11 janeiro 2010

A música portuguesa na 1.ª década do séc. XXI

Por Manuel Halpern (jornalista e crítico musical)



Um mundo de bolso


Fazer um disco do outro mundo é cada vez mais difícil. Não por já tudo estar inventado (sempre esteve e sempre estará), mas porque o mundo dos Outros está mais parecido com o nosso. Fruto da globalização, os mundos diluem-se, para o bem ou para o mal. Nos anos 60, George Harrison descobriu o caminho musical para a Índia. Nos 90, Talvin Singh, entre outros, encontraram a rota de regresso. As viagens têm sido feitas amiúde. E as paisagens tornaram-se menos misteriosas. Nunca foi tão fácil saber o que se passa na Papuásia Ocidental. E os papuas saberem o que se passa connosco.
O circuito de músicas do mundo intensificou-se na última década. O domínio anglófono/americano do mundo da música coexiste com um crescente interesse pelas diferentes culturas. É o que leva, por exemplo, Mariza e Ana Moura a cantar no Carnegie Hall, de Nova Iorque. São duas vias concorrentes. O lado bom da globalização, que inverte a ideia catastrofista de que a rede global está apenas a criar um mundo homogéneo, cinzento, insípido. Existe a valorização das diferenças, o culto das minorias, nichos que se unem e se impõem por motivos aparentemente estapafúrdios como os hábitos alimentares (movimento vegon).
Se Mariza faz a circum-navegação em concertos, é porque foram criados espaços e hábitos culturais que fazem com que seja aceitável e até desejável que uma cantora interprete uma música diferente numa língua estranha. Franceses e japoneses terão sido pioneiros nesta busca do Outro, e continuam a fazer um investimento nesse domínio. A França mais na edição de vozes de outras latitudes, incluindo fado, música cabo-verdiana e brasileira. O Japão numa assimilação ou apropriação das músicas dos outros, com artistas locais a interpretarem outras músicas, incluindo o fado, bossa nova e chanson française.
O fado expandiu-se de forma espectacular. Foi nos anos 00 (chamemos-lhe assim em homenagem à linguagem binária) que surgiram nomes tão relevantes como Mariza, Ana Moura, Katia Guerreiro, Raquel Tavares ou Carminho. E outros se afirmaram, embora já tivessem gravado discos na década anterior, como Joana Amendoeira, Cristina Branco ou Ana Sofia Varela. Repare-se que, internacionalmente, o fado é coisa de mulheres, salvo algumas excepções, nomes que, timidamente, têm conseguido chamar alguma atenção, como Camané, Pedro Moutinho, Hélder Moutinho, Ricardo Ribeiro ou António Zambujo. Esse facto poderá estar ligado ao quadro imagético criado pela grande referência nacional e internacional, Amália Rodrigues.
Mariza que, quer se goste quer não, é a grande figura da música portuguesa desta década, encarna por si só o espírito miscigenado dos tempos que correm. Não é de todo uma fadista convencional. O que mostra que o fado, mesmo internacional e comercialmente, entrou numa nova etapa. Vale além do castiço. E se em alguns circuitos o fado vale (vende) enquanto tal, sem precisar de mais apresentações, não há dúvida que no caso da cantora conta, acima de tudo, e como mais valia, o seu nome: Mariza. A imagem criada ultrapassa a ideia de fado e por isso é paradigmática.
A própria Mariza é um símbolo quase perfeito de uma década de fusões. Uma afro-europeia que canta o fado, reclamando-se da tradição ao mesmo tempo que a deturpa. E uma cantora de fados mulata, o que, por si só, promete juntar o melhor de dois mundos. A sua postura é algo excêntrica e exótica, mas não de um exotismo provinciano. O fado, na sua voz, tornou-se um espectáculo, uma estratégia de internacionalização da saudade. E a música propriamente dita bebe em várias fontes, avançando e recuando, mas indo sempre além (ou aquém) do fado tradicional. Mariza é, pois, uma cidadã do mundo, por mais que diga que gosta de pendurar a roupa no hotel como se estivesse na Mouraria. Formalmente, o fado manteve-se como a mais popular música de raiz portuguesa, nacional e internacionalmente, com toda uma geração que se assumiu como herdeira de Amália Rodrigues, que morreu pouco antes da nova década começar. E sobreviveu bem. Pouco arriscadas foram as modificações formais. A esse nível, a mais importante reinvenção do fado foi feita pel’A Naifa, grupo de João Aguardela, cuja morte marca negativamente o final dos anos 00.
O fado tornou-se mais internacional, não só porque as fadistas galgaram o mundo a cantá-lo, mas também porque os outros povos se interessaram pela música e fizeram uma coisa sua. Os ‘fadistas’ estrangeiros já não se contam pelos dedos, vão desde a Sérvia ao Japão. Mas há alguns casos mais curiosos, como a basca Maria Berasarte que gravou um disco de fados muito à sua maneira, a catalã Névoa que inventou o fado num novo estilo ou o italiano Marco Poeta que abriu uma casa de fados em Itália.
Do outro lado do espelho está a importação de novos estilos, que fogem da lógica pop-rock. Os Balcãs estiveram na moda, em parte graças aos filmes de Kusturika, assim como a música cigana em geral. E houve ainda um conceito mais global de intercultura, veiculado nos discos de Manu Chao, com frutos visíveis um pouco por todo o mundo, mas também em Portugal, com bandas como Dazkarieh, Terrakota ou Kumpania Algazarra.
Simultaneamente, houve uma crise sem precedentes na indústria fonográfica. Nunca se venderam tão poucos discos. Mas, paradoxalmente, os discos nunca foram tão ouvidos. Os programas peer-to-peer baixaram a pique os lucros das editoras, que haviam tido uma postura especulativa desde o aparecimento do CD. Curiosamente, a mesma tecnologia que prejudicou a indústria tornou mais fácil gravar um disco ou uma canção. Ou mesmo divulgar as canções e mostrá-las ao público. Já não é imprescindível a gravação num estúdio musical e o myspace mostrou-se um espaço privilegiado de divulgação musical. Não nos esqueçamos que foi nesse site que se revelaram bandas tão importantes como os Arctic Monkeys ou os Arcade Fire. Ao mesmo tempo que se atingiu um pique de sofisticação na produção, em que as masterizações e remasterizações, a batota feita em estúdio, atingiu um nível de apuramento irreal, há uma contracorrente, low-fi, que se impõe pela simplicidade do método.
Em Portugal, caso flagrante é o ‘movimento’ ligado às editoras Flor Caveira e Amor Fúria, curiosamente, ambas cristãs, a primeira baptista, a segunda católica. Notabilizaram-se nomes como B Fachada, Pontos Negros, João Coração, Samuel Úria ou Tiago Guilul. O seu som caracteriza-se por uma genuinidade de ideias, e uma afirmação da portugalidade da sua música, o que funciona numa contracorrente em relação à americanização do mundo.
A partir da segunda metade da década, a crise fonográfica tomou proporções alarmantes, e nem sequer a aprovação de uma nova lei da rádio, protectora da música portuguesa, afastou a malapata. Entre fusões e falências houve uma mudança brusca no panorama português. O facto mais assinalável foi a cisão da EMI-Valentim de Carvalho, e a saída do próprio David Ferreira (sobrinho de Rui Valentim de Carvalho), da multinacional. Tal como outras grandes editoras, passou a ter uma lógica mais ibérica. Quanto ao precioso espólio da Valentim de Carvalho, passou a ser tratado pela iPlay, nova editora sucessora da Som Livre.
Apesar desta crise acentuada, pequenas editoras, de espírito guerrilheiro, tiveram um papel significativo. Além das já faladas Flor Caveira e Amor Fúria, note-se o esforço da Footmovin/SóHipHop de BomberJack, que conseguiu que o hip hop fosse dos géneros mais editados em Portugal (em quantidade de títulos) nos últimos 10 anos. E, por falar em hip hop, um nome ficou, acima dos outros: Sam the Kid. Deslumbrou nas suas duas vertentes, a rimar e a samplar, conferindo um traço de portugalidade (com samplers de fado, por exemplo) ao seu trabalho.
A globalização tornou apetecíveis os mercados internacionais. E é significativo que um grupo tão português como os Deolinda tenha conseguido romper fronteiras e entrar nas listas dos melhores do ano do "Sunday Times". Mas, regra geral, a tentação de internacionalização fez-se através da busca de linguagens universais, cantadas em inglês. A tentativa não é nova. O sucesso é que talvez seja. Foi o que aconteceu com os Gift (o primeiro álbum ainda é dos anos 90), David Fonseca (ex-Silence 4) e, numa perspectiva mais alternativa, Legendary Tigerman ou Wray Gunn. Ainda a outro nível, todo o destaque para Rodrigo Leão, que gravou discos com grandes nomes, como Beth Gibbons ou Neil Hannon.
Com a massificação dos downloads, legais ou ilegais, os concertos ganharam preponderância e transformaram-se definitivamente na mais importante fonte de receita dos artistas. Em Portugal deu-se uma autêntica explosão de festivais de Verão, nem sempre com a qualidade desejada, com destaque para o Rock in Rio, um dos maiores do mundo, e o Optimus Alive. Mas uma das melhores surpresas, a nível de concertos de portugueses, ficou para o final da década e vem de uma geração que já deu todas as provas: falamos de "Três Cantos", que uniu Sérgio Godinho, José Mário Branco e Fausto.
Um barómetro para se saber com que linhas se cose uma década musicalmente é perceber o que anda a fazer Brian Eno. E "Everything that happens will happen Today", o último disco do fundador dos Roxy Music, muito revela. Um álbum feito com David Byrne através da internet e que apenas conheceu edição digital. Dos anos 00 para a frente quem não está on-line... fica de fora. (Manuel Halpern, in "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", 30.12.2009)


