«Deve-se a Maria Teresa de Noronha uma viragem na História do Fado. Após esta forma musical, vinda da rua, do arraial e da taberna, ter conquistado os salões da fidalguia, era aí cultivada no recato dos serões familiares, das festas intimistas, ou como parte do culto tauromáquico em solares ribatejanos. Para manter a distância das origens condenáveis, jamais os tocadores, cantores e, muito menos, cantoras das famílias tradicionais – que os havia de muito mérito – se expunham publicamente senão nalguma verbena de caridade. Foi Maria Teresa do Carmo de Noronha, nascida em 1918 dos Condes de Paraty e Condessa de Sabrosa pelo casamento, a primeira fidalga que teve a coragem e a ousadia de partilhar com toda a gente, pela rádio, discos, televisão e espectáculos, uma voz excepcional, uma alma fadista de finíssima sensibilidade, um talento musical a quem se devem melodias adoptadas como clássicos desde que as criou. De início afrontando a celeuma dos seus pares, cedo os conquistou, bem como o País inteiro, tornando-se o estandarte do que se convencionou chamar Fado Aristocrático, quando outros nomes de famílias bem nascidas lhe seguiram as pisadas, para bem de um género musical que ganhou foros de marca cultural de uma Nação. Quer desta atitude de partilha, quer da capacidade criadora e interpretativa, não se pode dissociar a figura incentivadora de seu marido, José António Sabrosa, guitarrista amador e compositor de bom nível, a quem se devem as músicas dos fados "Saudade das Saudades", "Fado da Defesa", e ainda "Minha Guitarra", "O Meu Fado" e "Passos na Rua". Mas a voz, principal atributo de Maria Teresa de Noronha, essa nasceu com ela e com mais ninguém. Fresca, muito bem timbrada, de uma afinação e colocação naturalmente perfeitas, ia dos agudos suavemente metálicos aos graves envolventes (ouça-se "Fado da Idanha"), sem o mínimo esforço, sem se perceber uma respiração, com uma dicção modelar. Nas suspensões em pianissimo foi inigualável, ficando como exemplos antológicos o seu "Pintadinho" e "Rosa Enjeitada", este a excepção que confirmou a regra de rigor fadista a que sempre obedeceu, cultivando apenas o fado tradicional, caracterizado por estrofes regulares, de métrica constante, sem refrão. Estabeleceu padrões, como o já citado "Pintadinho", o "Anadia" e outros, baseados nas harmonias simples do Corrido, Menor, ou Meia-Noite, mas cuja originalidade interpretativa transformava em verdadeiros temas, com personalidade melódica própria ("Fado Menor e Maior" ou "Minha Mágoa"). No "Fado das Horas", além da melodia, trouxe-nos a novidade de, em vez do costumeiro "Ai..." intercalado como bordão antes do último verso bisado de cada quadra, cantar com a mesma modulação a primeira sílaba desse verso. Modestamente chamou a estas verdadeiras composições, arranjos. Apenas se declarou autora de "Nosso Fado", com base no Dois Tons, e "Corrido Antigo", um Corrido um pouco mais estruturado. Ousou também cantar Fado de Coimbra, até então feudo de vozes masculinas. Fê-lo com a mestria patente no "Fado Hilário" e ainda em "Canção duma Tricana" e "Cantiga de Amor-Saudade". Na escolha das letras, foi de um apurado bom gosto, respeitando os cânones fadistas, mas de poética mais elevada, mais culta. Manteve, na carreira, uma contenção que lhe terá vindo do berço e impediu maior projecção artística, merecida até a nível internacional. Era, porém, de um profissionalismo exemplar. Jamais gravou ou actuou em estúdio lendo uma letra: levava todos os fados decorados, mesmo nos programas da Emissora Nacional, emitidos em directo e sem público, onde cantou 4 fados todas as semanas, durante 23 anos consecutivos, desde que aí se estreou, em 1938, até se retirar, em 1961. Espectáculos fazia poucos, não se escusando, porém, aos de finalidade caritativa. A televisão divulgou a sua figura de uma distinção sóbria, sem xailes ou artifícios cénicos. Actuou, com grande êxito, no Brasil; em Espanha, no Festival da Feira do Livro de Barcelona, em 1946, e numa série de espectáculos em Madrid, a convite do Governo espanhol; em 1964, já retirada, cantou em Londres, na nossa Embaixada, na Casa de Portugal e na BBC (rádio e televisão). Depois disso, só em privado era possível ouvi-la. Continuou dedicada ao Fado, indo com o marido às casas onde cantavam os seus favoritos. Uma delas era o Faia, onde adorava ouvir Lucília do Carmo e Alfredo Marceneiro, quando aparecia. Nas raras vezes em que aí confluíram esses três gigantes, fechava-se a porta e a luz exterior, depois de sair o último cliente e o pessoal. Ficavam os guitarristas. Pedindo uns aos outros os fados de que mais gostavam, aplaudindo-se mais por comentários, de entendidos que eram, do que por palmas de tão poucos, ficavam, até ao esquecimento das horas, em mútuo deleite. A um canto, um jovem absorvia em êxtase esses momentos irrepetíveis: Carlos do Carmo, a quem devemos a narração deles e confessa terem sido determinantes na decisão da sua própria carreira. Devem os amantes do Fado mais isso, na parte que lhe cabe, a Maria Teresa de Noronha. António Chainho, que a acompanhou na gravação do último disco [LP "Fado Antigo", em 1971] e na digressão ao Brasil, terá testemunhado a derradeira vez em que Maria Teresa de Noronha cantou. Foi no "Picadeiro", em Cascais, por alturas de 1976. Fora lá para ouvir Manuel de Almeida. Este, depois de actuar, pediu-lhe que cantasse. De início escusou-se, com um sorriso nostálgico e um "Há tantos anos que não canto...". Por fim, cantou. A mesma sensibilidade, o mesmo lamento contido na alma e liberto pela voz da Grande Senhora do Fado derramou-se pela sala e pelos olhos de Manuel de Almeida, que os enxugava comovido. Tardiamente, o reconhecimento oficial condecorou-a e o popular consagrou-lhe uma Grande Noite do Fado, a que assistiu em casa, pela televisão, já doente. Esta colectânea é, também, galeria de outros talentos que, muitas vezes esquecidos, estão por detrás da qualidade final discográfica. Tal é o caso de Raul Nery, guitarrista ímpar, acompanhador de Maria Teresa de Noronha ao longo de quase toda a carreira, preferido dos maiores nomes da sua época, pela rara combinação de virtuosismo, sobriedade e bom gosto musical. Solista capaz de execuções dificílimas, mantinha um dedilhado límpido, uma sonoridade cristalina. Mesmo nas tercinas e trilos mais vertiginosos, todas as notas estavam lá, bem diferenciadas, sem atropelos, diríamos que "explicadas". Quando acompanhava, era discreto, remetia-se a apoiar a voz, valorizava-a. Apenas nas pausas trazia a guitarra ao primeiro plano, preenchendo com elegância esse espaço, dialogando. Disso é soberbo exemplo "Minha Dor", onde não é menos notável a viola de Joaquim do Vale, verdadeiramente orquestral. Outro nome a salientar é Hugo Ribeiro, o técnico por quem passaram nomes grandes e pequenos da música portuguesa, durante quase cinco décadas, no Teatro Taborda (à Costa do Castelo) e nos estúdios de Paço d'Arcos. Bonomia, ilimitada paciência para os caprichos dos artistas, tinha gosto pelo Fado e um raro talento para gravar a guitarra portuguesa, instrumento dos mais difíceis de captar: na verdade, com uma diferença de milímetros, colocando o microfone perto de mais, ouve-se o raspar desagradável das unhas postiças nas cordas; demasiado afastado, ou a uma altura inadequada, perde-se o timbre sineiro e vibrátil que faz da cítara lusitana um instrumento único. Uma tal combinação dos melhores poetas, compositores, instrumentistas e técnicos, servindo a voz divina de Maria Teresa de Noronha, faz desta antologia, compilada pelo ouvido atento e conhecedor de José Pracana, um tesouro inestimável.» (Daniel Gouveia, Julho de 1997, texto inserto no caderno do CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997)
Nota: Aquela antologia é hoje difícil de encontrar no mercado, mas o repertório nela incluído é o mesmíssimo que consta noutra mais recente intitulada "O Melhor de Maria Teresa de Noronha" (Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008), apenas tendo sido alterada a ordenação dos temas. A imagem do topo pertence à capa.
