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É através da publicidade comercial que os órgãos de comunicação social do sector privado garantem a sua sustentabilidade económica. Devido a tal contingência a programação de uma estação de rádio privada está naturalmente condicionada pela lógica das audiências. O serviço público de rádio, pela natureza que lhe é intrínseca, não podia estar sujeito a tal constrangimento, pelo que o Estado determinou que o seu financiamento fosse assegurado com dinheiros públicos – os relativos às transferências directas do Orçamento de Estado e os que provêm da taxa de radiodifusão (rebaptizada, há meia-dúzia de anos, de contribuição do audiovisual, por forma a que a televisão passasse comer do bolo – a parte de leão, acrescente-se), que é cobrada na factura da electricidade e cujo montante mensal se cifra actualmente em 2,25 euros (+ IVA).
A Antena 1 podia assim fornecer um serviço de qualidade, quer na vertente da informação quer na vertente da programação, e os ouvintes tinham a garantia de o poder fruir sem que os seus ouvidos fossem massacrados com publicidade. Com um ou outro desvio pontual, foi assim que as coisas se processaram até meados de 2005. Com a colocação na direcção de programas das Antenas 1, 2 e 3, pela mão de Luís Marques, do sr. Rui Pêgo, um indivíduo "nado e criado" em rádios comerciais, a perversão era inevitável. E a publicidade a marcas e produtos não se fez esperar, entrando de rompante na estação pública, convenientemente disfarçada sob a capa de publicidade institucional. Desde filmes comerciais americanos que recebem o rótulo de "um filme Antena 1" a eventos desportivos e musicais associados a marcas e a empresas com fins lucrativos, tudo a rádio pública (sobretudo as Antena 1 e 3 – por vezes, também a Antena 2) tem publicitado sem a menor parcimónia. Refira-se, a título de exemplo, o filme "Toy Story 3", o Vodafone Rally de Portugal e o Festival Delta Tejo ("um festival Antena 1", pois claro). A promoção dada a este último, de tão intensa e desproporcionada que tem sido, é verdadeiramente obscena e atinge as raias do escândalo. Na verdade, o 'spot' com a voz de José Mariño a anunciar, em tom arrebatado, «o cartaz mais multicultural [?!] do Verão com os sons e os ritmos dos países produtores de café» (o Canadá de onde vem a Nelly Furtado é acaso um produtor de café?) tem passado com uma frequência tão elevada, de há duas ou três semanas para cá, que um ouvinte da Antena 1, mesmo que só durante algumas horas (imagine-se o dia inteiro!), não pode deixar de se sentir mentalmente agredido com tão desmesurada repetição. O sr. Rui Pêgo terá sido acometido de uma paixão tão assolapada pelos Cafés Delta, que resolveu contemplá-los com uma campanha promocional graciosa? Na hipótese da marca de café do comendador Rui Nabeiro ser a predilecta do actual director de programas da rádio estatal, não acredito, sinceramente, que a sua benemerência fosse a tal ponto. Não, não é no café que reside a explicação para a massiva promoção ao Festival Delta Tejo 2011, mas numa coisa bem menos prosaica. Como é sabido, o evento é organizado pela empresa de espectáculos Música no Coração, pertencente ao genro de Cavaco Silva, Luís Montez, que por coincidência é também o proprietário do grupo de rádios Luso Canal (Radar, Oxigénio, Marginal, Rádio Nova, Rádio Nova Era, Rádio Festival, Rádio Amália, Rádio SW TMN). Nesta última, o Sr. Luís Montez já deu emprego ao filho de Rui Pêgo, Rui Maria Pêgo. E é claro: favor paga-se com favor. Além disso, uma operação de charme ao amigo Luís Montez (lembre-se que na Associação Portuguesa de Radiodifusão os lugares de presidente e de vice-presidente da Mesa da Assembleia-Geral são ocupados por Rui Pêgo e Luís Montez, respectivamente), nas ondas nacionais da Antena 1, pode revelar-se muito útil ao futuro profissional do próprio Rui Pêgo, pois um lugarzinho numa (ou em várias) das rádios de Luís Montez não é coisa de desperdiçar. Sabendo que a sua permanência na RDP não está garantida até à reforma, o sr. Rui Pêgo trata de acautelar o seu futuro. Que isso seja feito atropelando os mais elementares princípios éticos e gozando com a cara dos ouvintes/contribuintes que lhe pagam o sumptuoso salário, é de somenos importância, com certeza. E assim vai o "serviço público de rádio"...
A Constituição da República Portuguesa consagra – e muito bem – o princípio da laicidade do Estado. Quer isto dizer que os órgãos de soberania (Presidência da República, Assembleia da República, Governo, Tribunais), bem como os organismos sob a sua tutela, não podem tomar partido por qualquer credo religioso professado no país (ou não), nem se envolverem em acções de proselitismo ou doutrinação. Ora foi exactamente o contrário disto o que se passou na estatal Antena 2, com o programa "Musica Aeterna" no qual, a pretexto do Pentecostes, uma solenidade do calendário litúrgico católico, foram lidos vários textos de teor marcadamente confessional e do estrito domínio da fé, uns extraídos da Bíblia católica (digo católica, porque a Bíblia protestante tem algumas diferenças – no menor número de livros e não só) e outros de literatura doutrinária patrística ou pontifícia, quiçá constantes no catecismo romano e/ou em encíclicas papais.
Sou ouvinte regular do "Musica Aeterna", que considero muito bom em termos de selecção musical (muito criteriosa) e também no tocante à locução de João Pedro (primorosa – não direi o mesmo de algumas outras vozes que, por vezes, lá aparecem), mas ao ouvir a emissão de sábado passado confesso que me senti violentado na minha liberdade de consciência (de livre-pensador). O autor do programa, João Chambers, é presumivelmente uma pessoa que professa o catolicismo e quanto a isso não há a mais pequena censura da minha parte. O que não posso aceitar é que utilize um programa musical pelo qual é remunerado com dinheiros públicos para fazer proselitismo da sua religião. Desta vez, o pretexto para a acção apostólica foi o Pentecostes. Qual será o próximo? – A Assunção da Virgem Maria aos céus? A Imaculada Conceição? As aparições de Lourdes ou de Fátima? A canonização de João Paulo II? – Não, isto não se pode tolerar numa estação pública e, como tal, laica e aconfessional. A Antena 2 não é a Rádio Renascença.
Sei muito bem que parte considerável da produção musical anterior ao Romantismo tem feição religiosa: católica nos países do Sul da Europa e protestante nos do Norte. Por acaso, duas das minhas obras predilectas de toda a História da Música têm cunho religioso. São elas: a "Paixão Segundo São Mateus", de Johann Sebastian Bach, e o "Requiem", de Mozart. Que se trate de obras religiosas (deste ou daquele credo) é-me completamente indiferente. A genialidade da música é única coisa que me importa. Nesta conformidade, toda a música sacra de qualidade (católica, luterana, anglicana, ortodoxa, etc.) que o Sr. João Chambers nos queira dar a ouvir é bem-vinda. O que jamais se poderá admitir é que, a pretexto desta ou daquela solenidade ou festividade católica (vale o mesmo para qualquer outra confissão), queira fazer do programa uma sessão de catequese.
Tenho-me esforçado para não voltar a "chover no molhado" relativamente às continuadas mutilações das gravações do "Lugar ao Sul", desde que o programa passou a ser emitido em reposição (finais de Janeiro de 2011). Na edição de sábado passado (dia 04 de Junho) a coisa foi feita de forma tão grosseira e chocante que a minha indignação subiu aos píncaros. Vi-me, por isso, obrigado a retomar o assunto.
Desta vez, não só mutilaram praticamente todos poemas da recolha de campo (noutras ocasiões alguns poemas ainda escapavam incólumes à "tesoura") como não tiveram o menor pejo em amputar as próprias músicas de disco escolhidas por Rafael Correia para o preâmbulo musical, agora não na totalidade nas em secções intermédias, o que causa uma indisfarçável sensação de desconforto a quem ouve. Aconteceu isto na moda "Trovoada" (em que eliminaram a parte correspondente ao verso "Mais tarde deu em chover" que é cantado duas vezes) e na moda "Rego abaixo, rego acima" (em que suprimiram a secção em que o Grupo Coral e Etnográfico "Os Camponeses de Pias" canta "Nem só com armas de guerra / Se defende uma nação").
Através da minha gravação caseira (pré-programada, pois gosto de ouvir o programa às 09:00 de sábado, continuando a cultivar um ritual com quase duas décadas) dei-me logo conta de que nos poemas (ditos pelo Sr. Joaquim Cruz, filho da vila alentejana de Cuba) havia versos em falta e que em certas passagens as rimas não batiam certo. Tudo isto acompanhado de ruídos estranhos e incomodativos... Ao reouvir o programa, aquando da preparação da "circular" com as letras das cantigas e os textos dos poemas que semanalmente expeço para os Amigos do LUGAR AO SUL, vim a confirmar com mais pormenor e acuidade a impressão com que ficara da primeira audição. Uma autêntica barbaridade... Se é grave que as partes de diálogo sejam suprimidas, mais inaceitável ainda se afigura a truncagem (completamente arbitrária) dos poemas.
Não sei se é a sra. Cláudia Almeida que decide quais as partes dos registos originais a suprimir ou se deixa isso ao critério do técnico de montagem (que deve ser uma pessoa bastante inexperiente atendendo ao rasto de ruídos que deixa nos pontos de corte). Qualquer que seja o caso, o que foi feito é absolutamente intolerável e revoltante. Reitero o que escrevi anteriormente: o que está em causa é não apenas a adulteração, a todos os títulos inaceitável, dos registos de Rafael Correia, mas uma tremenda e insustentável desconsideração pelos ouvintes do programa que, com tais procedimentos, são tratados "abaixo de burro". «Para quem é, bacalhau basta!», deve dizer o sr. Rui Pêgo para os seus botões. Esquece-se, com certeza, que os ouvintes do "Lugar ao Sul", que tão pouca consideração lhe merecem, também contribuem para o opíparo salário que leva para casa no final de cada mês.