Estou genericamente de acordo com este artigo de Manuel Halpern, em jeito de balanço da música portuguesa (não erudita) da primeira década do séc. XXI (que na verdade só termina no final de 2010). Gostaria, contudo, que tivesse sido prestada mais atenção à música tradicional/folk que, tal como fado, teve um grande florescimento na década inaugural do presente século. A década de 90 terá sido a década de maior apagamento, embora nela tenham surgido grupos/intérpretes tão importantes como Navegante, Gaiteiros de Lisboa, Frei Fado d’El Rei, Realejo, Danças Ocultas, Quadrilha, Amélia Muge e Filipa Pais, depois do período áureo que se registou no pós-25 de Abril de 1974 até finais da década de 80, com nomes como Almanaque, Brigada Victor Jara, Vitorino, Teresa Silva Carvalho, Janita Salomé, Júlio Pereira, Terra a Terra, Raízes, Vai de Roda, Pedra d’Hera, Charanga, Rosa dos Ventos, Disto & Daquilo, Trigo Limpo, Ronda dos Quatro Caminhos, Maio Moço... sem esquecer os Trovante pelo importante contributo que deram ao movimento sobretudo com o álbum "Baile no Bosque" (1981). De facto, foi já no século XXI que a música de raiz tradicional ganhou um novo impulso, com o aparecimento e/ou afirmação de um acrescido lote de grupos e músicos de assinalável qualidade, uns mais ligados à tradição portuguesa, outros mais cosmopolitas, por assim dizer. Refiro alguns: Galandum Galundaina, Roda Pé, Dazkarieh (que por acaso até foi citado no texto mas muito de fugida), Roldana Folk, Mandrágora, Mu (estes dois já distinguidos com o Prémio Carlos Paredes), Ginga, Banda Futrica, Segue-me à Capela, Moçoilas, Manuel d’Oliveira, Lúmen, Chuchurumel, Diabo a Sete, Pé na Terra, Fol&ar, Gnomon, Monte Lunai, A Barca dos Castiços, Roncos do Diabo, Ventos da Líria, Assobio, etc. (estes e muitos outros podem ser vistos e ouvidos em
http://www.myspace.com/lugaraosul). Para a pujança e fulgor do movimento, além de importantes festivais e certames musicais (de que o FMM de Sines talvez seja o mais mediático), é de primordial importância o papel desempenhado por editoras independentes (Açor/Emiliano Toste, Vachier & Associados, Ocarina e Hepta Trad, por exemplo) sem as quais excelentes discos não teriam vindo a lume. Digna de menção é igualmente a dedicação de alguns realizadores de rádio, designadamente Luís Rei ("Terra Pura"), João Sá ("Folklândia"), Carlos Norton ("Sopa da Pedra"), Jorge Costa ("Multipistas") e Octávio Fonseca ("Os Cantos da Casa"), que em rádios locais e na internet (com o podcast) vêm prestando um serviço de divulgação que é de toda a justiça enaltecer. O que não pode deixar de se lamentar é a atitude de marginalização e menorização das rádios nacionais (incluindo a pública Antena 1) face a este interessantíssimo fenómeno da nossa vida musical, instrumentalizadas que estão pelas majors, as quais, como é sabido, enjeitaram por completo a música tradicional/folk e apenas se empenham em promover um género que está completamento gasto e estafado – a pop. Talvez não seja um acaso que o florescimento das músicas de raiz (fado e música tradicional) coincida precisamente com a decadência do género de feição menos identitária. Algo está a mudar na música portuguesa e ainda bem que assim é.

22 dezembro 2009

Música portuguesa de Natal


Josefa d'Óbidos, "Natividade", c.1650-60, óleo sobre cobre, 21x16 cm, Colecção particular, Porto, Portugal

Cristo nasceu a 25 de Dezembro? É muito provável que não e há mesmo biblistas e estudiosos que situam a Natividade na Primavera. Certo, certo é que no ano 336, em pleno reinado do imperador Constantino, a Igreja Romana já celebrava o nascimento de Cristo no dia 25 de Dezembro, data até então dedicada ao culto de Sol Invictus e do deus Mitra, precisamente com o propósito de elidir os cultos pagãos e facilitar a implantação do cristianismo. E assim ficou até aos dias de hoje, sedimentado pela tradição. Acreditando-se ou não na natureza divina da figura histórica de Yoshua (Jesus) Cristo, o Natal está estabelecido, na civilização ocidental, como a Festa da Família! E como não há festa sem música, importa celebrar o Natal com a que lhe é própria. Neste caso, com a música portuguesa que as nossas gentes criaram ao longo dos séculos, aqui visitada e reinventada por grupos e intérpretes da actualidade (muitos dos quais completamente silenciados no éter nacional). E porque o espírito natalício convida todos os homens de boa vontade (cristãos ou não) a olharem para além do seu umbigo, num alcance fraternal e solidário, incluem-se também alguns poemas recitados e canções de cariz mais reflexivo e interpelativo. Ficam os votos de que esta edição especial de Natal seja uma experiência gratificante e proveitosa para os ouvintes habituais d' "Os Cantos da Casa" e igualmente para aqueles que agora os descobriram.
Esta edição é dedicada a Rafael Correia, emérito autor da rádio, que durante três décadas realizou e apresentou na RDP o programa "Lugar ao Sul".
"Os Cantos da Casa": um programa de Octávio Fonseca e Pedro Ramajal para a Esquerda Ponto Rádio.

O documento com as letras e os poemas, especialmente preparado para os Amigos do LUGAR AO SUL, será facultado a todas as demais pessoas que o solicitarem (contacto: ajferreira74@gmail.com).
Apresentam-se abaixo os alinhamentos, com os temas devidamente referenciados, da presente edição e também da relativa ao Natal de 2007.
E que viva a boa música portuguesa!


"Os Cantos da Casa" n.º 73 - Natal de 2009:



Download >> MP3 [clicar]

1. Natal (A Vinda de Jesus) (poema de José Régio) – João Villaret (in "Ontem e Hoje", Ovação, 1989)
2. O Galo Cantou – Vozes ao Luar (in "Toadas ao Menino", Açor/Emiliano Toste, 2000)
3. São José Estava Triste (Canção de Natal) – Maio Moço (in "Canto Maior", Tradisom, 2002)
4. Natividade (Arde no coração da noite...) (poema) – Miguel Torga (in "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. 2000)
5. Ser Pessoa (Fuga) – Amélia Muge (in "Todos os Dias", Columbia/Sony Music, 1994)
6. Rei dos Reis – Vozes ao Luar (in "Toadas ao Menino", Açor/Emiliano Toste, 2000)
7. Cantem, Cantem os Anjos – Coro D. Pedro de Cristo, dir. Francisco Faria (in "Nosso Natal", Coro D. Pedro de Cristo, 1999)
8. Não Há Noite Mais Alegre – Moçoilas (in "Já Cá Vai Roubado", Casa da Cultura de Loulé, 2001)
9. Cantiga de Natal – Navegante (in "Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras", José Barros/MediaFactory, 2009)
10. Da Serra Veio Um Pastor – Xarabanda (in "Cantigas ao Menino Jesus: Natal Tradicional Madeirense", Associação Musical e Cultural Xarabanda, 2008)
11. Chula Pastoril (instrumental) – Maio Moço (in "Canto Maior", Tradisom, 2002)
12. Entrai, Pastores, Entrai – Sons do Vagar (in "Sons do Vagar", Associ'Arte, 2007)
13. Beijai o Menino – Navegante (in "Meu Bem, Meu Mal", Tradisom/Iplay, 2008)
14. Natal d'Elvas – Maria Ana Bobone (in "Nome de Mar", Vachier & Associados/Farol Música, 2006)
15. Natal (Leio o teu nome...) (poema) – Miguel Torga (in "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. 2000)
16. Não Tendes Cama, Bom Jesus, Não – Segréis de Lisboa, dir. Manuel Morais (in "La Portingaloise: Música do Tempo dos Descobrimentos", Movieplay Classics, 1994)
17. José Embala o Menino – Filipa Pais (in "À Porta do Mundo", Vachier & Associados, 2003)
18. O Meu Menino É d'Oiro – Navegante (in "Cantigas Tradicionais Portuguesas de Natal e Janeiras", José Barros/MediaFactory, 2009)
19. Ó Meu Menino Jesus – Roda Pé (in "Escarpados Caminhos", Public-art, 2004)
20. O Menino Está na Neve – Gaiteiros de Lisboa (in "Invasões Bárbaras", Farol Música, 1995)
21. O Padrinho – Diabo a Sete (in "Parainfernália", Açor/Emiliano Toste, 2007)
22. Natal (Fiel das horas mortas...) (poema) – Miguel Torga (in "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. 2000)
23. Uma Estrela Se Foi Pôr (Canção ao Menino) – Ronda dos Quatro Caminhos (in "Terra de Abrigo", Ocarina, 2003)
24. Natal dos Simples – Amália Rodrigues (in Single "Natal dos Simples/Balada do Sino", Columbia/VC, 1970; "Amália 50 Anos" - CD "Os Compositores", EMI-VC, 1989; "O Melhor de Amália", vol. 3, EMI-VC, 2003)
25. Vimos Dar as Boas-Festas – Maio Moço (in "Canto Maior", Tradisom, 2002)
26. Deus nos Dê Cá as Boas-Festas – Tereza Salgueiro com Lusitânia Ensemble (in "Matriz", Farol Música, 2009)
27. Natal (Solstício de Inverno...) (poema) – Miguel Torga (in "Natal: Um Conto e Vinte e Um Poemas", EMI-VC, 1986, reed. 2000)
28. Anos Bons – Belaurora (in "Achados do Tempo", Açor/Emiliano Toste, 2003)
29. Janeiras – Vá-de-Viró (in "Escale au Portugal", Playasound, 1995)
30. Canção de Janeiro – Ronda dos Quatro Caminhos (in "Alçude", Ovação, 2001)
31. Reis – Janita Salomé & Cantadores de Redondo (in "Vozes do Sul: uma celebração do cante alentejano", Capella/AudioPro, 2000)
32. Cantiga dos Reis (instrumental) – Encontros da Eira (in "Instrumentais d'Outrora", Associação Cultural Encontros da Eira, 2002)
33. Balada da Neve (poema de Augusto Gil) – João Villaret (in "João Villaret", col. O Melhor dos Melhores", vol. 9, Movieplay, 1994)
34. A Todos o Que é de Todos – Mickael Salgado (in "Fado Amigo", Espacial, 2009)
35. Quando Um Homem Quiser – Paulo de Carvalho (in "MPCC", Orfeu, 1976; "Paulo de Carvalho", col. O Melhor dos Melhores", vol. 19, Movieplay, 1994; "Vida", Farol Música, 2006)
36. Homem Só, Meu Irmão – Luiz Goes (in "Canções do Mar e da Vida", Columbia/VC, 1969, reed. EMI-VC, 1995; "Canções Para Quem Vier: Integral 1952-2002", EMI-VC, 2002)
37. Vou Levar-te Comigo – Duo Ouro Negro (in "Lindeza", Orfeu, 1979; "Duo Ouro Negro", col. O Melhor dos Melhores", vol. 37, Movieplay, 1994; "Kurikutela!: 40 Anos, 40 Êxitos", EMI-VC, 1998; "Duo Ouro Negro", Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2008)
38. Voto de Natal (poema) – David Mourão-Ferreira (in "Um Monumento de Palavras", EMI-VC, 1995)
39. Dois Garotos – João Braza (in "Fado Que Sonhei", Ovação, 1994; "Fado Capital 2", Ovação, 1996)
40. A Todos Um Bom Natal – Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras (in "A Todos Um Bom Natal", Rádio Triunfo, 1981, reed. Movieplay, 1991, 1999)


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"Os Cantos da Casa" n.º 02 - Natal de 2007:



Download >> MP3 [clicar]

