Quem gere a 'playlist' da Antena 1 voltou a ignorar, nesta quadra natalícia, o riquíssimo cancioneiro de Natal em língua portuguesa (de Portugal e dos demais países lusófonos). Ao invés, houve o cuidado de incluir na referida 'playlist' diversas canções anglo-saxónicas. Será aceitável que a rádio do Estado Português vote ao ostracismo o património musical do próprio país? Aqui se apresenta uma canção de Natal recente que podia (e devia) muito bem passar na rádio pública portuguesa:
Este Natal
Letra e música: Celina da Piedade Arranjo: Celina da Piedade Intérprete: Celina da Piedade* (2013)
[instrumental]
Este Natal Não vai ser igual Tu partiste e disseste que não irias voltar
Eu vou Cancelar o Natal Esconder o pinheiro, o sorriso e ficar a esperar
Porque a olho escolhi E calhou tu gostares de mim E eu de ti Foi um sol que brilhou E que por um fio ficou E acabou
Este Natal Não vai ser igual Não vai haver nem luzinhas Nem sininhos nem renas no quintal
Eu vou queimar o tronco de Natal Congelar as filhoses e os sonhos Que só me fazem mal
Mas se acaso voltares O pinheiro eu volto a montar E as luzes vou acender Com mil cores, só p'ra te ver A sorrir, pela porta a entrar Para este Natal passar E ficar
[instrumental]
* Celina da Piedade – voz, acordeão, metalofone e teclados (piano) Alex Gaspar – baixo eléctrico Mike Simões – bouzouki e cavaquinho Tânia Lopes – bateria tradicional e percussão Filipa Ribeiro – metalofone e coros João Eleutério – teclados (caixa de música) Direcção artística – Celina da Piedade Produção – Alex Gaspar, Celina da Piedade e João Eleutério / Melopeia Gravado por João Eleutério, no Estúdio Armazém 42, Lisboa, a 28 de Outubro de 2013 Assistente – Manuel San Payo Mistura e masterização – João Eleutério
Nota: Muitas outras canções de Natal portuguesas estão à mão de ouvir na página "Música portuguesa de Natal".
«Luís Oliveira de Andrade — ou Luís Pignatelli, o poeta — nasceu em Espinho, concelho de Aveiro, a 1 de Janeiro de 1935 (e não, como consta em todas as antologias onde figura, por mitografia própria, em 1932) e morreu em Lisboa, a 20 de Dezembro de 1993. Em Espinho fez a instrução primária e frequentou o liceu. E, de habilitações literárias, foi quanto lhe bastou — autodidacta de si e da Vida, o bardo sedutor. Nas lides da escrita e da letra de forma, aí está ele, aos 18 anos de idade, em Maio de 1953 (ano da extinção da "Árvore" e da 3.ª série dos "Cadernos de Poesia"), a estrear-se, pela mão de Augusto Navarro e António Rebordão Navarro, na revista "Bandarra", com o poema "Aguarela" (assinado por Luís de Andrade e não ainda Pignatelli), poema bem distante, não obstante a linha de lirismo tradicional em que se insere, de uma juvenília que a sua obra não comportará. E nesta revista, publicada no Porto, em 3 séries, entre 1953 e 1964, continuará a colaborar (é sua a capa do n.º 20 da I série, de Agosto de 1954), até à sua ida e fixação de residência em Coimbra, nos meados da década de 50, onde, de passagem, na revista "Vértice", assina alguns poemas de pendor neo-realista, sem que, contudo, se dilua o lirismo que lhe marcará indelével toda a poesia. Desse tempo de Coimbra data a amizade com José Afonso, que lhe traça o perfil, no livro de José A. Salvador "Livra-te do Medo, Estórias & Andanças do Zeca Afonso" (A Regra do Jogo Edições, 1984), nos termos seguintes:
— Conheceste o Pignatelli em Coimbra? — Aliás, Luís Andrade; nós chamávamos-lhe Luís Andrade. Ele trabalhava lá nas Águas, numa secção da Câmara Municipal, chateadíssimo. Era um tipo que não se dava com aquela cidade. Tinha problemas vários e foi sempre bastante meu amigo em períodos muito difíceis que vivi em Coimbra. Na altura em que me divorciei, o Luís foi sempre fraternal para mim. Às vezes surripiávamos uns livritos, eu por uma banda, ele por outra, mas creio que o tipo me bateu aos pontos. Eu frequentava umas livrarias, sobretudo a Coimbra Editora, que diziam ser do Salazar, do presidente da Assembleia Nacional e do Cerejeira. Com tais proprietários foram-se-me os últimos escrúpulos.
E é através de José Afonso que o seu leque de amizades se vai alargando a Herberto Helder, Adriano Correia de Oliveira (que, tal como Zeca Afonso, dará voz a dois poemas seus — "Elegia" e "Cantiga de Amigo" – em 1967 e 1971, respectivamente), ao pintor António Quadros (João Pedro Grabato Dias, Frey Ioannes Garabatus e Multimati Barnabé João, como poeta), António Ferreira Guedes, Manuel Alegre, o pintor Mário Silva, António Cunha Pinto (autor de "Pinóquio", com o pseudónimo de Leonel Brim e cuja capa Luís Pignatelli assina), Fernando Gonzalez, Luís e António Faria Lourenço, entre outros. Em Coimbra, 1958 é o ano da publicação de "A Voz e o Tempo", poemas (um deles, "Conjugação Verbal" dedicado a Luís de Andrade) de Jorge de Sampaio — colaborador e organizador, com Aureliano de Lima, Eduíno de Jesus, José Ferreira Monte e Rui Mendes, do número único do fascículo de poesia "Pan", pouco antes dado à estampa — onde Luís de Andrade colabora como autor da capa e dos desenhos. Em 1963 passa alguns meses em Moçambique, onde trabalha, como jornalista, na "Tribuna" de Lourenço Marques. De regresso a Portugal, volta para Coimbra, onde é funcionário na secção de estatística do Município, colaborando na imprensa local como crítico de música e artes plásticas. No Verão de 1965 muda-se definitivamente para Lisboa, onde frequenta tertúlias e faz amizade com José Sebag, João Rodrigues, Virgílio Martinho, Ricarte-Dácio de Sousa, António José Forte e Aldina, Ernesto Sampaio, Vítor Silva Tavares, José Cardoso Pires, Luiz Pacheco, Mário Cesariny, António Alçada Baptista, Maria Teresa Horta, José Quitério, Maria Velho da Costa, Isabel Barreno, Carlos Veiga Ferreira, Júlio Moreira, os pintores João Vieira, Henrique Manuel e Renato Cruz, Edmundo de Bettencourt, António de Navarro, Alexandre O'Neill, Ruy Cinatti, José Carlos González, Vitorino e Janita Salomé, entre tantos outros. Em Dezembro de 1965 nasce-lhe o mais velho