19 julho 2013

Em memória de Guilherme de Melo (1931-2013)



Jornalista, escritor e poeta português, Guilherme José de Melo nasceu na cidade de Lourenço Marques (hoje Maputo), a 20 de Janeiro de 1931, e faleceu em Lisboa, a 29 de Junho de 2013. Fez os estudos liceais na cidade natal, ingressando no funcionalismo público que abandonou, aos vinte anos de idade, para iniciar a actividade de jornalista, primeiro no "Notícias da Tarde" (1952) e depois no "Notícias", de Lourenço Marques (1952-1974), onde atinge o lugar de director-adjunto. Os seus primeiros poemas saíram, em 1949, no jornal laurentino "Itinerário", continuando a colaborar com poesia e contos em diversos suplementos literários e revistas, tais como "Capricórnio", de Lourenço Marques, "Paralelo 20", da cidade da Beira, e "Colóquio/Letras", de Lisboa. Entre 1956 a 1959, colaborou num programa de teatro radiofónico dirigido por Reinaldo Ferreira, no Rádio Clube de Moçambique, quer escrevendo peças originais, quer adaptando obras de outros autores, designadamente de Henrik Ibsen e de Federico Garcia Lorca. Foi como ficcionista que publicou os primeiros livros: "A Menina Elisa e Outros Contos" (1960), "A Estranha Aventura" (contos, 1961) e "As Raízes do Ódio" (romance, 1965). Neste último, a abordagem feita ao racismo gerou acesa polémica, acabando a PIDE por apreender a edição. Em 1969, publicou um trabalho de reportagem sobre a Guerra Colonial, que então decorria, sob o título de "Moçambique, Norte – Guerra e Paz", que lhe valeu o Prémio Pêro Vaz de Caminha. Em Outubro de 1974, perante a convulsão em que Moçambique entrou, resolveu radicar-se em Lisboa, trabalhando no gabinete de imprensa do IARN - Instituto de Apoio ao Retorno de Nacionais e, a partir de Janeiro de 1976, como redactor do "Diário de Notícias", onde se manteve até 31 de Dezembro de 1996, altura em que se aposentou. «O Almeida Santos telefona-me e dá-me duas hipóteses de emprego: ou chefe de redacção da ANOP ou redactor do "Diário de Notícias". Escolhi ser redactor do "Diário de Notícias" e ele ficou muito admirado por eu ter decidido recomeçar por baixo.», confessou em 1998 numa entrevista concedida ao seu DN. O regresso à vida literária aconteceu com a publicação, em 1981, do romance "A Sombra dos Dias", «uma autobiografia escrita na terceira pessoa», distinguida pelo júri do Prémio Literário Círculo de Leitores para obras inéditas, em que tratou com frontalidade a homossexualidade, temática continuada nos romances "Ainda Havia Sol" (1984) e "O Que Houver de Morrer" (1989). O regresso à temática africana deu-se com "Os Leões Não Dormem Esta Noite" (1989), biografia romanceada de Gungunhana, que lhe fora sugerida por Samora Machel, já presidente da República Popular de Moçambique, quando se voltaram a encontrar em 1984 (haviam-se conhecido em 1961, quando o escritor, na sequência de um acidente de viação, esteve internado num hospital onde Samora era um anónimo ajudante de enfermeiro). Da sua produção romanesca posterior sobressaem "Como Um Rio sem Pontes" (1992) e "As Vidas de Elisa Antunes" (1997), olhar cúmplice e irónico sobre uma Lisboa corroída pela desumanização. Embora os primeiros textos literários que publicou fossem poemas, foi já perto do fim da vida, que Guilherme de Melo se decidiu a publicar o seu primeiro e único livro de poesia, "A Raiz da Pele" (2011).

Bibliografia:
- A Menina Elisa e Outros Contos (contos), col. Textos Moçambicanos, Lourenço Marques: Associação dos Naturais de Moçambique, 1960
- A Estranha Aventura (contos), ilustrações de Jorge Garizo do Carmo, col. Prosadores de Moçambique, vol. 3, Beira, 1961
- As Raízes do Ódio (romance), Lisboa: Arcádia, 1965; Lisboa: Editorial Notícias, 1990
- Moçambique, Norte – Guerra e Paz (reportagem), Lourenço Marques: Minerva Central, 1969
- Menino Candulo, Senhor Comandante... (conto), Lourenço Marques: Emp. Moderna, 1974
- A Sombra dos Dias (romance), Lisboa: Bertrand, 1981; Lisboa: Notícias, 1985
- Ser Homossexual em Portugal (reportagem), col. Cadernos de Reportagem, vol. 1, Lisboa: Relógio d'Água Editores, 1982
- Ainda Havia Sol (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1984
- Moçambique: Dez Anos Depois (reportagem), Lisboa: Editorial Notícias, 1985
- O Que Houver de Morrer (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
- Os Leões Não Dormem Esta Noite (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1989
- Como Um Rio sem Pontes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1992
- As Vidas de Elisa Antunes (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 1997
- O Homem que Odiava a Chuva e Outras Estórias Perversas (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 1999
- A Porta ao Lado (romance), Lisboa: Editorial Notícias, 2001
- Gayvota: Um Olhar (por Dentro) sobre a Homossexualidade (ensaios), Lisboa: Editorial Notícias, 2002
- Crónicas de Bons Costumes (contos), Lisboa: Editorial Notícias, 2004
- A Raiz da Pele (poesia), Montijo: Humanity's Friends Books, 2011



Paralelamente à edição do livro "A Raiz da Pele", o actor Vítor de Sousa gravou metade (vinte e sete) desses poemas num CD homónimo. Desse disco seleccionei uns quantos para aqui apresentar, em homenagem a Guilherme de Melo. É serviço público que o blogue "A Nossa Rádio" se orgulha de prestar aos seus leitores, mormente aos ouvintes da rádio pública, pois a Antena 1 (pelo menos) voltou a pecar, por omissão, na homenagem que lhe cabe render aos artistas e autores quando nos deixam.
Carlos Pinto Coelho, se cá estivesse, não teria certamente deixado de honrar a memória de Guilherme de Melo, com quem, aliás, esteve duas vezes à conversa no programa "Agora... Acontece!". Portanto, afigura-se de toda a oportunidade trazer esses fonogramas à luz do dia, ademais não sendo de somenos o proveito cultural que deles poderá tirar quem se der ao cuidado de ouvi-los.



"Agora... Acontece!" N.º 82, de 22-Mai-2000



Guilherme de Melo entrevistado por Carlos Pinto Coelho [a partir de 13':30'']


"Agora... Acontece!" N.º 334, de 04-Jul-2005



Eugénio Lisboa e Guilherme de Melo conversam com Carlos Pinto Coelho sobre o poeta Reinaldo Ferreira



Capa do CD "A Raiz da Pele", de Vítor de Sousa (Ovação, 2011)
As receitas dos direitos de autor revertem a favor da Associação Sol (
http://www.sol-criancas.pt/), por vontade expressa de Guilherme de Melo.



LEGENDA



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Venho de um país que nenhum de vós conhece.
Tenho um destino que nenhum de vós entende.
Moro onde mora o dia que amanhece.
Guardo na alma um temporal desfeito
e cobre-me a nudez espuma em novelo.


Brame o mar, represo, no meu peito.
Escuto búzios em longas sinfonias.
Trago agarrados ao sal do meu cabelo
algas, conchas, limos e corais
ali deixados pela mão das ventanias.




COLONIZAÇÃO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Sinto-te, África.
Sinto-te em cada músculo
de cada negro do cais.
Sinto-te em cada fulgor
do sol de Verão nas enxadas.
Sinto-te em cada soluço
das Marias-qualquer-coisa
sobre a esteira desfloradas.


Sinto-te, África, em meu sangue,
na alma, no coração,
e queria poder soltar
esta febre, esta paixão,
esta revolta incontida
de te sentir, minha terra,
nos olhos de quem me olha,
nas mãos presas às enxadas,
nos braços de quem trabalha
no manobrar das lingadas,
nos ventres prenhes de vidas
que não foram desejadas
nem o amor fez gerar.