1. Oh Bento Airoso – Brigada Victor Jara (in "Monte Formoso", MBP, 1989, reed. Farol Música, 1996)
2. Nasceu, Já Nasceu – Fernando Lopes-Graça; Choral Phidelius, dir. José Robert (in "Segunda Cantata do Natal", EMI, A Voz do Dono/EMI, 1979)
3. Benditas as dores de Maria (texto de Octávio Fonseca) – Pedro Ramajal
4. Quando o Menino Nasceu – Ronda dos Quatro Caminhos (in "Ronda dos Quatro Caminhos", Rádio Triunfo, 1984, reed. Movieplay, 1997)
5. Natal dos Simples (instrumental) – Naná Sousa Dias (in "Ousadias", Polydor/Polygram, 1986)
6. Magnum Mysterium – D. Pedro de Cristo; Madrigalistas de Lisboa, dir. Fernando Eldoro (in "Obras Vocais Religiosas", EMI-VC, 1983)
7. A invenção dos deuses (texto de Octávio Fonseca) – Pedro Ramajal
8. Menino Jesus – Brigada Victor Jara (in "Quem Sai aos Seus", Vadeca, 1981, reed. Edições Valentim de Carvalho/Iplay, 2008)
9. Beijai o Menino – Né Ladeiras (in "Traz os Montes", AlmaLusa/EMI-VC, 1994)
10. Menino Jesus – Almanaque (in "Desfiando Cantigas", EMI-VC, 1984)
11. Presépio (poema de Sebastião da Gama) – Pedro Ramajal
12. José Embala o Menino – Carlos Mendes (in "Chão de Vento", Edisom, 1984)
13. Cantiga de Natal – O Semeador - Grupo de Cantares de Portalegre (in "Tempos Vários", O Semeador - Grupo de Cantares de Portalegre, 1994)
14. Natal dos Simples (instrumental) – Alcino Frazão (in "Guitarra Portuguesa", Movieplay, 1989, reed. 1991)
15. Natal (Nem pareces o mesmo...) (poema de Miguel Torga) – Pedro Ramajal
16. Oração de Santo António – Coro da Academia de Amadores de Música, dir. Fernando Lopes-Graça (in "Canções Regionais", Valentim de Carvalho, 1974; "Canções Heróicas e Canções Regionais Portuguesas", EMI Classics, 1995)
17. O Natal do Moleiro – Alfredo Marceneiro (in "Há Festa na Mouraria", Valentim de Carvalho, 1964, reed. Edições Valentim de Carvalho/Som Livre, 2007; "Saudade", Valentim de Carvalho, 1982)
18. Rondó, da Sonata n.º 3 – João Domingos Bomtempo; Nella Maissa (in "Obras para Piano, vol. 5", A Voz do Dono/EMI, 1982)
19. Dia de Natal (poema de António Gedeão) – Pedro Ramajal
20. Os Pais Natal – Sérgio Godinho & Os Amigos do Gaspar (in "Sérgio Godinho Canta com Os Amigos do Gaspar", Polygram, 1988, reed. Universal, 2003)
21. Natal dos Simples – José Afonso (in "Cantares do Andarilho", Orfeu, 1968; reed. Movieplay, 1987, 1996)
22. Reis do Oriente – Ronda dos Quatro Caminhos (in "Cantigas do Sete-Estrelo", Rádio Triunfo, 1985, reed. Movieplay, 1997)

18 novembro 2009

Discos Antena 1 (II)



"Assobio" (de Assobio), "Kronos" (de Cristina Branco), "Tarab" (de Danças Ocultas), "Fado Que Te Amo" (de Dâna), "Hemisférios" (de Dazkarieh), "Fado Nosso" (de João Braga), "Contarolando" (de João Filipe), "Meditherranios" (de Luísa Amaro), "Pássaro Cego" (de Manuel Paulo & Nancy Vieira), "Ruas" (de Mísia), "Em’Cantado" (de Rão Kyao) e "A Mãe" (de Rodrigo Leão & Cinema Ensemble). O que é que todos estes álbuns, estilisticamente tão diferentes, têm em comum? Três coisas. Primeira: todos foram publicados no corrente ano de 2009; segunda: todos eles são excelentes trabalhos de música portuguesa; terceira: todos eles não foram Discos Antena 1. E aqui terá de se perguntar: por que motivo não o foram? Não é suposto que o distintivo "Disco Antena 1" seja outorgado às melhores obras discográficas de música portuguesa, não erudita, que vão sendo editadas no país?
Pois é! A realidade, no entanto, é bem diferente e são muitos os discos de qualidade (aquela lista inicial serve apenas como amostra pois está longe de ser exaustiva) que não têm merecido a dignidade de "Disco Antena 1". E como explicar tal anormalidade? Será que Rui Pêgo e os seus adjuntos andam a dormir na forma? Ou estamos em presença de simples discricionaridade e arbitrariedade na escolha dos discos, sem que a qualidade seja tida em conta? Ou teremos de encontrar a resposta numa coisa ainda mais prosaica, mas perfeitamente aberrante num serviço público de rádio: as avenças de promoção?
Houve um período em que o distintivo "Disco Antena 1" era à partida uma garantia de qualidade e muitas vezes cheguei a comprar CDs levado por essa sugestão. Lamentavelmente, depois de Rui Pêgo ter sido colocado na direcção de programas da rádio do Estado tal capital de confiança foi completamente destruído a ponto daquela vinheta com um círculo vermelho e o algarismo 1 no meio hoje já nada significar. Embora se tenha de reconhecer que alguns discos que aparecem com a referida vinheta têm qualidade, a triste verdade é que muitos outros são medianos e mesmo medíocres. E sei que não sou o único a ter esta opinião. Quando uma colectânea de Paulo Gonzo é considerada "Disco Antena 1" e se ignora um disco distinguido com o Prémio José Afonso (como foi o caso de "Senhor Poeta: Um Tributo a José Afonso", do grupo Frei Fado d’El Rei) isso mostra bem o descrédito a que a actual direcção conduziu a distinção. Se o álbum "Por Este Rio Acima", de Fausto Bordalo Dias, fosse editado hoje e não tivesse o selo de uma editora poderosa que se propusesse negociar com a RDP, é certo que não seria "Disco Antena 1". Isto apesar da posteridade vir a considerá-lo uma obra-prima absoluta da música portuguesa de sempre!
Já agora, outra questão pertinente: a par de tantos discos de música portuguesa de qualidade que são votados ao ostracismo, será aceitável que álbuns brasileiros sejam considerados "Discos Antena 1". Martinho da Vila, Daniela Mercury, Simone e Adriana Calcanhoto contam-se entre os intérpretes de Terras de Vera Cruz contemplados nos últimos tempos. E nem sequer estou a pôr em causa a suposta qualidade daqueles nomes (embora não se deva colocá-los todos no mesmo patamar), mas tão-somente a chamar a atenção
para a tremenda falta de razoabilidade de tal opção por parte dos actuais decisores da Antena 1. Será que a estação pública brasileira, a Rádio Nacional de Brasília, procede do mesmo modo? Lá, os melhores discos de música brasileira também são preteridos a favor de álbuns portugueses?


Texto relacionado:
Discos Antena 1

20 outubro 2009

Petição pública: por uma ANTENA 1 mais divulgadora da música portuguesa



«Decerto já se aperceberam que a nossa ANTENA 1 não está a fazer um verdadeiro serviço público, no que concerne à divulgação da nossa música portuguesa, nomeadamente, de uma forma desinteressada, com a difusão de grupos e/ou intérpretes individuais de todo o país. Como Editor Fonográfico há treze anos (http://www.emilianotoste.pt) e, actualmente, com um catálogo considerável na área da música portuguesa, com alguns intérpretes nomeados para os principais prémios deste país, tenho verificado que os meus editados não têm sido contemplados com uma divulgação efectiva, tendo-o sido, apenas, de uma forma pontual (por exemplo, através de ARMANDO CARVALHÊDA e ANA SOFIA CARVALHÊDA, a nível nacional e MÁRIO JORGE PACHECO e SIDÓNIO BETTENCOURT, a nível regional). O mesmo sentem outros editores que, também, têm prestado um serviço sério e contributivo para a dignificação da arte musical portuguesa.
É de salientar que esta posição não é isolada, porque reflecte o sentir de muitos cidadãos, com os quais tenho dialogado sobre este assunto.
Para não irmos mais longe, basta-nos percorrer a nossa vizinha Espanha e verificarmos a sorte que têm os seus cidadãos músicos. São muito bem divulgados!
É por este motivo que me dirijo a vós, no sentido de contar com o vosso contributo, através da vossa assinatura (no caso da vossa concordância), a qual chegará às Entidades responsáveis por este serviço público, alertando-as para esta pobre realidade que, em nada dignifica a nossa cultura, a nível nacional e internacional.
Desde já, muito obrigado pelo vosso contributo.

Subscreve,
Emiliano Toste - Editor Fonográfico e Professor - BI: 5012748» (in
http://www.peticaopublica.com/?pi=P2009N490)


