25 abril 2014

Contrabando: "Verdade ou Mentira?"



Antes do 25 de Abril de 1974 eram muitas as canções que estavam proibidas de passar na Emissora Nacional. Havia, portanto, um condicionamento paternalista da música que era oferecida aos ouvintes («nós é que sabemos o que deveis ouvir e que não vos faça mal à cabeça»). Quarenta anos volvidos sobre "o dia inicial inteiro e limpo / onde emergimos da noite e do silêncio" (citando Sophia) que trouxe ao país a Liberdade e ditou o fim da Censura, podemos afirmar que o condicionamento musical já não existe na rádio do Estado? Quem se der ao cuidado de prestar alguma atenção às Antenas 1 e 3 não terá dificuldade em aperceber-se de que as respectivas 'playlists' (listas pré-formatadas) são usadas como instrumento de censura – não assumida mas real – de uma porção muito significativa da melhor música portuguesa (cantada e instrumental).
Desse extenso rol de pérolas votadas ao ostracismo, aqui se apresenta uma que tem tudo a ver com a presente efeméride.



Verdade ou Mentira?



Letra e música: Nuno Cabrita
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)


[instrumental]

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?

Verdade ou mentira
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?
Que os poemas roucos
Ainda se ouvem aos poucos?

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?
Que naquela manhã
Vila Morena cantou?

Verdade ou mentira
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?
Que os filhos da madrugada
Ainda sussurram na noite?

Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]

[instrumental]

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?
Que naquela manhã
Chegou a liberdade?

Verdade ou mentira
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?
Que os poetas loucos
Já só os ouvem os moucos?

Verdade ou mentira
Que naquela manhã
O povo se alevantou?
Que naquela manhã
O povo se alevantou?

Verdade ou mentira
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?
Que agora outros vampiros
Na alvorada voam?

Na verdade,
Temos liberdade
P'ra sempre cantar
Mas sem incomodar;
Se é verdade
Que temos liberdade,
Porque dormem esquecidas
Crianças na cidade?
[bis]

[instrumental]


* Nuno Cabrita – voz e percussões
Henrique Lopes – guitarras acústicas e percussões
Manuel Chambel – baixo eléctrico
Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita
Gravado e misturado por José Liaça, no Tâmara Estúdio, Évora, em Abril de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999
URL: http://contrabando.com.sapo.pt/
http://palcoprincipal.sapo.pt/contrabando
http://myspace.com/contrabandoonline


Nota:
Outras pérolas da música portuguesa votadas ao ostracismo podem ser apreciadas em http://perolasdamusicapt.blogspot.com

03 abril 2014

Celebrando Agostinho da Silva



Sou marujo mestre e monge
marujo de águas paradas
mas que levam os navios
às terras por mim sonhadas

também sou mestre de escola
em que toda a gente cabe
se depois de estudar tudo
sentir bem que nada sabe

mas nem terra ou mar me prendem
e para voar mais longe
dum mosteiro que não houve
e não haja me fiz monge.


Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 111)


UM HOMEM EXTRA-ORDINÁRIO

Parece fácil falar de Agostinho da Silva. Em fim de vida e graças à televisão, a sua figura, o seu pensar em directo e em voz alta para milhões de pessoas, como se tivesse conseguido unir milagrosamente a unidade do seu ser à sua aparência de Sócrates familiar, missionário sem mais missão que a de inculcar que todos somos naturalmente sábios e filósofos, Agostinho da Silva era a encarnação perfeita de uma existência transparente. No sentido original do termo, uma existência não-hipócrita. O mínimo de comédia de que precisamos para representar no palco da vida era-lhe estranho. Com razão, esta ausência de pose, que em outros podia passar pela mais refinada das poses, fascinava aqueles que assistiam, nem sempre convencidos, a este exemplo, mais do que raro, de um homem em que era impossível separar o verbo da acção por ele enunciada, como se fosse o acto mais óbvio e simples do mundo.
Podíamos atenuar este espanto que já não o era, catalogando Agostinho da Silva na categoria já sem surpresas, mas sempre surpreendente, do místico. É uma roupagem que lhe assenta bem e nem se vê outra que melhor defina o estilo de existência que nele se encarnou ou ele encarnou. Acontece apenas que a imagem do «místico» arrasta consigo um certo número de referências, evoca uma atmosfera eclesial e sobretudo, entre nós, uma tradição, por assim dizer, homologada oficialmente por uma autoridade institucional ou institucionalizada. E como era visível, nada estava mais distante de Agostinho da Silva do que esta inscrição do autor de Aproximações ao círculo da mística cristã tal como vulgarmente se entende e é exemplificada desde S. João da Cruz a Santa Teresa, ou mesmo pelo tão evocado S. Francisco de Assis. Claro que todos os «místicos», ou aquilo que assim chamam aqueles que o não são, mesmo os mais teologicamente insuspeitos, relevam do excepcional e da excepção. A esse título, Agostinho da Silva não destoaria na ilustre e canónica companhia. Digamos que pode figurar na mais rara espécie de homens que são os «místicos» se lhe acrescentarmos uma dose suplementar de «extravagância» ou, se se prefere, de excentricidade.
Não em meros termos de comportamento exterior, de total desprezo pelas regras, costumes ou ritos mundanos, que fazem parte do folclore da mais inequívoca santidade, mas da íntima e irredutível ex-centricidade. Agostinho da Silva não tendeu, graças a qualquer tipo de ascese, para uma experiência inefável do que se convenciona designar por Absoluto, transcendência mais ou menos heterogénea à essência humana. Agostinho da Silva, se foi «místico», foi-o de um misticismo «sulfuroso» pela natureza naturalista da sua visão do mundo e da vida. Não se instalou na excepção, pregou e viveu no combate à ideia de excepção, em todos os domínios, numa espécie de anarquismo profético e radioso, no fundo mais próximo de Rousseau que de qualquer figura clássica da família «mística».
O misticismo de Agostinho da Silva — se assim se lhe pode chamar — é um misticismo por defeito, por intencional desconsideração daquilo que, em todas as ordens, desde a do pensamento, da imaginação, da vontade, mas também da acção, se apresenta como exemplar. Foi, com uma naturalidade quase provocante, um marginal, mas não da marginalidade maldita, sacrificial, infeliz, que tanto agrada aos «mártires» da liberdade, da criação ou da acção. Se não fosse de essência provocatória, quase demoníaca, o seu utopismo, o seu optimismo voluntarista, a sua aparente ou realíssima recusa do trágico, seriam quase intoleráveis. É possível imaginar que neste grau, a sua aposta, diametralmente antagónica da de Pascal, releva, em qualquer desvão, de não sei que paradoxal ressentimento. Há em Agostinho da Silva um tão extremado gosto pela «estaca zero» do humano, uma tão intensa denegação de tudo o que signifique ou pretenda, a que título for, ser tido como «distinto», como «valioso» no sentido de se arrogar assim como signo de qualidade ou mérito, que só em termos de ressentimento parecem explicáveis. E, todavia, precisamente, a imagem que ele deu a quem o conheceu ou teve ocasião de o ver quando, cândida e desarmadamente, se ofereceu ao juízo público, parece incompatível com esse reflexo, característica de alguém secretamente ferido, como precisamente, mas também dando a impressão oposta, o foi Jean Jacques Rousseau.
Estamos a anos-luz daquela imagem-mito que não só nos últimos anos, mas penso, sempre, se colou ao homem e à figura de Agostinho da Silva, como exemplo de existência clara, sem sombra de sombra, vida activamente inserida na sua «pregação profética» sem hiato com a sua vida. Não foi um vagabundo irónico como Sócrates, nem um provocador cénico, mais em actos do que em palavras, como Diógenes, mas de um e outro exemplificou, aparentemente sem suscitar nem fundado espanto, nem desconfiança, junto daqueles que, incapazes de medir o alcance da sua palavra intrinsecamente subversiva, mais inclinados estavam — ou estão — a compará-lo a uma figura como S. Francisco de Assis.
Quando um dia se ler a sério Agostinho da Silva — que é um original escritor e um pensador perturbante —, terá inevitavelmente que se evocar o revivalismo franciscanista que tantos ecos teve na cultura portuguesa desde os finais do século XIX. Agostinho da Silva insere-se nessa tradição conferindo-lhe uma dimensão e uma tonalidade singulares.
Para os franciscanistas da geração de 70 e das gerações seguintes, desde Guerra Junqueiro a Eça de Queirós até Teixeira de Pascoaes e Cortesão, o culto e mesmo a mitologia de S. Francisco foi uma espécie de hipercristianismo de gente que cortara com o catolicismo tradicional e, sobretudo, com um clericalismo omnipresente e retrógrado, ainda muito sensível na sociedade portuguesa. Esse aspecto é o que avulta no autor d' A Velhice do Padre Eterno, mas não é o mais importante. A sua forma acabada e aquela onde a «filosofia» do cristianismo, segundo Francisco de Assis, se exprime de maneira convincente, encontra-se n' Os Simples. S. Francisco de Assis é para essas gerações o S. Paulo da nova igreja dos «Simples», o santo que concilia o culto da Santa Pobreza com o amor e a efusão da Natureza. A componente e a função social deste franciscanismo onde se conciliava simbolicamente o revolucionarismo utópico dos «Jacques» tão caros a Eça, com as aspirações místicas de um cristianismo puro, não é a mais significativa. Em todo o caso, não o será, nem para Jaime Cortesão nem para Agostinho da Silva, que prolonga e transfigura a visão franciscanista do poeta de Águia e futuro historiador dos Descobrimentos. O essencial da visão franciscanista da vida para ambos concentra-se nessa paixão pela Natureza, mas uma natureza, por assim dizer, «sem mancha de pecado original». Em suma, como corpo de Deus com o qual o corpo e a pulsão natural da Humanidade, logo desvinculada dos artifícios da civilização e da cultura (herança de Rousseau), se confundem. Isto foi lido, e não sem razão, no que diz respeito a Jaime Cortesão, como uma forma de paganização subtil do cristianismo, coberta pela referência insuspeita a S. Francisco, menos do que, como forma imposta pelos imperativos de um Evangelho depurado das excrescências da autoridade e do dogma. Daí os grandes hinos de Cortesão ao instintivo, ao sensual e mesmo ao erótico e a grande complacência com que exalta como expressão da nossa singularidade nacional uma cultura impregnada do sentimento pânico da vida ou louva a nossa lírica tão inocentemente sensual.
Agostinho da Silva retém um certo número de traços da visão do mundo ou da leitura da nossa maneira de ser proposta por Jaime Cortesão. Não foi impunemente que o universitário Agostinho da Silva se interessou pelo mais «erótico» e pouco recomendável, segundo os nossos hipócritas códigos vigentes, autor antigo, Catulo. A escrita límpida, o lado de profetismo e misticidade característicos da prosa de Agostinho da Silva, velam um pouco o que não pode deixar de se designar por «erótica» agostiniana. Um erotismo que não tem apenas o conteúdo negativo da recusa ou denegação do ascetismo, essência da comum espiritualidade lusitana, desde os bons tempos de Heitor Pinto, mas o gosto positivo pela vida, na sua natural pulsão vital e fonte de sedução. O seu famoso paracletismo, a apologia do Espírito Santo, não é apenas um eco mimético da tradição joaquimista [referente a Joaquim de Fiore], uma maneira de considerar findo o reino da Lei (o do Pai) e o do Sacrifício (o do Filho) com a entrada no terceiro reino, o da Liberdade, que é, sobretudo, o do Amor. Esse seu culto do Espírito Santo é o de uma nova Criação, filha da esperança e aberta como a esperança sobre um futuro em que o homem se descobrirá, ou descobrirão, ao abdicarem das formas imperfeitas da Lei e da Dor, como «eternas crianças» e imperadores da sua própria vida. Foi isto que Agostinho da Silva reteve como mais válido e profundo em Fernando Pessoa, o Fernando Pessoa da Mensagem, a quem dedicou a primeira leitura simbólica coerente (na luz da própria visão) que se conhece. Este homem de uma vasta e segura cultura, como Pessoa, encontra-se com ele numa mesma espécie de recusa transcendente, mas não menos decidida, de uma cultura livresca, esquecida da silenciosa sabedoria que a todos nos habita quando nos abandonamos ao sopro do «Espírito Santo», à lição de uma Natureza que ensina quando nós nos calamos. E assim, com o tempo, e cada vez mais despojado das realidades e investiduras do mundo, do mundo social e dos seus ritos, do mundo intelectual e das suas rendosas imposturas, Agostinho da Silva se revestiu, com todos os sinais da autenticidade, das conotações de um verdadeiro símbolo e até herói da Contra-Cultura. Ou melhor, de qualquer coisa mais rara que não vive da negação, mesmo a mais fundada — e em Agostinho da Silva também esse aspecto existe —, mas da transcendência do cultural, da vitória sobre ele quando se olha todo o seu imponente império, não como mera poesia da sandália dos deuses, mas com a inocência de uma criança que acaba de abrir os olhos para o Universo e a sua gratuita magnificência.
Como toda a gente da minha geração, conheci Agostinho da Silva através dos célebres fascículos vendidos então a quinze tostões, que punham o público ledor, culto ou popular, na intimidade de grandes figuras e, sobretudo, grandes e saborosos textos do passado. O primeiro que comprei foi sobre Stendhal, autor então em vias de reconhecimento universal e hoje, pensando bem, vejo nisso não um mero acaso, mas a chave para a futura inscrição de um homem que foi a Liberdade, mesmo no campo de um autor tão pessoal, tão classicamente inclassificável como o autor d' A Cartuxa de Parma. Mais tarde, li a sua tradução de três ensaios de Montaigne, pai da prosa do corpo, da alma e da inteligência, seu outro modelo — à parte o impessoal dos clássicos da infância — que o da sua própria vida, observados sem complacência, mas também sem reticências. Mas só o acaso de uma errância brasileira me fez encontrar o homem dos sete ofícios, profeta, pedagogo, sábio, naturalista por conta própria, em Santa Catarina, onde então Agostinho da Silva era uma espécie de oficioso secretário de assuntos culturais e, como sempre, um pólo de vida activamente contemplativa, de que não conheci segundo exemplo. Recebeu-me (recebeu-nos, a mim e minha mulher) como se me conhecesse desde sempre. Com uma enorme e negra aranha dos trópicos na palma da mão esquerda, divertido com o meu assombro e não menos pequeno temor. A Natureza e a sua face misteriosa, terrífica, o símbolo dos pesadelos e das ficções científicas, repousava nas suas mãos como num berço. Tinha domesticado «o mal» como se ele não existisse. Ou como se ele não o quisesse ver. Não sei se isto basta para perceber que espécie de «misticismo» era o seu. Mas bastou-me para sentir, e definitivamente, que estava diante de um dos Homens mais extra-ordinários que me foi dado conhecer.

Lisboa, 7 de Março de 1995.

EDUARDO LOURENÇO (prefácio ao livro "A Última Conversa - Agostinho da Silva, Entrevista de Luís Machado", Lisboa: Editorial Notícias, 1995)


Agostinho da Silva [>> resenha biográfica e >> bibliografia] faleceu a 3 de Abril de 1994, faz agora vinte anos. Ocasião para revisitarmos o ideário do visionário pensador, servindo-nos de alguns dos seus escritos (poemas e textos de cariz ensaístico), em voz alheia, seguidos dos vídeos das "Conversas Vadias", pois esta homenagem ficaria incompleta se não se pudesse ouvir o professor pela sua boca.
A propósito de registos em voz própria, importa não esquecer os realizados para a rádio, que não foram poucos, dos quais destaco as entrevistas concedidas a José Nuno Martins (para a Rádio Comercial), a Fernando Alves (para a Antena 1 e, mais tarde, para a TSF) e a Graças Vasconcelos (para a Antena 1 – programa "Imaginário"). Afigura-se pois pertinente lançar um repto à direcção da Antena 1: que se faça um ciclo evocativo de Agostinho da Silva aproveitando o material existente no arquivo histórico da RDP!



Soldado no Brasil, Marinheiro em Portugal



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 46)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Paulo de Carvalho* (in CD "Cores do Fado", MDL/Som Livre, 2004)


Fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal
dos meses prefiro Abril
aurora primaveril
de liberdade ideal
das festas vou por Natal
em que inocência infantil
triunfante vence o mal
e sempre em sonhos de anil
sempre em vagas de real
fui soldado no Brasil
marinheiro em Portugal.