Completam-se hoje 20 anos exactos sobre a data (5 de Julho de 1993) em que a grande (enorme) cantora Maria Teresa de Noronha deixou de pertencer ao número dos vivos. Ficou para a posteridade a obra discográfica que não sendo muito vasta é de superior qualidade, como muito assertivamente refere Daniel Gouveia, e que constitui, sem dúvida alguma, um legado de referência obrigatória no que respeita à arte de bem cantar o fado. Há quem afirme que Maria Teresa de Noronha foi (é) a maior cantora do género, logo depois de Amália – afirmação que eu não hesito em subscrever –, mas tal reconhecimento não tem tido correspondência na divulgação do seu repertório na rádio pública. De tempos a tempos, lá aparece um ou outro tema na rubrica "Alma Lusa" ou no espaço alargado depois da meia-noite de domingo, o que é francamente pouco e está longe de fazer plena justiça à memória da ilustre artista, pois é elevada a dívida que o país tem para com ela pelo notabilíssimo contributo que deu à música e à cultura portuguesa. Será razoável que uma intérprete de tal dimensão não esteja representada na 'playlist' da Antena 1, que é, para todos os efeitos, a grande montra musical da estação? Pois eu convido os senhores que gerem a referida 'playlist' a ouvirem os espécimes de Maria Teresa de Noronha abaixo apresentados. Se não forem desprovidos de um mínimo de sensibilidade musical/artística, terão oportunidade de exclamar para os vossos botões: «É realmente incompreensível que pérolas deste quilate, que nunca nos demos ao cuidado de ouvir atentamente – por preconceito e preguiça –, estejam excluídas da 'playlist' da Antena 1, o canal generalista da rádio estatal que tem a obrigação legal (formalmente estabelecida no contrato de concessão do serviço público de radiodifusão) de divulgar a melhor música portuguesa!!!»
Fado Vianinha
Letra: Popular
Música: Francisco Viana (Vianinha)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Triste Fado", Decca/VC, 1961; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)
[instrumental]
Devagar se vai ao longe
E eu bem vou devagarinho;
Vamos ver se me não perco
Nos atalhos do caminho.
Meu amor, não tenhas pressa!
Porque não hás-de esperar?
Tudo aquilo que começa
Tarde ou cedo há-de acabar.
Tudo mudou entretanto,
Vê lá, que pouco juízo:
Rio a pensar no teu pranto,
Choro a pensar no teu riso.
Dá-me os teus olhos profundos
E o mundo pode acabar!
Que importa o mundo se há mundos
Lá dentro do teu olhar!
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
O Vento
Letra: Maria da Graça Ferrão
Música: Américo Duarte
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Mouraria Antigo", Decca/VC, 1965; LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006)
Se o vento soubesse ler
Leria em meu pensamento
A loucura de te ver
A toda a hora e momento.
Dizer-te aquilo que sinto
Não sei se parece mal;
Diz que sim, não te desminto,
O que sou eu afinal?
A brisa quando ao passar
Murmura entre a folhagem
Palavras para te adorar,
Carinhos à tua imagem.
Ouve esta frase sentida:
Sem amor não há viver,
Amar é próprio da vida,
Ai se o vento soubesse ler.
* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Sou Feliz
Letra: José Neto
Música: Frederico de Brito (Fado Britinho)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)
Meu amor, olha p'ra o mar
Para veres a cor dos olhos
Que ao nasceres Deus te deu!
Olha bem longe e verás
Como ao longe se confundem
As cores do mar e do céu!
Oh meu pobre coração!
Onde tudo é escuridão
Só tem brilho um olhar teu;
Gostava de ser ceguinha
Guiada na vida minha
P'los olhos que Deus te deu.
Fui numa prece ao Senhor
A minha vida depor
Aos pés da Sagrada Cruz;
Dava a minha vida a Deus
Se me desse os olhos teus
Que à minha vida dão luz.
Deus ouviu minha oração
Tão feita de devoção,
Tão magoada e sentida;
Deu-me a luz dos olhos teus,
Sou feliz, graças a Deus,
Tenho luz na minha vida.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Julho de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Vida da Minha Vida
Letra e música: Fernando Farinha
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006)
[instrumental]
Na minha vida vivia só por viver;
No fundo, todo o meu ser
Era noite escura e fria;
Mas quis Deus que o teu amor
Lhe desse sol e calor
E a noite tornou-se dia.
Hoje sinto a claridade
A dar cor e felicidade
À vida que não vivia;
Da minha vida fiz o meu próprio destino
Como se um poder divino
Despertasse o meu viver.
Dos teus braços fiz dois laços,
Do teu andar os meus passos,
Do teu sofrer meu sofrer;
Dos teus olhos fiz dois guias
Que hão-de dar luz aos meus dias
E aos meus olhos p'ra te ver.
[instrumental]
Dos teus olhos fiz dois guias
Que hão-de dar luz aos meus dias
E aos meus olhos p'ra te ver.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959
Alexandrino
Letra: Carlos Freire
Música: Alfredo Duarte "Marceneiro" (Fado Alexandrino "Eu Lembro-me de Ti")
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Minha Mágoa", Decca/VC, 1961; LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Cantava antigamente
P'ra expandir a alegria
No tempo em que vivia
Risonha mocidade;
Tal qual os passarinhos,
Soltava meus trinados,
Ingénuos, descuidados,
Tudo felicidade.
Achei o teu olhar
Perdido nos meus olhos
Que p'ra mim foram escolhos
De tão dura paixão;
Hoje já não te olho,
Já não te quero ver,
Basta-me para sofrer
Ver-te com o coração.
Porém, assim ceguinha,
Cega de amor por ti,
Nada melhor eu vi
Que um amor verdadeiro;
E se mais nada vejo,
Nada melhor sem ti,
Pois vendo-te a ti
Eu vejo o mundo inteiro.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Fado das Horas
Letra: D. António José de Bragança
Música: Popular (Fado Mouraria)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Chorava por te não ver,
Por te ver eu choro agora;
Mas choro só por querer,
Querer ver-te a toda a hora.
Passa o tempo de corrida,
Quando falas eu te escuto;
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto.
Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo;
Mas o tempo é tão ruim,
Tem cada hora um segundo.
Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora,
P'ra meu coração, coitado,
Viver na vida uma hora.
