos inícios dos anos 90 do séc. XX, de algum festival de cerveja no monumento. Bem, estava eu todo contente por desta vez não terem suprimido as músicas de disco e com o apetite aguçado para a conversa que se seguiria, que me daria a resposta para o repertório alusivo à cerveja, quando, logo depois do romance "D. Sancho", cantado por Luís Cília, surge novamente em antena a sra. Cláudia Almeida, com estas palavras: «"Lugar ao Sul", de Rafael Correia, de novo no ar com histórias de outros tempos e de um outro país. Mas, acima de tudo, a alma de um Senhor que constrói, com a conversa e o som em volta, a identidade de um povo. Daqui a uma semana, mais histórias do "Lugar ao Sul"». E o programa acabou. Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir. Quer dizer: até agora apresentavam duas conversas (ainda que uma delas ou as duas sujeitas a amputações) e hoje, depois de uma conversa totalmente despida das músicas de disco que a envolviam, resolvem preencher o tempo que faltava para completar a emissão com o preâmbulo musical de uma outra conversa, mas sem a própria conversa!? É de bradar aos céus! É assim, com procedimentos mais próprios de curiosos e de amadores, que agora se trabalha na estação de rádio que devia ser uma referência e um exemplo de profissionalismo? A sra. Cláudia Almeida não tem, com certeza, a mais pequena noção das barbaridades que anda a fazer com o fabuloso acervo fonográfico de Rafael Correia. Por conseguinte, não será a ela que teremos de pedir as maiores responsabilidades, mas a quem tomou a decisão, leviana e irresponsável, de lhe atribuir uma função para a qual não está definitivamente talhada.
Os admiradores de Rafael Correia e todas as pessoas dotadas de sensibilidade para apreciar a sua arte de fazer rádio com os sons da terra voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
Textos relacionados:
As Escolhas do Provedor: "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque (II)
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
"Lugar ao Sul": um programa-património
Rafael Correia: o eremita da rádio
É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" regressa à Antena 1
"Lugar ao Sul" mutilado, não!
Os admiradores de Rafael Correia e todas as pessoas dotadas de sensibilidade para apreciar a sua arte de fazer rádio com os sons da terra voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
Textos relacionados:
As Escolhas do Provedor: "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque (II)
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
"Lugar ao Sul": um programa-património
Rafael Correia: o eremita da rádio
É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" regressa à Antena 1
"Lugar ao Sul" mutilado, não!
31 janeiro 2011
"Lugar ao Sul" mutilado, não!
No texto anterior referi o procedimento incorrecto e indesejável que é a supressão da música de disco na reposição, recentemente iniciada, do programa "Lugar ao Sul". A audição da segunda emissão deu para perceber que a mutilação são se fica por aí: afecta também as gravações de campo. Achando a conversa com o frade António Maria, da Cartuxa de Évora, extremamente curta, disse para os meus botões: «Já?! Nunca uma conversa de Rafael Correia com os seus interlocutores durou tão pouco tempo.» Dei-me então ao cuidado de ir fazer a contagem do tempo e deu uns escassos 12 minutos. Não é possível! A minha experiência como ouvinte do programa diz-me que a conversas duravam, em média, 35 minutos. Nunca 12 minutos. Houve ali claramente uma amputação. Vendo bem as coisas, meter duas recolhas, com cerca de 35 minutos cada, num período de 50 minutos, só seria possível com cortes, se não em ambas as recolhas, pelo menos numa delas. Desta vez, a sacrificada foi a conversa na Cartuxa de Évora. E outras se seguirão inevitavelmente se se quiser continuar com a ideia peregrina de enfiar duas edições no tempo de uma só. Ora isto é totalmente inaceitável. Quem me garante a mim que a parte da conversa que foi suprimida não é tão ou mais importante que a que foi transmitida? Eu tenho a ideia de ouvir a referida emissão nos anos 90 e, se a memória me não atraiçoa, creio que se falou a dado passo de Aristóteles. Havia ali, portanto, matéria de relevante interesse que foi barbaramente sonegada ao auditório. Eu falo enquanto ouvinte, mas há que não esquecer a posição do autor. Será que Rafael Correia deu autorização para que os seus registos fossem mutilados, a bel-prazer de uma qualquer funcionária da RDP, que muito provavelmente não percebe patavina de antropologia ou de etnologia? Não acredito, sinceramente. Por conseguinte, estamos em presença de um acto flagrante de vandalismo cultural à obra de um autor. Algum pintor aceitaria que um conservador de museu pegasse num dos seus quadros e o recortasse, passando a expor apenas o bocado alegadamente mais agradável à vista e escondendo nas reservas a parte considerada menos interessante? Não! A obra vale como um todo e é assim que deve ser fruída pelo público. O criador é a única pessoa que tem legitimidade para retocar ou modificar a sua obra de arte. E digo "obra de arte" de propósito porque é efectivamente disso que se trata quando falamos do programa de Rafael Correia. Obra de arte radiofónica, bem entendido.
Posto isto, apelo a quem de direito no sentido do "Lugar ao Sul" deixar de ser mutilado. Os fiéis ouvintes do programa fazem questão de o saborear na íntegra (conversas e músicas) e não em forma condensada à maneira das Selecções do Reader's Digest. Apetece parafrasear Ary dos Santos: "Lugar ao Sul" castrado, não!
P.S.: Embora não sendo latinista, julgo que a expressão "Scala Coeli" ("Escada do Céu" ou "Escada Celeste") se pronuncia "Scala Celi" e não "Scala Coeli", como foi dito na nota introdutória pela sra. Cláudia Almeida. Enfim, mais um exemplo (a somar a tantos outros) da deficiente preparação cultural de parte do pessoal da R.T.P. (rádio e televisão) e da falta de rigor das cúpulas na sua admissão.
Já agora, uma pergunta: na empresa que todos financiamos para supostamente prestar serviço público não há controlo de qualidade dos programas pré-gravados? Pois é! Se houvesse, aquela calinada teria sido certamente detectada.