Os ouvintes do admirável programa de Rafael Correia voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
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Terceira parte: Brincando, brincando... >>> aqui
Joaquim Raposo & António Moreira, respectivamente, presidente da C.M. da Amadora e vereador do pelouro da Cultura
Com mais de dois anos de atraso, a Câmara Municipal da Amadora anunciou finalmente qual o disco distinguido com o Premio José Afonso referente à colheita discográfica de 2008. E o escolhido foi... "Chão", da Mafalda Veiga. Confrontada com a notícia, a cantora mostrou-se surpreendida (vide artigo do Hardmúsica). O escrevente destas linhas comunga inteiramente de tal surpresa. Mais que surpresa: estupefacção e perplexidade. E porquê? Porque "Chão" está muito longe de ser um disco «cujos temas tenham como referência a Cultura e a História portuguesas, tal como a obra do autor de "Grândola, Vila Morena"» (nos termos do regulamento instituidor). Na verdade, o mais recente registo de Mafalda Veiga navega em águas muito diferentes – quase antagónicas – do legado estético de José Afonso e, se quisermos, da música popular portuguesa de raiz/inspiração tradicional, de que o autor de "Cantares do Andarilho" foi o grande percursor e impulsionador em Portugal. Mas mesmo que nos abstraíssemos deste requisito (coisa que não me parece razoável por deturpar o espírito e os objectivos de quem instituiu o Prémio), e quiséssemos considerar todos os discos de música portuguesa (fora da área erudita) lançados em 2008, ainda assim o CD "Chão" ficaria a perder para muitos outros álbuns. Tive oportunidade de dar realce a algumas dezenas no artigo "Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008". O registo da Mafalda Veiga não figura nessa galeria de destaques e se tal aconteceu foi porque não encontrei nele suficientes motivos para o considerar um trabalho notável. Digo mais: "Chão" não acrescenta nada ao que Mafalda Veiga fez antes: no respeitante às letras, é mais do mesmo; relativamente à linguagem musical, nada de original, pecando inclusive por ser acentuadamente tributária do pop/rock anglo-americano (de toda a discografia da Mafalda Veiga, ressalvo dois títulos: "Pássaros do Sul", de 1987, com produção de Manuel Faria, e "A Cor da Fogueira", de 1996, com produção de José Sarmento).
Como se explica então que em face de tantas edições de qualidade superior, "Chão" tenha sido o seleccionado para receber os cinco mil euros do Prémio José Afonso? Só encontro uma explicação: a composição do júri. Dos cinco elementos inicialmente indigitados – António Moreira (vereador da Cultura da C.M. da Amadora), Vanda Santos (chefe de divisão da Cultura da mesma entidade), Olga Prats (pianista e professora de música), António Victorino d’Almeida (compositor e pianista) e Carlos Pinto Coelho (jornalista cultural) – apenas os três primeiros votaram. Carlos Pinto Coelho não se encontra entre nós – infelizmente – desde meados de Dezembro de 2010, e o maestro António Victorino d’Almeida tem decerto coisas mais importantes para fazer do que perder tempo com as negligências e incompetências de quem tem conduzido o processo do PJA. Dos três jurados votantes, dois – a maioria, portanto – são da Câmara Municipal da Amadora, o mesmo é dizer da entidade promotora do prémio. Que crédito pode ter um júri com tal composição? Nenhum, escusado será dizê-lo. Não tenho o (des)prazer de conhecer, pessoalmente, o sr. António Moreira nem a sra. Vanda Santos, mas quando, por sua obra e graça, o Prémio José Afonso serve para galardoar um disco como "Chão", tenho forçosamente de deduzir que a sua formação/gosto musical e os conhecimentos de música popular portuguesa não primam pela distinção, situando-se ao nível do vulgar e do corriqueiro. Será que aquelas duas criaturas conhecem e/ou apreciam a obra de José Afonso? Não me parece, sinceramente. É mais que provável que o grosso do repertório do imortal cantautor seja ignorado por tais orelhas. Devem, quanto muito, conhecer a "Grândola, Vila Morena" e mais uma meia-dúzia de temas, mas de os ouvirem na rádio e/ou na televisão...
Quanto a Olga Prats, uma Senhora que tenho na mais elevada estima e admiração, custa-me muito a crer que o seu disco preferido de 2008 (que não de música clássica) seja o "Chão", da Mafalda Veiga (o título é enganador pois o CD nada tem de telúrico, como facilmente poderá ser comprovado por quem o ouviu). A ter Olga Prats votado nele, de facto, foi porque não ouviu, com certeza, nenhum dos discos destacados no artigo "Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008". Se calhar, ouviu apenas uns quantos títulos menores que a C.M. da Amadora lhe forneceu e de entre esses, o da Mafalda Veiga era o menos medíocre. Bem, isto sou eu a conjecturar. Gostaria mais de acreditar que a eminente pianista votou, vencida, noutro álbum, esse sim mais conforme e consentâneo com a obra de José Afonso.
Em qualquer dos casos, pode afirmar-se com toda a legitimidade que o Prémio José Afonso sofreu, com esta recente decisão, um rude e violento golpe no seu prestígio e credibilidade. E os autores do crime chamam-se Joaquim Moreira Raposo (presidente da C.M. da Amadora) e António José da Silva Moreira (vereador do pelouro da Cultura). Não se tratasse de um problema suficientemente grave para a música e cultura portuguesas e não estivéssemos em presença do soez achincalhamento da memória de José Afonso, a coisa até daria para rir, de tão grotesca e caricata que é. Uma tragicomédia grega...
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Segunda parte: No reino das fadas e dos bichos >>> aqui
Como não estou disposto a sacrificar o meu merecido descanso na madrugada de sábado por causa dos caprichos do sr. Rui Pêgo, a forma que arranjei de ouvir o "Lugar ao Sul" a horas decentes foi a gravação pré-programada. Assim, fico com o programa imediatamente disponível para audição sem necessidade de estar à espera que seja colocado online. Com tal expediente, posso dar-me ao luxo de começar o meu sábado às 09:00 com o "Lugar ao Sul", continuando a cumprir um ritual salutar (para a mente e para o corpo) de há muitos anos, mau grado os cortes das secções musicais e das conversas que vem sendo praticadas e contra as quais já tive oportunidade de me insurgir. A edição de sábado passado começou com uma interessantíssima conversa com o apicultor António Garrido (nas imediações da Barragem do Roxo, concelho de Aljustrel). Terminada a conversa que durou 27 minutos (quero acreditar que desta vez não mexeram na recolha e apenas suprimiram as secções de música de disco anteriores e posteriores àquela), surge em antena a sra. Cláudia Almeida a introduzir a gravação que se seguiria, dizendo que iríamos rumar até ao Museu de Silves, que se encontra instalado na alcáçova do castelo mouro. Após a observação parola e perfeitamente dispensável proferida pela citada Cláudia Almeida («Não desligue o rádio! É tudo o "Lugar ao Sul", de Rafael Correia...»), começa a ser transmitida uma das tais secções de música de disco com que o emérito realizador obsequiava o seu auditório em jeito de ilustração das conversas de campo. Amélia Muge, Brigada Victor Jara, GNR, Mler Ife Dada, Trovante e Luís Cília foram os artistas que desfilaram interpretando temas em que se alude a castelos velhos, a mouros (mouras) e a cerveja. Não é imediatamente apreensível a que propósito vem a cerveja, no contexto, sabendo-se que aquela bebida, tão apreciada por germânicos e anglo-saxões, não faz parte da tradição gastronómica mediterrânica e – não menos importante – que o Corão proíbe a ingestão de bebidas alcoólicas. A hipótese que me surgiu foi a de que a cerveja terá vindo à baila, na conversa que Rafael Correia manteve com o seu interlocutor, por qualquer outra razão totalmente alheia aos mouros que, há mais de sete séculos, residiram no castelo de Silves: talvez a realização, nos inícios dos anos 90 do séc. XX, de algum festival de cerveja no monumento. Bem, estava eu todo contente por desta vez não terem suprimido as músicas de disco e com o apetite aguçado para a conversa que se seguiria, que me daria a resposta para o repertório alusivo à cerveja, quando, logo depois do romance "D. Sancho", cantado por Luís Cília, surge novamente em antena a sra. Cláudia Almeida, com estas palavras: «"Lugar ao Sul", de Rafael Correia, de novo no ar com histórias de outros tempos e de um outro país. Mas, acima de tudo, a alma de um Senhor que constrói, com a conversa e o som em volta, a identidade de um povo. Daqui a uma semana, mais histórias do "Lugar ao Sul"». E o programa acabou. Eu nem queria acreditar no que estava a ouvir. Quer dizer: até agora apresentavam duas conversas (ainda que uma delas ou as duas sujeitas a amputações) e hoje, depois de uma conversa totalmente despida das músicas de disco que a envolviam, resolvem preencher o tempo que faltava para completar a emissão com o preâmbulo musical de uma outra conversa, mas sem a própria conversa!? É de bradar aos céus! É assim, com procedimentos mais próprios de curiosos e de amadores, que agora se trabalha na estação de rádio que devia ser uma referência e um exemplo de profissionalismo? A sra. Cláudia Almeida não tem, com certeza, a mais pequena noção das barbaridades que anda a fazer com o fabuloso acervo fonográfico de Rafael Correia. Por conseguinte, não será a ela que teremos de pedir as maiores responsabilidades, mas a quem tomou a decisão, leviana e irresponsável, de lhe atribuir uma função para a qual não está definitivamente talhada.
Os admiradores de Rafael Correia e todas as pessoas dotadas de sensibilidade para apreciar a sua arte de fazer rádio com os sons da terra voltam a clamar a quem de direito: «"Lugar ao Sul" mutilado, não!»
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"Lugar ao Sul" mutilado, não!