[instrumental]
* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Fado da Defesa
Letra: António Calem
Música: José António Sabrosa (Fado Zé António)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Ave-Maria da Serra", Decca/VC, 1969; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Lembras-te da nossa rua
Que hoje é minha, já foi tua,
Talhada para nós dois?
Foi aberta pela amizade,
Construída com saudade
P'ra o amor morar depois.
[instrumental]
Mas um dia tu partiste
E um vento frio e triste
Varreu toda a Primavera;
E agora veio o Outono
E as folhas ao abandono
Morreram à tua espera.
[instrumental]
Certas noites, o luar
Traça o caminho do mar
Para chegares até mim;
Mas é tão longa a viagem
Que só te vejo em miragem
Num sonho que não tem fim.
* Conjunto de Guitarras de Raul Nery, aumentado por:
José António Sabrosa – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Novembro de 1969
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Triste Fado
Letra: Popular
Música: João Maria dos Anjos
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Triste Fado", Decca/VC, 1961; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006)
[instrumental]
Assim que te conheci,
O amor logo senti
Invadir-me o coração;
Se é pecado tanto amar
Nunca me posso emendar,
Morrerei sem ter perdão.
A toda a hora e momento
Invades meu pensamento,
Ó cruel destino nosso;
Penso em ti e desespero,
Desejo ver-te e não quero,
Quero esquecer-te e não posso.
Se esquecer-te não consigo
Serão remorsos, castigo?
Vai responder a verdade:
Remorsos não quero crer,
Castigo não deve ser;
Ou são penas ou saudade.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Fado Menor e Maior
Letra: Vicente Arnoso
Música: Popular (Fado Corrido e Fado Menor)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fado Antigo", Decca/VC, 1972, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006)
[instrumental]
De saudade fala a gente
Quantas vezes sem razão;
Saudades só quem as sente
É que sabe o que elas são.
Saudade, mágoa sem dor
Vivida por toda a gente
Que traz no peito um amor
Que a vida tornou ausente.
Quis-te falar e não pude,
Nada te pude dizer;
Se os meus olhos te não falam
Como havias de entender?
Pedi a Deus que me desse
Alguma coisa do Céu;
Quem sabe se foste tu
Aquilo que Deus me deu?
* Raul Nery e António Chainho – guitarras portuguesas
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em 1971
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Mouraria
Letra: Maria Helena Bota Guerreiro
Música: Jaime Santos
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Minha Mágoa", Decca/VC, 1961; LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Porque será que não canto
Como canta a cotovia?
O meu cantar nem é pranto,
É gemer duma agonia!
Chora sim, meu coração!
Tens razão para o fazer:
Matou a vida a ilusão
Que não tornas a viver.
"Sofrer fez-me diferente!"
Dizes tu e tens razão,
Pois não é impunemente
Que se tem um coração.
Ando a cumprir uma pena
Mas crime não cometi;
Só sei que ela me condena
A viver longe de ti.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Rosa Enjeitada
Letra: José Galhardo
Música: Raul Ferrão
Criação: Hermínia Silva (na revista "Arre Burro!", 1936)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
Sou essa rosa,
Caprichosa,
Sem ser má,
Flor d'alma pura
E de ternura
Ao deus-dará,
Que viu um dia,
Que sentia
Um grande amor
E de paixão
O coração
Estalar de dor.
Rosa enjeitada
Sem mãe, sem pão, sem ter nada!
O teu destino te deu!
Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.
Tão pobrezinha
Ainda tinha
Uma ilusão:
Alguém que amava,
Em quem sonhava
Uma afeição.
Mas esse alguém
Por outro bem
Se apaixonou;
«E assim fiquei
Sem ele que amei,
Que me enjeitou!»
Rosa enjeitada
Sem mãe, sem pão, sem ter nada!
Que vida triste e chorada
O teu destino te deu!
Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.
[instrumental]
Rosa enjeitada,
Rosa humilde e perfumada!
E, afinal, desventurada.
Quem és tu?
Rosa enjeitada,
Uma mulher que sofreu.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Julho de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Desengano
Letra: Mário Piçarra Almeida
Música: José Marques "Piscarelete" (Fado Triplicado)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
E adorei-te, acreditei
No bem que eu ambicionei
Dum amor, sinceridade;
As tuas promessas puras
E o calor das tuas juras
Tinham a luz da verdade.
Mas um dia te esqueceste
De tudo o que me disseste
Em confissões tão ardentes;
Iludiste duas vidas
Com mil palavras fingidas
Que não sentiste nem sentes!
Ao contemplar o passado,
Como um golpe já fechado
Que ainda sinto doer,
Vejo em teus falsos carinhos
Que as rosas têm espinhos
E também fazem sofrer.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Fado Anadia
Letra: Marques dos Santos
Música: José Maria dos Cavalinhos (1874, dedicada ao 4.º Conde da Anadia, D. José Maria de Sá Pereira e Menezes Pais do Amaral de Almeida e Vasconcelos Quifel Barberino, amante de fado, falecido a 10 de Julho de 1870, com 31 anos de idade)
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fados", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Eu sei que no céu profundo
Nunca brilhou minha estrela;
Sinto que a vida do mundo
Jamais poderei vivê-la.
[instrumental]
Penso que a vida que vivo
Não passa duma ilusão,
Pois não encontro o motivo
Do bater do coração.
[instrumental]
Creio viver sem ter vida,
Viver vida sem alento
Tal como folha caída
Andando ao sabor do vento.
[instrumental]
Não quero sofrer a sorte
Nesta má sina contida;
Prefiro pedir à morte
Que me leve à outra vida.
[instrumental]
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Assistente – José de Carvalho
Fado da Idanha
Letra: Popular
Música: Ricardo Borges de Sousa
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Fado Antigo", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Quem me dera que voltasse
O doce tempo d'além:
Sentada junto à lareira
Ai a ouvir cantar minha mãe!
Oh tempo, tempo ditoso
Da vida eterno sorriso
Ai que tornas em paraíso
O mundo tão enganoso
Quando à minha mãe, choroso,
Após um beijo na face
Lhe pedia que cantasse
Uma trova de bonança,
E esse tempo de criança
Quem me dera que voltasse.
Tempos que não voltam mais
Da nossa infância ridente
Ai em que eu vivia contente
Correndo atrás dos pardais,
Das paredes dos casais
Que a nossa aldeia contém
Branquinhas como a cecém,
Mudas como a gratidão
E recordam com paixão
O doce tempo d'além.
[instrumental]
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Março de 1959
Fado João
Letra: Maria Carlota de Noronha
Música: D. João de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Desengano", Decca/VC, 1962; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 2, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Não posso cantar o fado,
O fado faz-me chorar:
Faz-me lembrar o passado
Que já não pode voltar.
Eu cantava noite e dia
Sem nada me dar cuidado;
Não tenho a mesma alegria, Não posso cantar o fado.
Se quando canto entristeço,
Não é para admirar;
Tenho saudades de tudo, O fado faz-me chorar.
Quando ouço alguma guitarra
Ou alguém cantando o fado
Sinto que minha alma chora, Faz-me lembrar o passado.
Cantigas à desgarrada
Que sempre me hão-de lembrar;
Adeus tempo em que as cantava Que já não pode voltar.