* Paulo de Carvalho – voz
André Sarbib – piano acústico
Paulo Jorge Santos – guitarra portuguesa
Carlos Manuel Proença – viola acústica
Produção musical – Fernando Abrantes e Paulo de Carvalho
Produção executiva - Fernando Abrantes e Renato Júnior
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, em Março de 2004
Gravação, mistura e masterização – Fernando Abrantes



Ontem sonhei que sonhava



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 77)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Coisas do Ser e do Mar", AE-Artes do Espectáculo, 2008)




Ontem sonhei que sonhava
e me mantinha desperto
contente por me escapar
de um mundo que me era incerto

Quando tornei a dormir
já rompia a madrugada
e na clara luz não tinha
certeza alguma de nada

Seguro porque voltava
ao que é lógico e real
à vida que firme sabe
do que é bem e do que é mal


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – viola campaniça
Carlos Menezes – baixo eléctrico, contrabaixo
Valter Passarinho – percussão, bateria
Direcção musical – Nuno Cabrita, Henrique Lopes e Carlos Menezes
Produção – AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Produção executiva – Nuno Cabrita & AE-Artes do Espectáculo, Lda.
Gravado, misturado e masterizado entre Junho e Dezembro de 2005
Captação de som – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém & Carlos Menezes, no CM Estúdio, Évora
Mistura – António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém
Masterização – António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém



Teria passado a vida



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 123)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.



Três votos fará aquele



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 124)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.



Tudo pode vir do nada



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 125)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Tudo pode vir do nada
várias tintas várias telas
esta vida em que vivemos
é apenas uma delas

mil outras no mesmo espaço
mil outras em hora igual
rivalizam no sonhar
o que pensamos real

e podemos ir além
neste quadro que vos traço
tempo é tempo imaginado
em que se limita o espaço.



Vos direi o que é o tal



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 140)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Vos direi o que é o tal
alicerce em que me afundo
todos somos limitados
não o é porém o mundo

não ireis pois por ninguém
e por mim menos que nada
a vida vos seja guia
consultada e meditada

ou quem sabe se sonhada
ou quem sabe se inventada.



Por causa do mundo curvo



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 83)
Música: Henrique Lopes
Intérprete: Contrabando* (in CD "Fresta", Contrabando, 2000)


Por causa do mundo curvo
eis aqui o que procuro
ter eu amor do passado
com a paixão do futuro

mas há remédio bem simples
para não ser inseguro
é amar vida sem tempo
ou seja o presente puro.


* Nuno Cabrita – voz
Henrique Lopes – guitarras acústicas
José Carias – baixo eléctrico
Luís Melgueira – percussões
Arranjos e direcção musical – Nuno Cabrita e Henrique Lopes
Produção – Nuno Cabrita e Contrabando
Produção executiva – Nuno Cabrita
Gravado por Rui Guerreiro, no MG Estúdio, entre Setembro de 1998 e Março de 1999
Misturado por António Cordeiro e Nuno Cabrita, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Abril e Maio de 1999
Masterizado por António Cordeiro, no Estúdio d'Aldeia, São Marcos - Cacém, em Junho de 1999



Como penso que a matéria



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 28-29)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Como penso que a matéria
é só construção das almas
tenho eu que a examinar
com atenção e nas calmas

guiado por quem a sabe
com precisão matemática
lhe conhece o que é seguro
e o que é audácia temática

e como espero que a ciência
tenha sempre um atractivo
o de não dar do que existe
conceito definitivo

não só irei prosseguindo
em a saber mais e mais
me esforçarei por que todos
me possam ser como iguais

passarei com todo o gosto
por bom materialista
e em tudo que digam espírito
lhe procurarei a pista

incitarei a comer
incitarei a dormir
incitarei a morar
e às doenças resistir

goze cada qual matéria
até dela se enjoar
e solte as asas depois
se seu gosto for voar

que eu voarei por meu lado
no céu que os outros fizerem
quando depois de ter tudo
nem migalhas mais quiserem

irei calmo como sempre
pois nada me precipita
só depois de ser da física
passarei à metafísica

e bailarei com as almas
que quiserem vir comigo
feliz de serem felizes
as que ficaram consigo.



Viva a Vida (Disse a Vida)



Poema: Agostinho da Silva (poema "Mas que gente esta tão triste" + dois primeiros versos do poema "Viva a vida disse a vida", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 63 e 142)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Claud* (in CD "Contradições", Som Livre, 2006)




Mas que gente esta tão triste
fumadores e fumadoras
com o seu império perdido
seu passado esquecido
e o futuro inconcebido
mas tem a vida seu jeito
com seu destino perfeito
seus planos a cumprir
só não os quis descobrir
para nada os demolir

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[4x]

Que ridícula figura
farão perante seus netos
se é que têm energia
bastante para haver netos
ou se não recusem estes
a nascer de tais avós
que sois claro todos vós
e seremos todos nós
se formos no mesmo rumo

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[4x]

Que sois claro todos vós
e seremos todos nós
se formos no mesmo rumo
com uma excepção parece
esta de mim que não fumo
[2x]

Viva a vida, disse a vida
e nunca mais se morreu
[6x]


* [Créditos gerais do disco:]
Claud – voz
Paulo Cavaco – piano, teclados e programações
Ruca Rebordão e Paulo de Carvalho – percussões
Amadeu Magalhães – violas braguesas, cavaquinho e gaita-de-foles
Rui Curto – acordeão
Paulo Sousa – sitar
João Moreira – tablas
Coros – Claud, Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho
Arranjos – Paulo Cavaco
Direcção musical de projecto – Paulo de Carvalho
Produção – Paulo Cavaco e Paulo de Carvalho
Produção executiva – Claud
Gravado nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos, por Samuel Henriques, e nos Estúdios MusicArt, Barreiro, por Paulo Cavaco
Mistura – Fernando Abrantes e Paulo Cavaco, nos Estúdios MDL, Paço d'Arcos
Masterização – Fernando Abrantes



Bendito seja o desejo



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 21)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Bendito seja o desejo
abençoada a carícia
quanta pena das meninas
deserdadas de malícia

ou por medo do diabo
ou pelo dente de siso
não tiveram a feliz
propulsão do paraíso

propulsão não expulsão
que foi ela a força dada
para que houvesse na vida
a mais perfeita jornada

em que regresso nenhum
desejamos ao céu falho
em que do pai só havia
parado olhar duro ralho

a outro mundo vagamos
nossos votos ali vão
os de sumirmos de todo
no ponto sem dimensão

e vai uma nota ainda
de que peço mil perdões
o ponto sem dimensão
dá todas as dimensões.



Meu amor que te foste sem te ver



Poema: Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 59)
Música: Paulo de Carvalho
Intérprete: Joana Amendoeira* & Mar Ensemble (in CD/DVD "Joana Amendoeira & Mar Ensemble", HM Música, 2008)


Meu amor que te foste sem te ver
que de mim te perdeste sem te amar
quem sabe se outra vida tu vais ter
ou se tudo se perde sem voltar

ou se é dentro de mim que tem de haver
tanta força no meu imaginar
que o poeta que é Deus o vá reter
e te dê vida e faça regressar

para de novo o sonho desfazer
num contínuo surgir e retornar
ao nada que dá ser ao que é querer
ao fado que só dá para se dar

por tudo estou amor e merecer
o que venha para eu te relembrar
só adorando o nada pretender
só vogando nas águas de aceitar.


* Joana Amendoeira – voz
Pedro Amendoeira – guitarra portuguesa
Pedro Pinhal – viola de fado
Paulo Paz – contrabaixo
Filipe Raposo – acordeão
Mar Ensemble:
António Barbosa – 1.º violino
Paula Pestana – 2.º violino
Ricardo Mateus – viola d'arco
Paulo Moreira – contrabaixo e direcção do naipe de cordas
Maria Rosa – flauta
Rui Travasso – clarinete
Carlos Alberto – trompete
João Carlos – trompa
Arranjos de Mar Ensemble – João Godinho
Pós-produção musical – António Pinheiro da Silva
Produção executiva – Hélder Moutinho / HM Música
Gravado ao vivo na Praça de Armas do Castelo de São Jorge, Lisboa, no dia 21 de Junho de 2008 (no âmbito da 5.ª edição da Festa do Fado)
Captação de áudio – Luiz Delgado
Misturado e masterizado por António Pinheiro da Silva e Maria João Castanheira, entre Setembro e Outubro de 2008



Nada fiz a contragosto



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 62 e 90)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


Nada fiz a contragosto
tudo foi um prazer meu
e nada pedi à vida
do que a vida tanto deu.

Para tantos existir
é uma queixa pegada
terem de ganhar a vida
quando afinal lhes foi dada.



Na tristeza dos triunfos



Poema de Agostinho da Silva (in "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 73)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Na tristeza dos triunfos
e na alegria das dores
és nada pelo que digas
só vales pelo que fores.



Quem fala de Amor...



Texto de Agostinho da Silva (in "Sete Cartas a um Jovem Filósofo", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 23; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 239)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Quem fala de Amor não ama verdadeiramente: talvez deseje, talvez possua, talvez esteja realizando uma óptima obra literária, mas realmente não ama; só a conquista do vulgar é pelo vulgar apregoado aos quatro ventos; quando se ama, em silêncio se ama.



Nem verdade nem mentira



Poema de Agostinho da Silva (quinta e última quadra do poema "Por tudo perguntou Sócrates", in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 88)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Nem verdade nem mentira
uma coisa assim assim
e se queres saber mais
não me perguntes a mim.



O que escrevo de versinho



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 79)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 298, 01-Out-2010)


O que escrevo de versinho
é na verdade o que sinto
mas porque procuro a forma
de qualquer maneira minto

o que eu quero era poder
dar naquilo que escrevesse
de tal modo o que me sou
que a todos apreendesse

sem os prender no entanto
deixando-os livres de ser
mas que sentissem então
o que eu fosse sem dizer

ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se o não for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.



Ser Poema



Poema: Agostinho da Silva (quadras avulsas extraídas de vários poemas, in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 / "Quadras Inéditas", Lisboa: Ulmeiro, 1990)
Música: Pedro Abrunhosa
Intérprete: Anamar* (in CD "Anamar", Metropolitana, 2013)




Se eu chegar a ser de um Outro
mas de mim não me perdendo
e esse Outro todos os outros
que comigo estão vivendo

Não só homens mas também
os animais e as plantas
e os minerais ou os ares
e as estrelas tais e tantas

Terei decerto cumprido
meu destino e com que sorte
para gozar de uma vida
já renascida da morte

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo
[bis]

Viva a vida disse a vida
e nunca mais se morreu
Deus em si nos retomando
o tempo eterno nos deu

Nunca voltemos atrás
tudo passou se passou
livres amemos o tempo
que ainda não começou

Cada vez mente que sonha
dentro de mim tem mais voz
sonhadora que se sonha
e nos sonha a todos nós

Mais que tudo quero ter
pé bem firme em leve dança
que o saber seja de adulto
mas o brincar de criança

Não corro como corria
nem salto como saltava
mas vejo mais do que via
e sonho mais que sonhava

Ser poema não poeta
é que vejo como um alvo
se não o for para que vivo
mas se for me vivo e salvo.
[bis]


* [Créditos gerais do disco:]
Anamar – voz
Paulo Borges – acordeão, piano, samplers
Tiago Maia – guitarras (eléctrica e acústica)
Francisco Santos – baixo, contrabaixo
Rui Freire – bateria, percussão
Coros – Anamar, Francisco Santos, José Bettencourt, Paulo Borges, Rui Freire, Tiago Maia
Arranjos e direcção musical – Paulo Borges
Produção – Anamar
Co-produção – Paulo Borges
Produção executiva – Anamar, Paulo Borges, Paulo Ventura
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, por Joaquim Monte e José Fortes, em Agosto de 2012
Misturas – José Fortes
Masterização – Andy Van Dette



Queria que os portugueses



Poema de Agostinho da Silva (in "Uns Poemas de Agostinho", Lisboa: Ulmeiro, 1989 – p. 97-98)
Dito por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 297, 24-Set-2010)


Queria que os portugueses
tivessem senso de humor
e não vissem como génio
todo aquele que é doutor

sobretudo se é o próprio
que se afirma como tal
só porque sabendo ler
o que lê entende mal

todos os que são formados
deviam ter que fazer
exame de analfabeto
para provar que sem ler

teriam sido capazes
de constituir cultura
por tudo que a vida ensina
e mais do que livro dura

e tem certeza de sol
mesmo que a noite se instale
visto que ser-se o que se é
muito mais que saber vale

até para aproveitar-se
das dúvidas da razão
que a si própria se devia
olhar pura opinião

que hoje é uma amanhã outra
e talvez depois terceira
sendo que o mundo sucede
sempre de nova maneira

alfabetizar cuidado
não me ponham tudo em culto
dos que não citar francês
consideram puro insulto

se a nação analfabeta
derrubou a filosofia
e no jeito aristotélico
o que certo parecia

deixem-na ser o que seja
em todo o tempo futuro
talvez encontre sozinha
o mais além que procuro.



Portugal foi formado na beira de um Oceano



Texto de Agostinho da Silva (in "Nova Águia: Revista de Cultura para o Século XXI", N.º 3, Lisboa: Zéfiro, 1.º Semestre de 2009)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Portugal foi formado na beira de um Oceano, não nas margens do Danúbio ou nas escuras florestas góticas da Escandinávia ou nas cinzentas colinas dos Países Baixos. A viva luz ambiente, a pressão por vezes esmagadora imposta pela presença de uma imensa e turbulenta massa oceânica imprimiu desde cedo um carácter muito especial aos povos que foram chegando a este extremo europeu, que aqui se foram mesclando, camada após camada, até enformarem aquilo que hoje conhecemos como o "português" e que espalhando-se pelo mundo fora, haveria de botar sementes de Lusofonia no Brasil, em África e na Oceânia que ainda hão-de frutificar e unir nesse carácter aventureiro comum todos estes povos dispersos pela geografia e pelos acasos da História.
Foi a paixão pela aventura, que nunca existiu num formato tão essencial e absoluto em nenhum outro povo além, talvez, excepto, nos Gregos e nos Fenícios, de que a portugalidade é plena herdeira, quer geneticamente, quer em termos de temperamento e alma. Se holandeses, ingleses e alemães se bastam e satisfazem como formiguinhas metódicas e organizadas, o português aborrece-se de morte nessas tarefas contabilistas e contadoras e sonha com mares abertos, com aventuras em terras distantes e feitos únicos. Por isso, um país tão pequeno conseguiu colonizar um país continente tão extenso e diverso como o Brasil, por isso o regime de Salazar fez tudo quanto pôde para travar os fluxos migratórios para África, por isso a emigração portuguesa foi sempre tão intensa ao longo de tantas décadas (e por isso mesmo regressa agora em plena força). O português não se fez para viver em Portugal. O português é acima de tudo um cidadão do mundo, fiel à aventura do Descobrimento e do Desbravamento e sonhando com novos mares e terras renovadas. Quando tentaram fazer de nós um "país europeu" entrámos em longa depressão colectiva numa Europa de germânicos e eslavos com quem não nos identificamos nem na alma profunda, nem no temperamento superficial. Os nossos irmãos mediterrâneos, espanhóis, italianos e gregos comungam connosco deste sentido sentimento de inferioridade em relação aos Senhores do norte da Europa, mas não têm a força anímica que já revelámos ter, resistindo a duas perdas de independência e mantendo as fronteiras mais estáveis de todo o continente.
Portugal tem a missão e o dever históricos de liderar os povos mediterrâneos, da margem nortenha deste mar, até a um ponto comum, que os separe dos povos do norte que sempre cobiçaram os seus Estados e solarengas paragens, que os afaste para as escuras e húmidas florestas do Norte e que refundem em torno dos conceitos mediterrâneos de "vida conversável" e aventura empolgante as formas de vida que os neo-germânicos tornaram em contabilidade e aforramento financeiro. O Homem mediterrâneo não foi formado para contar e somar; o mediterrâneo, de onde brota em primeira linha o português e através dele, o lusófono, fez se para viver e contar o que viveu, não para somar o número de pregos que usou na sua caravela, nem os quilos de pimenta que embarcou em Cochim. Foi quando o passámos a fazer que desenhámos o fim de Portugal e preparámos séculos depois a adesão a uma Comunidade Europeia com a qual nada temos a ver.



O povo culto



Texto de Agostinho da Silva (de "O Terceiro Caminho", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 26; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 217)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da Humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno.