Posto isto, apelo a quem de direito no sentido do "Lugar ao Sul" deixar de ser mutilado. Os fiéis ouvintes do programa fazem questão de o saborear na íntegra (conversas e músicas) e não em forma condensada à maneira das Selecções do Reader's Digest. Apetece parafrasear Ary dos Santos: "Lugar ao Sul" castrado, não!
P.S.: Embora não sendo latinista, julgo que a expressão "Scala Coeli" ("Escada do Céu" ou "Escada Celeste") se pronuncia "Scala Celi" e não "Scala Coeli", como foi dito na nota introdutória pela sra. Cláudia Almeida. Enfim, mais um exemplo (a somar a tantos outros) da deficiente preparação cultural de parte do pessoal da R.T.P. (rádio e televisão) e da falta de rigor das cúpulas na sua admissão.
Já agora, uma pergunta: na empresa que todos financiamos para supostamente prestar serviço público não há controlo de qualidade dos programas pré-gravados? Pois é! Se houvesse, aquela calinada teria sido certamente detectada.
28 janeiro 2011
"Lugar ao Sul" regressa à Antena 1
«Se ele quisesse, se ele deixasse, a sua vida dava um filme. Mas hoje não é ainda o momento de contar a sua incrível história. Quero apenas reflectir como Provedor, a intensa admiração que os Ouvintes sentem por este devotado Homem da Rádio e, sobretudo, pelos exemplos que resultam dessa sua devoção.
Repito, por isso, o que já disse: "Lugar ao Sul", de Rafael Correia, é um Sinal de Excelência do Serviço Público de Radiodifusão.» (José Nuno Martins, Novembro de 2006)
«Há muitos anos, no jornal onde trabalhava ["Público"], escrevi um texto defendendo a obrigação da RTP de não apenas preservar a riqueza patrimonial de excepção representada pelos programas de Rafael Correia mas de a restituir aos portugueses, editando os programas numa colecção, como faz com os vídeos. A Radio France já organizou um disco com 39 faixas musicais, em 1999. Com o apoio da Antena 1 e presumo que de Rafael Correia. Mas não bastam os registos musicais. São precisas as quadras populares, as receitas, as conversas, o som ambiente.
Retomo este repto, agora como provedor e agora que "Lugar ao Sul" ameaça não voltar. Acho um crime de lesa-cultura se os programas forem deixados esquecidos e inúteis em pequenas cassetes DAT do arquivo histórico...» (Adelino Gomes, Julho de 2009)
Depois da saída de António Cardoso Pinto da direcção de programas da Antena 1, em 2003, o "Lugar ao Sul" foi sendo alvo de sucessivos ataques, desde a colocação em horários indignos a cortes no tempo de emissão. Por razões ainda não devidamente esclarecidas, Rafael Correia deixou de realizar o programa após o dia 1 de Agosto de 2009. Desde então, os ouvintes não mais deixaram de manifestar o desejo de que o "Lugar ao Sul" regressasse. Não havendo disponibilidade de Rafael Correia para voltar a colaborar com a rádio pública (fartou-se, muito possivelmente, de ser desconsiderado e maltratado), já seria muito bom que se repusessem em antena as edições menos recentes. O novo Provedor do Ouvinte, Prof. Mário Figueiredo, a exemplo dos seus antecessores, continuou a fazer-se eco dessa vontade dos ouvintes, o que faço questão de louvar. E o "Lugar ao Sul" começou finalmente, no sábado passado, a ser resgatado das teias de aranha do arquivo sonoro da RDP. O resgate, por si só, é motivo de regozijo para todas as pessoas que já sentiam saudades daqueles saborosos momentos de rádio com «as nossas coisas, as nossas gentes e o melhor da música de Portugal». No entanto, há três pontos a respeito dos quais os ouvintes querem manifestar a sua insatisfação.
O primeiro diz respeito à supressão da música de disco que Rafael Correia passava antes e depois das recolhas de campo. Aquela música não era ali colocada para "encher chouriços", já que estava tematicamente relacionada com o teor das conversas. Era parte integrante, portanto, do conceito do programa e não é aceitável que tenha sido suprimida. Além disso, e dada a marginalização de que a música tradicional tem sido objecto na Antena 1, aquelas secções de música tradicional/popular gravada funcionavam como uma das escassíssimas janelas para muito repertório de qualidade que nunca (ou muito raramente) vê a luz do éter nacional.
O segundo motivo de descontentamento é o horário em que o programa foi colocado: 07:00 da madrugada de sábado. Que Rui Pêgo nunca morreu de amores pelo "Lugar ao Sul" já todos sabíamos. Não tem é o direito de o sonegar aos muitos (potenciais) ouvintes para os quais aquele horário é de todo impraticável. O sr. Rui Pêgo devia saber que a audiência do programa não se restringe a padeiros e a transportadores de hortaliças para o Mercado da Ribeira (com o devido respeito por todas as pessoas que exercem essas actividades). Com efeito, o grosso dos ouvintes do programa é constituído por pessoas que entre as 7:00 e as 8:00 estão a dormir, recuperando de uma extenuante semana de trabalho. Calculo que o sr. Rui Pego, interpelado com esta questão, vá argumentar qualquer coisa do género: «Os ouvintes que não querem acordar à 07:00 de sábado tem sempre a alternativa do streaming ou do podcast». Infelizmente, para uma parte significativa dos rádio-ouvintes (por via hertziana), a internet não é uma alternativa, seja porque a não têm, seja porque não têm disponibilidade de tempo para estarem agarrados a um computador durante todo o tempo de emissão, seja porque não têm (ou não sabem lidar com) um leitor de MP3. Por conseguinte, os ouvintes nessas condições (e não só) prometem não se calar enquanto ao "Lugar ao Sul" não for dado um horário digno e razoável na grelha da Antena 1. O horário anterior (depois das 09:00) era perfeitamente aceitável.