[instrumental]
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Joel Pina – viola baixo
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Janeiro de 1961
Técnico de som – Hugo Ribeiro Assistente – José de Carvalho
Sete Letras
Letra: D. António José de Bragança
Música: Alfredo José dos Santos "Correeiro" (Fado Marcha do Correeiro)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", vol. 2, EMI-VC, 1993; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006)
[instrumental]
Saudade, palavra linda
Que nos diz tristeza infinda
Ou grata recordação;
Palavra bem portuguesa
Está ligada e sempre presa
À palavra coração.
Por capricho as abrigou
O destino e as ligou
Em tão íntima união;
Que é perfeita a igualdade:
Sete letras tem saudade,
Sete letras coração.
E as saudades, se não cantas,
São tão grandes e são tantas,
São para mais de um milhão;
Mas se cantas, que tristeza!
À saudade fica presa
Minh'alma, meu coração!
E esta contradição
Ao meu pobre coração,
Inocente e sem maldade,
Faz-lhe sofrer tal horror
Que um dia ele morre de dor
P'ra não morrer de saudade.
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959
Saudade das Saudades
Letra: D. António José de Bragança
Música: José António Sabrosa
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Mouraria Antigo", Decca/VC, 1965; LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Cansada de ter saudade
Tudo fiz para esquecer;
E hoje tenho saudade
De saudade já não ter.
Sem força p'ra suportar
A minha fatalidade
Ajoelhei a rezar, Cansada de ter saudade.
Roguei a Deus dar-me a sorte,
Esta dita até morrer;
Essa saudade de morte Tudo fiz para esquecer.
Foi minha prece atendida
Por Deus na sua bondade;
Como estou arrependida E hoje tenho saudade.
Castigo p'ra quem não pensa
Quem não sabe o que é sofrer,
Pois sinto saudade imensa De saudade já não ter.
* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Pintadinho
Letra: José Mariano
Música: José António Sabrosa
Arranjo: Maria Teresa de Noronha
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in EP "Pintadinho", Decca/VC, 1959; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", EMI-VC, 1989; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 1, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
[instrumental]
Eu vi outrora o luar
À porta de Santa Cruz:
Era o silêncio a rezar
Ave-marias de luz.
Fiquei na sombra, discreta,
E murmurei: Que primor!
Não és apenas poeta,
Ó luar, tu és pintor!
Passou o tempo, voltei,
Vi a mesma claridade;
E fui eu que então rezei
Padre-nossos de saudade.
[instrumental]
* Raul Nery – guitarra portuguesa
Joaquim do Vale – viola
Gravado no Teatro Taborda (Costa do Castelo), Lisboa, em Maio de 1959
Castanheiro
Letra: João de Vasconcellos e Sá
Música: Pedro Rodrigues
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Saudade das Saudades", Decca/VC, 1966; CD "Maria Teresa de Noronha", col. Biografias do Fado, EMI-VC, 1997; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 3, EMI, 2006; CD "O Melhor de Maria Teresa de Noronha", Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
No cimo daquele outeiro
Debruçado castanheiro
Morre de sede e fadiga;
Torcendo os braços ao vento,
Dando à visão tormento
Sobre uma rocha inimiga.
Tão velhinho e tão mirrado,
Perdeu as folhas, coitado,
Fogem dele os passarinhos;
Nem mesmo em noites suaves
Ele pode abrigar as aves
Nem pode embalar os ninhos.
E um ramo de hera viçosa,
Que viveu sempre amorosa
Ao pobre tronco segura,
Abraça o pobre velhinho
Cada vez com mais carinho,
Cada vez com mais ternura.
Ó hera que não dás flor,
Teu coração para amor
Deve ser igual ao meu;
Singela planta que eu amo
Jamais se esquece do ramo
Onde uma vez se prendeu.
* Conjunto de Guitarras de Raul Nery
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Dezembro de 1965
Técnico de som – Hugo Ribeiro
Folhas Caídas
Letra: D. António José de Bragança
Música: Joaquim Campos (Fado Tango)
Intérprete: Maria Teresa de Noronha* (in LP "Fado Antigo", Decca/VC, 1972, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; Livro/4CD "Maria Teresa de Noronha: Integral": CD 4, EMI, 2006)
[instrumental]
Outono, folhas caídas,
Com sangue Deus as pintou;
Folhas tão cedo nascidas,
Pobres folhas mal vividas,
Um vento louco as levou.
Nasceram na Primavera,
Fê-las Deus da cor da esperança;
Sonharam uma quimera:
Serem como as folhas da hera,
De saudade e de lembrança.
Mas chega o Verão, o calor,
E as folhas verdes tão belas
Vão perdendo o seu frescor;
Pressentem a sua dor,
Ficam tristes, amarelas.
Ao Inverno não chegaram,
Foram curtas suas vidas;
Da cor do sangue as pintaram,
Ventos loucos as levaram,
Outono, folhas caídas.
Desenho da autoria de Edgard Braga, publicado no seu livro de poesia "Desbragada" (São Paulo: Editora Max Lomonad, 1984)
"Ser Poeta": com estas duas palavras, carregadas de significado, começa o poema mais conhecido de Florbela Espanca. Amplamente conhecido muito por graças de João Gil que teve a feliz ideia de o musicar e de propor a sua gravação aos demais elementos do Trovante que assim deram à música portuguesa uma pérola de elevado quilate. É dos poemas que melhor define a condição de poeta, mas outros existem que importa ter em consideração. Aqui se apresenta alguns deles, em jeito de homenagem a todos os poetas, eruditos e populares, sem esquecer os analfabetos ou semi-analfabetos, aos quais Rafael Correia sempre deu voz no referencial "Lugar ao Sul". Antes, ou depois (para o caso é indiferente), há que ouvir também uma série de edições da rubrica "David Ferreira a contar" e uma edição especial do programa "A Cena do Ódio" consagradas à poesia, que foram, afinal, o móbil deste artigo. Ouvindo poesia, cantada ou recitada, nutrimos a mente e ficamos menos "subalimentados do sonho". Bom proveito!