dos cinco filhos, que celebra em dois poemas — "No ventre de sua mãe" e "A visitação - 1". Colabora nos suplementos literários dos jornais "Diário de Lisboa", "A Capital", "Jornal de Notícias", "O Diário", "Jornal do Fundão" e nas revistas "Commedia", "O Tempo e o Modo", "Cronos", "Crónica Feminina", "Grial" (da Galiza), "Camões", "Crisol", "Sílex" e "O Eugénio". Está representado nas seguintes antologias: "Antologia da Poesia Concreta em Portugal", de E.M. de Melo e Castro e José-Alberto Marques, "20 Anos do Círculo de Poesia", de Pedro Tamen, e "Antologia da Poesia Portuguesa (1940-1977)", de Maria Alberta Menéres e E.M. de Melo e Castro. Em 1973, no Círculo de Poesia, da Moraes Editores, publica o seu único livro, "Galáxias", considerado por Maria Teresa Horta, em 25 de Maio de 1974, no semanário "Expresso", como "um dos mais belos livros de poesia editados durante o ano de 1973". Em 1979 entra como actor no filme "A Culpa", de António Victorino d'Almeida, onde desempenha o papel de um pide, a quem, ao longo de todo o filme, se não ouve uma única palavra. Com o pseudónimo de Athayde de Andrade, colabora n' "O Jornal", como crítico gastronómico, trabalho que exercerá mais tarde n' "O Público" e na revista "Casa Cláudia", assinando, nestas duas publicações, as suas crónicas como Luís Pignatelli. Enquanto tradutor, verteu para português livros de Bruno Zevi, Ana Freud, Juan Carlos Onetti, o volume Tempo das Revoluções da "História Universal Larousse" e "A Casa das Belas Adormecidas", de Kawabata. Mas é na tradução de poesia que o seu nome granjeia particular prestígio. Em volume, traduziu "Odes Elementares" e "Plenos Poderes" de Pablo Neruda, "A Destruição ou o Amor" de Vicente Aleixandre, "Antologia Poética" de Octavio Paz, "Natureza Viva" de Vicente Huidobro, "Vida de um Homem" de Giuseppe Ungaretti e "Os Prazeres Proibidos" de Luis Cernuda. Deixou ainda inédita uma antologia de poesia japonesa (do "Período Primitivo" aos poemas de "Estilo Moderno") e um vasto número de traduções dispersas, reunidas pelo autor desta nota, de poetas tão diversos como E.E. Cummings, Jorge Luis Borges, Francis Picabia, Philippe Soupault, Eugenio Montale, Ho Tsou, Djelal Edd in Rumi, Wang Wei, Rainer Maria Rilke, Robert Pitney, Kenneth Patchen, etc. Sendo também autor da música de "Pombas", escrita e cantada por José Afonso, escreveu ainda textos para a música e a voz de Vitorino e Janita Salomé [também para a voz de Teresa Silva Carvalho]. De um memorando escrito provavelmente em 1984, retenham-se estas palavras: "Tem trabalhado nos últimos anos como tradutor e revisor literário, profissão (?) que não deseja ao seu pior inimigo."» (nota biográfica por Zetho Cunha Gonçalves, in "Obra Poética (1953-1993)", Lisboa: &etc, 1999)
Luís Pignatelli está, infelizmente, hoje bastante esquecido. O blogue "A Nossa Rádio" aproveita a efeméride dos vinte anos do desaparecimento do poeta para o homenagear apresentando uma bela série dos poemas cantados (uma gravação por cada espécime, pois em alguns casos existe mais do que um registo). Já agora, uma interrogação: qual o motivo de não haver na 'playlist' da Antena 1 uma única das canções com poemas de Luís Pignatelli? Censura premeditada ou pura ignorância de repertório?
Sonetilho para uma Adolescente
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 84) Música: Vitorino Salomé Intérprete: Vitorino* (in LP "Flor de la Mar", EMI-VC, 1983, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Que vento norte Na manhã do mar Sopra teus seios De flores de morte?
Que nuvem arde Sobre o teu corpo Teu corpo aberto À tempestade?
Que vaga lua Virá de noite Doce tanagra
Pôr-te mais nua Que a nua praia Doce e amarga?
* João Lucas – piano Pedro Caldeira Cabral – viola da gamba Sérgio Mestre – flauta Peter Meier e Carlos Salomé – violas Ovation Direcção musical e arranjos – Vitorino, Pedro Caldeira Cabral e Janita Salomé Produção – Vitorino, Manuel Salomé e Francisco Vasconcelos Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos Técnicos de som – António Pinheiro da Silva e Pedro Vasconcelos
Elegia
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 79) Música: José Afonso Intérprete: José Afonso* (in LP "Baladas e Canções", Ofir, 1967, reed. EMI-VC, 1996)
O vento desfolha a tarde O vento desfolha a tarde Como a dor desfolha o peito Como a dor desfolha o peito
Na roseira do meu peito Na roseira do meu peito Senhora, meu bem, fermosa Senhora, meu bem, fermosa
Vai-se a tarde, ficam penas Vai-se a tarde, ficam penas Na roseira do meu peito Na roseira do meu peito
Senhora por quem eu mouro Senhora, meu bem, eu mouro Senhora, meu bem, fermosa Senhora, meu bem, fermosa
* Rui Pato – viola Gravado nos Estúdios da RTP, Monte da Virgem - Vila Nova de Gaia Remasterização e restauro digital – Paulo Jorge Ferreira
Não É Fácil o Amor
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 83) Música: Janita Salomé Arranjo: José Peixoto Intérprete: Janita Salomé* (in (CD "Tão Pouco e Tanto", Capella/AudioPro, 2003)
Não é fácil o amor, melhor seria Arrancar um braço, fazê-lo voar... Dar a volta ao mundo, abraçar Todo o mundo, fazer da alegria
O pão nosso de cada dia, não copiar Os males do amor, matar a melancolia Que há no amor, querer a vontade fria Ser cego, surdo, mudo, não sujeitar
O amor ao destino de cada um, não ter Destino nenhum, ser a própria imagem Do amor: pôr o coração ao largo, não sofrer
Os males do amor, não vacilar, ter a coragem De enfrentar a razão de ser da própria dor Porque o amor é triste, não é fácil o amor...
* José Peixoto e Mário Delgado – guitarras acústicas Produção – Paulo Jorge Ferreira Consultor de produção – Jorge Mourinha Produção executiva – Janita Salomé, Bárbara Barros Viseu e Nuno Faria Gravado nos Estúdios Xangrilá e Masterix, Lisboa, entre Julho de 2002 e Fevereiro de 2003 Captação de som – Paulo Jorge Ferreira, Carlos Jorge Vales, Pedro Rêgo e Jorge Avilez Misturas e masterização – Paulo Jorge Ferreira
Como se fosses de linho doce...
