Antes do 25 de Abril de 1974 eram muitas as canções que estavam proibidas de passar na Emissora Nacional. Havia, portanto, um condicionamento paternalista da música que era oferecida aos ouvintes («nós é que sabemos o que deveis ouvir e que não vos faça mal à cabeça»). Quarenta anos volvidos sobre "o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio" (citando Sophia) que trouxe ao país a Liberdade e ditou o fim da Censura, podemos afirmar que o condicionamento musical já não existe na rádio do Estado? Quem se der ao cuidado de prestar alguma atenção às Antenas 1 e 3 não terá dificuldade em aperceber-se de que as respectivas 'playlists' (listas pré-formatadas) são usadas como instrumento de censura – não assumida mas real – de uma porção muito significativa da melhor música portuguesa (cantada e instrumental).
Desse extenso rol de pérolas votadas ao ostracismo, aqui se apresenta uma que tem tudo a ver com a presente efeméride.
Verdade ou Mentira?
Letra e música: Nuno Cabrita
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)
[instrumental]
Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Verdade ou mentira
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?
Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?
Verdade ou mentira
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?
Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]
[instrumental]
Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Verdade ou mentira
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?
Verdade ou mentira
Que naquela manhã
O povo se alevantou?
Que naquela manhã
O povo se alevantou?
Verdade ou mentira
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?
Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]
[instrumental]
* Nuno Cabrita – voz e percussões
Henrique Lopes – guitarras acústicas e percussões
Manuel Chambel – baixo eléctrico
Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita
Gravado e misturado por José Liaça, no Tâmara Estúdio, Évora, em Abril de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999
URL: http://contrabando.com.sapo.pt/ http://palcoprincipal.sapo.pt/contrabando http://myspace.com/contrabandoonline
Sou marujo mestre e monge marujo de águas paradas mas que levam os navios às terras por mim sonhadas
também sou mestre de escola em que toda a gente cabe se depois de estudar tudo sentir bem que nada sabe
mas nem terra ou mar me prendem e para voar mais longe dum mosteiro que não houve e não haja me fiz monge.
Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 111)
UM HOMEM
EXTRA-ORDINÁRIO
Parece fácil falar de Agostinho da Silva. Em fim de vida e graças à
televisão, a sua figura, o seu pensar em directo e em voz alta para milhões de
pessoas, como se tivesse conseguido unir milagrosamente a unidade do seu ser à
sua aparência de Sócrates familiar, missionário sem mais missão que a de
inculcar que todos somos naturalmente sábios e filósofos, Agostinho da Silva
era a encarnação perfeita de uma existência transparente. No sentido original
do termo, uma existência não-hipócrita. O mínimo de comédia de que precisamos
para representar no palco da vida era-lhe estranho. Com razão, esta ausência de
pose, que em outros podia passar pela mais refinada das poses, fascinava
aqueles que assistiam, nem sempre convencidos, a este exemplo, mais do que
raro, de um homem em que era impossível separar o verbo da acção por ele
enunciada, como se fosse o acto mais óbvio e simples do mundo. Podíamos atenuar este espanto que já não o era, catalogando Agostinho da
Silva na categoria já sem surpresas, mas sempre surpreendente, do místico. É uma roupagem que lhe assenta
bem e nem se vê outra que melhor defina o estilo de existência que nele se
encarnou ou ele encarnou. Acontece apenas que a imagem do «místico» arrasta
consigo um certo número de referências, evoca uma atmosfera eclesial e
sobretudo, entre nós, uma tradição, por assim dizer, homologada oficialmente
por uma autoridade institucional ou institucionalizada. E como era visível,
nada estava mais distante de Agostinho da Silva do que esta inscrição do autor
de Aproximações ao círculo da mística
cristã tal como vulgarmente se entende e é exemplificada desde S. João da Cruz
a Santa Teresa, ou mesmo pelo tão evocado S. Francisco de Assis. Claro que
todos os «místicos», ou aquilo que assim chamam aqueles que o não são, mesmo os
mais teologicamente insuspeitos, relevam do excepcional e da excepção. A esse
título, Agostinho da Silva não destoaria na ilustre e canónica companhia.