- "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996) [>> YouTube]
- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube] - "Barca Bela", de Almeida Garrett, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho: O Melhor dos Melhores", vol. 35, Movieplay, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube] - "Adágio", de Ary dos Santos, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho", col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube] - "Canção Grata", de Carlos Queiroz, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Teresa Silva Carvalho (Adágio)", Movieplay, 1973; CD "Teresa Silva Carvalho", col. Clássicos da Renascença, vol. 63, Movieplay, 2000) [>> YouTube]
- "Poema do Fecho Éclair", por Carlos Mendes (in LP "Fala do Homem Nascido", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1998) [>> YouTube] - "Pedra Filosofal", por Manuel Freire (in single "Pedra Filosofal / Menina dos Olhos Tristes", Zip-Zip, 1970; CD "Pedra Filosofal" (compilação), Strauss, 1993, CNM, 2004; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube]
- "Autogénese", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [em casa de Amália, Dez. 1968 >> YouTube] - "Queixa das Almas Jovens Censuradas", por José Mário Branco (in LP "Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades", Guilda da Música/Sassetti, 1971, reed. EMI-VC, 1996) [>> YouTube] - "A Defesa do Poeta", pela autora (in EP "Natália Correia Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969; CD "A Defesa do Poeta", EMI-VC, 2003) [em casa de Amália, Dez. 1968 >> YouTube] - "Dom Fulano", de D. Dinis (adapt. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube] - "No Vale de Fuenteovejuna", de Lope de Vega (adapt. Natália Correia), por José Afonso (in LP "Contos Velhos, Rumos Novos", Orfeu, 1969, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube] - "Amores Eu Tenho", de Pêro Meogo (adapt. Natália Correia), por Natália Correia e Amália Rodrigues (in LP "Cantigas d'Amigos", Columbia/VC, 1971, reed. Valentim de Carvalho/Iplay, 2011) [>> YouTube] - "Senhores, sou um poeta" ("A Defesa do Poeta"), por Maria Bethânia (in 2CD "Maricotinha ao Vivo": CD 2, Biscoito Fino, 2002) [>> YouTube]
- "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube; Parte II >> YouTube; Parte III >> YouTube] - "Manifesto Anti-Dantas", por Mário Viegas (in LP "Pretextos Para Dizer", Orfeu, 1978, reed. Público, 2006) [>> YouTube] - "Rondel do Alentejo", por Amália Rodrigues (in LP/CD "Obsessão", EMI-VC, 1990; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube] - "A Cena do Ódio", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [Parte I >> YouTube; Parte II >> YouTube; Parte III >> YouTube]
- "Bucólica", por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube] - "Bucólica", por Sophia de Mello Breyner Andresen (registo do arquivo da RDP, 1976) - "Confiança", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995) - "Fantasia", pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995)
- "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube] - "Perdidamente" ("Ser Poeta"), por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991) [>> YouTube] - "Rústica", por Jafumega (in LP "Recados", Polydor/Polygram, 1983; CD "Jáfu'Mega" (compilação), Polydor/Polygram, 1990)
- "Fria Claridade" ("Naufrágio"), por Amália Rodrigues (in single 78 rpm "Ave-Maria Fadista / Fria Claridade", Melodia, 1952; CD "Amália Rodrigues", col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> YouTube] - "Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", por Amália Rodrigues (in single 78 rpm "Lá Porque Tens Cinco Pedras/Quando os Outros te Batem, Beijo-te Eu", Melodia, 1951; col. O Melhor dos Melhores, vol. 2, Movieplay, 1994; CD "Amália Rodrigues" (compilação), Movieplay, 1997) [>> Vimeo] - "Povo Que Lavas no Rio" ("Povo"), por Amália Rodrigues (in LP "Amália Rodrigues (Busto)", Columbia/VC, 1962, reed. EMI-VC, 1989, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube] - "O Rapaz da Camisola Verde", por Frei Hermano da Câmara (in EP "Túnica Negra", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1970; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", EMI-VC, 1989; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "O Melhor de Frei Hermano da Câmara", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube] - "Havemos de Ir a Viana", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube]
- "Adeus (Palavras Gastas)", por Simone de Oliveira (in LP "Simone", Alvorada, 1979; CD "Simone de Oliveira", col. O Melhor dos Melhores, vol. 26, Movieplay, 1994) [>> YouTube] - "Elegia das Águas Negras para Che Guevara", por Mário Viegas (in LP "3 Poemas de Amor, Ódio e Alguma Amargura", Orfeu, 1976, reed. Público, 2006) [>> YouTube] - "Lisboa", por Trovante (in LP "Baile no Bosque", Valentim de Carvalho, 1981, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube]
- "No Comboio Descendente", por José Afonso (in LP "Eu Vou Ser Como a Toupeira", Orfeu, 1972, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube] - "Autopsicografia", por João Villaret (in LP "Fernando Pessoa por João Villaret", Parlophone/VC, 1957, reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD1, CNM, 2010) [>> YouTube] - "O Menino de Sua Mãe", por Mafalda Veiga (in LP "Pássaros do Sul", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1993, 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube] - "Ai Margarida", por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995-2013", EMI, 2013) [>> YouTube] - "Cavaleiro Monge" ("Do Vale à Montanha"), por Mariza (in CD "Fado Curvo", Word Connection/EMI-VC, 2003; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004) [>> YouTube]
- "O Objecto", pelo autor (in LP "Amália-Vinicius", Decca/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1988, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube] - "Desfolhada Portuguesa", por Simone de Oliveira (in EP "Desfolhada Portuguesa", Decca/VC, 1969; CD "O Melhor de Simone", EMI-VC, 1992; 2CD "Simone de Oliveira: Perfil: 50 Anos", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube] - "Tourada", por Fernando Tordo (in single "Tourada / Carta De Longe", Tecla, 1973; CD "Carlos Mendes e Fernando Tordo", col. O Melhor dos Melhores, vol. 67, Movieplay, 1997) [>> YouTube] - "Alfama", por Amália Rodrigues (in LP "Cantigas Numa Língua Antiga", Columbia/VC, 1977, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube] - "O Cacilheiro", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995) [>> YouTube] - "Namorados da Cidade", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995) - "Fado da Pouca Sorte", por Carlos do Carmo (in LP "Um Homem na Cidade", Trova, 1977, reed. UPAV, 1991, Philips/Polygram, 1995)
- "Gaivota", por Amália Rodrigues (in LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube] - "Formiga Bossa Nossa", por Amália Rodrigues (in EP "Formiga Bossa Nossa", Columbia/VC, 1969; LP "Com Que Voz", Columbia/VC, 1970, reed. EMI-VC, 1987; "Com Que Voz" (nova edição): CD1, Valentim de Carvalho/Iplay, 2010) [>> YouTube] - "O Macaco (Valsa Lisboeta)", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969) - "O'Neill (alguns poemas com endereço)", por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube] - "Cão", pelo autor (in EP "Os Bichos Também São Gente!", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1969)