Tolerância às opiniões



Texto de Agostinho da Silva (de "Tolerância", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 20; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 214)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Para que os homens possam sentir-se felizes com a minha companhia, é necessário antes de tudo que eu tenha a grande força de ver como prováveis as opiniões a que aderiram, desde que as não venham contradizer os factos que posso observar; não devo supor-me infalível; não devo considerar-me a inteligência superior e única entre o bando de pobres seres incapazes de pensar; cumpre-me abafar todo o ímpeto que possa haver dentro de mim para lhes restringir o direito de pensarem e de exprimirem, como souberem e quiserem, os resultados a que puderam chegar; de outro modo, nada mais faria do que contribuir para matar o universo: porque ele só vive da vida que lhe insufla o pensamento poderoso e livre.



Realização e êxtase



Texto de Agostinho da Silva (de "Sobre o Êxtase", in "Diário de Alcestes", Famalicão: Ed. do Autor, 1945, Lisboa: Ulmeiro, 1990 – p. 17-18; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 212-213)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 299, 08-Out-2010)


Conviria distinguir bem um do outro o caminho para o êxtase e o próprio êxtase; o primeiro ainda pode ter algum interesse por todas as lutas interiores, por todas as incertezas, por todo o esforço de pensar amplamente a que em geral dá origem; no entanto já nele mesmo poderíamos ver, além de uma preocupação egoísta, uma alternativa de esperança e desespero, um gosto da revelação e dos auxílios sobrenaturais que não poderão talvez classificar-se como superiores.
Do êxtase, porém, não alimentamos grandes desejos; o amor que nele descobrimos não pertence à categoria do amor que mais nos interessa — o que eleva o amado acima de si próprio, o que se esforça por esculpir uma alma com entusiasmo e paciência; é um amor a que se chega como recompensa de tarefa cumprida; não marca as delícias do caminho difícil, apaga-as da memória; faz desaparecer do peito do homem o seu único motivo de alegria, a sua única fonte de verdadeira glória.
Viver interessa mais que ter vivido; e a vida só é vida real quando sentimos fora de nós qualquer coisa de diferente; se a diferença se tornar oposição, se o que era caminho diverso se transformar em muro de rocha, então no duelo que se trava, no instável equilíbrio que a cada momento se pode romper e precipitar-nos das alturas, nesta batalha em que não há um minuto de rancor pelo adversário, encontraremos a grande e forte vida; ora o êxtase consiste realmente no apagar das distinções, na identificação perfeita de dois termos.



O grande educador



Texto de Agostinho da Silva (de "Sanderson of Oundle", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 45-46; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 106-107)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


É além de tudo essencial que a escola se não separe do mundo; não há escolas e oficinas; há um certo género de oficinas em que trabalham crianças nas tarefas que lhes são adequadas e lhes vão facilitando o desenvolvimento do corpo e do espírito; vão colaborando no que podem e no que sabem para que a vida melhore. Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão.
O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola; que haja o trabalho proporcionado e alegre, amorosamente feito, porque se sabe necessário ao progresso, levado a cabo numa atitude de artista e de voluntário, disciplinado remador na jangada comum; que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.



Os malefícios da rivalidade na escola



Texto de Agostinho da Silva (de "Da Emulação", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 49-50; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 109-110)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Poucas serão as escolas em que o mestre não anime entre os alunos o espírito de emulação; aos mais atrasados apontam-se os que avançaram como marcos a atingir e a ultrapassar; e aos que ocuparam os primeiros lugares servem os do fim da classe de constantes esporas que os não deixam demorar-se no caminho, cada um se vigia a si e aos outros e a si próprio apenas na medida em que se estabelece um desnível com o companheiro que tem de superar ou de evitar.
A mesquinhez de uma vida em que os outros não aparecem como colaboradores, mas como inimigos, não pode deixar de produzir toda a surda inveja, toda a vaidade, todo o despeito que se marcam em linhas principais na psicologia dos estudantes submetidos a tal regime; nenhum amor ao que se estuda, nenhum sentimento de constante enriquecer, nenhuma visão mais ampla do mundo; esforço de vencer, temor de ser vencido; é já todo o temperamento de "struggle" que se afina na escola e lançará amanhã sobre a terra mais uma turma dos que tudo se desculpam.
Quem não sabe combater ou não tem interesse pela luta ficará para trás, entre os piores; e é certamente esta predominância dada ao espírito de batalha um dos grandes malefícios dos sistemas escolares assentes sobre a rivalidade entre os alunos; não se trata de ajudar, nem de ser ajudado, de aproveitar em comum, para benefício de todos, o que o mundo ambiente nos oferece; urge chegar primeiro e defender as suas posições; cada um trabalhará isolado, não amigo dos homens, mas receoso dos lobos; o saber e o ser não se fabricam, para eles, no acordo e na harmonia; disputam-se na luta.
Urge quanto antes alargar a reforma radical que as escolas novas fizeram triunfar na experiência; que só haja dois estímulos para o trabalho nas aulas: a comparação de cada dia com o dia anterior e com o dia futuro e o desejo de aumentar o valor, as possibilidades do grupo; por eles se terá a confiança indispensável na capacidade de realizar e a marcha irresistível da seta para o alvo; por eles também o sentido social, o hábito da cooperação, a tolerância e o amor que gera a convivência em vez de um isolamento de caverna e de uma agressividade permanente; a vitória de uma ideia de paz sobre uma ideia de guerra.



O professor como mestre



Texto de Agostinho da Silva (de "Projecto de um Mestre", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 41-43; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 103-104)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Não me basta o professor honesto e cumpridor dos seus deveres; a sua norma é burocrática e vejo-o como pouco mais fazendo do que exercer a sua profissão; estou pronto a conceder-lhe todas as qualidades, uma relativa inteligência e aquele saber que lhe assegura superioridade ante a classe; acho-o digno dos louvores oficiais e das atenções das pessoas mais sérias; creio mesmo que tal distinção foi expressamente criada para ele e seus pares. De resto, é sempre possível a comparação com tipos inferiores de humanidade; e ante eles o professor exemplar aparece cheio de mérito. Simplesmente, notaremos que o ser mestre não é de modo algum um emprego e que a sua actividade se não pode aferir pelos métodos correntes; ganhar a vida é no professor um acréscimo e não o alvo; e o que importa, no seu juízo final, não é a ideia que fazem dele os homens do tempo; o que verdadeiramente há-de pesar na balança é a pedra que lançou para os alicerces do futuro.
A sua contribuição terá sido mínima se o não moveu a tomar o caminho de mestre um imenso amor da humanidade e a clara inteligência dos destinos a que o espírito o chama; errou o que se fez professor e desconfia dos homens, se defende deles, evita ir ao seu encontro de coração aberto, paga falta com falta e se mantém na moral da luta; esse jamais tornará melhores os seus alunos; poderão ser excelentes as palavras que profere; mas o moço que o escuta vai rindo por dentro porque só o exemplo o abala. Outros há que fazem da marcha do homem sobre a Terra uma estranha concepção; vêem-no girando perpetuamente nos batidos caminhos; e, julgando o mundo por si, não descobrem em volta mais que uma eterna condenação à maldade, à cegueira e à miséria; bem no fundo da alma nenhuma luz que os alumie e solicite; porque não acreditam em progresso nenhuma vontade de melhorar; são os que troçam daquilo a que chamam «a pedagogia moderna»; são os que se riem de certos loucos que pensam o contrário.
Ora o mestre não se fez para rir; é de facto um mestre aquele de que os outros se riem, aquele de que troçam todos os prudentes e todos os bem estabelecidos; pertence-lhe ser extravagante, defender os ideais absurdos, acreditar num futuro de generosidade e de justiça, despojar-se ele próprio de comodidades e de bens, viver incerta vida, ser junto dos irmãos homens e da irmã Natureza inteligência e piedade; a ninguém terá rancor, saberá compreender todas as cóleras e todos os desprezos, pagará o mal com o bem, num esforço obstinado para que o ódio desapareça do mundo; não verá no aluno um inimigo natural, mas o mais belo dom que lhe poderiam conceder; perante ele e os outros nenhum desejo de domínio; o mestre é o homem que não manda; aconselha e canaliza, apazigua e abranda; não é a palavra que incendeia, é a palavra que faz renascer o canto alegre do pastor depois da tempestade; não o interessa vencer, nem ficar em boa posição; tornar alguém melhor — eis todo o seu programa; para si mesmo, a dádiva contínua, a humildade e o amor do próximo.



Compreender e unir



Texto de Agostinho da Silva (de "Por um Fim de Batalha", in "Considerações", Famalicão: Ed. do Autor, 1944, "Considerações e Outros Textos", Lisboa: Assírio & Alvim, 1988 – p. 59-60; "Textos e Ensaios Filosóficos I", org. de Paulo A.E. Borges, Lisboa: Âncora Editora/Círculo de Leitores, 1999 – p. 116-117)
Lido por José-António Moreira (in "Sons da Escrita" N.º 300, 15-Out-2010)


Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento.
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflictamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita.
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.



Capa do livro "Uns Poemas de Agostinho" (Ulmeiro, 1989)
Desenho de Miguel Horta.


A seguir, apresenta-se a integral das "Conversas Vadias" (treze episódios), originalmente transmitidas pela RTP-1 no ano de 1990.



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 1 - Maria Elisa Domingues (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 2 - Adelino Gomes (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 3 - Joaquim Letria (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 4 - Isabel Barreno (escritora)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 5 – Baptista-Bastos (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 6 - Alice Cruz (locutora e apresentadora de televisão)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 7 - Cáceres Monteiro (jornalista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 8 - Fernando Alves (jornalista de rádio)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 9 - Vasco Ramalho e João Carlos (estudantes)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 10 - Herman José (humorista)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 11 - Miguel Esteves Cardoso (jornalista e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 12 - Manuel António Pina (poeta e escritor)



Conversas Vadias (com Agostinho da Silva)
Ep. 13 - Joaquim Vieira (jornalista e investigador)

27 março 2014

Teatro radiofónico: criminosamente ausente do serviço público

«O teatro comove, ilumina, incomoda, perturba, exalta, revela, provoca, transgride. É uma conversa partilhada com a sociedade.
O teatro é a primeira das artes que se confronta com o nada, as sombras e o silêncio para que surjam a palavra, o movimento, as luzes e a vida.
O teatro é um facto vivo que se consome a si mesmo enquanto se produz, mas que renasce sempre das cinzas. É uma comunicação mágica em que cada pessoa dá e recebe algo que a transforma.
O teatro reflecte a angústia existencial do homem e desvenda a condição humana. Não são os seus criadores quem fala através do teatro: é a sociedade do seu próprio tempo.
O teatro tem inimigos visíveis: a ausência de educação artística na infância, que impede de descobri-lo e gozá-lo; a pobreza que invade o mundo, afastando os espectadores das salas; e a indiferença e o desprezo dos governos que devem promovê-lo.
No teatro já falaram os deuses e os homens, mas agora é o homem que fala aos outros homens. Por isso, o teatro tem de ser maior e melhor do que a própria vida. O teatro é um acto de fé no valor da palavra sensata num mundo demente. É um acto de fé nos seres humanos que são responsáveis pelo seu destino.
É preciso viver o teatro para entender o que nos está a acontecer, para transmitir a dor que está no ar, mas também para vislumbrar um raio de esperança no caos e no pesadelo do quotidiano.» (Victor Hugo Rascón Banda, dramaturgo mexicano, 1948-2008)

Atentando nas grelhas das várias antenas da RDP, deparamo-nos com esta triste e desoladora realidade: não há teatro radiofónico! 
A lacuna é assaz incompreensível sabendo-se quão vasto e magnífico é o acervo de peças (dramas, comédias, farsas) e de adaptações de obras romanescas (contos, novelas, romances) existente no arquivo histórico, boa parte do qual realizado pelo saudoso Eduardo Street. Que o Dia Mundial do Teatro sirva para os srs. António Luís Marinho, Rui Pêgo e José Arantes porem a mão na consciência (se é que a têm) e tratarem de resgatar às teias de aranha esse precioso património, mormente os grandes clássicos da arte de Talma!
Convém ter presente que tal resgate assume uma pertinência acrescida nestes tempos de crise económica e social, em que muitos cidadãos se vêem impossibilitados de frequentar salas de teatro. Os que vivem em localidades onde estejam peças em cena, bem entendido. Dos outros portugueses (residentes em território nacional ou além-fronteiras), ao que parece, ninguém se lembra. E já nem falo dos cegos e amblíopes de Portugal. Estarão eles, porventura, isentos do pagamento da contribuição do audiovisual?


Máquina do vento: servia para imitar o som do vento e foi um dos artefactos mais usados no teatro radiofónico

21 março 2014

Miguel Torga: "Ode à Poesia", por João Villaret

Todos os dias do ano são bons para se ler/ouvir poesia, a pretexto do quer que seja. Apesar de meramente convencional, o dia que lhe foi dedicado no calendário afigura-se pertinente para a celebração da poesia que versa sobre si mesma e a condição do poeta.
Aqui se apresenta a "Ode à Poesia", de Miguel Torga, na voz de João Villaret.

Desde Março de 2013, após um vazio de vários anos, passámos a ter na Antena 2 um apontamento regular de poesia, "A Vida Breve", restrito a gravações na voz dos autores. Não poderia a Antena 1, em complemento àquele, ter um espaço consagrado à divulgação do nosso rico património fonográfico de poesia dita por reputados recitadores (actores e locutores)?



ODE À POESIA



Poema de Miguel Torga (in "Odes", Coimbra: Coimbra Editora, 1946; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000, 2007)
Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)




Vou de comboio...
Vou
Mecanizado e duro como sou
Neste dia;
— E mesmo assim tu vens, tu me visitas!
Tu ranges nestes ferros e palpitas
Dentro de mim, Poesia!

Vão homens a meu lado distraídos
Da sua condição de almas penadas;
Vão outros à janela, diluídos
Nas paisagens passadas...
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos
As tuas formas brancas e aladas?

Os campos, imprecisos, nos meus olhos,
Vão de braços abertos às montanhas;
O mar protesta contra não sei quê;
E eu, movido por ti, por tuas manhas,
A sonhar um painel que se não vê!

Porque me tocas? Porque me destinas
Este cilício vivo de cantar?
Porque hei-de eu padecer e ter matinas
Sem sequer acordar?

Porque há-de a tua voz chamar a estrela
Onde descansa e dorme a minha lira?
Que razão te dei eu
Para que a um gesto teu
A harmonia me fira?

Poeta sou e a ti me escravizei,
Incapaz de fugir ao meu destino.
Mas, se todo me dei,
Porque não há-de haver na tua lei
O lugar do menino
Que a fazer versos e a crescer fiquei?

Tanto me apetecia agora ser
Alguém que não cantasse nem sentisse!
Alguém que visse padecer,
E não visse...

Alguém que fosse pelo dia fora
Neutro como um rapaz
Que come e bebe a cada hora
Sem saber o que faz...

Alguém que não tivesse sentimentos,
Pressentimentos,
E coisas de escrever e de exprimir...
Alguém que se deitasse
No banco mais comprido que vagasse,
E pudesse dormir...

Mas eu sei que não posso.
Sei que sou todo vosso,
Ritmos, imagens, emoções!
Sei que serve quem ama,
E que eu jurei amor à minha dama,
À mágica senhora das paixões.

Musa bela, terrível e sagrada,
Imaculada Deusa do condão:
Aqui vou de longada;
Mas aqui estou, e aqui serás louvada,
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!



Polímnia, a musa da poesia lírica (estátua romana do séc. II, mármore, Museu Pio-Clementino, Vaticano)

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Outros artigos neste blogue com poesia recitada por João Villaret:
João Villaret: centenário do nascimento
Camões recitado e cantado
Ser Poeta
Fernando Pessoa por João Villaret

Grandes discos da música portuguesa: editados em 2013


[em preparação]

18 janeiro 2014

30 dezembro 2013

Celebrando a Ronda dos Quatro Caminhos


Ronda dos Quatro Caminhos (de 1986 a 1993):
Em pé (da esquerda para a direita): Daniel Completo, António Silva Lopes e Fátima Valido;
Sentados (da esquerda para a direita): João Cavadinhas e António Prata.


