Retrato de Luís de Camões, por Fernão Gomes, em cópia de Luís de Resende.
Este é considerado o mais autêntico retrato do poeta, cujo original, que se perdeu, foi pintado ainda em sua vida.
Mais um 10 de Junho prestes a chegar ao fim e a direcção de programas da Antena 1 voltou a esquecer-se de Camões, apesar da particular obrigação que a rádio pública tem na defesa da língua portuguesa e na divulgação dos autores que melhor a cultivaram e engrandeceram. Tal como aconteceu no ano transacto, a rubrica "David Ferreira a contar" foi a minúscula ilha de louvável zelo num imenso mar de deplorável negligência.
Era assim tão difícil arranjar dúzia e meia de poemas (recitados ou cantados) para os ir transmitindo ao longo do dia, por exemplo, logo a seguir aos noticiários? E daria muito trabalho resgatar do arquivo histórico da RDP um dos três autos camonianos que por lá estão a apodrecer?
O blogue "A Nossa Rádio" reitera a celebração do nosso poeta maior e aproveita o ensejo para homenagear outros três grandes vultos da cultura portuguesa que gravaram a sua poesia – Amália Rodrigues, Eunice Muñoz e Ary dos Santos. Em intróito, o "Retrato de Luís de Camões" por Ary.
Retrato de Luís de Camões
Poema de José Carlos Ary dos Santos (in "Foto-Grafias", Lisboa: Livraria Quadrante, 1970; "Obra Poética", Lisboa: Editorial «Avante!», 1994, 7.ª edição, 2004 – p. 278)
Recitado pelo autor* (in LP "Ary 80", Danova, 1980, reed. Movieplay, 1999)
Não do mar meu Luís mas dessa mágoa
marchetada de tudo apartada de quem
não mais trouxer os olhos rasos de água
por esta terra de ninguém.
Não do mar meu Luís mas da raiz
da nossa amarga pátria portuguesa
chulando o mal de Bernardim
até à ultima grandeza.
Não do mar meu Luís mas da galega
couve de pranto aberta pranto raro
pranto tão canto que a cantar te quero
neste deserto de quem fala claro.
* Gravado no Estúdio da R.P.E.
Técnico de som – José Manuel Fortes
Descalça vai para a fonte
Poema (vilancete em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
MOTE
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Lianor
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1668)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)
MOTE
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
vai fermosa e não segura.
VOLTAS
Leva na cabeça o pote,
o testo nas mãos de prata,
cinta de fina escarlata,
sainho de chamalote;
traz a vasquinha de cote,
mais branca que a neve pura;
vai fermosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
cabelos d'oiro entrançado,
fita de cor d'encarnado...
tão linda que o mundo espanta!
Chove nela graça tanta,
que dá graça à fermosura;
vai fermosa, e não segura.
Notas:
Escarlata – tecido de lã de cor vermelha muito viva
Sainho – casaco curto que se vestia por cima da blusa
Chamalote – tecido de pêlo ou lã geralmente com seda, talvez assemelhando-se ao actual cetim
Vasquinha – saia com muitas pregas em volta da cintura
De cote – de uso quotidiano
* Arranjo e direcção de orquestra – Jorge Costa Pinto
Perdigão
Poema (vilancete em redondilha maior): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Cantigas Numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
MOTE ALHEIO
Perdigão perdeu a pena,
não há mal que lhe não venha.
VOLTAS
Perdigão, que o pensamento
subiu em alto lugar,
perde a pena do voar,
ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
asas com que se sustenha:
não há mal que lhe não venha.
Quis voar a uma alta torre
mas achou-se desasado;
e, vendo-se depenado,
de puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
lança no fogo mais lenha:
não há mal que lhe não venha.
* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Martinho d'Assunção – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Fernando Paulo
Busque Amor novas artes, novo engenho
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.
Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.
Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.
Que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como, e dói não sei porquê.
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é um nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Transforma-se o amador na cousa amada
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;
não tenho, logo, mais que desejar,
pois em mim tenho a parte desejada.
Se nela está minha alma transformada,
que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
pois consigo tal alma está ligada.
Mas esta linda e pura semideia,
que, como um acidente em seu sujeito,
assim co a alma minha se conforma,
está no pensamento como ideia:
e o vivo e puro amor de que sou feito,
como a matéria simples busca a forma.
Sete anos de pastor Jacob servia
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Nota:
Jacob – patriarca bíblico, filho de Isaac e de Rebeca, irmão gémeo de Esaú.
Serviu seu tio Labão durante sete anos com a condição de, findo esse período, casar-se com a mais bela das suas filhas, Raquel. No dia das bodas, Labão trocou Raquel pela filha mais velha, Lia. Como, segundo o rito hebraico de então, a noiva era oferecida ao noivo completamente envolvida num véu, Jacob só deu pelo logro no dia seguinte. O tio justificou-se dizendo que não era costume casarem-se as filhas mais novas primeiro e contratou com Jacob mais sete anos, após o que lhe deu Raquel em casamento.
De Lia, de Raquel e das suas duas escravas, Zilfa e Bila, Jacob teve doze filhos que fundaram as doze tribos de Israel.
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Sete anos de pastor
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia a ele, servia a ela,
que a ela só por prémio pretendia.
Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assim negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;
começa de servir outros sete anos,
dizendo: — Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
* Carlos Gonçalves e José Fontes Rocha – guitarras portuguesas
Jorge Fernando – viola
Joel Pina – viola baixo
Produção – João Belchior Viegas
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Miguel Gonçalves
Corte – Fernando Cortez
Aquela triste e leda madrugada
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada.
Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se duma outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.
Ela só viu as lágrimas em fio,
que duns e doutros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.
Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio
e dar descanso às almas condenadas.
Notas:
Triste e leda madrugada: "triste" por se tratar da despedida dos dois amantes; "leda" (alegre) porque de todas as madrugadas nasce um novo dia.
Ela viu as palavras = Ela ouviu as palavras. Desde a época medieval o verbo "ver" significava também "ouvir".
Marchetada – vivamente colorida, matizada de tonalidades luminosas
Vontade – coração
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Alma minha
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Música: Carlos Gonçalves
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças aquele amor ardente
que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
alguma coisa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,
roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
Nota:
No manuscrito da "Década VIII", atribuído a Diogo do Couto, lê-se: «Vindo de lá [da China] se foi perder na costa de Sião [Tailândia], onde se salvaram todos despidos e o Camões por dita escapou com as suas "Lusíadas", como ele diz nelas, e ali se afogou ũa moça china muito fermosa com que vinha embarcado e muito obrigado, e em terra fez sonetos à sua morte em que entrou aquele que diz: "Alma minha gentil, que te partiste...»
* Carlos Gonçalves e José Fontes Rocha – guitarras portuguesas
Jorge Fernando – viola
Joel Pina – viola baixo
Produção – João Belchior Viegas
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Montagem digital – Miguel Gonçalves
Corte – Fernando Cortez
O Céu, a terra, o vento sossegado
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
O Céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...
O pescador Aónio, que, deitado
onde co vento a água se meneia,
chorando, o nome amado em vão nomeia,
que não pode ser mais que nomeado:
«Ondas – dezia – antes que Amor me mate,
tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
me fizestes à morte estar sujeita.»
Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;
move-se brandamente o arvoredo;
leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
Notas:
Aónio (antropónimo masculino formado a partir de Aónia, anagrama de Joana): este falso nome designa o próprio poeta
Enfreia – modera
Se meneia – se move
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Dura Memória
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1861)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Amália 1963", Columbia/Pathé Marconi (França), 1963; EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; 2LP "O Melhor de Amália: Volume II - Tudo Isto é Fado", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000; Livro/4CD "O Melhor de Amália": CD 3, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007)
Memória de meu bem cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus fados,
deixai-me descansar co meus cuidados,
nesta inquietação dos meus amores.
Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados,
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.
Perdi numa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
deixai-me, pois, lembranças desta glória.
Cumpre se acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não uma só, dura memória!
* José Nunes – guitarra portuguesa
Castro Mota – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das cousas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso dos meus anos;
dei causa a que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Erros Meus
Poema (soneto): Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in EP "Amália canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989)
Erros meus, má fortuna, amor ardente
em minha perdição se conjuraram;
os erros e a fortuna sobejaram,
que para mim bastava amor somente.
Tudo passei; mas tenho tão presente
a grande dor das coisas, que passaram,
que as magoadas iras me ensinaram
a não querer já nunca ser contente.
Errei todo o discurso de meus anos;
dei causa a que a Fortuna castigasse
as minhas mal fundadas esperanças.
De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
este meu duro génio de vinganças!
* Domingos Camarinha – guitarra portuguesa
Castro Mota – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Eu cantei já, e agora vou chorando
Poema de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Eu cantei já, e agora vou chorando
o tempo que cantei tão confiado;
parece que no canto já passado
se estavam minhas lágrimas criando.
Cantei; mas se me alguém pergunta: "Quando?"
Não sei; que também fui nisso enganado.
É tão triste este meu presente estado
que o passado, por ledo, estou julgando.
Fizeram-me cantar, manhosamente,
contentamentos não, mas confianças;
cantava, mas já era ao som dos ferros.
De quem me queixarei, que tudo mente?
Mas eu que culpa ponho às esperanças
onde a Fortuna injusta é mais que os erros?
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Com Que Voz
Poema (soneto): Luís de Camões [?] (excerto) [>> texto integral abaixo]
Música: Alain Oulman
Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; LP "O Melhor de Amália: Estranha Forma de Vida", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 1995; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "O Melhor de Amália": CD 2, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010)
Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?
Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.
De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.
Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?
* José Fontes Rocha – guitarra portuguesa
Pedro Leal – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Remasterização – Joel Conde, com Frederico Santiago, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Com que voz chorarei meu triste fado
(Luís de Camões ?)
Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?
Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.
Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que o sofre e sente!
De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dela aventuro.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1595)
Recitado por Ary dos Santos* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Continuamente vemos novidades,
diferentes em tudo da esperança;
do mal ficam as mágoas na lembrança,
e do bem, se algum houve, as saudades.
O tempo cobre o chão de verde manto,
que já coberto foi de neve fria,
e, em mim, converte em choro o doce canto.
E, afora este mudar-se cada dia,
outra mudança faz de mor espanto:
que não se muda já como soía.
Notas:
Qualidades – aspectos
Soía – costumava
Cá nesta Babilónia, donde mana
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1616)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Cá nesta Babilónia, donde mana
matéria a quanto mal o mundo cria;
cá, onde o puro Amor não tem valia,
que a Mãe, que manda mais, tudo profana;
cá, onde o mal se afina e o bem se dana,
e pode mais que a honra a tirania;
cá, onde a errada e cega Monarquia
cuida que um nome vão a Deus engana;
cá, neste labirinto, onde a nobreza,
com esforço e saber pedindo vão
às portas da cobiça e da vileza;
cá, neste escuro caos de confusão,
cumprindo o curso estou da Natureza.