No texto anterior referi o procedimento incorrecto e indesejável que é a supressão da música de disco na reposição, recentemente iniciada, do programa "Lugar ao Sul". A audição da segunda emissão deu para perceber que a mutilação são se fica por aí: afecta também as gravações de campo. Achando a conversa com o frade António Maria, da Cartuxa de Évora, extremamente curta, disse para os meus botões: «Já?! Nunca uma conversa de Rafael Correia com os seus interlocutores durou tão pouco tempo.» Dei-me então ao cuidado de ir fazer a contagem do tempo e deu uns escassos 12 minutos. Não é possível! A minha experiência como ouvinte do programa diz-me que a conversas duravam, em média, 35 minutos. Nunca 12 minutos. Houve ali claramente uma amputação. Vendo bem as coisas, meter duas recolhas, com cerca de 35 minutos cada, num período de 50 minutos, só seria possível com cortes, se não em ambas as recolhas, pelo menos numa delas. Desta vez, a sacrificada foi a conversa na Cartuxa de Évora. E outras se seguirão inevitavelmente se se quiser continuar com a ideia peregrina de enfiar duas edições no tempo de uma só. Ora isto é totalmente inaceitável. Quem me garante a mim que a parte da conversa que foi suprimida não é tão ou mais importante que a que foi transmitida? Eu tenho a ideia de ouvir a referida emissão nos anos 90 e, se a memória me não atraiçoa, creio que se falou a dado passo de Aristóteles. Havia ali, portanto, matéria de relevante interesse que foi barbaramente sonegada ao auditório. Eu falo enquanto ouvinte, mas há que não esquecer a posição do autor. Será que Rafael Correia deu autorização para que os seus registos fossem mutilados, a bel-prazer de uma qualquer funcionária da RDP, que muito provavelmente não percebe patavina de antropologia ou de etnologia? Não acredito, sinceramente. Por conseguinte, estamos em presença de um acto flagrante de vandalismo cultural à obra de um autor. Algum pintor aceitaria que um conservador de museu pegasse num dos seus quadros e o recortasse, passando a expor apenas o bocado alegadamente mais agradável à vista e escondendo nas reservas a parte considerada menos interessante? Não! A obra vale como um todo e é assim que deve ser fruída pelo público. O criador é a única pessoa que tem legitimidade para retocar ou modificar a sua obra de arte. E digo "obra de arte" de propósito porque é efectivamente disso que se trata quando falamos do programa de Rafael Correia. Obra de arte radiofónica, bem entendido.
Posto isto, apelo a quem de direito no sentido do "Lugar ao Sul" deixar de ser mutilado. Os fiéis ouvintes do programa fazem questão de o saborear na íntegra (conversas e músicas) e não em forma condensada à maneira das Selecções do Reader's Digest. Apetece parafrasear Ary dos Santos: "Lugar ao Sul" castrado, não!
P.S.: Embora não sendo latinista, julgo que a expressão "Scala Coeli" ("Escada do Céu" ou "Escada Celeste") se pronuncia "Scala Celi" e não "Scala Coeli", como foi dito na nota introdutória pela sra. Cláudia Almeida. Enfim, mais um exemplo (a somar a tantos outros) da deficiente preparação cultural de parte do pessoal da R.T.P. (rádio e televisão) e da falta de rigor das cúpulas na sua admissão.
Já agora, uma pergunta: na empresa que todos financiamos para supostamente prestar serviço público não há controlo de qualidade dos programas pré-gravados? Pois é! Se houvesse, aquela calinada teria sido certamente detectada.
«Se ele quisesse, se ele deixasse, a sua vida dava um filme. Mas hoje não é ainda o momento de contar a sua incrível história. Quero apenas reflectir como Provedor, a intensa admiração que os Ouvintes sentem por este devotado Homem da Rádio e, sobretudo, pelos exemplos que resultam dessa sua devoção.
Repito, por isso, o que já disse: "Lugar ao Sul", de Rafael Correia, é um Sinal de Excelência do Serviço Público de Radiodifusão.» (José Nuno Martins, Novembro de 2006)
«Há muitos anos, no jornal onde trabalhava ["Público"], escrevi um texto defendendo a obrigação da RTP de não apenas preservar a riqueza patrimonial de excepção representada pelos programas de Rafael Correia mas de a restituir aos portugueses, editando os programas numa colecção, como faz com os vídeos. A Radio France já organizou um disco com 39 faixas musicais, em 1999. Com o apoio da Antena 1 e presumo que de Rafael Correia. Mas não bastam os registos musicais. São precisas as quadras populares, as receitas, as conversas, o som ambiente.
Retomo este repto, agora como provedor e agora que "Lugar ao Sul" ameaça não voltar. Acho um crime de lesa-cultura se os programas forem deixados esquecidos e inúteis em pequenas cassetes DAT do arquivo histórico...» (Adelino Gomes, Julho de 2009)
Depois da saída de António Cardoso Pinto da direcção de programas da Antena 1, em 2003, o "Lugar ao Sul" foi sendo alvo de sucessivos ataques, desde a colocação em horários indignos a cortes no tempo de emissão. Por razões ainda não devidamente esclarecidas, Rafael Correia deixou de realizar o programa após o dia 1 de Agosto de 2009. Desde então, os ouvintes não mais deixaram de manifestar o desejo de que o "Lugar ao Sul" regressasse. Não havendo disponibilidade de Rafael Correia para voltar a colaborar com a rádio pública (fartou-se, muito possivelmente, de ser desconsiderado e maltratado), já seria muito bom que se repusessem em antena as edições menos recentes. O novo Provedor do Ouvinte, Prof. Mário Figueiredo, a exemplo dos seus antecessores, continuou a fazer-se eco dessa vontade dos ouvintes, o que faço questão de louvar. E o "Lugar ao Sul" começou finalmente, no sábado passado, a ser resgatado das teias de aranha do arquivo sonoro da RDP. O resgate, por si só, é motivo de regozijo para todas as pessoas que já sentiam saudades daqueles saborosos momentos de rádio com «as nossas coisas, as nossas gentes e o melhor da música de Portugal». No entanto, há três pontos a respeito dos quais os ouvintes querem manifestar a sua insatisfação.
O primeiro diz respeito à supressão da música de disco que Rafael Correia passava antes e depois das recolhas de campo. Aquela música não era ali colocada para "encher chouriços", já que estava tematicamente relacionada com o teor das conversas. Era parte integrante, portanto, do conceito do programa e não é aceitável que tenha sido suprimida. Além disso, e dada a marginalização de que a música tradicional tem sido objecto na Antena 1, aquelas secções de música tradicional/popular gravada funcionavam como uma das escassíssimas janelas para muito repertório de qualidade que nunca (ou muito raramente) vê a luz do éter nacional.
O segundo motivo de descontentamento é o horário em que o programa foi colocado: 07:00 da madrugada de sábado. Que Rui Pêgo nunca morreu de amores pelo "Lugar ao Sul" já todos sabíamos. Não tem é o direito de o sonegar aos muitos (potenciais) ouvintes para os quais aquele horário é de todo impraticável. O sr. Rui Pêgo devia saber que a audiência do programa não se restringe a padeiros e a transportadores de hortaliças para o Mercado da Ribeira (com o devido respeito por todas as pessoas que exercem essas actividades). Com efeito, o grosso dos ouvintes do programa é constituído por pessoas que entre as 7:00 e as 8:00 estão a dormir, recuperando de uma extenuante semana de trabalho. Calculo que o sr. Rui Pego, interpelado com esta questão, vá argumentar qualquer coisa do género: «Os ouvintes que não querem acordar à 07:00 de sábado tem sempre a alternativa do streaming ou do podcast». Infelizmente, para uma parte significativa dos rádio-ouvintes (por via hertziana), a internet não é uma alternativa, seja porque a não têm, seja porque não têm disponibilidade de tempo para estarem agarrados a um computador durante todo o tempo de emissão, seja porque não têm (ou não sabem lidar com) um leitor de MP3. Por conseguinte, os ouvintes nessas condições (e não só) prometem não se calar enquanto ao "Lugar ao Sul" não for dado um horário digno e razoável na grelha da Antena 1. O horário anterior (depois das 09:00) era perfeitamente aceitável.
Por último, a questão da acessibilidade ao acervo do programa. Sem prejuízo da edição de CDs coleccionáveis (como sugeriu Adelino Gomes) não se compreende que o histórico, na sua totalidade, não esteja disponível numa página on-line. Já o disse antes, e volto a afirmá-lo: há que aproveitar a internet como plataforma de acesso aos acervos áudio de cariz cultural e histórico que estão à guarda de entidades estatais por todos quantos neles estiverem interessados. Afinal de contas, a produção, o arquivamento e a conservação de tais acervos fonográficos foi (é) feita com dinheiros públicos e, como tal, não se pode negar aos cidadãos a oportunidade de os fruir.
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São os autores e os artistas quem cria a cultura. Entre esta e o público (potencialmente) fruidor há os comunicadores. Deve entender-se por comunicadores não os que se limitam a veicular, mais ou menos acrítica e burocraticamente, as notícias de eventos culturais mas os que reflectem e problematizam a matéria a eles subjacente, tornando-a mais facilmente apreensível e apetecível pelo grande público. Carlos Pinto Coelho foi o jornalista português – não é exagero afirmá-lo – que nas últimas duas décadas melhor soube desempenhar esse nobre mister de comunicar a cultura, de maneira cativante e apelativa, mas sempre na observância de rigorosos critérios de qualidade e bom gosto, nunca transigindo com o vulgar e o medíocre (talvez aqui radiquem algumas das incompreensões e injustiças de que foi vítima). Comecei a admirar e a tirar proveito dessa sua arte comunicacional com o diário televisivo "Acontece!" (entre 1994 e 2003, na RTP-2) e, depois do incompreensível e criminoso afastamento do seu autor da televisão pública por mão de Luís Marques (a mando de Morais Sarmento, ministro do governo de Durão Barroso), com o programa radiofónico "Agora... Acontece!", que vinha realizando desde 1998 e ultimamente era difundido por mais de 80 rádios locais de Portugal e ainda por estações de Espanha, Macau e Brasil.