Fundada em finais de 1983 por Vítor Reino (oriundo do grupo Almanaque) e outros nove músicos, a Ronda dos Quatro Caminhos (http://www.rondadosquatrocaminhos.pt/), uns dos grupos de referência da música tradicional portuguesa, completou este ano três décadas de existência. Não contando com as compilações, a discografia da Ronda compreende, até à data, dez álbuns de estúdio e três ao vivo.
O blogue "A Nossa Rádio", em reconhecimento do muito que a Ronda dos Quatro Caminhos fez no domínio da recriação, valorização e divulgação do nosso cancioneiro tradicional, aproveita a efeméride para revisitar a sua valiosa discografia, seguindo o fio do tempo, desde o primeiro álbum ("Ronda dos Quatro Caminhos", 1984) até ao mais recente ("Sulitânia", 2007).
É uma amostra inevitavelmente parcelar, dada a extensão do repertório, mas bem exemplificativa da excelente qualidade do trabalho realizado pelo grupo e do quão incompreensível e deveras criminosa tem sido a sua ocultação por parte de quem gere (e aprova) a 'playlist' da Antena 1, a tal que tem a obrigação de «promover a divulgação da música de autores portugueses, bem como dos seus intérpretes e compositores, comprometendo-se a inserir na programação uma percentagem mínima de 60% de música de autores portugueses e de expressão portuguesa» [cláusula 7.ª, 2.a) do Contrato de Concessão do Serviço Público de Radiodifusão Sonora].



Chula Velha



Letra e música: Popular (Ponte da Barca, Minho)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)




[instrumental]

– Se és galo ribana a crista,
Se és frango larga a penuge!
Se vens p'ra cantar comigo,
Ata os sapatos e fuge!

(Salta p'ra o terreiro se tens goela!
Arrebita-me essa crista!)

– Tenho um saco de cantigas
Inda mai-l'um guardanapo.
Se isto vai com desafio
Eu vou e desato o saco!

(Aguenta-te lá com esta esta!
Vamos embora!)

– Esta moda bem cantada,
Bailadinha como é,
Faz desengonçar as velhas
Do canto da chaminé.

(E arrebimba-me nesse bombo!)

– Ó Chula, ó velha Chula,
No domingo vou-te esp'rar.
Quer de noite quer de dia
A chula há-de se dançar!

(Ai, há-de sim, senhor!)

[instrumental]

(Puxa agora p'ra acabar!)

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, viola braguesa, dois cavaquinhos, dois violinos, baixo acústico e bombo

Nota: «A chula constitui, sem sombra de dúvida, uma das mais antigas e representativas danças populares portuguesas, possuindo contornos específicos que lhe conferem uma individualidade bem definida e justificam, de certa forma, a opinião segundo a qual se trata de uma das mais autênticas e características canções bailadas do nosso país. Dança tipicamente nortenha, baila-se do Minho à Beira Alta setentrional, ainda que com variações sensíveis na coreografia e respectivo acompanhamento instrumental.
Frequentemente executado ao desafio como no exemplo presente, a sua estrutura própria e pulsação particular relacionam-se intimamente com todo o enquadramento musical, essencialmente caracterizado pela inclusão de um refrão ou interlúdio unicamente instrumental, que funciona como elemento de separação entre as intervenções dos cantadores.
A "Chula Velha", que escolhemos para abrir este disco, salienta-se pela vivacidade e graciosidade invulgares da sua melodia, apresentando um raro e curioso recorte rítmico. A parte instrumental que a acompanhava perdeu-se por completo, razão pela qual procurámos, com base nos poucos elementos conhecidos e na nossa própria intuição pessoal, devolver-lhe toda a riqueza e colorido de conjunto que decerto possuía, introduzindo-lhe um refrão e uma linha musical autónoma a cargo de dois violinos, que empregámos à semelhança das antigas rabecas chuleiras.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Cravo Roxo



Letra e música: Popular (Idanha-a-Nova, Beira Baixa)
Recolha: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)




[instrumental]

Cravo roxo à janela
É sinal de casamento.
Menina, recolha o cravo,
Ó ai, que o casar inda tem tempo!

Cravo roxo ama, ama,
Ó jasmim adora, adora!
Rosa branca brumelhinha,
Ó ai, se tens pena chora, chora!

Cravo roxo, sentimento,
Que eu bem sentida estou;
Por amar quem me não ama,
Ó ai, querer bem a quem me deixou.

Tenho à minha janela
O que tu não tens à tua:
Cravo roxo salpicado
Ó ai, que dá cheiro a toda a rua.

[instrumental]


* Instrumentos: fole, duas violas, dois bandolins, flauta, dois adufes e castanholas

Nota: «O adufe representa um elemento musical de importância preponderante no folclore de toda a Beira Baixa e, muito particularmente, da sua faixa raiana, onde as peculiares cantigas outrora bailadas no terreiro, tão vibrantes e expressivas, propiciavam um momento privilegiado de diversão e aproximação entre os dois sexos.
O adufe possui, de facto, potencialidades de fraseado rítmico e de cambiantes sonoras praticamente inesgotáveis, o que não se compadece, naturalmente, com a sua generalizada utilização por executantes improvisados, que o destituem, inevitavelmente, de uma grande parte dos seus reais e vastos recursos. Tal circunstância levou-nos a convidar duas exímias tocadoras monsantinas – que o sabem manusear como ninguém, com mão ligeira e pancada certa – no intuito de dar ao presente trabalho uma dimensão de autenticidade musical e documental que consideramos indispensável.
Procurámos encontrar uma sonoridade adequada à canção, realçando a entrada vibrante dos adufes através de uma pequena introdução medievalizante, com base num instrumento muito interessante praticamente desconhecido entre nós, uma variedade de fole por vezes designada por concertina de palhaço.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



O Segador



Letra: Popular (versão abreviada do espécime publicado no "Romanceiro" de Almeida Garrett, 1843)
Música: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

O imperador de Roma
Tem uma filha bastarda.
Pedem-lha condes, senhores,
Ela a todos punha tacha...

Por manhã de São João,
Manhã de doce alvorada,
Viu andar três segadores
Fazendo sua segada.

– «Vês, aia, aquele ceifeiro
Que anda naquela segada?
Vai-me o chamar em segredo,
Que ninguém não saiba nada.»

– «Senhora, que me queredes,
Pois venho à vossa chamada?»
– «Quero saber se te atreves
A fazer minha segada!»

– «Atrever me atrevo a tudo,
Trabalho não me acobarda.
Dizei vós, minha senhora,
Onde é a vossa segada.»

– «Não é no monte ou no vale,
No baldio ou na coutada...
Segador, é nos meus braços,
Que de ti estou namorada.»

Não quis senhores nem condes,
Homens de capa ou de espada,
Senão só o segador
Que andava em sua segada.

Podia ser um porqueiro
Que a deixasse difamada...
Saiu-lhe um duque reinante,
Senhor de alta nomeada.


* Instrumentos: duas violas, bandolim, banjola, duas flautas, violino e pandeireta

Nota: «Ao folhear, despreocupadamente, o "Romanceiro" de Almeida Garrett, deparámos com um belíssimo espécime, autêntica relíquia da nossa poesia popular... As palavras, singelas e vibrantes como suaves e límpidas cascatas de som, impuseram-se insinuantemente ao nosso ouvido e fizeram brotar, naturalmente e sem esforço, a melodia entre regional e palaciana que, modestamente, julgamos ajustar-se ao velho romance.
Tivemos ensejo de escutar variantes do mesmo em Trás-os-Montes, mas somente sob a forma de cantiga de segada, sem música própria, o que nos decidiu a incluir a presente versão. Demos-lhe propositadamente um ambiente de tipo palaciano, em que a voz do narrador nos transporta aos séculos recuados, trazendo-nos ecos longínquos de trovadores e menestréis, velhos cantadores de muitas e belas histórias...» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



O Sapatinho me Aperta



Letra e música: Popular (Sever do Vouga, Beira Alta)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

O sapatinho me aperta,
A meia me faz calor;
Meu coração arrebenta
Se me não falas, amor.

O meu amor não é este,
O meu amor tem chapéu;
O meu amor é tão lindo
Como as estrelas do céu!

Pus-me a contar as estrelas,
Só a do Norte deixei;
Por ser a mais bonitinha
Só contigo a comparei.

Quem fala de mim, quem fala,
Quem fala de mim, quem é?
É algum chinelo velho
Que me não sirva no pé!


* Instrumentos: duas violas, guitarra portuguesa, violino, banjola e flauta

Nota: «Trata-se de uma das inúmeras canções tradicionais do nosso país que tanto se podia ouvir ao longo de todo o tipo de trabalhos do campo como em qualquer outra ocasião, o que sucede frequentemente com espécimes de carácter amoroso. Constitui um claro exemplo dos cantos mais peculiares da Beira Alta, com a sua característica harmonia em patamar, a três vozes femininas e uma masculina.
Escolhemos um arranjo instrumental simples e discreto, de acordo com a expressividade própria da canção, de versos tão transparentes e, ao mesmo tempo, reveladores da psicologia amorosa do nosso povo.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Maragato



Letra e música: Popular (Miranda do Douro, Trás-os-Montes)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

Maragato sou, no lo nego,
No le debo nada al cavalheiro,
No le debo nada, nada le debo.
Mais me debe ele a mim
Por três noites que allá dormi.

[instrumental]

Tira-te del sol, Maragato,
Tira-te del sol, que t'abraso.
Tu, que num podes, Maragato,
Lieba-me a las costas um rato.

[instrumental]

Maragato sou, no lo nego,
No le debo nada al cavalheiro,
No le debo nada, nada le debo.
Mais me debe ele a mim
Por três noites que allá dormi.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas braguesas, bandolim, viola, flauta, ponteira, dois bombos, pandeireta, castanholas e conchas

Nota: «Estamos perante uma canção dançada conhecida na região de Miranda do Douro, acompanhada por uma mímica profusa e variada. O termo "Maragato" parece designar um grupo étnico de vida nómada oriundo da vizinha Espanha, figura de certa forma paralela ao nosso "maltês alentejano".
Optámos aqui por um arranjo livre, com base numa afinação especial das violas braguesas que lhes confere possibilidades simultaneamente harmónicas e melódicas extremamente sugestivas. Introduzimos-lhe um interlúdio instrumental de ritmo bem marcado que julgamos adequado ao carácter dançante da canção, de um modalismo invulgar propiciador da procura de sonoridades ancestrais relacionadas, é claro, com as conhecidas danças mirandesas.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Minha Rua É um Jardim



Letra: Popular
Música: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


Minha rua é um jardim
E as vizinhas são as rosas;
Eu por ser o jardineiro
Só namoro as mais formosas.

Fui-me deitar a dormir
À sombra da laranjeira.
Caiu-me uma flor no rosto,
Ai, amor, que tão bem cheira!

Ai, amor, valha-me o Céu,
Não sei que Céu há-de ser!
Valha-me o céu dos teus braços,
Que neles quero morrer.

Minha rua é um jardim
E as vizinhas são as rosas;
Eu por ser o jardineiro
Só namoro as mais formosas.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, bandolim, dois violinos, flauta, guizos e pandeireta

Nota: «O cancioneiro popular português patenteia uma extrema riqueza e ampla diversidade de quadras merecedoras de realce particular, algumas havendo que desde logo se impõem e distinguem pela sua expressividade e fina musicalidade dos respectivos versos. Daí resultou, quase espontaneamente, esta música despretensiosa que, apoiando-se na típica estrutura formal dos cantos alentejanos, se enquadra, até certo ponto, num padrão musical de cariz renascentista e termina com um passo de dança inspirado em escassos e preciosos documentos, vestígios de antigas danças comuns a várias regiões europeias, que também entre nós deixaram rasto...» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Saias



Letra e música: Popular (Sousel, Alto Alentejo)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

– Eu gosto da pêra doce,
Ai, gosto dela bem madura;
Eu gosto de dançar Saias
Ai, c'um rapaz da minha altura.

Os olhos do meu amor
Ai, são grãozinhos de pimenta;
Namorei-os na igreja,
Ai, ao tomar a água benta.

– Da laranja quero um gomo,
Ai, do limão quero um pedaço;
Dos teus lábios quero um beijo,
Ai, do teu amor um abraço.

Os olhos do meu amor
Ai, são duas continhas pretas;
Colhidinhas ao luar,
Ai, num jardim de violetas.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, guitarra portuguesa, duas violas braguesas, bandolim, ocarina, assobio, concertina, castanholas e pinhas

Nota: «Dança principalmente característica das gentes do Alto Alentejo, as Saias constituem um dos géneros musicais tradicionais mais amplamente divulgados nos últimos tempos; não obstante, dada a singular graciosidade, resolvemos incluir esta antiga e interessante moda de Saias, outrora bailada ou por vezes apenas cantada no decurso de trabalhos agrícolas.
As quadras ou pontos assumem, aqui, um carácter de completa mobilidade, fenómeno aliás comum a grande parte da nossa canção tradicional. No caso presente, a alternância entre os cantadores solistas e o coro contribui altamente para acentuar a vivacidade própria da dança, que realçámos empregando enquadramentos musicais diferentes.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Romance da Mineta



Letra e música: Popular (Vinhais, Trás-os-Montes)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)




[coro / instrumental]

– Levanta-te, Mineta,
Do doce dormir,
Está um pobre à porta
De lindo pedir!

Dá-lhe do teu pão
E dá-lhe do teu vinho!
Levanta-te, Mineta,
Ensina-lhe o caminho!

– A jornada é longa,
Estou farta de andar!
Já espiei a roca,
Quero-me voltar.

– Cala-te, Mineta,
Cala-te, mi vida!
Esconde-te, Mineta,
Na minha capinha.

– Eu nunca vi cego
Com tal fantesia,
Com espada ao lado
E fita fingida.

– Cala-te, Mineta,
Cala-te, mi vida!
Que eu sou dos condes
Que tu pretendias.

[instrumental / coro]


* Instrumentos: duas violas braguesas, flauta, duas ponteiras, guitarra portuguesa, chocalhos, caixas com sementes, pandeiro, pandeireta e dois bombos

Nota: «Eis um curioso exemplo de romance novelesco, mais ou menos conhecido por todo o território português, sob designações diversas e assentando em melodias absolutamente distintas. O assunto remete-nos de imediato para os tempos recuados da Idade Média, centrando-se num episódio um tanto equívoco (de trama e desenvolvimento variáveis consoante as versões), em que um cavaleiro de superior hierarquia logra apoderar-se da donzela pretendida, envergando à laia de disfarce os trajos de cego mendigo. A linha fundamental do enredo parece ser paralela à de velhas baladas escocesas, o que nos traz à memória a hipótese da sua transmissão oral por antigos mareantes, agentes incógnitos de influências culturais insuspeitadas.
O clima tão notoriamente medievo inspirou-nos um arranjo musical muito específico e diversificado, onde o fragmento inicial de canto polifónico masculino dá lugar a um breve prelúdio instrumental evocador de velhos músicos ambulantes, culminando o romance com a súbita irrupção de um coral amplo e vibrante, susceptível de filiação em temas tradicionais de toda a Europa, principalmente associados aos homens do mar. Recorrendo a um processo de afinação especial e a uma técnica de execução particular das violas braguesas, pretendemos ir ao encontro da sonoridade esquecida de instrumentos hoje praticamente extintos, mas sem dúvida de utilização comum na época a que o romance se reporta. A ponteira transmite-nos longínquas vibrações transmontanas e contribui decisivamente para o sugestivo efeito de conjunto.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Quando o Menino Nasceu



Letra e música: Popular (ilha de São Miguel, Açores)
Recolha: Artur Santos
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

Quando o Menino nasceu
P'ra salvar a toda a gente,
Uma estrela apareceu
Aos três Reis do Oriente.