De te sentir, minha África,
e não ganhar a coragem
do teu grito em mim gritar.




TAMBOR



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Estenderam meu corpo,
esticaram-me a pele.
Tambor me fizeram,
tambor me tangeram,
tambor me tocaram.


Tão longos os gritos,
tão longe gritaram.


Falou-me no sangue
a terra calcada
pelos negros curvados
perdidos no nada,
o ódio escondido
ao branco e senhor
– o milho perdido,
a seca mordendo,
o gado caindo,
meninos morrendo,
os choros, a dor,
na noite subindo
num longo crescendo.


Estenderam meu corpo,
esticaram-me a pele.
Tambor me fizeram,
tambor me tangeram,
tambor me tocaram.
E agora assombrados,
que longos os gritos
tão longe gritaram,
e agora aterrados,
que longos os sons
de mim se soltaram,
a pele me romperam,
enfim me calaram.




FRATERNIDADE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Se um dia tiver um filho hei-de ensinar-lhe,
antes mesmo que diga Pai e Mãe,
a maravilhosa palavra que é Irmão.


Hei-de repetir-lha,
letra a letra,
de lábios a tocar-lhe o coração
para que entenda e se aperceba, assim,
que amar a vida
é amar em cada homem um Irmão.




ORGULHO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Pouco ou nada me importa que vós outros
vos choqueis com a forma como eu amo.
Amo a quem amo como entendo e quero amar.
Amo a quem amo porque os nervos tensos
e toda a carne e sangue do meu corpo
impõem e me gritam que assim ame.
E o que se passa aqui, dentro de mim,
somente a mim pertence porque é meu.


Ficai sabendo, pois, que força alguma
pode mudar o que nasceu quando eu nasci
e que, nem sei porquê, aconteceu.


Sabei então, para sempre e de uma vez,
que aí fora, na rua, mandais vós
– mas aqui, dentro de mim, só mando eu.




DUALIDADE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Metade do meu corpo é Marco António,
outra metade – mistério! – é Cleópatra.
Eu sou, ao mesmo tempo, o torvo Otelo
e Desdémona que a tremer se entrega
na fronteira da noite que amanhece.


Dentro de mim há sempre o que domina,
ao lado da metade que se oferece.




GIRASSOL



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Havia a imensidão que há nas paisagens lunares.
Havia o longo silêncio que escorre dos glaciares.


Havia a desolação que há sobre a terra queimada.
Havia o tenso mistério de uma freira emparedada.


Havia a aspereza salgada que há num longínquo recife.
Havia o cinzento frio que tem o céu em Cardiff.


Havia o pávido assombro duma descida ao inferno.
Havia a tristeza imensa de Veneza no inverno.


Havia um grito sem voz suspenso no ar parado.
Havia a face terrosa dum cigano esfaqueado.


Havia a nudez marmórea duma Acrópole derruída.
Havia o baço fulgor duma pupila sem vida.


Havia o que tendo havido nunca mais voltara a haver.
Havia a premonição das coisas por acontecer.


E foi então que vieste, assim num esplendor, num clarão,
como um girassol de fogo que irrompe, rasgando o chão.




DORIAN GRAY



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Sou eu,
inteiro, eu mesmo
– ou o retrato?


As rugas que não tenho e ele contém,
a ironia amarga nos meus lábios
feita cansaço fundo em sua boca,
o engelhado dos meus dedos lisos,
fio por fio nas suas mãos traçado,
tudo afinal sou eu nele retratado.


E olho no retrato do que sonhei.
E vejo nele o mundo que vivi.
O muito que odiei.
Os corpos que abracei, tive e perdi.
Olho o desejo, a raiva e o prazer,
a lama, o céu, o nada,
a volúpia a que, rindo, me entreguei.
Olho-me olhando o tudo que assim fiz,
tudo o que fui e quis,
lucidamente frio nesse meu querer.


Remorsos? E de quê? De ter vivido?
Remorsos? Para quê – se o proibido
é afinal estar vivo e não viver.




LISBOA



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Quando vim de África
faltava-me a lonjura,
o som e o silêncio, o espaço.
Quando vim de África
faltava-me a distância
onde o olhar se perde
e vai e vem e volta
e passeia sem peias,
receio ou embaraço.


Tudo é diferente
na Lisboa que adoptei e me adoptou.
Diferente o céu, o cheiro, a cor do mar,
diferente o chão que piso, a chuva, a gente.
Não há nas suas ruas
o clarão das acácias a florir.


Só pouco a pouco, lento, devagar,
a fui de manso
aprendendo a amar.


Hoje sinto que a Lisboa que adoptei e me adoptou
tem mais a ver com Cesário do que Eça.
Nela mergulho o rosto
como quem esconde a face que o sol esquenta
entre os seios doces, maternais,
da ama que a sorrir nos acalenta.




A RAIZ DA PELE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Guardo na raiz da pele
os gritos, as emoções,
os desesperos, os medos,
a raiva, o ódio, a perfídia,
os sonhos, as frustrações,
as cicatrizes das feridas
que a vida em mim foi abrindo,
os mistérios, os segredos.


Guardo na raiz da pele
a verdade do que sou.
Deixo que à flor da pele
emerja a máscara, o sorriso,
o jogo do gato-e-rato
onde, estando, nunca estou.




O QUARTO FECHADO



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Pintei de verde o teu barco,
pus-lhe um mastro e uma vela.
Soltei-o por sobre as águas,
fiquei a vê-lo na margem.


Desenhei nuvens, bonecos,
nas paredes do teu quarto.
Enchi de sol a janela,
fiquei olhando, entre a porta.


Cobri de relva os canteiros
que tracei em frente à casa.
Trouxe-te um cachorro branco,
fiquei sentado a afagá-lo.


Peguei num livro de histórias
quando a tarde foi caindo.
Debruçado para o teu berço
fiquei a lê-lo calado.


Nada faltou ou esqueci,
em tudo pensei e trouxe:
brinquedos, livros, canções,
o riso que alegre riste;


apenas faltaste tu,
o filho que não existe.




VELHICE



Poema de Guilherme de Melo (in "A Raiz da Pele", Humanity's Friends Books, 2011)
Recitado por Vítor de Sousa* (in CD "A Raiz da Pele", Ovação, 2011)



Velhice, agora os dias são imensos,
são longos e vazios.
Agora os dias são pesados, arrastam-se, são frios.
Quieto, em meu lugar.
Passeio por entre as cruzes
dos mortos que guardo em mim.
Falo com eles em silêncio.
Esquecido, à espera do fim.



Outubro de 2008


* Guitarra portuguesa – Luísa Amaro
Percussão – Marta Ribeiro
Gravado nos Estúdios Gravisom, Lisboa
Captação áudio – Gino Vitali
URL:
http://www.ovacao.pt/compra/vitor-de-sousa-a-raiz-da-pele-52226



Capa do livro "A Raiz da Pele", de Guilherme de Melo (Humanity's Friends Books, 2011)
8% do preço de capa reverte para a Associação Sol (
http://www.sol-criancas.pt/)

15 julho 2013

Pedro Barroso: "Palavras Mal Ditas" ou "Palavras Malditas"?