Por último, a questão da acessibilidade ao acervo do programa. Sem prejuízo da edição de CDs coleccionáveis (como sugeriu Adelino Gomes) não se compreende que o histórico, na sua totalidade, não esteja disponível numa página on-line. Já o disse antes, e volto a afirmá-lo: há que aproveitar a internet como plataforma de acesso aos acervos áudio de cariz cultural e histórico que estão à guarda de entidades estatais por todos quantos neles estiverem interessados. Afinal de contas, a produção, o arquivamento e a conservação de tais acervos fonográficos foi (é) feita com dinheiros públicos e, como tal, não se pode negar aos cidadãos a oportunidade de os fruir.
Textos relacionados:
As Escolhas do Provedor: "Lugar ao Sul"
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque
"Lugar ao Sul" sofre novo ataque (II)
Amigos do LUGAR AO SUL no My Space
"Lugar ao Sul": um programa-património
Rafael Correia: o eremita da rádio
É preciso resgatar a memória do "Lugar ao Sul"
30 dezembro 2010
17 dezembro 2010
Em memória de Carlos Pinto Coelho (1944-2010)

São os autores e os artistas quem cria a cultura. Entre esta e o público (potencialmente) fruidor há os comunicadores. Deve entender-se por comunicadores não os que se limitam a veicular, mais ou menos acrítica e burocraticamente, as notícias de eventos culturais mas os que reflectem e problematizam a matéria a eles subjacente, tornando-a mais facilmente apreensível e apetecível pelo grande público. Carlos Pinto Coelho foi o jornalista português – não é exagero afirmá-lo – que nas últimas duas décadas melhor soube desempenhar esse nobre mister de comunicar a cultura, de maneira cativante e apelativa, mas sempre na observância de rigorosos critérios de qualidade e bom gosto, nunca transigindo com o vulgar e o medíocre (talvez aqui radiquem algumas das incompreensões e injustiças de que foi vítima). Comecei a admirar e a tirar proveito dessa sua arte comunicacional com o diário televisivo "Acontece!" (entre 1994 e 2003, na RTP-2) e, depois do incompreensível e criminoso afastamento do seu autor da televisão pública por mão de Luís Marques (a mando de Morais Sarmento, ministro do governo de Durão Barroso), com o programa radiofónico "Agora... Acontece!", que vinha realizando desde 1998 e ultimamente era difundido por mais de 80 rádios locais de Portugal e ainda por estações de Espanha, Macau e Brasil.
Atendendo às partidas que coração já lhe pregara, outros, no seu lugar, teriam deixado de trabalhar. O seu elevado sentido de serviço público e a consciência de que o país muito perderia com tal atitude, impeliram-no a continuar no activo. Por isso, maior a dívida de gratidão de todos quantos apreciavam o seu trabalho e mais sentido o seu desaparecimento. Mas como a lei da morte não é passível de revogação, há que saber honrar e cultivar a sua memória. E uma das formas de o fazer é ouvindo as edições do "Agora... Acontece!" disponíveis no arquivo on-line da Rádio Universitária do Minho. Esse é um excelente testemunho do seu excercício, culto e inteligente, de bem entrevistar, e da atenção que sempre deu à boa música (de expressão) portuguesa e à poesia recitada, uma arte tão maltratada hoje em dia na rádio portuguesa.
Rendo-lhe a minha sentida homenagem, transcrevendo as palavras de um colega de ofício, que com ele privou, João Gobern:
«Por esta altura, já se recordou a sua biografia, já se lembraram os seus feitos: e o maior deles é mesmo ter assinado, durante quase uma década, um diário de resistência cultural numa TV habituada a franzir o sobrolho à cultura. Já sorrimos diante da memória do seu jeito pausado de dizer e de encadear frases e ideias num ritmo muito próprio. Tinha 66 anos e depois da machadada inexplicável que lhe foi dada por uns bárbaros que a História não vai recordar, mas também não chegou a condenar, parecia ter recuperado em pleno de dois enfartes. Voltara à rádio para continuar a falar de livros, de artes e ideias, sempre apoiados em pessoas para que o diálogo não acabasse e as palavras pudessem recuperar o valor real que os maus tratos lhes tinham roubado. Tinha projectos e propostas, algumas delas utópicas mas até por isso mais valiosas. Tinha agora regressado à RTP [Memória] para continuar à conversa do lado que mais falta parece fazer a uma terra que esquecendo os seus se alheia de si mesma. Depois de entrevistar o pintor Nadir Afonso, no programa de estreia, preparava-se para questionar o General Almeida Bruno, militar de Abril. E não fica mal no seu currículo a circunstância de estar a trabalhar naquilo que mais gostava quando o coração voltou a falhar, desta vez sem remédio. Jornalista, passou ao lado da advocacia, com escala pela imprensa. Foi na televisão que fez de tudo, passando inclusivamente pela direcção de programas da RTP. Mas a sua cara é a folha de rosto do "Acontece!", estupidamente interrompido por um ministro pugilista que sentenciou a necessidade de mudar quase tudo para que quase tudo ficasse na mesma.
Sem querer, houve duas memórias que emergiram. A mais velha terá uns quinze anos e junta numa sala acanhada da 5 de Outubro uma equipa de consultores do "Acontece!" – o José Rebelo, o António Carlos Carvalho, a Maria João Fernandes, o Nuno Henrique Luz e eu – a despejar sugestões, a defender as damas e os cavalheiros das nossas áreas e preferências. Ele, quase alheado. Até que de repente acaba o recreio: isto é bom, aquilo não funciona em televisão, isto vai precisar de uma abordagem especial. De repente, o programa já estava na cabeça dele e eram escassas as mudanças a partir do momento em que havia esse desenho mental. Depois, no Verão do ano passado, conseguiu numa óptima noite de tertúlia figueirense juntar-me ao meu pai [Ápio de Sottomayor] e deixar-nos horas à conversa sobre o jornalismo de hoje. Nunca tinha tido com o meu mestre de vida e de profissão um diálogo tão profundo como nessa ocasião. E percebo agora que será difícil de repetir algo de semelhante sem a ajuda e o estímulo do Carlos Pinto Coelho, que ainda por cima quando me telefonava, normalmente para me dar ralhetes, insistia em tratar-me por "meu rapaz". Eu achava graça. Agora não acho nada. Aquele abraço.» (João Gobern, in "Pano para Mangas" - "Conversa acabada.", 16.12.2010)
30 novembro 2010
Que se passa com o Prémio José Afonso?