Quando a estrela avistaram,
Compreenderam-la bem;
Sem demora caminharam
Atrás dela p'ra Belém.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, guitarra portuguesa, viola braguesa, bandolim, violino e guizos

Nota: «Os Reis e toda a época do Natal integram um dos temas mais profusamente representados no nosso vasto cancioneiro popular, dando lugar a inúmeros espécimes que podemos incluir no âmbito do chamado "Ciclo da Natividade". Indubitavelmente, as figuras dos três reis magos assumem, entretanto, um relevo talvez único, gozando da predilecção especial das nossas gentes.
Nos Açores este facto torna-se extremamente sensível, dada a grande abundância e indiscutível qualidade das cantigas de Reis que ali pululam um pouco por toda a parte. Em boa hora o prof. Artur Santos empreendeu o registo magnético de muitos exemplares da região, facultando-nos uma valiosa amostragem do riquíssimo folclore musical açoriano.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)

* Ronda dos Quatro Caminhos:
Ana Rita Mendes da Silva – guitarra portuguesa, cavaquinho, bandolim, banjola e voz
António Prata – viola, viola braguesa, baixo acústico, ocarina e voz
António Silva Lopes – bombo, pandeireta, chocalhos e voz
Cristina Martins Marques – efeitos colectivos e voz
João Cavadinhas – viola, bombo e voz
João Lima – viola braguesa, assobio, bombo, guizos e voz
Maria Manuel Mendes – efeitos colectivos e voz
Sérgio Contreiras – castanholas e voz
Maria Teresa Cabral – efeitos colectivos e voz
Vítor Reino – viola, viola braguesa, concertina, fole, banjola, flautas, ponteira, pandeiro, pandeireta e voz
Participações especiais:
Maria Olímpia Mota e Inocência Monteiro Mendonça – adufes
Maria da Encarnação Portugal – voz (em "Cravo Roxo")
Jorge Lé – violino
Direcção musical, arranjos e harmonizações – Vítor Reino



São João



Letra e música: Popular (Beira Baixa / Estremadura)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

São João inda não veio,
Tomara que ele viera!
Já tenho cravos e rosas
Para fazer a capela.

Só no mês de São João
Se podem tomar amores...
Que estão os trigos com rama
E os craveiros com flores.

[instrumental]

– Donde vindes, São João,
Pela calma sem chapéu?
– Venho de ver as fogueiras
Que me fizeram no Céu.

São João se foi à praça,
Com São Pedro se encontrou:
– Pedro, festeja o teu dia,
Que o meu já se festejou!

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, duas guitarras portuguesas, duas violas braguesas, três bandolins, duas flautas, concertina, guizos, dois adufes e castanholas

Nota: «A noite de S. João constitui ainda hoje, em muitas regiões do país, uma das ocasiões mais declaradamente alegres e expansivas da vida do povo. Esta cantiga que traz o brilho vibrante da música da Beira Baixa exprime singelamente o significado do S. João no cancioneiro popular português, onde é cantado e recantado em inúmeras quadras e infinitas melodias.
O fandango que encerra a canção parece-nos particularmente curioso e sugestivo, descobrindo um pouco verdadeira face do folclore musical da Estremadura. E quem não saberá distinguir a graciosa simplicidade deste trecho da banalidade e pobreza que costumam caracterizar as versões mais divulgadas?...» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Na Volta do Mar



Letra: Popular (Algarve)
Música: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

Sua Alteza a quem Deus guarde
Aviso mandou ao mar;
Que se aparelhasse o conde
P'ra o outro dia largar.

O conde se aparelhou,
Na sanha de pelejar!
Para navegar em cheio
Manda as velas desfraldar.

«Adeus, marinheiros velhos,
Adeus, que vamos largar!
Com as velas desfraldadas,
Vamos na volta do mar.»

Três anos e mais um dia
Era a nau a navegar...
Avistaram grande armada
Que cobria todo o mar!

Dentro dela vem um turco,
Pelas barbas a jurar,
Que o nobre conde almirante
Ele há-de vir degolar!

O conde que tal ouvira,
Ali se pôs a gritar...
Afirmando que à moirama
Jamais iria parar!

Palavras não eram ditas,
E as balas de par a par!...
Umas naus já trebucavam,
Outras iam a escapar.

Ganhara o conde a batalha,
Não mais havia a ganhar.
Tocam-se logo os apitos,
Tudo corre a manobrar!

– Arriba, mestre piloto,
Àquela gávea real!
Vê se m'avistas a terra
Do reino de Portugal.

– Já vejo rios a correr,
Lavadeiras a lavar...
Vejo muito forno aceso,
Padeiras a padejar!

Também vejo taberneiras
Da pipa vinho a tirar...
Se não nos faltar o vento
À terra vamos jantar!

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, duas violas braguesas, quatro cavaquinhos, violino, flauta, concertina, dois bombos, pandeireta e palmas

Nota: «Da bruma dos séculos passados ficaram os romances, a par dos contos tradicionais, como vivos testemunhos de outras eras, impondo-se talvez pelo profundo significado humano e pelo carácter universal da mensagem que deles transparece. E, durante longos serões, têm servido à maravilha para entreter as horas, prendendo os ouvidos ao fio sinuoso do seu enredo.
É este um romance de assunto marítimo e guerreiro, que nos remete para a época dos Descobrimentos e da consolidação do comércio com o Oriente. Ultrapassando o mero episódio que lhe deu origem, depurou-se e cristalizou-se na memória do povo, que o guardou como eco de antigos feitos. Concebemos para ele uma música simples, incisiva e directa, tal como entendemos o sentido fundamental da narrativa.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Pezinho



Letra e música: Popular (Açores)
Recolha: Artur Santos
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

[Mulher:]
Já o céu não tem estrelas
Senão três em um cantinho...
Onde o meu amor passeia,
Que não tem outro caminho.

Risca e dá-me o teu pezinho,
Devagar, devagarinho,
Nasce água, arrebentam bredos;
Onde estarás tu agora,
Caixinha dos meus segredos?...

[instrumental]

[Homem:]
Quem me dera ser as contas
Desse teu lindo colar...
Para dormir no teu seio
E nunca mais acordar!

Risca e dá-me o teu pezinho,
Tuas mãos são lindas flores,
Teus braços cadeias d'oiro
Laços de prender amores.

[Ambos:]
Risca e dá-me o teu pezinho,
Devagar, devagarinho,
Dois ausentes que farão?...
Tu (eu) ausente de uma rosa,
Eu (tu) ausente de um botão!


* Instrumentos: duas violas, guitarra portuguesa, viola braguesa, violino e bandolim

Nota: «Quem quiser conhecer a expressão mais fina e delicada do sentimento amoroso procure-a entre os versos que o povo canta, e encontrá-la-á decerto! Quem pretender escutar a pulsação profunda do coração enamorado ouça os velhos tocadores e cantadores da região açoriana, e achará na doçura plangente das cordas dedilhadas e na suavidade quase melancólica do canto a expressão mais pura e verdadeira da mais viva sensibilidade de e lirismo...
E não falta o timbre peculiar do violino a enriquecer este belo Pezinho, género tão representativo do folclore dos Açores.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Vira do Vinho Novo



Música: Popular (Minho) e Vítor Reino
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


(instrumental)


* Instrumentos: duas violas, duas violas braguesas, quatro cavaquinhos, violino, bombo, pandeireta, castanholas e palmas

Nota: «Um dos instrumentos de natureza mais notoriamente festiva é, sem dúvida, o cavaquinho, cuja sonoridade parece convidar de imediato à dança e à diversão. O seu ritmo saltitante alia-se ao timbre penetrante e quase impertinente que o caracteriza, o que se torna particularmente sugestivo num instrumento de tão reduzidas dimensões.
O Vira que compusemos para o cavaquinho fica como um apelo à euforia do movimento e da dança e à alegria contagiante que ressuma de uma caneca de vinho novo.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Batuque



Letra e música: Popular (Açores / Trás-os-Montes)
Recolha: Artur Santos
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

Batuque, batuque,
Batuque, meu bem!
Quem me dera ter
O que o batuque tem...

Batuque, batuque,
Torna a batucar!
Meninas bonitas
Vão p'ra o seu lugar.

[instrumental]

Batuque, batuque,
Por trás do frontal...
Perdi uma agulha,
Achei um dedal.

Batuque, batuque,
De noite ao serão...
Ouvem-se violas,
Que lindas que são!

[instrumental]


* Instrumentos: três violas braguesas, guitarra portuguesa, quatro cavaquinhos, baixo acústico, duas ponteiras, duas gaitas-de-foles, dois pandeiros, pandeireta e quatro bombos

Nota: «No calor de uma noite de festa e convívio, esta bela moda de baile surge como manifestação plena de juventude e vitalidade, no seu ritmo quase sensual e no exotismo da sua melodia. A fascinação e o encantamento que podem existir numa simples cantiga encontram-se aqui bem patentes, não deixando de ser curiosas as estranhas similitudes relativamente a padrões musicais africanos.
A fusão que efectuámos entre a beleza melancólica da música dos Açores e a força quase primitiva do folclore transmontano (aqui representado pela sonoridade vibrante das gaitas-de-foles que acompanham a canção e a encerram com um típico toque de alvorada) aponta para o carácter universalista da música tradicional como expressão dos sentimentos mais profundamente significativos da pessoa humana.
"Batuque, batuque, / Batuque, meu bem!..."
E no auditório cruzam-se os olhares furtivos, as promessas adivinhadas por detrás das palavras...» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Quedos, Quedos, Cavaleiros!



Letra: Popular (Trás-os-Montes)
Música: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

«Quedos, quedos, cavaleiros,
Que el-rei vos manda contar!»
Contaram e recontaram,
Só um lhes vinha a faltar.

Era esse Dom Beltrão,
Tão forte no batalhar;
Nunca o acharam de menos
Senão naquele contar.
Senão ao passar do rio
Nos portos do mal passar!

Sete vezes deitam sortes
A quem no há-de ir buscar;
Todas setes lhe caíram
Ao bom velho de seu pai.

Triste e só se foi andando,
Sempre, sempre a cavalgar...
Aos pastores perguntando
Se viram ali passar
Cavaleiro de armas brancas,
Seu cavalo tremedal.

«Cavaleiro de armas brancas,
Seu cavalo tremedal,
Por essa ribeira fora
Ninguém no viu passar.»

Vai andando, vai andando,
Dom Beltrão não pôde achar.
Vê andar um perro moiro
Em um adarve a velar:

– Por Deus, te rogo, bom moiro,
Me digas sem me enganar,
Cavaleiro de armas brancas
Se o viste por aqui passar?
Ontem à noite seria,
Horas de o galo cantar;
Se entre vós está cativo,
A oiro o hei-de pesar.

– Esse cavaleiro, amigo,
Morto está nesse pragal,
Com sete feridas no peito,
Qual delas a mais mortal?!
Por três vezes seu cavalo
Desviou, para o salvar,
Mas a sanha era tanta
Que por terra veio tombar...

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas dedilhadas, dois bandolins, violino, fole, duas flautas, dois adufes e bombo

Nota: «"Ouvi, agora, senhores, a história do bravo cavaleiro Dom Beltrão e mais do nobre seu pai, que por montes e vales o procurou! Vede como o desvairado velho o foi encontrar no campo de batalha, trespassado pelas lanças muçulmanas! Reparai bem como tudo isto se passou e até que ponto o destemido cavaleiro quis levar a sua ousadia..."
Com este pregão de tipo medieval se anuncia uma história fantástica como muitas que persistem na nossa memória colectiva: são os antigos romances vindos do fundo dos tempos, de tempos tão longínquos que já não é a realidade que importa mas o mundo encantatório do "era uma vez...", onde tudo é possível e aceitável.
"Ouvi, agora, senhores, a história do bravo cavaleiro Dom Beltrão, herói lendário da lendária luta entre Mouros e Cristãos, antes mesmo da fundação de Portugal como nação independente... e descobri por vós próprios que força oculta existirá nesta história, para assim atravessar, de boca em boca, mil anos de gerações sucessivas!..."» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Malhão Bruxo



Letra e música: Popular (Minho)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


[instrumental]

Ó Malhão, Malhão,
O Sete-Estrelo vai alto,
Mais alto vai o luar...
Ó Malhão, Malhão,
Adivinhai, meus senhores,
O que for de adivinhar!

– Para andar me põem capa,
Para andar ma vão tirar;
Se não posso andar sem capa,
Com capa não posso andar.
                                (o pião)

– Que lindos amores eu tenho,
Oh que lindos, oh que ingratos!
Andam por dentro das botas
E por fora dos sapatos.
                                (os tornozelos)

– Não sou frade nem sou monge,
Nem sou de nenhum convento;
Meu fato é de franciscano
E só de ervas me sustento.
                                (o grilo)

– Os homens me dão governo
E aos homens governo eu dou;
Quando se esquecem de mim,
O meu governo acabou.
                                (o relógio)

– Começo a vida num ponto
E num ponto hei-de acabar;
Nem que diga o nome todo,
Metade vem a faltar.
                                (a meia)

Ó Malhão, Malhão,
O Sete-Estrelo vai alto,
Mais alto vai o luar...
Ó Malhão, Malhão,
Bailai todos à porfia,
Que o Malhão vai terminar!


* Instrumentos: concertina, duas violas, viola braguesa, três cavaquinhos, bandolim, bombo, pandeireta e pinhas

Nota: «"Qual é a coisa, qual é ela?" E assim se anima o serão desafiando velhos e moças, espevitando a curiosidade e a participação de todos. E aí vem mais outra, encontrada agora mesmo no mais recôndito da lembrança antiga...
"Esta é que vocês não sabem!" E é assim que a palavra anda à roda, tecendo o fio mágico que liga jovens e adultos, transmitindo saberes que uns já esqueceram e outros ainda não adquiriram.
Este divertido "Malhão Bruxo" resulta da simples ideia de associar duas manifestações da tradição oral, a música e as adivinhas, companheiras amigas de tantos serões.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Quadrilha Velha



Música: Popular (Douro Litoral)
Recolha: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


(instrumental)


* Instrumentos: duas violas, dois bandolins e dois banjos

Nota: «Chegou a vez de uma dança menos efusiva, própria da calma dos grandes salões e ambientes interiores. Trata-se de uma quadrilha, antiga dança de origem francesa, difundida por toda a Europa ao longo do século XIX e introduzida em Portugal por ocasião das invasões napoleónicas. Tal procedência não impediu o nosso povo de a assimilar e moldar ao seu carácter, conferindo-lhe frequentemente um novo e inconfundível toque de sensibilidade.
Esta espantosa e requintada quadrilha foi-nos transmitida por um velho e exímio tocador de banjo, infelizmente já desaparecido, que não podemos aqui deixar de lembrar.» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)



Reis do Oriente



Letra e música: Popular (Açores)
Recolha: Artur Santos
Música adicional: Vítor Reino
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)


Os "Reises" do Oriente
Pela estrela guiados,
Cada um com seu presente
Em lindos camelos montados...

[instrumental]

Trouxeram da sua terra
O que havia de mais fino:
Trouxeram ouro, incenso e mirra
Para oferecer ao Deus Menino.

[instrumental]

«O frio cá fora corta,
Que até chega ao coração!
Faz favor de abrir a porta
Aos amigos que aqui estão.»

[instrumental / vozes]


* Instrumentos: duas violas, guitarra portuguesa, viola braguesa, bandolim, violino, flauta, bombo, pandeireta, guizos e pandeiro

Nota: «Os cantos de Janeiras e de Reis surgem intimamente associados à magia da noite, em que os costumes se abrandam e são toleradas certas liberdades sociais impensáveis à luz do dia. Grupos de homens e mulheres, unidos por um calor capaz de fazer face à temperatura agreste das mais geladas noites de Inverno, deslocavam-se ao longo dos povoados, pedindo de comer e de beber à porta de cada habitante, e deixando mal colocado todo aquele que fizesse ouvidos de mercador e não acorresse com a sua chouriça ou filhó.
Dos Açores nos chegam estes "Reis", mais precisamente estas duas cantigas que acoplámos numa só, culminando com um trecho de dança por nós concebido para melhor simbolizar a debandada dos cantadores e, simultaneamente, o final deste encontro festivo dedicado ao Sete-Estrelo.
Assim acaba a função, com a mesma alegria do começo, talvez só com a ponta de nostalgia própria de quem chega ao fim de um momento de prazer...» (Vítor Reino / Ronda dos Quatro Caminhos)

* Ronda dos Quatro Caminhos:
Ana Rita Mendes da Silva – bandolins, banjo, cavaquinho, adufes, palmas e voz
António Prata – viola, viola braguesa, baixo acústico, palmas e voz
António Silva Lopes – bombos, pandeiro, palmas e voz
Fátima Valido – viola, cavaquinho, palmas e voz
João Cavadinhas – viola, conchas, palmas e voz
João Lima – viola braguesa, guitarra portuguesa, pandeiro, guizos, palmas e voz
Sérgio Contreiras – castanholas, pinhas, palmas e voz
Vítor Reino – viola, viola braguesa, concertina, banjola, fole, flautas, ponteiras, gaita-de-foles, pandeireta, palmas e voz
Participação especial:
Jorge Lé – violino
Direcção musical, arranjos e harmonizações – Vítor Reino
Técnicos de som – Paulo Junqueiro e Moreno Pinto



O Barbeiro



Letra: João Cavadinhas e António Prata
Música: João Cavadinhas
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Canções Tradicionais Infantis", Schiu!/Transmédia, 1985, reed. Polygram, 1995)


[instrumental]

– Diga lá, ó senhor Gato:
Porque tem esses bigodes?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mos quis cortar.