Digamos que pode figurar na mais rara espécie de homens que são os «místicos»
se lhe acrescentarmos uma dose suplementar de «extravagância» ou, se se
prefere, de excentricidade. Não em meros termos de comportamento exterior, de total desprezo pelas
regras, costumes ou ritos mundanos, que fazem parte do folclore da mais
inequívoca santidade, mas da íntima e irredutível ex-centricidade. Agostinho da
Silva não tendeu, graças a qualquer tipo de ascese, para uma experiência
inefável do que se convenciona designar por Absoluto, transcendência mais ou
menos heterogénea à essência humana. Agostinho da Silva, se foi «místico»,
foi-o de um misticismo «sulfuroso» pela natureza naturalista da sua visão do
mundo e da vida. Não se instalou na excepção, pregou e viveu no combate à ideia
de excepção, em todos os domínios, numa espécie de anarquismo profético e
radioso, no fundo mais próximo de Rousseau que de qualquer figura clássica da
família «mística». O misticismo de Agostinho da Silva — se assim se lhe pode chamar — é um
misticismo por defeito, por
intencional desconsideração daquilo que, em todas as ordens, desde a do
pensamento, da imaginação, da vontade, mas também da acção, se apresenta como exemplar. Foi, com uma naturalidade
quase provocante, um marginal, mas
não da marginalidade maldita, sacrificial, infeliz, que tanto agrada aos
«mártires» da liberdade, da criação ou da acção. Se não fosse de essência
provocatória, quase demoníaca, o seu utopismo, o seu optimismo voluntarista, a
sua aparente ou realíssima recusa do trágico, seriam quase intoleráveis. É
possível imaginar que neste grau, a sua aposta, diametralmente antagónica da de
Pascal, releva, em qualquer desvão, de não sei que paradoxal ressentimento. Há
em Agostinho da Silva um tão extremado gosto pela «estaca zero» do humano, uma
tão intensa denegação de tudo o que signifique ou pretenda, a que título for,
ser tido como «distinto», como «valioso» no sentido de se arrogar assim como
signo de qualidade ou mérito, que só em termos de ressentimento parecem
explicáveis. E, todavia, precisamente, a imagem que ele deu a quem o conheceu
ou teve ocasião de o ver quando, cândida e desarmadamente, se ofereceu ao juízo
público, parece incompatível com esse reflexo, característica de alguém
secretamente ferido, como precisamente, mas também dando a impressão oposta, o
foi Jean Jacques Rousseau. Estamos a anos-luz daquela imagem-mito que não só nos últimos anos, mas
penso, sempre, se colou ao homem e à figura de Agostinho da Silva, como exemplo
de existência clara, sem sombra de sombra, vida activamente inserida na sua
«pregação profética» sem hiato com a sua vida. Não foi um vagabundo irónico
como Sócrates, nem um provocador cénico, mais em actos do que em palavras, como
Diógenes, mas de um e outro exemplificou, aparentemente sem suscitar nem
fundado espanto, nem desconfiança, junto daqueles que, incapazes de medir o
alcance da sua palavra intrinsecamente subversiva,
mais inclinados estavam — ou estão — a compará-lo a uma figura como S.
Francisco de Assis. Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original
escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o
revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os
finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição
conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares. Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde
Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto
e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de
gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um
clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade
portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d' A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma
acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de
Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n' Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo
da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com
o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo
onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão
caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais
significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para
Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta
de Águia e futuro historiador dos
Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos
concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer,
«sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo
e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da
civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e
não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de
paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S.
Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho
depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de
Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência
com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura
impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão
inocentemente sensual. Agostinho da Silva retém um certo número de traços da visão do mundo ou
da leitura da nossa maneira de ser proposta por Jaime Cortesão. Não foi
impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais
«erótico» e pouco recomendável, segundo os nossos hipócritas códigos vigentes,
autor antigo, Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade
característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode
deixar de se designar por «erótica» agostiniana. Um erotismo que não tem apenas
o conteúdo negativo da recusa ou denegação do ascetismo, essência da comum
espiritualidade lusitana, desde os bons tempos de Heitor Pinto, mas o gosto
positivo pela vida, na sua natural pulsão vital e fonte de sedução. O seu
famoso paracletismo, a apologia do Espírito Santo, não é apenas um eco mimético
da tradição joaquimista [referente a Joaquim de Fiore], uma maneira de
considerar findo o reino da Lei (o do Pai) e o do Sacrifício (o do Filho) com a
entrada no terceiro reino, o da Liberdade, que é, sobretudo, o do Amor. Esse
seu culto do Espírito Santo é o de uma nova Criação, filha da esperança e
aberta como a esperança sobre um futuro em que o homem se descobrirá, ou
descobrirão, ao abdicarem das formas imperfeitas da Lei e da Dor, como «eternas
crianças» e imperadores da sua própria vida. Foi isto que Agostinho da Silva
reteve como mais válido e profundo em Fernando Pessoa, o Fernando Pessoa da Mensagem, a quem dedicou a primeira
leitura simbólica coerente (na luz da própria visão) que se conhece. Este homem
de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma
espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura
livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos
abandonamos ao sopro do «Espírito Santo», à lição de uma Natureza que ensina
quando nós nos calamos. E assim, com o tempo, e cada vez mais despojado das
realidades e investiduras do mundo, do mundo social e dos seus ritos, do mundo
intelectual e das suas rendosas imposturas, Agostinho da Silva se revestiu, com
todos os sinais da autenticidade, das conotações de um verdadeiro símbolo e até
herói da Contra-Cultura. Ou melhor, de qualquer coisa mais rara que não vive da
negação, mesmo a mais fundada — e em Agostinho da Silva também esse aspecto
existe —, mas da transcendência do cultural, da vitória sobre ele quando se
olha todo o seu imponente império, não como mera poesia da sandália dos deuses,
mas com a inocência de uma criança que acaba de abrir os olhos para o Universo
e a sua gratuita magnificência. Como toda a gente da minha geração, conheci Agostinho da Silva através
dos célebres fascículos vendidos então a quinze tostões, que punham o público
ledor, culto ou popular, na intimidade de grandes figuras e, sobretudo, grandes
e saborosos textos do passado. O primeiro que comprei foi sobre Stendhal, autor
então em vias de reconhecimento universal e hoje, pensando bem, vejo nisso não
um mero acaso, mas a chave para a futura inscrição de um homem que foi a
Liberdade, mesmo no campo de um autor tão pessoal, tão classicamente
inclassificável como o autor d' A Cartuxa
de Parma. Mais tarde, li a sua tradução de três ensaios de Montaigne, pai
da prosa do corpo, da alma e da inteligência, seu outro modelo — à parte o
impessoal dos clássicos da infância — que o da sua própria vida, observados sem
complacência, mas também sem reticências. Mas só o acaso de uma errância
brasileira me fez encontrar o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio,
naturalista por conta própria, em Santa Catarina, onde então Agostinho da Silva
era uma espécie de oficioso secretário de assuntos culturais e, como sempre, um
pólo de vida activamente contemplativa, de que não conheci segundo exemplo.
Recebeu-me (recebeu-nos, a mim e minha mulher) como se me conhecesse desde
sempre. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda,
divertido com o meu assombro e não menos pequeno temor. A Natureza e a sua face
misteriosa, terrífica, o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas, repousava
nas suas mãos como num berço. Tinha domesticado «o mal» como se ele não
existisse. Ou como se ele não o quisesse ver. Não sei se isto basta para
perceber que espécie de «misticismo» era o seu. Mas bastou-me para sentir, e
definitivamente, que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que
me foi dado conhecer. Lisboa, 7 de Março de 1995.