«Com o objectivo de homenagear José Afonso, incentivar a criação musical de raiz portuguesa e animar turística e culturalmente a cidade da Amadora, organizará a autarquia anualmente um Festival de Música Popular Portuguesa, o qual terá como ponto alto a atribuição do Prémio José Afonso.
O Prémio José Afonso destina-se a galardoar um álbum inédito editado durante o ano anterior ao da realização do Festival de Música Popular Portuguesa, cujos temas tenham como referência a Cultura e a História portuguesas, tal como a obra do autor de "Grândola, Vila Morena".»
Assim reza o regulamento do Prémio José Afonso, criado em 1988, pela Câmara Municipal da Amadora, era então presidente Orlando de Almeida, e vereador da Cultura e Turismo Fernando Pereira, dando seguimento a proposta do Sr. Júlio Murraças, o funcionário da edilidade que até 2005 teve a seu cargo a pré-selecção dos discos, a organização do festival e a direcção da revista "MPP".
Depois do episódio insólito ocorrido em 2006, em que o prémio não foi atribuído, não por falta de discos de qualidade editados no ano anterior (um dos quais "Faluas do Tejo", dos Madredeus, o grupo que, depois de Amália, mais fez pela difusão da música portuguesa além-fronteiras e que acabou por se extinguir sem nunca receber a distinção), mas devido a incompetência do executivo camarário na elaboração da lista sujeita à apreciação do júri, as coisas pareciam ter voltado a uma relativa normalidade. Em 2007, a Brigada Victor Jara seria a feliz contemplada, pelo álbum "Ceia Louca" (há muito que o histórico grupo de Coimbra era credor do prémio) e no ano seguinte sorriria a sorte ao grupo Frei Fado d'El Rei, pelo disco "Senhor Poeta: Um Tributo a José Afonso". Sábias e fora de questionamento ambas as decisões do júri.
Era expectável que no decurso de 2009 fosse anunciado o disco eleito do ano anterior. Estranhamente, isso não aconteceu. Não me parecendo normal o que se estava a passar, a 28 de Janeiro de 2010, tomei a iniciativa de escrever uma carta à Câmara Municipal da Amadora, solicitando um esclarecimento. Não obtive resposta. Apesar disso, ainda dei o benefício da dúvida às pessoas que na autarquia têm a seu cargo a gestão do processo do P.J.A., na esperança que entretanto surgisse uma solução, embora já fora de tempo. Puro engano! Chegámos a 30 de Novembro de 2010, portanto, a um mês de findar o ano, e – pasme-se! – ainda não se sabe qual o disco distinguido de 2008, quando o normal é que já se conhecesse o contemplado de 2009.
Resta saber se a vergonhosa situação a que se chegou se deve a pura e simples negligência dos srs. Joaquim Raposo e António Moreira (respectivamente, presidente da Câmara e vereador da Cultura) ou se tudo decorre de um propósito inconfessado de liquidar o Prémio José Afonso, o mais prestigiado galardão existente em Portugal para a música não erudita. Qualquer que seja a hipótese válida, a situação é deveras insustentável e não pode deixar de suscitar o vivo repúdio, em primeiro lugar, dos cidadãos e contribuintes que garantem os (imerecidos) vencimentos da dupla Raposo & Moreira e, em segundo lugar, de todas as pessoas que prezam a memória de José Afonso e cultivam a boa música popular portuguesa que a ele tanto deve.
Não conheci José Afonso, mas sou um grande admirador do seu legado poético-musical e tenho de lhe estar eternamente grato pelo inestimável contributo que deu, a partir dos anos 60, para o desenvolvimento da música popular portuguesa, como via alternativa ao nacional cançonetismo e ao pop-rock decalcado de grupos/intérpretes ingleses e americanos (o original é sempre melhor). É bom não esquecer que Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Janita Salomé e Trovante, entre outros, começaram a tocar/compor segundo os cânones estéticos anglo-americanos e foi justamente por influência de José Afonso que "mudaram a agulha" para a música de raiz portuguesa. Não tivesse existido o autor de "Cantares do Andarilho" e é quase certo que álbuns fundamentais do nosso património discográfico/musical como "Por Este Rio Acima", "Cavaquinho", "Braguesa", "Lavrar em Teu Peito" e "Baile no Bosque" nunca teriam sido produzidos.
Não posso, por isso, ficar passivo e calado quando vejo uma entidade suportada com dinheiro públicos amesquinhar (vilmente) a memória de José Afonso e votar ao desprezo a grande música popular portuguesa.
15 outubro 2010
Sobre o estado da Antena 2
Convidados pelo novo Provedor do Ouvinte, Mário Figueiredo, os anteriores ocupantes do cargo, José Nuno Martins e Adelino Gomes, disseram os que lhe aprouve acerca dos seus magistérios e sobre o estado actual da rádio pública. Cumpre-me comentar duas afirmações que José Nuno Martins proferiu na edição do programa "Em Nome do Ouvinte", de 08.10.2010:
1. «O actual poder político continua a desprezar a rádio (com todas as letras)».
Não podia estar mais de acordo. Tal acontece porque na cabeça nos políticos há a ideia de que a rádio (ao contrário da televisão) não os faz ganhar (nem perder) eleições. Esquecem-se da importância social e cultural que a rádio ainda tem na sociedade portuguesa, como José Nuno Martins bem chamou a atenção. E eu espero que essa importância não diminua, apesar da tendência inexorável que é a absorção da rádio (assim como da televisão) pela internet. A meu ver, a grande revolução na rádio dar-se-á quando a internet chegar aos auto-rádios, pois é no automóvel que a rádio é hoje mais ouvida. Quando isso acontecer – e não deve faltar muito – o leque de opções de escuta abrir-se-á imenso, mesmo considerando apenas as rádios feitas por portugueses (no território nacional ou não). Não mais os ouvintes automobilistas ficarão condicionados ao espectro muito limitado de estações hertzianas (de conteúdos musicais bastante parecidos) sintonizáveis na área onde circulam, podendo passar a ouvir toda e qualquer estação com emissão on-line. Essa será a grande prova de fogo para as rádios nacionais, acomodadas que estão no seu marasmo, por falta de alternativas ao alcance dos ouvintes automobilistas (que não seja o CD-áudio ou, eventualmente, ficheiros MP3).