Esta é uma petição muitíssimo pertinente e só peca por tardia porque efectivamente a atitude das direcções da RDP-Antena 1, depois da saída de João Coelho e de António Cardoso Pinto (director interino durante algum tempo), face à música portuguesa de qualidade tem sido absolutamente indigna e indecorosa. Atente-se em qual a música que entra na 'playlist' e na que é deliberada e criminosamente excluída. É facilmente constatável (e já tive oportunidade de o fundamentar no texto
'Playlist' da Antena 1: uma vergonha nacional) que a rádio do Estado, longe de prestar um serviço cabal e conveniente no que à música portuguesa diz respeito, se tornou numa espécie de extensão dos departamentos comerciais das editoras mais poderosas e influentes. Resultado: tudo o que não tem a chancela daquele 'lobby' de interesses é implacavelmente posto à margem e deixado na sombra.
De facto, são muitos os discos de música portuguesa de qualidade que a Antena 1 ignora e/ou marginaliza (cf.
Grandes discos da música portuguesa: editados em 2008). E tal acontece não só na afunilada 'playlist' como em programas de autor (por exemplo, no "Vozes da Lusofonia" que deixa de fora álbuns distinguidos com o Prémio José Afonso e contempla – pasme-se! – discos cantados em inglês). Ora, sabendo-se que não é das 'majors' que actualmente sai a melhor música portuguesa, a situação vigente na estação do Estado assume ainda maior gravidade. Esta tem sido uma temática que tenho recorrentemente tratado no blogue "A Nossa Rádio" (http://nossaradio.blogspot.com/), tendo o cuidado de enviar os textos a quem de direito, mas parece que ninguém está interessado em atacar o cancro. Insensibilidade do poder político e das entidades competentes para o problema (que tantos prejuízos tem causado e continua a causar à música portuguesa mais qualificada) ou medo de bulir com interesses instalados? Talvez a resposta seja um misto das duas coisas. Em França e Espanha, como se sabe, estas coisas são tratadas muito seriamente. Por cá, é o deixa andar: "não te rales que eu também não". Esquecem-se as entidades responsáveis que o problema tem uma repercussão cultural (e não só) bem mais nefasta do que à partida possa parecer.
Para a Antena 1, creio que existe uma quota obrigatória de 60 % de música portuguesa. Eu pergunto: de que forma é que tal quota está a ser preenchida? Já alguém se deu ao cuidado de o averiguar? Embora tenha sérias dúvidas quanto ao cumprimento da percentagem em si mesma, dada a profusão de música anglo-americana (ainda por cima de baixíssima qualidade), há outra coisa ainda mais preocupante e inaceitável. Refiro-me obviamente ao facto da 'playlist' estar monopolizada por um único género musical: a pop (a anglo-americana e a nacional, em geral esteticamente tributária daquela). Os géneros musicais de menor potencial económico (portanto, sem interesse para as 'majors', as quais têm de atingir determinados resultados em termos de lucros, porque assim o exigem os accionistas) são implacavelmente marginalizados, sendo relegados para minúsculos apontamentos (durante a semana) ou para programas de autor (ao fim-de-semana), sendo que no último caso nem isso acontece para a música tradicional/folk portuguesa, o que não pode deixar de se considerar uma lacuna muito grave do serviço público de rádio.
Por tudo isto, Emiliano Toste e todos os outros editores que vêem as suas edições serem marginalizadas pela rádio do Estado têm muitíssima razão em se queixarem. Mas os prejudicados não são apenas os pequenos editores: são também os numerosos artistas de mérito silenciados ou deficientemente divulgados, designadamente os que têm vínculo contratual com uma pequena editora ou que lançam os seus trabalhos em edição de autor, e, como não podia deixar de ser, também os ouvintes/contribuintes que assim vêem ser-lhes sonegada, pela rádio que financiam, a oportunidade de tomarem conhecimento de uma parte significativa da boa música portuguesa que se vai produzindo entre nós.
Por um acaso do Destino ou por determinação da Providência ou do Grande Arquitecto do Espaço-Tempo, não me foi dado viver no tempo em que Oliveira Salazar e Marcelo Caetano governaram Portugal, e nessa medida não posso testemunhar com conhecimento de causa qual a música que predominava na Emissora Nacional, a antepassada da Antena 1. Mas baseando-me nos relatos escritos e falados de quem viveu na época, não andarei longe da verdade se disser que o género de música que tinha honras de privilégio era o chamado nacional-cançonetismo (julgo que a expressão é da autoria do jornalista João Paulo Guerra, que actualmente faz a revista de imprensa nas manhãs da Antena 1). E se assim acontecia era porque o regime totalitário o ditava: havia, portanto, uma razão ideológica subjacente. O Estado Novo terminou em 25 de Abril de 1974, e se é certo que o nacional-cançonetismo praticamente desapareceu do éter nacional, inclusive da rádio do Estado, não deixa de ser igualmente verdade que na mesmíssima rádio do Estado, o seu lugar está neste momento a ser ocupado pelo seu equivalente hodierno – a música pop. Com explicar tal situação num regime constitucionalmente democrático e pluralista? A democracia pressupõe o pluralismo de expressão/comunicação e a garantia do exercício de livre escolha por parte dos cidadãos. Mas a livre escolha só é possível se as pessoas tomarem conhecimento do que existe, porque só se deseja e se ama o que se conhece (como diria Fernando Pessoa). Ora é precisamente neste ponto que a rádio pública tem o seu papel a desempenhar, divulgando as obras de qualidade, e sem olhar a quem: se o editor/artista é X ou Y ou se está radicado em Lisboa, no Minho ou no Algarve. Uma rádio pública generalista de âmbito nacional deve reger-se pelo princípio da equidade e dar igualdade de oportunidades a todos os nacionais que apresentem trabalhos de mérito. Não pode favorecer escandalosamente uma parte dos editores/artistas (seja por conluio verbal ou tácito, seja através das famigeradas avenças de promoção), nem tomar partido por uma determinada estética ou linguagem musical como se essa fosse a música oficial do regime. O condicionamento/dirigismo do gosto é uma coisa própria de regimes totalitários (de direita ou de esquerda, para o caso vale o mesmo) e julgo que ninguém defende isso em democracia. Mas é precisamente isso o que a actual direcção de programas da Antena 1 vem fazendo na prática, ignorando por completo as disposições consignadas na legislação que enquadra o serviço público de radiodifusão!

Para assinar a petição é favor clicar
aqui.

12 outubro 2009

Prémio Carlos Paredes (novo regulamento)

Transcreve-se abaixo o novo regulamento do Prémio Carlos Paredes, de acordo com a redacção publicada no Diário da República, II.ª série, de 20 de Maio de 2009.
A alteração mais significativa é o facto de já não colocada com condição que os discos sejam exclusivamente de música instrumental, passando a ser aceites «todos os trabalhos de música não erudita, que contribuam para o reforço da nossa identidade cultural, nomeadamente os de raiz popular portuguesa, que tenham sido editados em CD, com distribuição comercial, no decurso do ano civil anterior a que a edição do prémio diga respeito.»
A recepção das candidaturas decorre entre os dias 16 e 30 de Outubro.
Pena é que não se tivesse aproveitado a alteração ao regulamento para actualizar o exíguo valor pecuniário do prémio – 2.500 euros. Um galardão que enverga um nome tão importante como o de Carlos Paredes devia ter uma dignidade em concordância com tal estatuto, o que manifestamente não acontece com aquele montante. É de aplaudir que as câmaras municipais e outras entidades criem prémios para a música portuguesa, mas quando as dotações pecuniárias são pouco mais que simbólicas nem o nome do patrono fica devidamente dignificado nem o artista vê reconhecido o seu trabalho como merece.
O Prémio José Afonso, da Câmara Municipal da Amadora, tem a dotação de 5.000 euros e devo dizer que não é muito. Quererá a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira dar a entender que Carlos Paredes tem metade do mérito artístico de José Afonso? Eu até sou um grande apreciador da obra de José Afonso mas não escondo que a de Carlos Paredes se situa num plano superior, não só em termos puramente técnicos como pelo carácter muito mais universal que a sua música reveste, ainda que genuinamente portuguesa. Carlos Paredes é a portugalidade feita música, é a música portuguesa na sua essência mais profunda e intemporal. E se há música instrumental que é imediatamente associada a Portugal, em qualquer parte do mundo – da Lapónia à Nova Zelândia ou da Cochinchina à Patagónia –, essa é a de Carlos Paredes.

_________________________

NOVO REGULAMENTO DO PRÉMIO CARLOS PAREDES

Artigo 1.º
É intenção da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, com a instituição deste prémio, homenagear um dos maiores criadores musicais portugueses do século XX e incentivar a criação e a difusão de música de qualidade feita por portugueses;

Artigo 2.º
1 - Podem concorrer ao Prémio Carlos Paredes todos os trabalhos de música não erudita, que contribuam para o reforço da nossa identidade cultural, nomeadamente os de raiz popular portuguesa, que tenham sido editados em CD, com distribuição comercial, no decurso do ano civil anterior a que a edição do prémio diga respeito.
2 - O prémio será atribuído ao intérprete da obra que venha a ser distinguida.

Artigo 3.º
Serão aceites candidaturas de todos os tipos de música não enquadráveis na designação de Música Erudita.

Artigo 4.ºAs candidaturas podem ser apresentadas directamente pelos intérpretes ou através das editoras discográficas;

Artigo 5.ºSó podem concorrer a este prémio intérpretes portugueses, independentemente de terem gravado ou não em Portugal, desde que preencham os requisitos estabelecidos no art.º 2.º do presente Regulamento;

Artigo 6.º
1 - As obras concorrentes deverão ser entregues ou enviadas, em cinco exemplares, ao Departamento de Cultura, Turismo e Actividades Económicas, da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, para apreciação do júri.
2 - As obras a concurso não serão devolvidas.

Artigo 7.º
1 – A recepção das candidaturas far-se-á entre os dias 16 e 30 de Outubro de cada ano a que o prémio diga respeito.
2 - Sempre que as obras sejam remetidas pelos correios, será considerada, para efeitos de prazo de recepção, a data do registo postal;
3 – Caso não seja recebida nenhuma obra até à data limite estabelecida no n.º 1, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, através de despacho da Senhora Presidente da Câmara Municipal, poderá decidir, prorrogar o prazo de entrega dos trabalhos, dando-se conhecimento posterior em reunião do executivo.

Artigo 8.º
1 - O Júri será constituído por um representante da Sociedade Portuguesa de Autores, por um representante da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira, por um músico e por um crítico musical, ambos de reconhecido prestígio. 2 - O representante da Câmara Municipal presidirá ao Júri e terá voto de qualidade, em caso de empate;

Artigo 9.º
A divulgação da obra vencedora e a entrega do galardão estipulado no artigo 10.º deste regulamento, em cerimónia pública, efectuar-se-á até ao final de cada ano a que a edição seja respeitante.

Artigo 10.ºO valor pecuniário do Prémio Carlos Paredes é de 2.500 Euros, sendo ainda entregues ao vencedor uma placa alusiva ao galardão e um diploma;

Artigo 11.ºO presente Regulamento entra em vigor após serem feitas as aprovações e publicações exigidas por lei.

Artigo 12.º
Das decisões do Júri não haverá recurso.

As candidaturas devem ser enviadas para:
Prémio Carlos Paredes
Câmara Municipal de Vila Franca de Xira
Departamento de Cultura, Turismo e Actividades Económicas
Rua Dr. Manuel de Arriaga, 24
2600-186 Vila Franca de Xira
Tel. 263 287 600 Fax 263 271 516

09 outubro 2009

Madonna na RTP-2 é bom serviço público?



Na antiga RTP-2, que me lembre (pelo menos desde os anos 90), sempre houve ópera, bailado e teatro. Com a reestruturação do canal mandada fazer por Morais Sarmento e a sua transformação em 2:, em Janeiro de 2004, continuou a haver ópera e bailado, e também concertos de música sinfónica/coral, no espaço "Palcos", tendo sido criada para a música não erudita (pop/rock, jazz e world music) o espaço "Músicas". Decorridos cerca de dois anos, e por decisão do novo director de programas, Jorge Wemans, a ópera, o bailado e a música clássica seriam banidos e o espaço "Palcos" passou a ser reservado exclusivamente à música pop/rock e, por vezes, ao jazz. E é assim que há largos meses, no início da madrugada de sexta-feira para sábado, se vêm sucedendo muitos nomes da música pop/rock anglo-americana, geralmente em concertos ao vivo. Como gosto de ser eu o programador da televisão que desejo ver, habituei-me a gravar os programas do meu interesse para os ver a posteriori, a horas decentes, e o espaço "Palcos" tem sido um deles, embora saiba de antemão que nem tudo é aproveitável nem adequado a um canal de serviço público supostamente cultural. Exemplos disso têm sido as colagens de 'videoclips': assim aconteceu há uns meses com a Tina Turner, há algumas semanas com os U2 e voltou a acontecer na semana passada com a Madonna.
A pergunta que eu formulo a quem de direito é esta: é nestes termos e com este género de arte e de artistas que a RTP-2 presta serviço público cultural? Serão os conteúdos musicais/videográficos da MTV os mais recomendáveis para um canal público de televisão vocacionado para a cultura?
Devo dizer que nem sequer sou avesso à presença de música não erudita na RTP-2, mas terá sempre de existir um critério sério e rigoroso de selecção do que é efectivamente digno de figurar num canal cultural. Nesta ordem de ideias, autores/intérpretes como Astor Piazzolla, Chico Buarque ou Amélia Muge têm todo o cabimento na RTP-2, mas já não me parece aceitável dar a mesma dignidade à mais banal "pop music" que a Tina Turner, a Madonna ou a Christina Aguilera tão bem personificam (e apenas cito três nomes que já marcaram presença no "Palcos"). Ainda assim, nem levantaria muitas ondas se no segundo canal da RTP (que vive dos meus impostos) me fosse dada a oportunidade de ver/ouvir, por exemplo, a "Paixão Segundo São Mateus", de J.S. Bach, o bailado "Giselle", de Adolphe Adam, ou a ópera "Dido e Eneias", de Henry Purcell. Como tal não acontece o que, para todos os efeitos, constitui uma grave lacuna do serviço público de televisão, cumpre-me dizer de minha justiça. Digo mais: o sr. Jorge Wemans tem-se revelado um clamoroso erro de 'casting' na direcção do canal cultural da RTP. E aqui uma pergunta se impõe: tendo tal erro de 'casting' sido da responsabilidade da anterior administração (leia-se de Luís Marques) por
que razão a actual administração não o corrige, tornando possível que a RTP-2 retome o caminho do qual jamais se devia ter desviado?