EDUARDO LOURENÇO (prefácio ao livro "A Última Conversa - Agostinho da Silva,
Entrevista de Luís Machado", Lisboa: Editorial Notícias, 1995)
Agostinho da Silva [>> resenha biográfica e >> bibliografia] faleceu a 3 de Abril de 1994, faz agora vinte anos. Ocasião para revisitarmos o ideário do visionário pensador, servindo-nos de alguns dos seus escritos (poemas e textos de cariz ensaístico), em voz alheia, seguidos dos vídeos das "Conversas Vadias", pois esta homenagem ficaria incompleta se não se pudesse ouvir o professor pela sua boca. A propósito de registos em voz própria, importa não esquecer os realizados para a rádio, que não foram poucos, dos quais destaco as entrevistas concedidas a José Nuno Martins (para a Rádio Comercial), a Fernando Alves (para a Antena 1 e, mais tarde, para a TSF) e a Graças Vasconcelos (para a Antena 1 – programa "Imaginário"). Afigura-se pois pertinente lançar um repto à direcção da Antena 1: que se faça um ciclo evocativo de Agostinho da Silva aproveitando o material existente no arquivo histórico da RDP!
Soldado no Brasil, Marinheiro em Portugal
Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 46) Música: Paulo de Carvalho Intérprete: Paulo de Carvalho* (in CD "Cores do Fado", MDL/Som Livre, 2004)
Fui soldado no Brasil marinheiro em Portugal dos meses prefiro Abril aurora primaveril de liberdade ideal das festas vou por Natal em que inocência infantil triunfante vence o mal e sempre em sonhos de anil sempre em vagas de real fui soldado no Brasil marinheiro em Portugal.
* Paulo de Carvalho – voz André Sarbib – piano acústico Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola acústica Produção musical – Fernando Abrantes e Paulo de Carvalho Produção executiva - Fernando Abrantes e Renato Júnior Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Março de 2004 Gravação, mistura e masterização – Fernando Abrantes
Ontem sonhei que sonhava
Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 77) Música: Henrique Lopes Intérprete: Contrabando* (in CD "Coisas do Ser e do Mar", AE-Artes do Espectáculo, 2008)
Ontem sonhei que sonhava e me mantinha desperto contente por me escapar de um mundo que me era incerto
Quando tornei a dormir já rompia a madrugada e na clara luz não tinha certeza alguma de nada
Seguro porque voltava ao que é lógico e real à vida que firme sabe do que é bem e do que é mal
* Nuno Cabrita – voz Henrique Lopes – viola campaniça Carlos Menezes – baixo eléctrico, contrabaixo Valter Passarinho – percussão, bateria Direcção musical – Nuno Cabrita, Henrique Lopes e Carlos Menezes Produção – AE-Artes do Espectáculo, Lda. Produção executiva – Nuno Cabrita & AE-Artes do Espectáculo, Lda. Gravado, misturado e masterizado entre Junho e Dezembro de 2005 Captação de som – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém & Carlos Menezes, no CM Estúdio, Évora Mistura – António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém
Teria passado a vida
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 123) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
Teria passado a vida atormentado e sozinho se os sonhos me não viessem mostrar qual é o caminho
umas vezes são de noite outras em pleno de sol com relâmpagos saltados ou vagar de caracol
quem os manda não sei eu se o nada que é tudo à vida ou se eu os finjo a mim mesmo para ser sem que decida.
Três votos fará aquele
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 124) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
Três votos fará aquele que não ser tolo decida e venha deles primeiro o de obediência à vida
será o segundo a vir o de não querer ser rico o muito passe de largo o pouco lhe apure o bico
não violar-se a si próprio como principal o veja alto ou baixo gordo ou magro assim nasceu assim seja.
Tudo pode vir do nada
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 125) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
Tudo pode vir do nada várias tintas várias telas esta vida em que vivemos é apenas uma delas
mil outras no mesmo espaço mil outras em hora igual rivalizam no sonhar o que pensamos real
e podemos ir além neste quadro que vos traço tempo é tempo imaginado em que se limita o espaço.
Vos direi o que é o tal
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 140) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
Vos direi o que é o tal alicerce em que me afundo todos somos limitados não o é porém o mundo
não ireis pois por ninguém e por mim menos que nada a vida vos seja guia consultada e meditada
ou quem sabe se sonhada ou quem sabe se inventada.