Atendendo às partidas que coração já lhe pregara, outros, no seu lugar, teriam deixado de trabalhar. O seu elevado sentido de serviço público e a consciência de que o país muito perderia com tal atitude, impeliram-no a continuar no activo. Por isso, maior a dívida de gratidão de todos quantos apreciavam o seu trabalho e mais sentido o seu desaparecimento. Mas como a lei da morte não é passível de revogação, há que saber honrar e cultivar a sua memória. E uma das formas de o fazer é ouvindo as edições do "Agora... Acontece!" disponíveis no arquivo on-line da Rádio Universitária do Minho. Esse é um excelente testemunho do seu excercício, culto e inteligente, de bem entrevistar, e da atenção que sempre deu à boa música (de expressão) portuguesa e à poesia recitada, uma arte tão maltratada hoje em dia na rádio portuguesa.
Rendo-lhe a minha sentida homenagem, transcrevendo as palavras de um colega de ofício, que com ele privou, João Gobern:
«Por esta altura, já se recordou a sua biografia, já se lembraram os seus feitos: e o maior deles é mesmo ter assinado, durante quase uma década, um diário de resistência cultural numa TV habituada a franzir o sobrolho à cultura. Já sorrimos diante da memória do seu jeito pausado de dizer e de encadear frases e ideias num ritmo muito próprio. Tinha 66 anos e depois da machadada inexplicável que lhe foi dada por uns bárbaros que a História não vai recordar, mas também não chegou a condenar, parecia ter recuperado em pleno de dois enfartes. Voltara à rádio para continuar a falar de livros, de artes e ideias, sempre apoiados em pessoas para que o diálogo não acabasse e as palavras pudessem recuperar o valor real que os maus tratos lhes tinham roubado. Tinha projectos e propostas, algumas delas utópicas mas até por isso mais valiosas. Tinha agora regressado à RTP [Memória] para continuar à conversa do lado que mais falta parece fazer a uma terra que esquecendo os seus se alheia de si mesma. Depois de entrevistar o pintor Nadir Afonso, no programa de estreia, preparava-se para questionar o General Almeida Bruno, militar de Abril. E não fica mal no seu currículo a circunstância de estar a trabalhar naquilo que mais gostava quando o coração voltou a falhar, desta vez sem remédio. Jornalista, passou ao lado da advocacia, com escala pela imprensa. Foi na televisão que fez de tudo, passando inclusivamente pela direcção de programas da RTP. Mas a sua cara é a folha de rosto do "Acontece!", estupidamente interrompido por um ministro pugilista que sentenciou a necessidade de mudar quase tudo para que quase tudo ficasse na mesma.
Sem querer, houve duas memórias que emergiram. A mais velha terá uns quinze anos e junta numa sala acanhada da 5 de Outubro uma equipa de consultores do "Acontece!" – o José Rebelo, o António Carlos Carvalho, a Maria João Fernandes, o Nuno Henrique Luz e eu – a despejar sugestões, a defender as damas e os cavalheiros das nossas áreas e preferências. Ele, quase alheado. Até que de repente acaba o recreio: isto é bom, aquilo não funciona em televisão, isto vai precisar de uma abordagem especial. De repente, o programa já estava na cabeça dele e eram escassas as mudanças a partir do momento em que havia esse desenho mental. Depois, no Verão do ano passado, conseguiu numa óptima noite de tertúlia figueirense juntar-me ao meu pai [Ápio de Sottomayor] e deixar-nos horas à conversa sobre o jornalismo de hoje. Nunca tinha tido com o meu mestre de vida e de profissão um diálogo tão profundo como nessa ocasião. E percebo agora que será difícil de repetir algo de semelhante sem a ajuda e o estímulo do Carlos Pinto Coelho, que ainda por cima quando me telefonava, normalmente para me dar ralhetes, insistia em tratar-me por "meu rapaz". Eu achava graça. Agora não acho nada. Aquele abraço.» (João Gobern, in "Pano para Mangas" - "Conversa acabada.", 16.12.2010)
«Com o objectivo de homenagear José Afonso, incentivar a criação musical de raiz portuguesa e animar turística e culturalmente a cidade da Amadora, organizará a autarquia anualmente um Festival de Música Popular Portuguesa, o qual terá como ponto alto a atribuição do Prémio José Afonso.
O Prémio José Afonso destina-se a galardoar um álbum inédito editado durante o ano anterior ao da realização do Festival de Música Popular Portuguesa, cujos temas tenham como referência a Cultura e a História portuguesas, tal como a obra do autor de "Grândola, Vila Morena".»
Assim reza o regulamento do Prémio José Afonso, criado em 1988, pela Câmara Municipal da Amadora, era então presidente Orlando de Almeida, e vereador da Cultura e Turismo Fernando Pereira, dando seguimento a proposta do Sr. Júlio Murraças, o funcionário da edilidade que até 2005 teve a seu cargo a pré-selecção dos discos, a organização do festival e a direcção da revista "MPP".
Depois do episódio insólito ocorrido em 2006, em que o prémio não foi atribuído, não por falta de discos de qualidade editados no ano anterior (um dos quais "Faluas do Tejo", dos Madredeus, o grupo que, depois de Amália, mais fez pela difusão da música portuguesa além-fronteiras e que acabou por se extinguir sem nunca receber a distinção), mas devido a incompetência do executivo camarário na elaboração da lista sujeita à apreciação do júri, as coisas pareciam ter voltado a uma relativa normalidade. Em 2007, a Brigada Victor Jara seria a feliz contemplada, pelo álbum "Ceia Louca" (há muito que o histórico grupo de Coimbra era credor do prémio) e no ano seguinte sorriria a sorte ao grupo Frei Fado d'El Rei, pelo disco "Senhor Poeta: Um Tributo a José Afonso". Sábias e fora de questionamento ambas as decisões do júri.
Era expectável que no decurso de 2009 fosse anunciado o disco eleito do ano anterior. Estranhamente, isso não aconteceu. Não me parecendo normal o que se estava a passar, a 28 de Janeiro de 2010, tomei a iniciativa de escrever uma carta à Câmara Municipal da Amadora, solicitando um esclarecimento. Não obtive resposta. Apesar disso, ainda dei o benefício da dúvida às pessoas que na autarquia têm a seu cargo a gestão do processo do P.J.A., na esperança que entretanto surgisse uma solução, embora já fora de tempo. Puro engano! Chegámos a 30 de Novembro de 2010, portanto, a um mês de findar o ano, e – pasme-se! – ainda não se sabe qual o disco distinguido de 2008, quando o normal é que já se conhecesse o contemplado de 2009.
Resta saber se a vergonhosa situação a que se chegou se deve a pura e simples negligência dos srs. Joaquim Raposo e António Moreira (respectivamente, presidente da Câmara e vereador da Cultura) ou se tudo decorre de um propósito inconfessado de liquidar o Prémio José Afonso, o mais prestigiado galardão existente em Portugal para a música não erudita. Qualquer que seja a hipótese válida, a situação é deveras insustentável e não pode deixar de suscitar o vivo repúdio, em primeiro lugar, dos cidadãos e contribuintes que garantem os (imerecidos) vencimentos da dupla Raposo & Moreira e, em segundo lugar, de todas as pessoas que prezam a memória de José Afonso e cultivam a boa música popular portuguesa que a ele tanto deve.
Não conheci José Afonso, mas sou um grande admirador do seu legado poético-musical e tenho de lhe estar eternamente grato pelo inestimável contributo que deu, a partir dos anos 60, para o desenvolvimento da música popular portuguesa, como via alternativa ao nacional cançonetismo e ao pop-rock decalcado de grupos/intérpretes ingleses e americanos (o original é sempre melhor). É bom não esquecer que Fausto Bordalo Dias, Júlio Pereira, Janita Salomé e Trovante, entre outros, começaram a tocar/compor segundo os cânones estéticos anglo-americanos e foi justamente por influência de José Afonso que "mudaram a agulha" para a música de raiz portuguesa. Não tivesse existido o autor de "Cantares do Andarilho" e é quase certo que álbuns fundamentais do nosso património discográfico/musical como "Por Este Rio Acima", "Cavaquinho", "Braguesa", "Lavrar em Teu Peito" e "Baile no Bosque" nunca teriam sido produzidos.
Não posso, por isso, ficar passivo e calado quando vejo uma entidade suportada com dinheiro públicos amesquinhar (vilmente) a memória de José Afonso e votar ao desprezo a grande música popular portuguesa.
Convidados pelo novo Provedor do Ouvinte, Mário Figueiredo, os anteriores ocupantes do cargo, José Nuno Martins e Adelino Gomes, disseram os que lhe aprouve acerca dos seus magistérios e sobre o estado actual da rádio pública. Cumpre-me comentar duas afirmações que José Nuno Martins proferiu na edição do programa "Em Nome do Ouvinte", de 08.10.2010:
1. «O actual poder político continua a desprezar a rádio (com todas as letras)».
Não podia estar mais de acordo. Tal acontece porque na cabeça nos políticos há a ideia de que a rádio (ao contrário da televisão) não os faz ganhar (nem perder) eleições. Esquecem-se da importância social e cultural que a rádio ainda tem na sociedade portuguesa, como José Nuno Martins bem chamou a atenção. E eu espero que essa importância não diminua, apesar da tendência inexorável que é a absorção da rádio (assim como da televisão) pela internet. A meu ver, a grande revolução na rádio dar-se-á quando a internet chegar aos auto-rádios, pois é no automóvel que a rádio é hoje mais ouvida. Quando isso acontecer – e não deve faltar muito – o leque de opções de escuta abrir-se-á imenso, mesmo considerando apenas as rádios feitas por portugueses (no território nacional ou não). Não mais os ouvintes automobilistas ficarão condicionados ao espectro muito limitado de estações hertzianas (de conteúdos musicais bastante parecidos) sintonizáveis na área onde circulam, podendo passar a ouvir toda e qualquer estação com emissão on-line. Essa será a grande prova de fogo para as rádios nacionais, acomodadas que estão no seu marasmo, por falta de alternativas ao alcance dos ouvintes automobilistas (que não seja o CD-áudio ou, eventualmente, ficheiros MP3).