Disse que gato sem bigodes
Mais parecia um pinguim,
Que a bigodes tão bonitos
Não era de se dar fim.

[instrumental]

– Diga lá, senhor Leão:
Porque tem esse cabelo?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não mo quis cortar.

Disse que leão careca
Mais parecia uma avestruz,
Que leão só fica bem
De cabeleira ou capuz.

[instrumental]

– Diga lá, ó senhor Bode:
Porque tem essa barbinha?
– Fui outro dia ao barbeiro
E ele não ma quis cortar.

Disse que bode sem barba
Mais parecia um chimpanzé,
Que bode só fica bem
De barba grande e boné.

[instrumental]



Don Solidon



Letra e música: Popular (Estremadura)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Canções Tradicionais Infantis", Schiu!/Transmédia, 1985, reed. Polygram, 1995)


[instrumental]

Olha a menina, Don Solidon,
Como vai contente!
Ponha a mão na trança, Don Solidon,
Não lhe caia o pente!

Olha a menina, Don Solidon,
Como vai airosa!
Ponha a mão na trança, Don Solidon,
Não lhe caia o rosa!

[instrumental]

Olha a menina, Don Solidon,
Como vai bonita!
Ponha a mão na trança, Don Solidon,
Não lhe caia a fita!

Olha a menina, Don Solidon,
Com o seu raminho!
Ponha a mão na trança, Don Solidon,
Segure o lacinho!

[instrumental]



Cantiga de Roda



Letra e música: Popular
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Canções Tradicionais Infantis", Schiu!/Transmédia, 1985, reed. Polygram, 1995)


[instrumental]

Alfinetes são biquinhos,
Agulhas variedades;
Amores em terra alheia
Deixam muitas saudades.

Amangar, amangar,
Amangar, amangação!
Hei-de ser tua cunhada
Se casar com teu irmão!

[instrumental]

Da minha janela à tua,
Do meu coração ao teu
Há um navio de amores
E o marinheiro sou eu.

Amangar, amangar,
Amangar, amangação!
Hei-de ser tua cunhada
Se casar com teu irmão!

[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – voz, viola, viola braguesa, violino, harmónio e flauta
António Silva Lopes – voz, bombo, caixa, pandeireta, ferrinhos, martelinho, pinhas, guizos e pratos
Fátima Valido – voz, banjola, bandolim, cavaquinho, adufe e pandeireta
João Cavadinhas – voz, viola, baixo acústico, harmónica, cazu, tambor, pandeiro e berimbau
Produção, arranjos, harmonizações e direcção musical – Ronda dos Quatro Caminhos
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Setembro de 1985
Técnicos de som – Joca e Jorge Barata



Chula de Paus



Letra e música: Popular (São Pedro de Paus, Resende, Douro Litoral)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)


[instrumental]

Já lá vem o mês de Maio, [bis]
Tempo de tomar amores;
Não há tempo mais bonito [bis]
Que o Maio com suas flores.

[instrumental]

Já chegou o mês de Maio [bis]
Com suas variedades:
Deixa os campos em flor [bis]
E no meu peito saudades.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, quatro violas braguesas, três violinos e bombo

Nota: «Cada vez menos usado pelos tocadores populares, o violino tem nesta lindíssima chula de São Pedro de Paus uma linha melódica e uma pulsação ímpares, que a tornam num espantoso exemplo de uma das mais belas canções bailadas portuguesas.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Saudade



Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)




[instrumental]

Ai as saudades são tantas (minha saudade)
Que eu por ti tenho às vezes,
Que até l'as mando espalhar (minha saudade)
Por cima dos campos teus.

São tantas as saudades (minha saudade)
Que nem as posso contar:
São tantas como as estrelas, (minha saudade)
Como as areias do mar.

[instrumental]

Dizem que a saudade espera (minha saudade)
Ausência para chegar;
Eu tenho saudades tuas (minha saudade)
Mesmo antes de te deixar.

Já lá vai Abril e Maio, (minha saudade)
Já lá vão estes dois meses;
Só não se vão as saudades (minha saudade)
Que eu por ti tenho às vezes.

[instrumental]


* Instrumentos: quatro violas de arame e violino

Nota: «Instrumento tipicamente açoriano (embora seja conhecido e utilizado também na Madeira), a viola de arame acompanha à maravilha o canto repousado e suave dos cantadores.
Com cinco ordens de cordas (duas triplas e três duplas) e uma afinação semelhante à da viola comum, possui uma sonoridade por vezes grosseira, por vezes doce, mas sempre enleante, quer quando soam as cordas mais graves no desenho dos baixos, ou quando se evidencia um trecho melódico.
Conhecida e utilizada em todo o arquipélago, apenas na ilha Terceira a viola tem outras características, apresentando seis ordens de cordas (três duplas e três triplas).
Saudade! Saudade dos que partiram, dos que ficaram, de um amor ausente?! Sentir-se-á ainda, após tantas e tantas gerações, a nostalgia dos primeiros povoadores? De qualquer modo é a saudade o sentimento inspirador de algumas das mais belas quadras da poesia popular açoriana.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Chula de Piães



Letra e música: Popular (Minho)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)


[instrumental]

Ó rapazes, vamos ao vira,
Que o vira é bailação!
Eu gosto de dançar o vira
Do fundo do coração.

Ó tocador de viola,
Dizei se quereis ou não
Oh que eu cante uma cantiga
Ao toque da vossa mão!

[instrumental]

Ai toca-me nessa viola,
Toca-me nela sem medo!
Se as cordas se arrebentarem
Aqui tens o meu cabelo.

A viola quer que eu cante,
Quer que eu cante e não padeça;
E o tocador que a toca
Quer que eu por ele endoudeça.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, duas violas braguesas, quatro cavaquinhos, concertina e dois bombos

Nota: «Acompanhada pelos habituais cordofones das Rondas, a concertina convida ao baile. É a chula, o malhão, o vira, o verde-gaio.
E se o baile está no princípio, não falta a voz fresca e atrevida de uma jovem a incentivar os tocadores, a desafiar os bailadores.
E enquanto a caneca do verde passa de boca em boca, o baile promete amores, cumpre desejos, semeia!» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Mariana Campaniça



Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)




[Moda:]
E a Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
E à missa não vai ninguém.

E à missa não vai ninguém,
E à missa já ninguém vai;
E a Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.

[Cantiga:]
É tão longe do céu à terra
Como é da morte à vida;
Do meu coração ao teu
É uma estrada seguida.

[Moda:]
E a Mariana Campaniça
Que lindos olhos que tem;
Do Monte da Légua às Pias,
E à missa não vai ninguém.

E à missa não vai ninguém,
E à missa já ninguém vai;
E a Mariana Campaniça,
Coitadinha, não tem pai.


* Instrumentos: viola campaniça

Nota: «Cantiga muito divulgada em todo o Baixo Alentejo, dolente, com uma melodia simples mas expressiva, é um bonito exemplo do tipo de canto mais estritamente ligado à viola campaniça.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Sapateia



Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)


[instrumental]

Pus-me a brincar com a rosa,
Piquei-me nos seus piquinhos;
É um bem que assim aconteça
Quem com a rosa tem brinquinhos.

Esta é que é o sapateia:
Eu fui ao ar num balão,
Faltou-me o gás e caí
Dentro do teu coração.

[instrumental]

Adeus, meu botão de rosa,
Adeus, minha branca flor!
Adeus, jóia do meu peito,
Meu delicado amor!

Esta é que é o sapateia:
Eu fui ao ar num balão,
Faltou-me o gás e caí
Dentro do teu coração.

[instrumental]


* Instrumentos: quatro violas de arame

Nota: «Comum a todas as ilhas, a(o) sapateia não difere na coreografia de outros "balhos" açorianos: formam-se duas rodas, uma interior, a das mulheres, e outra exterior, a dos homens. As rodas movimentam-se sobre a esquerda, e outrora os tocadores e cantadores também "balhavam".
Para tocar a sapateia é frequente alterar-se a afinação da viola, baixando de um tom a quinta corda: de Lá para Sol.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Baile da Meia-Volta



Letra e música: Popular (ilha de Porto Santo, Madeira)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)




[instrumental]

É que o baile da meia-volta,
Que vai ao meio e volta ao lado,
São recordações antigas:
Que ainda hoje é lembrado.

Caminhei do Porto Santo,
Passei nas ondas do mar,
Só p'ra te fazer a vontade
De vir à Madeira cantar.

[instrumental]


* Instrumentos: duas violas, duas violas de arame, rajão, violino e pandeiro

Nota: «É a primeira vez que interpretamos uma canção popular do arquipélago da Madeira. Sobre o "Baile da Meia-Volta" (Porto Santo) nos tinham já alertado para a sua invulgaridade, para o exotismo da sua melodia, da sua cadência, para a sensualidade que se desprende do violino e da voz dos cantadores. Bailava-se a noite inteira – contam.
Entre os instrumentos de acompanhamento é de salientar o rajão, pequeno instrumento de cinco cordas, de uma sonoridade rude, que se toca sobretudo de rasgado, e é apenas utilizado na região.
Naturalmente numa versão abreviada, falta à nossa interpretação uma voz que constantemente incentiva os cantadores e bailadores.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Quero Ir para o Altinho



Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Popular* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)




[instrumental]

[Moda:]
Quero ir para o altinho
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém
Se ele ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.

[Cantiga:]
A alegria de uma mãe
É uma filha solteira;
Casa a filha, vai-se embora,
Vai-se a rosa da roseira.

[Moda:]
Quero ir para o altinho
Que eu daqui não vejo bem;
Quero ir ver do meu amor
Se ele adora mais alguém.

Se ele adora mais alguém
Se ele ama a mim sozinho;
Que eu daqui não vejo bem,
Quero ir para o altinho.


* Instrumentos: viola campaniça

Nota: «A viola campaniça, que outrora exercia sozinha a função de animar os bailes do Baixo Alentejo, é hoje um instrumento praticamente desaparecido. Com cinco ordens de cordas (duas triplas e três duplas) toca-se sobretudo com o polegar, acompanhando melodicamente o canto.
O alto é feito por uma mulher, uma terceira acima, e os homens cantam todos com a melodia, em coro, por vezes com um baixão.
Para evidenciar o toque da viola cantamos apenas com o baixão, a voz principal e o alto.» (Ronda dos Quatro Caminhos)



Romance de Dona Mariana



Letra e música: Popular (Algarve)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Amores de Maio", Contradança, 1986, reed. Ovação, 1992, 1997)




[instrumental]

— «Fiz uma aposta, senhores,
ou de perder ou de ganhar:
dormir com Dona Mariana,
filha do conde Real.»

— «Não apostes, ó meu filho,
ai, que tu não hás-de ganhar!
Dona Mariana é muito séria,
ai, de ti não se deixa enganar.»

Vestiu-se em traje de donzília
e tratou de caminhar;
logo avistou Mariana
que andava a passear.

— «Eu sou Dona Mariana,
ai, não me posso demorar,
oh, que donzílias fora de horas
ai, não é bonito de andar!»

— «Cala-te aí, ó donzília,
ai, não te estejas a difamar,
oh, que será esta noite ainda
ai, que ao meu quarto virás ficar!»

Lá pela noite adiante
Dona Mariana quis gritar.
— «Cala-te já, Mariana,
Que eu sou Dom Carlos d'Além-Mar.»

— «Só te peço, ó Dom Carlos,
ai, que à praça não te vás gabar!
Oh, se o meu pai vem a saber
ai, ele me mandará matar!»

Ora, logo no outro dia
à praça se foi gabar:
«Dormi esta noite com uma menina
tão branquinha como um cristal:
era Dona Mariana,
filha do conde Real.»

Seu irmão que tal ouviu
a seu pai logo foi contar:
«Mande matar Mariana,
que se deixou enganar!»

— «Ó Dom Carlos, ó Dom Carlos,
ai, ó Dom Carlos d'Além Mar,
uma menina que vós tínheis
ai, não a deixeis mandar matar!»

Vestiu-se em traje de frade
ai, e tratou de caminhar.
— «Oh, a menina que aí levam,
ai, ela vai por confessar!

Sobe naquela liteira,
que eu sou Dom Carlos d'Além-Mar!
Oh, chegaremos ao meu palácio
e trataremos de ir casar.»

[instrumental / coro]


* Instrumentos: duas banjolas, baixo acústico, violino, três flautas, pandeiro, caixa e dois bombos

Nota: «Muito se tem ultimamente falado da influência da música árabe na nossa música tradicional. Por razões várias, que não cabe nestas linhas aprofundar, não concordamos muito com a influência deste ou daquele tipo de música, e inclinamo-nos para a opinião de Fernando Lopes-Graça, mais universalista, que contrapõe à ideia de influência a de semelhança pontual.
Assim, e como já aconteceu em trabalhos anteriores, onde determinados momentos seriam facilmente associados a música de várias regiões da Europa, resolvemos acentuar neste romance algumas passagens cuja linha melódica decerto lembrará a música dos povos do Norte de África.
Romance épico, de assunto carolíngio, com várias versões, é conhecido também sob os nomes de, entre outros, D. Carlos, Conde Claros, e Conde de Montalvar.» (Ronda dos Quatro Caminhos)

* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – viola campaniça, viola de arame, violino, concertina, flautas e voz
António Silva Lopes – bombo, caixa, pandeiro, pinhas e voz
Daniel Completo – viola, pandeireta e voz
Fátima Valido – cavaquinho, bandolim, banjola e voz
João Cavadinhas – viola, viola braguesa, rajão, banjola, baixo acústico e voz
Participação especial:
A.C. – violino
Produção, arranjos, harmonizações e direcção musical – Ronda dos Quatro Caminhos
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Março e Abril de 1986
Técnico de som – Joca



Fadinho



Letra e música: Popular (Beira Alta)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)


[instrumental]

Deitei um limão correndo,
À tua porta parou;
Quando o limão te quer bem
Que fará quem o deitou!

Eu fui o que disse ao Sol
Que não tornasse a nascer;
À vista desses teus olhos
Que vem o Sol cá fazer?!

Subi ao céu por uma linha,
Duma nuvem fiz encosto;
Dei um beijo numa estrela
Pensando que era o teu rosto.

Minha terra não tem rosas,
Já secaram as roseiras;
As rosas da minha terra
São as mocinhas solteiras.

Esta noite caiu neve
Numa folhinha de couve;
Oh, quem me dera cair
Nos braços de quem me ouve!

Já lá vem o tempo alegre,
O tempo das desfolhadas:
É quando nascem os abraços
Que se dão às namoradas.

[instrumental]



Siga a Rusga



Letra e música: Popular (Minho)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)


[instrumental]

Eu cheguei aqui agora,
Boa noite, meus senhores!
Eu cheguei aqui agora
E ora boa noite!
Eu cheguei aqui agora,
Se é cedo mandai-me entrar,
Se é tarde mandai-me embora.

[instrumental]

Inda agora comecei,
Dizem que cante mais alto;
Inda agora comecei,
E ora boa noite!
Inda agora comecei,
Em perdendo o acanhamento
Mais a voz levantarei.

[instrumental]

Viva o meu atrevimento,
Agora é que vou cantar!
Viva o meu atrevimento,
E ora boa noite!
Viva o meu atrevimento,
Quem não me quiser ouvir
Bote os ouvidos ao vento.

[instrumental]

E aqueles que cantam bem,
Dá gosto ouvir cantar
Àqueles que cantam bem!
E ora boa noite
Àqueles que cantam bem!
Que aqueles que cantam mal
Não dão gostos a ninguém.

[instrumental]



Fado Velho



Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)


[instrumental]

Esta minha rouquidão
Não é catarro nem tosse:
É o ladrão do amor
Que de mim quer tomar posse.

Anda fado, anda fado,
Anda fado outra vez!
Que eu inda me hei-de vingar
Do que este fado me fez.

[instrumental]

A maçã do acipreste
Não apodrece nem cai;
E o amor que tu me tinhas
Era pouco, já lá vai.

Tantos amores já eu tive
Como estrelas há no céu;
Tantos tive, nenhum tenho:
Foi Fado que Deus me deu.

[instrumental]

A perdiz sube la rocha,
Esmói a pedra c'o bico;
E eu não posso esmoer
Coisas que de mim tens dito.