Textos relacionados:
Propostas para o serviço público de televisão
Televisão e serviço público

06 outubro 2009

Amália: dez anos de saudade



No dia em que se completam dez anos sobre o desaparecimento da maior cantora (não lírica) que Portugal viu nascer, o blogue "A Nossa Rádio" rende-lhe uma singela homenagem, deixando aqui uma bela fotografia e dois poemas de tributo na voz de Afonso Dias.
Já agora, uma questão pertinente: por que motivo o cantautor Afonso Dias não tem direito a figurar na 'playlist' da Antena 1? Se se disser que a própria Amália só marca presença no espaço "Alma Lusa", sabendo-se que o seu repertório não é só fado (e mesmo que fosse...), isso ajuda a perceber a atenção que a música portuguesa mais qualificada vem merecendo da parte de quem dirige a rádio do Estado.



Retrato de Amália



Poema: José Carlos Ary dos Santos
Música: Frederico Valério (Fado Malhoa e Fado Amália)
Intérprete: Afonso Dias* (in CD "Na Asa Loira do Sol", Edere, 2001)


És filha de Camões, filha de Inês
assassinada voz de portuguesa
cantando a nossa imensa pequenez
com laranjas e gomos de tristeza.

É no claro Mondego dos teus olhos
que se debruça o mal da nossa mágoa.
Ao Tejo dos teus gestos que se acolhe
o nosso coração a pulsar água.

Falando desatada de saudade
choras um povo, cantas a balada
mais bonita que soa na cidade
de Lisboa por ti apaixonada.



Luz de Sombra (Amália)



Letra e música: Afonso Dias
Intérprete: Afonso Dias* (in CD "Na Asa Loira do Sol", Edere, 2001)


Erguias o pescoço longo e forte,
com a altivez das garças, das rainhas,
soltando a voz em sinos, campainhas,
em carrilhões de sonho, sombra e morte.

Tua voz foi da nossa o passaporte
com cheiro a alecrins e a sardinhas.
Tu cantaste nas lusas ladainhas,
Rezaste as dores do povo e da má sorte.

Contigo se cantou fado e destino,
no Marceneiro ou em Alexandrino,
na paleta das cores mais vibrantes.

Faltam-nos hoje as vozes que respiram
no mesmo arfar dos corpos que transpiram.
Que os fados são de hoje o que eram dantes.


* Vítor do Carmo – guitarra portuguesa
José Santana – viola
Duarte Costa – viola baixo
Produção – André Dias
Gravado nos Estúdios InfoArte, Lagos
Técnicos de som – Joaquim Guerreiro e Fernando Guerreiro
Mistura – Afonso Dias e Fernando Guerreiro

29 setembro 2009

Rafael Correia: o eremita da rádio


Rafael Correia, segundo o traço de André Carrilho

Com a devida vénia à jornalista Fernanda Câncio, aqui se transcreve o seu artigo publicado no "Diário de Notícias", de sábado passado:

«Durante quase 30 anos, fez na RDP o programa "Lugar ao Sul". Ganhou uma legião de fiéis e um lugar único na história da rádio portuguesa, que chegou este Verão ao fim. Retrato difícil de um homem secreto com um talento precioso, o de ouvir e fazer falar. E o de perder tempo.
Passou décadas a percorrer o país à procura de pessoas, vozes, histórias, canções, usos e ofícios. A maior parte das vezes só, só ele e o seu gravador, só ele e o equipamento de som. Fez da solidão uma espécie de missão, talvez mesmo de fé. Dizem os colegas e os que o chefiaram que também no estúdio, a montar o programa, se fechava horas, só ele e o seu material, "numa espécie de missa".
"Fazia tudo sozinho, desde conduzir o carro ao resto. Era um trabalho de paixão, chegou a meter dinheiro dele para fazer aquilo". Noel Cardoso, chefe de produção da RDP Sul, não se poupa no retrato. "Tinha uma aptidão extraordinária para descobrir assuntos e pessoas. E era incrível a pôr gente a falar, mesmo a mais rural e fechada. Tinha essa habilidade. Nunca queria falar com os ‘conhecidos’, perdia muito tempo a procurar. Era o ‘Portugal profundo’ – a gente do artesanato, das lendas, das canções de trabalho... E fazia três horas de gravação para aproveitar vinte minutos".
A ideia do "Lugar ao Sul" ter-lhe-ia surgido, diz Noel Cardoso, depois de uma estada em França, a partir de algo de semelhante que lá ouviu. Verdade é que programas parecidos chegaram a existir em Portugal, antes e durante, mas ninguém contesta a superioridade do de Rafael. "Ganhou quase tudo o que havia para ganhar em rádio, em termos de prémios e galardões", garante o director de produção da RDP. Apesar de tantas distinções, recusava quase sempre entrevistas. Fotos, impossível: o mais que se encontra é uma coisa tipo passe, de há muito tempo. O telefone de casa toca, sem ninguém atender; de telemóvel ninguém lhe ouviu falar. A vida fora da rádio e do programa é um mistério: autodidacta como sétimo ano "antigo" (actual 11.°); uma mulher e uma filha, talvez; uma casa em Faro; a passagem por um banco e por explicações de inglês, a entrada na Emissora Nacional como jornalista, a passagem a realizador, a ida para França, alguns dizem que "por causa de uma paixão", o regresso e o início, há 29 anos, do "Lugar ao Sul". "Ele não fala com ninguém, o problema é esse", lamenta Noel Cardoso. "E não fala do programa dele: ‘Quem quiser falar do programa oiça e fale, eu não falo’".
O programa, de duas horas, era semanal, ao sábado. Ouvintes referiam-se, em cartas para a RDP, ao autor como "parte da família" e quando o "Lugar ao Sul" passou, recentemente, para metade do tempo choveram protestos e temores, o de que fosse a antecâmara do fim. Um temor de que o próprio, adianta João Coelho, director da Antena 1 da RDP, de 1996 a 2002, padecia. "Passava a vida a achar que lhe iam acabar com o programa. De cada vez que eu pedia para falar com ele, vinha convencido que era dessa. É preciso perceber que quando o conheci, nos anos 80, era o tempo da rádio do ‘disc jockey’ e ele era tudo ao contrário disso: levava muito tempo a fazer as coisas, e fazia-as de uma certa maneira. Sofria muito com a mediania dos quadros intermédios, o que terá criado nele um bocado o sentido da perseguição."
Que terá nascido primeiro, o isolamento ou a solidão? Que terá feito de Rafael Correia o "bicho-do-mato", na expressão de João Coelho, que tantos sublinham? "Aquilo que lhe posso dizer do Rafael Correia é que é uma pessoa muito tímida, muito introvertida, muito individualista. Mas conseguia-se sempre colocar no patamar sintáctico, cultural, dos seus interlocutores, fossem quem fossem. Tem um talento muito invulgar. E recolheu um mosaico interessantíssimo do País", diz José Manuel Nunes, director da RDP, de 1984 a 1991, e presidente do respectivo Conselho de Administração, de 1995 a 2002. Um colega da RDP de Faro prossegue o desenho: "É uma pessoa de poucas falas, muito fechada, de feitio um pouco difícil. Recusava até os contactos dos ouvintes e das pessoas que entrevistara. Elas ligavam para a RDP e ele não as atendia."
Confere com o testemunho de Álvaro José Ferreira, um dos maiores admiradores do programa "Lugar ao Sul" e do seu autor. "Quando o e-mail dele da RDP estava activo, o que sucedeu até Junho passado, cheguei a enviar-lhe várias mensagens, quer para pedir informações sobre temas musicais que passava no programa quer para lhe sugerir pessoas a visitar, mas nunca tive a sorte de obter uma resposta, apesar de saber que teve em consideração algumas das sugestões que lhe fiz." Criador de um "grupo de amigos do LUGAR AO SUL" no MySpace (
http://www.myspace.com/lugaraosul) e detentor de um blogue sobre rádio (http://nossaradio.blogspot.com/), Álvaro Ferreira reproduziu neste último uma longa exortação a várias entidades (a começar pelo Presidente da República e a acabar no Provedor do Ouvinte da RDP) na qual, com o título "Lugar ao Sul": um programa-património, enumera não só as qualidades do mesmo e os prémios e distinções de que foi alvo como cita vários elogios de académicos e ouvintes para, finalmente, secundar Adelino Gomes, actual Provedor da RDP, no repto à administração da RDP para a edição discográfica "do melhor desse inestimável acervo", sugerindo também a colocação on-line do espólio do programa. Mas não fica por aqui: propõe a realização de uma homenagem nacional a Rafael Correia, "talvez no Coliseu dos Recreios".
João Coelho pega na ideia. "Fazia-me sentido que ele recebesse uma condecoração no 10 de Junho. Se alguém merece, é ele." À falta, claro, do que fazia sentido a toda a gente que não passava sem o "Lugar ao Sul" — que continuasse. Aos 72 anos, porém, dois após a reforma obrigatória e já com contratos a termo certo (um expediente que a RDP utiliza para manter ao serviço aqueles que assim o desejam) Rafael Correia terá desistido. A explicação que mais colhe é a de ter sido convocado para uma nova formação tecnológica – é a justificação que Feliciano Estêvão, o director da RDP Sul, adianta.
"Ele não gostava nada de ter de lidar com novos equipamentos, resistia sempre muito", lembra José Manuel Nunes. João Coelho encolhe os ombros: "Às vezes isso é não saber lidar com as pessoas. Não que eu defenda um registo de excepção, mas... Enfim, presumo que ele tenha resolvido fazer um real manguito."» (Fernanda Câncio, in "Diário de Notícias", 26.09.2009)

Nota de rodapé: De acordo com informações facultadas por fontes internas da própria RDP (insuspeitas), Rafael Correia foi empurrado para a reforma, contra sua vontade, sendo que a sua alegada "desistência" em meados de 2009 se prende, entre outras desconsiderações, com o abstruso vínculo contratual – à margem da lei – que Rui Pêgo, com o assentimento da administração da RDP/RTP, lhe apresentou como condição 'sine qua non' para a continuação do programa.
Os ouvintes do "Lugar ao Sul" e contribuintes do serviço público de rádio prometem que não vão deixar cair a questão e clamam que seja feita justiça ao emérito Rafael das Neves Correia!