2. «A Antena 2 – felizmente – mudou muito desde essa altura.» [quando José Nuno Martins cessou as funções de Provedor do Ouvinte].
Com o devido respeito por JNM, não subscrevo esta sua opinião. A que mudanças se refere em concreto José Nuno Martins? À alteração do horário do programa de música étnica "Raízes" que migrou da hora de almoço para depois da meia-noite? Não vejo mais nenhuma mudança e mesmo aquela não a posso considerar significativa, antes um pequeno ajuste na grelha sem mexer no essencial. Faz lembrar a célebre frase do escritor Tomasi di Lampedusa (no romance "O Leopardo"): «É preciso mudar alguma coisa para que tudo continue na mesma».
Os ataques à Antena 2 começaram em 2003, pela mão do administrador Luís Marques, e a grande machadada foi dada depois da saída do director de programas, João Pereira Bastos, em meados de 2005, quando mandaram às urtigas a grelha que ele havia delineado. De então para cá, a desqualificação do serviço prestado pela antena (supostamente) cultural tem-se mantido: continua a praga dos 'spots' e 'jingles' sucessivamente repetidos de hora a hora (às vezes menos), a pôr à prova a paciência e a sanidade mental dos ouvintes mais fiéis; continuam ao microfone as tais vozinhas com o seu português de trazer por casa, atabalhoado e repleto de erros de sintaxe e de prosódia; continua a não haver espaços culturais não musicais (poesia, ficção romanesca, História, Antropologia, artes plásticas, ciência, ciclos temáticos, etc.), em clamoroso incumprimento do estipulado no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão; continua a passagem única de boa parte dos programas de autor, quando o mais elementar bom-senso recomenda que todos os programas de autor (que representam um investimento acrescido da estação e que como tal deve ser potenciado ao máximo) tenham duas transmissões em turnos distintos, de modo a ficarem acessíveis a públicos com disponibilidades de audição diferentes; continua a encomendar-se alguns desses programas a indivíduos que deixam muito a desejar, sabendo-se que em Portugal há pessoas muito mais bem preparadas nos assuntos abordados; continua a apostar-se em programas de música pop, logo de muito discutível interesse para a esmagadora maioria dos ouvintes da Antena 2; continua a insistir-se na ideia de que o melhor acompanhamento sonoro para a hora de jantar é, todos os dias, jazz (digo isto perfeitamente à vontade pois até gosto de algum jazz, mas dado que não ingiro todos os dias a mesma iguaria gastronómica, penso que auditivamente também devia ter uma ementa variada – em minha casa, quando se está à mesa, não se vê televisão: ouve-se rádio ou CDs); tirando os espaços consagrados ao jazz, à música electrónica de ambientes, à música pop, à música ética e à música contemporânea, continua a não haver um conceito de grelha/programação em que o ouvinte pudesse saber de antemão o que ouvir – música sacra, música coral profana, canção/lied, música coral-sinfónica, música sinfónica, música concertante, bailado e música de cena, música de câmara, instrumentos solistas, obras e/ou intérpretes portugueses, perfil de um autor, etc. – preferindo-se os espaços alargados de trechos de música indiferenciada escolhidos 'ad hoc', como se o público da Antena 2 fosse uma massa amorfa de gostos indistintos ("burros que comem toda a palha que se lhes der").
Ao contrário de outros ouvintes que evocam a antiga Lisboa 2, eu não o faço porque não sou desse tempo. Falta-me o conhecimento de causa para ajuizar com fundamento. Em todo o caso, quando se ouve registos da época (gravações de concertos e edições do programa "O Gosto pela Música") é facilmente constatável que havia um cuidado na locução e no uso da língua portuguesa que não existe actualmente na Antena 2 (não por faltarem no país pessoas cultas e com bom domínio da língua, mas por erros crassos na escolha/admissão do pessoal). Relativamente à oferta musical, creio que não me reveria por inteiro na antiga Lisboa 2, porque devia estar monopolizada pela produção dos períodos clássico, romântico, ultra-romântico, impressionista e neoclássico. A música antiga (barroca, maneirista, renascentista e medieval) devia ter um peso bastante residual – Bach, Haendel e pouco mais – e ainda por cima tocada por orquestras românticas, já que o movimento da nova música antiga iniciado na Europa Central e do Norte, nos anos 60, por Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Frans Brüggen, Alfred Deller, Anner Bylsma, os irmãos Kuijken e pela Schola Cantorum Basiliensis (onde estudaram Jordi Savall, Montserrat Figueras, Hopkinson Smith e o nosso Manuel Morais) só chegaria a Portugal vinte e tal anos depois. Ouvir Bach ou Vivaldi à maneira de Herbert von Karajan é algo que hoje pouca gente suportaria.
O meu termo de comparação é com a Antena 2 do consulado de João Pereira Bastos. Era essa Antena 2 que me dava prazer ouvir e à qual devo muito do meu enriquecimento cultural (musical e não só). A actual Antena 2 mais do que não me proporcionar essa gratificação espiritual constitui uma fonte de desconforto auditivo. Ressalvo, naturalmente, alguns (poucos) programas de autor: "Teatro Imaginário" (de Eduardo Street), "Questões de Moral" (de Joel Costa), "Em Sintonia com António Cartaxo", "Musica Aeterna" (de João Chambers) e "A Força das Coisas" (de Luís Caetano). Em termos de escuta continuada, a Antena 2 gizada pela dupla Rui Pêgo/João Almeida é um produto impróprio para consumo. Sei que muitos mais ouvintes partilham desta opinião e garanto que não são apenas os nostálgicos da antiga Lisboa 2.
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«Francisco Ribeiro era um músico discreto em palco. Apesar do balanço que conseguiu imprimir ao violoncelo, que estudou e que o acompanhou por toda a carreira, agora confirmada como demasiado curta, e que chegou para abrir com força e convicção o primeiro êxito dos Madredeus – "A Vaca de Fogo" –, era esse mesmo violoncelo que o obrigava à quietude, embora se percebesse que vibrava por inteiro com a música. O contraponto surgia quando soltava o vozeirão: a primeira vez que o vi e ouvi cantar foi curiosamente num concerto da Sétima Legião, em que foi convidado ao lado da sua parceira de projecto e amiga Teresa Salgueiro. Cantaram "Ascensão" [in "De um Tempo Ausente", 1989] e, sem margem de erro para a memória distante, foi isso mesmo que provocaram no público presente, maravilhado com aquele contraste vocal. Conheci-o em 1987 quando se viveram os primeiros dias da Madredeus, grupo de cinco que se propunha resgatar alguma simplicidade e alguma solenidade à música portuguesa. O trilho foi suado mas o caminho acabou por tornar-se realidade: um sonho feito verdade. Um teclado, um acordeão, uma guitarra clássica, um violoncelo e uma voz acabaram por mostrar como a portugalidade se fazia reconhecer, até lá fora, quando soava autêntica, genuína e feliz. Os discos foram-se sucedendo: "Existir" [1990], "Lisboa" [1992], "O Espírito da Paz" [1994] e "Ainda" [1995] valeram ao músico discreto aquilo que ele mais tarde denominou o seu período de "rock'n'roll e muita euforia". Os Madredeus começaram a mudar: primeiro, saiu Rodrigo Leão e entraram Carlos Maria Trindade e José Peixoto; depois, naquele que foi considerado o annus horribilis do grupo – 1996 – partiram o acordeonista Gabriel Gomes e o próprio violoncelista Francisco Ribeiro. Após um período de incerteza, soube-se que se tinha afastado das actividades públicas para relançar e concluir em Inglaterra os seus estudos académicos. Com algumas colaborações pelo meio, voltou a Portugal em 2006 para em Dezembro do ano passado lançar um meritório projecto pessoal que infelizmente passou despercebido. Chamou-se "Desiderata: A Junção do Bem" e contou com as colaborações da Orquestra Nacional do Porto, das cantoras Filipa Pais, Natália Casanova e Tanya Tagaq, do fadista José Perdigão e ainda do seu antigo companheiro José Peixoto. Inspirado num poema do americano Max Ehrmann, destacava os seus primeiros versos: "Vai placidamente no meio do barulho e da confusão, lembrando-te de quanta paz existe no silêncio.". Sinceramente, não descubro melhor forma de me despedir do Francisco que morreu ontem levado por um cancro no fígado. Talvez agora possa ser ouvido o seu disco, vibrante e discreto como quem o fez.» (João Gobern, in "Pano para Mangas" - "A paz do silêncio", 15.09.2010)
Em complemento às palavras de João Gobern, é pertinente referir um trabalho onde a mão de Francisco Ribeiro foi marcante: o álbum "Ave Mundi Luminar" (1993), de Rodrigo Leão & Vox Ensemble. Além de assinar quatro músicas em parceria com Rodrigo Leão, Francisco Ribeiro foi o responsável pelos arranjos e dirigiu o agrupamento de câmara Vox Ensemble, que ele próprio também integrou (violoncelo e voz). O disco obteve um retumbante sucesso internacional e não será exagero afirmar-se que muito o deveu a Francisco Ribeiro.
O seu único álbum em nome próprio, "Desiderata: A Junção do Bem", editado em Dezembro de 2009, segue e aprofunda o conceito estético de "Ave Mundi Luminar" e nessa medida poderá até considerar-se o segundo capítulo desse trabalho. Teve foi sorte diferente junto do público e para tal muito contribuiu a parca divulgação que teve nos media audiovisuais. Na rádio pública, foi completamente ignorado: não foi Disco Antena 1 (ao invés do que seria razoável e lógico que acontecesse), nunca figurou na 'playlist' assim como não mereceu a mais pequena atenção em programas musicais de autor, como "Vozes da Lusofonia" e "Alma Lusa" (edição alargada). É verdade que não estamos em presença de música de consumo imediato e de fácil agrado para públicos de sensibilidade embotada, mas jamais o critério da facilidade ou do imediatismo devia nortear uma estação cuja missão é prestar serviço público. Porque a razão da existência da rádio pública é justamente a de dar voz aos artistas de qualidade que as rádios privadas enjeitam, devido à contingência de dependerem da publicidade, o mesmo é dizer dos anunciantes que querem grandes audiências.