Bate fado, bate fado
Numa lasquinha de cana;
Que eu já vi tocar lo fado
Lá em baixo em Santana.



Balho da Povoação



Letra e música: Popular (ilha de São Miguel, Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)




[instrumental]

Minha avó quando nasceu
Eu já tinha três semanas;
Já vinha da Povoação
C'um saquinho de castanhas.

Ontem à noite eu fui ao balho
Mai-la minha rapariga;
Eu dei-lhe um beijo na testa
E um beliscão na barriga.

[instrumental]

Minha mãe quando nasceu
Eu já estava em São Vicente;
Minha mãe está teimosa:
Que nasceu à minha frente.

Oh, que linda rosa é esta
Tenho eu ao pé de mim!
Pelo cheirinho que ela deita
Parece que veio do jardim.

[instrumental]

Nesta terra não é uso
Ir pedir a filha ao pai:
Vai-se pela escada acima,
"Senhor sogro, já cá vai!"

O balho da Povoação
Quem havia de inventar?
Foi a filha da padeira
Toda a noite a peneirar.

[instrumental]



Fado Batido



Letra e música: Popular (Beira Litoral)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)




[instrumental]

Todas numa carreirinha...
Ai, as estrelas no céu correm,
Ai, todas numa carreirinha.

Todos numa carreirinha
Ai, assim corressem amores,
Ai, da vossa mão para a minha!

Da nossa terra...
Ó fado, ó lindo fado,
Ai, ó fado da nossa terra!
Ai, é um regalo dançar
Com uma menina donzela!
Ai, ó fado, ó lindo fado,
Ai, ó fado da nossa terra!

Mais amores tenho eu...
Ai, Sete-Estrelas tem o céu,
Ai, mais amores tenho eu.

Mais amores tenho eu,
Ai, quantos mais tenho mais quero,
Ai, foi no que a vida me deu.

Já me esqueceram...
Venham cá amores novos
Ai, que os velhos já me esqueceram!
Foram penas que voaram,
Folhas secas que arderam.
Ai, venham cá amores novos
Ai, que os velhos já me esqueceram!

Uma menina mais eu...
Ai, esta noite andei ao fado
Ai, uma menina mais eu.

Uma menina mais eu,
Ai, como ela não sabia
Ai, todo o trabalho foi meu.

De vos ouvir tocar...
Tocai lo fado batido
Que eu gosto de o ouvir tocar!
Ai, o fado é muito lindo
Mas agora vai-se acabar.
Ai, tocai lo fado batido
Que eu gosto de o ouvir tocar!

[instrumental]



Delicado Pezinho



Letra e música: Popular (ilha Terceira, Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)


[instrumental]

Meu delicado pezinho...
Quando toca no caminho
Logo toca o meu também;
Depois vamos conversando,
Nossos pezinhos tocando
Mais felizes que ninguém.

[instrumental]

Esse pé que é o teu
Deve estar ao pé do meu
Namorando a vida inteira;
O meu pé não se acomoda,
Quer ir com o teu à roda
De toda a ilha Terceira.

[instrumental]

Nossos pezinhos rodando,
Passo a passo caminhando
Só ouvindo a tua voz;
E então um pouco a medo
Me disseste um segredo
Que ficou só entre nós.

[instrumental]



Valsinha



Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP "Fados Velhos", Contradança, 1986, reed. Movieplay, 1998)


(instrumental)


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – viola de arame, violino, concertina e coros
António Silva Lopes – guizos e voz solo
Daniel Completo – viola e coros
Fátima Valido – banjo, bandolim, cavaquinho, flautas e voz solo
João Cavadinhas – viola, viola braguesa e voz solo
Participação especial:
A.C. – violino
Produção, arranjos e direcção musical – Ronda dos Quatro Caminhos
Gravado nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro e Março de 1987
Técnico de som – Moreno Pinto



Canção de Romaria



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP/CD "Romarias", Ovação, 1991)




[instrumental]

Indo eu d'aqui tão longe,
Sem pôr os pés na calçada,
Venho dar os parabéns
À senhora esposada.

Venho dar os parabéns
À senhora esposada;
Indo eu d'aqui tão longe
Sem pôr os pés na calçada.

[instrumental]

Lá em cima ao altar-mor
Aqui treme o coração,
Quando o senhor vigário diz:
"Ponha aqui a sua mão!"

Quando o senhor vigário diz:
"Ponha aqui a sua mão!"
Lá em cima ao altar-mor
Aqui treme o coração.

[instrumental]

Já não tenho coração,
Já mo tiraram do peito;
No lugar do coração
Nasceu-me um amor-perfeito.

No lugar do coração
Nasceu-me um amor-perfeito;
Já não tenho coração,
Já mo tiraram do peito.

[instrumental]



Chula de Cabril



Letra e música: Popular (Douro Litoral)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP/CD "Romarias", Ovação, 1991)


[instrumental]

Só agora aqui cheguei,
Vou cantar uma cantiga
Cá da nossa freguesia.

[instrumental]

Cá da nossa freguesia,
Vou cantar a linda chula
Quer de noite quer de dia.

[instrumental]

Muito bem se ouve cantar
Quando chega a Primavera,
Quando chega o mês de Abril.

[instrumental]

Quando chega o mês de Abril,
Muito bem se canta a chula
Lá por terras de Cabril.

[instrumental]



Saias da Amieira



Letra e música: Popular (Alto Alentejo)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP/CD "Romarias", Ovação, 1991)


[instrumental]

Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais
Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais.

Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais;
Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais.

Aquela bilha de barro
Comprada em Vila Viçosa,
P'ra matar sedes de amores
Faz a água mais gostosa.

Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais
Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais.

Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais;
Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais.

O castelo de Marvão
Está lá no alto com graça;
As portas estão sempre abertas
Para receber a quem passa.

Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais
Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais.

Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais;
Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais.

Já não me lembram cantigas
Nem sei que hei-de cantar;
Já só me lembram as moças
Que me querem namorar.

Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais
Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais.

Que cosem as raparigas
Nas dobras dos aventais;
Estas é que são as saias,
Estas é que são as tais.

[instrumental]



Valsa de Dois Passos



Música: Popular (Estremadura)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in LP/CD "Romarias", Ovação, 1991)


(instrumental)


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violino, concertina, viola da terra, bandola e coros
António Silva Lopes – bombo, timbalão, ferrinhos, reque-reque, garrafa com garfo e voz solo
Daniel Completo – viola, baixo acústico e coros
Fátima Valido – cavaquinho, bandolim, flauta, castanholas e voz solo
João Cavadinhas – viola braguesa, viola amarantina, banjola, banjo e voz solo
Participações especiais:
A.C. – violino
João Nuno Represas – caixa, adufe e trancanholas
Rui Vaz – gaita-de-foles, flauta e adufe
Margarida Antunes – coros
Lídia Gonçalves – coros
Arranjos e direcção musical – António Prata e João Cavadinhas
Produção – António Prata
Gravado no Angel Studio, Lisboa, em Dezembro de 1990 e Janeiro de 1991
Técnicos de som – Rui Novais e Fernando Abrantes



Serenata



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)




[instrumental]

Estou cantando à tua porta,
Vim aqui por causa tua:
Acordar à meia-noite
A mais bela flor da rua.

[instrumental]

Bem sei que te levantaste
E que me estás escutando
E que escreves num papel
As quadras que estou cantando.

[instrumental]

Chega-te a essa janela,
Vem ver a luz da manhã!
Vem ver a rua varrida
Pela capa de um galã!

[instrumental]

Ó luar da meia-noite,
Não sejas meu inimigo!
Estou à porta de quem gosto,
Não posso entrar contigo.

[instrumental]

Valha-me o lencinho branco
Neste momento em que choro,
Por não cair esta noite
Nos braços de quem adoro!

[instrumental]



Sol Baixinho (Moda de baile)



Letra e música: Popular (ilha de Santa Maria, Açores)
Recolha: Artur Santos (campanha de 1958) (in CD "O Folclore Musical nas Ilhas dos Açores: Antologia Sonora da Ilha de Santa Maria", Açor/Emiliano Toste, 2002)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)


[instrumental]

Sol baixinho, sol baixinho,
Sol baixinho também queima;
Eu hei-de amar, sol baixinho,
Só p'ra seguir uma teima.

[instrumental]

Cravo branco, não me prendas,
Que eu não tenho quem me solte!
Não sejas tu, cravo branco,
Causante da minha morte!

[coro / instrumental]

O meu pai é tocador,
Minha mãe é cantadeira:
Eu sou filho deles ambos,
Canto da mesma maneira.

[instrumental]

Eu gosto muito de estar
Onde estão as raparigas:
Uma canta, outra baila
E a outra ouve as cantigas.

[coro / instrumental]



Serração da Velha



Letra e música: Popular (Estremadura)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)


[instrumental]

Vamos serrar esta velha
Aqui mesmo ao pé da porta!
Ela não quer que lhe chamem
A velha da perna torta.

A velha da perna torta
Sem dentes não sabe rir;
Nunca dormiu numa cama
Que não podia subir.

[coro / instrumental]

Vamos serrar esta velha,
Ninguém tem nada com isso!
Venha a velha e venha o velho,
Venham todos p'ró cortiço!

Venham todos p'ró cortiço,
Vamos serrá-los com brio!
O velho já não comia
E só tremia de frio.

[coro / instrumental]

Vamos serrar esta velha,
Esta velha tão cruel,
Que tem abelhas aos centos
E não dá pingo de mel!

Nunca deu pingo de mel,
Nem broa, nem pão, nem sal.
Vamos embora cantar
P'ra onde não levem a mal!

[coro / instrumental]



D'Onde Vens, Ana?



Letra e música: Popular (Baixo Alentejo)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Recantos", Polygram, 1996)


[instrumental]

– D'onde vens, ó Ana?
– Venho da junqueira.
– Cheira-me o teu lenço, ó Ana,
À flor de laranjeira.

À flor de laranjeira,
À flor do alecrim;
Diz-me de onde vens, ó Ana?
– Eu venho do jardim.

[instrumental]

– D'onde vens, ó Ana?
Lenço na cintura,
Não conheço andar tão firme
Com tanta formosura.

Com tanta formosura
Só os anjos do Céu;
Diz-me de onde vens, ó Ana?
És minha e eu sou teu.

[instrumental]

D'onde vens, ó Ana?
Há tanto nevoeiro!
– Venho de lavar a roupa,
Eu venho do ribeiro.

Eu venho do ribeiro
E estou tão cansada!
– Fica tu comigo, ó Ana,
Minha rosa amada!

D'onde vens, ó Ana?


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violas, violino, bandolim e coros
Carlos Barata – acordeão, adufe e 2.ª voz
Daniel Completo – baixo acústico e coros
João Cavadinhas – viola amarantina e voz solo
Vítor Costa – bateria e percussões
Músicos convidados:
A.C. – violino
Filipe Martins – contrabaixo e baixo acústico
José Barros – viola braguesa
Pedro Fragoso – piano e coros
António Lopes e Alexandre Jerebtzov – coros
Arranjos – António Prata, João Cavadinhas e Carlos Barata
Produção e direcção musical – António Prata
Produção executiva – Alain Vachier
Gravado no Regiestúdio, Amadora, e misturado no Estúdio Sincronia, Madrid, em Janeiro e Fevereiro de 1996



Outras Terras



Letra e música: Popular (Trás-os-Montes)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Outras Terras", RQC - Produções Musicais, 1999)




[instrumental]

Chamaste-me trigueirinha,
Eu não sou da Terra Quente;
Outra aldeia é a minha,
Outra a terra, outra gente!

Ai, meu amor,
Como dói amar-te assim:
Este silêncio que morde,
Esta dor que não tem fim!

Ai, saudade,
Não mates o meu bem!
Deixa-me viver com ele
Se não morro eu também!

[instrumental]

Inda hão-de nascer os sábios
P'ra nos dizer a razão
Que um beijo dos nossos lábios
Se sente no coração.

Ai, meu amor,
Como dói amar-te assim:
Este silêncio que morde,
Esta dor que não tem fim!

Ai, saudade,
Não mates o meu bem!
Deixa-me viver com ele
Se não morro eu também!

[instrumental]



Triste Fado (Charamba)



Letra e música: Popular (ilha Terceira, Açores)
Recolha: José Alberto Sardinha (ilha Terceira, 1997) (in "Portugal - Raízes Musicais": CD 6 – Algarve e Ilhas, BMG/JN, 1997)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Outras Terras", RQC - Produções Musicais, 1999)




               À memória de Vitorino Nemésio

[instrumental]

Garganta, tu não me afrontes!
Movo serras, movo montes,
Rios e também as fontes
E louvo a toda a multidão!

Movo as águas cristalinas
E as cidades mais finas,
Pedreiras e bagacinas
E também o teu coração.

[instrumental]

A morte é uma ceifeira,
Uma feia traiçoeira:
Mata de qualquer maneira,
Mata alegre e mata triste.

Mata velho, mata novo,
Mata sem maior estrovo
Que é a desgraça do povo
Que neste mundo existe.

[instrumental]

Bendito, louvado seja
Aqui ou na igreja,
Ou em qualquer lugar que esteja,
É a Santíssima Trindade.

E é a Virgem Maria,
Nossa mãe e nossa guia,
Que é a nossa companhia
P'ra toda a eternidade.

[instrumental]



Romance do Caçador



Letra e música: Popular (Beira Alta)
Recolha: José Alberto Sardinha (Guarda, 1990) (in "Portugal - Raízes Musicais": CD 4 - Beira Baixa e Beira Trasmontana, BMG/JN, 1997)
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Outras Terras", RQC - Produções Musicais, 1999)




[instrumental]

Caçador que andava à caça,
Já por lá lhe anoitecia;
Encostou-se a um arvoredo
Só p'ra ver se amanhecia.

Lá pela noite adiante
Lindo cantar se ouvia;
Penteando os seus cabelos
O arvoredo a cobria.

[instrumental]

– «Sete fadas me fadaram
Por dez anos e um dia;
Se hoje se acabam os anos,
Amanhã a alegria.

Não te vás, ó cavaleiro,
Por Deus e por cortesia!
Leva-me no teu cavalo,
Vou ser tua companhia!»

[instrumental]



Chão de Centeio



Letra e música: Popular (Trás-os-Montes)
Recolha: José Alberto Sardinha
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in CD "Outras Terras", RQC - Produções Musicais, 1999)




[instrumental]

Oh, que caminho tão longo,
Ai, que verde chão de centeio!
Quem tem um amor bonito
Ai, ri-se de quem o tem feio.

Ri-se de quem o tem feio,
Ai, ri-se de quem o não tem;
De toda a maneira ri-se...
Ai, mais vale não ter ninguém.

[instrumental]

A laranja nasce verde,
Ai, com o tempo amadurou;
Meu coração nasceu livre
Ai, mas ao teu preso ficou.

Amor-perfeito não dura
Ai, nem nunca pode durar;
Eu tenho um amor perfeito
Ai, que dura até se acabar.

[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – violas e coros
Carlos Barata – acordeão e coros
João Oliveira – voz solo e coros
Mário Peniche – baixo
Pedro Fragoso – piano e coros
Vítor Costa – bateria, percussões
Músicos convidados:
Inna Rechetnikova – violino
José Barros – viola braguesa
Coral Infantil de Carcavelos, dirigido por Pedro Fragoso
Arranjos – António Prata, com a colaboração de Carlos Barata, que escreveu as melodias contracanto do violino e do acordeão. Também as harmonias desenhadas em conjunto com Carlos Barata e Pedro Fragoso. A concepção de cada instrumento contou ainda com a colaboração do seu executante.
Produção e direcção musical – António Prata
Produção executiva – Alain Vachier
Bases referência de gravação – Carlos Barata
Gravação – Miguel Salema, nos Estúdios On Line, em Fevereiro e Março de 1999
Assistente de gravação – Kiko
Misturas – Miguel Salema, António Prata e Carlos Barata



Olha o Rouxinol



Letra e música: Popular (Alentejo)
Arranjo: António Prata com Carlos Barata e Pedro Fragoso
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* com o Grupo Cantares de Évora (in 2CD "Alçude": CD1, Ovação, 2001)




[instrumental]

Olha o passarinho,
Que bem que ele canta!
Quando está cantando
Parece que tem
Uma guitarra na garganta.

E olha o rouxinol!
Vai fazer o ninho
Dentro do balsedo
P’ra cantar sem medo.
Olha o passarinho!