O muro das palavras vive dentro do papel. Da voz. Da ideia que levanta o pensamento. Devia saber por onde; e quantas vezes, não sei.
A poesia sempre foi em mim a procura permanente do sonho que me evada e me descubra. A minha e a dos outros.
Há muito que dizer poesia me fascina. Se não é, afinal, o que tenho feito toda esta vida de cantor e músico? Acho que sim.
A música das palavras antecede-lhes o significado. Depois reforça-o. E por fim, sobra-nos dele, também.
Apenas há que descobrir o ponto encoberto da emoção. E a cada língua e dialecto me imagino pensando a nova sonoridade, a nova residência do vocábulo, com o fascínio da procura eterna e da multiculturalidade. E da melhor forma de fazer circular e invadir cada pessoa.
Saber uma língua é saber comunicá-la.
Ouvia em criança o Villaret, o Lereno, a Cármen Dolores, como ícones; depois o Ruy Matos, o Varela Silva, o Victor de Sousa. Tive, no entanto, as maiores referências, que me perdoem todos, no Ary e no Mário Viegas, de quem fui colega nos palcos e na vida.
Dizer a poesia sempre me transportou. E, no caso, a minha poesia. Por isso ousei a novidade deste projecto. Veículo de mim que assim, de modo tão inesperado, aqui vos deixo.
As canções não morreram. Depressa voltarão. Algumas aqui ancoram; outras talvez daqui tenham despertado...
Mas a eternidade deste espaço secreto, essa só a quero partilhar com os íntimos mais íntimos de mim. Todos os que ainda sentem e sabem ouvir as coisas, do lado de dentro da alma.
Todos os que ainda gostem de afundar-se neste susto apaixonante de viver. Esses estarão comigo e vão perdoar-me a ousadia.
Disse. Está dito. Se são ou não "palavras mal ditas", está nas vossas mãos julgá-lo.

                                   Pedro Barroso


Palavras Mal Ditas, de Pedro Barroso
(Livro/CD, Lua de Marfim/Ovação, 2013)

1. Estados Unidos da Europa
2. Aurora
3. Madrugada
4. Árvore
5. Limites
6. A Morte e a Morte
7. Estrela d'Alva
8. Quero Viver Numa Cidade
9. O Mundo pela TV
10. Balada do Desespero
11. Perda
12. Caso Sério
13. Fornicação dos Tristes
14. Menina dos Olhos d'Água
15. Rugas
16. Aniversário
17. Noite de Afago
18. Memória
19. Outro Edifício
20. Excesso
21. À Porta Fechada do Castelo
22. Transgressão Tardia
23. Eterno
24. Outro Dia
25. D. Sebastião
26. Partido
27. Governação
28. Esperança
29. Epitáfio
30. Legado Vigilante / ...Atlantes / ...Carta Transmontana

Gravado e misturado por Rui Dias, nos Estúdios Mister Master, Vila Nova da Caparica

Foto da capa – Veríssimo Dias
Grafismo – Pedro Matias


Fernando Pessoa escreveu a dado passo: «A canção é uma poesia ajudada». Está implícito que um poema fica a ganhar se for cantado, mas não deixa de valer per si, isto é, sem a muleta da música e do canto (caso contrário não seria poesia). Quem conhece a obra discográfica de Pedro Barroso sabe que muitos dos seus textos musicados/cantados pertencem a essa categoria: são poemas, antes de tudo. Como tal, bons para serem lidos em silêncio ou ouvidos, na forma dita, podendo acompanhar-se a audição com a leitura. Esta edição de livro com CD faculta ao amante de poesia todas essas opções para alguns textos anteriormente cantados e muitos inéditos. Já tive o ensejo de fazer a audição acompanhada com a leitura e posso testemunhar o quanto essa experiência me foi gratificante e enriquecedora.
Em vez de "Palavras Mal Ditas" (só "mal ditas" quando se tem como referente, altíssimo e praticamente inatingível, as "Palavras Ditas", de Mário Viegas), a obra bem poderia ter o título de "Palavras Malditas". Na verdade, muitas delas são mesmo malditas: para a desonestidade, a intrujice, a corrupção, a cupidez, a mediocridade, a mesquinhez, a ignorância arrogante, a irresponsabilidade (individual e colectiva), a incúria, a inércia, a indiferença ao sofrimento alheio, o desrespeito pela Natureza... – em suma, tudo o que vai em sentido contrário ao bem-comum e ao direito que todo e qualquer ser humano tem de viver com dignidade. Palavras de um poeta desencantado, mas não de um céptico: subsiste a esperança – não a esperança tola e zé-povinha, mas a ideia de que os homens (livres, lúcidos e honestos) podem – assim nisso se empenhem – construir um Futuro mais justo, harmonioso e vivível.
Estranhamente, ou talvez não, estas "Palavras Mal Ditas" têm sido (quase) completamente ignoradas por rádios e televisões, inclusive as do sector público. O blogue "A Nossa Rádio" não pactua com essa ocultação e é com muita honra que faculta a audição/leitura de 5 dos 32 poemas.



ÁRVORE



Amei-te como o vento ama a montanha,
Tive por ti silente essa paixão
Abracei-te os braços, os espaços
A beleza adulta e firme do teu tronco
E converti no dia-a-dia ir visitar-te
Num exercício de beleza e emoção.

Fiz de ti, com os anos, minha cúmplice,
Minha confidente sempre, minha amante
E naquele sítio eras, sem saber,
A única coisa realmente bela e importante.

Quantas vezes, passando, te admirava,
Em contraluz, ao pôr-do-sol, num gesto;
E havia qualquer coisa de fidalgo no teu porte,
E na tua solidão um manifesto.

Mas ao passar no outro dia a curva,
Ao sopé do velho outeiro,
Pelo sítio onde habitavas, enorme, a tua dignidade,
Tinham-te cortado cerce por inútil e doente.

Ficou no verde monte aquele vulto ausente
E a marca solene do que me foste sempre:
– Matriz, forma antiga, sombra, abrigo, confidente,
Espanto de céu, recortada intensidade.

Regras da vida e da morte revistas num momento:
Para eles eras apenas lenha velha comida pela idade,
Ninguém te prestou especial solenidade.

Apenas para mim, ao que parece,
Eras mais que um ser vivo – um monumento.
Para toda a gente, eras apenas
Uma árvore secular atacada pelo tempo.



LIMITES



Há homens que se vendem por vaidade
Há homens que se vendem por dinheiro
Há até quem se venda um bocadinho
E outros que se vendem por inteiro

Uns crescem comprando a consciência
Outros fabricando um futurozinho
Para uns já perdi a paciência
Para os outros não lhes quero ser nem vizinho

Vivo no lado norte extremo do orgulho
Cavalheiro, cavaleiro doutra idade
Quando canto, atrevo a elegância
Quando escrevo, atrevo a liberdade

Não ergo as mãos por causas sibilinas
Em curvas encobertas de encoberto
Grito o gesto e mordo o desespero
Se vejo injustiça, aí, estou perto

Não há meio de deixar de ser assim
Nem me quereria eu doutra maneira
Esmoleres caricaturas, compromissos,
Chatos em geral, gente toupeira,

Besuntados, comprados, graciosos,
Respeitáveis, colunáveis de carreira,
Untuosos perfis, lugares manhosos,
Deixem-me ser livre assim e sem coleira.

E caso a caso dir-vos-ei que penso
Vento limpo soprará minha bandeira
Não me vendo por vida nem por morte
Ninguém me comprará outra carreira

Acomodei-me demais a esta obediência
Guerreiro das palavras sem viseira
Por bússola sigo a minha consciência
E tenho a minha boca por fronteira.



A MORTE E A MORTE



Velhos sem amor e sem notícia de ninguém.
Descobrimo-los por toda a parte agora, espantados; como se nunca fora assim.
Está bem patente o modelo de sociedade do futuro.
Filhos no desemprego ficam adolescentes eternos.
Casas vazias albergam a miséria da morte envergonhada de abandono.
Sobrinhos distantes, netos sem saber.
Um estado vigilante e curador que não cura, nem cuida, nem zela, nem protege; negligente, distante, indiferente.
Vizinhos com medo de vizinhos.
Silêncios que não se investigam por inércia e indiferença. Eu quero lá saber!
Afinal que morte nos aguarda? Que regime de pré-morte por ignomínia? E por nojo de viver assim? Sem o halo humano de um abraço.
Dói no peito que tenhamos caído neste coabitar com as rotinas mais bestiais da indiferença humana.
Construímos um monstro social. O valor das paredes vale mais que o valor dos abraços e da vida.
Vestimos a morte em vida, na injustiça, no trabalho e no cansaço.
Durante a vida visível compete-nos sermos travestis de felicidade, irmos andando.
E afinal agora descobrimos que depois da morte, ainda vem mais morte e mais silêncio.
Como se uma só morte não bastasse já.
A da vergonha imensa de que tudo seja insensibilidade assim.
Camuflada por um qualquer parágrafo e artigo legal que juridicamente desculpará o impropério.
O insulto dos vivos na febre invisível dos dias insensatos e indiferentes.