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 85) Música: Janita Salomé Arranjo: Júlio Pereira Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Lavrar em Teu Peito", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2001)
Como se fosses de linho doce Com que me cubro e adormeço Ou pássaro que cantando fosse Árvore de vento com que estremeço
Como se fosses na manhã silente Cristal soprado na noite fria Ou ar de neve luz transparente Como o que o teu rosto inaugura o dia
* Júlio Pereira – violas Direcção musical – João Gil, António Pinheiro da Silva e Janita Salomé Produção – João Gil Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos Engenheiro de som – António Pinheiro da Silva Técnico assistente – Paulo Jorge Ferreira Masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
O que ficou no ar parado
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 86) Música: Janita Salomé Arranjo: José Peixoto Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Lavrar em Teu Peito", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2001)
O que ficou no ar parado era um cristal partido pela tua boca soprado ou era um pássaro ferido
por uma seta lado a lado? era uma rosa de frio na solidão do teu vestido do teu vestido rasgado
ou era um cavalo espantado batendo os cascos de vidro de encontro às grades do medo o que ficou no ar parado?
* José Peixoto – violas Paulo Curado – flautas António Ferro – baixo eléctrico Direcção musical – João Gil, António Pinheiro da Silva e Janita Salomé Produção – João Gil Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos Engenheiro de som – António Pinheiro da Silva Técnico assistente – Paulo Jorge Ferreira Masterizado nos Estúdios Tcha Tcha Tcha, Miraflores
Os Amantes
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 88) Música: Janita Salomé Arranjo: João Lucas, José Peixoto e José Mário Branco Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Olho de Fogo", Schiu!/Transmédia, 1987)
Pela sombra desatado pela luz desperto está na cama teu corpo assim exposto: se a minha mão o toca um veio de água aberto irrompe da tua boca e morre em meu rosto
Lentamente morre à flor da carne desejada para logo renascer em fresco voo repetido para logo repousar ave ferida na rama bem amada de meu corpo apetecido
Um ao outro apetecendo como neve derretida na cintura desta liana quebrada onde a selva mais escura de teu corpo vai ardendo em minha boca como seda derramada
* João Lucas – piano e sintetizadores José Peixoto – baixo e guitarra-solo Irene Lima - violoncelo Produção e direcção musical – José Mário Branco Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, de 29 de Outubro a 11 de Novembro de 1987 Captação de som – José Manuel Fortes, Rui Novais e Jorge Barata, assistidos por Luís Flores Misturas – Jorge Barata, José Mário Branco e José Peixoto
Cantata
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 87) Música: Janita Salomé Arranjo: João Lucas e José Mário Branco Intérprete: Janita Salomé* (in LP "Olho de Fogo", Schiu!/Transmédia, 1987)
Dos nocturnos espelhos fugimos
corrosivas bocas hiantes as suas
nelas se acendem os lumes da morte que nos apartam da vida
em nossos corpos arfantes se enrolam finos panos sombrios água de conchas distantes cegas areias do fundo dos rios
* João Lucas – flautas (sequenciadas) e piano José Mário Branco – flautas (sequenciadas) e trombone (sintetizador) José Peixoto – baixo Adácio Pestana e A. Costa – trompas Tomás Pimentel e José Carapeto – trompetes Maria Guinot, Isabel Campelo, Rui Vaz, Gustavo Sequeira e Carlos Salomé – coro Produção e direcção musical – José Mário Branco Gravado e misturado no Angel Studio II, Lisboa, de 29 de Outubro a 11 de Novembro de 1987 Captação de som – José Manuel Fortes, Rui Novais e Jorge Barata, assistidos por Luís Flores Misturas – Jorge Barata, José Mário Branco e José Peixoto
Era de Noite e Levaram
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 80) Música: José Afonso Intérprete: José Afonso* (in LP "Contos Velhos, Rumos Novos", Orfeu, 1969, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012)
Era de noite e levaram Era de noite e levaram Quem nesta cama dormia Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram Sua boca amordaçaram Com panos de seda fria De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram Era de noite e roubaram O que nesta casa havia Na casa havia, na casa havia
Só corvos negros ficaram Só corvos negros ficaram Dentro da casa vazia Casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria Rosa branca, rosa fria Na boca da madrugada Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia Hei-de plantar-te um dia Sobre o meu peito queimada Na madrugada, na madrugada
* Rui Pato – viola Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola e reco-reco Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa, em 1969 Técnico de som – Moreno Pinto
Cantiga de Amigo
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 81) Música: José Niza Arranjo: Thilo Krassman Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP "Gente de Aqui e de Agora", Orfeu, 1971, reed. Movieplay, 1999; "Obra Completa": CD "Gente de Aqui e de Agora e Outras Canções: Adriano Canta José Niza", Movieplay, 1994, 2007; CD "Vinte Anos de Canções", Movieplay, 2001)
Se sabedes novas do meu amigo é que venho perguntar:
— Que ao que levou meu amigo há-de a noite encarcerar dentro de fel e vinagre sua boca há-de fechar com sete chaves de treva e fechaduras de neve que ao que levou meu amigo há-de a febre devorar sobre a parede mais fria suas tripas há-de o dia pendurar em argolas de veneno sua carne há-de queimar com carvões de acetileno mai-lo sangue que há-de arder que ao que levou meu amigo há-de a noite decepar há-de o dia ver morrer.
Se sabedes novas do meu amigo é que venho perguntar.