Mas se o disco de Francisco Ribeiro e outros de real valia foram/são criminosamente desprezados pela estação onde deviam ter tratamento preferencial (deixo isto à consideração de quem de direito), não o foram/são por um homem chamado Luís Rei, no programa "Terra Pura". De facto, uma das edições, em Janeiro de 2010, foi integralmente dedicada ao CD "Desiderata: A Junção do Bem" e nela Francisco Ribeiro teve a oportunidade de expor as ideias que estiveram na sua concepção, possibilitando aos ouvintes uma percepção mas esclarecida e fundamentada do seu pensamento artístico. Isto, sim, é verdadeiro serviço público! Nessa conformidade, o programa merecia uma amplitude de audiência muito maior do que a que consegue alcançar com as três rádios locais que o transmitem: Rádio Zero (Lisboa), Rádio Universitária do Minho (Braga) e Rádio Miróbriga (Santiago do Cacém). Tal como fiz a respeito do "Agora...Acontece!", daqui lanço um repto aos directores das rádios locais e regionais deste país: não vos parece que a grelha da vossa estação ficaria substancialmente enriquecida se incluísse o programa "Terra Pura"? Então, vá! Dêem às populações que servem a oportunidade de ouvirem um programa de inegável interesse musical e cultural. Desse modo também darão ao Luís Rei um incentivo acrescido para continuar o seu abnegado labor de divulgação das "novas e antigas raízes da música tradicional".
Para ouvir/descarregar a edição do "Terra Pura" com a entrevista de Francisco Ribeiro, é favor aceder à página respectiva.
Alguns temas do disco também podem ser ouvidos no MySpace: http://www.myspace.com/desiderataajuncaodobem
Finda a temporada de Verão dos concertos Antena 1, com realização e apresentação de Ana Sofia Carvalhêda, há que fazer um balanço. Começo por dizer que a qualidade genérica dos concertos não decepcionou, se exceptuarmos três ou quatro casos muito abaixo da média. O meu reparo prende-se com outras duas questões que considero muito importantes e não deviam ser descuradas numa estação de rádio nacional e generalista:
1. Linguagens musicais contempladas.
O fado de Lisboa foi o género largamente privilegiado e quase não se ouviu música tradicional/folk. Só a Ronda dos Quatro Caminhos e Júlio Pereira marcaram presença ao longo de um mês de concertos. É muito pouco. E não foi certamente por falta de intérpretes dentro dessa vertente musical e de concertos que tal aconteceu. Talvez na cidade de Lisboa não ocorram, por razões algo misteriosas (quiçá por falta de sensibilidade dos programadores), muitos concertos de música tradicional/folk mas na chamada região metropolitana – designadamente em Sintra (Centro Cultural Olga Cadaval) e Almada (Fórum Romeu Correia e Auditório Fernando Lopes-Graça) – a situação é diferente. O mesmo direi relativamente ao resto do país, designadamente no Porto e em Coimbra. E aqui passo ao ponto seguinte.
2. Área geográfica de gravação dos concertos.
Praticamente todos os concertos transmitidos pela Antena 1 foram gravados em salas ou recintos de Lisboa – CCB, Palácio de Belém, Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Teatro Municipal de São Luiz, Cinema São Jorge. Que me lembre, apenas um concerto – o do fadista Duarte – foi gravado fora, em Évora, mais concretamente no Teatro Garcia de Resende. Não é aceitável que, tendo o país uma boa rede de cine-teatros e auditórios, de norte a sul, onde decorrem espectáculos musicais de excelente qualidade e em condições acústicas em tudo idênticas (nalguns casos, superiores) às das salas/recintos lisboetas citados, a rádio pública ignore esse facto. A Antena 1 é uma estação nacional e não uma rádio local de Lisboa, de acordo com o respectivo estatuto aprovado pelos órgãos de soberania da República. Nessa conformidade, tem a obrigação de tomar em consideração a realidade cultural, no caso a musical, do todo nacional, incluindo obviamente as Regiões Autónomas dos Açores e da Madeira.
Há cerca de ano e meio, em mensagem dirigida à Provedoria do Ouvinte, o musicólogo e professor universitário Mário Vieira de Carvalho chamava a atenção para o facto de importantes concertos e recitais de música clássica/erudita ocorridos em Portugal não serem gravados pela Antena 2, ficando assim o arquivo sonoro sem registos desses eventos para usufruto dos ouvintes (os actuais e os vindouros). A este problema, há agora que acrescentar outro, não menos grave: a dotação orçamental de zero euros consignada à Antena 2 para a aquisição de novos discos.
Quer dizer: os mandantes da Rádio e Televisão de Portugal decidiram que não são necessárias mais edições discográficas de música erudita? Se assim o entendem é porque não percebem patavina do assunto, nem se dignaram consultar quem os pudesse esclarecer. A triste realidade é que a discoteca da RDP tem ainda muitas lacunas, sobretudo no domínio da música antiga. Se me disserem que não faz sentido comprar a enésima gravação das "Quatro Estações" (de Vivaldi) ou da "Quinta Sinfonia" (de Beethoven), que algum chinês ou japonês decidiu fazer, eu aceito de bom grado esse argumento. Mas importa ter em atenção que estão constantemente a sair discos com obras nunca antes gravadas, muitos dos quais largamente elogiados pela crítica especializada e distinguidos com prémios de prestígio (Diapason d’Or, etc.). E quanto a esses, qualquer que seja a nacionalidade do compositor ou intérprete, constitui uma falha grave que não sejam adquiridos pela rádio pública.
No que respeita aos compositores e intérpretes portugueses de reconhecido mérito (independentemente da editora ser nacional ou estrangeira), é de todo o interesse que a emissora do Estado possua uma cópia de todos os seus registos fonográficos. A RDP tem a obrigação moral e histórica de ser a depositária de todas as gravações de obras escritas ou tocadas por cidadãos nacionais detentores de talento. Cito, a título de exemplo (um entre muitos que poderia apontar), o caso do pianista português Artur Pizarro, que publicou recentemente um álbum com a suite "Ibéria" (de Isaac Albéniz) e as "Goyescas" (de Enrique Granados), um dos eleitos da BBC Music Magazine.
Será que os actuais locatários da direcção da Antena 2 e da administração da R.T.P. acham que mesmo tratando-se de Artur Pizarro, o mais distinto aluno de Sequeira Costa e que vem fazendo uma digníssima carreira internacional, não é importante para o serviço público possuir e divulgar os seus discos? Ou será que julgam que cabe às editoras oferecerem as suas edições à R.T.P., a troco de uma hipotética divulgação? Sendo esta a prática corrente na Antena 1, devem pensar que vale o mesmo para a Antena 2: «Se nos enviarem os discos, nós poderemos – eventualmente – divulgá-los; se não no-los enviarem, escusam de alimentar a ilusão de que os iremos comprar.»
Em contraste com esta visão tacanha e ao arrepio das obrigações culturais do serviço público, constata-se que há dinheiro a rodos para dar aos inaudíveis Pedro Malaquias, Paulo Alves Guerra e Raul Mesquita (já são três as séries "apresentadas" por tão "insigne autor" na Antena 2) e para esbanjar em futebóis, com a consequente carga onerosa para os contribuintes (cf. Mundial de Futebol: RTP não chora miséria II). Isto para não falar nos vencimentos verdadeiramente obscenos e afrontosos para os contribuintes que alguns indivíduos estão a auferir da endividada R.T.P., a começar pelo sr. Guilherme Costa com os seus 250 040,00€ anuais (cf. semanário "Sol", de 22.01.2010). A décima parte daquele montante chegaria e sobraria – calculo eu – para comprar todos os discos importantes de música erudita editados em cada ano.
Muito antes do compositor italiano Azio Corghi (*), se ter debruçado sobre a produção romanesca e teatral de José Saramago, já a obra poética do autor – que compreende os livros "Os Poemas Possíveis" (Portugália, 1966), "Provavelmente Alegria" (Livros Horizonte, 1970) e "O Ano de 1993" (Futura, 1975) – merecera a atenção de grandes compositores e intérpretes portugueses. Luís Cília, durante o exílio em França, foi o primeiro a musicar e a cantar a poesia de Saramago, na trilogia "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours" (1967, 1969 e 1971), portanto, cerca de três décadas antes da atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Seguiu-se Manuel Freire, com os poemas "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta" (1971), "Ouvindo Beethoven" (1973) e "Dia Não" (1978), que viriam a ser regravados com novos arranjos, em 1999, no álbum "As Canções Possíveis". Com os outros nove poemas que completam o alinhamento deste CD, Manuel Freire afirmou-se o mais dedicado intérprete da poesia de José Saramago, e quiçá o que melhor a cantou.
Embora de forma mais avulsa, também Pedro Barroso, Carlos do Carmo, Mísia, Amélia Muge, Fernando Tordo e Marco Oliveira juntaram os seus nomes à galeria dos que deram voz cantada aos versos do grande escritor.
Aqui fica o rol das versões conhecidas, perfazendo as três dezenas, considerando-se as regravações que alguns poemas tiveram. É muito provável que a lista esteja incompleta e, nessa conformidade, os leitores ficam convidados a indicar as eventuais ausências (contacto: ajferreira74@gmail.com).
A ordem é cronológica e alfabética (no caso de temas pertencentes ao mesmo disco).