QUERO VIVER NUMA CIDADE



Quero viver numa cidade
Onde o dia seja brando
Onde a noite seja branca
E um rio vá deslizando...
Onde a vida seja calma
A segurança vulgar
E os jardins sejam longos
E as tardes de vagar...
E onde a História me relembre
Entre lendas de além-mar
De heroísmos e bravuras
E romances de encantar.

Quero viver numa cidade
Com a montanha a espreitar
Casas mistério, tão alto
Penduradas, a pensar
Quero praias, quero rios
Um sorriso em cada porta
Um afago em cada mão
Um abraço que conforta.

Quero viver numa cidade
Com as taxas moderadas:
Quanto baste para a saúde
Quanto baste para as estradas!
Onde a morte seja a lua
Com as estrelas ao vento
Ao fim de duzentos anos
Ainda saudáveis, sem sofrimento.

Quero viver numa cidade
Com operários construtores
Mulheres de sonho na boca
Homens de pedra aos amores
Monumentos para a memória
Obeliscos para o prazer
Coisas do gozo e da glória
Volúpias sem ter vergonha
Sem medo de acontecer.

Quero viver numa cidade
Com casas lindas ao sol
Como palácios ao vento
Ou castelos de Almourol
Parques frondosos e largos
Onde os amantes se recolhem
Com beijos doces e amargos
Tendo o céu como lençol.

Quero viver numa cidade
Nem nua nem pardacenta
Onde cada qual trabalhe
No que gosta de fazer;
Eu canto – tu dás-me o pão
E assim decorre o viver
Mesmo o trânsito nas ruas
Decorre, modéstia à parte,
Fluente e sem acidente
Não há pressa nem enfarte
E só chegar é urgente!
Há tempo de passear
E, já agora, a cidade
– Como enorme novidade!... –
Tem espaço p'ra se estacionar.

Quero viver numa cidade
Onde há gente sorridente
Que te acolhe em cada loja
Com o prazer de ajudar-te
E onde vais poder comprar
Em vez de drogas e punhos
Pedaços de poesia
Numa galeria d'arte!

Quero viver numa cidade
Com gosto, respeito e espaço
Com autocarros humanos
Tocando em fundo Vivaldi
E tempo para andar a passo.

Quero viver numa cidade
Grande como a terra inteira
Onde caiba todo o campo
Todo o mundo, todo o encanto
Tu e eu e toda a gente
Passageiros de primeira
Numa cidade diferente
Que mesmo sendo modesta
É uma cidade imponente
Onde viver é uma festa
Pelo sorriso, pela gente
Aqui mesmo à minha beira...



BALADA DO DESESPERO



Porque nasceste, vives;
Porque vivias, cresceste;
Porque cresceste, tiveste
A sorte que não previas;
Porque estudaste, aprendeste
As coisas de se saber,
E outras, inúteis de sobra
As coisas para se esquecer
As coisas para se esquecer.

Porque cumpriste, fizeste
O que mandaram fazer
Os padres, o pai, a mãe
O professor, o mais velho
O sargento, o comandante
O senhorio, a porteira
O ministro, o governante
O cobrador, o pedreiro
– Esteja cá na terça-feira! –
O bancário, o carpinteiro
O homem do gás, da luz
Da água, do pão, do leite
E acabaste cumprindo
Cumprindo tudo a preceito.

Encomendaste gravatas
Fatos novos e sapatos
Dedicaste-te ao chinquilho
Ou, se for noutro horizonte,
Talvez ao king, à canasta
Fizeste um filho, e outro filho
E nas horas livres, às vezes,
Em havendo futebol
Sentiste-te um homem de tasca
Sentiste que eras uma besta
E puseste um cachecol
Mas segunda-feira cedo
Bem cedo, bem matinal
De novo te achaste pronto
Partindo para o mesmo emprego
Comprando o mesmo jornal.

E sempre, todos os dias
Cobiçaste a secretária
Do teu chefe, o Sr. Lima
Cobiçaste o horário do Saavedra
E a mini-saia da Lina
Ah! Para à noite, corpo cansado
Tomares o trinta e sete
O carrito, a bicicleta
E regressares, esgotado
Do trabalho e da ausência
Para te sentires confortado
Da solidão na indolência
De um canapé, recostado
Aquecedor, televisão
Tudo muito bem ligado
Pijama posto, chinelos
Conforto que traz descanso
E uma certa sonolência
Concordância e anuência.

Nas férias redecoraste-te
Bizarro na concepção
E arriscaste um figurino
Compraste um chapéu assim
Foste às compras de calção
E sorriste aos teus parceiros
De barraquinha na praia
E à senhora vizinha
Que nunca tirou a saia
Agosto inteiro com saia
Calculem só os senhores
Agosto inteiro com saia.

E aturaste a pequenada
Brigas, birras, fraldas, caca
Apreciaste o traseiro
Da amiga do teu amigo
Rechonchudinha, mulata
Quase nua, fio dental
– Já é preciso ter lata!

Por decoro, viras a cara 
Não vão os putos ver isto;
Assobias, disfarçando
Espalhas óleo pelas espaldas
Enquanto a tua mulher
Um pouco desconfiada
Desabrida e despeitada
Te exigiu:
– Ó Silva! Tu muda as fraldas!

Depois à noite, porreiro
Caminhaste na avenida
Muito fresco e prazenteiro
Com a pança bem comida
Às vezes um frango inteiro
(Que não és homem dos fracos
Dos fracos não reza a História
E o Silva é alguém na vida
Homem de bem, de memória
Contabilista da firma
Tal e tal, Rua da Glória
– Sempre que quiser já sabe
Uma casa às suas ordens...)

E depois, pelo caminho
Regressas, gritas, dás ordens
Recuas, gritas, dás ordens
E ameaças o outro
Que guinou para este lado
– Se calhar querias, coitado!
E o camião chateado
De se ver ultrapassado
– Viste aquele? Tu viste aquele?

Regressas mais bronzeado
Mais gordo, talvez mais magro
Mais velho um mês e, quem sabe?,
Mais cansado que à partida.

Regressas ao rame-rame
Enquanto suspirarás
Todo o ano, por um mês
Todo o mês, por outra vida
Toda a vida, por viver
Algo que te valha a pena
Ou então, tu já nem sentes
E mentes-te enquanto mentes
E mentes e já não sentes
E já não sentes, mas mentes.

Ano a ano te esfolharam
Te roubaram prestações
Letras, fantasmas, viagens
Cromos, selos, colecções
Hálito fresco e saudável
Graxa, sabão, brilhantina.

Mudaste a cor do salão
De azul para um verde marinho
De castanho para um branquinho
E depois, por fim, como a Lurdinhas,
Para uma espécie de lilás
– O que é que tu achas, Gertrudes, meu amor?
– Eu escolhia... o mais clarinho...

E ao fim de tanto trocares
Baralhares e confundires
Acabas por rebentar
– Evitando, pelo menos
Teres enfim de destruir
Tudo o que creste ser belo
Ser lindo, ser valioso...

Acabaste confundindo
Viver com reeducar-te
Passaste o tempo calcando
O que podias ter sido tu
Nu, inteiro e pessoal
Pois que assim, afinal
Foste um entre milhões
Que de morte natural
Tem uma cruz, lega uns tostões
E cai podre numa cova,
No funeral.

Não te ficou nem um gesto
Que não façam mais milhares
Não te ficou nem um risco
Um grito para espalhares;
Não te ficou nem uma sobra
Uma intenção, uma diferença
Isto é caso p'ra dizer
Parvo, incapaz e castrado
Rastejante e cumpridor
Rastejante e tão honrado
Foste um escravo do dever
Sem glória, nem recompensa.

Repousa em paz, meu rapaz,
Que a cova te seja leve
Como a vida te foi breve,
Oca e breve, sem ofensa.