Vê se me esquecerei de ti, Sião!
Notas:
Mana – sai, brota
Matéria – riquezas
O puro Amor – o verdadeiro amor espiritual
Mãe – Vénus, símbolo da luxúria
Sião – Jerusalém celeste (Céu, Paraíso)
Esparsa ao desconcerto do mundo
Poema (esparsa em redondilha maior) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1598)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Os bons vi sempre passar
no mundo graves tormentos;
e, para mais me espantar,
os maus vi sempre nadar
em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
o bem tão mal ordenado,
fui mau; mas fui castigado:
assim que só para mim
anda o mundo concertado.
O dia em que nasci morra e pereça
Poema (soneto) de Luís de Camões (in "Rimas", edição de 1861)
Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
O dia em que nasci, morra e pereça,
não o queira jamais o tempo dar,
não torne mais ao mundo e, se tornar,
eclipse nesse passo o Sol padeça.
A luz lhe falte, o Sol se lhe escureça,
mostre o mundo sinais de se acabar,
nasçam-lhe monstros, sangue chova o ar,
a mãe ao próprio filho não conheça.
As pessoas pasmadas, de ignorantes,
as lágrimas no rosto, a cor perdida,
cuidem que o mundo já se destruiu.
Ó gente temerosa, não te espantes,
que este dia deitou ao mundo a vida
mais desgraçada que jamais se viu!
Os Lusíadas - Episódio de Inês de Castro
...de Luís de Camões (Canto III, estrofes 120 a 135)
Recitado por Ary dos Santos* & Eunice Muñoz (in LP "Líricas de Camões ditas por Eunice Muñoz e J.C. Ary dos Santos", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. CNM, 2010; "Luís Vaz de Camões por Ary dos Santos e Eunice Muñoz", CNM, 2011)
Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruito,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuito,
Aos montes insinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Do teu Príncipe ali te respondiam
As lembranças que na alma lhe moravam,
Que sempre ante seus olhos te traziam,
Quando dos teus fermosos se apartavam;
De noite, em doces sonhos que mentiam,
De dia, em pensamentos que voavam;
E quanto, enfim, cuidava e quanto via
Eram tudo memórias de alegria.
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sisudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada?
Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e da saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
Para o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E depois, nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfindade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:
«Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas têm o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co a mãe de Nino já mostraram,
E cos irmãos que Roma edificaram:
Ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar uma donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem para perdê-la não fez erro.
Mas, se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co amor intrínseco e vontade
Naquele por quem morro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.»
Queria perdoar-lhe o Rei benino,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra uma dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?
Qual contra a linda moça Policena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que depois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, férvidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia!
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.
Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da menina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.
* Direcção literária – Alberto Ferreira
Gravado no estúdio da Nacional Filmes, Lisboa, por Heliodoro Pires
Montagem – Moreno Pinto
Vieira Portuense, "Súplica de Inês de Castro a D. Afonso IV", c.1802, óleo sobre tela, 196x150cm, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa
Eugénie Servières, "Súplica de Inês de Castro a D. Afonso IV", 1822, óleo sobre tela, Palácio de Versalhes, Versalhes (França)
Karl Briullov, "Morte de Inês de Castro, esposa morganática do Infante D. Pedro", 1834, óleo sobre tela, Museu do Estado Russo, Sampetersburgo (Rússia)
Columbano Bordalo Pinheiro, "Morte de Inês de Castro", 1901-1904, óleo sobre tela, 246x196cm, Museu Militar, Lisboa
Alexandre-Joseph Desenne (desenho) e Henri Laurent (gravura), "Morte de Inês de Castro", 1816, ilustração de "Os Lusíadas", ed. Morgado de Mateus, Paris, 1817.
Vasco Graça Moura fotografado por Rodrigo Cabral Fiz uma longa aprendizagem, muitas rasuras e rascunhos, muitos registos de passagem, muitos borrões e gatafunhos são outros tantos testemunhos do meu mester, das minhas lavras, uso a cabeça e às vezes punhos de renda ou não. Ah, as palavras! O Óscar Lopes e o David deram-me as regras do jardim: vinho fazer da minha vide, nunca ficar assim-assim, montar em pêlo e em selim. Das teorias me dispenso: pensaram tudo antes de mim o E.P.C. e o E. Lourenço. Vasco Graça Moura (in "Testamento de VGM", 2.ª edição, Porto: Edições Asa, 2002 – pág. 20) Um intelectual com espírito
renascentista
O que mais
impressionava em Vasco Graça Moura era essa espécie de energia intelectual
renascentista, que o levava a ter uma intervenção cívica constante, uma
actividade política e uma vida profissional intensas, e ainda assim arranjar
tempo para criar uma obra literária (traduções incluídas) de uma extensão,
diversidade e qualidade francamente invulgares. Poeta e
tradutor de grandes poetas, romancista, ensaísta, dramaturgo, cronista,
antologiador, historiador honoris causa, advogado, político, gestor
cultural – e podia acrescentar-se várias outras actividades –, Graça Moura
foi um improvável espírito renascentista encarnado neste presente um pouco
caótico de mais para o seu assumido gosto pela ordem e pela disciplina. Mesmo
que nos fiquemos pela sua obra literária em sentido lato, seria talvez preciso
recuarmos a um Jorge de Sena para encontrarmos um antecessor convincente do
seu labor criativo e intelectual. Autor de
quase trinta livros de poemas, de Modo Mudando (1963) a O Caderno da
Casa das Nuvens (2010), foi ainda um tradutor épico, que parecia ter
particular prazer em impor-se desafios colossais, como o de verter em português
a Divina Comédia e a Vita Nuova de Dante, ou as Rimas e Triunfos
de Petrarca, ou os Testamentos de François Villon, ou ainda a
integral dos Sonetos de Shakespeare. Escolhas
que certamente coincidem com as suas paixões pessoais de leitor, mas às quais
também não terá sido alheio um forte sentido de missão: Graça Moura
empenhou-se, como tradutor, em enriquecer o património literário disponível em
língua portuguesa, como se esforçou, enquanto responsável da Imprensa
Nacional/Casa da Moeda (IN/CM), que dirigiu ao longo da década de 1980, por
combater o progressivo esquecimento dos grandes autores portugueses do
passado. Traduzindo
directamente do espanhol, do francês, do italiano, do inglês e do alemão,
traduziu, além dos autores já referidos, extensas escolhas de poetas como
Pierre Ronsard, Rainer Maria Rilke, Gottfried Benn, Walter Benjamin, Federico
García Lorca, Jaime Sabines, H. M. Enzensberger ou Seamus Heaney, e
ofereceu-nos ainda versões portuguesas de algumas das peças mais importantes
dos três grandes dramaturgos franceses do século XVII: Corneille, Molière e
Racine. É por estas
duas dimensões, a de poeta e a de tradutor, que é mais reconhecido, e foram
elas que lhe valeram as principais distinções atribuídas à sua obra, a começar
pelo Prémio Pessoa, em 1995, e incluindo a criteriosa Coroa de Ouro do Festival
de Struga, na Macedónia, que recebeu em 2004 – entre os vencedores das três
edições anteriores contam-se dois prémios Nobel: Tomas Tranströmer e Seamus
Heaney – e o Prémio Nacional de Tradução atribuído em 2007 pelo Ministério da
Cultura italiano. Mas outras
dimensões da obra de Graça Moura, como a ficção ou o ensaísmo, estão longe de
ser negligenciáveis. Se títulos como Luís de Camões, Alguns Desafios (1980),
Camões e a Divina Proporção (1985) ou Os Penhascos e a Serpente (1987)
lhe dão um lugar de indiscutível relevo entre os camonistas contemporâneos,
os seus ensaios abarcam temas tão variados como os Descobrimentos, a pintura
portuguesa da Renascença, a construção da identidade cultural europeia, o fado,
a pintura de José Rodrigues ou Graça Morais, a literatura de David
Mourão-Ferreira ou Vitorino Nemésio, para citar apenas uma breve amostra. À
qual não se pode deixar de somar o tópico do Acordo Ortográfico, que
considerava um crime de lesa-língua, e ao qual dedicou, em 2008, o ensaio Acordo
Ortográfico: a Perspectiva do Desastre. Tentar travar a sua aplicação
tornou-se o grande combate cívico dos seus últimos anos. Como
ficcionista estreou-se relativamente tarde, em 1987, com Quatro Últimas
Canções, um romance no qual a música erudita, uma das suas paixões – a par
da pintura, que chegou a praticar –, ocupa um lugar fundamental, contaminando a
própria estrutura narrativa. Talvez por ter surgido tardiamente, a ficção de
Graça Moura foi sempre vista como um corpo secundário na sua obra, juízo não
isento de alguma injustiça, quer pela qualidade de algumas obras, quer pela
extensão que acabou por atingir, com mais de uma dúzia de livros, incluindo
romances, novelas e volumes de contos. Para se dar
uma ideia mais completa da bibliografia de Graça Moura, que ultrapassa bem
uma centena de títulos, seria ainda necessário falar do dramaturgo ocasional –
autor de Ronda dos Meninos Expostos (1987) e da sátira Auto de
Mofino Mendes (1994) –, do truculento cronista cujos textos estão
reunidos em volumes como Papéis de Jornal e Outros Materiais (1997) ou Contra
Bernardo Soares e Outras Observações (1999), ou ainda do diarista de Circunstâncias
Vividas (1995). Uma
produção que se torna ainda mais espantosa se tivermos em conta que Graça
Moura começou cedo a assumir cargos públicos de elevada responsabilidade,
tendo-os desempenhado com reconhecidos zelo e competência. A seguir ao 25 de
Abril de 1974, foi duas vezes secretário de Estado: da Segurança Social (no IV Governo
Provisório, chefiado por Vasco Gonçalves) e dos Retornados
(no VI Governo Provisório, chefiado por Pinheiro de Azevedo). Militante do
então PPD, desfiliou-se logo em 1975, mas manteve uma fidelidade ao partido que
só em circunstâncias excepcionais quebrou, como sucederia nas eleições
presidenciais de 1980, quando apoiou Ramalho Eanes contra Soares Carneiro. Nunca
escondeu a sua particular admiração por Cavaco Silva, quer como
primeiro-ministro, quer como presidente da República, a ponto de ter incluído
uma balada do bom cavaquista nessa espécie de auto-retrato poético a que
chamou, na linha de Villon, Testamento de
VGM (2001). Vasco Graça
Moura nasceu no Porto, a 3 de Janeiro de 1942, em casa dos seus avós maternos,
na Foz do Douro. Fez os dois primeiros anos da primária em casa, estudando com
uma professora inglesa, e frequentou depois o Colégio Brotero, onde se manteve
até ao final do secundário. Matriculou-se
depois em Direito, na Universidade de Lisboa, e é ainda estudante quando