2. «A Antena 2 – felizmente – mudou muito desde essa altura.» [quando José Nuno Martins cessou as funções de Provedor do Ouvinte].
Com o devido respeito por JNM, não subscrevo esta sua opinião. A que mudanças se refere em concreto José Nuno Martins? À alteração do horário do programa de música étnica "Raízes" que migrou da hora de almoço para depois da meia-noite? Não vejo mais nenhuma mudança e mesmo aquela não a posso considerar significativa, antes um pequeno ajuste na grelha sem mexer no essencial. Faz lembrar a célebre frase do escritor Tomasi di Lampedusa (no romance "O Leopardo"): «É preciso mudar alguma coisa para que tudo continue na mesma».
Os ataques à Antena 2 começaram em 2003, pela mão do administrador Luís Marques, e a grande machadada foi dada depois da saída do director de programas, João Pereira Bastos, em meados de 2005, quando mandaram às urtigas a grelha que ele havia delineado. De então para cá, a desqualificação do serviço prestado pela antena (supostamente) cultural tem-se mantido: continua a praga dos 'spots' e 'jingles' sucessivamente repetidos de hora a hora (às vezes menos), a pôr à prova a paciência e a sanidade mental dos ouvintes mais fiéis; continuam ao microfone as tais vozinhas com o seu português de trazer por casa, atabalhoado e repleto de erros de sintaxe e de prosódia; continua a não haver espaços culturais não musicais (poesia, ficção romanesca, História, Antropologia, artes plásticas, ciência, ciclos temáticos, etc.), em clamoroso incumprimento do estipulado no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão; continua a passagem única de boa parte dos programas de autor, quando o mais elementar bom-senso recomenda que todos os programas de autor (que representam um investimento acrescido da estação e que como tal deve ser potenciado ao máximo) tenham duas transmissões em turnos distintos, de modo a ficarem acessíveis a públicos com disponibilidades de audição diferentes; continua a encomendar-se alguns desses programas a indivíduos que deixam muito a desejar, sabendo-se que em Portugal há pessoas muito mais bem preparadas nos assuntos abordados; continua a apostar-se em programas de música pop, logo de muito discutível interesse para a esmagadora maioria dos ouvintes da Antena 2; continua a insistir-se na ideia de que o melhor acompanhamento sonoro para a hora de jantar é, todos os dias, jazz (digo isto perfeitamente à vontade pois até gosto de algum jazz, mas dado que não ingiro todos os dias a mesma iguaria gastronómica, penso que auditivamente também devia ter uma ementa variada – em minha casa, quando se está à mesa, não se vê televisão: ouve-se rádio ou CDs); tirando os espaços consagrados ao jazz, à música electrónica de ambientes, à música pop, à música ética e à música contemporânea, continua a não haver um conceito de grelha/programação em que o ouvinte pudesse saber de antemão o que ouvir – música sacra, música coral profana, canção/lied, música coral-sinfónica, música sinfónica, música concertante, bailado e música de cena, música de câmara, instrumentos solistas, obras e/ou intérpretes portugueses, perfil de um autor, etc. – preferindo-se os espaços alargados de trechos de música indiferenciada escolhidos 'ad hoc', como se o público da Antena 2 fosse uma massa amorfa de gostos indistintos ("burros que comem toda a palha que se lhes der").
Ao contrário de outros ouvintes que evocam a antiga Lisboa 2, eu não o faço porque não sou desse tempo. Falta-me o conhecimento de causa para ajuizar com fundamento. Em todo o caso, quando se ouve registos da época (gravações de concertos e edições do programa "O Gosto pela Música") é facilmente constatável que havia um cuidado na locução e no uso da língua portuguesa que não existe actualmente na Antena 2 (não por faltarem no país pessoas cultas e com bom domínio da língua, mas por erros crassos na escolha/admissão do pessoal). Relativamente à oferta musical, creio que não me reveria por inteiro na antiga Lisboa 2, porque devia estar monopolizada pela produção dos períodos clássico, romântico, ultra-romântico, impressionista e neoclássico. A música antiga (barroca, maneirista, renascentista e medieval) devia ter um peso bastante residual – Bach, Haendel e pouco mais – e ainda por cima tocada por orquestras românticas, já que o movimento da nova música antiga iniciado na Europa Central e do Norte, nos anos 60, por Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Frans Brüggen, Alfred Deller, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken e pela Schola Cantorum Basiliensis (onde estudaram Jordi Savall, Montserrat Figueras, Hopkinson Smith e o nosso Manuel Morais) só chegaria a Portugal vinte e tal anos depois. Ouvir Bach ou Vivaldi à maneira de Herbert von Karajan é algo que hoje pouca gente suportaria.
O meu termo de comparação é com a Antena 2 do consulado de João Pereira Bastos. Era essa Antena 2 que me dava prazer ouvir e à qual devo muito do meu enriquecimento cultural (musical e não só). A actual Antena 2 mais do que não me proporcionar essa gratificação espiritual constitui uma fonte de desconforto auditivo. Ressalvo, naturalmente, alguns (poucos) programas de autor: "Teatro Imaginário" (de Eduardo Street), "Questões de Moral" (de Joel Costa), "Em Sintonia com António Cartaxo", "Musica Aeterna" (de João Chambers) e "A Força das Coisas" (de Luís Caetano). Em termos de escuta continuada, a Antena 2 gizada pela dupla Rui Pêgo/João Almeida é um produto impróprio para consumo. Sei que muitos mais ouvintes partilham desta opinião e garanto que não são apenas os nostálgicos da antiga Lisboa 2.