"Zé Povinho e Xico Esperto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)


"Apertar o cinto"
© Cristina Sampaio (http://www.cristinasampaio.com/)

13 julho 2013

Queremos o "Lugar ao Sul" num horário decente!

Perante o horário esconso e indigno em que Rui Pêgo, em Janeiro de 2011, colocou o programa "Lugar ao Sul" na grelha da Antena 1 (às 7:00 da madrugada de sábado), e não estando eu disposto a sacrificar o meu merecido descanso depois de uma extenuante semana de trabalho, a gravação pré-programada tem sido o expediente usado para continuar a ouvir, a horas decentes (geralmente, depois das 09:00), as deliciosas conversas de Rafael Correia ilustradas com o melhor da música de Portugal. Ora ao pôr a tocar a gravação de hoje, apareceu-me não o "Lugar ao Sul" mas o José Candeias a conversar com camionistas. Disse para comigo: «Há aqui qualquer coisa de errado! Este indivíduo não estava entre as 05:00 e as 07:00 da madrugada, de segunda a sexta-feira?!». Fiquei a ouvir um pouco, apesar do desprazer, e pude então perceber que se tratava de uma colagem dos "melhores momentos" das emissões realizadas durante a semana. Fiz esta dedução: atendendo ao desdém que sempre nutriram pelo "Lugar ao Sul", e empenhados em dar mais visibilidade à falhada aposta em José Candeias para o crepúsculo matutino da Antena 1, Rui Pêgo e António Luís Marinho terão pensado que os admiradores da arte de Rafael Correia não se importariam com a troca. Pois se assim pensaram, estão redondamente enganados. O "Lugar ao Sul" não é um programa substituível por qualquer outro, por mais agradável de ouvir seja esse outro, que não é notoriamente o caso do espaço – banal e entediante q.b. – de José Candeias.
Na dúvida se o programa fora extinto ou transferido para outro horário, tratei de averiguar. Vim então a tomar conhecimento pela página do arquivo online que, embora não apresentando (inexplicavelmente) as edições após o dia 29 de Junho, o "Lugar ao Sul" desceu ainda mais para o escuro: 06:00 da madrugada! Como é possível?! Está-se mesmo a ver a intenção: reduzir o auditório, tradicionalmente bastante heterogéneo em termos de estratos sócio-económico-culturais, a uns quantos padeiros para depois, sem contestação, desferir sobre o programa o "golpe de misericórdia", com o argumento (hipócrita) de que deixou de ter audiência. Pérfido e revoltante!
Volto a afirmar, pela enésima vez: os srs. Rui Pêgo e António Luís Marinho têm todo o direito de não gostar do "Lugar ao Sul", embora isso seja difícil de compreender, tendo em conta o agrado que o programa sempre gerou no auditório da Antena 1 (e da RDP-Internacional) e os sucessivos elogios que recebeu de distintas personalidades, entre as quais os três anteriores Provedores do Ouvinte, mas não lhes assiste o direito de confundir os seus gostos pessoais com as funções directivas que lhes foram confiadas, que se devem reger pela máxima ponderação, equilíbrio e imparcialidade. A rádio pública não existe nem é financiada pelos cidadãos e empresas de Portugal para satisfazer o umbigo ou alimentar os caprichos de quem ocupa os cargos de chefia. Existe para prestar serviço público! Sendo o aclamado "Lugar ao Sul" um dos programas que melhor cumpre essa prerrogativa, aliando como nenhum outro no actual panorama radiofónico as componentes recreativa e cultural – por mérito exclusivo do seu autor – e constituindo o respectivo arquivo um fabuloso manancial de tesouros por explorar, não é admissível que seja tratado de modo tão indigno e humilhante. Os fiéis ouvintes e, bem assim, todas as pessoas dotadas de sensibilidade para apreciarem e desfrutarem de tão maravilhoso programa exigem respeito e jamais deixarão de clamar: «Queremos o "Lugar ao Sul" num horário decente!»



Adenda (em 05-Ago-2013):

O acervo de gravações do "Lugar ao Sul" existente no aquivo histórico da RDP, apesar da destruição (apagamento de bobines) que afectou sobretudo a década de 80, é de monta. Em meados de 2006, já ultrapassava 900 registos DAT. Contendo cada uma dessas unidades duas conversas (ou três, nos casos em que foi expurgado o preâmbulo musical), não andarei longe da verdade se disser que o total de conversas disponíveis, contabilizando também os três anos posteriores em que o programa teve edições originais (na Antena 1 e na Antena 2), ultrapassará os dois milhares. Perante tão extraordinária riqueza, que urge disponibilizar a quem a desejar usufruir, constitui um perfeito absurdo suspender tal resgate substituindo-o pela retransmissão das reedições, como tem acontecido nas últimas semanas. Faço minhas as palavras que o emérito jornalista Adelino Gomes, na qualidade de Provedor do Ouvinte, proferiu a respeito do "Lugar ao Sul", aquando do fim das emissões originais:
«Rafael Correia, 30 anos a encher as ondas radiofónicas de cenas da vida de pastores, artesãos, mourais, pescadores, varredores, salineiros, amoladores, bordadeiras. Uma legião de poetas, músicos, cantadores e cantadeiras, gente sábia, que como nunca outra teve um microfone e uma antena para a ouvir e até nós chegar. Há muitos anos, no jornal onde trabalhava ["Público"], escrevi um texto defendendo a obrigação da RTP de não apenas preservar a riqueza patrimonial de excepção representada pelos programas de Rafael Correia mas de a restituir aos portugueses [...]. Retomo este repto, agora como provedor e agora que "Lugar ao Sul" ameaça não voltar. Acho um crime de lesa-cultura se os programas forem deixados esquecidos e inúteis em pequenas cassetes DAT do arquivo histórico...»  (Adelino Gomes, Julho de 2009)