Por causa do mundo curvo
Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 83) Música: Henrique Lopes Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)
Por causa do mundo curvo eis aqui o que procuro ter eu amor do passado com a paixão do futuro
mas há remédio bem simples para não ser inseguro é amar vida sem tempo ou seja o presente puro.
* Nuno Cabrita – voz Henrique Lopes – guitarras acústicas José Carias – baixo eléctrico Luís Melgueira – percussões Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes Produção – Nuno Cabrita e Contrabando Produção executiva – Nuno Cabrita Gravado por Rui Guerreiro, no MG Estúdio, entre Setembro de 1998 e Março de 1999 Misturado por António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Abril e Maio de 1999 Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999
Como penso que a matéria
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 28-29) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)
Como penso que a matéria é só construção das almas tenho eu que a examinar com atenção e nas calmas
guiado por quem a sabe com precisão matemática lhe conhece o que é seguro e o que é audácia temática
e como espero que a ciência tenha sempre um atractivo o de não dar do que existe conceito definitivo
não só irei prosseguindo em a saber mais e mais me esforçarei por que todos me possam ser como iguais
passarei com todo o gosto por bom materialista e em tudo que digam espírito lhe procurarei a pista
incitarei a comer incitarei a dormir incitarei a morar e às doenças resistir
goze cada qual matéria até dela se enjoar e solte as asas depois se seu gosto for voar
que eu voarei por meu lado no céu que os outros fizerem quando depois de ter tudo nem migalhas mais quiserem
irei calmo como sempre pois nada me precipita só depois de ser da física passarei à metafísica
e bailarei com as almas que quiserem vir comigo feliz de serem felizes as que ficaram consigo.
Viva a Vida (Disse a Vida)
Poema: Agostinho da Silva (poema "Mas que gente esta tão triste" + dois primeiros versos do poema "Viva a vida disse a vida", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 63 e 142) Música: Paulo de Carvalho Intérprete: Claud* (in CD "Contradições", Som Livre, 2006)
Mas que gente esta tão triste fumadores e fumadoras com o seu império perdido seu passado esquecido e o futuro inconcebido mas tem a vida seu jeito com seu destino perfeito seus planos a cumprir só não os quis descobrir para nada os demolir
Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [4x]
Que ridícula figura farão perante seus netos se é que têm energia bastante para haver netos ou se não recusem estes a nascer de tais avós que sois claro todos vós e seremos todos nós se formos no mesmo rumo
Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [4x]
Que sois claro todos vós e seremos todos nós se formos no mesmo rumo com uma excepção parece esta de mim que não fumo [2x]
Viva a vida, disse a vida e nunca mais se morreu [6x]
* [Créditos gerais do disco:] Claud – voz Paulo Cavaco – piano, teclados e programações Ruca Rebordão e Paulo de Carvalho – percussões Amadeu Magalhães – violas braguesas, cavaquinho e gaita-de-foles Rui Curto – acordeão Paulo Sousa – sitar João Moreira – tablas Coros – Claud, Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho Arranjos – Paulo Cavaco Direcção musical de projecto – Paulo de Carvalho Produção – Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho Produção executiva – Claud Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por Samuel Henriques, e nos Estúdios MusicArt, Barreiro, por Paulo Cavaco Mistura – Fernando Abrantes e Paulo Cavaco, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos Masterização – Fernando Abrantes
Bendito seja o desejo
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 21) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)
Bendito seja o desejo abençoada a carícia quanta pena das meninas deserdadas de malícia
ou por medo do diabo ou pelo dente de siso não tiveram a feliz propulsão do paraíso
propulsão não expulsão que foi ela a força dada para que houvesse na vida a mais perfeita jornada
em que regresso nenhum desejamos ao céu falho em que do pai só havia parado olhar duro ralho
a outro mundo vagamos nossos votos ali vão os de sumirmos de todo no ponto sem dimensão
e vai uma nota ainda de que peço mil perdões o ponto sem dimensão dá todas as dimensões.