Textos relacionados:
Evocações e programas culturais
Formas de poluição sonora na rádio pública
Antena 2: quando os spots promocionais de tornam um flagelo
Bach achincalhado na Antena 2
Promoção à RTP-1 na Antena 2
Antena 0,2: a arte que destoca
A 'macdonaldização' da Antena 2
Poesia na rádio (II)
Antena 2: zero euros para a aquisição de novos discos
16 setembro 2010
Em memória de Francisco Ribeiro (1965-2010)

«Francisco Ribeiro era um músico discreto em palco. Apesar do balanço que conseguiu imprimir ao violoncelo, que estudou e que o acompanhou por toda a carreira, agora confirmada como demasiado curta, e que chegou para abrir com força e convicção o primeiro êxito dos Madredeus – "A Vaca de Fogo" –, era esse mesmo violoncelo que o obrigava à quietude, embora se percebesse que vibrava por inteiro com a música. O contraponto surgia quando soltava o vozeirão: a primeira vez que o vi e ouvi cantar foi curiosamente num concerto da Sétima Legião, em que foi convidado ao lado da sua parceira de projecto e amiga Teresa Salgueiro. Cantaram "Ascensão" [in "De um Tempo Ausente", 1989] e, sem margem de erro para a memória distante, foi isso mesmo que provocaram no público presente, maravilhado com aquele contraste vocal. Conheci-o em 1987 quando se viveram os primeiros dias da Madredeus, grupo de cinco que se propunha resgatar alguma simplicidade e alguma solenidade à música portuguesa. O trilho foi suado mas o caminho acabou por tornar-se realidade: um sonho feito verdade. Um teclado, um acordeão, uma guitarra clássica, um violoncelo e uma voz acabaram por mostrar como a portugalidade se fazia reconhecer, até lá fora, quando soava autêntica, genuína e feliz. Os discos foram-se sucedendo: "Existir" [1990], "Lisboa" [1992], "O Espírito da Paz" [1994] e "Ainda" [1995] valeram ao músico discreto aquilo que ele mais tarde denominou o seu período de "rock'n'roll e muita euforia". Os Madredeus começaram a mudar: primeiro, saiu Rodrigo Leão e entraram Carlos Maria Trindade e José Peixoto; depois, naquele que foi considerado o annus horribilis do grupo – 1996 – partiram o acordeonista Gabriel Gomes e o próprio violoncelista Francisco Ribeiro. Após um período de incerteza, soube-se que se tinha afastado das actividades públicas para relançar e concluir em Inglaterra os seus estudos académicos. Com algumas colaborações pelo meio, voltou a Portugal em 2006 para em Dezembro do ano passado lançar um meritório projecto pessoal que infelizmente passou despercebido. Chamou-se "Desiderata: A Junção do Bem" e contou com as colaborações da Orquestra Nacional do Porto, das cantoras Filipa Pais, Natália Casanova e Tanya Tagaq, do fadista José Perdigão e ainda do seu antigo companheiro José Peixoto. Inspirado num poema do americano Max Ehrmann, destacava os seus primeiros versos: "Vai placidamente no meio do barulho e da confusão, lembrando-te de quanta paz existe no silêncio.". Sinceramente, não descubro melhor forma de me despedir do Francisco que morreu ontem levado por um cancro no fígado. Talvez agora possa ser ouvido o seu disco, vibrante e discreto como quem o fez.» (João Gobern, in "Pano para Mangas" - "A paz do silêncio", 15.09.2010)
Em complemento às palavras de João Gobern, é pertinente referir um trabalho onde a mão de Francisco Ribeiro foi marcante: o álbum "Ave Mundi Luminar" (1993), de Rodrigo Leão & Vox Ensemble. Além de assinar quatro músicas em parceria com Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro foi o responsável pelos arranjos e dirigiu o agrupamento de câmara Vox Ensemble, que ele próprio também integrou (violoncelo e voz). O disco obteve um retumbante sucesso internacional e não será exagero afirmar-se que muito o deveu a Francisco Ribeiro.
O seu único álbum em nome próprio, "Desiderata: A Junção do Bem", editado em Dezembro de 2009, segue e aprofunda o conceito estético de "Ave Mundi Luminar" e nessa medida poderá até considerar-se o segundo capítulo desse trabalho. Teve foi sorte diferente junto do público e para tal muito contribuiu a parca divulgação que teve nos media audiovisuais. Na rádio pública, foi completamente ignorado: não foi Disco Antena 1 (ao invés do que seria razoável e lógico que acontecesse), nunca figurou na 'playlist' assim como não mereceu a mais pequena atenção em programas musicais de autor, como "Vozes da Lusofonia" e "Alma Lusa" (edição alargada). É verdade que não estamos em presença de música de consumo imediato e de fácil agrado para públicos de sensibilidade embotada, mas jamais o critério da facilidade ou do imediatismo devia nortear uma estação cuja missão é prestar serviço público. Porque a razão da existência da rádio pública é justamente a de dar voz aos artistas de qualidade que as rádios privadas enjeitam, devido à contingência de dependerem da publicidade, o mesmo é dizer dos anunciantes que querem grandes audiências.
Mas se o disco de Francisco Ribeiro e outros de real valia foram/são criminosamente desprezados pela estação onde deviam ter tratamento preferencial (deixo isto à consideração de quem de direito), não o foram/são por um homem chamado Luís Rei, no programa "Terra Pura". De facto, uma das edições, em Janeiro de 2010, foi integralmente dedicada ao CD "Desiderata: A Junção do Bem" e nela Francisco Ribeiro teve a oportunidade de expor as ideias que estiveram na sua concepção, possibilitando aos ouvintes uma percepção mas esclarecida e fundamentada do seu pensamento artístico. Isto, sim, é verdadeiro serviço público! Nessa conformidade, o programa merecia uma amplitude de audiência muito maior do que a que consegue alcançar com as três rádios locais que o transmitem: Rádio Zero (Lisboa), Rádio Universitária do Minho (Braga) e Rádio Miróbriga (Santiago do Cacém). Tal como fiz a respeito do "Agora...Acontece!", daqui lanço um repto aos directores das rádios locais e regionais deste país: não vos parece que a grelha da vossa estação ficaria substancialmente enriquecida se incluísse o programa "Terra Pura"? Então, vá! Dêem às populações que servem a oportunidade de ouvirem um programa de inegável interesse musical e cultural. Desse modo também darão ao Luís Rei um incentivo acrescido para continuar o seu abnegado labor de divulgação das "novas e antigas raízes da música tradicional".