- "Lianor", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; "Amália 50 Anos": CD "Os Poetas", EMI-VC, 1989) [>> YouTube] - "Erros Meus", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; LP "Fado Português", Columbia/VC, 1965, reed. EMI-VC, 1992, Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007) [>> YouTube] - "Dura Memória", por Amália Rodrigues (in EP "Amália Canta Luís de Camões", Columbia/VC, 1965; 2LP "O Melhor de Amália: Volume II - Tudo Isto é Fado", EMI-VC, 1985, reed. EMI-VC, 2000) [>> YouTube] - "Endechas a Bárbara Escrava", por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube]
- "Sonnet 43", de William Shakespeare, por Rufus Wainwright (in CD "All Days Are Nights: Songs For Lulu", Decca Records, 2010) [>> YouTube] - "Endechas a Bárbara Escrava", de Luís de Camões, por José Afonso (in LP "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968, reed. Movieplay, 1987, 1996, Art'Orfeu Media, 2012) [>> YouTube] - "Les Passantes", de Antoine Pol, por Georges Brassens (in LP "Fernande", Philips, 1972; 5CD "Georges Brassens: Les 100 Plus Belles Chansons", Universal Music France, 2008) [>> YouTube] - "Casa", de David Mourão-Ferreira, pelo autor (in CD "Um Monumento de Palavras", EMI-VC, 1995) - "Casa", de David Mourão-Ferreira, por Camané (in CD "Do Amor e dos Dias", EMI, 2010) [>> YouTube] - "Menos Tu Vientre", de Miguel Hernandez, por Joan Manuel Serrat (in LP "Miguel Hernandez", Zafiro/Novola, 1972, reed. Ariola/BMG España, 2000) [>> YouTube] - "Les Pensionnaires", de Paul Verlaine, por Leo Ferré (in 2 LP "Verlaine et Rimbaud chantés par Leo Ferré", Barclay, 1964, reed. Barclay, 2004) [>> YouTube] - "Serenata em Dó Maior", de Miguel Torga, pelo autor (in LP "Miguel Torga: 80 Poemas", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1995) - "Bucólica", de Miguel Torga, por Rui Veloso (in LP "Fora de Moda", Valentim de Carvalho, 1982, reed. EMI-VC, 1993; 2CD "Poesia Encantada", vol. 1, EMI-VC, 2002) [>> YouTube] - "Soneto à Maneira de Camões", de Sophia de Mello Breyner Andresen, pela autora (in EP "Sophia de Mello Breyner Andresen Diz Poemas de Sua Autoria", col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1959) - "Perdidamente" ("Ser Poeta"), de Florbela Espanca, por Trovante (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991) [>> YouTube] - "Amar!", de Florbela Espanca, por Teresa Silva Carvalho (in EP "Amor Tornado Momento", A Voz do Dono/Valentim de Carvalho, 1969; CD "Biografia do Fado", EMI-VC, 1994; 2CD "Poesia Encantada", vol. 2, EMI-VC, 2004; CD "Teresa Silva Carvalho: Álbum de Recordações", Alma do Fado, 2008) [>> YouTube] - "Florbela Espanca-me", de Manuel João Vieira, por Ena Pá 2000 (in CD "Opus Gay", Discossete, 1997, reed. Espacial, 2012) [>> YouTube] - "O'Neill (alguns poemas com endereço)", de Alexandre O'Neill, por Sérgio Godinho (in LP "Pré-Histórias", Guilda da Música/Sassetti, 1973, reed. Philips/Polygram, 1990, Universal, 2001) [>> YouTube] - "Pastelaria", de Mário Cesariny de Vasconcelos, pelo autor (in LP "Mário Cesariny: Poesia (1943-1968)", Graça Lobo - Mário Cesariny, col. A Voz e o Texto, Decca/VC, 1975) - "Verdad, Mentira", de Luis de Góngora, por Paco Ibañez (in LP "La Poesia Española de Ahora y de Siempre", Moshé-Naïm, 1968; CD "Paco Ibáñez 2", EMEN/PDI, 2000) [>> YouTube] - "Dom Fulano", de D. Dinis (adapt. Natália Correia), por José Cid (in LP "José Cid", Columbia/VC, 1971; CD "O Melhor de José Cid", Valentim de Carvalho/Iplay, 2008) [>> YouTube] - "No Comboio Descendente", de Fernando Pessoa, por Couple Coffee (in CD "Co'as Tamanquinhas do Zeca", Transformadores, 2007) [>> YouTube] - "Ai Margarida", de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, por Camané (in 2CD "O Melhor de Camané: 1995-2013", EMI, 2013) [>> YouTube] - "Baudelaire" ("Le serpent qui danse"), de Charles Baudelaire, por Serge Gainsbourg (in LP "Serge Gainsbourg N.° 4", Philips, 1962, reed. Club Dial, 1994, Mercury France/Universal, 2001) [>> YouTube] - "La Malabaraise" ("À Une Malabaraise"), de Charles Baudelaire, por Leo Ferré (in 2LP "Léo Ferré chante Baudelaire", Barclay, 1967, reed. Barclay, 1990, Barclay/Universal, 2004) [>> YouTube] - "Les Feuilles Mortes", de Jacques Prévert, por Mireille Mathieu (in LP "Les Grandes Chansons Françaises", Ariola, 1985; 3CD "Amoureusement Vôtre": CD 1, EMI Music, 2002) [>> YouTube]
Poeta
Poema de Antero de Quental Recitado por Afonso Dias* (in CD "Cantando Espalharey", vol. I, Edere, 2001)
Quereis saber que é ser-se poeta? Pois bem. Aqui vos deixo em breves traços: É vaguear em sonhos p'los espaços, Sem que o nosso ideal encontre a meta!
Querer ter a magia dum profeta, Ter forças p'ra vencer nossos fracassos, À ilusão e à vida dar os braços Quando o Cupido atira a sua seta.
É descer aos mistérios das ravinas, Desvendar horizontes nas colinas E em tudo achar motivos de beleza!
Ser simples como as ervas pelo chão E agradecer a Deus este condão, Que é sentir dentro em nós a Natureza!
* Pesquisa e produção – Afonso Dias e André Dias Gravado no Estúdio InforArte, Chinicato - Lagos Técnicos de som – Fernando Guerreiro e Joaquim Guerreiro
Perdidamente
Poema: Florbela Espanca (soneto "Ser Poeta", in "Charneca em Flor", Coimbra: Livraria Gonçalves, 1931; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – pág. 319) Música: João Gil Arranjo: Artur Costa Intérprete: Trovante* (in LP "Terra Firme", EMI-VC, 1987, reed. EMI-VC, 1988, EMI, 2009; 2CD "Saudades do Futuro: o Melhor dos Trovante", EMI-VC, 1991)
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!
É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor!
É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhas de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito!
E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
* Trovante: Artur Costa – saxofone Fernando Júdice – baixo João Gil – guitarras e coros José Martins – sintetizador José Salgueiro – bateria, percussão e coros Luís Represas – voz Manuel Faria – piano e sintetizador Produção – Manuel Faria e Artur Costa Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos, em Agosto, Setembro e Outubro de 1987 Engenheiro de som – Paulo Neves Misturas – Paulo Neves, Manuel Faria e Artur Costa
A Defesa do Poeta
Poema de Natália Correia (in "A Mosca Iluminada", Lisboa: Quadrante, 1972; "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – págs. 330-31) Recitado por Eunice Muñoz* (in LP "Antologia da Mulher Poeta Portuguesa", Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 2011)
Senhores jurados sou um poeta um multipétalo uivo um defeito e ando com uma camisa de vento ao contrário do esqueleto.
Sou um vestíbulo do impossível um lápis de armazenado espanto e por fim com a paciência dos versos espero viver dentro de mim.
Sou em código o azul de todos (curtido couro de cicatrizes) uma avaria cantante na maquineta dos felizes.
Senhores banqueiros sois a cidade o vosso enfarte serei não há cidade sem o parque do sono que vos roubei.
Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo do incêndio da vossa lição.
Senhores tiranos que do baralho de em pó volverdes sois os reis sou um poeta jogo-me aos dados ganho as paisagens que não vereis.
Senhores heróis até aos dentes puro exercício de ninguém minha cobardia é esperar-vos umas estrofes mais além.
Senhores três quatro cinco e sete que medo vos pôs por ordem? que pavor fechou o leque da vossa diferença enquanto homem?
Senhores juízes que não molhais a pena na tinta da natureza não apedrejeis meu pássaro sem que ele cante minha defesa.
Sou um instantâneo das coisas apanhadas em delito de perdão a raiz quadrada da flor que espalmais em apertos de mão.
Sou uma impudência a mesa posta de um verso onde o possa escrever. Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer.