Meu amor que te foste sem te ver
Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 59) Música: Paulo de Carvalho Intérprete: Joana Amendoeira* & Mar Ensemble (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)
Meu amor que te foste sem te ver que de mim te perdeste sem te amar quem sabe se outra vida tu vais ter ou se tudo se perde sem voltar
ou se é dentro de mim que tem de haver tanta força no meu imaginar que o poeta que é Deus o vá reter e te dê vida e faça regressar
para de novo o sonho desfazer num contínuo surgir e retornar ao nada que dá ser ao que é querer ao fado que só dá para se dar
por tudo estou amor e merecer o que venha para eu te relembrar só adorando o nada pretender só vogando nas águas de aceitar.
* Joana Amendoeira – voz Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa Pedro Pinhal – viola de fado Paulo Paz – contrabaixo Filipe Raposo – acordeão Mar Ensemble: António Barbosa – 1.º violino Paula Pestana – 2.º violino Ricardo Mateus – viola d'arco Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas Maria Rosa – flauta Rui Travasso – clarinete Carlos Alberto – trompete João Carlos – trompa Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado) Captação de áudio – Luiz Delgado Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008
Nada fiz a contragosto
Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 62 e 90) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
Nada fiz a contragosto tudo foi um prazer meu e nada pedi à vida do que a vida tanto deu.
Para tantos existir é uma queixa pegada terem de ganhar a vida quando afinal lhes foi dada.
Na tristeza dos triunfos
Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 73) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)
Na tristeza dos triunfos e na alegria das dores és nada pelo que digas só vales pelo que fores.
Quem fala de Amor...
Texto de Agostinho da Silva (in "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 23; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 239) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)
Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama.
Nem verdade nem mentira
Poema de Agostinho da Silva (quinta e última quadra do poema "Por tudo perguntou Sócrates", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 88) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)
Nem verdade nem mentira uma coisa assim assim e se queres saber mais não me perguntes a mim.
O que escrevo de versinho
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – pág. 79) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)
O que escrevo de versinho é na verdade o que sinto mas porque procuro a forma de qualquer maneira minto
o que eu quero era poder dar naquilo que escrevesse de tal modo o que me sou que a todos apreendesse
sem os prender no entanto deixando-os livres de ser mas que sentissem então o que eu fosse sem dizer
ser poema não poeta é que vejo como um alvo se o não for para que vivo mas se for me vivo e salvo.
Ser Poema
Poema: Agostinho da Silva (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 / "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990) Música: Pedro Abrunhosa Intérprete: Anamar* (in CD "Anamar", Metropolitana, 2013)
Se eu chegar a ser de um Outro mas de mim não me perdendo e esse Outro todos os outros que comigo estão vivendo
Não só homens mas também os animais e as plantas e os minerais ou os ares e as estrelas tais e tantas
Terei decerto cumprido meu destino e com que sorte para gozar de uma vida já renascida da morte
Mais que tudo quero ter pé bem firme em leve dança que o saber seja de adulto mas o brincar de criança
Não corro como corria nem salto como saltava mas vejo mais do que via e sonho mais que sonhava
Ser poema não poeta é que vejo como um alvo se não o for para que vivo mas se for me vivo e salvo [bis]
Viva a vida disse a vida e nunca mais se morreu Deus em si nos retomando o tempo eterno nos deu
Nunca voltemos atrás tudo passou se passou livres amemos o tempo que ainda não começou
Cada vez mente que sonha dentro de mim tem mais voz sonhadora que se sonha e nos sonha a todos nós
Mais que tudo quero ter pé bem firme em leve dança que o saber seja de adulto mas o brincar de criança
Não corro como corria nem salto como saltava mas vejo mais do que via e sonho mais que sonhava
Ser poema não poeta é que vejo como um alvo se não o for para que vivo mas se for me vivo e salvo. [bis]
* [Créditos gerais do disco:] Anamar – voz Paulo Borges – acordeão, piano, samplers Tiago Maia – guitarras (eléctrica e acústica) Francisco Santos – baixo, contrabaixo Rui Freire – bateria, percussão Coros – Anamar, Francisco Santos, José Bettencourt, Paulo Borges, Rui Freire, Tiago Maia Arranjos e direcção musical – Paulo Borges Produção – Anamar Co-produção – Paulo Borges Produção executiva – Anamar, Paulo Borges, Paulo Ventura Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Monte e José Fortes, em Agosto de 2012 Misturas – José Fortes Masterização – Andy Van Dette
Queria que os portugueses
Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – págs. 97-98) Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)
Queria que os portugueses tivessem senso de humor e não vissem como génio todo aquele que é doutor
sobretudo se é o próprio que se afirma como tal só porque sabendo ler o que lê entende mal
todos os que são formados deviam ter que fazer exame de analfabeto para provar que sem ler
teriam sido capazes de constituir cultura por tudo que a vida ensina e mais do que livro dura
e tem certeza de sol mesmo que a noite se instale visto que ser-se o que se é muito mais que saber vale
até para aproveitar-se das dúvidas da razão que a si própria se devia olhar pura opinião
que hoje é uma amanhã outra e talvez depois terceira sendo que o mundo sucede sempre de nova maneira