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05 julho 2013

Celebrando Maria Teresa de Noronha



«Deve-se a Maria Teresa de Noronha uma viragem na História do Fado. Após esta forma musical, vinda da rua, do arraial e da taberna, ter conquistado os salões da fidalguia, era aí cultivada no recato dos serões familiares, das festas intimistas, ou como parte do culto tauromáquico em solares ribatejanos. Para manter a distância das origens condenáveis, jamais os tocadores, cantores e, muito menos, cantoras das famílias tradicionais – que os havia de muito mérito – se expunham publicamente senão nalguma verbena de caridade. Foi Maria Teresa do Carmo de Noronha, nascida em 1918 dos Condes de Paraty e Condessa de Sabrosa pelo casamento, a primeira fidalga que teve a coragem e a ousadia de partilhar com toda a gente, pela rádio, discos, televisão e espectáculos, uma voz excepcional, uma alma fadista de finíssima sensibilidade, um talento musical a quem se devem melodias adoptadas como clássicos desde que as criou. De início afrontando a celeuma dos seus pares, cedo os conquistou, bem como o País inteiro, tornando-se o estandarte do que se convencionou chamar Fado Aristocrático, quando outros nomes de famílias bem nascidas lhe seguiram as pisadas, para bem de um género musical que ganhou foros de marca cultural de uma Nação.
Quer desta atitude de partilha, quer da capacidade criadora e interpretativa, não se pode dissociar a figura incentivadora de seu marido, José António Sabrosa, guitarrista amador e compositor de bom nível, a quem se devem as músicas dos fados "Saudade das Saudades", "Fado da Defesa", e ainda "Minha Guitarra", "O Meu Fado" e "Passos na Rua".
Mas a voz, principal atributo de Maria Teresa de Noronha, essa nasceu com ela e com mais ninguém. Fresca, muito bem timbrada, de uma afinação e colocação naturalmente perfeitas, ia dos agudos suavemente metálicos aos graves envolventes (ouça-se "Fado da Idanha"), sem o mínimo esforço, sem se perceber uma respiração, com uma dicção modelar. Nas suspensões em pianissimo foi inigualável, ficando como exemplos antológicos o seu "Pintadinho" e "Rosa Enjeitada", este a excepção que confirmou a regra de rigor fadista a que sempre obedeceu, cultivando apenas o fado tradicional, caracterizado por estrofes regulares, de métrica constante, sem refrão.
Estabeleceu padrões, como o já citado "Pintadinho", o "Anadia" e outros, baseados nas harmonias simples do Corrido, Menor, ou Meia-Noite, mas cuja originalidade interpretativa transformava em verdadeiros temas, com personalidade melódica própria ("Fado Menor e Maior" ou "Minha Mágoa"). No "Fado das Horas", além da melodia, trouxe-nos a novidade de, em vez do costumeiro "Ai..." intercalado como bordão antes do último verso bisado de cada quadra, cantar com a mesma modulação a primeira sílaba desse verso. Modestamente chamou a estas verdadeiras composições, arranjos. Apenas se declarou autora de "Nosso Fado", com base no Dois Tons, e "Corrido Antigo", um Corrido um pouco mais estruturado.
Ousou também cantar Fado de Coimbra, até então feudo de vozes masculinas. Fê-lo com a mestria patente no "Fado Hilário" e ainda em "Canção duma Tricana" e "Cantiga de Amor-Saudade". Na escolha das letras, foi de um apurado bom gosto, respeitando os cânones fadistas, mas de poética mais elevada, mais culta.
Manteve, na carreira, uma contenção que lhe terá vindo do berço e impediu maior projecção artística, merecida até a nível internacional. Era, porém, de um profissionalismo exemplar. Jamais gravou ou actuou em estúdio lendo uma letra: levava todos os fados decorados, mesmo nos programas da Emissora Nacional, emitidos em directo e sem público, onde cantou 4 fados todas as semanas, durante 23 anos consecutivos, desde que aí se estreou, em 1938, até se retirar, em 1961. Espectáculos fazia poucos, não se escusando, porém, aos de finalidade caritativa. A televisão divulgou a sua figura de uma distinção sóbria, sem xailes ou artifícios cénicos. Actuou, com grande êxito, no Brasil; em Espanha, no Festival da Feira do Livro de Barcelona, em 1946, e numa série de espectáculos em Madrid, a convite do Governo espanhol; em 1964, já retirada, cantou em Londres, na nossa Embaixada, na Casa de Portugal e na BBC (rádio e televisão).
Depois disso, só em privado era possível ouvi-la. Continuou dedicada ao Fado, indo com o marido às casas onde cantavam os seus favoritos. Uma delas era o Faia, onde adorava ouvir Lucília do Carmo e Alfredo Marceneiro, quando aparecia. Nas raras vezes em que aí confluíram esses três gigantes, fechava-se a porta e a luz exterior, depois de sair o último cliente e o pessoal. Ficavam os guitarristas. Pedindo uns aos outros os fados de que mais gostavam, aplaudindo-se mais por comentários, de entendidos que eram, do que por palmas de tão poucos, ficavam, até ao esquecimento das horas, em mútuo deleite. A um canto, um jovem absorvia em êxtase esses momentos irrepetíveis: Carlos do Carmo, a quem devemos a narração deles e confessa terem sido determinantes na decisão da sua própria carreira. Devem os amantes do Fado mais isso, na parte que lhe cabe, a Maria Teresa de Noronha.
António Chainho, que a acompanhou na gravação do último disco [LP "Fado Antigo", em 1971] e na digressão ao Brasil, terá testemunhado a derradeira vez em que Maria Teresa de Noronha cantou. Foi no "Picadeiro", em Cascais, por alturas de 1976. Fora lá para ouvir Manuel de Almeida. Este, depois de actuar, pediu-lhe que cantasse. De início escusou-se, com um sorriso nostálgico e um "Há tantos anos que não canto...". Por fim, cantou. A mesma sensibilidade, o mesmo lamento contido na alma e liberto pela voz da Grande Senhora do Fado derramou-se pela sala e pelos olhos de Manuel de Almeida, que os enxugava comovido.
Tardiamente, o reconhecimento oficial condecorou-a e o popular consagrou-lhe uma Grande Noite do Fado, a que assistiu em casa, pela televisão, já doente.
Esta colectânea é, também, galeria de outros talentos que, muitas vezes esquecidos, estão por detrás da qualidade final discográfica. Tal é o caso de Raul Nery, guitarrista ímpar, acompanhador de Maria Teresa de Noronha ao longo de quase toda a carreira, preferido dos maiores nomes da sua época, pela rara combinação de virtuosismo, sobriedade e bom gosto musical. Solista capaz de execuções dificílimas, mantinha um dedilhado límpido, uma sonoridade cristalina. Mesmo nas tercinas e trilos mais vertiginosos, todas as notas estavam lá, bem diferenciadas, sem atropelos, diríamos que "explicadas". Quando acompanhava, era discreto, remetia-se a apoiar a voz, valorizava-a. Apenas nas pausas trazia a guitarra ao primeiro plano, preenchendo com elegância esse espaço, dialogando. Disso é soberbo exemplo "Minha Dor", onde não é menos notável a viola de Joaquim do Vale, verdadeiramente orquestral.
Outro nome a salientar é Hugo Ribeiro, o técnico por quem passaram nomes grandes e pequenos da música portuguesa, durante quase cinco décadas, no Teatro Taborda (à Costa do Castelo) e nos estúdios de Paço d'Arcos. Bonomia, ilimitada paciência para os caprichos dos artistas, tinha gosto pelo Fado e um raro talento para gravar a guitarra portuguesa, instrumento dos mais difíceis de captar: na verdade, com uma diferença de milímetros, colocando o microfone perto de mais, ouve-se o raspar desagradável das unhas postiças nas cordas; demasiado afastado, ou a uma altura inadequada, perde-se o timbre sineiro e vibrátil que faz da cítara lusitana um instrumento único.
Uma tal combinação dos melhores poetas, compositores, instrumentistas e técnicos, servindo a voz divina de Maria Teresa de Noronha, faz desta antologia, compilada pelo ouvido atento e conhecedor de José Pracana, um tesouro inestimável.» (Daniel Gouveia, Julho de 1997, texto inserto no caderno do CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997)

Nota: Aquela antologia é hoje difícil de encontrar no mercado, mas o repertório nela incluído é o mesmíssimo que consta noutra mais recente intitulada "O Melhor de Maria Teresa de Noronha" (Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008), apenas tendo sido alterada a ordenação dos temas. A imagem do topo pertence à capa.


Completam-se hoje 20 anos exactos sobre a data (5 de Julho de 1993) em que a grande (enorme) cantora Maria Teresa de Noronha deixou de pertencer ao número dos vivos. Ficou para a posteridade a obra discográfica que não sendo muito vasta é de superior qualidade, como muito assertivamente refere Daniel Gouveia, e que constitui, sem dúvida alguma, um legado de referência obrigatória no que respeita à arte de bem cantar o fado. Há quem afirme que Maria Teresa de Noronha foi (é) a maior cantora do género, logo depois de Amália – afirmação que eu não hesito em subscrever –, mas tal reconhecimento não tem tido correspondência na divulgação do seu repertório na rádio pública. De tempos a tempos, lá aparece um ou outro tema na rubrica "Alma Lusa" ou no espaço alargado depois da meia-noite de domingo, o que é francamente pouco e está longe de fazer plena justiça à memória da ilustre artista, pois é elevada a dívida que o país tem para com ela pelo notabilíssimo contributo que deu à música e à cultura portuguesa. Será razoável que uma intérprete de tal dimensão não esteja representada na 'playlist' da Antena 1, que é, para todos os efeitos, a grande montra musical da estação? Pois eu convido os senhores que gerem a referida 'playlist' a ouvirem os espécimes de Maria Teresa de Noronha abaixo apresentados. Se não forem desprovidos de um mínimo de sensibilidade musical/artística, terão oportunidade de exclamar para os vossos botões: «É realmente incompreensível que pérolas deste quilate, que nunca nos demos ao cuidado de ouvir atentamente – por preconceito e preguiça –, estejam excluídas da 'playlist' da Antena 1, o canal generalista da rádio estatal que tem a obrigação legal (formalmente estabelecida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de divulgar a melhor música portuguesa!!!»