* Orquestra sob a direcção de Thilo Krassman Produção e supervisão musical – José Niza Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa Técnico de som – Moreno Pinto e Jean François Baudet
Litania para um Amor Ausente
Poema: Luís Pignatelli (in "Obra Poética", Lisboa: &etc, 1999 – pág. 82) Música: Vitorino Salomé Intérprete: Teresa Silva Carvalho* (in LP "Ó Rama, Ó Que Linda Rama", Orfeu, 1977, reed. Movieplay, 1994)
Com a noite me deito Com o dia me levanto Canta-me um pássaro no peito Vai-me a tristeza no canto
Vai-me a tristeza no canto Como um cavalo no prado Seca-me a água do pranto Deste rio desatado
Deste rio desatado Seca-me a água do pranto Como um cavalo no prado Vai-me a tristeza no canto
Vai-me a tristeza no canto Canta-me um pássaro no peito Com o dia me levanto E com a noite me deito
* [Créditos gerais do disco:] Júlio Pereira – violas acústica e clássica, bandolim e percussões Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa e rabeca Catarina Latino – flauta barroca e cornamusa Zé Luiz Iglésias – viola clássica Pintinhas – percussões Hélder Reis – acordeão Voz masculina – Vitorino Grupo Coral de Cantadores do Redondo Produção e direcção musical – Vitorino Técnicos de som – Manuel Cunha e Moreno Pinto
Capa do livro "Obra Poética" (&etc, 1999) Desenho de Henrique Mourato Organização, prefácio e notas de Zetho Cunha Gonçalves
Nasceu na Antena 1 em 2004 e esteve no ar até finais de Fevereiro de 2009, altura em que Rui Pêgo resolveu, arbitrária e levianamente, descontinuá-lo. Tratando-se do segundo melhor programa na grelha da Antena 1 de então (o primeiro era o "Lugar ao Sul") e havendo ainda tanta gente interessante para convidar, o prematuro desaparecimento do "1001 Escolhas" causou grande perplexidade e consternação aos seus numerosos e fiéis ouvintes, entre os quais se incluía o escrevente destas linhas que não deixou de lavrar o seu protesto contra a insana decisão (cf. Queremos o "1001 Escolhas" de volta!) Durante algum tempo, o programa teve também uma versão televisiva na RTP-N (actual RTP-Informação). É nessa modalidade audiovisual que agora ressurge, desta vez na RTP-2, aspecto que é de enaltecer porque se trata de um canal em sinal aberto (como deviam ser todos os da RTP – diga-se de passagem – atendendo ao financiamento público). Na primeira edição desta nova fase (que se deseja longa), Madalena Balça esteve à conversa com António Bagão Félix (especialista em segurança social e botânico amador) cujas escolhas foram as seguintes:
Escritor: Vergílio Ferreira [>> biografia e bibliografia no site do Instituto Camões] Filme: "O Leopardo" ("Il Gattopardo", 1963), de Luchino Visconti [filme integral >> Viooz] Actor: Burt Lancaster [biografia >> Infopédia] [biografia e filmografia >> Wikipédia] Cantor: Gilbert Bécaud [biografia e discografia >> E-monsite] [videoclip de "Nathalie" >> YouTube] Local: Évora [vídeo promocional "Évora Convida" >> YouTube]
Tendo ouvido, na nota introdutória, Madalena Balça dizer "telespectadores da RTP e ouvintes da Antena 1", quero acreditar que as emissões radiofónicas venham a recomeçar em breve. É que sendo agradável de ouver na televisão, o "1001 Escolhas" funciona muito melhor na rádio. Aí comungo inteiramente da opinião de Francisco Mateus expressa no blogue "Rádio Crítica".
1001 ESCOLHAS, um programa de Madalena Balça RTP-2, aos serões de sexta-feira para sábado, cerca de 35 minutos depois da meia-noite (confirmar o horário semanalmente no teletexto ou na página da RTP-2)
«Ninguém melhor que Fernando Pessoa documentou, em Portugal, aquele brusco trânsito operado na sensibilidade europeia, aí por alturas da Primeira Grande Guerra. E pode mesmo dizer-se que a obra de Fernando Pessoa é a expressão desse próprio trânsito, dessa própria charneira, na medida em que exprime, ao mesmo tempo, toda uma sensibilidade que se extingue e toda uma outra que, então, confusamente principia... — A propósito do modo como o Ultimatum de 1890 se repercutira na literatura portuguesa, Fernando Pessoa teve ensejo de observar que, nessa data, "Junqueiro — o de Pátria e Finis Patriae — foi a face que olha para o Futuro, e se exalta": e "António Nobre foi a face que olha para o Passado, e se entristece". Perante as grandes perturbações do seu próprio tempo (estas à escala europeia já que não somente nacional), Fernando Pessoa foi, simultaneamente, as duas faces. Rosto bifronte, em cujas feições a tristeza e a exaltação se interpenetram e conjugam, à sua obra estava reservado um singular destino: conhecida apenas de um círculo fiel de admiradores, durante a vida do Poeta, ver-se-ia, depois, rodeada da mais ampla e entusiástica audiência. Fernando Pessoa é, hoje, a seguir a Camões, o Poeta português mais lido, mais debatido e mais estimado, não só em Portugal, mas também nos meios culturais estrangeiros. Reúnem-se neste disco algumas magníficas interpretações de João Villaret, que constituem um excelente panorama da poesia de Fernando Pessoa — visto que nele estão representados os heterónimos e todos os aspectos do génio multiforme do grande Poeta. Desde a concentrada e quase sibilina expressão épica dos trechos nacionalistas da Mensagem ao arrebatado movimento dos poemas de Álvaro de Campos; do lirismo profundamente intelectualizado de Fernando Pessoa, ele-mesmo, à simplicidade bucólica de Alberto Caeiro e ao recorte clássico das odes de Ricardo Reis — tudo, aqui, aparece impressionantemente animado pela voz de um dos maiores recitadores portugueses de todos os tempos.» (texto publicado na contracapa do LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957)
Fernando Pessoa foi o poeta que João Villaret mais gravou: aos 21 poemas que compõem o álbum supracitado há que somar meia-dúzia de espécimes dispersos por outras edições discográficas, o que perfaz a bela cifra de 27. Foi graças a esse precioso acervo divulgado pela rádio que muita gente tomou contacto com a poesia pessoana. Lamentavelmente, a rádio pública de hoje não liga patavina a João Villaret. E porquê? Falta de aptidão intelectual de quem está na direcção de programas para reconhecer o extraordinário talento e poder de comunicação do insigne recitador? Só pode ser. Mas com esse obscurantistismo é que ninguém com um mínimo de lucidez, amor à cultura e sentido de responsabilidade, poderá jamais contemporizar. Por conseguinte, e em jeito de celebração conjunta de Fernando Pessoa (no 125.º ano do nascimento) e de João Villaret (no centenário do nascimento), o blogue "A Nossa Rádio" faz o serviço público de apresentar os tais 27 poemas.
AUTOPSICOGRAFIA
Poema de Fernando Pessoa (in "Presença", n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
ISTO
Poema de Fernando Pessoa (in "Presença", n.º 38, Coimbra: Abr. 1933; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Dizem que finjo ou minto Tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é. Sentir? Sinta quem lê!
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse
Poema de Fernando Pessoa (soneto IV de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ó tocadora de harpa, se eu beijasse Teu gesto, sem beijar as tuas mãos!, E, beijando-o, descesse pelos desvãos Do sonho, até que enfim eu o encontrasse
Tornado Puro Gesto, gesto-face Da medalha sinistra — reis cristãos Ajoelhando, inimigos e irmãos, Quando processional o andor passasse!...
Teu gesto que arrepanha e se extasia... O teu gesto completo, lua fria Subindo, e em baixo, negros, os juncais...