publica, em 1963, numa edição de autor, o seu livro de estreia, Modo
Mudando. Nos últimos anos da licenciatura, usufruiu do estatuto de aluno
voluntário porque arranjara emprego numa conserveira de Matosinhos. Era
correspondente de línguas estrangeiras, e não deixa de ter graça essa afinidade
biográfica com Fernando Pessoa, que nunca será capaz de admirar e a quem, por
(significativa) piada, chamará um dia "o poeta Aleixo da razão". Concluída a
licenciatura em 1966, dedicou-se à advocacia, que teve de interromper para
cumprir o serviço militar obrigatório. Passou trinta e nove meses na tropa,
numa altura em que era já casado e pai de dois filhos. Divorciou-se da sua
primeira mulher, Maria Fernanda Sá Dantas, no início dos anos 80, e voltou a
casar-se mais duas vezes, primeiro com a ensaísta Clara Crabbé Rocha [filha de
Miguel Torga e de Andrée Crabbé Rocha], em 1985, e depois com Maria do Rosário
Sousa Machado, em 1987, com quem teve mais duas filhas, enternecidamente
referidas em vários poemas dos seus últimos livros. Embora
tenha editado a expensas próprias três livros de poemas ainda antes do 25 de
Abril de 1974, é O Mês de Dezembro e Outros Poemas, publicado em 1976 pela
Inova, que leva a sua poesia a um público mais vasto. Ao mesmo
tempo que ia exercendo intermitentemente a advocacia, foi director de
programas da RTP-2 [1978], director da IN/CM de 1979 a 1989, comissário de
Portugal para a Exposição Universal de Sevilha [1988-1992] e comissário-geral
da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, funções
que exerceu de 1988 até ao final de 1995, quando pôs o lugar à disposição do
recém-empossado primeiro-ministro António Guterres, que o substituiu por
António Hespanha. Integrou ainda o conselho de opinião da RTP, o conselho
directivo da Fundação Luso-Americana, o conselho-geral do Instituto Camões e
dirigiu o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Gulbenkian [sucedendo
a Vergílio Ferreira, entre 1996 e 1999]. Eleito para
o Parlamento Europeu nas listas do PSD em 1999, cumpriu dois mandatos como
eurodeputado. Em Janeiro de 2012 foi nomeado presidente do Centro Cultural de
Belém, uma decisão polémica e que levou à demissão do conselho directivo, em
protesto contra as razões invocadas para a não recondução de António Mega
Ferreira. Mas entre os que defenderam a escolha, elogiando as qualidades de
Graça Moura para o cargo, contou-se a ex-ministra da Cultura Isabel Pires de
Lima, que nomeara o seu antecessor. Na
homenagem de Janeiro [2014] na Fundação Gulbenkian, Artur Santos Silva,
presidente da instituição, salientou o papel central do poeta na vida cultural
portuguesa dos últimos quarenta anos e acrescentou que Graça Moura "é
digno de partilhar a galeria dos grandes vultos da Renascença". E o
ensaísta Eduardo Lourenço, organizador do colóquio, falou do "homem de
acção" e do "humanista" que sempre se quis ver implicado na vida
do seu país. "O mundo de Vasco é o mundo todo com o seu mistério e o seu
enigma insondáveis", disse Lourenço. "É um teatro-mundo de
configuração barroca e iluminista" em que o autor, "consciente de
que vivemos no Ocidente uma espécie de noite de Deus", continua a ser um
europeísta convicto, e que nunca lê Portugal numa perspectiva complexada em
relação à Europa. (artigo de Luís Miguel
Queirós, in jornal "Público", 28-Abr-2014)
Contam-se em mais de quarenta os poemas de Vasco Graça Moura que, até à data da morte, foram transpostos para canção e gravados em disco, alguns por mais do que um intérprete. Pois, por incrível que pareça, nem um – um sequer – desses espécimes figura na 'playlist' da Antena 1! O falecimento do insigne poeta e tradutor bem podia ter sido o pretexto para se colmatar a lacuna, mas decorrido um mês sobre a triste notícia, constata-se que está «tudo como dantes, quartel-general em Abrantes». Os ouvintes/pagantes da contribuição do audiovisual perguntam: é desta forma negligente, desleixada e preguiçosa que a rádio pública cumpre a sua obrigação de divulgar os autores que mais validamente contribuíram para o nosso património poético-musical? Não podendo contemporizar com tão condenável atitude, o blogue "A Nossa Rádio" apresenta uma mão-cheia de poemas cantados que têm a assinatura de Vasco Graça Moura, ora como autor (a maioria), ora como adaptador e tradutor. Antes, e em complemento ao artigo acima transcrito, faculta-se a audição de duas edições do programa "Agora... Acontece!" em que Carlos Pinto Coelho esteve à conversa com Vasco Graça Moura e ainda o documentário radiofónico sobre o autor e cidadão realizado por Ana Aranha para a série "Vidas Que Contam". "Agora... Acontece!" N.º 262, de 16-Abr-2004
Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a respeito da sua actividade de deputado no Parlamento Europeu [a partir de 27':58"] "Agora... Acontece!" N.º 286, de 02-Ago-2004
Vasco Graça Moura entrevistado por Carlos Pinto Coelho, a propósito da sua tradução d' "As Rimas", de Francesco Petrarca (Bertrand Editora, 2003) [a partir de 05':58"] "Vidas Que Contam", de 25-Jun-2013 http://www.rtp.pt/play/p328/e121512/vidas-que-contam Documentário radiofónico sobre Vasco Graça Moura; autoria e realização de Ana Aranha O Atol dos Amores
Poema: Vasco Graça Moura (in "Os Rostos Comunicantes", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984; "Poesia 1963/1995", Lisboa: Quetzal Editores, 2007 – pág. 313) Música: Jorge Salgueiro Intérprete: Negros de Luz* (in CD "Canções da Inquietação", Foco Musical, 1998; CD "10 Anos de Inquietação", Tradisom, 2005) O atol dos amores é uma porção de terra rodeada de amor por todos os lados? uma porção de amor rodeada de terra por todos os lados? rodeada de água? rodeada? ah, todo o amor é árduo a humano trato e se interroga e ninguém é uma ilha onde se caça. Apenas se conhece asperamente seu rodeado mapa de coral. Apenas contra a morte a ilha, a redondilha. * Negros de Luz: Juliana Telmo – voz (soprano) Dolores de Matos – voz (contralto) Carlos Ançã – voz (tenor) Carlos Cóias – voz (baixo) Óscar Mourão – piano António Barbosa – violino Paulo Viana – violino Susana Cordeiro – violeta Carlos Faria – violoncelo José Carinhas – percussão Direcção musical – Jorge Salgueiro Produção executiva – Miguel Pernes Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores, entre Janeiro e Maio de 1998 Gravação, misturas e produção – Zé Vasco, António Pinheiro da Silva e Jorge Salgueiro Poetas de Lisboa
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 18; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 196) Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas) Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira": CD 2, EMI-VC, 1999)
É bom lembrar mais vozes pois Lisboa cidade com poético fadário cabe toda num verso do Cesário e alguma em ironias do Pessoa Para cada gaivota há um do O'Neill para cada paixão um do David e há Pedro Homem de Mello que divide entre Alfama e Cabanas seu perfil E há também o Ary e muitos mais, entre eles o Camões e o Tolentino, ou tomando por fado o seu destino ou dando de seu riso alguns sinais Muito do que escreveram e se canta na música de fado que já tinha o próprio som do verso vem asinha assim do coração para a garganta Que bom seria tê-los a uma mesa de café comparando as emoções e a descobrirem novas relações entre o seu fado e a língua portuguesa * Carlos do Carmo – voz Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo) Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito) José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo) Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito) José Elmiro Nunes – baixo acústico Concepção musical – Carlos do Carmo Produção – Alfredo Almeida Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998 Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores Nasceu Assim, Cresceu Assim
Poema: Vasco Graça Moura (excerto de "Genealogia") [texto integral >> abaixo] Música: Fernando Tordo Intérprete: Carlos do Carmo* (in CD "Nove Fados e Uma Canção de Amor", Mercury/Universal, 2002)
Talvez a mãe fosse rameira de bordel talvez o pai um decadente aristocrata talvez lhe dessem à nascença amor e fel talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata talvez o tenham educado sem maneiras entre desordens, navalhadas e paixões talvez ouvisse vendavais e bebedeiras e as violências que rasgavam corações talvez ardesse variamente em várias chamas talvez a história fosse ainda mais bizarra no desamparo teve sempre duas amas que se chamavam a Viola e a Guitarra pois junto delas já talvez o reconheçam talvez recusem dar-lhe o nome de Enjeitado e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado * Carlos do Carmo – voz Ricardo Rocha – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola Fernando Araújo – viola baixo acústica Arranjos – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha e Carlos Manuel Proença Produção – Carlos do Carmo, Ricardo Rocha, Carlos Manuel Proença e Nuno Faria Consultadoria de produção – Alfredo Almeida Produção executiva – Nuno Faria / Condado Azul, Lda. Coordenação de edição – Paula Homem / Universal Music Portugal Gravação – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Setembro e Outubro de 2002 Assistente – Pedro Ferreira Misturas – Fernando Abrantes, Nuno Faria e Alfredo Almeida, nos Estúdios MDL Masterização e edição digital – Fernando Abrantes, nos Estúdios MDL Genealogia (Vasco Graça Moura, in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 70-71; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 241-242) Talvez a mãe fosse puta de bordel talvez o pai um decadente aristocrata talvez lhe dessem à nascença amor e fel talvez crescesse aos tropeções na vida ingrata talvez o tenham educado sem maneiras entre desordens, navalhadas e paixões talvez ouvisse vendavais e bebedeiras e as violências que rasgavam corações talvez crescendo tenha visto que o destino era a palavra que melhor compreendia na sem-razão do seu sentido genuíno ao abandono, isso era certo, assim crescia talvez mais tarde solidão, erro, saudade e má fortuna, amor ardente, amarga sina viessem dar à sua voz a qualidade do desespero e o timbre escuro da surdina sofria muito, muitas vezes delirando, talvez então cantasse rouco um amor louco bem poucas vezes soube amar em fogo brando e muitas vezes tanto amar sabia a pouco talvez ardesse variamente em várias chamas talvez a história fosse ainda mais bizarra no desamparo teve sempre duas amas que se chamavam a Viola e a Guitarra pois junto delas já talvez o reconheçam talvez recusem dar-lhe o nome de Enjeitado e mesmo aqueles que o não cantam não esqueçam nasceu assim, cresceu assim, chama-se Fado Morrer de Ingratidão
Poema: Vasco Graça Moura Música: António Victorino d'Almeida Intérpretes: Maria João Pires* & Carlos do Carmo (in CD "Maria João Pires / Carlos do Carmo", Universal, 2012)