Nota da autora: «Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória, o que não fiz a pedido do meu advogado, que sensatamente me advertiu de que essa minha insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.» (in "O Sol nas Noites e o Luar nos Dias", Lisboa: Projornal/Círculo de Leitores, 1993; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2001 – pág. 330)
* Selecção de textos – António Barahona da Fonseca Masterização – José António Regada, nos Estúdios Namouche, Lisboa, em Fevereiro de 2010
Poema do Lavrador de Palavras aos Políticos
Poema e música: Pedro Barroso Intérprete: Pedro Barroso* (in CD "Criticamente", Lusogram, 1999)
[instrumental]
Não me perguntem coisas daquelas que eu não creia não me perguntem coisas daquelas que eu não sei remeto para os senhores todas as decisões do mundo tais como governar, fazer decretos-lei
no meio da tempestade, no meio das sapiências se poeta nasci, poeta morrerei nem homem de gravata nem homem de ciências apenas de mim próprio, e pouco, serei rei
das decisões do mundo lerei o que entender que dentro de mim mesmo às vezes nasce um rio e é esse desafio que nunca hei-de esquecer e é essa a diferença que faz este feitio
mas digam, por favor, de onde nasce o Sol que eu basta-me o calor – para lá me voltarei e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra me bastará que chova que o resto eu o farei e digam, por favor, se o dia amanhecer e bastará o azul que em ave me tornei
[instrumental]
mantenham com cuidado as árvores e estradas p'ra a gente poder ver, p'ra a gente circular que eu basta-me saúde e o sonho tão distante e a boca perturbante que tu me sabes dar
e a festa de viver e o gozo e a paisagem nesta curva do Tejo, soprando a brisa leve e na tranquilidade assim desta viagem parasse o tempo aqui, eterno, fresco e breve
que eu voo por toda a parte mas noutro horizonte e vivo as coisas simples e rio-me da ambição e ao fim de tanto ver, escolherei um monte de onde assistirei, sorrindo, ao vosso enfarte
da ânsia de possuir, da ânsia de mostrar, da ânsia da importância, da ânsia de mandar
mas digam, por favor, de onde nasce o Sol que eu basta-me o calor – para lá me voltarei e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra me bastará que chova que o resto eu o farei e digam, por favor, se o dia amanheceu e bastará o azul que em ave me tornei
[instrumental]
mas digam, por favor, de onde nasce o Sol que eu basta-me o calor – para lá me voltarei e saibam, já agora, que se eu lavrar a terra me bastará que chova que o resto eu o farei e digam, por favor, se o dia amanheceu e bastará o azul que em ave me tornei
* [Créditos gerais do disco:] Pedro Barroso – voz, piano, viola, adufe, harmónica, teclados Nuno Fernandes – tuba Luís Sá Pessoa – violoncelo e arranjos para corda Carlos Dâmaso – guitarra portuguesa, flautas, bandolim Nuno Barroso – piano, teclados Jorge Nascimento – piano, acordeão, teclados Arranjos – Pedro Barroso e todos os músicos Produção, coordenação e direcção musical – Pedro Barroso Gravado nos Estúdios Quinta da Voz, Casal da Raposa - Riachos Técnicos de som – Carlos Dâmaso e António Silva
Cântico Negro
Poema de José Régio (in "Poemas de Deus e do Diabo", Coimbra, 1925; "Antologia Poética", org. Eugénio Lisboa, Lisboa: Círculo de Leitores, 1993 – págs. 18-19) Recitado por João Villaret (in LP "João Villaret no São Luís", Parlophone, 1959; reed. EMI-VC, 1991, Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
«Vem por aqui» — dizem-me alguns com olhos doces, Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: «vem por aqui»! Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos meus olhos, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali...
A minha glória é esta: Criar desumanidade! Não acompanhar ninguém. — Que eu vivo com o mesmo sem-vontade Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde, Por que me repetis: «vem por aqui»? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem Para eu derrubar os meus obstáculos?... Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós, E vós amais o que é fácil! Eu amo o Longe e a Miragem, Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátrias, tendes tectos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios. Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém. Todos tiveram pai, todos tiveram mãe; Mas eu, que nunca principio nem acabo, Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: «vem por aqui»! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou, — Sei que não vou por aí!
Nota: Embora com alguns ligeiros desvios ao texto de José Régio, este registo de João Villaret é um primoroso testemunho da inigualável arte de recitar do grande actor e, nessa medida, seria injusto preteri-lo a favor de outra leitura sem a mesma intensidade expressiva ainda que mais fiel às palavras exactas do autor.
A Alma dos Poetas
Poema: Florbela Espanca (poema "Poetas", caderno "Trocando Olhares", in "Obras Completas de Florbela Espanca", vol. I, recolha, leitura e notas por Rui Guedes, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1987 – pág. 88; "Poesia Completa", Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2000 – pág. 94) Música: Adão Carvalho Intérprete: Chamaste-m'ó?* (in CD "A Inocência da Noite", Açor/Emiliano Toste, 2002)
[instrumental]
Ai as almas dos poetas Não as entende ninguém; São almas de violetas Que são poetas também.
Andam perdidas na vida, Como as estrelas no mar; Sentem o vento gemer Ouvem as rosas chorar!
Só quem embala ao peito Dores amargas e secretas É que em noites de luar Pode entender os poetas
E eu que arrasto amarguras Que nunca entendeu ninguém Tenho alma p'ra sentir A dos poetas também!
08-01-1916
* Chamaste-m'ó?: Adão Carvalho – coros Blandino Sérgio – voz, coros, viola braguesa, bandolim, guitarra Carlos Adolfo – percussões, teclados, piano Isabel Martinho – voz, coros Octávio Fonseca – voz, coros, guitarra Ricardo Rocha – concertina, melódica, guitarra Sérgio Ferreira – coros, guitarra, viola braguesa Produção – Chamaste-m'ó? e Emiliano Toste Gravação, mistura e masterização – Emiliano Toste, no Estúdio Toste, São Mamede de Infesta
Eu nunca guardei rebanhos
Poema de Fernando Pessoa/Alberto Caeiro (poema I de "O Guardador de Rebanhos", in "Athena", n.º 4, Lisboa: Jan. 1925; "Poemas de Alberto Caeiro", Nota explicativa e notas de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1946)
Recitado por Mário Viegas* (in 2LP "O Guardador de Rebanhos", Guilda da Música/Sassetti, 1983; CD "O Guardador de Rebanhos I", Público, 2006; 3CD "Fernando Pessoa por João Villaret e Mário Viegas": CD2, CNM, 2010)
Eu nunca guardei rebanhos, Mas é como se os guardasse. Minha alma é como um pastor, Conhece o vento e o sol E anda pela mão das Estações A seguir e a olhar. Toda a paz da Natureza sem gente Vem sentar-se a meu lado. Mas eu fico triste como um pôr-do-sol Para a nossa imaginação, Quando esfria no fundo da planície E se sente a noite entrada Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego Porque é natural e justa E é o que deve estar na alma Quando já pensa que existe E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Com um ruído de chocalhos Para além da curva da estrada, Os meus pensamentos são contentes. Só tenho pena de saber que eles são contentes, Porque, se o não soubesse, Em vez de serem contentes e tristes, Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos. Ser poeta não é uma ambição minha. É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes, Por imaginar, ser cordeirinho (Ou ser o rebanho todo Para andar espalhado por toda a encosta A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo), É só porque sinto o que escrevo ao pôr-do-sol, Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos, Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, Sinto um cajado nas mãos E vejo um recorte de mim No cimo do outeiro, Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias, Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho, E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem, Tirando-lhes o chapéu largo Quando me vêem à minha porta Mal a diligência levanta no cimo do outeiro. Saúdo-os e desejo-lhes sol, E chuva, quando a chuva é precisa, E que as suas casas tenham Ao pé duma janela aberta Uma cadeira predilecta Onde se sentem, lendo os meus versos. E ao lerem os meus versos pensem Que sou qualquer coisa natural – Por exemplo, a árvore antiga À sombra da qual quando crianças Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente Com a manga do bibe riscado.