Caverna em estalactites o teu gesto... Não poder eu prendê-lo, fazer mais Que vê-lo e que perdê-lo!... E o sonho é o resto...
Emissário de um rei desconhecido
Poema de Fernando Pessoa (soneto XIII de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Emissário dum rei desconhecido Eu cumpro informes instruções de além, E as bruscas frases que aos meus lábios vêm Soam-me a um outro e anómalo sentido...
Inconscientemente me divido Entre mim e a missão que o meu ser tem, E a glória do meu Rei dá-me o desdém Por este humano povo entre quem lido...
Não sei se existe o Rei que me mandou Minha missão será eu a esquecer, Meu orgulho o deserto em que em mim estou...
Mas há! Eu sinto-me altas tradições De antes de tempo e espaço e vida e ser... Já viram Deus as minhas sensações...
Como uma voz de fonte que cessasse
Poema de Fernando Pessoa (soneto XIV de "Passos da Cruz", in "Centauro", n.º 1, Lisboa: Out.-Dez. 1916; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Como uma voz de fonte que cessasse (E uns para os outros nossos vãos olhares Se admiraram), para além dos meus palmares De sonho, a voz que do meu tédio nasce
Parou... Apareceu já sem disfarce De música longínqua, asas nos ares, O mistério silente como os mares, Quando morreu o vento e a calma pasce...
A paisagem longínqua só existe Para haver nela um silêncio em descida Para o mistério, silêncio a que a hora assiste...
E, perto ou longe, grande lago mudo, O mundo, o informe mundo onde há a vida... E Deus, a Grande Ogiva ao fim de tudo...
Sol nulo dos dias vãos
Poema de Fernando Pessoa (in "Athena", n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Sol nulo dos dias vãos, Cheios de lida e de calma, Aquece ao menos as mãos A quem não entras na alma!
Que ao menos a luz, roçando A mão que por ela passe, Com externo calor brando O frio da alma disfarce!
Senhor, já que a dor é nossa E a fraqueza que ela tem, Dá-nos ao menos a força De a não mostrar a ninguém!
HORA ABSURDA (*)
Poema de Fernando Pessoa (in "Exílio", n.º 1, Lisboa: Abr. 1916; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
O teu silêncio é uma nau com todas as velas pandas... Brandas, as brisas brincam nas flâmulas, teu sorriso... E o teu sorriso no teu silêncio é as escadas e as andas Com que me finjo mais alto e ao pé de qualquer paraíso...
Meu coração é uma ânfora que cai e que se parte... O teu silêncio recolhe-o e guarda-o, partido, a um canto... Minha ideia de ti é um cadáver que o mar traz à praia..., e entanto Tu és a tela irreal em que erro em cor a minha arte...
Abre todas as portas e que o vento varra a ideia Que temos de que um fumo perfuma de ócio os salões... Minha alma é uma caverna enchida pela maré cheia, E a minha ideia de te sonhar uma caravana de histriões...
Chove ouro baço, mas não no lá-fora... É em mim... Sou a Hora, E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela... Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora... No meu céu interior nunca houve uma única estrela...
Poema de Fernando Pessoa (in "Portugal Futurista", n.º 1, Lisboa: 1917; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
I
Andei léguas de sombra Dentro em meu pensamento. Floresceu às avessas Meu ócio com sem-nexo, E apagaram-me as lâmpadas Na alcova cambaleante.
Tudo prestes se volve Um deserto macio Visto pelo meu tacto Dos veludos da alcova, Não pela minha vista.
Há um oásis no Incerto E, como uma suspeita De luz por não-há-frinchas, Passa uma caravana.
Esquece-me de súbito Como é o espaço, e o tempo Em vez de horizontal É vertical.
A alcova Desce não sei por onde Até não me encontrar Ascende um leve fumo Das minhas sensações. Deixo de me incluir Dentro de mim. Não há Cá-dentro nem lá-fora.
E o deserto está agora Virado para baixo.
A noção de mover-me Esqueceu-se do meu nome.
Na alma meu corpo pesa-me. Sinto-me um reposteiro Pendurado na sala Onde jaz alguém morto.
Qualquer coisa caiu E tiniu no infinito.
II
Na sombra Cleópatra jaz morta. Chove.
Embandeiraram o barco de maneira errada. Chove sempre.
Para que olhas tu a cidade longínqua? Tua alma é a cidade longínqua. Chove friamente.
E quanto à mãe que embala ao colo um filho morto — Todos nós embalamos ao colo um filho morto. Chove, chove.
O sorriso triste que sobra a teus lábios cansados, Vejo-o no gesto com que os teus dedos não deixam os teus anéis. Porque é que chove?
III
De quem é o olhar Que espreita por meus olhos? Quando penso que vejo, Quem continua vendo Enquanto estou pensando? Por que caminhos seguem, Não os meus tristes passos, Mas a realidade De eu ter passos comigo?
Às vezes, na penumbra Do meu quarto, quando eu Para mim próprio mesmo Em alma mal existo, Toma um outro sentido Em mim o Universo — É uma nódoa esbatida De eu ser consciente sobre Minha ideia das coisas.
Se acenderem as velas E não houver apenas A vaga luz de fora — Não sei que candeeiro Aceso onde na rua — Terei foscos desejos De nunca haver mais nada No Universo e na Vida De que o obscuro momento Que é minha vida agora.
Um momento afluente Dum rio sempre a ir Esquecer-se de ser, Espaço misterioso Entre espaços desertos Cujo sentido é nulo E sem ser nada a nada.
E assim a hora passa Metafisicamente.
IV
As minhas ansiedades caem Por uma escada abaixo Os meus desejos balouçam-se Em meio de um jardim vertical.
Na Múmia a posição é absolutamente exacta.
Música longínqua, Música excessivamente longínqua, Para que a Vida passe E colher esqueça aos gestos.
V
Porque abrem as coisas alas para eu passar? Tenho medo de passar entre elas, tão paradas conscientes. Tenho medo de as deixar atrás de mim a tirarem a Máscara.
Mas há sempre coisas atrás de mim. Sinto a sua ausência de olhos fitar-me, e estremeço. Sem se mexerem, as paredes vibram-me sentido. Falam comigo sem voz de dizerem-me as cadeiras. Os desenhos do pano da mesa têm vida, cada um é um abismo.
Luze a sorrir com visíveis lábios invisíveis A porta abrindo-se conscientemente Sem que a mão seja mais que o caminho para abrir-se. De onde é que estão olhando para mim? Que coisas incapazes de olhar estão olhando para mim? Quem espreita de tudo?
As arestas fitam-me. Sorriem realmente as paredes lisas.
Sensação de ser só a minha espinha.