Vou sempre a jogo quando me convidas e apenas sei que perco sempre a mão há no baralho amor e solidão e atraiçoa-me o tempo às escondidas. As coisas sendo assim são o que são: com gaivotas de sombra repetidas e as cartas todas já distribuídas, eu apostei a alma e o coração. As ilusões passaram das medidas e em noites tresloucadas de paixão trazes um cheiro a fado e a perdição e dás cabo de mim e não duvidas. Nessas linhas que tens na tua mão há estrelas cadentes esquecidas e é na sina febril das nossas vidas que eu vou morrer da tua ingratidão. * Maria João Pires – piano Carlos do Carmo – voz Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Maio, Julho e Outubro de 2012 Engenheiro de gravação – Joaquim Monte Misturado e masterizado por Alfredo Almeida e Carlos Vales, no Bebop Studio Rosa Nocturna
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 43-44; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 218-219) Música: Mário Pacheco Intérprete: Ana Sofia Varela* (in CD "Ana Sofia Varela", EMI-VC, 2002)
Dei-te uma rosa e no espelho entre a sombra e o vermelho estranhaste o seu clarão agora só a debrua a luz irreal da Lua no vago da escuridão nela vi quanto dizias, davas, rias, prometias vão murmúrio, vão rumor louca, louca esta existência tresloucada incandescência que o sangue lhe vinha pôr e era tão intensa a vida que a fugaz rosa colhida já nem no espelho perdura fez-se rosa em desalento que a noite mesmo sem vento só de a tocar desfigura vão-lhe as pétalas caindo e à medida que fugindo a Lua desaparece e a manhã quando desperta já só vê a forma incerta de uma réstia que estremece [instrumental] triste vida a que me afoite a fazer de cada noite uma flor, uma quimera mas rosa, a rosa terás outra e outra e outra atrás da que morre à tua espera * Mário Pacheco – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola Paulo Paz – contrabaixo Arranjos – Mário Pacheco Gravado e misturado por João Martins, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, entre Janeiro e Maio de 2001 Assistentes – Artur David, Luís Caldeira Masterizado por Joe Fossard, nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores Crónica
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 16; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 194) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Eram barcos e barcos que largavam fez-se dessa matéria a nossa vida marujos e soldados que embarcavam e gente que chorava à despedida ficámos sempre ou quase ou por um triz correndo atrás das sombras inseguras sempre a sonhar com índias e brasis e a descobrir as próprias desventuras memória avermelhada dos corais com sangue e sofrimento amalgamados se rasga escuridões e temporais traz-nos também nas algas enredados e ganhou-se e perdeu-se a navegar por má fortuna e vento repentino e o tempo foi passando devagar tão devagar nas rodas do destino que ou nós nos encontramos ou então ficamos uma vez mais à deriva neste canto que é nosso próprio chão sem que o canto sequer nos sobreviva [instrumental] e ganhou-se e perdeu-se a navegar por má fortuna e vento repentino e o tempo foi passando devagar tão devagar nas rodas do destino que ou nós nos encontramos ou então ficamos uma vez mais à deriva neste canto que é nosso próprio chão | bis sem que o canto sequer nos sobreviva | * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Bernardo Couto – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Ficção e Realidade
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 55; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 228) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Ela cantava o fado e de repente fez-se na tasca enorme zaragata: chegara o seu amante da fragata e não gostou de ouvi-la tão ardente e ao ver que os olhos dela se cravavam nos olhos de um rufia devagar a cena foi de faca e alguidar como depois os outros relatavam calaram-se o guitarra e o viola e os mais à meia-luz emudeciam pois só passos felinos se mediam no lampejar riscado a ponta e mola é quando um deles cambaleia e vence-o a golfada fatal de sangue e vinho tingindo peito, mangas, colarinho, e a quebrar num soluço esse silêncio já não há casos destes na cidade e eu já não sei quem estendeu a mão mas num golpe certeiro ao coração tornou-se esta ficção realidade [instrumental] já não há casos destes na cidade e eu já não sei quem estendeu a mão mas num golpe certeiro ao coração tornou-se esta ficção realidade * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Sinais de Cinza
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 22-23; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 199-200) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) No beco abandonado sem horas que distinga com letra que se vinga do sangue atormentado vai inscrevendo o fado na trémula restinga do corpo macerado e a pena é uma seringa quase em andrajos nua no olhar parado voga torpor de asas de droga na palidez da sua face de quem se afoga chupou-lhe o rosto a lua sonâmbula flutua e nada aos deuses roga
tão longe a juventude em cinzas deslembrada, e tão desfigurada ajude ou desajude já não lhe vale de nada: mesmo que a sombra mude na sombra se degrada sem que anjo algum a escude menina e moça assim em casa de seus pais criada entre alecrim e rosas no jardim levaram-na os sinais das luzes irreais agora é quase o fim que a vida estava a mais [instrumental] menina e moça assim em casa de seus pais criada entre alecrim e rosas no jardim levaram-na os sinais das luzes irreais agora é quase o fim que a vida estava a mais * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Bernardo Couto – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Casario
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 19; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 197) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Em Lisboa eu prefiro o casario que se narcisa visto da outra banda no espelho às vezes turvo deste rio na limpidez do rio às vezes branda é entre o Mar da Palha e o Bugio que o renque das fachadas se desmanda em tons de porcelana ao desafio em cada patamar, cada varanda e a luz de água e azul a derramar-se vem envolver-lhe o vulto reflectido, dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se como um banho lustral e desmedido é véu de gaze leve o seu disfarce mas é tão ténue e frágil o tecido que pode acontecer que ainda o esgarce um voo de gaivotas esquecido então seu corpo sob o céu rasgado terá uma outra luz densa e leitosa translúcida nudez do compassado coração da cidade branca e rosa [instrumental] e a luz de água e azul a derramar-se vem envolver-lhe o vulto reflectido, dar-lhe o contraste de uns ciprestes, dar-se como um banho lustral e desmedido então seu corpo sob o céu rasgado terá uma outra luz densa e leitosa translúcida nudez do compassado coração da cidade branca e rosa [instrumental] * Bernardo Couto – guitarra portuguesa e viola Armando Figueiredo – viola baixo Fado da Sereia
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 68-69; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 239-240) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Ela era cantadeira e um caso sério rainha sem rival no seu ofício e já tinha levado só por vício três faias e um banqueiro ao cemitério a voz despia-a toda se cantava no arfar do xaile preto e do decote tinha a força nocturna de um archote e a raiva e a revolta de uma escrava na boca o seu vermelho era sangrento nas mãos curvava as unhas como garras nas ancas tinha a curva das guitarras as fúrias no cabelo eram do vento os olhos eram de aço se os abria cravando-os em incautos corações e ao serem mais funestas as paixões todo o seu corpo branco estremecia cantava como o fogo que devasta as almas e as cidades de repente chamavam-lhe "a sereia" toda a gente e era como a maré quando ela arrasta morreu de um desespero de facadas no peito, nas carótidas, na cara, deu-lhas alguém que um dia atraiçoara e preferiu as mãos ensanguentadas não vi mulher mais bela em toda a vida e em forma de mulher mais tempestade nem voz ouvi que fosse mais verdade nem verdade a cantar mais incontida baixou por sua vez ao cemitério rainha sem rival no seu ofício o que era de contar agora disse-o fica por desvendar o seu mistério [instrumental] baixou por sua vez ao cemitério rainha sem rival no seu ofício o que era de contar agora disse-o | bis fica por desvendar o seu mistério | * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Bernardo Couto – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Fado do Conhecimento
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 42; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 217) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) «Que afagos tão suaves, que ira honesta» LUÍS DE CAMÕES (estrofe 83 do Canto IX d' "Os Lusíadas", Lisboa, 1572) Fiz no teu corpo à noite a travessia de mares e céus e terras e vulcões e em breve rodopio as estações detinham-se esquecidas e foi dia fiz no teu corpo à noite a travessia a memória das praias e florestas perpassou-me na pele e entranhou-se como um suave afago que assim fosse espuma que ficou de iras honestas a memória das praias e florestas e ao despertar de tanta sonolência formou-se devagar esta canção para entreter de novo o coração tão paciente em sua impaciência até que sendo noite eu atravesso uma outra vez o mundo, o mar, o vento, amar é sempre mais conhecimento e conhecer é tudo o que eu te peço. [instrumental] E ao despertar de tanta sonolência formou-se devagar esta canção para entreter de novo o coração tão paciente em sua impaciência até que sendo noite eu atravesso uma outra vez o mundo, o mar, o vento, amar é sempre mais conhecimento | 3x e conhecer é tudo o que eu te peço. | * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Bernardo Couto – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Toada de Goa
Poema: Vasco Graça Moura (in "O Concerto Campestre", Lisboa: Quetzal Editores, 1993; "Poesia 1963/1995", Lisboa: Quetzal Editores, 2007 – págs. 469-470) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Com um nó na garganta com o sarro de tanta noitada de Lisboa amanhecer em Goa entardecer em Goa pode ser o resgate do coração que bate descompassado à toa amanhecer em Goa entardecer em Goa pode ser uma espuma de já coisa nenhuma só lembrança que voa amanhecer em Goa entardecer em Goa pode ser o inseguro fogo-fátuo no escuro lá no mastro da proa amanhecer em Goa entardecer em Goa pode ser este brusco silêncio ao lusco-fusco que nas almas ressoa amanhecer em Goa entardecer em Goa entre azul e lilás pode ser o fugaz tempo que não perdoa amanhecer em Goa entardecer em Goa nesta dura deriva da memória cativa que a saudade magoa amanhecer em Goa entardecer em Goa [instrumental] amanhecer em Goa | bis entardecer em Goa | entre azul e lilás pode ser o fugaz tempo que não perdoa amanhecer em Goa entardecer em Goa nesta dura deriva da memória cativa que a saudade magoa amanhecer em Goa anoitecer em Goa * José Luís Nobre Costa – guitarra portuguesa Francisco Gonçalves – viola Armando Figueiredo – viola baixo Fado da Corda Bamba