Para ouvir/descarregar a edição do "Terra Pura" com a entrevista de Francisco Ribeiro, é favor aceder à página respectiva.
Alguns temas do disco também podem ser ouvidos no MySpace: http://www.myspace.com/desiderataajuncaodobem
10 setembro 2010
Concertos Antena 1

Finda a temporada de Verão dos concertos Antena 1, com realização e apresentação de Ana Sofia Carvalhêda, há que fazer um balanço. Começo por dizer que a qualidade genérica dos concertos não decepcionou, se exceptuarmos três ou quatro casos muito abaixo da média. O meu reparo prende-se com outras duas questões que considero muito importantes e não deviam ser descuradas numa estação de rádio nacional e generalista:
1. Linguagens musicais contempladas.
O fado de Lisboa foi o género largamente privilegiado e quase não se ouviu música tradicional/folk. Só a Ronda dos Quatro Caminhos e Júlio Pereira marcaram presença ao longo de um mês de concertos. É muito pouco. E não foi certamente por falta de intérpretes dentro dessa vertente musical e de concertos que tal aconteceu. Talvez na cidade de Lisboa não ocorram, por razões algo misteriosas (quiçá por falta de sensibilidade dos programadores), muitos concertos de música tradicional/folk mas na chamada região metropolitana – designadamente em Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval) e Almada (Fórum Romeu Correia e Auditório Fernando Lopes-Graça) – a situação é diferente. O mesmo direi relativamente ao resto do país, designadamente no Porto e em Coimbra. E aqui passo ao ponto seguinte.
2. Área geográfica de gravação dos concertos.
Praticamente todos os concertos transmitidos pela Antena 1 foram gravados em salas ou recintos de Lisboa – CCB, Palácio de Belém, Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Teatro Municipal de São Luiz, Cinema São Jorge. Que me lembre, apenas um concerto – o do fadista Duarte – foi gravado fora, em Évora, mais concretamente no Teatro Garcia de Resende. Não é aceitável que, tendo o país uma boa rede de cine-teatros e auditórios, de norte a sul, onde decorrem espectáculos musicais de excelente qualidade e em condições acústicas em tudo idênticas (nalguns casos, superiores) às das salas/recintos lisboetas citados, a rádio pública ignore esse facto. A Antena 1 é uma estação nacional e não uma rádio local de Lisboa, de acordo com o respectivo estatuto aprovado pelos órgãos de soberania da República. Nessa conformidade, tem a obrigação de tomar em consideração a realidade cultural, no caso a musical, do todo nacional, incluindo obviamente as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
16 julho 2010
Antena 2: zero euros para a aquisição de novos discos

Há cerca de ano e meio, em mensagem dirigida à Provedoria do Ouvinte, o musicólogo e professor universitário Mário Vieira de Carvalho chamava a atenção para o facto de importantes concertos e recitais de música clássica/erudita ocorridos em Portugal não serem gravados pela Antena 2, ficando assim o arquivo sonoro sem registos desses eventos para usufruto dos ouvintes (os actuais e os vindouros). A este problema, há agora que acrescentar outro, não menos grave: a dotação orçamental de zero euros consignada à Antena 2 para a aquisição de novos discos.
Quer dizer: os mandantes da Rádio e Televisão de Portugal decidiram que não são necessárias mais edições discográficas de música erudita? Se assim o entendem é porque não percebem patavina do assunto, nem se dignaram consultar quem os pudesse esclarecer. A triste realidade é que a discoteca da RDP tem ainda muitas lacunas, sobretudo no domínio da música antiga. Se me disserem que não faz sentido comprar a enésima gravação das "Quatro Estações" (de Vivaldi) ou da "Quinta Sinfonia" (de Beethoven), que algum chinês ou japonês decidiu fazer, eu aceito de bom grado esse argumento. Mas importa ter em atenção que estão constantemente a sair discos com obras nunca antes gravadas, muitos dos quais largamente elogiados pela crítica especializada e distinguidos com prémios de prestígio (Diapason d’Or, etc.). E quanto a esses, qualquer que seja a nacionalidade do compositor ou intérprete, constitui uma falha grave que não sejam adquiridos pela rádio pública.
No que respeita aos compositores e intérpretes portugueses de reconhecido mérito (independentemente da editora ser nacional ou estrangeira), é de todo o interesse que a emissora do Estado possua uma cópia de todos os seus registos fonográficos. A RDP tem a obrigação moral e histórica de ser a depositária de todas as gravações de obras escritas ou tocadas por cidadãos nacionais detentores de talento. Cito, a título de exemplo (um entre muitos que poderia apontar), o caso do pianista português Artur Pizarro, que publicou recentemente um álbum com a suite "Ibéria" (de Isaac Albéniz) e as "Goyescas" (de Enrique Granados), um dos eleitos da BBC Music Magazine.
Será que os actuais locatários da direcção da Antena 2 e da administração da R.T.P. acham que mesmo tratando-se de Artur Pizarro, o mais distinto aluno de Sequeira Costa e que vem fazendo uma digníssima carreira internacional, não é importante para o serviço público possuir e divulgar os seus discos? Ou será que julgam que cabe às editoras oferecerem as suas edições à R.T.P., a troco de uma hipotética divulgação? Sendo esta a prática corrente na Antena 1, devem pensar que vale o mesmo para a Antena 2: «Se nos enviarem os discos, nós poderemos – eventualmente – divulgá-los; se não no-los enviarem, escusam de alimentar a ilusão de que os iremos comprar.»