* Produção – Sassetti Gravado nos Estúdios T.S.F. durante os meses de Setembro e Outubro de 1983 Captação – Carlos Lima
Autopsicografia
Poema: Fernando Pessoa (in "Presença", n.º 36, Coimbra: Nov. 1932; "Fernando Pessoa: Poesias", Nota explicativa de João Gaspar Simões e Luiz de Montalvor, Lisboa: Edições Ática, 1942) Música: Filipe Pinto Intérprete: Mísia* (in 2CD "Ruas": CD "Lisboarium", AZ/Universal Music France, 2009)
O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
* Ângelo Freire – guitarra portuguesa Carlos Manuel Proença – viola de fado Daniel Pinto – baixo acústico Luís Pacheco Cunha – violino Direcção artística – Mísia Produção executiva – Flavio D'Ancona Gravação e mistura – Charles De Schutter (Acousti Studio, Paris / Studio Rec'n Roll, Bruxelas) Masterização – Mike Marsh (The Exchange Mastering) Poetas de Lisboa
Poema: Vasco Graça Moura (in "Letras do Fado Vulgar", Lisboa: Quetzal Editores, 1997 – pág. 18; "Poesia 1997/2000", Lisboa: Quetzal Editores, 2000 – pág. 196) Música: Casimiro Ramos (Fado Margaridas) Intérprete: Carlos do Carmo* (in 2CD "Ao Vivo no CCB: Os Sucessos de 35 Anos de Carreira": CD 2, EMI-VC, 1999)
É bom lembrar mais vozes pois Lisboa cidade com poético fadário cabe toda num verso do Cesário e alguma em ironias do Pessoa Para cada gaivota há um do O'Neill para cada paixão um do David e há Pedro Homem de Mello que divide entre Alfama e Cabanas seu perfil E há também o Ary e muitos mais, entre eles o Camões e o Tolentino, ou tomando por fado o seu destino ou dando de seu riso alguns sinais Muito do que escreveram e se canta na música de fado que já tinha o próprio som do verso vem asinha assim do coração para a garganta Que bom seria tê-los a uma mesa de café comparando as emoções e a descobrirem novas relações entre o seu fado e a língua portuguesa * Carlos do Carmo – voz Ricardo Rocha – 1.ª guitarra portuguesa (canal esquerdo) Paulo Parreira – 2.ª guitarra portuguesa (canal direito) José Maria Nóbrega – 1.ª viola (canal esquerdo) Carlos Manuel Proença – 2.ª viola (canal direito) José Elmiro Nunes – baixo acústico Concepção musical – Carlos do Carmo Produção – Alfredo Almeida Gravado ao vivo no Centro Cultural de Belém, Lisboa, nos dias 10 e 11 de Dezembro de 1998 Misturado na unidade móvel BANZAI, por Alfredo Almeida e Miguel Escada Editado e masterizado por Alfredo Almeida e Rui Dias, no Estúdio Tcha Tcha Tcha, Miraflores Ao Poeta Perguntei
Poema e música: Alberto Janes Intérprete: Amália Rodrigues* (in LP "Oiça Lá ó Senhor Vinho", Columbia/VC, 1971, reed. EMI-VC, 1992; CD "Maria Lisboa" (compilação), EMI-VC, 2004)
Ao poeta perguntei: Como é que os versos assim aparecem? Disse-me só: Eu cá não sei... São coisas que me acontecem!
Sei que nos versos que fiz Vivem motivos dos mais diversos... E também sei que sendo feliz Não saberia fazer os versos!
Ó meu amigo, Não penses que a poesia É só a caligrafia Num perfeito alinhamento; As rimas são assim como um coração Em que cada pulsação Nos recorda sofrimento; E nos meus versos pode não haver medida Mas o que há sempre São coisas da própria vida!
Fiz versos como faz dia, A luz do Sol sempre ao nascer; Eu fiz os versos porque os fazia Sem me lembrar de os fazer.
Como a expressão e os jeitos Que p'ra cantar se vão dando à voz Todos os versos andam já feitos De brincadeira dentro de nós.
Ó meu amigo, Não penses que a poesia É só a caligrafia Num perfeito alinhamento; As rimas são assim como um coração Em que cada pulsação Nos recorda sofrimento; E nos meus versos pode não haver medida Mas o que há sempre São coisas da própria vida!
E assim, amigo, Já viste que a poesia Não é só a caligrafia, São coisas do sentimento.
* José Fontes Rocha e Carlos Gonçalves – guitarras portuguesas Pedro Leal – viola Joel Pina – viola baixo Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d'Arcos Técnico de som – Hugo Ribeiro
O Poeta
Versos: António Aleixo (quadras avulsas extraídas de "Este Livro Que Vos Deixo") Música: Paulo Cunha Intérprete: Vá-de-Viró* (in CD "Outras Músicas", Música XXI, 2000)
[instrumental]
Peço às altas competências perdão, porque mal sei ler, p'ra aquelas deficiências que os meus versos possam ter.
Julgam-me mui sabedor; e é tão grande o meu saber que desconheço o valor das quadras que sei fazer!
Quem me vê dirá: não presta, nem mesmo quando lhe fale, porque ninguém traz na testa o selo de quanto vale.
Meu aspecto te enganou; o que a gente é não se vê; pergunta a outrem quem sou, pois o que sou nem eu sei.
Sou humilde, sou modesto; mas, entre gente ilustrada, talvez me digam que eu presto, porque não presto p'ra nada.
Não sou esperto nem bruto, nem bem nem mal educado: sou simplesmente o produto do meio em que fui criado.
Não sei se sei: sou dos tais a quem pouco saber cabe; mas sei que é saber de mais a gente saber que sabe!
O tal Aleixo, o poeta, que dizem ser de Loulé, é uma figura incompleta sem o Magalhães ao pé.
Os meus versos o que são? Devem ser, se não os confundo, pedaços do coração que deixo cá, neste mundo.
[instrumental]
* Vá-de-Viró: Alexandra Rodrigues – violino e voz meio-soprano Anton Khmelinskii – cavaquinho, guitarra e guitarra de 12 cordas Cláudia Matias – voz meio-soprano Eduardo Franco – voz tenor Gonçalo Pescada – acordeão, concertina e voz barítono Igor Martins – guitarra contrabaixo e voz tenor João Pedro Cunha – violino Maria do Rosário Arenga – voz soprano Patrícia Martins – flautas de bisel soprano e contralto, tin-whistle e voz soprano Paulo Cunha – gaita-de-foles galega, percussão (adufe, bendir, bombo, caixa de rufos, clavas, palmas, pinhas, reco-reco, sarronca, triângulo), ponteira e voz barítono Paulo Girão – flauta transversal, flautim e voz barítono Rui Mourinho – bandolim, guitarra, guitarra de cordas de aço e voz tenor Sandra Apolinário – harmónica cromática e voz meio-soprano Vanda Matias – voz soprano Direcção musical – Paulo Cunha Produção – Paulo Cunha Co-produção – Adriano St. Aubyn Gravado no Estúdio Unplugged, Faro, em Julho e Agosto de 2000 Engenheiro de som – Adriano St. Aubyn Mistura e masterização digital – Adriano St. Aubyn e Paulo Cunha
Desenhos e poemas de Vasco de Lima Couto (1923-1980)