alfabetizar cuidado não me ponham tudo em culto dos que não citar francês consideram puro insulto
se a nação analfabeta derrubou a filosofia e no jeito aristotélico o que certo parecia
deixem-na ser o que seja em todo o tempo futuro talvez encontre sozinha o mais além que procuro.
Portugal foi formado na beira de um Oceano
Texto de Agostinho da Silva (in "Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI", N.º 3, Lisboa: Zéfiro, 1.º Semestre de 2009) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)
Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão por vezes esmagadora imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânica imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, até enformarem aquilo que hoje conhecemos como o "português" e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão-de frutificar e unir nesse carácter aventureiro comum todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da História. Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo além, talvez, excepto, nos Gregos e nos Fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso, um país tão pequeno conseguiu colonizar um país continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pôde para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nós um "país europeu" entrámos em longa depressão colectiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente. Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, até a um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do Norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de "vida conversável" e aventura empolgante as formas de vida que os neo-germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar; o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o português e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos séculos depois a adesão a uma Comunidade Europeia com a qual nada temos a ver.
O povo culto
Texto de Agostinho da Silva (de "O Terceiro Caminho", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 26; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 217) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)
Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.
Tolerância às opiniões
Texto de Agostinho da Silva (de "Tolerância", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – pág. 20; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – pág. 214) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)
Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.
Realização e êxtase
Texto de Agostinho da Silva (de "Sobre o Êxtase", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – págs. 17-18; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 212-213) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)
Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores. Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória. Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós qualquer coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.
O grande educador
Texto de Agostinho da Silva (de "Sanderson of Oundle", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 45-46; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 106-107) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)
É além de tudo essencial que a escola se não separe do mundo; não há escolas e oficinas; há um certo género de oficinas em que trabalham crianças nas tarefas que lhes são adequadas e lhes vão facilitando o desenvolvimento do corpo e do espírito; vão colaborando no que podem e no que sabem para que a vida melhore. Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão. O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola; que haja o trabalho proporcionado e alegre, amorosamente feito, porque se sabe necessário ao progresso, levado a cabo numa atitude de artista e de voluntário, disciplinado remador na jangada comum; que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.
Os malefícios da rivalidade na escola
Texto de Agostinho da Silva (de "Da Emulação", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 49-50; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 109-110) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)
Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e a ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar. A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de "struggle" que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam. Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta. Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.
O professor como mestre
Texto de Agostinho da Silva (de "Projecto de um Mestre", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 41-43; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 103-104) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)
Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro. A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário. Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.
Compreender e unir
Texto de Agostinho da Silva (de "Por um Fim de Batalha", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – págs. 59-60; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – págs. 116-117) Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)
Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento. Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia. Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita. Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.
Capa do livro "Uns Poemas de Agostinho" (Ulmeiro, 1989) Desenho de Miguel Horta.
A seguir, apresenta-se a integral das "Conversas Vadias" (treze episódios), originalmente transmitidas pela RTP-1 no ano de 1990.
Conversas Vadias (com Agostinho da Silva) Ep. 1 - Maria Elisa Domingues (jornalista)