Em contraste com esta visão tacanha e ao arrepio das obrigações culturais do serviço público, constata-se que há dinheiro a rodos para dar aos inaudíveis Pedro Malaquias, Paulo Alves Guerra e Raul Mesquita (já são três as séries "apresentadas" por tão "insigne autor" na Antena 2) e para esbanjar em futebóis, com a consequente carga onerosa para os contribuintes (cf. Mundial de Futebol: RTP não chora miséria II). Isto para não falar nos vencimentos verdadeiramente obscenos e afrontosos para os contribuintes que alguns indivíduos estão a auferir da endividada R.T.P., a começar pelo sr. Guilherme Costa com os seus 250 040,00€ anuais (cf. semanário "Sol", de 22.01.2010). A décima parte daquele montante chegaria e sobraria – calculo eu – para comprar todos os discos importantes de música erudita editados em cada ano.
22 junho 2010
José Saramago na música portuguesa
Muito antes do compositor italiano Azio Corghi (*), se ter debruçado sobre a produção romanesca e teatral de José Saramago, já a obra poética do autor – que compreende os livros "Os Poemas Possíveis" (Portugália, 1966), "Provavelmente Alegria" (Livros Horizonte, 1970) e "O Ano de 1993" (Futura, 1975) – merecera a atenção de grandes compositores e intérpretes portugueses. Luís Cília, durante o exílio em França, foi o primeiro a musicar e a cantar a poesia de Saramago, na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (1967, 1969 e 1971), portanto, cerca de três décadas antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Seguiu-se Manuel Freire, com os poemas "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (1971), "Ouvindo Beethoven" (1973) e "Dia Não" (1978), que viriam a ser regravados com novos arranjos, em 1999, no álbum "As Canções Possíveis". Com os outros nove poemas que completam o alinhamento deste CD, Manuel Freire afirmou-se o mais dedicado intérprete da poesia de José Saramago, e quiçá o que melhor a cantou.
Embora de forma mais avulsa, também Pedro Barroso, Carlos do Carmo, Mísia, Amélia Muge, Fernando Tordo e Marco Oliveira juntaram os seus nomes à galeria dos que deram voz cantada aos versos do grande escritor.
Aqui fica o rol das versões conhecidas, perfazendo as três dezenas, considerando-se as regravações que alguns poemas tiveram. É muito provável que a lista esteja incompleta e, nessa conformidade, os leitores ficam convidados a indicar as eventuais ausências (contacto: ajferreira74@gmail.com).
A ordem é cronológica e alfabética (no caso de temas pertencentes ao mesmo disco).
1. Contracanto – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967)
2. Dia Não – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
3. Há-de haver – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
4. Não me peçam razões – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
5. Poema à boca fechada – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971)
6. Venham leis – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
7. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in EP "Dulcineia", Zip Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
8. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in EP "Abaixo D. Quixote", Sassetti, 1973; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
9. Dia Não – Manuel Freire (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)
10. Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo – Pedro Barroso (in LP "Água Mole em Pedra Dura", Sassetti, 1978; CD "Cartas a Portugal", Strauss, 2000)
11. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in LP "Mais do Que Amor é Amar", Philips/Polygram, 1986, reed. Philips/Polygram, 1996)
12. Fado Adivinha – Mísia (in CD "Fado", BMG Ariola, 1993)
13. Nenhuma Estrela Caiu – Mísia (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)
14. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira", EMI-VC, 1999)
15. A Ponte – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
16. Circo – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
17. Dia Não – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
18. Dispostos em Cruz – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
19. É Tão Fundo o Silêncio – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
20. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
21. Jogo do Lenço – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
22. Nem Sempre a Mesma Rima – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
23. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
24. Retrato do Poeta Quando Jovem – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
25. Tenho a Alma Queimada – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
26. Tenho um Irmão Siamês – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
27. Se Não Tenho Outra Voz – Amélia Muge (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
28. Fado Adivinha II – Mísia (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/EMI-VC, 2005)
29. Circo – Fernando Tordo (in CD "Tributo a los Laureados Nobel", Factoría Autor, 2005)
30. Retrato do Poeta Quando Jovem – Marco Oliveira (in CD "Retrato", HM Música, 2008)
A estas versões cantadas, acrescentam-se as gravações de poesia dita/recitada. Além dos espécimes presentes em edições discográficas, como é o caso do poema "Circo", recitado por Vítor de Sousa no CD "No Palco da Poesia" (Ovação, 1995, reed. 2000), há que considerar os registos existentes no arquivo sonoro da RDP, na voz de António Cardoso Pinto, Paulo Rato e outros.
Sem prejuízo da transmissão de excertos de entrevistas de José Saramago, era expectável e desejável que a direcção de programas da Antena 1, nos dias em que Portugal se despediu do seu (primeiro e único, até agora) Nobel da Literatura, deitasse mão aos seus poemas – os cantados e os recitados – e os desse a ouvir, se não na íntegra, numa boa parte. Mas não. Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos não tinham conhecimento da existência de tão importante acervo fonográfico? Se não tinham, podiam ter-se dignado perguntar a quem os soubesse informar. Enfim... mais um triste episódio que põe a nu as gritantes deficiências que se vêm verificando no serviço público de radiodifusão.
(*) Azio Corghi compôs as seguintes obras, baseadas em livros/textos de José Saramago: "Blimunda" (1989 - ópera, a partir do romance "Memorial do Convento"); "Divara" (1993 - ópera, a partir da peça "In Nomine Dei"); "La Morte di Lazzaro" (1995 - cantata dramática); "Cruci-Verba" (2001 - para voz recitante e orquestra, a partir do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"); "De Paz e de Guerra" (2002 - cantata para coro e orquestra); "Il Dissoluto Assolto" (2005 - ópera, a partir da peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido").
Em Portugal, Jorge Salgueiro é autor de "Ensaio sobre a Cegueira: um Requiem pela Humanidade" (2004 - ed. Tradisom, 2005), composto para a adaptação dramática do romance "Ensaio sobre a Cegueira", levada à cena pela companhia de teatro "O Bando", em co-produção com o Teatro Nacional de São João (Porto).
Subscrever:
Mensagens (Atom)