As espadas.
Ó sino da minha aldeia
Poema de Fernando Pessoa (in "Renascença", Lisboa: Fev. 1924; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ó sino da minha aldeia, Dolente na tarde calma, Cada tua badalada Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto Quando passo, sempre errante, És para mim como um sonho. Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua Vibrante no céu deserto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto.
Ela canta, pobre ceifeira
Poema de Fernando Pessoa (in "Athena", n.º 3, Lisboa: Dez. 1924; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ela canta, pobre ceifeira, Julgando-se feliz talvez; Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave No ar limpo como um limiar, E há curvas no enredo suave Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece, Na sua voz há o campo e a lida, E canta como se tivesse Mais razões para cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão! O que em mim sente está pensando. Derrama no meu coração A tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu! Ter a tua alegre inconsciência, E a consciência disso! Ó céu! Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve! Entrai por mim dentro! Tornai Minha alma a vossa sombra leve! Depois, levando-me, passai!
Gato que brincas na rua
Poema de Fernando Pessoa (in "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Gato que brincas na rua Como se fosse na cama, Invejo a sorte que é tua Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais Que regem pedras e gentes, Que tens instintos gerais E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim, Todo o nada que és é teu. Eu vejo-me e estou sem mim, Conheço-me e não sou eu.
1-1931
LIBERDADE
Poema de Fernando Pessoa (in "Seara Nova", n.º 526, Coimbra: 11-9-1937; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
(Falta uma citação de Séneca)
Ai que prazer Não cumprir um dever, Ter um livro para ler E não o fazer! Ler é maçada, Estudar é nada. O sol doira Sem literatura. O rio corre, bem ou mal, Sem edição original. E a brisa, essa, De tão naturalmente matinal, Como tem tempo não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta. Estudar é uma coisa em que está indistinta A distinção entre nada e coisa nenhuma.
Quanto é melhor, quanto há bruma, Esperar por D. Sebastião, Quer venha ou não!
Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças, Flores, música, o luar, e o sol, que peca Só quando, em vez de criar, seca.
O mais do que isto É Jesus Cristo, Que não sabia nada de finanças Nem consta que tivesse biblioteca...
D. DINIS
Poema de Fernando Pessoa (in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934) Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Na noite escreve um seu Cantar de Amigo O plantador de naus a haver, E ouve um silêncio múrmuro consigo: É o rumor dos pinhais que, como um trigo De Império, ondula sem se poder ver.
Arroio, esse cantar, jovem e puro, Busca o oceano por achar; E a fala dos pinhais, marulho obscuro, É o som presente desse mar futuro, É a voz da terra ansiando pelo mar.
9-2-1934
D. FILIPA DE LENCASTRE
Poema de Fernando Pessoa (in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934) Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone/VC, 1959, reed. Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Que enigma havia em teu seio Que só génios concebia? Que arcanjo teus sonhos veio Velar, maternos, um dia?
Volve a nós teu rosto sério, Princesa do Santo Graal, Humano ventre do Império, Madrinha de Portugal!
26-9-1928
O MOSTRENGO
Poema de Fernando Pessoa (in "Mensagem", Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; À roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse, «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo, «El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço? De quem as quilhas que vejo e ouço?» Disse o mostrengo, e rodou três vezes, Três vezes rodou imundo e grosso. «Quem vem poder o que só eu posso, Que moro onde nunca ninguém me visse E escorro os medos do mar sem fundo?» E o homem do leme tremeu, e disse, «El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu, Três vezes ao leme as reprendeu, E disse no fim de tremer três vezes, «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um Povo que quer o mar que é teu! E mais que o mostrengo, que me a alma teme E roda nas trevas do fim do mundo, Manda a vontade, que me ata ao leme, De El-Rei D. João Segundo!»
O MENINO DA SUA MÃE
Poema de Fernando Pessoa (in "Contemporânea", 3.ª série, n.º 1, Lisboa: 1926; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
No plaino abandonado Que a morna brisa aquece, De balas traspassado — Duas, de lado a lado —, Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue. De braços estendidos, Alvo, louro, exangue, Fita com olhar langue E cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era! (Agora que idade tem?) Filho único, a mãe lhe dera Um nome e o mantivera: «O menino da sua mãe».
Caiu-lhe da algibeira A cigarreira breve. Dera-lha a mãe. Está inteira E boa a cigarreira. Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada Ponta a roçar o solo, A brancura embainhada De um lenço... Deu-lho a criada Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece: «Que volte cedo, e bem!» (Malhas que o Império tece!) Jaz morto, e apodrece, O menino da sua mãe.
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Poema de Alberto Caeiro (poema XX de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia,
O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, A memória das naus.
O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que está para além Do rio da minha aldeia.
O rio da minha aldeia não faz pensar em nada Quem está ao pé dele está só ao pé dele.
7-3-1914
Li hoje quase duas páginas
Poema de Alberto Caeiro (poema XXVIII de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Li hoje quase duas páginas Do livro dum poeta místico, E ri como quem tem chorado muito.
Os poetas místicos são filósofos doentes, E os filósofos são homens doidos.
Porque os poetas místicos dizem que as flores sentem E dizem que as pedras têm alma E que os rios têm êxtases ao luar.
Mas as flores, se sentissem, não eram flores, Eram gente; E se as pedras tivessem alma, eram coisas vivas, não eram pedras; E se os rios tivessem êxtases ao luar, Os rios seriam homens doentes.
É preciso não saber o que são flores e pedras e rios Para falar dos sentimentos deles. Falar da alma das pedras, das flores, dos rios, É falar de si próprio e dos seus falsos pensamentos. Graças a Deus que as pedras são só pedras, E que os rios não são senão rios, E que as flores são apenas flores.
Por mim, escrevo a prosa dos meus versos E fico contente, Porque sei que compreendo a Natureza por fora; E não a compreendo por dentro Porque a Natureza não tem dentro; Senão não era a Natureza.
Ontem à tarde um homem das cidades
Poema de Alberto Caeiro (poema XXXII de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ontem à tarde um homem das cidades Falava à porta da estalagem. Falava comigo também.
Falava da justiça e da luta para haver justiça E dos operários que sofrem, E do trabalho constante, e dos que têm fome, E dos ricos, que só têm costas para isso.
E, olhando para mim, viu-me lágrimas nos olhos E sorriu com agrado, julgando que eu sentia O ódio que ele sentia, e a compaixão Que ele dizia que sentia.
(Mas eu mal o estava ouvindo. Que me importam a mim os homens E o que sofrem ou supõem que sofrem? Sejam como eu — não sofrerão. Todo o mal do mundo vem de nos importarmos uns com os outros, Quer para fazer bem, quer para fazer mal. A nossa alma e o céu e a terra bastam-nos. Querer mais é perder isto, e ser infeliz.)