1. Contracanto – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967)
2. Dia Não – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 1, Moshé-Naim, 1967; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
3. Há-de haver – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
4. Não me peçam razões – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 2, Moshé-Naim, 1969; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
5. Poema à boca fechada – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971)
6. Venham leis – Luís Cília (in LP "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", vol. 3, Moshé-Naim, 1971; CD "La Poésie Portugaise de Nos Jours et de Toujours", Moshé-Naim, 1996)
7. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in EP "Dulcineia", Zip Zip, 1971; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
8. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in EP "Abaixo D. Quixote", Sassetti, 1973; CD "Pedra Filosofal", Strauss, 1993, CNM, 2004)
9. Dia Não – Manuel Freire (in LP "Devolta", Diapasão/Lamiré, 1978)
10. Nasce Afrodite Amor Nasce o Teu Corpo – Pedro Barroso (in LP "Água Mole em Pedra Dura", Sassetti, 1978; CD "Cartas a Portugal", Strauss, 2000)
11. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in LP "Mais do Que Amor é Amar", Philips/Polygram, 1986, reed. Philips/Polygram, 1996)
12. Fado Adivinha – Mísia (in CD "Fado", BMG Ariola, 1993)
13. Nenhuma Estrela Caiu – Mísia (in CD "Garras dos Sentidos", Erato, 1998)
14. Aprendamos o Rito – Carlos do Carmo (in CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira", EMI-VC, 1999)
15. A Ponte – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
16. Circo – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
17. Dia Não – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
18. Dispostos em Cruz – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
19. É Tão Fundo o Silêncio – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
20. Fala do Velho do Restelo ao Astronauta – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
21. Jogo do Lenço – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
22. Nem Sempre a Mesma Rima – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
23. Ouvindo Beethoven – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
24. Retrato do Poeta Quando Jovem – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
25. Tenho a Alma Queimada – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
26. Tenho um Irmão Siamês – Manuel Freire (in CD "As Canções Possíveis: Manuel Freire canta José Saramago", Editorial Caminho, 1999, reed. Ovação, 2005)
27. Se Não Tenho Outra Voz – Amélia Muge (in CD "A Monte", Vachier & Associados, 2002)
28. Fado Adivinha II – Mísia (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/EMI-VC, 2005)
29. Circo – Fernando Tordo (in CD "Tributo a los Laureados Nobel", Factoría Autor, 2005)
30. Retrato do Poeta Quando Jovem – Marco Oliveira (in CD "Retrato", HM Música, 2008)
A estas versões cantadas, acrescentam-se as gravações de poesia dita/recitada. Além dos espécimes presentes em edições discográficas, como é o caso do poema "Circo", recitado por Vítor de Sousa no CD "No Palco da Poesia" (Ovação, 1995, reed. 2000), há que considerar os registos existentes no arquivo sonoro da RDP, na voz de António Cardoso Pinto, Paulo Rato e outros.
Sem prejuízo da transmissão de excertos de entrevistas de José Saramago, era expectável e desejável que a direcção de programas da Antena 1, nos dias em que Portugal se despediu do seu (primeiro e único, até agora) Nobel da Literatura, deitasse mão aos seus poemas – os cantados e os recitados – e os desse a ouvir, se não na íntegra, numa boa parte. Mas não. Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos não tinham conhecimento da existência de tão importante acervo fonográfico? Se não tinham, podiam ter-se dignado perguntar a quem os soubesse informar. Enfim... mais um triste episódio que põe a nu as gritantes deficiências que se vêm verificando no serviço público de radiodifusão.
(*) Azio Corghi compôs as seguintes obras, baseadas em livros/textos de José Saramago: "Blimunda" (1989 - ópera, a partir do romance "Memorial do Convento"); "Divara" (1993 - ópera, a partir da peça "In Nomine Dei"); "La Morte di Lazzaro" (1995 - cantata dramática); "Cruci-Verba" (2001 - para voz recitante e orquestra, a partir do romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo"); "De Paz e de Guerra" (2002 - cantata para coro e orquestra); "Il Dissoluto Assolto" (2005 - ópera, a partir da peça "Don Giovanni ou o Dissoluto Absolvido").
Em Portugal, Jorge Salgueiro é autor de "Ensaio sobre a Cegueira: um Requiem pela Humanidade" (2004 - ed. Tradisom, 2005), composto para a adaptação dramática do romance "Ensaio sobre a Cegueira", levada à cena pela companhia de teatro "O Bando", em co-produção com o Teatro Nacional de São João (Porto).
Ouvi com atenção e interesse as edições do programa "Em Nome do Ouvinte" consagradas à 'playlist' da Antena 1 e, findo o ciclo, gostaria de tecer algumas considerações a respeito de alguns pontos abordados.
Começo por concordar com o Provedor do Ouvinte, Sr. Adelino Gomes, quando avança a ideia de um sistema híbrido, não pugnando pela abolição 'playlist' mas recomendando o desejável reforço da programação musical de autor que, actualmente, não tem nem o peso nem a visibilidade que devia ter na rádio pública. O ideal seria a oferta musical do serviço público resultar integralmente da selecção dos realizadores, mas atendendo às alterações que a rádio sofreu nos últimos dez/quinze anos em que realizadores cultos e bons conhecedores de repertório foram despedidos (ou colocados na prateleira) e substituídos pelos chamados radialistas de gostos vulgares e corriqueiros, entre ter tais radialistas a escolher a música para preencher os espaços que apresentam e uma 'playlist' elaborada por um colégio de sábios com sensibilidades musicais diversas mas sempre de apurado bom gosto eu não hesito em optar pela última solução. De facto, o grande problema da 'playlist' da Antena 1 é ter estado (e continuar a estar) nas mãos de uma única pessoa que por maior ecletismo de gostos musicais que tenha (que não me parece ser o caso de José Mariño, devo confessar) nunca garante satisfatoriamente o trinómio "variedade – abrangência – qualidade" que muito a propósito o Sr. Adelino Gomes enunciou. Em Setembro de 2005, em carta que dirigi ao então editor de 'playlist' Rui Santos e ao seu chefe Rui Pêgo (ainda não havia Provedor do Ouvinte), tive o ensejo de lhes sugerir que, para a constituição da 'playlist', solicitassem a colaboração dos realizadores da casa mais qualificados nas diferentes áreas – Edgar Canelas e Armando Carvalhêda (para a música portuguesa de raiz), Luís Filipe Barros (para a música anglo-americana), José Nuno Martins (para a música latina), Raquel Bulha (para as músicas do mundo) e José Duarte (para o jazz). Reparo agora que me esqueci de referir António Cartaxo (para a música clássica). Não, a música clássica não está aqui a mais, pois sou de opinião que nas 'playlists' da estação pública a chamada música erudita tem perfeito cabimento, sem prejuízo da existência de apontamentos como "As Grandes Músicas". É óbvio que não se iria pôr nas 'playlists' de canais generalistas obras de grande envergadura (como uma sinfonia de Mahler ou uma ópera de Wagner), mas com peças e/ou andamentos curtos, de fácil audição, não duvido que a oferta musical ficaria com uma acrescida qualidade. A educação do gosto e o alargamento de horizontes musicais dos ouvintes também passam por aí, e o serviço público de rádio tem nesse capítulo uma particular obrigação. Eu próprio estou inteiramente disponível para enviar à direcção de programas uma lista de centenas de temas (recentes e menos recentes), sobretudo nas áreas da música portuguesa, anglo-americana e clássica, para que a 'playlist' da Antena 1 possa dar o salto qualitativo de que tanto precisa. E não peço qualquer compensação pecuniária: faço-o por amor à boa música e por entender, enquanto contribuinte e ouvinte, que a rádio de todos nós, pelo menos na área musical, está a prestar um serviço muito deficiente.
No Outono de 2006, José Nuno Martins, quando tratou da questão da 'playlist' da Antena 1, se bem me lembro, teve o cuidado de frisar a importância da selecção musical ter a assinatura de várias pessoas, com sensibilidades e mundividências diferentes, por forma a alargar o arco estético e estilístico do repertório facultado à audiência. Rui Pêgo limitou-se a fazer orelhas moucas a essa avisada recomendação e, com o autismo e a caturrice que lhe conhecemos, continuou teimosamente a seguir o mesmo modelo. Com cinco anos que já leva à frente da direcção de programas, parece não ter ainda percebido que a 'playlist' de uma estação de serviço público não se pode pautar pela mesma formatação de uma rádio privada, do tipo RFM (como um ouvinte defendeu, quiçá por encomenda de alguém da direcção da RDP ou de algum interesse obscuro). Mas quanto a isso teremos de pedir responsabilidades a quem tem nas suas mãos o poder de o substituir e, vá-se lá saber porquê, não o faz. Já agora, como explicar a recusa de Rui Pêgo, enquanto cabeça da direcção de programas, em dar as devidas explicações ao Sr. Provedor sobre a 'playlist' e se ter escudado atrás dos seus adjuntos. Sem prejuízo dos editores de 'playlist' (o anterior e o actual) se pronunciarem, pareceu-me de muito mau tom o chefe ter-se remetido ao silêncio, como se tudo aquilo nada tivesse a ver com ele. Só posso interpretar essa atitude como um claro sinal de desconsideração, em primeiro lugar, pela pessoa Adelino Gomes e, sem segundo lugar, pela figura institucional Provedor do Ouvinte.
Como já tive oportunidade de afirmar, nem todos os CDs que aparecem nas lojas com o autocolante "Disco Antena 1" são de indiscutível qualidade e seria importante averiguar o porquê de discos medianos e vulgares merecerem tal distinção enquanto outros de qualidade superior serem ignorados. Eu poderia apresentar aqui uma boa lista, mas para não ser fastidioso, e em complemento ao rol que deixei no texto Discos Antena 1 (II), escrito em Novembro passado, cito apenas mais cinco, todos lançados depois de Agosto de 2009: "Ao Vivo", de Eduardo Ramos (Ed. de Autor); "Uma Autora, 202 Canções", de Amélia Muge (ed. Carácter); "Cruzes, Canhoto!", de Toque de Caixa (ed. Ocarina); "Guia", de António Zambujo (ed. World Village/Harmonia Mundi); e "Cancionário", de Ricardo Parreira (ed. HM Música). Acresce que todos estão excluídos da 'playlist' e, por curiosidade, nenhum deles tem a chancela das editoras dominantes no mercado nacional. Eu pergunto: todas estas coincidências são casuais? É verdade que alguns daqueles discos (não todos) passaram momentaneamente nas rubricas "Cantos da Casa" e "Alma Lusa", mas tal não devia obstar a que tivessem outra visibilidade na rádio pública. E tal visibilidade, sem prejuízo de receberem a referida distinção ainda que bastante desacreditada, seria alcançada se lhes fosse dada a dignidade de figurarem na 'playlist'. Mas o cúmulo da bizarria é o facto de Discos Antena 1 (e não são tão poucos quanto isso) ficarem de fora da 'playlist', como muito bem lembrou o Sr. Provedor. Dá a ideia de que a etiqueta "Disco Antena 1" serve mais para disfarçar, para inglês ver, porque no fundo não são aqueles os que mais interessa promover. A direcção de programas até poderá alegar: «Vejam a lista dos Discos Antena 1! Como é que se pode dizer que a rádio pública não presta atenção à música portuguesa de qualidade?» A verdade nua e crua, porém, é que os Discos Antena 1, na sua maioria, apenas passam durante uma semana, circunstância que os deixa imensamente prejudicados em comparação com os tais discos/artistas que, mesmo não ostentando o dístico, são massivamente rodados na 'playlist' durante meses seguidos.