27 julho 2009

Televisão e serviço público

Por: José Carlos Vasconcelos (advogado, escritor e jornalista, director do "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias")



As leis são ou não para cumprir? As leis servem ou não para alguma coisa, designadamente na parte em que são, digamos, ‘programáticas’ ou orientadoras? Não tenho qualquer dúvida que devem ser para cumprir e devem servir para alguma coisa. Se não, revoguem-se ou mudem-se. Se são injustas, erradas, defeituosas, lute-se contra elas. Mas, como princípio, têm de ser obedecidas, sob pena de estar em perigo o próprio Estado de Direito democrático (salvo se tais leis forem «ilegítimas», violarem os Direitos do Homem ou o Direito Natural – mas essa é outra conversa).
Ora, segundo a Lei da Televisão, os canais generalistas têm como objectivo: «Contribuir para a informação, a formação e o entretenimento do público»; «Promover o direito de informar e de ser informado, com rigor e independência»; «Favorecer a criação de hábitos de convivência cívica próprios de um Estado democrático e contribuir para o pluralismo político, social e cultural»; «Promover a língua portuguesa e os valores que exprimem a identidade nacional».
Veja cada leitor esses canais, aprecie a conformidade de grande parte da programação às finalidades definidas da lei – e tire as suas conclusões... Que são óbvias! Em particular quanto aos canais da estação de «serviço público», a única de que agora aqui cuido. Quer por ser de «serviço público», com tudo que isso implica e exige, quer porque a lei que define e regula a respectiva concessão no seu art.° 4, n.° 2, lhe impõe, em três alíneas, mais alguns deveres, incluindo o de «pautar a programação por exigências de qualidade e diversidade e de respeito pelo interesse público». E, mais, no n.° 3 especifica, da a) a t), 19 «obrigações», sendo a primeira «contribuir, sob diversas formas, para o esclarecimento, formação e participação cívica e política da população, estimulando a criatividade e a consciência crítica».
Ora, sem prejuízo de se reconhecer que em certos períodos já foi pior, a RTP em boa parte não cumpre o que as leis determinam e lhe compete, ‘concorrendo’ com as televisões privadas, porventura deslealmente, numa simples perspectiva de audiências e de mercado – e em alguns aspectos o mesmo se poderá dizer da Antena 1 (não da 2), o canal ‘generalista’ da rádio pública. Isso é bem notório desde logo no que a RTP não dá e devia dar, para cumprir aquelas finalidades. Basta dizer que não tem um só programa que hoje se possa considerar orientado fundamentalmente para estimular a formação e a participação cívica, o sentido crítico ou mesmo a criatividade; não tem um só programa capaz de conquistar novos públicos para a cultura e chegar a um grande número de pessoas, o que além do mais pressupõe um «horário nobre».
É legítimo, mais: indispensável, que uma estação pública tente chegar ao maior número possível de espectadores. É-o, porém, para ter mais eficácia a acção ou o papel que lhe compete prosseguir, com vista a alcançar os objectivos de interesse nacional que lhe estão consignados. Assim, até pode, aqui e ali, transigir no acessório, mas para alcançar o essencial. O problema, entre nós, é ser esquecido, desrespeitado, o «essencial», com a emissão de vários programas tão maus ou tão banais como os de outras estações. Ora, o que justifica o serviço público, se tiver uma filosofia de programação e/ou informação igual à delas, se repetir o mesmo tipo de programas, etc., etc.?
Só dois ou três exemplos. Numa altura em que superabundam, nas televisões e nas rádios, programas ditos humorísticos, alguns bons, outros vulgares ou mesmo indigentes, o que justifica a RTP ter mantido no ar, durante não sei quantos meses, no horário mais nobre, uma coisa chamada, salvo erro «Telerural»? Ou, pior, transmitir, e na 2:, um programa chamado «Cinco para a meia noite», que por azar de passagem vi, há uns dias, com o tão primário como famigerado Zezé Camarinha? Ou alterar as horas do principal jornal informativo para transmitir um jogo de futebol de dois clubes estrangeiros (e não a final dos Campeões Europeus...)? Ou passar um dia a dar directos do Cristiano Ronaldo em Madrid (a impressionante apresentação no Estádio, essa sim, justificava e justificou o «directo»)? Por outro lado, claro que também há bons programas, próprios do serviço público. Como, para nos ficarmos pela cultura, «Câmara Clara», na 2:, e «Cuidado com a Língua», no 1.º canal. Porém, enquanto a privada Globo, no Brasil, e no seu canal internacional, tem nos intervalos para a publicidade pequenos 'spots' sobre o novo Acordo Ortográfico, a RTP, que eu saiba, não fez nem está a fazer nada do género para o difundir e esclarecer as pessoas a seu respeito... (José Carlos Vasconcelos, in "JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias", 15.07.2009)


Subscrevo genericamente este artigo de opinião de José Carlos Vasconcelos, apenas ressalvando dois pontos – a exclusão que faz da Antena 2 da "perspectiva de audiências e de mercado" e a questão do acordo ortográfico. Mas antes de me debruçar sobre esses tópicos, quero tecer um breve comentário a respeito da televisão pública, para reforçar o ponto de vista do director do "JL". Sob a direcção de Luiz Andrade, a RTP-1 conseguiu libertar-se de muito do lixo televisivo herdado de Emídio Rangel, apostando na produção de séries de época ("Ferreirinha", "João Semana", "Pedro e Inês", "Bocage", "Quando os Lobos Uivam", etc.) e em documentários de temática ambiental, sociológica e histórica ("Portugal: Um Retrato Ambiental", "Portugal: Um Retrato Social", "A Guerra") que eram transmitidos em horário nobre e que atingiram boas audiências, como se veio a constatar, desmentindo a ideia rangelista segundo a qual programas desse tipo não tinham público. Durante o consulado de Nuno Santos essa filosofia foi esmorecendo até que com a sua saída para a SIC e a entrada de José Fragoso (um dos pupilos de Emídio Rangel), pela mão de António Luís Marinho, dificilmente seria de esperar outra coisa que o regresso do lixo "à Emídio Rangel", como o citado "Tele-Rural" e outras coisas do mesmo jaez: "Liga dos Últimos" e "Os Contemporâneos".
E como um mal nunca vem só, a RTP-2 que, antes da transformação que sofreu em 2003 a mando do então ministro Morais Sarmento (extinção dos programas "Acontece!", "Artes e Letras", "O Lugar da História", do espaço de cinema "Cinco Noites, Cinco Filmes", etc.), fora um modelo de qualidade e uma verdadeira alternativa ao canal 1 (e aos outros canais em sinal aberto), também deixou de estar a salvo da mediocridade e do lixo. Primeiro foi "A Revolta dos Pastéis de Nata", depois o "Sempre em Pé" e agora o "Cinco para a Meia-Noite", que ao contrário dos anteriores ainda tem a agravante de ser diário. A par disto, e ao contrário do que seria suposto num canal vocacionado para a cultura e para as artes, também já não há teatro, nem ópera, nem bailado. Apenas concertos de pop/rock e, mais recentemente, de jazz (com a reposição de gravações do AngraJazz). E quem é o culpado desta acentuada degradação da RTP-2, se o Governo já nem é o mesmo? Quem souber, que responda. Cada vez estou mais convencido de que existe um propósito deliberado (embora não assumido) de desqualificar a RTP-2 por forma a empurrar os seus naturais espectadores para os canais temáticos do cabo (História, Mezzo, Hollywood, etc.), contribuindo assim para engordar os lucros da Portugal Telecom.
Indo agora à rádio pública, a alusão que José Carlos Vasconcelos faz à Antena 1 não podia ser mais pertinente. O canal generalista da rádio do Estado que durante muito tempo teve uma identidade própria e dava uma atenção preferencial à música portuguesa mais qualificada e de maior valia estética (como lhe compete), acabou por ser transformado, primeiro por António Luís Marinho e depois por Rui Pêgo, numa coisa completamente abastardada e verdadeiramente imprópria para consumo continuado. Atente-se na profusão de poluição sonora – 'spots' e 'jingles' (longos e pirosos) constantemente disparados pelos locutores de continuidade, as ladainhas do trânsito e das temperaturas rezadas de dez em dez minutos, os noticiários em formato tablóide repletos de "chouriçada", os abundantes espaços de futebol... No tempo que sobra de todas estas enxúndias, rodam as musiquinhas pop do mais reles que é possível encontrar no mercado (a bem dizer, a música pimba do género pop). Alguém está a ganhar com isso, mas não certamente os melhores artistas portugueses e, ainda menos, os ouvintes/contribuintes.
No que toca à Antena 2, e vistas bem as coisas, a filosofia de programação que tem vigorado depois da saída de João Pereira Bastos não é assim tão diferente da praticada na Antena 1 e nas rádios comerciais. Veja-se, por exemplo, de que modo está a ser preenchido aquele larguíssimo período que vai das 7:00 às 20:00, de segunda a sexta-feira. À excepção do segmento 13-14 horas destinado a programas de autor ou de entrevista, nas restantes 12 horas funciona uma espécie de 'jukebox' de trechos de música clássica/erudita, misturando os mais diversos estilos, épocas e compositores numa imensa caldeirada. É verdade que não há propriamente uma máquina que vai debitando as músicas (ou mais correctamente, os excertos de obras musicais) de um lote restrito, nem existe um padrão de repetição como acontece nas 'playlists' em uso nas rádios comerciais (e nas Antenas 1 e 3), mas o conceito subjacente é muito semelhante. Não por acaso a Antena 2 foi também infestada de 'jingles' e 'spots' que, de hora a hora (às vezes menos), são bombardeados aos tímpanos dos ouvintes mais pacientes e perseverantes que ainda a sintonizam. E aqui os padrões de repetição são assustadoramente similares aos praticados nas rádios que dependem da publicidade. Mas tudo isto não será de admirar se atendermos aos indivíduos que estão na direcção – Rui Pêgo e João Almeida – que sempre trabalharam em rádios comerciais. E como se explica que na actual Antena 2 não haja um programa de História, nem de Ciência, nem de Poesia? Onde está o cumprimento das obrigações culturais do serviço público fora do estrito domínio da música?
Por último, a questão do acordo ortográfico e do alheamento da RTP perante o mesmo. Creio que tal tem acontecido não por uma decisão consciente e esclarecida da parte da direcção de programas mas por mero laxismo. E se o laxismo, por regra, se deve condenar, neste caso concreto há que louvá-lo. E porquê? Porque o dito acordo ortográfico, pelos erros, incoerências e aberrações que encerra, não é para levar a sério. Além do mais, existe uma
petição para a sua revisão que já conta com mais de 120 000 assinaturas, entre as quais as dos mais eminentes linguistas, escritores, artistas e professores. A televisão, embora por laxismo, tem tido uma postura correcta nesta matéria mas o mesmo não se pode dizer da rádio, digo da Antena 2, que tem um programa chamado "Páginas de Português", que há muito tomou partido a favor do acordo e lhe vem fazendo uma continuada promoção. Em todo o caso, no dia e à hora a que o programa é transmitido (domingos, 17:00) a audiência é residual pelo que o afã propagandístico dos seus autores, José Mário Costa e José Manuel Matias, terá um alcance bastante limitado.