Fado Vianinha



Letra: Popular
Música: Francisco Viana (Vianinha)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Triste Fado", Decca/VC, 1961; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)




[instrumental]

Devagar se vai ao longe
E eu bem vou devagarinho;
Vamos ver se me não perco
Nos atalhos do caminho.

Meu amor, não tenhas pressa!
Porque não hás-de esperar?
Tudo aquilo que começa
Tarde ou cedo há-de acabar.

Tudo mudou entretanto,
Vê lá, que pouco juízo:
Rio a pensar no teu pranto,
Choro a pensar no teu riso.

Dá-me os teus olhos profundos
E o mundo pode acabar!
Que importa o mundo se há mundos
Lá dentro do teu olhar!


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



O Vento



Letra: Maria da Graça Ferrão
Música: Américo Duarte
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Mouraria Antigo", Decca/VC, 1965; LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006)




Se o vento soubesse ler
Leria em meu pensamento
A loucura de te ver
A toda a hora e momento.

Dizer-te aquilo que sinto
Não sei se parece mal;
Diz que sim, não te desminto,
O que sou eu afinal?

A brisa quando ao passar
Murmura entre a folhagem
Palavras para te adorar,
Carinhos à tua imagem.

Ouve esta frase sentida:
Sem amor não há viver,
Amar é próprio da vida,
Ai se o vento soubesse ler.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Sou Feliz



Letra: José Neto
Música: Frederico de Brito (Fado Britinho)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)




Meu amor, olha p'ra o mar
Para veres a cor dos olhos
Que ao nasceres Deus te deu!
Olha bem longe e verás
Como ao longe se confundem
As cores do mar e do céu!

Oh meu pobre coração!
Onde tudo é escuridão
Só tem brilho um olhar teu;
Gostava de ser ceguinha
Guiada na vida minha
P'los olhos que Deus te deu.

Fui numa prece ao Senhor
A minha vida depor
Aos pés da Sagrada Cruz;
Dava a minha vida a Deus
Se me desse os olhos teus
Que à minha vida dão luz.

Deus ouviu minha oração
Tão feita de devoção,
Tão magoada e sentida;
Deu-me a luz dos olhos teus,
Sou feliz, graças a Deus,
Tenho luz na minha vida.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Julho de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Vida da Minha Vida



Letra e música: Fernando Farinha
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006)




[instrumental]

Na minha vida vivia só por viver;
No fundo, todo o meu ser
Era noite escura e fria;
Mas quis Deus que o teu amor
Lhe desse sol e calor
E a noite tornou-se dia.

Hoje sinto a claridade
A dar cor e felicidade
À vida que não vivia;
Da minha vida fiz o meu próprio destino
Como se um poder divino
Despertasse o meu viver.

Dos teus braços fiz dois laços,
Do teu andar os meus passos,
Do teu sofrer meu sofrer;
Dos teus olhos fiz dois guias
Que hão-de dar luz aos meus dias
E aos meus olhos p'ra te ver.

[instrumental]

Dos teus olhos fiz dois guias
Que hão-de dar luz aos meus dias
E aos meus olhos p'ra te ver.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959



Alexandrino



Letra: Carlos Freire
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Alexandrino "Eu Lembro-me de Ti")
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Minha Mágoa", Decca/VC, 1961; LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Cantava antigamente
P'ra expandir a alegria
No tempo em que vivia
Risonha mocidade;
Tal qual os passarinhos,
Soltava meus trinados,
Ingénuos, descuidados,
Tudo felicidade.

Achei o teu olhar
Perdido nos meus olhos
Que p'ra mim foram escolhos
De tão dura paixão;
Hoje já não te olho,
Já não te quero ver,
Basta-me para sofrer
Ver-te com o coração.

Porém, assim ceguinha,
Cega de amor por ti,
Nada melhor eu vi
Que um amor verdadeiro;
E se mais nada vejo,
Nada melhor sem ti,
Pois vendo-te a ti
Eu vejo o mundo inteiro.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Fado das Horas



Letra: D. António José de Bragança
Música: Popular (Fado Mouraria)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Chorava por te não ver,
Por te ver eu choro agora;
Mas choro só por querer,
Querer ver-te a toda a hora.

Passa o tempo de corrida,
Quando falas eu te escuto;
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto.

Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo;
Mas o tempo é tão ruim,
Tem cada hora um segundo.

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P'ra meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.

[instrumental]


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Fado da Defesa



Letra: António Calem
Música: José António Sabrosa (Fado Zé António)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Ave-Maria da Serra", Decca/VC, 1969; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Lembras-te da nossa rua
Que hoje é minha, já foi tua,
Talhada para nós dois?
Foi aberta pela amizade,
Construída com saudade
P'ra o amor morar depois.

[instrumental]

Mas um dia tu partiste
E um vento frio e triste
Varreu toda a Primavera;
E agora veio o Outono
E as folhas ao abandono
Morreram à tua espera.

[instrumental]

Certas noites, o luar
Traça o caminho do mar
Para chegares até mim;
Mas é tão longa a viagem
Que só te vejo em miragem
Num sonho que não tem fim.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery, aumentado por:
José António Sabrosa – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1969
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Triste Fado



Letra: Popular
Música: João Maria dos Anjos
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Triste Fado", Decca/VC, 1961; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)




[instrumental]

Assim que te conheci,
O amor logo senti
Invadir-me o coração;
Se é pecado tanto amar
Nunca me posso emendar,
Morrerei sem ter perdão.

A toda a hora e momento
Invades meu pensamento,
Ó cruel destino nosso;
Penso em ti e desespero,
Desejo ver-te e não quero,
Quero esquecer-te e não posso.

Se esquecer-te não consigo
Serão remorsos, castigo?
Vai responder a verdade:
Remorsos não quero crer,
Castigo não deve ser;
Ou são penas ou saudade.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Fado Menor e Maior



Letra: Vicente Arnoso
Música: Popular (Fado Corrido e Fado Menor)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fado Antigo", Decca/VC, 1972, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006)




[instrumental]

De saudade fala a gente
Quantas vezes sem razão;
Saudades só quem as sente
É que sabe o que elas são.

Saudade, mágoa sem dor
Vivida por toda a gente
Que traz no peito um amor
Que a vida tornou ausente.

Quis-te falar e não pude,
Nada te pude dizer;
Se os meus olhos te não falam
Como havias de entender?

Pedi a Deus que me desse
Alguma coisa do Céu;
Quem sabe se foste tu
Aquilo que Deus me deu?


* Raul Nery e António Chainho – guitarras portuguesas
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Mouraria



Letra: Maria Helena Bota Guerreiro
Música: Jaime Santos
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Minha Mágoa", Decca/VC, 1961; LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


[instrumental]

Porque será que não canto
Como canta a cotovia?
O meu cantar nem é pranto,
É gemer duma agonia!

Chora sim, meu coração!
Tens razão para o fazer:
Matou a vida a ilusão
Que não tornas a viver.

"Sofrer fez-me diferente!"
Dizes tu e tens razão,
Pois não é impunemente
Que se tem um coração.

Ando a cumprir uma pena
Mas crime não cometi;
Só sei que ela me condena
A viver longe de ti.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Rosa Enjeitada



Letra: José Galhardo
Música: Raul Ferrão
Criação: Hermínia Silva (na revista "Arre Burro!", 1936)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




Sou essa rosa,
Caprichosa,
Sem ser má,
Flor d'alma pura
E de ternura
Ao deus-dará,

Que viu um dia,
Que sentia
Um grande amor
E de paixão
O coração
Estalar de dor.

Rosa enjeitada
Sem mãe, sem pão, sem ter nada!
O teu destino te deu!
Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.

Tão pobrezinha
Ainda tinha
Uma ilusão:
Alguém que amava,
Em quem sonhava
Uma afeição.

Mas esse alguém
Por outro bem
Se apaixonou;
«E assim fiquei
Sem ele que amei,
Que me enjeitou!»

Rosa enjeitada
Sem mãe, sem pão, sem ter nada!
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu!
Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.