Ricardo Soares disse que o fado ao passar quatro vezes por dia (na rubrica "Alma Lusa") fica em vantagem relativamente a qualquer canção pop, que alegadamente roda no máximo duas vezes, no mesmo período. Este argumento além de falacioso não é sério. Em primeiro lugar, entre as 00:00 e as 24:00h, não é o mesmo fado que roda quatro vezes: são dois fados que passam duas vezes cada um. Em segundo lugar, é completamente abstruso e desonesto colocar no mesmo plano de comparação um género musical inteiro, com múltiplos e variados artistas, e uma canção de outro género, no caso música pop. Com efeito, não é pelo facto de haver quatro passagens de fado por dia (correspondendo a dois espécimes/artistas) que o deixa mais bem representado que a música pop. Afinal de contas, quantas passagens de música pop se dão, em média, em cada ciclo de 24 horas? Mesmo sem fazer uma monitorização continuada, e descontando os programas/rubricas de autor e espaços não musicais (noticiários, programas de informação e de desporto, etc.), a minha estimativa aponta para cerca de 65 (não considerando a música estrangeira). Então, será razoável comparar 4 passagens de fado com 65 de música pop? E qual é a frequência de aparição em antena de intérpretes de um e de outro género? Um fadista aparece de tempos a tempos, geralmente com intervalos de vários meses, mas um artista pop pode passar todos os dias. Não há comparação possível. E com que argumento a música tradicional tem apenas duas passagens, ou seja, metade das do fado? O fado é de Lisboa e de Coimbra; a música tradicional é do resto do país. Será que até neste capítulo ainda continua válida a asserção queiroziana "Portugal é Lisboa, o resto é paisagem!"?
E se a música tradicional ou de inspiração tradicional vem sendo flagrantemente marginalizada, o que jamais poderei aceitar na rádio do Estado, justamente por estar em causa uma das vertentes da nossa identidade cultural, não deixa de ser também verdade que os grandes autores/compositores/intérpretes (vulgo, cantautores) se não estão de todo banidos da 'playlist', a sua presença é muito discreta e rarefeita. José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias e José Mário Branco até podem passar de tempos a tempos (quase sempre com o mesmo tema), mas para mim é claro que não estão representados em conformidade com a importância e extensão das respectivas obras. No caso particular de Fausto e de José Mário Branco, nada justifica que a escolha dos temas recaia sempre no repertório mais antigo. Como muito bem disse o Sr. Provedor, estamos em presença de dois artistas ainda em actividade e que têm nas suas discografias álbuns que não são propriamente vetustos. Fausto editou em 2003 "A Ópera Mágica do Cantor Maldito" e José Mário Branco publicou no ano seguinte "Resistir é Vencer". Pois nenhum destes trabalhos mereceu a atenção de Ricardo Soares, nem está presentemente a merecer da parte de José Mariño. E Manuel Freire? Totalmente silenciado! E nem precisavam de pegar na "Pedra Filosofal" ou noutra balada dos anos 70, ainda que uma vez por outra pudessem passar, pensando no público que com elas tomou contacto na época e também no auditório mais jovem, ao qual não se pode negar a oportunidade de as conhecer. O ainda presidente da SPA gravou há não muitos anos dois belos discos – "As Canções Possíveis" (1999) e "Manuel Freire Canta Nemésio" (2008). E Amélia Muge, que tem uma discografia de alto quilate produzida dos anos 90 para cá, mas que também não figura na 'playlist' da Antena 1? A lista continuaria por aí fora...
Para que não prevaleça a ideia de que apenas tenho olhos para os veteranos, aproveito para citar alguns artistas/grupos muito mais novos, com discos editados mas completamente ausentes da 'playlist': Filipa Pais, Teresa Gentil, Helena Oliveira, Carla Pires, Célia Barroca, Joana Amendoeira, Maria Ana Bobone, Raquel Peters, António Zambujo, Ricardo Ribeiro, Pedro Jóia, Manuel d'Oliveira, Joel Xavier, Ricardo Parreira, Luísa Amaro, Realejo, Danças Ocultas, Fol&ar, Lufa Lufa, Trilhos, Galandum Galundaina, Lenga Lenga, Mandrágora, At-Tambur, Dazkarieh, Uxu Kalhus, Mu, Monte Lunai, Gnomon, Roncos do Diabo, Roldana Folk, Lúmen, Pé na Terra, Diabo a Sete, César Prata, Assobio, João Filipe, Banda Futrica, A Barca dos Castiços, Stockholm Lisboa Project, Musicalbi, Segue-me à Capela...
Relativamente à repartição do bolo da 'playlist' pelas companhias discográficas, registo com agrado que a análise feita pelo Sr. Viriato Teles venha confirmar que efectivamente a parte de leão está nas mãos das quatro que havia referido – EMI, Universal, Sony/BMG, Farol. A cifra de 80% que apontei é meramente impressiva mas mesmo que os dados estatísticos não coincidam rigorosamente com ela, a margem de erro não será significativa. Se àquelas quatro editoras, juntarmos a Som Livre/Iplay no que respeita a edições próprias (excluindo, portanto, as reedições do catálogo da Valentim de Carvalho), a percentagem subirá para 85 a 90 %. Aqui considero como parâmetro de aferição o número de passagens, porque, como se sabe, nem todos os temas presentes na 'playlist' passam com a mesma frequência. Pelo que me apercebi, os dados que o Sr. Viriato Teles avançou dizem respeito ao número de temas que pertencem a cada editora. Pois seria interessante averiguar, no período monitorizado, quantas passagens couberam a cada uma delas.
O que eu nunca disse foi que os acervos da Valentim de Carvalho e da Movieplay ficavam de fora da 'playlist' da Antena 1, como se deu a entender no programa. Estas duas editoras terão certamente alguma representatividade, na fatia remanescente das 'majors', só que muito abaixo da que deviam ter, em razão da extensão e qualidade dos catálogos que detêm. Foi esta a ideia que quis exprimir na carta que, em 25 de Novembro de 2008, dirigi à Provedoria do Ouvinte (e a outras entidades). O facto do grosso de tais catálogos não ser recente e havendo a disposição legal que estipula que 35 % da música portuguesa a difundir tenha sido originalmente editada nos últimos doze meses poderá explicar a tal desproporcionalidade, mas apenas em parte. E digo "em parte" porque vejo artistas nacionais dos anos 80 que gravaram para a Polygram (agora, Universal) ter muito mais divulgação na Antena 1 do que artistas coevos ligados à Orfeu e à Rádio Triunfo (actual Movieplay). Aponto, a título de exemplo, os Heróis do Mar e os Jáfumega, que rodam amiúde, e os grupos Raízes e Terra a Terra que nunca passam. No princípio deste ano, a Movieplay lançou uma colecção de três livros/CD de título genérico "Os Fados da Alvorada". Pois esta edição, organizada pela mão proficiente de José Manuel Osório, que resgatou para a luz do dia um repertório de inegável valia que ficara esquecido desde o tempo do vinil e que mereceu rasgados elogios da crítica especializada, não foi disco Antena 1 e não está representada na 'playlist' (apenas se ouviram alguns temas na "Alma Lusa", pela mão de Edgar Canelas). Em contrapartida, a colectânea que a Universal acaba de lançar de título "As Grandes Canções de Sempre", onde a par do melhor há coisas verdadeiramente medíocres (para não falar em ausências imperdoáveis) e que, vistas bem as coisas, nada vem acrescentar a colectâneas do mesmo género editadas pela Reader's Digest, não só recebeu o rótulo de Disco Antena 1 com é alvo de uma destacada divulgação na 'playlist'. Em suma: a edição de uma poderosa multinacional recebeu da rádio pública a máxima das atenções, ao passo que outra edição de significado cultural superior, mas que tem a chancela da pouco influente Movieplay, foi votada ao desprezo. Como é que os ouvintes devem interpretar esta atitude dual da direcção de programas da Antena 1? Eu não acredito que a explicação resida somente no facto de Rui Pêgo e os seus adjuntos não gostarem de fado. Estou absolutamente convicto de que se a antologia "Os Fados da Alvorada" tivesse o selo da Universal (ou da EMI, ou da Sony/BMG ou da Farol) teria sido objecto de outra atenção. Ora, isto é uma coisa que jamais se poderá aceitar no serviço público de radiodifusão.
Quanto à presença de pequenas editoras e edições de autor na 'playlist', admito que desde Novembro de 2008, quando escrevi o texto 'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional, se tenham registado algumas alterações. Em todo o caso, continuo com a impressão de que tal representatividade (ainda assim, ínfima) se restringe ao pop-rock, ao hip hop e afins. Era capaz de apostar (mas se estiver errado, o Sr. Viriato Teles fará o favor de me corrigir) que nem a Ocarina nem a Açor/Emiliano Toste, por exemplo, estão representadas na 'playlist' da Antena 1, apesar de terem nos seus catálogos muitas edições de reconhecida qualidade (algumas das quais nomeadas para o Prémio José Afonso).