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 58-59; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 230-231) Música: José Campos e Sousa Intérprete: António Pinto Basto* com Maria João Quadros (in CD "Letras do Fado Vulgar", Zona Música, 2003) Se você me deixou na corda bamba e se eu me estatelei mordendo o pó não sei se isso é um fado ou se é um samba se mantém a toada ou se descamba sei que se foi embora e fiquei só não sei se isso é um fado ou se é um samba não sei se isto é um fado ou se é um samba se é um fado deixaste-me no Tejo se é samba foi no Rio de Janeiro duas medidas para um só desejo em fado ou samba assim no duplo ensejo da mesma língua a dar-lhe um só roteiro duas medidas para um só desejo duas medidas para um só desejo antes fique eu a meio do caminho da nossa vida para recordá-la ou mais depressa ou mais devagarinho poderei sussurrá-la num fadinho ou num sambinha doce murmurá-la ou mais depressa ou mais devagarinho ou mais depressa ou mais devagarinho se é fado direi "tu" mas imagina que se é samba prossigo com "você" em qualquer caso nunca desafina sujeito e predicado são rotina de em fado ou samba perguntar porquê em qualquer caso nunca desafina em qualquer caso nunca desafina mas se você me deixou na corda bamba e se eu me estatelei mordendo o pó não sei se isso é um fado ou se é um samba se mantém a toada ou se descamba sei que se foi embora e fiquei só e canto o mesmo fado e o mesmo samba [instrumental] em qualquer caso nunca desafina ai se você me deixou na corda bamba e se eu me estatelei mordendo o pó não sei se isso é um fado ou se é um samba se mantém a toada ou se descamba sei que se foi embora e fiquei só e canto o mesmo fado e o mesmo samba e canto o mesmo fado e o mesmo samba se você me deixou na corda bamba e se eu me estatelei mordendo o pó não sei se isso é um fado ou se é um samba se mantém a toada ou se descamba sei que se foi embora e eu fiquei só * Bernardo Couto – guitarra portuguesa Armando Figueiredo – viola e viola baixo Cajó (Carlos Jorge Vales) – percussão Produção e arranjos – José Campos e Sousa Arranjo de "Fado da Corda Bamba" – Armando Figueiredo Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores – Algés, em Outubro e Novembro de 2002 Engenheiro de som – Joel Conde Masterização – Joe Fossard Se a alma te reprova
Poema: William Shakespeare; trad. Vasco Graça Moura (ligeiramente adaptado) [tradução ipsis verbis >> abaixo] Música: Custódio Castelo Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)
Faz só meu nome teu amor e amor; e amas-me então pois eu te chamo Ardor. Se a alma te reprova eu venha perto, jura à cega, que o teu ardor eu fosse; ardor tem, como saber, sítio certo e assim me enchas, amor, medida doce. Ardor enche de ardor e amor teu cofre, ai, lardeia-o de ardor!, e ardor apronto e bem prova que em vazadouro sofre: se o número é grande, eu só não conto. Faz só meu nome teu amor e amor; e amas-me então pois eu te chamo Ardor. Então que eu passe em grupo sem ser visto, sendo um nas contas dessa feitoria; tem-me em nada, se te agradar registo de que este nada em ti é doçaria. Faz só meu nome teu amor e amor; e amas-me então pois eu te chamo Ardor. Faz só meu nome teu amor e amor; e amas-me então pois eu te chamo Ardor. * Custódio Castelo – guitarra portuguesa Alexandre Silva – viola Fernando Maia – viola baixo Se a alma te reprova eu venha perto (William Shakespeare; trad. Vasco Graça Moura, in "Os Sonetos de Shakespeare: Versão Integral", Soneto n.º 136, Lisboa: Bertrand Editora, 2002 – pág. 283) Se a alma te reprova eu venha perto, jura à cega, que o teu ardor eu fosse; ardor tem, como sabes, sítio certo e assim me enchas, amor, medida doce. Ardor enche de ardor e amor teu cofre, ai, lardeia-o de ardor!, e ardor apronto e bem prova que em vazadouro sofre: se o número é grande, eu só não conto. Então que eu passe em grupo sem ser visto, sendo um nas contas dessa feitoria; tem-me em nada, se te agradar registo de que este nada em ti é doçaria. Faz só meu nome teu amor e amor; e amas-me então pois eu me chamo Ardor. Soneto Destruído
Poema: Vasco Graça Moura (de "Quatro Sonetos", in "O Retrato de Francisca Matroco e Outros Poemas", Lisboa: Quetzal Editores, 1998; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 308) Música: Custódio Castelo Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Sensus", Emarcy/Universal Classics France, 2003)
Talvez logo na berma de uma estrada um par se beije transtornadamente e o destino os separe de repente entre as duas e as três da madrugada talvez a lua fria os desinvente e só lhes traga sombras e mais nada e por saída só lhes dê a entrada para o túnel da noite à sua frente [instrumental] talvez então as faces se desolem talvez depois em cinza e solidão a aurora ponha um luto, talvez colem as nuvens o seu dorso rente ao chão talvez por não ousar ninguém mereça o que viveu. Talvez não amanheça. * Custódio Castelo – guitarra portuguesa Alexandre Silva – viola Miguel Carvalhinho – guitarra clássica Fernando Maia – viola baixo Arranjos e produção – Custódio Castelo Co-produção – Fernando Nunes Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Classics France Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, entre Setembro e Dezembro de 2002 Cristal (Tinha Algum Vinho Ainda)
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 8-9; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 53) Música: Custódio Castelo Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Ulisses", Emarcy/Universal Music S.A.S. France, 2005) [instrumental] Tinha algum vinho ainda o copo que atirei por cima do meu ombro e foi cair ao Tejo de madrugada, amor, e havia esse lampejo do fogo em teu olhar a impor-me a sua lei da minha sombra à tua, em sombras pelo cais tinha um som inda rouco o fado que eu cantava tão perto já de ti, não sei se respirava, nem se era para sempre ou para nunca mais meu amor, meu amor, meu amor, por quanto me dizias estranho murmurar levado pelo vento por quanto era paixão e agora é desalento o meu rosto estremece em águas tão sombrias por quanta embriaguez então nos consumiu fiquei como o cristal, mas creio que esqueceste, do copo em que eu bebi e tu também bebeste que foi cair ao rio e nele se partiu meu amor, meu amor... * Custódio Castelo – guitarra portuguesa Ricardo J. Dias – piano Alexandre Silva – viola Fernando Maia – viola baixo Arranjos – Custódio Castelo e Ricardo J. Dias Produção – Custódio Castelo Co-produção e programação – Fernando Nunes Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music S.A.S. France Gravado e masterizado por Fernando Nunes, nos Estúdios Pé-de-Vento, Salvaterra de Magos, entre Junho e Setembro de 2004 Tango
Poema: Vasco Graça Moura (in "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 92-93) Música: Mário Laginha Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Kronos", Emarcy/Universal Music Classics France, 2009)
Deixa-me enlaçar-te quando a noite cai quando os nossos passos cruzam o destino, quando em toda a parte de entre as sombras sai em soluços baços choro repentino.
Pobre coração tinto de amargura, no vaivém mais triste já foste e vieste. Se na escuridão tanta luz impura noutros olhos viste, porque o não disseste?
Ah, desesperado, quanta hora perdida foge a todo o pano hoje em meu redor. Tango incendiado pela minha vida, voz que em mim engano mas que sei de cor,
luar entre os ramos, aço de um punhal, noite perfumada de cruéis lampejos, corpos que enlaçamos nessa hora fatal, alma entrecortada de adeus e desejos.
Pobre coração, tinto de amargura, no tango mais triste já foste e vieste. Se na escuridão tanta luz impura noutros olhos viste, porque o não disseste?
* Bernardo Couto – guitarra portuguesa Bernardo Moreira – contrabaixo Arranjos e produção musical – Ricardo J. Dias Produção – Yann Ollivier / Universal Music Classics France Produção executiva – Olga Carneiro / ONC Produções Gravado e masterizado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro e Dezembro de 2008 Soluço
Poema: Vasco Graça Moura Música: Pedro Moreira Intérprete: Cristina Branco* (in CD "Não Há Só Tangos em Paris", Emarcy/Universal Music Classics & Jazz France, 2011)
Aqui me tens agora toda nua deitada junto a ti como se fosse branco areal onde se espraia a lua e o marulhar das vagas é mais doce. Sou estrela-do-mar e sou molusco sou mucosa e cetim de lés-a-lés, sou de dor e prazer e sou um brusco redemoinho de algas e marés. Sou a ninfa que vai desgovernada feita espuma a entrar no temporal, sou vulcão, carne viva, uivo e golfada de amor e de agonia em espiral. Sou garras, dentes, língua, turbilhão da lava de carícias nas veredas de me enroscar em ti e ao fim, então, sou um longo soluço em labaredas. * Cristina Branco – voz João Paulo Esteves da Silva – piano Produção – Pedro Moreira Coordenação – Paulo Ochôa e Olga Carneiro / ONC Produções Culturais Produção executiva – Yann Ollivier / Universal Music Classics & Jazz France Gravado por Nelson Carvalho e Tiago de Sousa, em Setembro de 2010 Misturado por Nelson Carvalho, nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos Masterizado por Andy Vandette, no Masterdisk, Nova Iorque Presságios de Alfama
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 80-81; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 97-98) Música: Carlos Paredes ("António Marinheiro – Tema da Peça", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)
Névoa e partida vaivém das vagas luzes no mar vela perdida vozes pressagas a vêm tocar vozes pressagas quanto agoirar luz esquecida como te apagas a tremular ó louca vida, como naufragas a navegar vozes pressagas quanto agoirar morre a gaivota doente e à tua rota vai rente num triste trino a chama o teu destino, Alfama morte que sem olhos fita pelo mar vem a desdita pó de saudade, cinzas sem lume escuridão e tempestade noite e negrume no coração noite e negrume no coração às cegas vou e não sei quem violou esta lei quem poluiu o meu linho quem me impediu o caminho meu destino já marcado erros meus que são meu fado [instrumental] meu destino já marcado erros meus que são meu fado Lamento das Rosas Bravas
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 82-83; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 99-100) Música: Carlos Paredes ("Nas Asas da Saudade", in CD "Asas Sobre o Mundo", Philips/PolyGram, 1989) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)
Asas de um lenço no azul imenso ave que vai voar nave no alto mar agora que partiste fica onde moravas esta valsinha triste entre as rosas bravas e no fim do lamento no jardim sopra o vento vida assim desolada, névoa em mim, sombras, nada. Vem à toa a saudade e magoa e vibra no meu peito, chega e parte a chamar-te meu amor, ó meu amor perfeito e se um dia nalgum voo repentino a saudade for nas asas do destino vai correr mundo e levar o coração vagabundo à tua mão [instrumental] agora que partiste fica onde moravas esta valsinha triste entre as rosas bravas e no fim do lamento no jardim sopra o vento vida assim desolada, névoa em mim, sombras, nada. [instrumental] Asas de um lenço no azul imenso ave que vai voar nave no alto mar Tia Minha Gentil