[instrumental]

Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Julho de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Desengano



Letra: Mário Piçarra Almeida
Música: José Marques "Piscarelete" (Fado Triplicado)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

E adorei-te, acreditei
No bem que eu ambicionei
Dum amor, sinceridade;
As tuas promessas puras
E o calor das tuas juras
Tinham a luz da verdade.

Mas um dia te esqueceste
De tudo o que me disseste
Em confissões tão ardentes;
Iludiste duas vidas
Com mil palavras fingidas
Que não sentiste nem sentes!

Ao contemplar o passado,
Como um golpe já fechado
Que ainda sinto doer,
Vejo em teus falsos carinhos
Que as rosas têm espinhos
E também fazem sofrer.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Fado Anadia



Letra: Marques dos Santos
Música: José Maria dos Cavalinhos (1874, dedicada ao 4.º Conde da Anadia, D. José Maria de Sá Pereira e Menezes Pais do Amaral de Almeida e Vasconcelos Quifel Barberino, amante de fado, falecido a 10 de Julho de 1870, com 31 anos de idade)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Eu sei que no céu profundo
Nunca brilhou minha estrela;
Sinto que a vida do mundo
Jamais poderei vivê-la.

[instrumental]

Penso que a vida que vivo
Não passa duma ilusão,
Pois não encontro o motivo
Do bater do coração.

[instrumental]

Creio viver sem ter vida,
Viver vida sem alento
Tal como folha caída
Andando ao sabor do vento.

[instrumental]

Não quero sofrer a sorte
Nesta má sina contida;
Prefiro pedir à morte
Que me leve à outra vida.

[instrumental]


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Fado da Idanha



Letra: Popular
Música: Ricardo Borges de Sousa
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Fado Antigo", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Quem me dera que voltasse
O doce tempo d'além:
Sentada junto à lareira
Ai a ouvir cantar minha mãe!

Oh tempo, tempo ditoso
Da vida eterno sorriso
Ai que tornas em paraíso
O mundo tão enganoso
Quando à minha mãe, choroso,
Após um beijo na face
Lhe pedia que cantasse
Uma trova de bonança,
E esse tempo de criança
Quem me dera que voltasse.

Tempos que não voltam mais
Da nossa infância ridente
Ai em que eu vivia contente
Correndo atrás dos pardais,
Das paredes dos casais
Que a nossa aldeia contém
Branquinhas como a cecém,
Mudas como a gratidão
E recordam com paixão
O doce tempo d'além.

[instrumental]


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Março de 1959



Fado João



Letra: Maria Carlota de Noronha
Música: D. João de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Desengano", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Não posso cantar o fado,
O fado faz-me chorar:
Faz-me lembrar o passado
Que já não pode voltar.


Eu cantava noite e dia
Sem nada me dar cuidado;
Não tenho a mesma alegria,
Não posso cantar o fado.

Se quando canto entristeço,
Não é para admirar;
Tenho saudades de tudo,
O fado faz-me chorar.

Quando ouço alguma guitarra
Ou alguém cantando o fado
Sinto que minha alma chora,
Faz-me lembrar o passado.

Cantigas à desgarrada
Que sempre me hão-de lembrar;
Adeus tempo em que as cantava
Que já não pode voltar.

[instrumental]


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho



Sete Letras



Letra: D. António José de Bragança
Música: Alfredo José dos Santos "Correeiro" (Fado Marcha do Correeiro)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006)


[instrumental]

Saudade, palavra linda
Que nos diz tristeza infinda
Ou grata recordação;
Palavra bem portuguesa
Está ligada e sempre presa
À palavra coração.

Por capricho as abrigou
O destino e as ligou
Em tão íntima união;
Que é perfeita a igualdade:
Sete letras tem saudade,
Sete letras coração.

E as saudades, se não cantas,
São tão grandes e são tantas,
São para mais de um milhão;
Mas se cantas, que tristeza!
À saudade fica presa
Minh'alma, meu coração!

E esta contradição
Ao meu pobre coração,
Inocente e sem maldade,
Faz-lhe sofrer tal horror
Que um dia ele morre de dor
P'ra não morrer de saudade.


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959



Saudade das Saudades



Letra: D. António José de Bragança
Música: José António Sabrosa
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Mouraria Antigo", Decca/VC, 1965; LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




[instrumental]

Cansada de ter saudade
Tudo fiz para esquecer;
E hoje tenho saudade
De saudade já não ter.


Sem força p'ra suportar
A minha fatalidade
Ajoelhei a rezar,
Cansada de ter saudade.

Roguei a Deus dar-me a sorte,
Esta dita até morrer;
Essa saudade de morte
Tudo fiz para esquecer.

Foi minha prece atendida
Por Deus na sua bondade;
Como estou arrependida
E hoje tenho saudade.

Castigo p'ra quem não pensa
Quem não sabe o que é sofrer,
Pois sinto saudade imensa
De saudade já não ter.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Pintadinho



Letra: José Mariano
Música: José António Sabrosa
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)


[instrumental]

Eu vi outrora o luar
À porta de Santa Cruz:
Era o silêncio a rezar
Ave-marias de luz.

Fiquei na sombra, discreta,
E murmurei: Que primor!
Não és apenas poeta,
Ó luar, tu és pintor!

Passou o tempo, voltei,
Vi a mesma claridade;
E fui eu que então rezei
Padre-nossos de saudade.

[instrumental]


* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959



Castanheiro



Letra: João de Vasconcellos e Sá
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)




No cimo daquele outeiro
Debruçado castanheiro
Morre de sede e fadiga;
Torcendo os braços ao vento,
Dando à visão tormento
Sobre uma rocha inimiga.

Tão velhinho e tão mirrado,
Perdeu as folhas, coitado,
Fogem dele os passarinhos;
Nem mesmo em noites suaves
Ele pode abrigar as aves
Nem pode embalar os ninhos.

E um ramo de hera viçosa,
Que viveu sempre amorosa
Ao pobre tronco segura,
Abraça o pobre velhinho
Cada vez com mais carinho,
Cada vez com mais ternura.

Ó hera que não dás flor,
Teu coração para amor
Deve ser igual ao meu;
Singela planta que eu amo
Jamais se esquece do ramo
Onde uma vez se prendeu.


* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro



Folhas Caídas



Letra: D. António José de Bragança
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fado Antigo", Decca/VC, 1972, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006)




[instrumental]

Outono, folhas caídas,
Com sangue Deus as pintou;
Folhas tão cedo nascidas,
Pobres folhas mal vividas,
Um vento louco as levou.

Nasceram na Primavera,
Fê-las Deus da cor da esperança;
Sonharam uma quimera:
Serem como as folhas da hera,
De saudade e de lembrança.

Mas chega o Verão, o calor,
E as folhas verdes tão belas
Vão perdendo o seu frescor;
Pressentem a sua dor,
Ficam tristes, amarelas.

Ao Inverno não chegaram,
Foram curtas suas vidas;
Da cor do sangue as pintaram,
Ventos loucos as levaram,
Outono, folhas caídas.


* Raul Nery e António Chainho – guitarras portuguesas
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro
URL: http://www.museudofado.pt/personalidades/detalhes.php?id=346
http://www.portaldofado.net/content/view/879/280/
http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/54209.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Maria_Teresa_de_Noronha
http://www.infopedia.pt/$maria-teresa-de-noronha
http://armazemdefados.blogspot.pt/search/label/Maria%20Teresa%20de%20Noronha
http://jsilva.bloguedemusica.com/r306/Maria-Teresa-de-Noronha/
http://grooveshark.com/artist/Maria+Teresa+De+Noronha/884018
http://palcoprincipal.sapo.pt/bandasMain/maria_teresa_de_noronha
http://cotonete.iol.pt/artistas/home.aspx?id=1693
http://www.last.fm/pt/music/Maria+Teresa+de+Noronha



Capa da edição da integral de Maria Teresa de Noronha (Livro/4CD, EMI, 2006)
Retrato pintado por Victor Câmara (1921-1998)