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10 julho 2009

"Lugar ao Sul": um programa-património

Exmo. Senhor Presidente da República Portuguesa,
Exmo. Senhor Presidente da Assembleia da República,
Exmo. Senhor Primeiro-Ministro de Portugal,
Exmo. Senhor Ministro da Presidência do Conselho de Ministros,
Exmo. Senhor Ministro dos Assuntos Parlamentares,
Exmo. Senhor Ministro da Cultura,
Exmos. Senhores Presidentes do Grupos Parlamentares,
Exmo. Senhor Presidente da Entidade Reguladora da Comunicação Social,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Administração da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Presidente do Conselho de Opinião da Rádio e Televisão de Portugal,
Exmo. Senhor Provedor do Ouvinte da Rádio Pública,

A RDP-Antena 1 tem a sorte e o privilégio de ter na respectiva grelha aquele que é justamente considerado um dos melhores programas de autor, quiçá o melhor, de toda a rádio portuguesa – o "Lugar ao Sul" – através do qual Rafael Correia nos revela belíssimos retratos sonoros de um Portugal genuíno mas ignoto. Figura inimitável e carismática da nossa rádio, Rafael Correia notabiliza-se pelo seu notório jeito e habilidade na interlocução com as pessoas do povo fazendo com que elas, de forma espontânea e generosa, entrem em conversas interessantíssimas pontuadas com o melhor da poesia popular e da música tradicional portuguesa. Na verdade, o "Lugar ao Sul" tem proporcionado ao seu vasto e fiel auditório momentos únicos e inesquecíveis de descoberta e de fruição do património cultural do povo português – a música, a poesia, os rimances, as cantilenas, as lengalengas, as histórias, os adágios, os usos e costumes –, património esse que está em vias de extinção em virtude do inexorável processo de uniformização cultural num mundo cada vez mais globalizado pela cultura de massas veiculada pelos media. Se as novas gerações deixam de ser o repositório dessa ancestral tradição cultural ela irremediavelmente desaparecerá à medida que a morte for ceifando os mais velhos. Daí a importância de figuras como Rafael Correia para "pescarem", enquanto é tempo, as "pérolas" que estão em vias de desaparecer para sempre. Por conseguinte, não se devem poupar esforços no apoio aos abnegados protagonistas dessa empresa quixotesca e, concomitantemente, nunca serão de mais as acções que promovam a sua divulgação junto de pessoas mais desatentas que, primeiro por curiosidade e depois por interesse, passariam a pertencer ao número dos ouvintes do imperdível "Lugar ao Sul" graças ao qual tomariam uma atitude mais conscienciosa face à cultura tradicional e, enfim, à cultura entendida como um todo. É frequente o público e a crítica andarem de candeias às avessas, mas Rafael Correia com o seu programa conseguiu, por mérito próprio, a invulgar proeza de conquistar tanto a afeição do público como o aplauso da crítica. No que concerne ao público, é interessante referir que o auditório do "Lugar ao Sul" é transversal a vários estratos sócio-culturais desde o mais humilde rural até ao professor universitário. Talvez não haja na história da rádio portuguesa outro que se lhe compare nessa curiosa heterogeneidade, pelo menos após os tempos áureos da rádio nos anos 40 e 50. No que à crítica diz respeito, são de salientar as sucessivas referências encomiásticas feitas por diversas individualidades do nosso meio comunicacional como é o caso de José Nuno Martins e de Adelino Gomes (primeiro enquanto jornalista do jornal "Público" e mais recentemente enquanto Provedor do Ouvinte), sem esquecer os prémios prestigiados com que o programa tem sido distinguido, designadamente o Prémio Gazeta de Mérito atribuído pelo Clube de Jornalistas, em 1999. A própria academia, muitas vezes acusada de alheamento e de sobranceria perante o que se passa fora dos seus muros, não deixou de reconhecer o trabalho meritório de Rafael Correia. Neste capítulo, é pertinente referir um texto lapidar, datado de Abril de 2002, escrito pelo Prof. Doutor Manuel Pinto, professor do Departamento de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho, que se pode ler na página
http://www.alquimista.net/htm/public2.htm#lugar e de que transcrevo, com a devida vénia ao seu autor, a parte final:

«...o programa traz-nos as iniciativas, os saberes, as técnicas, as artes e a sabedoria de gente simples. Artista no modo de entrevistar, Rafael Correia entra frequentemente num jogo subtil de cumplicidades, a que não falta a argúcia e o humor, conseguindo documentos magistrais de um país que os holofotes da moda mantêm escandalosamente na sombra. E costura, depois, um programa de duas horas, acompanhado do melhor da nossa música, erudita e popular. Com um resultado "ao qual não se fica indiferente, tal é a beleza e o talento", como se reconhecia, não há muito, num texto editado na Internet
(Carnet de Route d'Un Voyageur Solitaire en Algarve et Alentejo).
Rafael Correia é daqueles que, de forma discreta e persistente, acham que mais vale acender uma luz do que maldizer a escuridão.» (
Manuel Pinto, Braga, 15.04.2002).

Também não queria deixar de dar conta do belo testemunho da Prof.ª Teresa Muge, docente da Escola Superior de Educação de Faro, para quem o trabalho de Rafael Correia constitui uma fonte de trabalho pedagógico com os seus alunos (futuros educadores de infância). De uma carta que ela enviou, em Outubro de 2005, à direcção de programas da Antena 1, e que teve a amabilidade de me remeter cópia, não resisto a respigar o seguinte excerto bem eloquente e elucidativo do relevante valor cultural do programa de Rafael Correia:

«"Lugar ao Sul" é dos poucos astros-sóis brilhando no universo da nossa rádio pública - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul", como sol que é, assume em pleno o seu generoso e inestimável papel distribuidor de riqueza cultural - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" é um dos meus mais amados espaços da minha Antena 1 - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" conta-me histórias e poesias da minha e nossa tradição oral, na minha e nossa língua - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" canta-me as cantigas, da minha e nossa língua, que já mais ninguém sabe - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" tem ouvintes, muitos, que o escutam, gravam, comentam - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" tem sido uma das minhas fontes de trabalho com os meus alunos (Licenciatura em Educação de Infância), sendo-lhes vivamente recomendado - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul", ao contrário de muitos outros programas do espaço áudio e audiovisual, traz-nos o que de melhor e mais positivo nós temos, construímos e somos - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" merece tempo de antena e horário de estrela - e Rafael Correia é o seu ADN.
"Lugar ao Sul" serve-me, que sou público especial e atentamente público - e Rafael Correia é o seu ADN.
É muito difícil assistir mudo, cego e surdo à agonia de uma cultura.
É impossível assistir mudo, cego e surdo à agonia de uma cultura.» (Teresa Muge, Faro, 04.10.2005).

Por último, não resisto a citar um tocante e vívido texto da Prof.ª Isabel Silva, docente do ensino particular, retirado de uma carta dirigida, em Março de 2008, ao Provedor do Ouvinte:

«“Um Lugar ao Sul” é um programa único e irrepetível. Ouvir o Sr. Rafael Correia (que não conheço mas que considero como fazendo parte da minha família) a conversar com as pessoas com memória que vai encontrando por esses lugarejos perdidos de Algarves e Alentejos é sempre um prazer renovado. Ouvir “Um Lugar ao Sul” constitui, e digo-o sem pedantismos, um autêntico bálsamo de frescura e um revigorante lenitivo mental no remanso dos sábados. E que bom que é ainda termos um tesouro destes ao nosso dispor. Nascida e criada em Lisboa (na Lapa), e educada num colégio religioso, foi relativamente tarde que tomei contacto com esse programa mas confesso que foi amor à primeira vista, rendida que logo fiquei à rara capacidade de sedução do Sr. Rafael Correia. De facto, é absolutamente admirável como ele nos consegue cativar e prender ao aparelho de rádio. Desde que Marconi descobriu a telefonia sem fios, a rádio já percorreu um longo caminho, os avanços tecnológicos foram muito grandes e revolucionários, mas a componente humana continua a ser a sua essência, a seiva que a vitaliza. “Um Lugar ao Sul” é a rádio com gente dentro, gente com quem nos apetece estar. Muito, mas mesmo muito, tenho aprendido com ele. E digo-o com o maior à-vontade, eu que sou licenciada e docente. A verdade é que nem todo o conhecimento, nem toda a cultura vem nos livros ou se adquire na escola. Há um “saber de experiência feito” (como diria o grão vate Camões) que os compêndios e sebentas não registam (nem podem registar), e que o sistema de ensino não ministra. O Sr. Rafael Correia descortina-nos esse saber antigo sedimentado pelo tempo, “o tempo, esse grande escultor” (como disse a grande Marguerite Yourcenar). Foi através do programa “Um Lugar ao Sul” que descobri essa jóia de pessoa chamada Zélia Sakai, em tempos casada com um japonês, e actualmente a residir num ermo da Serra de Monchique, que sabe de plantas medicinais e ervas aromáticas como eu jamais imaginara possível e demonstrando à saciedade que a química farmacêutica não é remédio para todas as mazelas, as do corpo e as da alma. E o Sr. Ernesto Silva, barrista de Aljezur, que faz uns mochos encantadores (um já cá “pia” na minha secretária). E o Sr. Chico Serpa (“Franciscos são os macacos”), guarda do IPPAR na capela de Nossa Senhora de Guadalupe, que fez escavações arqueológicas em recintos megalíticos ao lado do Dr. Mário Varela Gomes, e que sempre que abre a boca é uma autêntica lição de História (retive o esclarecido paralelismo que estabeleceu entre o culto egípcio de Ísis e o culto mariano). E o Sr. Constantino Guerreiro, da Serra do Caldeirão, que na sua velha concertina com botões de madrepérola toca boleros, tangos e valsas da meia-noite com uma mestria invulgar mesmo entre profissionais. E o Sr. José Inocêncio, de Paderne, que aos 95 anos tocava harmónica de boca com uma inacreditável jovialidade. E a Senhora Maria da Conceição, de Alcantarilha, com as suas histórias de encantar ao calor de uma lareira onde ardia lenha de alfarrobeira. E a D. Lisdália Viegas dos Santos, natural de Tavira, que reformada da máquina de costura dá largas à sua veia poética em admiráveis coroas de sonetos (modalidade poética bastante incomum entre poetas populares). E o coveiro de alcunha Ruço que fala da morte e dos despojos humanos com um desassombro e uma intrepidez que até nos arrepia a espinha, fazendo-nos pensar (a nós urbanos que andamos entretidos na busca do sucesso e das coisas materiais) nesse grande tabu da pós-modernidade, nessa coisa que nos incomoda na nossa efémera felicidade mas que temos como certa (a mais certa de todas as certezas). E o simpático casal D. Alice e Sr. Amílcar, de São Martinho das Amoreiras, contando as suas aventuras em terras transalpinas onde actuaram em castelos medievais... Enfim, muitos mais exemplos poderia enunciar de gente maravilhosa que o Sr. Rafael Correia me deu a conhecer.
Serve todo este latim para vos rogar “a vós homens que tendes a vã glória de mandar” (como diria o Padre António Vieira) que estimeis o Sr. Rafael Correia e que jamais nos priveis do seu proveitoso e salutar convívio.
Quantos Constantinos Guerreiros, quantos Josés Inocêncios não haverá ainda por esse Portugal fora, ignorados e esquecidos nos locais mais recônditos? Tanto dinheiro que neste país se gasta em coisas inúteis e supérfluas, que é uma dor d’alma assistir ao desaparecimento desses artistas sem que seja feito o devido registo da sua arte para deleite de todos nós... E daqueles que hão-de vir.
Em jeito de corolário a esta minha prédica, e já que vem a talhe de foice, deixo à vossa reflexão duas quadras do poeta Aleixo, que na sua grande concisão e simplicidade formal encerram uma extraordinária profundidade filosófica. Dedico-as ao Sr. Rafael Correia (que já merecia uma estátua e a mais alta condecoração da República) e a todos os artistas de cuja arte ele me tem dado o privilégio de comungar. Incluo ainda na minha dedicatória todas as pessoas que irmanadas na mesma paixão não querem abdicar de ter “Um Lugar ao Sul” com duas horas de duração.