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 88-89; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 104) Música: Carlos Paredes ("Canção para Titi", in CD "Canção para Titi: Os Inéditos de 1993", EMI-VC, 2000) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003) [instrumental] Tia minha tão gentil que me educaste, da minha vida adivinha o que sempre adivinhaste tia minha, que em menino me cuidaste, e da manhã à tardinha, eras flor curvando a haste tia minha, em pequeno acompanhaste tu sozinha, tu sozinha, tanta dor que dissipaste tia minha, cresci, sofri, que contraste, tia minha vem asinha, saber como me lembraste tia minha, por muito que a vida arraste, se eras outra mãe que eu tinha, mãe como ela ficaste tia minha, não mereces que te baste esta guitarra à noitinha: meu coração escutaste tia minha, que em menino me cuidaste, e da manhã à tardinha, eras flor curvando a haste tia minha, em pequeno acompanhaste tu sozinha, tu sozinha, tanta dor que dissipaste [instrumental] tia minha, não mereces que te baste esta guitarra à noitinha: meu coração escutaste Ah Não II
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 90-91; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 105) Música: Carlos Paredes ("Asas Sobre o Mundo", in CD "Asas Sobre o Mundo", Philips/PolyGram, 1989) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003) [instrumental]
Meu amor, meu amor, foste-me sonho e pão, foste febre e fervor, razão e sem razão, e sede e sabor das manhãs de verão, mas minha prisão, ah não e em tanto calor nada foi em vão, mas minha prisão, ah não [instrumental] meu amor, meu amor, não te peço perdão, não te peço favor, não te peço aversão, não te peço dor, nem a contrição, nem o coração, ah não agora ao sol-pôr meus olhos se vão e não voltarão ah não agora ao sol-pôr meus olhos se vão e não voltarão ah não Canção de Alcipe
Poema: Marquesa de Alorna, adaptado por Vasco Graça Moura [texto original >> abaixo] Música: Afonso Correia Leite e Armando Rodrigues, para o filme "Bocage" (1936), de José Leitão de Barros; arr. Carlos Paredes (grav. 1971, in CD "Na Corrente", EMI-VC, 1996, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)
Sozinha no bosque fui com os meus tristes pensamentos, lá calei minhas saudades, e fiz trégua aos meus tormentos. Olhei então para a lua que as sombras já rasgava, e no tremular das águas seus raios soltava, seus raios soltava. Nessa torrente da despedida vejo, assustada, a minha vida. Do peito as dores iam cessar, voa a tristeza torna o meu penar. Do peito as dores iam cessar, tornam tristezas a voar. Sozinha no bosque fui com os meus tristes pensamentos, lá calei minhas saudades, e fiz trégua aos meus tormentos. Olhei então para a lua que as sombras já rasgava, e no tremular das águas seus raios soltava, seus raios soltava. [instrumental] Nessa torrente da despedida vejo, assustada, a minha vida. Do peito as dores iam cessar, voa a tristeza torna o meu penar. Do peito as dores iam cessar, tornam tristezas a voar. [instrumental] CANTIGA (Marquesa de Alorna, 1750-1839, in "Poetas do Século XVIII", selecção, prefácio e notas de M. Rodrigues Lapa, 3.ª edição, Lisboa: Seara Nova, 1967 – págs. 103-104) Sozinha no bosque com meus pensamentos, calei as saudades, fiz trégua a tormentos. Olhei para a lua, que as sombras rasgava, nas trémulas águas seus raios soltava. Naquela torrente que vai despedida encontro, assustada, a imagem da vida. Do peito, em que as dores já iam cessar, revoa a tristeza, e torno a penar. Horas de Breu
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 92-93; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 106-107) Música: Carlos Paredes ("Melodia N.º 2", in LP "Guitarra Portuguesa", Columbia/VC, 1967, reed. EMI-VC, 1987, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)
No dia de eu me ir embora não sei se chora quem me prendeu na hora da despedida a minha vida quase morreu agora só corre a água da mágoa que amor me deu e mora no coração um vão só de breu na rua de madrugada esta balada triste gemeu e a lua quando tentava ver quem cantava viu que era eu agora só corre a água da mágoa que amor me deu e mora no coração um vão só de breu [instrumental] agora só corre a água da mágoa que amor me deu e mora no coração um vão só de breu [instrumental] Valsa das Sombras
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 94-95; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 108-109) Música: Gonçalo Paredes e Artur Paredes; arr. Carlos Paredes ("Valsa", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003)
Agora esta valsa na lenta espiral do baile de sombras em que às vezes danças quando a noite cai e é de pedra e cal no espelho vazio das minhas lembranças, agora esta valsa no avesso dos dias, na melancolia das suas oitavas, repete de leve nas horas sombrias as loucas palavras que me murmuravas agora esta valsa quando te atravessas nesta solidão envolta num xaile lembra-me uma a uma as tuas promessas na luz apagada deste fim de baile qualquer valsa agora são passos em volta, na vida sem rumo o adeus é cruel, galopam as nuvens deixadas à solta, ficou-me o deserto, ainda sabe a mel vejo o teu vulto e é muito tarde nesta distância sem regresso talvez a vida me acobarde se à tua ausência eu me confesso nem saberei o que me espera nem que rosário de amargura nem se é inverno a primavera nem se este amor se fez loucura [instrumental] agora esta valsa na lenta espiral do baile de sombras em que às vezes danças quando a noite cai e é de pedra e cal no espelho vazio das minhas lembranças, qualquer valsa agora são passos em volta, na vida sem rumo o adeus é cruel, galopam as nuvens deixadas à solta, ficou-me o deserto, ainda sabe a mel [instrumental] nem saberei o que me espera nem que rosário de amargura nem se é inverno a primavera nem se este amor se fez loucura Tim-Tim por Tim-Tim
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 86-87; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 102-103) Música: Carlos Paredes ("Canção", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Intérprete: Mísia* (in CD "Canto", Warner Jazz France, 2003) Do rio ao mar verde cor branca espuma vã não vás cuidar minha flor na luz de amanhã hoje é sem par e o sol-pôr tem na lua a irmã vai devagar meu amor feito de hortelã como dizer destas nuvens na sede? como entender o princípio e o fim? nesta espiral do viver dentro da canção há um sinal a bater só no coração sangue fatal a correr para a solidão e é musical a doer entre o sim e o não como dizer entre o não e o sim? como entender o princípio e o fim postos dentro de mim? postos dentro de mim e tim-tim por tim-tim? do rio ao mar verde cor branca espuma vã não vás cuidar minha flor na luz de amanhã hoje é sem par e o sol-pôr tem na lua a irmã vai devagar meu amor feito de hortelã [instrumental] hoje é sem par e o sol-pôr tem na lua a irmã vai devagar meu amor feito de hortelã * Mísia – voz Manuel Rocha – violino José Manuel Neto – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Quinteto de cordas "Camerata de Bourgogne": Jean-François Corvaisier – 1.º violino Leurent Lagarde – violoncelo Alain Pelissier – violeta Valérie Pelissier – violeta Pierre Sylvan – contrabaixo Henri Agnel – cistre (em "Ah Não II") Arranjos e direcção musical – Henri Agnel Direcção do projecto – Pascal Bussy / Warner Jazz France Produção executiva – Igor Szabason / IS Music Assistente – Laurence Gilles Gravado no Studio Gam, Waimes (Bélgica), em Junho de 2003 Engenheiro de som – Silvio Soave Misturas – Silvio Soave, no CATI Audio, Roman (França) Coração
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 76-77; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 94) Música: Mário Pacheco Intérprete: Mísia* (in CD "Movimentos Perpétuos: Música Para Carlos Paredes", Polydor/Universal, 2003) Coração de mar e vento que aos corações lanças redes és perpetuo movimento na guitarra do Paredes, pões esperança e amargura, vibras sombra e luz nas notas, e em surdina tens gaivotas de saudade e de aventura, coração tumultuário, ó faminto coração, solidário e solitário, a prender nuvens ao chão, coração da melodia, coração em que murmuram sol e lua e se misturam em funda melancolia, de tantas fomes e sedes coração terno e violento, és perpétuo movimento na guitarra do Paredes ó faminto coração, a prender nuvens ao chão, [instrumental] de tantas fomes e sedes coração terno e violento, és perpétuo movimento na guitarra do Paredes * Mísia – voz João Paulo Esteves da Silva – piano Produção – Mísia e João Paulo Esteves da Silva Produção executiva – Carmo Stichini Gravado, misturado e masterizado por Joe Fossard, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores Fogo Preso
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 44-45; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 73) Música: José Fontes Rocha Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/Naïve/EMI-VC, 2005) [instrumental] Quando se ateia em nós um fogo preso, o corpo a corpo em que ele vai girando faz o meu corpo arder no teu aceso e nos calcina e assim nos vai matando essa luz repentina até perder alento, e então é quando a sombra se ilumina, e é tudo esquecimento, tão violento e brando. Sacode a luz o nosso ser surpreso e devastados nós vamos a seu mando, ai nessa prisão o mundo perde o peso e em fogo preso à noite as chamas vão pairando e vão-se libertando fogo e contentamento, a revoar num bando de beijos tão sem tento que não sabemos quando são fogo, ou água, ou vento, [instrumental] a revoar num bando de beijos tão sem tento, que perdem o comando do próprio esquecimento. * José Manuel Neto – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Fado do Lugar-Comum
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 34-35; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 68-69) Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Bailado) Intérprete: Mísia* (in CD "Drama Box", Liberdades Poéticas/Naïve/EMI-VC, 2005) Vida amarga a que passei de infortúnios sem história governou-a a dura lei vida amarga a que passei do amor e da desmemória tristes palavras ao vento fui deitando devagar, sabiam ao meu lamento tristes palavras ao vento eram meu jogo de azar tenho os olhos rasos de água e em tanta melancolia como flor feita da mágoa tenho os olhos rasos de água nos limos da maresia a chorar mal reconheço o coração tão estranho assim virado do avesso a chorar mal reconheço a voz com que o acompanho meu pobre contentamento meus nervos então arrase ao ver momento a momento meu pobre contentamento ter falhado, estando quase ah, fado, és lugar-comum sustentas-me o coração sem lhe fazer bem nenhum ah, fado, és lugar-comum e pura contradição * José Manuel Neto – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Gaivota Doente