Eu no que estava pensando Quando o amigo de gente falava (E isso me comoveu até às lágrimas), Era em como o murmúrio longínquo dos chocalhos A esse entardecer Não parecia os sinos duma capela pequenina A que fossem à missa as flores e os regatos E as almas simples como a minha.
(Louvado seja Deus que não sou bom, E tenho o egoísmo natural das flores E dos rios que seguem o seu caminho Preocupados sem o saber Só com o florir e ir correndo. É essa a única missão no Mundo, Essa — existir claramente, E saber fazê-lo sem pensar nisso.)
E o homem calara-se, olhando o poente. Mas que tem o poente com quem odeia ou ama?
Não consentem os deuses mais que a vida
Poema de Ricardo Reis (ode IV do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Não consentem os deuses mais que a vida. Tudo pois refusemos, que nos alce A irrespiráveis píncaros, Perenes sem ter flores. Só de aceitar tenhamos a ciência, E, enquanto bate o sangue em nossas fontes, Nem se engelha connosco O mesmo amor, duremos, Como vidros, às luzes transparentes E deixando escorrer a chuva triste, Só mornos ao sol quente, E reflectindo um pouco.
17-7-1914
Como se cada beijo
Poema de Ricardo Reis (ode V do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Como se cada beijo Fora de despedida, Minha Cloé, beijemo-nos, amando. Talvez que já nos toque No ombro a mão, que chama À barca que não vem senão vazia; E que no mesmo feixe Ata o que mútuos fomos E a alheia soma universal da vida.
17-11-1923
O ritmo antigo que há em pés descalços
Poema de Ricardo Reis (ode VI do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
O ritmo antigo que há em pés descalços, Esse ritmo das ninfas repetido, Quando sob o arvoredo Batem o som da dança, Vós na alva praia relembrai, fazendo, Que escura a espuma deixa; vós, infantes, Que ainda não tendes cura De ter cura, reponde Ruidosa a roda, enquanto arqueia Apolo, Como um ramo alto, a curva azul que doura, E a perene maré Flui, enchente ou vazante.
9-8-1914
Ponho na altiva mente o fixo esforço
Poema de Ricardo Reis (ode VII do Livro I, in "Athena", n.º 1, Lisboa: Out. 1924; "Odes de Ricardo Reis", Notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Ponho na altiva mente o fixo esforço Da altura, e à sorte deixo, E a suas leis, o verso; Que, quando é alto e régio o pensamento, Súbdita a frase o busca E o escravo ritmo o serve.
Vem, Noite antiquíssima e idêntica
Poema de Álvaro de Campos (excerto de uma ode, in "Revista de Portugal", n.º 4, Lisboa: Jul. 1938; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Vem, Noite antiquíssima e idêntica, Noite Rainha nascida destronada, Noite igual por dentro ao silêncio. Noite Com as estrelas lantejoulas rápidas No teu vestido franjado de Infinito.
Vem, vagamente, Vem, levemente, Vem sozinha, solene, com as mãos caídas Ao teu lado, vem E traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas. Funde num campo teu todos os campos que vejo, Faze da montanha um bloco só do teu corpo, Apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo. Todas as estradas que a sobem, Todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe. Todas as casas brancas e com fumo entre as árvores, E deixa só uma luz e outra luz e mais outra, Na distância imprecisa e vagamente perturbadora. Na distância subitamente impossível de percorrer.
Nossa Senhora Das coisas impossíveis que procuramos em vão, Dos sonhos que vêm ter connosco ao crepúsculo, à janela. Dos propósitos que nos acariciam Nos grandes terraços dos hotéis cosmopolitas Ao som europeu das músicas e das vozes longe e perto. E que doem por sabermos que nunca os realizaremos...
Vem, e embala-nos, Vem e afaga-nos. Beija-nos silenciosamente na fronte, Tão levemente na fronte que não saibamos que nos beijam Senão por uma diferença na alma. E um vago soluço partindo melodiosamente Do antiquíssimo de nós Onde têm raiz todas essas árvores de maravilha Cujos frutos são os sonhos que afagamos e amamos Porque os sabemos fora de relação com o que há na vida.
Vem, soleníssima, Soleníssima e cheia De uma oculta vontade de soluçar, Talvez porque a alma é grande e a vida pequena. E todos os gestos não saem do nosso corpo E só alcançamos onde o nosso braço chega, E só vemos até onde chega o nosso olhar.
Vem, dolorosa, Mater-Dolorosa das Angústias dos Tímidos, Turris-Eburnea das Tristezas dos Desprezados, Mão fresca sobre a testa em febre dos humildes. Sabor de água sobre os lábios secos dos Cansados. Vem, lá do fundo Do horizonte lívido, Vem e arranca-me Do solo de angústia e de inutilidade Onde vicejo. Apanha-me do meu solo, malmequer esquecido, Folha a folha lê em mim não sei que sina E desfolha-me para teu agrado, Para teu agrado silencioso e fresco. Uma folha de mim lança para o Norte, Onde estão as cidades de Hoje que eu tanto amei; Outra folha de mim lança para o Sul, Onde estão os mares que os Navegadores abriram; Outra folha minha atira ao Ocidente, Onde arde ao rubro tudo o que talvez seja o Futuro, Que eu sem conhecer adoro; E a outra, as outras, o resto de mim Atira ao Oriente, Ao Oriente donde vem tudo, o dia e a fé, Ao Oriente pomposo e fanático e quente, Ao Oriente excessivo que eu nunca verei, Ao Oriente budista, bramânico, sintoísta, Ao Oriente que tudo o que nós não temos. Que tudo o que nós não somos, Ao Oriente onde — quem sabe? — Cristo talvez ainda hoje viva, Onde Deus talvez exista realmente e mandando tudo...
Vem sobre os mares, Sobre os mares maiores, Sobre os mares sem horizontes precisos, Vem e passa a mão pelo dorso da fera, E acalma-o misteriosamente, Ó domadora hipnótica das coisas que se agitam muito!
Vem, cuidadosa, Vem, maternal, Pé-ante-pé enfermeira antiquíssima, que te sentaste À cabeceira dos deuses das fés já perdidas, E que viste nascer Jeová e Júpiter, E sorriste porque tudo te é falso e inútil.
Vem, Noite silenciosa e extEdições Ática, Vem envolver na noite manto branco O meu coração... Serenamente como uma brisa na tarde leve, Tranquilamente como um gesto materno afagando. Com as estrelas luzindo nas tuas mãos E a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
Todos os sons soam de outra maneira Quando tu vens. Quando tu entras baixam todas as vozes, Ninguém te vê entrar. Ninguém sabe que entraste, Senão de repente, vendo que tudo se recolhe, Que tudo perde as arestas e as cores, E que no alto céu ainda claramente azul Já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,
A lua começa a ser real.