A Arte é força imanente,
Não se ensina, não se aprende,
Não se compra, não se vende,
Nasce e morre com a gente.

Só a Arte tem o poder
De a todos nós transmitir
O que todos podem ver,
Mas poucos podem sentir.

António Aleixo» (Isabel Silva, Lisboa, 10.03.2008)

Tal como o Prof. Manuel Pinto, a Prof.ª Teresa Muge, a Prof.ª Isabel Silva, os Provedores do Ouvinte (o anterior e o actual), e outros distintos ouvintes (como a Prof.ª Ana Paula Guimarães, Presidente do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, e o Prof. José d'Encarnação, doutor em arqueologia e que já foi entrevistado por Rafael Correia, nas ruínas romanas de S. Cucufate), também eu tenho a honra e o prazer de pertencer ao número daqueles para quem o "Lugar ao Sul" se tornou um programa de culto. Ouvir o "Lugar ao Sul", sábado após sábado, constitui para mim uma experiência litúrgica, quase xamânica, que me alimenta a alma. Só Rafael Correia, incomparável e insubstituível demiurgo na arte de bem fazer rádio a partir do húmus ancestral, consegue propiciar esse vislumbre mediúnico dos mistérios ocultos do homem umbilicalmente ligado à terra-mãe.

Eu sou devedor à terra
A terra me está devendo,
A terra paga-me em vida
Eu pago à terra em morrendo.

Esta foi uma quadra do saber popular alentejano que ouvi no programa de Rafael Correia, já lá vão uns bons anos, e que nunca mais me saiu da memória.
Por se debruçar sobre a cultura tradicional mais genuína que ainda não foi adulterada pela (sub)cultura de massas, o programa suscita um grande interesse não só nos ouvintes já saturados dos subprodutos que passaram a pulular no panorama radiofónico nacional como inclusive nas pessoas que têm na tradição oral o seu objecto de estudo. No "Lugar ao Sul" o fio condutor é a conversa descomprometida que Rafael Correia sabe conduzir como ninguém, funcionando as músicas e as poesias como as pérolas de um rosário, formando um todo harmonioso que proporciona uma audição agradabilíssima capaz de subtrair ao ouvinte a percepção da passagem do tempo.
Rafael Correia tem muitos admiradores ilustres em Portugal e nas comunidades portuguesas da diáspora, mas o reconhecimento do seu trabalho já ultrapassou o âmbito da lusofonia. Refira-se, apenas a título exemplificativo, que a Rádio France lançou, em 1999, na sua colecção OCORA um CD intitulado "Musiques d’Alentejo", precisamente a partir das recolhas de Rafael Correia realizadas na grande planície transtagana. Rafael Correia, na sua senda de andarilho pelos sinuosos caminhos da geografia e da memória do Portugal profundo, tem-se revelado um digno sucessor de grandes figuras da etnografia portuguesa – Armando Leça, Artur Santos, Ernesto Veiga de Oliveira, Michel Giacometti – que, calcorreando montanhas e vales, contribuíram de forma inestimável para a salvaguarda de muitos tesouros do nosso património tradicional. Mesmo sem as preocupações académicas da recolha etnomusicológica, porque esse não é o seu propósito – trata-se de um programa de rádio destinado ao público em geral e não (apenas) a especialistas – nem por isso o trabalho de Rafael Correia deixa de ter interesse científico, assumindo-se um documento de extraordinário valor antropológico. Refira-se a propósito que a contribuição de Rafael Correia para o enriquecimento do património fonográfico português na área da tradição oral é de tal monta que motivou o jornalista Adelino Gomes, nas páginas do "Público", a lançar um repto à anterior administração da Rádio e Televisão de Portugal para a edição discográfica do melhor desse inestimável acervo. Eu próprio me solidarizei com esse repto e escrevi, mais do que uma vez, à dita administração tentando sensibilizá-la para a importância dessa publicação, mas infelizmente a resposta foi o mutismo e a indiferença. Em todo o caso, e sem prejuízo da tal edição discográfica se vir ainda a concretizar, ela será sempre uma pequena amostra do imenso espólio à guarda do arquivo da RDP, pelo que se torna pertinente aproveitar as potencialidades da internet – cada vez mais a grande fonte de acesso ao conhecimento – colocado on-line todo esse material, de modo a torná-lo acessível a todos os interessados desde os ouvintes comuns aos estudiosos. Neste particular, não cometerei nenhum erro se disser que não vão passar muitos anos até que todo esse rico acervo (que tem especial incidência nas regiões a sul do Tejo, mas que contempla também o restante Portugal, continental e insular) se torne uma precioso filão de estudo e investigação para teses de mestrado e doutoramento nas áreas da antropologia e etnologia. No actual arquivo Multimédia apenas estão disponíveis as emissões dos últimos três meses, o que alegadamente acontece por limitações de armazenamento do sistema. Ora, nada impede que se crie uma página expressamente para o efeito, o que até poderia ser feito mediante protocolo com entidades com interesse na matéria: o já citado
IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (Universidade Nova de Lisboa), o Museu Nacional de Etnologia (Lisboa) e o Museu da Música Portuguesa (Cascais).
Ainda acerca do "Lugar ao Sul" e do seu emérito autor, tenho mais dois pontos para apresentar e que muito dizem ao seu vasto auditório. O primeiro prende-se com a questão pendente do tempo de antena actualmente reduzido a uma exígua hora emissão, o que sabe a pouco aos muitos ouvintes que se haviam habituado, desde longa data, às duas horas seguidas (só com um noticiário de permeio). Neste capítulo, há uma pergunta pertinente que se impõe: por que razão é que Rui Pêgo, ao retirar o "Lugar ao Sul" da Antena 2, no início de Março de 2008, não fez a devida compensação na Antena 1? É que nem seria necessário mexer noutros programas porque ao sábado, entre as 8 e as 9 horas, havia (e há) um buraco por preencher. Assim o programa retomaria as duas horas que sempre teve, o que viria ao encontro do desejo dos seus numerosos ouvintes, quer os que pertencem ao grupo de amigos que tenho a honra de animar, quer muitos outros que ainda não têm conhecimento da existência da nossa comunidade. É verdade que para alguns ouvintes (os menos madrugadores) seria um pouco cedo, mas havendo a possibilidade de o programa ser descarregado para audição num horário diferente (no computador ou noutro aparelho de leitura de áudio digital), do mal o menos. Porque Rafael Correia é único e nem nos próximos mil anos vai aparecer alguém que se lhe compare! Por isso, há que ter a inteligência e a lucidez de saber aproveitar a sua mestria enquanto ele tiver forças e saúde para nos ir proporcionado inolvidáveis momentos de rádio. De uma rádio com gente dentro! A propósito, não quero deixar de dar conta de uma inquietação que de mim se apoderou, na sequência de um rumor que me chegou aos ouvidos. E esse rumor diz que a administração da Rádio e Televisão de Portugal, por proposta de Rui Pêgo (que, como é sabido, nunca teve o programa em grande estima) se prepara para mandar Mestre Rafael Correia para a reforma, a pretexto da idade, sabendo-se que realizadores mais velhos continuam – e bem – a trabalhar na RDP, como é o caso de António Cartaxo (um profissional que também muito admiro). Será que tal rumor tem fundamento? É que se tiver, quero desde já manifestar o meu mais vivo repúdio por tal ideia e apelar a todos os órgãos de soberania e demais entidades competentes no sentido de chamarem a administração da RTP à razão e assim se evitar mais um grave atentado à cultura portuguesa. O Sr. Presidente da República, Prof. Aníbal Cavaco Silva, num dos seus discursos (creio que numa das suas "presidências de proximidade") fez questão de chamar a atenção para a relevante questão da preservação e promoção do património cultural imaterial como opção estratégica para o país. Então, e que outro programa da rádio e da televisão portuguesas mais tem feito nessa vertente que o "Lugar ao Sul"? Digo mais: o próprio programa – é lícito afirmá-lo – se tornou em si mesmo património imaterial que importa acautelar e defender a todo o custo.
Indo agora ao outro e último ponto, afigura-se oportuno lembrar que o "Lugar ao Sul" está prestes a perfazer 30 anos de existência, façanha que é digna de ser assinalada no nosso panorama radiofónico cada vez mais homogeneizado e dominado por modismos efémeros e produtos sem o menor substrato cultural. Atendendo às vicissitudes e aos obstáculos postos no seu caminho, e de algumas incompreensões de gente (ir)responsável, assume ainda maior pertinência louvar a persistência e abnegação desse andarilho algarvio de ir resgatando ao tempo e ao esquecimento o rico e diversificado legado da tradição oral portuguesa para o facultar a quem o desejar fruir. O país deve estar grato a Rafael Correia e a forma mais digna de lhe ser rendido o merecido reconhecimento público é a realização de uma homenagem nacional. E tal evento poderia muito bem realizar-se numa sala de espectáculos de Lisboa, talvez no Coliseu dos Recreios (a exemplo do que foi feito no ano passado com os cantores de intervenção sob o título "Vozes de Abril"). Nesse concerto de homenagem (filmado para posterior transmissão na RTP-1, RTP-Internacional, Antena 1 e RDP-Internacional), além dos grupos de música tradicional (com discos editados ou não) do apreço de Rafael Correia seriam também convidados alguns dos músicos (tocadores de concertina, harmónica, flauta, bandolim, etc.), cantadores e poetas populares a quem Rafael Correia tem dado voz no seu programa. Além de constituir uma justíssimo reconhecimento a um grande português, que tem prestado um inestimável serviço a Portugal e deliciado tantos e tantos portugueses, d’aquém e d’além fronteiras, tal evento teria ainda o mérito de ser uma proposta diferente no nosso panorama audiovisual. A rádio e televisão públicas – escusado será dizê-lo – existem (também) para isso. E se o Sr. Presidente da República entender por bem associar-se a tal homenagem e aproveitar a ocasião para condecorar Rafael Correia com uma ordem honorífica – a Ordem do Infante D. Henrique ou a Ordem de Mérito – escusado será dizer que seria um acto de elementar justiça que o Estado faria ao insigne cidadão, em nome do povo português, que muito lhe fica a dever.
Com os mais respeitosos cumprimentos,

Álvaro José Ferreira
Fundador e animador do Grupo de Amigos do LUGAR AO SUL
http://groups.google.com/group/lugar-ao-sul
http://www.myspace.com/lugaraosul

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