Perguntei ao mar salgado pela gaivota doente por seu voo desenhado à crista das ondas rente seu bico tocava a espuma e nas asas transportava branco estilhaço de bruma que à luz do sol faiscava perguntei ao mar salgado pela gaivota doente viveu na rosa-dos-ventos nos halos da maresia e entre os algodões cinzentos das nuvens quando as havia viveu na rosa-dos-ventos mas o mar já não a espelha não vem mais à maré vaza nem às nuvens aparelha nem o vento é sua casa nem o vento é sua casa [instrumental] perguntei ao mar salgado pela gaivota doente por seu voo desenhado à crista das ondas rente digo ao mar salgado assim: nunca mais ninguém a viu nem voa dentro de mim porque o meu amor partiu * José Manuel Neto – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Arranjos – José Manuel Neto, com colaboração de Carlos Manuel Proença Conceito e produção artística – Mísia Produção executiva – Inês Mota / Liberdades Poéticas, Lda. Gravado nos Estúdios Xangrilá (Lisboa), Studio Plus XXX (Paris), Studio de la Seine (Paris), Audio Spot Studio Digital (Madrid), Gallery Studio (Londres), Todd's Studio (Nova York) Engenheiro de som – Silvio Soave Fado de Santa Catarina
Poema: Vasco Graça Moura (versão em quadras) [versão em décimas >> abaixo] Música: José Fontes Rocha Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009) Quero a luz leve e vibrante da Lisboa ribeirinha fazer menos vida errante ter, ter uma casa bem minha casa antiga, casa nova mas de traça pombalina meu coração posto à prova junto a Santa Catarina ver do alto o rio, espelho que a certas horas revela algum quadro do Botelho a entrar-me pela janela durante o dia divide-a fronteira de sombra e luz marcada por uma orquídea que num copo de água pus e se à noite tem perfume que as rosas rubras lhe dão a lua dá-lhe um volume musical de solidão não é preciso mais nada: sobre a mesa pão e vinho a porta fica encostada empurra-a devagarinho. * Mísia – voz Luís Pacheco Cunha – violino Fado de Santa Catarina (Vasco Graça Moura, in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 18-19; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – págs. 60-61) No peitoril da janela uma caprichosa orquídea verde, castanha, amarela, sinal da tua perfídia. Quero a luz leve e vibrante da Lisboa ribeirinha quero uma casa bem minha e a vida menos errante, quero a gaivota distante que o meu olhar atropela, quero o rio que revela como se fosse um espelho algum quadro do Botelho no peitoril da janela. Quero a traça pombalina de uma casa antiga e nova, quero pôr o fado à prova junto a Santa Catarina. Já vi que a casa fascina a Mafalda, a Berta, a Lídia: quando é de dia divide-a fronteira de sombra e luz e num copo de água pus uma caprichosa orquídea. Se à noite as rosas lhe dão um esquisito perfume, a lua dá-lhe o volume musical da solidão. Mas sobre as tábuas do chão vê-se inda a sombra daquela orquídea curva e singela, flor das nossas tentações e das minhas condições, verde, castanha, amarela. E tu alta madrugada podes vir devagarinho, sobre a mesa há pão e vinho e a porta fica encostada, não é preciso mais nada. Creio que amas sem insídia, e a vida é tua, decide-a, mas se achas que isso a atrasa fico eu de olhos em brasa, sinal da tua perfídia. Fado Inventaire
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 102-103; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 115) [tradução livre >> abaixo] Música: Alfredo Marceneiro (Fado Bailado) Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)
C'est la chanson de ma vie entre soleil et brouillard, entre amour et jalousie, ce vol pur qui déshabille une mouette, un regard, c'est l'endroit et le revers de l'absence sans retour, c'est la passion, c'est l'enfer d'une attente à bout de nerfs, c'est la mer au point du jour, c'est le Taje qui murmure des échos des caravelles, c'est ta voix à l'embouchure, l'écume, la déchirure d'un printemps sans hirondelles. C'est la blancheur, le parfum des vieux quartiers de Lisbonne et la force du destin, l'ivresse de l'incertain dans l'âme qui robinsonne. [instrumental] Ma légitime défense mon coeur qui bat en sursaut la mesure de l'absence, l'espoir fou, l'impatience et voilà: c'est le fado... la mesure de l'absence, l'espoir fou, l'impatience et voilà: c'est mon fado... * Ângelo Freire – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Daniel Mille – acordeão Direcção artística – Mísia Produção executiva – Flavio D'Ancona Gravação e mistura – Charles De Schutter (Acousti Studio, Paris / Studio Rec'n Roll, Bruxelas) Masterização – Mike Marsh (The Exchange Mastering) Fado Inventário É a canção da minha vida entre o sol e a neblina, entre o amor e o ciúme, este voo puro que desnuda uma gaivota, um olhar, é o direito e o avesso da ausência sem regresso, é a paixão, é o inferno duma espera nervosa, é o mar da aurora, é o Tejo que murmura ecos das caravelas, é a tua voz no estuário, a espuma, o rasgão duma primavera sem andorinhas. É a brancura, o cheiro dos velhos bairros de Lisboa e a força do destino, a embriaguez do incerto na alma que isolada vive. Minha legítima defesa meu coração que bate em sobressalto a medida da ausência, a esperança insana, a impaciência em suma: é o fado... a medida da ausência, a esperança insana, a impaciência em suma: é o meu fado... Sem Saber
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 84-85; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 101) Música: Carlos Paredes ("Mudar de Vida – Tema", in LP "Movimento Perpétuo", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1988, 1998, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) Arranjo: Christina Pluhar Intérprete: L'Arpeggiata* com Mísia (in CD "Mediterraneo", Christina Pluhar/Virgin Classics, 2013)
[instrumental] Sem saber porque te amei assim, porque chorei por mim, sem saber com que punhais tu feres, magoas mais e queres, sem saber onde é que estás, nem como, o que te traz sem rumo, [instrumental] sem saber se tanto amor devora mais do que a dor que chora, sem saber se vais mudar, se então podes voltar ou não, sem saber se em mim mudou a vida, se em ti ficou perdida. Sem saber da solidão depois no coração dos dois, [instrumental] sem saber quanto me dóis na voz, ou se há heróis em nós. * Mísia – voz Daniel Pinto – guitarra portuguesa Sandro Daniel – viola de fado Sarah Ridy – harpa barroca Margit Übellacker – saltério Francesco Turrisi – cravo Boris Schmidt – baixo Christina Pluhar – tiorba Direcção musical – Christina Pluhar Fado da Capicua
Poema: Vasco Graça Moura (in "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 245-246; "Letras do Fado Vulgar", 2.ª edição, Lisboa: Quetzal Editores, 2001) Música: Carlos Maria Trindade Intérprete: Anabela* (in CD "Aether", Elec3city, 2005) [instrumental] Telefonei-te da rua 32123 urgente dizes que te deixe em paz azar o da capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás Moras no beco da lua 101 lado nascente mas em casa nunca estás má sina a da capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás [bis] É dia 11 a tua festa e eu não vou lá estar presente 33 anos farás há sempre uma capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás [bis] [instrumental] De 1001 modos flutua a sonhar-te a minha mente nas horas boas e más ansiosa capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás Mas se o olhar nos desagua e em meus olhos de repente o par dos teus se compraz é bonita a capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás [bis] É dia 11 a tua festa e eu não vou lá estar presente 33 anos farás há sempre uma capicua que se lê de trás p'ra a frente e da frente para trás [bis] [instrumental] * Ricardo Parreira – guitarra portuguesa Miguel Monteiro – viola José Marino de Freitas – baixo acústico Toada do Desengano
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 48-49; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 75) Música: Franklin Godinho (Fado Franklin de Sextilhas) Intérprete: Mariza* (in CD "Transparente", World Connection/Capitol/EMI-VC, 2005)
[instrumental] Este amor, este meu fado, tão vivido e magoado entre o sim e o todavia, este amor desgovernado, marcado a fogo e calcado em funda melancolia
este amor dilacerado, este amor que noite e dia me arrebata e me agonia, este amor desenganado, de saudades macerado, a encher-me a vida vazia,
[instrumental] este amor alucinado, este amor que desvaria entre o luto e a alegria, sendo assim desencontrado meu amor desesperado, que outro amor eu cantaria? * Mário Pacheco – guitarra portuguesa António Neto – viola Jorge Hélder – contrabaixo Paulo Sérgio Santos – clarinete Produção, arranjos e direcção musical – Jaques Morelenbaum Produção executiva – Albert Nijmolen, João Pedro Ruela e Paulo Junqueiro Gravado e misturado nos Estúdios AR, Rio de Janeiro, por Marcelo Sabóia e Pablo Vitório Assistente de mistura – Bruno Stehling Masterizado por Ricardo Garcia, nos Estúdios Magic Master, Rio de Janeiro Era a Noite Que Caía
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 30-31; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 66) Música: Carlos da Maia (Fado Perseguição) Joana Amendoeira & Mar Ensemble* (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)
Era a noite que caía e na sombra recolhia o voo das andorinhas. Era a voz que se calava, era a dor de ver que estava sem as tuas mãos nas minhas. Eram passos que escutei, que eram teus ainda pensei, iludiu-me o coração. Foram pela rua escura longe da minha amargura e acompanhei-os em vão. Fiquei perto da janela, pus-me a abri-la com cautela, fiz disfarce da cortina. Vi então na luz incerta que a rua estava deserta e deserta estava a esquina. Era só eu na escuridão, era no peito um rasgão, era já no céu a lua, que me importa?, à minha porta a sombra que se recorta bem pode ainda ser a tua. [instrumental] que me importa?, à minha porta a sombra que se recorta bem pode ainda ser a tua. * Joana Amendoeira – voz Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa Pedro Pinhal – viola de fado Paulo Paz – contrabaixo Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado) Captação de áudio – Luiz Delgado Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008 As Quatro Operações
Poema: Vasco Graça Moura Música: Pedro Pinhal e Joana Amendoeira Intérprete: Joana Amendoeira* (in CD "Sétimo Fado", Nosso Fado, 2010) Fui deitar contas à vida, fiz as quatro operações; num instante e de seguida, tirei certas conclusões. Comecei pela adição, porque te amei mais e mais; se fiz essa soma à mão, fiz também contas mentais. Aprendi a tabuada e vi que multiplicar era a forma acelerada de o meu amor aumentar. Depois vi que subtraía a tua deslealdade e o total se reduzia para menos de metade. Essa foi a consequência da mentira repetida e assim a minha existência acabava dividida. E agora não me comove dar-te uma prova provada: fiz sempre a prova dos nove e deu noves fora nada. [instrumental] Enfim, não leves a mal que eu te diga em voz serena: não tiro a prova real | 3x porque já não vale a pena. | * Joana Amendoeira – voz Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa Pedro Pinhal – viola de fado Paulo Paz – contrabaixo Filipe Raposo – piano Davide Zaccaria – violoncelo Paulo Santos – acordeão João Ferreira – percussão (em "As Quatro Operações") Arranjos musicais – Filipe Raposo Gravação – Maria João Castanheira, nos Estúdios Namouche, Lisboa, entre Dezembro 2009 e Fevereiro de 2010 Misturas no Estúdio La Strada, em Fevereiro e Março de 2010 Masterização – António Pinheiro da Silva, em Março de 2010 Vou Por Ruas, Vou Por Praças