30-6-1914
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Poema de Álvaro de Campos (in "Revista de Portugal", n.º 4, Lisboa: Jul. 1938; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele; E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha (Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro: Não sou parvo nem romancista russo, aplicado, E romantismo, sim, mas devagar...).
Sinto uma simpatia por essa gente toda, Sobretudo quando não merece simpatia. Sim, eu sou também vadio e pedinte, E sou-o também por minha culpa. Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte: É estar ao lado da escala social, É não ser adaptável às normas da vida, Às normas reais ou sentimentais da vida — Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta, Não ser pobre a valer, operário explorado, Não ser doente de uma doença incurável, Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas, E se revoltam contra a vida social porque têm razão para isso supor.
Não: tudo menos ter razão! Tudo menos importar-me com a humanidade! Tudo menos ceder ao humanitarismo! De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?
Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou, Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente: É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio, É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.
Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki. Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir. E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece. Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato, E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.
Coitado do Álvaro de Campos! Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações! Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia! Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos, Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita, Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.
Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa! Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!
E, sim, coitado dele! Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam, Que são pedintes e pedem, Porque a alma humana é um abismo.
Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro da minha alma! Mas até nem parvo sou! Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais. Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.
Não me queiram converter a convicção: sou lúcido. Já disse: sou lúcido. Nada de estéticas com coração: sou lúcido. Merda! Sou lúcido.
TABACARIA
Poema de Álvaro de Campos (in "Presença", n.º 39, Coimbra: Jul. 1933; "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944) Recitado por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que saberiam?), Dais para o mistério duma rua cruzada constantemente por gente, Para uma rua inacessível a todos os pensamentos, Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa, Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens, Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada De dentro da minha cabeça, E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu. Estou hoje dividido entre a lealdade que devo À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora, E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo. Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada. A aprendizagem que me deram, Desci dela pela janela das traseiras da casa. Fui até ao campo com grandes propósitos. Mas lá encontrei só ervas e árvores, E quando havia gente era igual à outra. Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Génio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um, Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras. Não, não creio em mim. Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo? Não, nem em mim... Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando? Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas — Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas —, E quem sabe se realizáveis, Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente? O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda, Ainda que não more nela; Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira, E ouviu a voz de Deus num poço tapado. Crer em mim? Não, nem em nada. Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. Escravos cardíacos das estrelas, Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; Mas acordámos e ele é opaco, Levantámo-nos e ele é alheio, Saímos de casa e ele é a terra inteira, Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria. Come, pequena suja, come! Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas, Nobre ao menos no gesto largo com que atiro A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas, E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas, Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva, Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta, Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua, Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais, Ou não sei que moderno — não concebo bem o quê —, Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire! Meu coração é um balde despejado. Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco A mim mesmo e não encontro nada. Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam, Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, Vejo os cães que também existem, E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo, E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu. Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso); Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube, E o que podia fazer de mim não o fiz. O dominó que vesti era errado. Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me. Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido. Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado. Deitei fora a máscara e dormi no vestiário Como um cão tolerado pela gerência Por ser inofensivo E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis, Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse, E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte, Calcando aos pés a consciência de estar existindo, Como um tapete em que um bêbado tropeça Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta. Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada E com o desconforto da alma mal-entendendo. Ele morrerá, eu morrerei. Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos. A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também. Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta, E a língua em que foram escritos os versos. Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra, Sempre uma coisa tão inútil como a outra, Sempre o impossível tão estúpido como o real, Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono do mistério da superfície, Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?), E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. Semiergo-me enérgico, convencido, humano, E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos. Sigo o fumo como uma rota própria, E gozo, num momento sensitivo e competente, A libertação de todas as especulações E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira E continuo fumando. Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira Talvez fosse feliz.) Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?). Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica. (O Dono da Tabacaria chegou à porta.) Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu. 15-1-1928
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda (*)
Poema de Álvaro de Campos (excerto de "Se te queres matar, porque não te queres matar?", in "Poesias de Álvaro de Campos", Nota editorial e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1944) Recitado por João Villaret (in EP "João Villaret Diz... António Botto - Fernando Pessoa - Mário de Sá Carneiro", Parlophone/VC, 1964; LP "Procissão", Valentim de Carvalho, 1978, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
Primeiro é a angústia, a surpresa da vinda Do mistério e da falta da tua vida falada... Depois o horror do caixão visível e material, E os homens de preto que exercem a profissão de estar ali. Depois a família a velar, inconsolável e contando anedotas, Lamentando a pena de teres morrido, E tu mera causa ocasional daquela carpidação, Tu verdadeiramente morto, muito mais morto que calculas... Muito mais morto aqui que calculas, Mesmo que estejas muito mais vivo além...
Depois a trágica retirada para o jazigo ou a cova, E depois o princípio da morte da tua memória. Há primeiro em todos um alívio Da tragédia um pouco maçadora de teres morrido... Depois a conversa aligeira-se quotidianamente, E a vida de todos os dias retoma o seu dia...
Depois, lentamente esqueceste. Só és lembrado em duas datas, aniversariamente: Quando faz anos que nasceste, quando faz anos que morreste. Mais nada, mais nada, absolutamente mais nada. Duas vezes no ano pensam em ti. Duas vezes no ano suspiram por ti os que te amaram, E uma ou outra vez suspiram se por acaso se fala em ti.
José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1935, desenho a tinta-da-china sobre papel.
José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1954, óleo sobre tela, 200 x 200 cm, Museu da Cidade, Lisboa. Executado para o café-restaurante Irmãos Unidos, que fora frequentado por Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros e outros colaboradores da revista "Orpheu" (da qual apenas saíram dois números). Em 1970, na sequência do encerramento do estabelecimento, a peça foi adquirida pela firma Decorações Mitnitzky. No mesmo ano, foi exposta no Salão de Antiguidades, onde foi comprada pelo banqueiro Jorge de Brito que a ofereceu à Câmara Municipal de Lisboa, em sessão solene realizada no Salão Nobre dos Paços do Concelho onde esteve exposta até à sua incorporação no acervo do Museu da Cidade. Desde 1993, a obra encontra-se em exposição na Casa Fernando Pessoa.
José de Almada Negreiros, "Retrato de Fernando Pessoa", 1964, óleo sobre tela, 225 x 226 cm, Centro de Arte Moderna – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Réplica simétrica do quadro anterior, pintada por encomenda da Fundação Calouste Gulbenkian, então presidida por José de Azeredo Perdigão.
José de Almada Negreiros, Heterónimos de Fernando Pessoa: Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, 1957-61, desenhos, pormenor da fachada gravada da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.