[instrumental]

E a moda vai alta,
Não lhe posso chegar;
Cantem-na baixinho,
Mais devagarinho
Que eu quero cantar!

Olha o passarinho,
Que bem que ele canta!
Quando está cantando
Parece que tem
Uma guitarra na garganta.

E olha o rouxinol!
Vai fazer o ninho
Dentro do balsedo
P’ra cantar sem medo.
Olha o passarinho!

[instrumental]

Anda cá, vem ver
O que nunca viste:
Os meus olhos alegres
Choram sem querer
Lágrimas tão tristes!

Olha o passarinho,
Que bem que ele canta!
Quando está cantando
Parece que tem
Uma guitarra na garganta.

E olha o rouxinol!
Vai fazer o ninho
Dentro do balsedo
P’ra cantar sem medo.
Olha o passarinho!

[instrumental]



Anima Mea



Letra e música: Popular (Trás-os-Montes)
Arranjo: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in 2CD "Alçude": CD1, Ovação, 2001)


[instrumental]

Aqui se canta, aqui se baila,
Aqui se joga a laranjinha;
Eu conheço o meu amor
Pelo nó da gravatinha.

Pelo nó da gravatinha,
Pelo lenço cachiné;
Aqui se canta, aqui se baila,
Aqui se joga o dominé.

[instrumental]

Triste és anima mea,
Triste és anima tua;
Quando estiver em teus braços
Então direi: aleluia!

Triste és anima mea,
São palavras em latim;
O meu amor p'ra contigo
Só por morte terá fim.

[instrumental]



Flor da Rosa



Letra e música: Popular (Alentejo)
Recolha: José Alberto Sardinha
Arranjo: António Prata, Carlos Barata e Pedro Fragoso
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in 2CD "Alçude": CD1, Ovação, 2001)


[instrumental]

Nasce o Sol no Alentejo,
Nasce água clara na fonte;
Nasce em mim a saudade
Da lareira do teu monte.

Quem me dera ser o trigo
Que ciranda na peneira,
E poder andar contigo
Cirandando a vida inteira.

[instrumental]

Não há cravo como o branco
Que até no cheirar é doce,
Nem amor como o primeiro
Se ele fingido não fosse.

Pelas estrelas da noite
Regulam-se os marinheiros,
E eu pelos teus lindos olhos
Que são astros mais certeiros.

[instrumental]

Às ceifeiras nunca digas
Madrigais no teu cantar,
Pois se vão em tais cantigas
Fica o trigo por ceifar.

Eu não sei por que motivo
Tu me recusas um beijo!...
Ao menos sei porque vivo
Tão preso ao teu Alentejo.

[instrumental / vocalizos]



Canção de Janeiro



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Arranjo: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* (in 2CD "Alçude": CD1, Ovação, 2001)


[instrumental]

Esta noite não se dorme,
Vamos cantar as janeiras!
Cheira a cravo, cheira a rosas,
Cheira à flor das laranjeiras.

Aqui mora gente honrada:
É casa dum lavrador
Que tem a mulher bonita
E a filha como uma flor.

[instrumental]

Ó que linda estrela brilha
Além dos lados do Norte!
A esta mui nobre casa
Deus lhe dê uma boa sorte!

Alegrai-vos, companheiros,
Já vejo a luz da candeia!
A filha do lavrador
Vem-nos convidar p'rá ceia!

[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – guitarra, bandolim e coros
Carlos Barata – acordeão, bandolim, adufe e voz
João Oliveira – guitarra e voz solo
Mário Peniche – baixo
Pedro Fragoso – piano, sintetizador e voz
Pedro Pitta Groz – bateria e voz
Músicos convidados:
Fátima Rodrigues – violino
Fernando Araújo – guitarra e coros
Inna Rechetnikova – violino solo
Grupo Cantares de Évora:
Manuel Francisco Serrano, Fernando Costa, Francisco Góis, Maria Jerónima Romana, Idália Silva, António Rosado, Maria Clarisse, António Santos, Marcos Infante, Manuel Caldeira, Bernardino Caeiro, Angélica Caldeira, Domingos Caraça, António Cuco, José Madeira, Henrique Camacho, José Veiga, Carlos Cruz, Joaquim Paixão, Pedro Calado, Joaquim Varela
Direcção – Joaquim Soares
Produção e direcção musical – António Prata
Direcção geral e som de sala – Miguel Salema
Som de palco – Miguel Medeiros
Gravação – Tim Tim
Gravado ao vivo no Teatro Garcia de Resende, Évora, a 24 e 25 de Novembro de 2000
Mistura – Miguel Salema e António Prata, com a colaboração de todos os músicos



Gota de Água



Letra e música: Popular (Alentejo)
Orquestração e arranjo: António Prata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* & Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento com a Orquestra Sinfónica de Córdoba (in CD "Terra de Abrigo", Ocarina, 2003)




[instrumental]

Fui à fonte beber água,
Achei um raminho verde;
Quem o perdeu tinha amores,
Quem o achou tinha sede.

Dá-me uma gotinha de água,
Dessa que eu oiço correr!
Entre pedras e pedrinhas
Alguma gota há-de haver.

Alguma gota há-de haver,
Quero molhar a garganta;
Quero cantar como a rola,
Como a rola ninguém canta.

[instrumental]

A água da fonte corre
Limpa, clara, fresca e pura:
Assim correm os meus olhos
Para a tua formosura.

Dá-me uma gotinha de água,
Dessa que eu oiço correr!
Entre pedras e pedrinhas
Alguma gota há-de haver.

Alguma gota há-de haver,
Quero molhar a garganta;
Quero cantar como a rola,
Como a rola ninguém canta.



Não Quero Que Vás à Monda



Letra e música: Popular (Alentejo)
Orquestração e arranjo: Carlos Barata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* & Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento com a Orquestra Sinfónica de Córdoba (in CD "Terra de Abrigo", Ocarina, 2003)




[instrumental]

Daqui para a minha terra
Tudo é caminho e chão;
Tudo são cravos e rosas (oh meu lindo amor)
Plantadas por minha mão.

Não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar;
Só quero que me acompanhes (oh meu lindo amor)
No dia em que m'eu casar.

No dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha;
Não quero que vás à monda (oh meu lindo amor)
Nem à ribeira sozinha.

[instrumental]

Dizem que o tabaco tira
As mágoas ao coração;
Eu faço um cigarro e fumo (oh meu lindo amor)
E as mágoas ainda cá estão.

Não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar;
Só quero que me acompanhes (oh meu lindo amor)
No dia em que m'eu casar.

No dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha;
Não quero que vás à monda (oh meu lindo amor)
Nem à ribeira sozinha.



Fui-te Ver, Estavas Lavando



Letra e música: Popular (Alentejo)
Orquestração e arranjo: Carlos Barata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* & Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa com a Orquestra Sinfónica de Córdoba (in CD "Terra de Abrigo", Ocarina, 2003)


[instrumental]

Quem inventou a partida
Não sabia o que era amar;
Quem parte, parte sem vida,
Quem fica, fica a chorar.

Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem "assabão";
Lavaste em água de rosas,
Ficou-te o cheiro na mão.

[instrumental]

Ficou-te o cheiro na mão,
Ficou-te o cheiro no fato;
Se eu morrer e tu ficares
Adora-me o meu retrato!

Adora-me o meu retrato,
Adora meu coração!
Fui-te ver, estavas lavando
No rio sem "assabão".

[instrumental]



Uma Estrela se Foi Pôr (Canção ao Menino)



Letra e música: Popular (Alentejo)
Orquestração e arranjo: Carlos Barata
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* & Cantares de Évora com a Orquestra Sinfónica de Córdoba (in "Terra de Abrigo", Ocarina, 2003)


[instrumental]

Uma estrela se foi pôr
Em cima duma cabana;
A cabana era pequena,
Não cabiam todos três;
Adoravam o Menino
Cada um da sua vez.

E abram-se lá essas portas,
Inda não estão bem abertas!
Que nasceu o Deus Menino,
Vou-lhes dar as Boas-Festas!

Boas-Festas, meus senhores,
Boas-Festas lhes vou dar!
Que nasceu o Deus Menino
Alta noite de Natal!

Alta noite de Natal,
Noite de santa alegria,
Que nasceu o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria!

[instrumental]

Senhora, dona de casa,
Deixe-se estar que está bem!
Mande-nos dar a esmola
Por essa rosa que aí tem!

E abram-se lá essas portas,
Inda não estão bem abertas!
Que nasceu o Deus Menino,
Vou-lhes dar as Boas-Festas!

Boas-Festas, meus senhores,
Boas-Festas lhes vou dar!
Que nasceu o Deus Menino
Alta noite de Natal!

Alta noite de Natal,
Noite de santa alegria,
Que nasceu o Deus Menino,
Filho da Virgem Maria!

[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – guitarra
Carlos Barata – acordeão e adufe
João Oliveira – voz solo
Mário Peniche – baixo
Pedro Fragoso – piano e sintetizador
Pedro Pitta Groz – percussões
Grupos corais e etnográficos:
Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento (Serpa):
Manuel Grilo, Francisco Coelho, José Torrão, Manuel Valente, João Estevens, Manuel Vinagre, António Cubaixo, Duarte Macias, Chico Vinagre, Chico Baiôa, Cristóvão Serrano, Diogo Campaniço, João Raposo, Sebastião Grilo, Francisco Drago, Bento M. Valente, Bento Caeiro, Luís Serrano, António Biscoito, Francisco João Campaniço, João Carrilho, Francisco Valadas, Bento Valadas, Afonso Raposo, Mamede Raposo, Matias Preto, Zé Soares, Rafael Santos, Joaquim Mouralinho, Joaquim Soares, José Morais Moreira
Direcção – Francisco João Coelho
Solo – Duarte Macias
Alto – João Carrilho
Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa:
António Evaristo, António Gato, Carlos Arruda, Carlos Carrasco, Carlos Fava, Carlos Paraíba, Domingos Camões, Domingos Rijo, Hélder Ferreira, João Sales, José Filipe, José Graça, José Manuel, José Maria, Leonel Patrício, Luís Aureliano, Luís Ferreira, Mário Apolinário, Matias Galego, Vasco Rodrigues, Vicente Cachopo, Carlos Lagarto
Direcção – Francisco Torrão
Solo – António Evaristo
Alto – Carlos Barata (Ronda dos Quatro Caminhos)
Cantares de Évora:
Pedro Calado, Bernardino Caeiro, Manuel Caldeira, Joaquim Soares, Jerónima Soares, Idália Silva, Clarice Rosado, Angélica Caldeira, António Rosado, António Cuco, José Madeira, Marcos Infante, Francisco Silva, Manuel Serrano, Fernando Costa, António Santos, Henrique Camacho, António Varela, Carlos Cruz, Domingos Caraça, José Veiga, Joaquim Cascalho
Direcção – Joaquim Soares
Solo – Joaquim Soares e Manuel Caldeira
Alto – Pedro Calado
Orquestra Sinfónica de Córdoba (secção de cordas), dir. Gloria Isabel Ramos Triano
Solos:
Viola de arco – Cécile Pays
Violino – Inna Rechetnikova
Oboé – Ricardo Lopes
Pandeiretas – Emília Cachola, Zélia Celestino, Carminda Carapiço, Fátima Paralta
Castanholas – Francisco Paralta, João Soutino
Selecção, adaptação dos temas e direcção musical – António Prata e Carlos Barata
Produção – António Prata
Produção executiva – Joaquim Balas / Ocarina
Gravado, misturado e masterizado nos Estúdios Orelha Mecânica
Direcção técnica de gravação – Miguel Salema
Assistente de gravação – Miguel Medeiros
Orquestra Sinfónica de Córdoba – gravações efectuadas no Gran Teatro de Córdoba
Gravações dos coros – Centro Cultural de Vila Nova de São Bento, Ateneu Mourense, Casas do Povo de Serpa, Safara, Baleizão, Centro Comunitário de Campo Maior, antigos celeiros da EPAC em Évora
Direcção dos coros para a gravação – Carlos Barata
Misturas – Miguel Salema, com António Prata, Carlos Barata e Pedro Pitta Groz (ainda com a colaboração de todos os músicos da Ronda)



Debaixo da Laranjeira



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Arranjo: Pedro Pitta Groz
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos com as Adufeiras de Monsanto (in CD "Sulitânia", Ocarina, 2007)




[instrumental]

Eu venho daqui, daqui,
Eu venho daqui, d'além;
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Muita laranja apanhei.

Muita laranja apanhei:
Uma verde, outra amarela;
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Namorei uma donzela.

[instrumental]

Namorei uma donzela,
Namorei o meu amor;
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Nem chove nem faz calor.

Nem chove nem faz calor,
Oh, que vento tão fresquinho!
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Meu amor deu-me um beijinho.

[instrumental]

Meu amor deu-me um beijinho,
Deu-me um abraço apertado;
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Saímos de lá casados.

Saímos de lá casados,
De dia e a toda a hora;
Debaixo da laranjeira, ó ai,
Meu amor, vamos embora!

[instrumental]



Cantiga das Casadas



Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Arranjo: Vasco Pearce de Azevedo
Intérprete: Ronda dos Quatro Caminhos* com Coro Polifónico Eborae Musica (in CD "Sulitânia", Ocarina, 2007)




[instrumental]

Deixai cantar as casadas,
Não lhes turvai o cantar;
Quantas vezes cantam elas
Com vontade de chorar!

Ó ai ó lari lolela
Ó ai ó lari loló
[2x]

[instrumental]

Chega para cá esse adufe,
Eu o farei retinir!
Às mocinhas do meu tempo
Eu as farei aqui vir.

Ó ai ó lari lolela
Ó ai ó lari loló
[2x]

[instrumental]


* Ronda dos Quatro Caminhos:
António Prata – guitarra, bandolim e coro
Carlos Barata – acordeão, bandolim e coro
João Oliveira – voz solo, guitarra e coro
Pedro Fragoso – piano e coro
Mário Peniche – baixo
Pedro Pitta Groz – bateria, percussões e coro
Convidado especial:
Vasco Pearce de Azevedo – guitarra
Adufeiras de Monsanto:
Amélia Mendonça – voz solo e adufe
Laura Eugénia – voz e adufe
Maria Noémia Maio – voz e adufe
Maria Lídia Amaral – voz e adufe
Maria Helena Amaral – voz
Rita Fonseca – voz
Lisabela Fonseca – voz
Maria Adosinda Xavier – voz
Direcção do grupo – Joaquim Fonseca
Direcção para as gravações – Carlos Barata
Coro Polifónico Eborae Musica:
Sopranos – Carlota Gusmão, Catarina Gusmão, Cita Pires, Ermelinda Carrilho, Isabel Coelho, Isabel Mira, Isabel Rato, Susana Gusmão, Sílvia Silva, Teresa Ortet e Sara Ramalhinho
Contraltos – Beatriz Quitério, Helena Raposo, Mafalda Gusmão, Maria de Fátima Mendes, Maria Helena Zuber e Susana Valente
Tenores – Paulo Fernandes, Paulo Carrilho, Luís Henriques, Filipe Pimentel e João Barros
Baixos – Alfredo Sousa, Carlos Borges Ferreira, César Cardoso, Faustino Ferreira, Imme Berg e Nuno Frade
Direcção – Maestro Pedro Teixeira
Direcção do grupo – Maria Helena Zuber
Quarteto Opus 4:
Paula Pestana – primeiro violino
Rita Franco – segundo violino
Pedro Teixeira – viola de arco
Luís Estêvão da Silva – violoncelo
Flautas de bisel (soprano, contralto e baixo):
Joana Alves Martins, Tiago Manuel Sousa
Produção – António Prata
Gravado ao vivo no Centro Cultural Raiano (Idanha-a-Nova), no Teatro Marques Duques (Mértola), e no Teatro Garcia de Resende (Évora)
Gravado também e misturado no Estúdio Mixtime, no sistema Pro Tools, entre Novembro de 2006 e Abril de 2007
Gravação – António Prata e Miguel Salema
Mistura – Miguel Salema, António Prata, Carlos Barata, Pedro Pitta Groz, Pedro Fragoso e Vasco Pearce de Azevedo
Masterização – Miguel Salema



Ronda dos Quatro Caminhos (desde 2000):
Da esquerda para a direita: Pedro Fragoso, Pedro Pitta Groz, Mário Peniche, António Prata, Carlos Barata e João Oliveira.
António Prata é o único elemento da formação original.