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 25-26; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – págs. 202-203) Música: Viviane (Viviana Parra Guerreiro) Intérprete: Viviane* (in CD "Viviane", ZipMix/Zona Música, 2007) Vou por ruas, vou por praças por onde à noite derivo arcadas, paredes baças luzes trémulas, escassas e silêncios de que vivo [bis] rente ao baixo casario vou por húmidas vielas chega-me o cheiro do rio e confio e desconfio a desoras, sem cautelas [bis] e por isso em cada muro cada porta e cada esquina te procuro e me procuro por teu corpo me aventuro e o teu rosto me ilumina [bis] ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina sigo pois no labirinto de Lisboa a horas tardas vou perdido mas pressinto ou sei mesmo por instinto que nalgum lugar me aguardas [bis] e por isso em cada muro cada porta e cada esquina te procuro e me procuro por teu corpo me aventuro e o teu rosto me ilumina [bis] ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina ai, ai, amor, e o teu rosto me ilumina * [Créditos gerais do disco:] Viviane – voz, flauta Tó Viegas – guitarra portuguesa, guitarra acústica Rui Freire – bateria Yuri Daniel – contrabaixo Luís Simões – baixo acústico Paulo Borges – acordeão, piano Celina da Piedade – acordeão Nelson Conceição – acordeão Raimundo Seixas – guitarra portuguesa Miguel Drago – guitarra portuguesa Produção musical – Tó Viegas e Viviane Produção executiva – Tó Viegas Gravado e misturado por Tiago Lopes, no Estúdio ZIPMIX, Quelfes – Olhão, durante os meses de Novembro e Dezembro de 2006 Masterizado por Tó Pinheiro da Silva Ó Meu Amor, Não Te Atrases
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – págs. 40-41; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 215-216) Música: Viviane (Viviana Parra Guerreiro) Intérprete: Viviane* (in CD "As Pequenas Gavetas do Amor", ZipMix Records, 2011)
[instrumental] Ó meu amor, não te atrases vou agora pôr-te à prova esta noite é Lua Nova e tu não sabes de fases se chegas tarde eu te acuso de que andarás a enganar-me: vindo de ti, cada abuso me soa a sinal de alarme teus olhos arregalados não são desculpa melhor sabes cá chegar de cor e mesmo de olhos fechados nem um cego se perdia lá fora agitam-se os ramos nas brenhas da ventania é tarde, porém jurámos que enquanto este amor se guarde e seja o nosso segredo virias cedo, bem cedo e havias de partir tarde [instrumental] sendo a Lua Nova ou Cheia ou Crescente ou Minguante o que a nós nos incendeia é fogo de outro quadrante é clarão de uma outra luz que ao pressentir os teus passos acendi quando dispus quatro quartos nos teus braços [4x] * [Créditos gerais do disco:] Viviane – voz, flauta Tó Viegas – guitarra portuguesa, guitarra acústica Rui Freire – bateria Xico Santos – contrabaixo Nelson Conceição – acordeão Miguel Drago – guitarra portuguesa João Mogo – trompete Tiago Rêgo – percussões Produção musical – Tó Viegas e Viviane Produção executiva – Tó Viegas Gravado e misturado por Tiago Lopes, no Estúdio ZIPMIX, Quelfes – Olhão, durante os meses de Junho e Julho de 2010 Masterizado por Tó Pinheiro da Silva Fado dos Trevos
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 28-29; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 65) Música: Florêncio de Carvalho Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010)
A vida é feita de escolhas: quis escolher uma vez um trevo de quatro folhas mas só vi trevos de três quis então cantar nas ruas um fado que as três resuma mais valem três do que duas e mais duas que nenhuma e então cantando e somando o que quero e o que não quero no meu onde, como e quando, tinha de partir do zero e então cantando e somando o que quero e o que não quero [instrumental] acontece que entretanto deu-se um golpe de teatro encontrei-te e amei-te tanto que as três valeram por quatro e assim nas minhas escolhas eu tinha razão talvez transformando em quatro folhas trevos que eram só de três e então cantando e somando o que quero e o que não quero no meu onde, como e quando, tinha de partir do zero e então cantando e somando o que quero e o que não quero [instrumental] e então cantando e somando o que quero e o que não quero no meu onde, como e quando, tinha de partir do zero e então cantando e somando o que quero e o que não quero Mais e Menos
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 36-37; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 70) Música: José Marques do Amaral Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010) [instrumental] No amor, regras que contem, há uma só que não é vã: amar hoje mais do que ontem mas bem menos que amanhã e eu num fado que isto guarde também acrescentaria amo-te mais cada tarde do que amei nascendo o dia e cada vez muito mais do que antes, mas tais requintes são muito menos, ver vais, do que nos dias seguintes com resultados tão plenos como somar dois e dois: muito mais e muito menos conforme "antes" e "depois" no amor, regras que contem, há uma só que não é vã: amar hoje mais do que ontem mas bem menos que amanhã Não Me Peças Perdão
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 52-53; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 77) Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado CUF) Intérprete: Clara* (in CD "Encontros", Thape, 2010) [instrumental] Não me peças perdão, a culpa é minha: foi este tempo todo descuidado, foi não achar que o fim um dia vinha foi ficar sem defesas a teu lado foi nunca te lembrar em sobressalto foi não deixar falar a tua boca foi não pensar em ventos no mar alto foi tanta coisa, tanta, hoje tão pouca foi deixar-me viver em falsa paz foi afagar-te as mãos sem as prender ou foi prendê-las mal e tanto faz julgar que se morria de prazer agora é tarde, sim, tarde demais, tropeço às cegas nesta dura lei, não sei se vale a pena dar sinais e o que te hei-de dizer também não sei. [instrumental] * Clara – voz Luís Ribeiro – guitarra portuguesa Florêncio de Carvalho – viola Joel Pina – baixo acústico Talvez
Poema: Vasco Graça Moura Música: Luís Pedro Fonseca Intérprete: Cristina Nóbrega* (in CD "Retratos", Sony Music, 2010) Talvez digas um dia o que me queres, talvez não queiras afinal dizê-lo, talvez passes a mão no meu cabelo, talvez não pense em ti, talvez me esperes Talvez, sendo isto assim, fosse melhor falhar-se o nosso encontro por um triz talvez não me afagasses como eu quis, talvez não nos soubéssemos de cor Mas não sei bem, respostas não mas dês, vivo só de murmúrios repetidos, de enganos de alma e fome dos sentidos, talvez seja cruel, talvez, talvez... Se nada dás, porém, nada te dou neste vaivém que sempre nos sustenta, e se a própria saudade nos inventa, não sei talvez quem és mas sei quem sou. [instrumental] Talvez, sendo isto assim, fosse melhor falhar-se o nosso encontro por um triz talvez não me afagasses como eu quis, talvez não nos soubéssemos de cor Mas não sei bem, respostas não mas dês, vivo só de murmúrios repetidos, de enganos de alma e fome dos sentidos, talvez seja cruel, talvez, talvez... Se nada dás, porém, nada te dou neste vaivém que sempre nos sustenta, e se a própria saudade nos inventa, não sei talvez quem és mas sei quem sou. * Cristina Nóbrega – voz José Manuel Neto – guitarra portuguesa Rogério Ferreira – viola de fado Pedro Festa – contrabaixo Questão de Culpa
Poema: Vasco Graça Moura Música: Carlos Gonçalves Intérprete: Cristina Nóbrega* (in CD "Retratos", Sony Music, 2010) Que me deixasses só e te afastasses foi o que te pedi, sabe-lo bem e quando me deixasses, nem falasses do fim do nosso amor com mais ninguém Mas se andas por aqui como se a vida continuasse a mesma entre nós dois tristemente iludida, a despedida para um adeus cruel, mas só depois Se é ao banco dos réus que tu me arrastas como se o fim do amor fosse algum crime se com palavras gastas tu te afastas, mas queres que de ti eu me aproxime É que talvez não saibas que te amei e que esse louco amor não continua de tanto que passei, desesperei e se a saudade é minha, a culpa é tua [instrumental] É que talvez não saibas que te amei e que esse louco amor não continua de tanto que passei, desesperei e se a saudade é minha, a culpa é tua * Cristina Nóbrega – voz Carlos Gonçalves – guitarra portuguesa Rogério Ferreira – viola de fado Pedro Festa – contrabaixo Produção – Luís Pedro Fonseca Gravado e misturado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por André Tavares Masterizado por Fernando Abrantes Recado
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 15; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 193) Música: Miguel Ramos (Fado Alberto) Intérprete: Patrícia Costa* (in CD "Um Cantar Velado e Lento", Patrícia Costa, 2010) [instrumental] Leva a Lisboa azul quadriculada que a Vieira da Silva já pintou e a última gaivota que riscou a sua leve luz acidulada leva a névoa que cai pela amurada e a corrente do Tejo não lavou leva as pedras que o tempo afeiçoou e a saudade na voz sobressaltada leva uma vela branca desfraldada a que no mar salgado desenhou um rumo que dos mapas não constou e se desfez depois sob a nortada leva também a vida amargurada que o pobre coração desgovernou e o recado febril que não chegou contando da paixão desesperada leva o tempo que foi e não voltou e levarás contigo tudo e nada * Patrícia Costa – voz Miguel Amaral – guitarra portuguesa André Teixeira – viola João Penedo – contrabaixo Gravação e mistura – Francisco Maldonado, no Porto Masterização – Francisco Maldonado, em Londres Prometo Queimar as Cartas
Poema: Vasco Graça Moura (in "Mais Fados & Companhia", Lisboa: Público, 2004 – págs. 50-51; "Poesia 2001/2005", Lisboa: Quetzal Editores, 2006 – pág. 76) Música: Vanessa Sassine e José Ferra Intérprete: Cacau* (in CD "Cacau", Cacau, 2014) [instrumental] Prometo queimar as cartas que me escreveste e bem quis agora que tu te apartas ficar com as mais febris terei todas as cautelas, rasgo tudo, queimo tudo, a minha alma arde com elas e o coração fica mudo [instrumental] prefiro a tua franqueza mesmo que seja brutal: se já eram chama acesa, arderão mais, não faz mal [instrumental] quero coragem, vou tê-la, mas tê-la assim dói imenso, ter a vida e desfazê-la, meu amor, não me convenço e quanto mais cartas queime, nada me custa, descansa: dei-te tudo e então deitei-me nas cinzas da minha esperança. * Vanessa Sassine – voz José Ferra – guitarra André Mariano – percussão Jorge Fundo – baixo Pedro Vieira – piano Bruno Ferreira – clarinete Produção – Pedro Vieira e José Ferra Gravado e misturado por Pedro Vieira, na MusicFlat, Carvalhos – Vila Nova de Gaia, entre 25 de Abril de 2012 e 13 de Março de 2014 Masterização – Miguel Pinheiro Marques (Bender Mastering Studio) Capa do livro "Letras do Fado Vulgar" (Quetzal Editores, 1997) Desenho por Mário Eloy. Capa do livro "Mais Fados & Companhia" (Público, 2004) Ilustração por Stuart de Carvalhais.